{"id":401,"date":"2023-12-12T00:05:00","date_gmt":"2023-12-12T03:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/?post_type=encyclopedia&#038;p=401"},"modified":"2023-12-12T12:06:47","modified_gmt":"2023-12-12T15:06:47","slug":"extras-episodio-07","status":"publish","type":"encyclopedia","link":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/extras-episodio-07\/","title":{"rendered":"Extras Epis\u00f3dio 07"},"content":{"rendered":"\n<p>Em toda investiga&ccedil;&atilde;o criminal, o ideal &eacute; que, em seu in&iacute;cio, sempre tente-se juntar o m&aacute;ximo de pistas. Em seguida, a partir dessas pistas, busca-se um suspeito que se encaixe nelas. Mas existe um erro bastante comum em v&aacute;rios casos de investiga&ccedil;&otilde;es policiais, que &eacute; quando se inverte essa l&oacute;gica. Em outras palavras, parte-se de um suspeito e, a partir dele, busca-se encaixar qualquer pista que reforce uma convic&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas &uacute;ltimas temporadas do Projeto Humanos, Ivan Mizanzuk mostrou uma s&eacute;rie de inocentes que foram acusados, presos e condenados por conta de erros metodol&oacute;gicos assim.<\/p>\n\n\n\n<p>O que fazer quando se trata de crimes muito antigos, marcados por tantos equ&iacute;vocos? Como fazer para focar naquilo que realmente importa? N&atilde;o existe resposta f&aacute;cil. A maior parte das informa&ccedil;&otilde;es da &eacute;poca j&aacute; se perdeu. O m&aacute;ximo que se pode fazer &eacute; olhar para o material produzido no per&iacute;odo e voltar para o b&aacute;sico. E o b&aacute;sico &eacute;: h&aacute; corpos e h&aacute; locais. Essa tem que ser a base de tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso que &eacute; preciso discutir tanto sobre os corpos das crian&ccedil;as, especialmente de Evandro. E, a partir da&iacute;, &eacute; poss&iacute;vel tentar montar as pe&ccedil;as que est&atilde;o espalhadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse epis&oacute;dio, o pen&uacute;ltimo dessa temporada, Ivan encerra de uma vez por todas o que &eacute; poss&iacute;vel saber sobre esses elementos, e tamb&eacute;m quais as possibilidades que n&atilde;o pode descartar. Pois, se est&aacute; &agrave; procura de um assassino em s&eacute;rie, precisa antes de tudo ter certeza de que ele existe &ndash; ou seja, de que os casos de Sandra, Leandro e Evandro est&atilde;o conectados. Esse &eacute; o cen&aacute;rio ideal.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, se for confirmada essa possibilidade, &eacute; necess&aacute;rio olhar para as pistas que o assassino deixou e tentar entender o modus operandi. S&oacute; ent&atilde;o &eacute; que se pode come&ccedil;ar a pensar em suspeitos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>REVISANDO O CASO EVANDRO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Depois de esclarecer maiores detalhes sobre o corpo de Evandro, tanto sobre o local quanto a natureza das les&otilde;es, Ivan sentia que precisava de uma vis&atilde;o externa. De algu&eacute;m que pudesse olhar para o caso sem as press&otilde;es da &eacute;poca. E que, ainda, pudesse tentar analis&aacute;-lo em compara&ccedil;&atilde;o com os crimes contra Leandro e Sandra.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap&oacute;s meses de procura por um m&eacute;dico legista qualificado suficiente que tivesse disponibilidade, Ivan e a jornalista Natalia Filippin encontraram o Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/sami-el-jundi\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico legista consultado pelo Projeto Humanos\" class=\"encyclopedia\">Sami El Jundi<\/a>. Abaixo, a apresenta&ccedil;&atilde;o dele ao podcast:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Sou m&eacute;dico de forma&ccedil;&atilde;o, fui perito m&eacute;dico legista do Instituto Geral de Per&iacute;cias do Rio Grande do Sul durante cinco anos, e perito criminal durante quase 12 anos. Trabalhei dois anos como perito do Alto Comissariado das Na&ccedil;&otilde;es Unidas pelos direitos humanos no Congo; e atualmente me mantenho como consultor, assessor t&eacute;cnico, na &aacute;rea pericial e como professor concursado que sou, da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, justamente na &aacute;rea de criminal&iacute;stica e medicina legal. Tenho algumas forma&ccedil;&otilde;es acad&ecirc;micas na &aacute;rea, o t&iacute;tulo de especialista em medicina legal, fiz mestrado em medicina forense na Universidade de Val&ecirc;ncia. Tenho uma p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em toxicologia forense, e tenho me mantido a&iacute; ativo permanente, sem interrup&ccedil;&otilde;es, na &aacute;rea pericial pelo menos desde 2007.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ivan e Natalia fizeram duas reuni&otilde;es online com o Dr. Sami, discutindo os tr&ecirc;s casos. Antes dos encontros, enviaram para ele um documento contando um breve hist&oacute;rico dos crimes, anexaram todos os laudos dispon&iacute;veis e fizeram uma lista de mais de 40 perguntas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Laudo-de-Exame-de-Levantamento-de-Local-de-Achado-de-Cadaver.pdf\" target=\"_blank\">Laudo de local do corpo de Evandro<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Laudo-Necropsia.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Laudo de necropsia de Evandro<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>No geral, eles tinham duas propostas: primeiro, que ele se baseasse apenas nos documentos oficiais da &eacute;poca em que foram feitos, sem recorrer a depoimentos em j&uacute;ri, mat&eacute;rias de jornais etc. &Eacute; claro que, eventualmente, surgiram coment&aacute;rios sobre essas quest&otilde;es extras, visto a quantidade de reinterpreta&ccedil;&otilde;es que o caso Evandro em especial sofreu com o decorrer dos anos. Ainda assim, a diretriz principal era de se manter fiel ao que os laudos em si diziam, partindo do princ&iacute;pio de que eles seriam as fontes de informa&ccedil;&atilde;o mais confi&aacute;veis.<\/p>\n\n\n\n<p>E a segunda proposta era de que o Dr. Sami pudesse responder &agrave; pergunta principal: ser&aacute; que existem elementos concretos que permitam afirmar que as tr&ecirc;s crian&ccedil;as foram v&iacute;timas do mesmo assassino?<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso em mente, eles come&ccedil;aram a primeira reuni&atilde;o pelo caso mais not&oacute;rio, complexo e completo de registros: o de Evandro. Conforme dito nos &uacute;ltimos epis&oacute;dios, muito se discutia se as les&otilde;es que ele apresentava poderiam ser de a&ccedil;&atilde;o animal, da natureza ou humana. A aus&ecirc;ncia dos olhos, por exemplo, muito provavelmente se deu pela a&ccedil;&atilde;o de animais e da putrefa&ccedil;&atilde;o &ndash; opini&atilde;o compartilhada pelo pr&oacute;prio Dr. Sami. Mas uma das les&otilde;es que mais traziam d&uacute;vidas era o aparente escalpe. <\/p>\n\n\n\n<p>Confira a an&aacute;lise do m&eacute;dico sobre esse ponto em espec&iacute;fico: <\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Se n&oacute;s analisarmos o que est&aacute; registrado pelo perito criminal no laudo de local, pelo laudo de necropsia, e as fotografias, n&atilde;o tem ali naquele corpo absolutamente nada que indique que o cad&aacute;ver foi escalpelado. O que n&oacute;s temos &eacute; uma aus&ecirc;ncia de couro cabeludo. A aus&ecirc;ncia de couro cabeludo pode se dever a v&aacute;rias coisas. Uma aus&ecirc;ncia de couro cabeludo que os legistas descrevem em determinados momentos como &ldquo;n&atilde;o havendo les&otilde;es do peri&oacute;steo&rdquo;, ou, ent&atilde;o, daquela estrutura que recobre o osso e que fica entre o couro cabeludo e o osso. A partir da&iacute;, deduzem que esse couro cabeludo teria sido arrancado, teria sido retirado. Mas os pr&oacute;prios peritos descrevem os bordos do que restou de tecido facial. Ent&atilde;o, por exemplo, h&aacute; um n&iacute;vel de separa&ccedil;&atilde;o entre a aus&ecirc;ncia de pele e a presen&ccedil;a de pele que se d&aacute; mais ou menos um pouco abaixo da sobrancelha, do n&iacute;vel da sobrancelha &ndash; para ficar mais f&aacute;cil para as pessoas se localizarem -, que, apesar de uma apar&ecirc;ncia de regularidade, se n&oacute;s olharmos de perto, os bordos s&atilde;o irregulares, e est&aacute; em estado de putrefa&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o, objetivamente, o que h&aacute; para indicar um escalpelamento? Nada. Existe a aus&ecirc;ncia do couro cabeludo. Essa aus&ecirc;ncia de couro cabeludo, ent&atilde;o, por dedu&ccedil;&atilde;o, num exerc&iacute;cio interpretativo, poderia ser produzida por v&aacute;rias coisas. Uma delas &eacute; o escalpelamento. Poderia ser, &eacute; uma hip&oacute;tese. A outra &eacute; a hip&oacute;tese de que tenha sido produzida pela a&ccedil;&atilde;o de animais. A&iacute; a gente tem que considerar a a&ccedil;&atilde;o de animais n&atilde;o apenas como aquela a&ccedil;&atilde;o que n&oacute;s pensamos, que vem um cachorro, que vem um gato, que vem um roedor e morde. A a&ccedil;&atilde;o de animais&hellip; Quem j&aacute; pegou locais de crime com animais atuando sobre o corpo humano&hellip; A gente v&ecirc; de tudo. Por exemplo, eu j&aacute; vi destrui&ccedil;&atilde;o de les&atilde;o inicial muito ampliada por lambedura de gato. Gato n&atilde;o