{"id":80,"date":"2023-10-23T00:05:00","date_gmt":"2023-10-23T03:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/?post_type=encyclopedia&#038;p=80"},"modified":"2023-12-01T07:09:15","modified_gmt":"2023-12-01T10:09:15","slug":"extras-episodio-01-preludio","status":"publish","type":"encyclopedia","link":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/extras-episodio-01-preludio\/","title":{"rendered":"0 &#8211; Extras Epis\u00f3dio 01 [Prel\u00fadio]"},"content":{"rendered":"\n<p>Desde 2015, o jornalista Ivan Mizanzuk vem investigando uma s&eacute;rie de casos que envolvem mortes e desaparecimentos de crian&ccedil;as no estado do Paran&aacute; na d&eacute;cada de 1990. Em 2018, ele lan&ccedil;ou a quarta temporada do podcast Projeto Humanos, intitulada <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/temporada\/o-caso-evandro\/\" target=\"_blank\">&ldquo;O Caso Evandro&rdquo;,<\/a> com parte da extensa pesquisa que realizou na &eacute;poca. Essa temporada se estendeu at&eacute; 2020 e, no ano seguinte, estreou na Globoplay uma s&eacute;rie audiovisual feita com base no podcast. A s&eacute;rie, dirigida por Aly Muritiba e Michelle Chevrand, e produzida pela Glaz Entretenimento, aumentou a repercuss&atilde;o desse trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb&eacute;m em 2021, Ivan Mizanzuk lan&ccedil;ou um livro sobre o caso. E, em 2022, foi ao ar a quinta temporada do Projeto Humanos, <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/temporada\/altamira\/\" target=\"_blank\">&ldquo;Altamira&rdquo;<\/a>, que &eacute;, de certa forma, uma continua&ccedil;&atilde;o do Caso Evandro. Como ambas as temporadas s&atilde;o longas, com mais de 30 epis&oacute;dios cada, esta pequena s&eacute;rie inicial far&aacute; um resumo do que &eacute; mais importante para entender toda essa hist&oacute;ria. Esta &eacute;, ent&atilde;o, a primeira parte do Prel&uacute;dio ao Caso <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a>, uma miniss&eacute;rie de cinco epis&oacute;dios que introduz a sexta temporada do podcast.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>OS MENINOS DESAPARECIDOS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde 2015, Ivan est&aacute; &agrave; procura de um assassino &ndash; ou assassinos, ou assassina. Tudo o que se sabe &eacute; o seguinte: em 1992, duas crian&ccedil;as desapareceram na cidade de Guaratuba, no litoral do Paran&aacute;. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a> sumiu no dia 15 de fevereiro. Ele era loiro, tinha olhos claros e estava prestes a completar oito anos de idade. Seus pais eram pobres. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/joao-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Pai de Leandro Bossi\" class=\"encyclopedia\">Jo&atilde;o Bossi<\/a> era pescador e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/paulina-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"M&atilde;e de Leandro Bossi\" class=\"encyclopedia\">Paulina Bossi<\/a> trabalhava como camareira em um hotel. A pol&iacute;cia nunca investigou o caso a fundo. Houve muita neglig&ecirc;ncia por parte das autoridades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dois meses depois, em 6 de abril de 1992, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/evandro-ramos-caetano\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida e encontrada morta em abril de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Evandro Ramos Caetano<\/a> desapareceu. Assim como Leandro, ele era loiro e tinha olhos claros. Mas era um pouco mais novo, com seis anos e meio de idade. Os pais de Evandro pertenciam &agrave; classe m&eacute;dia baixa, e ambos atuavam como funcion&aacute;rios da prefeitura. Na d&eacute;cada de 70, inclusive, um membro da fam&iacute;lia havia sido prefeito da cidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1992, aconteciam as elei&ccedil;&otilde;es municipais. Como os Caetano eram mais conhecidos, o desaparecimento de Evandro teve certa repercuss&atilde;o na imprensa e contou com buscas de populares. Logo que o menino sumiu, o ent&atilde;o prefeito de Guaratuba, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/aldo-abagge\/\" target=\"_self\" title=\"Prefeito de Guaratuba em 1992\" class=\"encyclopedia\">Aldo Abagge<\/a>, pediu para o delegado geral da Pol&iacute;cia Civil do Paran&aacute; a ajuda do Grupo Tigre &ndash; equipe de elite inspirada na SWAT americana, especializada em casos de sequestro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Evandro desapareceu numa segunda-feira