Após o sucesso da temporada As Filhas da Guerra, eu anunciei no AntiCast (meu podcast semanal) que estava procurando pessoas interessadas em produzir podcasts em formato storytelling. Como é um formato ainda pouco explorado no Brasil, eu tinha como objetivo selecionar e treinar pessoas que já tinham familiaridade com esse estilo graças ao contato com programas dos EUA. Gostar de escrever e contar histórias também era essencial. 

No final do período de inscrições, mais de 100 pessoas se mostraram interessadas. Foi então realizado um primeiro corte geral, baseado nas referências em podcasts storytelling que a pessoa tinha conhecimento. Os que sobraram receberam uma tarefa: narrar um texto de Paul Auster, retirado do livro Achei que Meu Pai Fosse Deus. Assim, eu poderia ver quem tinha ritmo de fala. Em outras palavras: ler um texto de forma natural, sem parecer que estava lendo. Tendo em vista que esse formato exige estabelecer uma relação visceral entre o ouvinte e o locutor, é fundamental que a narração soe o menos artificial possível. 

Entre todas essas etapas, eu enviava emails com dicas de leitura, de podcasts e alguns conceitos técnicos. Fizemos também algumas reuniões por Hangout, para que eu pudesse explicar algumas questões mais específicas e solucionar eventuais dúvidas. Todo esse processo de treinamento, que durou meses, foi profundamente influenciado por dois mestres do storytelling: Alex Blumberg (ex-This American Life / Planet Money e fundador da Gimlet Media), e professor do curso Power your Podcast with Storytelling; e Jessica Abel, quadrinista e podcaster, autora da HQ e Podcast Out On The Wire. O curso de Blumberg e as obras de Abel foram fundamentais para se estabelecer uma maneira mais técnica de analisarmos e produzirmos histórias em áudio.

Chegou então o dia que os candidatos tiveram que produzir suas próprias histórias. Para facilitar, estabeleci que deveriam produzir uma peça apenas com a pessoa falando, contando uma história e criando um clima narrativo. O mais importante era contar uma história interessante de um jeito que prendesse a atenção do ouvinte. Esse é um modelo bastante utilizado em podcasts como o This American Life, como pode-se perceber neste exemplo

Foi assim que nasceu a série de Crônicas, que acabou servindo como uma off-season do Projeto Humanos, entre a 1ª e a 2ª temporada. Muitas das histórias que foram publicadas foram bastante trabalhadas, sendo finalizadas apenas na sua 4ª ou 5ª versão. Outras saíram de primeira. Todas emocionaram e me encheram de orgulho. Foi um momento muito divertido do Projeto Humanos, e eu espero um dia ter tempo de repetir a experiência com outros amantes da arte de contar histórias. 


Ivan Mizanzuk é professor universitário de Curitiba-PR. É co-autor do livro Existe Design?, autor do romance de terror Até o Fim da Queda, idealizador dos podcasts AntiCast e Projeto Humanos. Já publicou alguns textos no portal B9, dá cursos de storytelling, já foi designer e hoje acha que é mais fácil ser chamado de jornalista (pelo menos até as pessoas saberem o que é um podcaster).