morde, n&atilde;o arranca peda&ccedil;os, ele apenas fica lambendo os bordos. E o que a gente tinha, que era, por exemplo, uma marca de tiro, com os bordos caracter&iacute;sticos do tiro, est&aacute; ampliada, bastante ampliada; e a gente vai descobrir que &eacute; um tiro porque examinou internamente. Mas a pele est&aacute; bastante ampliada com os bordos arredondados e com uma certa regularidade. Por qu&ecirc;? Porque o gato vai destruindo os bordos com a l&iacute;ngua. Ent&atilde;o, quando n&oacute;s pensamos em fauna, a gente tem que pensar em toda a diversidade da fauna, p&aacute;ssaros, felinos, roedores, e como eles podem agir sobre o corpo. O que n&oacute;s sabemos, tanto da literatura quanto da pr&aacute;tica envolvendo corpos expostos &agrave; a&ccedil;&atilde;o da fauna, &eacute; que a fauna tem algumas predile&ccedil;&otilde;es, ela &eacute; vari&aacute;vel de acordo com a regi&atilde;o onde o corpo est&aacute;. Ent&atilde;o, n&atilde;o &eacute; a mesma coisa um corpo fechado numa casa que tem s&oacute; gatos, com um corpo fechado numa casa que tem gatos e cachorros, com um corpo em espa&ccedil;o aberto que tem determinado tipo de fauna na localidade. E essa fauna tem algumas predile&ccedil;&otilde;es. Ela pode come&ccedil;ar por onde tem sangue, ela pode come&ccedil;ar&hellip; As aves gostam muito disso&hellip; Come&ccedil;ar por tecidos mais macios. Ent&atilde;o, &eacute; muito comum que a gente pegue aves que v&atilde;o testando com as garras os tecidos e t&ecirc;m prefer&ecirc;ncia por axilas, que t&ecirc;m o tecido bem macio, l&aacute;bios, p&aacute;lpebras, e deixam o resto &iacute;ntegro para o final, para os predadores maiores; ou que comecem por onde est&atilde;o os primeiros sinais de putrefa&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o, uma das coisas que se observa no corpo do Evandro &eacute; que ele tem diferentes est&aacute;gios de putrefa&ccedil;&atilde;o em diferentes partes do corpo, o que eu diria que &eacute; extremamente comum, porque depende de circunst&acirc;ncias microambientais e n&atilde;o macroambientais. Elas n&atilde;o dependem daquilo que age sobre todo o corpo, mas daquilo que age sobre cada parte do corpo. N&atilde;o &eacute; a mesma coisa a pele que est&aacute; exposta ao sol, por exemplo, da pele que, 10 cent&iacute;metros abaixo ou atr&aacute;s, est&aacute; encostada no solo &uacute;mido. Elas v&atilde;o apodrecer de maneira diferente. Isso vai permitir que diferentes componentes da fauna atuem sobre diferentes partes. O que aparece no corpo do Evandro &eacute; que os legistas identificam uma &aacute;rea de putrefa&ccedil;&atilde;o um tanto mais acentuada na nuca, que pode decorrer justamente da posi&ccedil;&atilde;o em que o corpo se encontra, e a nuca est&aacute; encostada no solo, e isso pode se refletir sobre o cr&acirc;nio e produzir interesse por um determinado tipo de fauna local que se inicie por essa &aacute;rea. Ent&atilde;o, eu diria assim, o que n&oacute;s temos de concreto? A aus&ecirc;ncia do couro cabeludo. Os bordos nada informam porque eles est&atilde;o alterados em estado de putrefa&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o s&atilde;o regulares de corte. Ent&atilde;o, podemos hipotetizar um escalpelamento? Eu diria que &eacute; uma hip&oacute;tese v&aacute;lida do ponto de vista te&oacute;rico, mas consideradas as circunst&acirc;ncias ambientais e o estado do resto do corpo, n&atilde;o seria definitivamente a minha primeira hip&oacute;tese. A minha primeira hip&oacute;tese &eacute; a de a&ccedil;&atilde;o&hellip; Que foi a mesma dos legistas no laudo de necropsia feito no dia 12 de abril de 1992, de que era a&ccedil;&atilde;o da fauna local.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nesses anos investigando o caso Evandro, Ivan j&aacute; havia ouvido uma ou outra pessoa falando que n&atilde;o poderia ser descartada a possibilidade de a&ccedil;&atilde;o animal &ndash; interpreta&ccedil;&atilde;o esta que, importante lembrar, &eacute; contr&aacute;ria &agrave;quela do Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/francisco-moraes-e-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Chefe do IML de Curitiba na d&eacute;cada de 1990\" class=\"encyclopedia\">Francisco Moraes e Silva<\/a>, o legista que examinou o corpo de Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p>E, dessa vez, Ivan estava propenso a considerar melhor essa possibilidade. N&atilde;o apenas porque estava interessado em saber todas as condi&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis, mas tamb&eacute;m porque j&aacute; havia visto um evento similar no caso dos meninos emasculados de Altamira. Especificamente, o garoto <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/klebson-ferreira-caldas\/\" target=\"_self\" title=\"Uma das v&iacute;timas do caso dos meninos emasculados de Altamira\" class=\"encyclopedia\">Klebson Ferreira Caldas<\/a>, morto em novembro de 1992. Ap&oacute;s poucos dias na mata, seu cr&acirc;nio j&aacute; estava &agrave; mostra, sem nenhuma pele, e isso teria sido por a&ccedil;&atilde;o da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que a fauna e flora de Guaratuba s&atilde;o diferentes de Altamira, que fica no meio da floresta amaz&ocirc;nica. Mas, ainda assim, todas as possibilidades estavam abertas. S&oacute; que, diferente de Klebson, de Altamira, Evandro ainda tinha pele no rosto. Pelas fotos, aparentava estar apenas sem o couro cabeludo. E tamb&eacute;m sem as orelhas.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Essa retirada do couro cabeludo envolve tamb&eacute;m retirar as orelhas? Que a gente n&atilde;o v&ecirc; as orelhas ali nele tamb&eacute;m. Ent&atilde;o seria a mesma a&ccedil;&atilde;o? Ou podem ser a&ccedil;&otilde;es separadas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Digamos que&hellip; Vamos explorar um pouquinho a hip&oacute;tese do escalpelamento, que envolveria as orelhas. A grande quest&atilde;o do escalpelamento &eacute;: qual &eacute; o prop&oacute;sito de quem pratica o ato? Qual o prop&oacute;sito de quem pratica o ato? N&atilde;o faz parte da nossa cultura, n&atilde;o h&aacute; nenhum elemento ritual&iacute;stico, que eu conhe&ccedil;a, pelo menos, que envolva o escalpelamento. Os escalpos, como n&oacute;s conhecemos do cinema, muito utilizados por Hollywood para explorar o que seria uma pr&aacute;tica ind&iacute;gena, de algumas tribos ind&iacute;genas nos Estados Unidos da Am&eacute;rica, n&atilde;o eram bem assim. O escalpo, na verdade, come&ccedil;ou a ser praticado pelos colonos brancos como forma de provar que haviam matado ind&iacute;genas. Ent&atilde;o, a entrega do escalpo gerava uma remunera&ccedil;&atilde;o em troca de matar os ind&iacute;genas. E os ind&iacute;genas passam a escalpelar, aprendendo com os colonizadores, e reproduzindo, ent&atilde;o, a pr&aacute;tica do seu agressor. Ent&atilde;o, sequer faz parte de uma cultura espec&iacute;fica. O escalpelamento, nessa &eacute;poca, era uma forma de n&atilde;o ter que carregar o corpo para poder cobrar a recompensa por ter matado um ind&iacute;gena. Ent&atilde;o, eles carregavam o escalpo e podiam carregar v&aacute;rios escalpos e receber pr&ecirc;mios maiores por um custo menor. Era um problema log&iacute;stico, sabe? N&atilde;o era uma quest&atilde;o cultural, ritual&iacute;stica. Era uma quest&atilde;o log&iacute;stica. Ent&atilde;o, qual &eacute; a motiva&ccedil;&atilde;o de quem retira o escalpo? Essa seria a primeira pergunta. Com que prop&oacute;sito? Com o prop&oacute;sito de guardar um trof&eacute;u? Com o prop&oacute;sito de dificultar a identifica&ccedil;&atilde;o, que foi o que se cogitou em v&aacute;rios momentos? Bom, mas qual &eacute; o componente de identifica&ccedil;&atilde;o presente no couro cabeludo que seria relevante mesmo para um leigo? Ocultar que a crian&ccedil;a tem cabelos loiros? Olha, convenhamos, nessa regi&atilde;o, n&oacute;s estamos falando de mais de 90% da popula&ccedil;&atilde;o local. Ent&atilde;o, o prop&oacute;sito em si seria estranho at&eacute; mesmo a um leigo. O prop&oacute;sito ritual&iacute;stico tamb&eacute;m me parece que n&atilde;o encontra nenhum amparo em nenhum ritual conhecido. As orelhas teriam que entrar nesse contexto. Quer dizer, qual &eacute; o prop&oacute;sito de algu&eacute;m retirar couro cabeludo com orelhas? Fazer o que com as orelhas? Entretanto, para os animais, n&atilde;o faz diferen&ccedil;a. Se a putrefa&ccedil;&atilde;o se inicia, por qualquer motivo, &eacute; uma &aacute;rea&hellip; Torna aquela &aacute;rea mais acess&iacute;vel para insetos necr&oacute;fagos e depois para predadores de pequeno porte, eles podem come&ccedil;ar por a&iacute;; e a orelha &eacute; parte do manjar, ent&atilde;o faz algum sentido que as orelhas&hellip; Para mim, faz muito mais sentido que as orelhas tivessem ido junto com essa dieta local do que terem feito parte de qualquer outra coisa. Ainda que a gente possa recolher da literatura especializada o uso das orelhas para a identifica&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o era definitivamente a primeira escolha. O que tamb&eacute;m para mim fala o contr&aacute;rio &agrave; hip&oacute;tese do escalpelamento.