e, no dia seguinte, o Tigre chegou na cidade. Em 11 de abril de 1992, no s&aacute;bado, o corpo do menino foi encontrado com uma s&eacute;rie de mutila&ccedil;&otilde;es: ele estava escalpelado, sem as m&atilde;os e os dedos dos p&eacute;s, com o ventre aberto e as costelas serradas. Tamb&eacute;m n&atilde;o possu&iacute;a nenhum dos &oacute;rg&atilde;os internos. O corpo estava em estado avan&ccedil;ado de putrefa&ccedil;&atilde;o, o que impedia a per&iacute;cia de fazer exames mais precisos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Devido &agrave; colora&ccedil;&atilde;o rosada dos dentes e a uma &aacute;rea de putrefa&ccedil;&atilde;o mais adiantada no pesco&ccedil;o, a conclus&atilde;o dos legistas foi de que Evandro teria sido morto por asfixia mec&acirc;nica, enquanto as outras les&otilde;es seriam p&oacute;s-morte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Laudo-de-Exame-de-Levantamento-de-Local-de-Achado-de-Cadaver.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Laudo de levantamento de local &ndash; Caso Evandro<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/10\/1992-04-12-Laudo-Exame-Necro%CC%81psia_compressed.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Laudo de necropsia &ndash; Caso Evandro<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Grupo Tigre investigou o crime por tr&ecirc;s meses, sem conseguir levantar nada de muito concreto. Ent&atilde;o, no in&iacute;cio de julho de 1992, o caso se transformou. Um parente do menino, chamado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/diogenes-caetano-dos-santos-filho\/\" target=\"_self\" title=\"Primo de Evandro Ramos Caetano\" class=\"encyclopedia\">Di&oacute;genes Caetano dos Santos Filho<\/a>, engenheiro e ex-policial civil, come&ccedil;ou a fazer uma investiga&ccedil;&atilde;o por conta pr&oacute;pria. Ele passou a suspeitar que a fam&iacute;lia do prefeito tinha algo a ver com a morte de Evandro. Di&oacute;genes acreditava que o garoto teria sido morto em um ritual de &ldquo;magia negra&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>H&aacute; poucos meses, havia se mudado para Guaratuba um pai de santo chamado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/osvaldo-marcineiro\/\" target=\"_self\" title=\"Pai de santo acusado pela morte de Evandro Ramos Caetano\" class=\"encyclopedia\">Osvaldo Marcineiro<\/a>. Ele era pr&oacute;ximo de uma das filhas do prefeito, chamada <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/beatriz-abagge\/\" target=\"_self\" title=\"Filha do prefeito de Guaratuba, foi uma das acusadas no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Beatriz Abagge<\/a>. Di&oacute;genes repassava essas informa&ccedil;&otilde;es para o Grupo Tigre, mas elas n&atilde;o iam adiante. A pr&oacute;pria delegada da &eacute;poca afirmou que as hist&oacute;rias vindas dele mais atrapalhavam do que ajudavam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Frustrado, Di&oacute;genes compartilhou as suas suspeitas com o Minist&eacute;rio P&uacute;blico do Paran&aacute; (MPPR). A partir da&iacute;, uma equipe de policiais militares, o Grupo &Aacute;guia, foi enviada para Guaratuba para resolver o caso. Em poucos dias, os PMs prenderam sete pessoas, entre elas o pai de santo, a filha e a esposa do prefeito. Alguns deles confessaram o assassinato de Evandro, que teria acontecido durante um ritual macabro. Os sete foram presos, acusados e julgados. Enquanto alguns foram absolvidos, outros acabaram condenados. Um deles, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/vicente-de-paula-ferreira\/\" target=\"_self\" title=\"Ajudante de Osvaldo Marcineiro, foi um dos acusados no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Vicente de Paula Ferreira<\/a>, morreu em 2011, enquanto estava preso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi com base nessas informa&ccedil;&otilde;es que Ivan Mizanzuk come&ccedil;ou o trabalho de pesquisa e investiga&ccedil;&atilde;o que resultou na quarta temporada do Projeto Humanos, &ldquo;O Caso Evandro&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>TORTURA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>V&aacute;rias coisas incomodavam Ivan nessa hist&oacute;ria. A principal delas era o fato dos acusados serem chamados pela imprensa de &ldquo;bruxos&rdquo;, &ldquo;satanistas&rdquo;, &ldquo;praticantes de magia negra&rdquo;, e por a&iacute; vai. Dois deles, Osvaldo e Vicente, faziam parte de religi&otilde;es de matriz africana. J&aacute; <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/celina-abagge\/\" target=\"_self\" title=\"Esposa do prefeito de Guaratuba em 1992, foi uma das acusadas no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Celina Abagge<\/a>, a esposa do prefeito, era conhecida na cidade por ser cat&oacute;lica fervorosa. Nenhum deles era satanista ou algo do tipo, seja l&aacute; o que isso signifique. A hist&oacute;ria constru&iacute;da pelo Grupo &Aacute;guia n&atilde;o fazia sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>As pr&oacute;prias confiss&otilde;es eram estranhas. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/osvaldo-marcineiro\/\" target=\"_self\" title=\"Pai de santo acusado pela morte de Evandro Ramos Caetano\" class=\"encyclopedia\">Osvaldo Marcineiro<\/a>, por exemplo, disse em certa ocasi&atilde;o que teria retirado os &oacute;rg&atilde;os genitais de Evandro. Mas o menino n&atilde;o estava emasculado. Outra contradi&ccedil;&atilde;o tinha a ver com a afirma&ccedil;&atilde;o dos acusados de que eles teriam cortado o pesco&ccedil;o da crian&ccedil;a. J&aacute; na &eacute;poca, o m&eacute;dico legista falou repetidas vezes que o corpo n&atilde;o apresentava nenhum corte nessa regi&atilde;o. Ou seja, as confiss&otilde;es, especialmente as gravadas em fitas de &aacute;udio e v&iacute;deo pela PM, n&atilde;o condiziam com o estado em que Evandro foi encontrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco tempo depois de admitirem o crime, os suspeitos passaram a dizer que tinham sido torturados e que, na verdade, eram inocentes. Enquanto isso, a PM do Paran&aacute; negava essa vers&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2015, Ivan Mizanzuk come&ccedil;ou a pesquisar essa hist&oacute;ria. Ele entrevistou os envolvidos e mergulhou nos autos do processo. Ap&oacute;s tr&ecirc;s anos de muito trabalho, finalmente a temporada foi ao ar. No in&iacute;cio de 2020, no <a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/o-caso-evandro\/25-sete-segundos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">epis&oacute;dio 25<\/a>, ele revelou algo que a PM havia escondido de todo mundo: as fitas gravadas durante as sess&otilde;es de tortura dos suspeitos, sem edi&ccedil;&otilde;es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nas grava&ccedil;&otilde;es, obtidas de uma fonte an&ocirc;nima, &eacute; poss&iacute;vel ouvir <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/osvaldo-marcineiro\/\" target=\"_self\" title=\"Pai de santo acusado pela morte de Evandro Ramos Caetano\" class=\"encyclopedia\">Osvaldo Marcineiro<\/a> assustado, ofegante, com dor. Em certo momento, ele diz que matou o menino sozinho, enforcando-o com um cinto.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, os policiais perguntam para Osvaldo quem escolheu e sequestrou a crian&ccedil;a. Ao responder que teria agido sozinho, os interrogadores insistem que ele n&atilde;o conhecia Evandro e o induzem a citar a filha do prefeito. Assim, ele passa a dizer que estava com <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/beatriz-abagge\/\" target=\"_self\" title=\"Filha do prefeito de Guaratuba, foi uma das acusadas no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Beatriz Abagge<\/a> na ocasi&atilde;o do crime. Depois, Osvaldo inclui na cena <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/celina-abagge\/\" target=\"_self\" title=\"Esposa do prefeito de Guaratuba em 1992, foi uma das acusadas no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Celina Abagge<\/a> e Vicente de Paula.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, at&eacute; ent&atilde;o, o pai de santo dizia que Evandro havia sido morto no matagal onde foi encontrado. Os policiais sabiam que isso n&atilde;o era verdade, pois a per&iacute;cia j&aacute; tinha descartado essa possibilidade. Al&eacute;m disso, o assassinato foi mais violento do que a primeira vers&atilde;o dada por Osvaldo. &Eacute; nesse ponto que os PMs o questionam como ele fazia o corte de frango para trabalhos espirituais. A clara inten&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;cia era ligar essa pr&aacute;tica ao modo como a crian&ccedil;a havia sido morta.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais adiante, o pai de santo passa a dizer que, junto com Beatriz, Celina e De Paula, matou Evandro com uma s&eacute;rie de cortes. Por fim, ele afirma que o grupo levou partes do corpo para a serraria do prefeito. Ou seja, a hist&oacute;ria agora n&atilde;o cita que a morte teria ocorrido no matagal.