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas s&oacute; para bater com o senhor, porque eu quero verificar isso, t&aacute;? O que eu fico pensando &eacute; na possibilidade de a gente ter um ofensor que tenha algum del&iacute;rio, em que esse &eacute; um ritual pr&oacute;prio dele, e que ele prefira&hellip; Por algum motivo, ele faz isso. Igual o Chagas l&aacute; no Norte, no Maranh&atilde;o, fazia as emascula&ccedil;&otilde;es, e &agrave;s vezes tirava um dedo. N&atilde;o faz sentido dentro do rol de crimes comuns que a gente conhece, mas existe o ritual pr&oacute;prio do cara. Assim, existiram elementos ou n&atilde;o? Descarta isso aqui logo? A chance muito maior &eacute; de a&ccedil;&atilde;o animal mesmo? A gente tem que largar essa parte do escalpelamento como alguma coisa que a gente tem que ficar olhando?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Pegando esse teu mesmo racioc&iacute;nio, se ele faz sentido do ponto de vista do fetiche do agressor, do fetiche do agressor, o problema do fetiche do agressor &eacute; que ele s&oacute; faz sentido para ele mesmo. Ent&atilde;o, se para o agressor faz sentido s&oacute; o couro cabeludo, ele vai recolher o couro cabeludo, ainda que, realmente, a gente tenha dificuldade de vislumbrar&hellip; N&oacute;s temos hist&oacute;ricos, por exemplo, de agressores guardando as orelhas da v&iacute;tima. Mas n&atilde;o as orelhas e o couro cabeludo. Eu diria: n&atilde;o &eacute; imposs&iacute;vel, mas faz pouco sentido. Seria muito mais prov&aacute;vel, ent&atilde;o, a gente pensar em um agressor que eventualmente retirou as orelhas da v&iacute;tima e as guardou como trof&eacute;u, e que o couro cabeludo tenha ent&atilde;o sido perdido pela a&ccedil;&atilde;o de animais. Isso faria muito mais sentido para mim do que algu&eacute;m que retirasse couro cabeludo e orelhas para ter esse conjunto como trof&eacute;u. Entre outras coisas, porque isso tamb&eacute;m gera alguns problemas de log&iacute;stica para quem armazena tudo isso. A mente humana nos permite v&aacute;rias possibilidades. Ou seja, nada me surpreende quando a gente fala de comportamento humano. Absolutamente nada. N&oacute;s temos desde colecionadores de cabe&ccedil;as at&eacute; colecionadores de pe&ccedil;as, de dentes, de nariz, de orelhas, de olhos. Temos colecionadores de tudo na hist&oacute;ria. Ent&atilde;o, eu te diria que n&atilde;o me surpreende. S&oacute; que nesse contexto de algu&eacute;m que guarda esse tipo de trof&eacute;u, o que eu esperaria? Eu esperaria que isso se repetisse v&aacute;rias vezes. E o que n&oacute;s temos &eacute; praticamente um, talvez dois casos isolados nesse sentido.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. Isso que o doutor t&aacute; falando at&eacute; elucida muito&hellip; Porque sempre foi o meu inc&ocirc;modo quando eu olhava as fotos&hellip; Mas eu sempre ficava dizendo: &ldquo;t&aacute;, mas onde t&aacute; o corte desse escalpelamento? Como que pode for&ccedil;ar tanto? E qual &eacute; essa diferen&ccedil;a entre o que eu estou vendo no cr&acirc;nio dele, na cabe&ccedil;a, e j&aacute; aqui do lado do olho ou na bochecha?&rdquo;. Porque voc&ecirc; v&ecirc; que aqui &eacute; como se ainda tivesse pele na bochecha, e aqui no couro, onde seria o couro cabeludo, est&aacute; sem. Mas eu estou vendo um pouco de pele ainda no que seria o couro cabeludo dele? Existe alguma camada? Ou eu j&aacute; estou vendo o osso direto? E qual &eacute; a diferen&ccedil;a aqui de n&iacute;veis de camadas de pele entre a bochecha e o cr&acirc;nio?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Quando a gente vai efetivamente para o cr&acirc;nio, n&oacute;s temos um n&iacute;vel de pele, um n&iacute;vel de tecido, digamos&hellip; N&atilde;o de pele, mas um n&iacute;vel de tecido superficial que se mant&eacute;m ainda nesta regi&atilde;o temporal, ao redor da orelha, indo at&eacute; a base do cr&acirc;nio. Ent&atilde;o, se tu olhares nas fotografias, tu v&ecirc;s que tem uma diferen&ccedil;a de colora&ccedil;&atilde;o ali entre a colora&ccedil;&atilde;o mais clara, que a gente v&ecirc; claramente o osso, nitidamente o osso; e uma colora&ccedil;&atilde;o mais escura, onde ainda tem alguns restos de tecido superficial. Isso por si s&oacute; n&atilde;o confirma nem exclui nenhuma das duas hip&oacute;teses porque o escalpelamento tamb&eacute;m n&atilde;o necessariamente teria sido perfeito se tivesse sido realizado. Depois n&oacute;s temos um n&iacute;vel de tecido onde conseguimos sim distinguir claramente que permanece pele, que se d&aacute; mais ou menos no n&iacute;vel das sobrancelhas, na altura das sobrancelhas. Da&iacute; para baixo, o que n&oacute;s vemos &eacute; a preserva&ccedil;&atilde;o da pele em um estado de putrefa&ccedil;&atilde;o que os pr&oacute;prios legistas j&aacute; descrevem como coliquativo, que &eacute; aquela etapa em que n&oacute;s, ainda na fase inicial do coliquativo, conseguimos identificar a presen&ccedil;a dos tecidos, mas eles j&aacute; est&atilde;o desmanchando. Eles j&aacute; est&atilde;o gosmentos. Se a gente tocar, ele est&aacute; gosmento e se desmanchando. Isso facilita muito a atua&ccedil;&atilde;o especialmente de pequenos predadores que n&atilde;o conseguem pegar grandes nacos de tecido. Ent&atilde;o, o n&iacute;vel est&aacute; mais ou menos bem definido. Inclusive me recordo que, adiante nesse caso, v&atilde;o surgir uma s&eacute;rie de depoimentos, inclusive de peritos do caso, em que vai se tratar a quest&atilde;o do escalpelamento como tendo sido inclu&iacute;da a retirada da pele do rosto. E a retirada da pele do rosto nitidamente n&atilde;o aconteceu. As fotografias deixam isso bem claro, n&eacute;? A pele do rosto estava l&aacute;, ela j&aacute; estava alterada pela putrefa&ccedil;&atilde;o, mas ela estava l&aacute;. Tanto que tem uma descri&ccedil;&atilde;o no pr&oacute;prio laudo de necr&oacute;psia &ndash; ou necropsia, como preferem alguns &ndash; de les&otilde;es nos l&aacute;bios, de perdas, de les&otilde;es em saca-bocados, ou seja, les&otilde;es produzidas por um misto de corte, contus&atilde;o e arrancamento nos l&aacute;bios; indicando que os l&aacute;bios estavam l&aacute; e que o resto da pele do rosto tamb&eacute;m estava. Tanto que fizeram quest&atilde;o de descrever as les&otilde;es dos l&aacute;bios. Ent&atilde;o, isso &eacute; uma coisa&hellip; Surge depois a hist&oacute;ria do escalpelamento com perda do rosto, que seria ent&atilde;o para dificultar&hellip; Mas o fato &eacute; que o rosto nunca foi arrancado ou retirado, seja por a&ccedil;&atilde;o humana, seja por a&ccedil;&atilde;o animal.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja: pelo menos no caso de Evandro, visto o processo de putrefa&ccedil;&atilde;o e o local em que ele foi encontrado, n&atilde;o se pode afirmar com toda a certeza que ele foi realmente escalpelado. O fato &eacute; que ele estava sem o couro cabeludo e sem as orelhas. Mas, de acordo com o Dr. Sami, pode ser que isso tenha sido a&ccedil;&atilde;o da natureza. Ou pode ter sido a&ccedil;&atilde;o humana. As duas possibilidades s&atilde;o vi&aacute;veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m do suposto escalpe, as outras les&otilde;es que levantavam questionamentos envolviam as aus&ecirc;ncias das m&atilde;os e dos dedos dos p&eacute;s.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: [&hellip;] Nesse aspecto, o laudo de necropsia tem algumas defici&ecirc;ncias, uma defici&ecirc;ncia relevante que a gente pode comentar depois. Mas ele tem algumas coisas que os peritos fizeram quest&atilde;o de descrever detalhadamente, e uma delas &eacute; a quest&atilde;o das m&atilde;os. Ent&atilde;o, no item 5 do exame externo, eles colocam claramente: &ldquo;aus&ecirc;ncia das m&atilde;os ao n&iacute;vel dos punhos com coto apresentando superf&iacute;cie com les&otilde;es em saca-bocado (les&otilde;es p&oacute;s-morte, fotos n&uacute;meros 1, 2, 5 e 7)&rdquo;. Esses peritos v&atilde;o ser quesitados pela autoridade posteriormente. Ent&atilde;o, eles v&atilde;o responder a um of&iacute;cio sobre isso com quesitos complementares. O segundo quesito: &ldquo;se na regi&atilde;o em que foram retiradas as m&atilde;os do menor, extremidades &ndash; o quesito j&aacute; induz que elas foram retiradas &ndash;, h&aacute; sintonia de haver sido utilizado instrumento perfurocortante?&rdquo;. Resposta: &ldquo;as extremidades dos membros superiores se apresentavam com les&otilde;es em saca-bocado que s&atilde;o consequentes da a&ccedil;&atilde;o de animais carn&iacute;voros, especialmente roedores&rdquo;. Ent&atilde;o, a les&atilde;o em saca-bocado &eacute; essa que envolve um misto de mordida &ndash; a a&ccedil;&atilde;o corto-contundente dos dentes, eventualmente perfura&ccedil;&atilde;o de dentes mais finos, como os caninos em alguns animais; mas em outros, em alguns felinos, os dentes pequenos todos podem ser finos e produzir les&otilde;es perfurantes &ndash; e um arrancamento. Ele morde e arranca. &Eacute; a t&iacute;pica les&atilde;o do roedor, do pequeno roedor. Ratos e seus familiares, seus aparentados da regi&atilde;o. Os peritos n&atilde;o apenas descrevem no auto de necropsia l&aacute; originalmente uma les&atilde;o em saca-bocado, como eles reiteram isso na quesita&ccedil;&atilde;o: a les&atilde;o em saca-bocado. N&atilde;o h&aacute;, nessa descri&ccedil;&atilde;o, absolutamente nenhum elemento trazido pela per&iacute;cia de superf&iacute;cie de corte que pudesse indicar a exist&ecirc;ncia de uso de um instrumento cortante, de um instrumento corto-contundente, ou de um instrumento como uma serra, por exemplo, que pudesse ter deixado as suas marcas caracter&iacute;sticas. Isso vai surgir posteriormente em 1998 a partir de uma rean&aacute;lise de fotografias em preto e branco ampliadas, produzidas dessa necropsia. Mas o fato &eacute; que na necropsia os peritos insistem que foi em saca-bocado. Eu te diria que eu n&atilde;o tenho nenhum motivo&hellip; Ainda que a gente pudesse dizer: ok, mas qual era a superf&iacute;cie de corte, &oacute;ssea? Eu n&atilde;o localizei e acredito que n&atilde;o tenha sido feito na &eacute;poca estudo antropol&oacute;gico.