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira parte da sess&atilde;o de tortura de Osvaldo deve ter durado 12 horas, no m&iacute;nimo. Depois disso, Celina e Beatriz foram presas e tamb&eacute;m passaram por um interrogat&oacute;rio violento. Assim como o pai de santo, confessaram o que os policiais queriam, em meio &agrave;s agress&otilde;es. Em um trecho da fita descoberta por Ivan, &eacute; poss&iacute;vel ouvir Beatriz dizendo que &ldquo;est&aacute; inventando tudo&rdquo;. Logo em seguida, ela &eacute; repreendida pelos policiais.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas grava&ccedil;&otilde;es foram publicadas pelo Projeto Humanos em mar&ccedil;o de 2020. Houve alguma repercuss&atilde;o na imprensa, mas naquela mesma semana a Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Sa&uacute;de classificou a Covid-19 como uma pandemia. Com isso, os jornais passaram a falar de assuntos mais urgentes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco mais de um ano depois, em 2021, estreou na Globoplay a s&eacute;rie do Caso Evandro, baseada neste podcast. As novas fitas foram reveladas no 7&ordm; epis&oacute;dio, e a repercuss&atilde;o foi muito maior. Um dos telespectadores da s&eacute;rie foi o ent&atilde;o secret&aacute;rio de Justi&ccedil;a do Paran&aacute;, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/ney-leprevost\/\" target=\"_self\" title=\"Secret&aacute;rio de Justi&ccedil;a do Paran&aacute; em 2021\" class=\"encyclopedia\">Ney Leprevost<\/a>. Em julho, em uma coletiva de imprensa, ele anunciou que abriria um grupo de trabalho para averiguar as irregularidades do caso.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Os sete acusados alegam que houve tortura. Apareceram fitas novas. Eu acredito nas fitas. Entendo que a Secretaria de Justi&ccedil;a deve lutar pelos direitos humanos da maneira que pode. N&atilde;o podemos conduzir investiga&ccedil;&atilde;o. S&oacute; a pol&iacute;cia pode fazer isso. Mas podemos elencar todos os erros para que eles n&atilde;o se repitam&rdquo;, disse o secret&aacute;rio na ocasi&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>GRUPO DE TRABALHO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Grupo de Trabalho sobre o Caso Evandro ocorreu no segundo semestre de 2021. Na &eacute;poca, Ivan Mizanzuk participou da iniciativa, com um relato espont&acirc;neo sobre a pesquisa e investiga&ccedil;&atilde;o que conduziu. Nas reuni&otilde;es seguintes, tamb&eacute;m falaram advogados, representantes de religi&otilde;es de matriz africana, jornalistas, delegados e familiares de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a>. Nenhum membro da fam&iacute;lia de Evandro quis participar. Apesar disso, quem assumiu o papel de falar por eles foi o doutor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/paulo-markowicz\/\" target=\"_self\" title=\"Promotor que atuou nos &uacute;ltimos j&uacute;ris do caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Paulo Markowicz<\/a>, promotor respons&aacute;vel pelas acusa&ccedil;&otilde;es contra os r&eacute;us nos &uacute;ltimos j&uacute;ris.<\/p>\n\n\n\n<p>O relat&oacute;rio final do Grupo de Trabalho do Caso Evandro, produzido em dezembro de 2021, elencou uma s&eacute;rie de recomenda&ccedil;&otilde;es sobre como o Estado pode investigar den&uacute;ncias de tortura e agilizar o trabalho nos casos de pessoas desaparecidas. No in&iacute;cio de 2022, o Estado do Paran&aacute; emitiu cartas com pedidos de desculpas para v&aacute;rias pessoas. Entre elas, os acusados que foram torturados e membros das fam&iacute;lias de Leandro e Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre esses pedidos de desculpas, especialmente os enviados aos acusados, o Minist&eacute;rio P&uacute;blico do Paran&aacute; se pronunciou por meio de nota p&uacute;blica. Um trecho dela diz o seguinte:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>A respeito das recentes manifesta&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas relacionadas ao relat&oacute;rio elaborado pelo Grupo de Trabalho &lsquo;Caso Evandro &ndash; Apontamentos para o Futuro&rsquo;, o Minist&eacute;rio P&uacute;blico do Paran&aacute; esclarece que n&atilde;o foram identificados, no referido documento, elementos probat&oacute;rios que evidenciassem a pr&aacute;tica de qualquer ilicitude por parte dos integrantes da Institui&ccedil;&atilde;o que atuaram na persecu&ccedil;&atilde;o penal que conduziu &agrave; condena&ccedil;&atilde;o de alguns dos r&eacute;us indicados na den&uacute;ncia criminal.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/mppr.mp.br\/Noticia\/NOTA-PUBLICA-Caso-Evandro\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Nota p&uacute;blica &ndash; MPPR<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista ao G1 Paran&aacute;, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/beatriz-abagge\/\" target=\"_self\" title=\"Filha do prefeito de Guaratuba, foi uma das acusadas no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Beatriz Abagge<\/a>, uma das acusadas, considerou o pedido de desculpas um marco hist&oacute;rico. &ldquo;O MP precisa parar de agir como acusador, ele tem que agir como defensor do povo, de n&oacute;s. Afinal de contas, a prova da tortura est&aacute; a&iacute; para todos verem&rdquo;, afirmou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pr\/parana\/noticia\/2022\/01\/15\/caso-evandro-marco-historico-diz-beatriz-abagge-sobre-carta-do-governo-do-parana-com-pedido-de-perdao-por-torturas.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mat&eacute;ria do G1 &ndash; Caso Evandro: &lsquo;Marco hist&oacute;rico&rsquo;, diz Beatriz Abagge sobre carta do Governo do Paran&aacute; com pedido de perd&atilde;o por &lsquo;torturas&rsquo;<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, h&aacute; uma quest&atilde;o jur&iacute;dica aqui. O Estado do Paran&aacute;, na figura da Secretaria de Justi&ccedil;a, reconheceu a pr&aacute;tica da tortura e pediu desculpas aos acusados. Mas a Secretaria n&atilde;o faz parte do poder judici&aacute;rio, respons&aacute;vel pela condena&ccedil;&atilde;o de Beatriz e de outros acusados. Logo, o pedido de desculpas &eacute; muito mais simb&oacute;lico do que efetivo. O Minist&eacute;rio P&uacute;blico, por sua vez, negou as acusa&ccedil;&otilde;es de tortura e afirmou que o processo ocorreu dentro da legalidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para al&eacute;m desse impasse, h&aacute; outro problema. A fam&iacute;lia de Evandro n&atilde;o acredita na inoc&ecirc;ncia dos acusados. Por isso, eles n&atilde;o aceitaram o pedido de desculpas do Estado. Isso ficou claro quando <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/diogenes-caetano-dos-santos-filho\/\" target=\"_self\" title=\"Primo de Evandro Ramos Caetano\" class=\"encyclopedia\">Di&oacute;genes Caetano dos Santos Filho<\/a>s concedeu uma entrevista ao portal aRede, de Ponta Grossa, em 25 de janeiro de 2022. Na ocasi&atilde;o, ele disse que o secret&aacute;rio <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/ney-leprevost\/\" target=\"_self\" title=\"Secret&aacute;rio de Justi&ccedil;a do Paran&aacute; em 2021\" class=\"encyclopedia\">Ney Leprevost<\/a> envergonhou o Paran&aacute; ao tentar desfazer o trabalho da justi&ccedil;a e do Minist&eacute;rio P&uacute;blico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/m.facebook.com\/aredeinfo\/videos\/caso-evandro\/484574469947143\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Entrevista de Di&oacute;genes Caetano ao portal aRede&nbsp;<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>REVIS&Atilde;O CRIMINAL<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, o pedido de desculpas deu maior for&ccedil;a para que os acusados pedissem a revis&atilde;o criminal do processo no final de 2021, ap&oacute;s meses de preparo e estudo. Quem entrou com a a&ccedil;&atilde;o no Tribunal de Justi&ccedil;a do Paran&aacute; foi o escrit&oacute;rio do doutor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/antonio-figueiredo-basto\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado de defesa dos acusados no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Antonio Figueiredo Basto<\/a>. Ele representou todos os condenados que ainda est&atilde;o vivos: <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/osvaldo-marcineiro\/\" target=\"_self\" title=\"Pai de santo acusado pela morte de Evandro Ramos Caetano\" class=\"encyclopedia\">Osvaldo Marcineiro<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/davi-dos-santos-soares\/\" target=\"_self\" title=\"Artes&atilde;o de Guaratuba, foi um dos acusados no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Davi dos Santos Soares<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/beatriz-abagge\/\" target=\"_self\" title=\"Filha do prefeito de Guaratuba, foi uma das acusadas no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Beatriz Abagge<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse pedido, os advogados anexaram um laudo pericial com a an&aacute;lise das novas fitas descobertas pelo Projeto Humanos. Eles requisitaram que o documento fosse realizado pela mesma pessoa que