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O Dr. Sami se refere a uma &aacute;rea que hoje &eacute; mais presente na per&iacute;cia criminal, a Antropologia Forense. Um profissional desse ramo &eacute; justamente o que se dedica a realizar um exame mais detalhado de ossadas, corpos ou de pessoas vivas n&atilde;o identificadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1992, essa pr&aacute;tica n&atilde;o era ainda bem estabelecida. E talvez isso explique a aus&ecirc;ncia de informa&ccedil;&otilde;es nos laudos que hoje seriam importantes. Por exemplo, n&atilde;o h&aacute; detalhes se os bra&ccedil;os de Evandro, de Sandra ou os ossos de Leandro tinham marcas de serra ou sinais de cortes feitos por instrumentos. Particularidades assim s&atilde;o geralmente discutidas a partir dos relatos e mem&oacute;rias dos peritos e m&eacute;dicos que trabalharam nesses casos na &eacute;poca.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: N&atilde;o foi feito um estudo antropol&oacute;gico desse corte, ent&atilde;o n&atilde;o foram analisados e estudados os ossos. H&aacute; uma cita&ccedil;&atilde;o num determinado momento de que teria sido feito um estudo radiogr&aacute;fico, mas o estudo radiogr&aacute;fico n&atilde;o aparece em lugar nenhum. E eu diria, com 99,9% de convic&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o foi feito estudo radiogr&aacute;fico. Ent&atilde;o, n&oacute;s poder&iacute;amos questionar: bom, mas qual era a superf&iacute;cie de corte desses ossos? Para poder, ent&atilde;o, excluir que tenha sido s&oacute; uma a&ccedil;&atilde;o animal e poder afirmar que algu&eacute;m poderia ter serrado esses ossos ou utilizado um fac&atilde;o. E a&iacute; a gente tem que lembrar de um detalhe: o Evandro tinha seis anos de idade, sete anos incompletos, n&eacute;? Seis, seis e meio. Aos<\/em> <em>seis anos, o osso de uma crian&ccedil;a&hellip; Se pegarmos o principal osso do antebra&ccedil;o e da articula&ccedil;&atilde;o do punho, que &eacute; o r&aacute;dio, aos seis anos e meio, o r&aacute;dio n&atilde;o &eacute; um osso &uacute;nico, ele &eacute; composto de tr&ecirc;s partes. Ele &eacute; composto de uma ep&iacute;fise proximal, que na idade mais tenra &eacute; praticamente toda ela cartilaginosa; e tem uma separa&ccedil;&atilde;o, uma divis&atilde;o entre a ep&iacute;fise distal e a di&aacute;fise, que &eacute; o corpo do osso, de cartilagem, o osso; mais uma divis&atilde;o cartilaginosa e uma ep&iacute;fise distal que ent&atilde;o comp&otilde;em a articula&ccedil;&atilde;o do punho. Ent&atilde;o, s&atilde;o tr&ecirc;s ossos. Quando ocorre, seja a a&ccedil;&atilde;o direta de animais, seja o pr&oacute;prio processo de putrefa&ccedil;&atilde;o evoluindo pra esqueletiza&ccedil;&atilde;o, essa cartilagem se separa&hellip; Esses fragmentos &oacute;sseos das pontas se separam do osso principal, eventualmente deixando a cartilagem, que tamb&eacute;m pode desaparecer com a esqueletiza&ccedil;&atilde;o ou pode ser comida por pequenos animais. O que n&oacute;s vamos ver ali &eacute; a aparente falta de um segmento do osso, que termina n&atilde;o com o formato cl&aacute;ssico que se v&ecirc; no adulto, mas que termina numa superf&iacute;cie arredondada e rugosa, que seria recoberta pela cartilagem. Ent&atilde;o, se eu tenho a a&ccedil;&atilde;o de pequenos animais aqui, essa ep&iacute;fise distal se foi junto com os pequenos ossos da m&atilde;o. Foi embora. Ela pode ter se perdido no local ali, podia estar por ali, n&atilde;o foi encontrada, &eacute; um ossinho muito pequeno. Ela poderia ter degradado a ponto de desaparecer. O tempo n&atilde;o era suficiente para isso, ent&atilde;o isso est&aacute; descartado. Mas ela pode ter sido consumida, assim como as m&atilde;os foram consumidas. E a gente vai ver isso claramente aonde? No p&eacute;, que tamb&eacute;m n&atilde;o existe e que tem a mesma descri&ccedil;&atilde;o de les&atilde;o em saca-bocado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Os dedos, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: A aus&ecirc;ncia dos dedos dos p&eacute;s apresentando os cotos superficiais em saca-bocado. Os dedos dos p&eacute;s. O mesmo fen&ocirc;meno&hellip; Vamos l&aacute;, algu&eacute;m amputou as m&atilde;os e amputou os dedos dos p&eacute;s tamb&eacute;m? N&atilde;o, mas os animais come&ccedil;aram pelas m&atilde;os? Sim, come&ccedil;aram pelas m&atilde;os como come&ccedil;aram pelos p&eacute;s, come&ccedil;aram&hellip; Os pequenos predadores mordem aquilo que a sua boca alcan&ccedil;a, as pontas dos dedos. N&oacute;s temos casos infelizes por a&iacute; de beb&ecirc;s que tiveram as pontas dos dedos comidas por ratos, morando em casebres em condi&ccedil;&otilde;es subumanas, vivos, e tiveram as pontas dos dedos comidas por ratos. Esses pequenos roedores come&ccedil;am por aquilo que alcan&ccedil;a caber na sua boca, a ponta dos dedos, e v&atilde;o avan&ccedil;ando sobre isso, t&aacute;? Ent&atilde;o, assim como sumiram os dedos dos p&eacute;s por pequenos roedores, sumiram as m&atilde;os. N&atilde;o h&aacute; absolutamente nenhum elemento descritivo que permita afirmar que essas m&atilde;os foram amputadas. As m&atilde;os foram comidas. E &eacute; isso que est&aacute; claramente descrito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Eu vou te passar, ent&atilde;o, a interpreta&ccedil;&atilde;o que eu fiz com base em tudo o que eu ouvi dessa descri&ccedil;&atilde;o dos saca-bocados. Da&iacute; eu queria ouvir o coment&aacute;rio do doutor. Existe a aus&ecirc;ncia da m&atilde;o. Os bordos em torno dos cotos s&atilde;o muito irregulares, com putrefa&ccedil;&atilde;o avan&ccedil;ada. E o que na verdade seria esse saca-bocado seria a a&ccedil;&atilde;o dos roedores nas bordas, n&atilde;o exatamente&hellip; Que, assim, se fosse o arrancamento da m&atilde;o inteira por animais, a gente teria outros elementos. Por exemplo, seriam encontrados ossos ali perto, voc&ecirc; veria alguma mancha no fundo, algum l&iacute;quido que saiu, alguma coisa assim. Como h&aacute; uma certa limpeza na regi&atilde;o ali logo abaixo de onde deveriam estar as m&atilde;os, e a gente tem essa a&ccedil;&atilde;o dos animais nas bordas com a putrefa&ccedil;&atilde;o avan&ccedil;ada, vamos dizer assim, n&atilde;o d&aacute; para dizer com certeza, mas a maior chance &eacute; que essas m&atilde;os j&aacute; n&atilde;o estavam l&aacute; quando o corpo foi jogado. O que o doutor teria a comentar sobre essa hip&oacute;tese?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Por correla&ccedil;&atilde;o, t&aacute;? Tu tens ali&hellip; Essa &eacute; uma grande dificuldade que a gente tem quando se depara com determinadas condi&ccedil;&otilde;es ambientais. Quando eu comparo o fato concreto com o livro, a situa&ccedil;&atilde;o no livro &eacute; outra. As fazendas de corpos nos Estados Unidos tentam reproduzir o m&aacute;ximo de variantes para que elas possam eventualmente ser comparadas com casos concretos. A Universidade do Tennessee, por exemplo, mant&eacute;m uma&hellip; Mas tu tens ali um ponto de refer&ecirc;ncia no pr&oacute;prio corpo, nos dedos dos p&eacute;s. Por que esses mesmos elementos que tu est&aacute; questionando com rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s m&atilde;os, n&atilde;o est&atilde;o nos dedos dos p&eacute;s? Os dedos dos p&eacute;s sumiram. Cad&ecirc; os ossinhos dos dedos dos p&eacute;s?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute; que os dedos dos p&eacute;s&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Cad&ecirc; o sangue? Os dedos dos p&eacute;s s&atilde;o menores&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: S&atilde;o menores, e a gente v&ecirc;&hellip; &Eacute; que n&atilde;o tem nenhuma foto que apare&ccedil;a o p&eacute; assim, para a gente ver. Mas a gente consegue ver, por exemplo, nas fotos, que os p&eacute;s aparecem um pouco melhor, que n&atilde;o parece ser um corte t&atilde;o, entre muitas aspas, regular, como nos punhos ali retirando as m&atilde;os. Ent&atilde;o, eles parecem ser mais a&ccedil;&otilde;es de animais, em que parece mais irregular do que&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Mais irregular.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mais irregular do que um corte. Sim, eu sou leigo, doutor, por isso que eu preciso&hellip; Acho que a gente pode dizer assim&hellip; Acho que a minha pergunta seria mais ou menos: animais poderiam produzir um tipo de les&atilde;o que, um leigo olhando, parece que foi cortada com instrumento corto-contundente? Porque parece que foi arrancado com fac&atilde;o, olhando&hellip; Mas eu sou leigo. Ent&atilde;o, assim, os animais conseguem produzir esse tipo de&hellip; De acordo com a literatura?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Conseguem. A primeira coisa que a gente tem que pensar &eacute; o seguinte: voltemos para a m&atilde;o de uma crian&ccedil;a de seis anos e meio. A m&atilde;o n&atilde;o &eacute; uma estrutura &uacute;nica. Ela &eacute; composta por v&aacute;rios ossinhos, assim como os dedos. S&atilde;o v&aacute;rios ossinhos. O animal n&atilde;o precisa vir abocanhar a m&atilde;o. Ele precisa comer a ponta do dedo. Depois ele precisa comer mais um peda&ccedil;o do dedo. Mais um peda&ccedil;o do dedo e ele chegou na m&atilde;o. Se ele comer a m&atilde;o em pedacinhos, ele tem um monte de ossinho, e de novo&hellip; N&oacute;s voltamos para uma crian&ccedil;a de seis anos e meio. A maior parte desses ossos da m&atilde;o ainda tem pelo menos 50% do osso com n&uacute;cleo cartilaginoso, para poder crescer. Sen&atilde;o, essa m&atilde;o n&atilde;o cresce. E ele vai mordendo aos pouquinhos. Ele vai levando aos pouquinhos, t&aacute;? E aos pouquinhos ele vai retirando ossinho por ossinho. E vai retirando como? Onde &eacute; mais f&aacute;cil. Onde &eacute; mais f&aacute;cil? &Eacute; mais f&aacute;cil o animal pegar, por exemplo, o dorso do punho e vir subindo pelo bra&ccedil;o ou ele ir pescando ao redor o que j&aacute; est&aacute; dispon&iacute;vel? Na medida em que soltou aquele ossinho dali do meio, ele vai pegando ao redor? Ent&atilde;o, esse padr&atilde;o de irregularidade ca&oacute;tica requer a interven&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios elementos em momentos diferentes. A gente est&aacute; falando de elementos semelhantes&hellip; Por exemplo, pequenos roedores atuando em grupo, em pequenos grupos, ou um casal alimentando a ninhada, eles t&ecirc;m um padr&atilde;o. E esse padr&atilde;o n&atilde;o &eacute; ca&oacute;tico. A natureza n&atilde;o &eacute; ca&oacute;tica, ainda que, quando a gente olhe pequenos padr&otilde;es, pare&ccedil;a que eles s&atilde;o ca&oacute;ticos. Quando a gente se afasta um pouquinho, n&oacute;s vemos regularidade em tudo. E aqui eu te diria assim, a regularidade se baseia num princ&iacute;pio de economia que existe em todas as esp&eacute;cies vivas, chama-se princ&iacute;pio do menor esfor&ccedil;o. Na medida em que tu cria um espa&ccedil;o, aproveita todo ele. Cria um novo espa&ccedil;o e aproveita todo ele, e isso produz um padr&atilde;o com uma certa regularidade. Por exemplo, se n&oacute;s estamos cogitando da a&ccedil;&atilde;o da fauna no cr&acirc;nio, com ou sem escalpelamento, quer dizer, a fauna veio depois, por que ela n&atilde;o consumiu caoticamente o cr&acirc;nio? Por que n&atilde;o tem mordida num lado e depois noutro completamente desorganizado? Essa mesma fauna segue uma racionalidade que envolve o m&iacute;nimo de esfor&ccedil;o, o princ&iacute;pio da economia da energia, o m&iacute;nimo de esfor&ccedil;o, aproveitando aquilo que j&aacute; se criou de oportunidade. E, a partir dali, ela n&atilde;o faz novos orif&iacute;cios se j&aacute; existe um orif&iacute;cio para explorar. Ela s&oacute; vai procurar criar um novo orif&iacute;cio quando aquele que ela est&aacute; explorando esgotou as suas possibilidades. &Eacute; como seres humanos roendo osso. Tu at&eacute; pode achar que o ser humano roendo osso segue uma grande racionalidade. &ldquo;N&atilde;o, eu vou escolher esse lado aqui e vou escolher este outro&rdquo;. Mas, na verdade, o ato &eacute; 90% instintivo. A gente vai mordendo e testando onde cede com mais facilidade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, de acordo com o Dr. Sami, assim como n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel dizer que a falta do couro cabeludo seria por um escalpe, tamb&eacute;m n&atilde;o h&aacute; elementos para afirmar que as aus&ecirc;ncias de m&atilde;os e dedos dos p&eacute;s seriam por a&ccedil;&atilde;o humana. E tudo isso &eacute; com base nos documentos.<\/p>\n\n\n\n<p>No j&uacute;ri de 2004, por exemplo, o Dr. Francisco dava detalhes ao juiz <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/rogerio-etzel\/\" target=\"_self\" title=\"Juiz que presidiu os j&uacute;ris de 2004 e 2005 do caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Rog&eacute;rio Etzel<\/a> sobre como poderia afirmar que as m&atilde;os foram cortadas por a&ccedil;&atilde;o humana.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz Etzel: Ele n&atilde;o tinha as m&atilde;os e nem parte dos dedos. Essas les&otilde;es n&atilde;o foram causadas por esses animais?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, n&atilde;o. Eram les&otilde;es externas produzidas por algu&eacute;m.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Por algu&eacute;m&hellip; Instrumento&hellip;? N&atilde;o se&hellip; Perfuro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Cortante.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Cortante?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Cortante ou corto-contundente. A regularidade da les&atilde;o lembrava muito um instrumento corto-contundente, Excel&ecirc;ncia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Certo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Lembrava instrumento corto-contundente&hellip; Seria da maior conveni&ecirc;ncia porque tamb&eacute;m eu n&atilde;o tenho condi&ccedil;&otilde;es de, cinco anos depois, me lembrar de tudo o que eu falei.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O Dr. Francisco falava em instrumentos cortantes, como facas, ou corto-contundentes, como fac&otilde;es e machados. Mas nada disso est&aacute; nos laudos. Ent&atilde;o, isso se resume a um dilema: confiar na mem&oacute;ria do Dr. Francisco? Ou se ater apenas aos que os laudos dizem, fazendo com que todas as perguntas que surgem sejam deixadas em aberto por consequ&ecirc;ncia?<\/p>\n\n\n\n<p>Se optar pelo &uacute;ltimo caminho, n&atilde;o se pode descartar que boa parte dessas les&otilde;es pode ter sido causada por a&ccedil;&atilde;o animal ou do ambiente. Sobre o corte na barriga, o Dr. Sami concorda que foi feito de forma regular. O que n&atilde;o d&aacute; para afirmar &eacute; se foi um corte &uacute;nico, ou se o ofensor teve que continu&aacute;-lo e corrigi-lo no meio do processo de abertura. De qualquer forma, de uma coisa o m&eacute;dico n&atilde;o tem d&uacute;vida: aquilo foi a&ccedil;&atilde;o humana. O mesmo ele diz sobre as costelas cortadas.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: O abd&ocirc;men poderia perfeitamente ter sido atacado por animais, sem necessidade de a&ccedil;&atilde;o humana. Mas, aquelas costelas, da forma como elas est&atilde;o, o que a gente verifica nas costelas&hellip; N&oacute;s estamos falando, ainda que de uma crian&ccedil;a de seis anos e meio, j&aacute; tem um componente &oacute;sseo ali um pouco mais resistente no ponto onde houve a sec&ccedil;&atilde;o das costelas. E tem um padr&atilde;o ali, realmente tem um padr&atilde;o na sec&ccedil;&atilde;o das costelas que mant&eacute;m uma linearidade dos dois lados. Ent&atilde;o, eu te diria&hellip; Mesmo sem examinar o bordo, o rebordo dessas costelas, e n&oacute;s voltamos ao problema das defici&ecirc;ncias do auto de necropsia, n&atilde;o tem uma descri&ccedil;&atilde;o mais detalhada desses rebordos&hellip; Mesmo n&atilde;o tendo detalhes sobre os rebordos, esse padr&atilde;o definitivamente n&atilde;o parece um padr&atilde;o produzido por animais. O local escolhido&hellip; E a&iacute; eu esperaria o qu&ecirc;? De novo, a lei do menor esfor&ccedil;o. O animal&hellip; &Eacute; mais f&aacute;cil ele entrar pelo abd&ocirc;men &ndash; ent&atilde;o, uma vez que, por exemplo, a gente pensasse uma les&atilde;o abdominal iniciada pelo abd&ocirc;men &ndash;, ele entrar pelo abd&ocirc;men e comer os tecidos moles por baixo das costelas, do que ficar arrancando e quebrando o osso. O mesmo princ&iacute;pio da economia. Eu precisaria de predadores maiores para produzir esse tipo de coisa e, quando n&oacute;s vamos para predadores maiores, com presas maiores, com mand&iacute;bulas maiores, &eacute; virtualmente imposs&iacute;vel produzir esse grau de regularidade. Ent&atilde;o, mesmo sem ter detalhes sobre os rebordos das costelas, eu diria: este padr&atilde;o n&atilde;o &eacute; um padr&atilde;o de fauna local, t&aacute;? Os arcos costais, aparentemente, foram serrados ou cortados com algum instrumento semelhante. Pode ter sido&hellip; Como n&atilde;o tem detalhes nem fotogr&aacute;ficos nem descritivos desse rebordo, isso pode ter sido serrado ou pode ter sido utilizada uma tesoura que num determinado momento j&aacute; n&atilde;o mastigou o osso do outro lado e produziu esse bisel, esse recorte. Ent&atilde;o, estava cortando bem de um lado, do outro lado deu uma mastigada no osso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Uma tesoura de jardineiro, por exemplo, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Tesoura de jardineiro, que &eacute; a coisa que mais se assemelha a um cost&oacute;tomo e que &eacute; regularmente utilizada nos IMLs. Os IMLs utilizam regularmente, para produzir esse tipo de corte, uma tesoura de jardineiro mesmo. Esse recorte, apesar de tamb&eacute;m ter sido comentado no processo que n&atilde;o era um recorte adequado&hellip; Olha, ele coincide com o padr&atilde;o utilizado nos IMLs. Ele coincide com o padr&atilde;o. Inclusive o local&hellip; Os IMLs&hellip; Dependendo muito da experi&ecirc;ncia do t&eacute;cnico, v&atilde;o conseguir abrir um pouco mais para os lados para expor melhor a cavidade tor&aacute;cica, ou, eventualmente, o t&eacute;cnico iniciante corta um pouco mais para o meio e deixa uma exposi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o t&atilde;o boa da cavidade tor&aacute;cica. Ent&atilde;o, &eacute; um padr&atilde;o que pode ter sido produzido por uma serra. Sem descri&ccedil;&atilde;o, eu n&atilde;o excluo que possa ter sido usada uma tesoura, como uma tesoura de jardineiro, e &eacute; um padr&atilde;o que a gente conhece muito bem, de corte de arcos costais, que &eacute; um padr&atilde;o de exposi&ccedil;&atilde;o tor&aacute;cica, de IML.