havia analisado a fita oficial do processo em 1999, a pedido do Minist&eacute;rio P&uacute;blico. Na conclus&atilde;o, o perito <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/antonio-morant-braid\/\" target=\"_self\" title=\"Perito de fon&eacute;tica forense que analisou as fitas de confiss&atilde;o\" class=\"encyclopedia\">Ant&ocirc;nio Morant Braid<\/a> afirmou que as novas fitas s&atilde;o aut&ecirc;nticas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, mais de um ano depois, o pedido de revis&atilde;o criminal come&ccedil;ou a andar. Figueiredo Basto e equipe queriam que os recursos de Osvaldo, Davi e Beatriz fossem julgados juntos na 1&ordf; C&acirc;mara Criminal do Tribunal de Justi&ccedil;a do Paran&aacute;. Mas o TJ decidiu pela divis&atilde;o dos casos em dois grupos: o de Beatriz seria um, o de Osvaldo e Davi seria outro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 16 de mar&ccedil;o de 2023, ocorreu o primeiro julgamento, o de Beatriz. E, em mais um rev&eacute;s para a equipe de Basto, a an&aacute;lise do recurso aconteceu na 2&ordf; C&acirc;mara. Na ocasi&atilde;o, o pedido de revis&atilde;o criminal foi negado por tr&ecirc;s votos a dois. A maioria dos desembargadores entendeu que as novas fitas n&atilde;o poderiam ser aceitas como prova antes de passarem por uma comprova&ccedil;&atilde;o judicial. Ou seja, eles n&atilde;o aceitaram a per&iacute;cia feita a pedido de Basto, mesmo que o perito respons&aacute;vel j&aacute; tivesse atuado pela acusa&ccedil;&atilde;o anos antes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cinco meses depois, em 25 de agosto de 2023, chegou a vez do julgamento da revis&atilde;o criminal de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/osvaldo-marcineiro\/\" target=\"_self\" title=\"Pai de santo acusado pela morte de Evandro Ramos Caetano\" class=\"encyclopedia\">Osvaldo Marcineiro<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/davi-dos-santos-soares\/\" target=\"_self\" title=\"Artes&atilde;o de Guaratuba, foi um dos acusados no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Davi dos Santos Soares<\/a>. Agora, ele ocorreria na 1&ordf; C&acirc;mara, como os advogados pediram originalmente para todos. No voto, o relator, o desembargador <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/miguel-kfouri-neto\/\" target=\"_self\" title=\"Desembargador do Tribunal de Justi&ccedil;a do Paran&aacute;\" class=\"encyclopedia\">Miguel Kfouri Neto<\/a>, refor&ccedil;ou a mesma opini&atilde;o da maioria no julgamento de Beatriz, meses antes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S&oacute; que o relator foi voto vencido. Por tr&ecirc;s a dois, a 1&ordf; C&acirc;mara Criminal do Tribunal de Justi&ccedil;a do Paran&aacute; aceitou que as fitas poderiam ser usadas como provas para a revis&atilde;o criminal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a maioria de votos ficou estabelecida, o desembargador <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/adalberto-jorge-xisto-pereira\/\" target=\"_self\" title=\"Desembargador do Tribunal de Justi&ccedil;a do Paran&aacute;\" class=\"encyclopedia\">Adalberto Jorge Xisto Pereira<\/a> levantou o seguinte ponto: n&atilde;o fazia sentido julgar apenas a revis&atilde;o de Osvaldo e Davi, se o caso de Beatriz era o mesmo. Por causa disso, os desembargadores decidiram adiar o julgamento para avaliar como a revis&atilde;o avan&ccedil;aria, e tamb&eacute;m se o pedido de Beatriz seria inclu&iacute;do nessa sess&atilde;o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O novo julgamento do TJ do Paran&aacute; dever&aacute; ocorrer em novembro deste ano. Mas uma coisa j&aacute; &eacute; fato: as novas fitas mudaram o entendimento de todo o caso. E elas tamb&eacute;m s&atilde;o importantes para compreendermos o caso <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a>, e todas as neglig&ecirc;ncias presentes nessa hist&oacute;ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Novos julgamentos<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":26,"template":"","encyclopedia-category":[6],"encyclopedia-tag":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia\/80"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/encyclopedia"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80"}],"wp:term":[{"taxonomy":"encyclopedia-category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-category?post=80"},{"taxonomy":"encyclopedia-tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-tag?post=80"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}