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>E aqui volta uma quest&atilde;o que sondava o caso Evandro desde o in&iacute;cio: os cortes que ele apresentava poderiam ter sido feitos por um m&eacute;dico ou algu&eacute;m com conhecimento de medicina legal.<\/p>\n\n\n\n<p>Como foi mostrado no epis&oacute;dio anterior, o Dr. Francisco sempre negou essa possibilidade, ao afirmar que a pessoa demonstrava desconhecimento de anatomia infantil. Segundo ele, algu&eacute;m com expertise faria cortes precisos nas cartilagens presentes nas costelas de crian&ccedil;as, sem necessidade de golpes t&atilde;o grosseiros. Mas o Dr. Sami discorda dessa afirma&ccedil;&atilde;o. Ao seu ver, essa hip&oacute;tese n&atilde;o poderia ser descartada t&atilde;o rapidamente.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Eu vi que nos autos, num determinado momento, se comenta que algu&eacute;m mais experiente teria usado as cartilagens que ficam um pouco mais para o meio. Mas isso reduz a exposi&ccedil;&atilde;o. Quem fez aquilo ali, por algum motivo, queria uma exposi&ccedil;&atilde;o total da cavidade tor&aacute;cica, e conseguiu o que queria. A partir de uma a&ccedil;&atilde;o humana&hellip; Ent&atilde;o, voltando para o que &eacute; a base do teu racioc&iacute;nio, para a inicial, para a quest&atilde;o do escalpo, para a quest&atilde;o das m&atilde;os, de que uma a&ccedil;&atilde;o humana&hellip; Uma a&ccedil;&atilde;o humana poderia ter se sobreposto &agrave; a&ccedil;&atilde;o da fauna, que me parece que n&atilde;o &eacute; o caso do escalpe, n&atilde;o &eacute; o caso das m&atilde;os, &eacute; o caso do t&oacute;rax e do abd&ocirc;men. Se tu tens uma les&atilde;o provocada intencionalmente, isso vai chamar os animais e, a partir da&iacute;, esse vai ser o grande motivo, a grande isca, para eles se alimentarem. A aus&ecirc;ncia de &oacute;rg&atilde;os ali com a a&ccedil;&atilde;o animal n&atilde;o me diz nada, n&atilde;o me diz absolutamente nada. Eles v&atilde;o se alimentar do que estiver dispon&iacute;vel para se alimentarem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Pode ser que os &oacute;rg&atilde;os tenham sido todos comidos por animais, ent&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Literalmente comidos. A lei do menor esfor&ccedil;o de novo. N&oacute;s estamos falando de v&iacute;sceras, n&oacute;s estamos falando de &oacute;rg&atilde;os que s&atilde;o molinhos, facinhos, de pouca resist&ecirc;ncia, e que algu&eacute;m propositalmente deixou exposto.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E s&atilde;o animais que agem mais&hellip; S&atilde;o animais que agem mais &agrave; noite? Porque, de novo, eu estou pensando na quantidade de animais que um corpo aberto assim chamaria, e tem gente ali na regi&atilde;o. Pouca gente, mas tem. Voc&ecirc; ouviria barulhos, voc&ecirc;&hellip; Os pr&oacute;prios urubus chamaram a aten&ccedil;&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Roedores, pequenos felinos, v&atilde;o atuar mais &agrave; noite. S&atilde;o animais preferencialmente noturnos e v&atilde;o atuar mais &agrave; noite. Mesmo que o alimento esteja ali, eles n&atilde;o tendem a sair da toca, como regra geral, n&atilde;o tendem a sair da toca para se alimentar nesse hor&aacute;rio, mas as aves sim. Ent&atilde;o, as aves t&ecirc;m um padr&atilde;o que n&atilde;o necessariamente elas podem ficar ali se alimentando. Elas podem vir recolher um bom naco, levantar voo de novo e alimentar a ninhada, por exemplo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o teria v&iacute;sceras espalhadas, alguma coisa assim?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Possivelmente. Possivelmente teria v&iacute;sceras espalhadas, especialmente o intestino. Por suas caracter&iacute;sticas, ter&iacute;amos fezes no local, tudo isso poderia estar ali espalhado. Ent&atilde;o, eu diria que tem uma grande chance de ter sido a fauna, mas tem essas quest&otilde;es que levantam d&uacute;vidas sobre se n&atilde;o foram retirados os &oacute;rg&atilde;os, especialmente os &oacute;rg&atilde;os abdominais. Tor&aacute;cico, a gente observa uma coisa: o pulm&atilde;o direito estava l&aacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o &eacute; um peda&ccedil;o do pulm&atilde;o esquerdo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Est&aacute; descrito um peda&ccedil;o do pulm&atilde;o direito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Eu lembrava ser do esquerdo&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Do esquerdo, o que n&oacute;s temos descrito&hellip; Deixa s&oacute; eu localizar aqui&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Eu estou com ele aberto aqui tamb&eacute;m&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: No laudo, eles dizem apenas: &ldquo;constata-se a aus&ecirc;ncia parcial dos &oacute;rg&atilde;os intrator&aacute;cicos&rdquo;. S&oacute; isso. Na complementa&ccedil;&atilde;o, eles se referem &agrave; presen&ccedil;a do revestimento ceroso no interior do t&oacute;rax, do abd&ocirc;men, condi&ccedil;&atilde;o devido &agrave; a&ccedil;&atilde;o humana. &ldquo;Pois a a&ccedil;&atilde;o de animais carn&iacute;voros deixaria les&otilde;es dependentes do tipo de mordida destes&rdquo;. Discordo parcialmente disso aqui, mas est&aacute; de acordo, digamos, em termos gerais, com a hip&oacute;tese de terem sido retirados. Mas &eacute; num depoimento que vai surgir depois, que se fala no pulm&atilde;o direito&hellip; E se a gente olhar as fotografias, analisar as fotografias, &eacute; do lado direito que tem um segmento de pulm&atilde;o bem evidente, principalmente mais inferior. O ter&ccedil;o inferior do pulm&atilde;o direito est&aacute; presente. O que a gente v&ecirc; do lado esquerdo? A&iacute; &eacute; um ponto interessante. O que n&oacute;s vemos do lado esquerdo? Uma grande mancha escura, vinhosa, um vermelho escurecido, ocupando todo o hemit&oacute;rax esquerdo; que destoa do lado direito, destoa significativamente nas fotografias do lado direito. Do lado direito, que tem fragmentos de pulm&atilde;o, est&aacute; mais claro. O que n&oacute;s temos do lado esquerdo? E a&iacute; eu quero te remeter ao laudo de per&iacute;cia de local. No laudo de per&iacute;cia de local, os peritos descrevem algo muito interessante. Item cinco do laudo de per&iacute;cia de local&hellip; Les&atilde;o&hellip; Est&aacute; na p&aacute;gina 4, de 5, da transcri&ccedil;&atilde;o. &ldquo;Les&atilde;o com caracter&iacute;sticas de ferida contusa, localizada na parte posterior esquerda do t&oacute;rax&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/extras-episodio-05\/\" target=\"_blank\">quinto epis&oacute;dio<\/a>, o Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/antonio-carlos-lipinski\/\" target=\"_self\" title=\"Perito que produziu o laudo de exame de local do caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Antonio Carlos Lipinski<\/a> comentou sobre uma ferida que parecia ter sido feita por uma faca ou um punhal nas costas. J&aacute; o Dr. Francisco, no <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/extras-episodio-06\/\" target=\"_blank\">sexto epis&oacute;dio<\/a>, afirmou que essa les&atilde;o teria sido produzida por uma bicada de urubu. &Eacute; desse ferimento que o Dr. Sami est&aacute; falando. Ferida essa que, por acreditarem ter sido causada por um animal, os legistas n&atilde;o inclu&iacute;ram no laudo de necropsia.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Tem uma fotografia bem n&iacute;tida dessa les&atilde;o na parte esquerda do t&oacute;rax, que est&aacute;&hellip; Vamos localizar aqui&hellip; E eu te fa&ccedil;o refer&ecirc;ncia&hellip; Nas fotografias do<\/em> <em>inqu&eacute;rito e do laudo de per&iacute;cia de local, tem uma foto feita &agrave; esquerda&hellip; Nas do inqu&eacute;rito da Pol&iacute;cia Civil, elas est&atilde;o l&aacute; na folha 13. Tem um graveto indicando essa ferida nas costas &agrave; esquerda&hellip; Essa ferida&hellip; S&oacute; tem men&ccedil;&atilde;o a ela no laudo de per&iacute;cia criminal. N&atilde;o h&aacute; men&ccedil;&atilde;o a essa ferida no auto de necropsia. E ela, por sua vez, coincide perfeitamente com o lado esquerdo onde a colora&ccedil;&atilde;o &eacute; outra, &eacute; uma colora&ccedil;&atilde;o bem escura, vista da face interna. Quando a gente olha de frente, olha para dentro, o lado esquerdo &eacute; completamente diferente do direito. Quando a gente olha as costas dele de fora, a per&iacute;cia criminal descreve, fotografa e identifica muito bem uma ferida que eles chamam de ferida contusa localizada na parte posterior esquerda do t&oacute;rax, e que &eacute; ignorada na necropsia. Se n&oacute;s ampliarmos esta ferida com um instrumento adequado para isso, uma lente, n&oacute;s vamos ver que essa ferida tem uma caracter&iacute;stica que n&atilde;o &eacute; uma caracter&iacute;stica produzida por animais. Ela tem uma caracter&iacute;stica de uma les&atilde;o em abotoadura. Ela tem a caracter&iacute;stica de uma ferida perfurocortante por arma branca, vista de fora. Uma facada ou algo parecido, vista de fora. Quando a gente olha o cad&aacute;ver de frente, aquela mancha escura, ela n&atilde;o &eacute; s&oacute; de putrefa&ccedil;&atilde;o, ela &eacute; de sangue putrefeito. Uma grande mancha de sangue putrefeito na cavidade tor&aacute;cica esquerda. Ent&atilde;o, somando as duas coisas, eu te diria que ele recebe uma les&atilde;o nas costas, sangra no pulm&atilde;o esquerdo, e essa muito provavelmente tenha sido a causa da morte. Isto aparece numa &uacute;nica, bem-feita, fotografia, que permite a sua amplia&ccedil;&atilde;o, do local. E talvez tenha sido a grande motiva&ccedil;&atilde;o de ter sido aberto o t&oacute;rax dele, permitir que a fauna agisse e destru&iacute;sse o corpo o mais r&aacute;pido poss&iacute;vel. Quem colocou o corpo ali e quem abriu o t&oacute;rax fez isso para facilitar a a&ccedil;&atilde;o da fauna, e tinha motivos para esperar que o corpo iria desaparecer antes de ser encontrado. Essa &eacute;&hellip; Quando eu considero a a&ccedil;&atilde;o humana na abertura do t&oacute;rax e essas duas les&otilde;es, eu te diria que isso parece uma oculta&ccedil;&atilde;o de cad&aacute;ver. Oculta&ccedil;&atilde;o de cad&aacute;ver, de quem, sabendo das condi&ccedil;&otilde;es locais, facilita a a&ccedil;&atilde;o dos animais. Assim como se amarram pedras e pesos para jogar corpo na &aacute;gua, ca&ccedil;adores deixam corpos abertos para alimentarem os outros animais.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute; uma pr&aacute;tica conhecida por ca&ccedil;adores, ent&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Exatamente. E poderia ser uma pr&aacute;tica conhecida por qualquer um que morasse naquela regi&atilde;o ali e se utilizasse daquela mata.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas, assim, at&eacute; pela lei do m&iacute;nimo esfor&ccedil;o, me parece ser muito mais complicado abrir a costela para deixar aberto desse jeito do que, sei l&aacute;, cavar um buraco no ch&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Talvez. Mas a&iacute; n&oacute;s voltamos&hellip; Quem fez pensava o qu&ecirc;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim, sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Que cortando e facilitando a a&ccedil;&atilde;o de animais, o corpo desapareceria sem deixar vest&iacute;gios? Qual &eacute; o problema de corpos enterrados?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Os vest&iacute;gios s&atilde;o encontrados&hellip; Inclusive, se voc&ecirc; deixar com os &oacute;rg&atilde;os, ele demora mais tempo para esqueletizar, correto?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Algu&eacute;m desenterra. Este &eacute; o grande problema, algu&eacute;m desenterra. Um cachorro desenterra, algu&eacute;m acha o corpo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Mas enterrar um corpo exige tempo. Tem que cavar um buraco no ch&atilde;o. O corpo tem que estar em algum lugar pr&oacute;ximo para jogar l&aacute; dentro. &Eacute; muita exposi&ccedil;&atilde;o desnecess&aacute;ria. Seguindo a l&oacute;gica do Dr. Sami, o corpo teria sido jogado l&aacute; como uma carca&ccedil;a para desaparecer pela a&ccedil;&atilde;o da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Corpos comidos por animais somem completamente. Eles deixam poucos vest&iacute;gios. Ou podem se tornar potencialmente irreconhec&iacute;veis, inclusive irreconhec&iacute;veis no sentido de identificar se &eacute; humano, ou podem simplesmente desaparecer. Aparece l&aacute; um cr&acirc;nio tempos depois, que ningu&eacute;m sabe de quem &eacute;. Mas cr&acirc;nio de crian&ccedil;a tamb&eacute;m, aqui com seis anos e meio, tem boa chance de desaparecer. Ent&atilde;o, essas les&otilde;es, para mim, n&atilde;o s&atilde;o coincid&ecirc;ncia. Porque elas envolvem a&ccedil;&atilde;o humana. A les&atilde;o nas costas &eacute; caracter&iacute;stica da aplica&ccedil;&atilde;o de um instrumento ali que provavelmente seria um perfurocortante, uma faca.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Essa les&atilde;o&hellip; A gente conversou com o perito de local, o doutor Lipinski. E ele falou exatamente isso que o doutor est&aacute; falando. &ldquo;Para mim, isso aqui foi uma facada&rdquo;. Eu perguntei para os m&eacute;dicos legistas sobre isso. E eles at&eacute; falam em depoimento que tinham interpretado isso como uma bicada de urubu, que seria a&ccedil;&atilde;o animal essa perfura&ccedil;&atilde;o. &Eacute; poss&iacute;vel que tenha sido uma bicada de um animal, essa perfura&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Vamos l&aacute;. Ele est&aacute; de costas. Essa les&atilde;o &eacute; nas costas, do lado esquerdo. Na posi&ccedil;&atilde;o original em que o corpo foi encontrado, essa les&atilde;o est&aacute; protegida. Ent&atilde;o, n&atilde;o tem acesso de animal. Ent&atilde;o, n&oacute;s ter&iacute;amos que cogitar, para que fosse uma les&atilde;o produzida por animal, que ele estivesse noutra posi&ccedil;&atilde;o, de prefer&ecirc;ncia, dec&uacute;bito ventral, e depois passou para o dec&uacute;bito dorsal. Ok, cogitemos dessa hip&oacute;tese, ainda que a les&atilde;o n&atilde;o seja caracter&iacute;stica. A les&atilde;o caracter&iacute;stica das aves de rapina &eacute; uma les&atilde;o um tanto mais regular, no sentido mais circular ou mais oval. Essa &eacute; uma les&atilde;o em botoeira. Eu diria que, assim, eu n&atilde;o gosto de usar a express&atilde;o &ldquo;t&iacute;pica&rdquo;, mas se n&oacute;s ampliarmos essa imagem e botarmos ela lado a lado com as les&otilde;es t&iacute;picas de facadas nos livros, ela &eacute; uma les&atilde;o de facada. Ningu&eacute;m teria d&uacute;vida se aquela les&atilde;o &eacute; de facada. E ela tem essa correspond&ecirc;ncia interna. Por que no lado esquerdo, que est&aacute; do ladinho do lado direito, est&aacute; a tr&ecirc;s cent&iacute;metros, cinco cent&iacute;metros do lado direito, o processo de putrefa&ccedil;&atilde;o gerou aquele n&iacute;vel de escurecimento do pulm&atilde;o? Na verdade, da cavidade posterior, da parte posterior da cavidade pleural. Porque ali n&oacute;s n&atilde;o estamos mais falando de pulm&atilde;o. O pulm&atilde;o sobrou do lado direito, do lado esquerdo aparentemente n&atilde;o sobrou pulm&atilde;o nenhum. Bom, o que produz isso &eacute; sangue putrefeito. Ent&atilde;o, &eacute; muita coincid&ecirc;ncia que eu tenha uma les&atilde;o posterior esquerda que se assemelha com uma facada e eu tenha um monte de sangue putrefeito do mesmo lado internamente. &Eacute; muita coincid&ecirc;ncia. Eu tenderia a concordar 100% com o perito criminal, especialmente depois de ver as fotografias do corpo internamente. E n&oacute;s n&atilde;o combinamos, n&atilde;o conhe&ccedil;o o perito criminal, nunca falei com ele&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Essa quest&atilde;o da suposta facada era importante porque mudava o entendimento da forma como Evandro teria sido morto. De acordo com os legistas que o examinaram, a causa da morte teria sido por asfixia mec&acirc;nica, e afirmavam isso com base no fen&ocirc;meno dos dentes rosados e da putrefa&ccedil;&atilde;o mais avan&ccedil;ada em torno do pesco&ccedil;o. Mas, ao considerar essa prov&aacute;vel facada, tudo muda.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Tem a hist&oacute;ria do corte no pesco&ccedil;o, que o doutor j&aacute; deixou bem claro antes que n&atilde;o tem corte, n&atilde;o existe essa discuss&atilde;o. Essa discuss&atilde;o vem depois, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Essa discuss&atilde;o vem depois como uma especula&ccedil;&atilde;o. Eu diria que n&atilde;o &eacute; nem uma dedu&ccedil;&atilde;o, &eacute; uma especula&ccedil;&atilde;o, assim como a tese da asfixia mec&acirc;nica. A tese da asfixia mec&acirc;nica tamb&eacute;m. A tese da asfixia mec&acirc;nica foi e veio, foi e veio, mas ela encontra raz&otilde;es irrazo&aacute;veis. Ou seja, num determinado momento se sugere que o pesco&ccedil;o estaria protegido da putrefa&ccedil;&atilde;o porque teria sido pressionado; depois se sugere que ele teria entrado em putrefa&ccedil;&atilde;o mais r&aacute;pido porque teria sido cortado, e assim v&atilde;o com rela&ccedil;&atilde;o a isso. Mas, assim, n&atilde;o encontrei&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E os dentes rosados tamb&eacute;m, n&eacute;, que a doutora Beatriz fala&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: A hist&oacute;ria dos dentes rosados&hellip; Assim, a hist&oacute;ria dos dentes rosados foi motivo de muita discuss&atilde;o no j&uacute;ri de 2011, e ela n&atilde;o se sustentava nem na literatura citada pela pr&oacute;pria doutora Beatriz na &eacute;poca e nem na literatura posterior. Os dentes rosados s&atilde;o um fen&ocirc;meno que n&atilde;o depende do mecanismo de morte. N&atilde;o dependem da causa da morte, nem do mecanismo de morte. Ent&atilde;o, ela vai ser encontrada&hellip; Ela mesma diz isso em j&uacute;ri, que a literatura cita que ela pode ser encontrada em enforcados, afogados e at&eacute; num sujeito que tomou um tiro na cabe&ccedil;a. Bom, mas o que eles t&ecirc;m em comum? Se &eacute; uma asfixia, o que isso tem a ver com o sujeito que tomou um tiro na cabe&ccedil;a?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Eu vou falar exatamente o que ela falava. Ent&atilde;o, assim: os dentes rosados aparecem naturalmente em qualquer pessoa que morre, mas no caso de crian&ccedil;as que t&ecirc;m os dentes de leite ainda, os vasos estouram mais r&aacute;pido, dando essa colora&ccedil;&atilde;o se houver asfixia mec&acirc;nica. Ent&atilde;o, pelo prazo que passou do desaparecimento do Evandro, ter o fen&ocirc;meno dos dentes rosados em cinco dias, isso era uma indica&ccedil;&atilde;o de asfixia mec&acirc;nica. Se n&atilde;o fosse a asfixia mec&acirc;nica, deveria demorar mais para aparecer os dentes rosados.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Isso n&atilde;o se sustenta nem no artigo que ela citou, nem nos artigos que ela mesma citou para corroborar essa hip&oacute;tese. Ela leu do artigo a parte que interessava para ela para sustentar a tese dela. Em princ&iacute;pio, o fen&ocirc;meno dos dentes rosados requer basicamente duas coisas: a possibilidade da infiltra&ccedil;&atilde;o de sangue nos dentes, que requer sangue, em alguma medida, fluido, e a presen&ccedil;a de canais ainda perme&aacute;veis. Esses canais v&atilde;o se fechando na medida em que a gente vai amadurecendo, vai envelhecendo. Ent&atilde;o, o fen&ocirc;meno dos dentes rosados ser&aacute; t&atilde;o mais comum quanto mais jovem for o sujeito. Existe um fator de juventude porque depende de canal&iacute;culos e de irriga&ccedil;&atilde;o sangu&iacute;nea, portanto estar&atilde;o presentes na denti&ccedil;&atilde;o mais jovem com maior facilidade do que no adulto. E eu preciso de um sangue fluido que seja capaz de infiltrar. Ent&atilde;o, ele vai ser encontrado, por exemplo, em afogados. Afogados, por qu&ecirc;? Bom, tem v&aacute;rias hip&oacute;teses para isso. Uma delas &eacute; que a posi&ccedil;&atilde;o do corpo do afogado, com a cabe&ccedil;a dentro da &aacute;gua, um pouco mais baixa, facilitaria o escoamento do sangue para a cabe&ccedil;a; outras de que a dilui&ccedil;&atilde;o sangu&iacute;nea que dificultaria a coagula&ccedil;&atilde;o de sangue facilitaria tamb&eacute;m a impregna&ccedil;&atilde;o. Para muitos autores, o dente rosado &eacute; a vers&atilde;o dental dos livores que n&oacute;s vemos no restante do corpo. Ent&atilde;o, depende de ter possibilidade de deposi&ccedil;&atilde;o. E pode ser encontrada em qualquer causa de morte, n&atilde;o tem absolutamente nada na literatura, nem nos artigos que ela mesma citou, e eu revisei todos, de que seja preferencial. Ela foi descrita inicialmente por quem encontrou enforcados. Quando o pessoal come&ccedil;ou a prestar aten&ccedil;&atilde;o nisso, come&ccedil;ou a encontrar isso em v&aacute;rias situa&ccedil;&otilde;es. As primeiras especula&ccedil;&otilde;es &eacute; de que exigiria uma grande press&atilde;o na cabe&ccedil;a. T&aacute;<\/em> <em>bom, se exige uma grande press&atilde;o na cabe&ccedil;a, por que aparece uma semana depois? Um dia depois, dois dias depois? Se exige uma grande press&atilde;o na cabe&ccedil;a, aparece agora, quando eu estou fazendo a press&atilde;o, n&atilde;o quando a press&atilde;o acabou. Depois que o sujeito est&aacute; morto, a press&atilde;o acabou. Alguns come&ccedil;aram a dizer: &ldquo;n&atilde;o, &eacute; que exige uma grande press&atilde;o na cabe&ccedil;a&rdquo;. Outros: &ldquo;n&atilde;o, pode ser posicional. Se a cabe&ccedil;a estiver numa posi&ccedil;&atilde;o que desloca mais sangue, tamb&eacute;m pode infiltrar&rdquo;. Cada um foi achando uma explica&ccedil;&atilde;o a ponto de que se encontrou no sujeito que tomou o tiro na cabe&ccedil;a, que n&atilde;o sofreu grande press&atilde;o no cr&acirc;nio. Ent&atilde;o, o que se sabe &eacute; isso. Eu preciso de duas condi&ccedil;&otilde;es. Eu preciso do canal perme&aacute;vel para o sangue entrar e eu preciso de um sangue fluido o suficiente para entrar. Por que isso vai acontecer dias depois? Porque &eacute; quando o sangue entra em putrefa&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m e fica mais dilu&iacute;do. Por que aparece em alguns casos imediatamente? Porque n&atilde;o daria tempo de o sangue coagular. Ent&atilde;o, temos explica&ccedil;&otilde;es para todos os gostos. O fato &eacute; o seguinte: nada informa sobre a causa da morte. Nada informa sobre a causa da morte. Nem que foi asfixia, nem que n&atilde;o foi asfixia. &Eacute; um achado que n&atilde;o tem rela&ccedil;&atilde;o com a causa da morte, tem rela&ccedil;&atilde;o com mecanismos pr&oacute;prios para produzir o achado, e n&atilde;o com a causa da morte. Nem os artigos que ela mesma citou&hellip; Os pr&oacute;prios autores dos artigos que ela citou tiveram a cautela que ela n&atilde;o teve quando foi aplicar os artigos para concluir no laudo de necropsia que a causa da morte foi uma asfixia mec&acirc;nica.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, novamente, se o objetivo &eacute; come&ccedil;ar a ver esse caso do zero, apenas com base na documenta&ccedil;&atilde;o oficial produzida na &eacute;poca, j&aacute; foi estabelecido que n&atilde;o se pode descartar a a&ccedil;&atilde;o de animais em les&otilde;es que, por muitos anos, foram garantidas como tendo sido causadas pelo assassino. Al&eacute;m disso, tamb&eacute;m n&atilde;o se pode aceitar t&atilde;o facilmente a explica&ccedil;&atilde;o da asfixia mec&acirc;nica. E, sob esse olhar, &eacute; poss&iacute;vel que Evandro tenha sido morto atrav&eacute;s da facada nas costas, que foi ignorada pelos legistas da &eacute;poca.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: E a outra quest&atilde;o que eu acho relevante nisso &eacute; a do exame da regi&atilde;o anal, que eu acredito que merece aten&ccedil;&atilde;o. Merece aten&ccedil;&atilde;o por qu&ecirc;? Porque os legistas encontraram um &acirc;nus dilatado pelo fen&ocirc;meno natural da morte, pela pr&oacute;pria dilata&ccedil;&atilde;o e relaxamento muscular p&oacute;s-morte, e encontraram uma &aacute;rea de putrefa&ccedil;&atilde;o. Pediram ali uma coleta de espermatozoide, que obviamente veio negativa. Eu n&atilde;o espero encontrar espermatozoide naquele n&iacute;vel de putrefa&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o, o resultado era esperado que viesse negativo. Quando o resultado veio negativo, ficou a impress&atilde;o de que estava garantido que n&atilde;o houve viol&ecirc;ncia sexual. Eu n&atilde;o correria&hellip; Eu n&atilde;o seria t&atilde;o apressado em excluir a viol&ecirc;ncia sexual. Eu diria que, com os achados da necropsia, n&oacute;s n&atilde;o temos elementos para dizer que n&atilde;o ocorreu uma viol&ecirc;ncia sexual e que esse n&atilde;o foi um crime de natureza sexual. Ent&atilde;o, eu manteria isso pendurado como uma hip&oacute;tese de trabalho a investigar, de que o crime tivesse natureza sexual. N&oacute;s sabemos que essa hist&oacute;ria toda pegou outro rumo, onde qualquer hip&oacute;tese investigativa mais s&eacute;ria foi jogada na lata do lixo, mas eu n&atilde;o descartaria a natureza sexual desse crime, como n&oacute;s n&atilde;o poderemos descartar no caso do Leandro, j&aacute; fazendo um link aqui, mas n&oacute;s poderemos confirmar no caso da Sandra.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Conforme Ivan, uma das coisas que se mostraram muito positivas dessas conversas com o Dr. Sami foi poder contar com a experi&ecirc;ncia dele tanto como legista quanto como perito de local. Como ele mesmo relatou, muitas vezes os peritos se atentam a detalhes importantes que passam despercebidos pelos m&eacute;dicos.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest&atilde;o da les&atilde;o nas costas de Evandro seria um exemplo disso, na opini&atilde;o dele. E, ao saber de tudo isso, &eacute; f&aacute;cil culpar os profissionais do passado por neglig&ecirc;ncia, incompet&ecirc;ncia ou algo parecido. Mas uma coisa que nunca se deve esquecer &eacute; que o caso era complexo, e que muita informa&ccedil;&atilde;o j&aacute; havia se perdido.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso ficou bem claro quando Ivan perguntou ao Dr. Sami sobre como se calcularia o tempo que o corpo de Evandro ficou no matagal.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Tem uma s&eacute;rie de infer&ecirc;ncias no processo sobre o tempo que ele estaria no local, sobre o tempo que ele&hellip; Teria inclusive permanecido um determinado tempo num local fechado, e depois um tempo num local aberto. Assim, n&atilde;o h&aacute; absolutamente nenhuma base cient&iacute;fica para a gente poder estabelecer o tempo no local. N&oacute;s temos duas coisas diferentes: uma, o tempo de morte. Uma &eacute; o tempo de morte. N&oacute;s sabemos que esse corpo tem mais de 36 horas de morte. Agora, se tu me perguntares, mais de 36 horas, 48, 72, 96, 120? Pode ser qualquer coisa. N&atilde;o h&aacute;&hellip; Hoje, em termos de determina&ccedil;&atilde;o do tempo de morte, n&oacute;s temos algumas refer&ecirc;ncias melhoradas pelas pesquisas cient&iacute;ficas dos &uacute;ltimos anos para as primeiras 24 horas. Depois que se inicia o processo de putrefa&ccedil;&atilde;o, especialmente depois das primeiras 36 horas, dependendo muito, claro, da temperatura do local, mas basicamente depois das 36 horas, n&oacute;s temos uma dificuldade muito grande para estabelecer o tempo, porque h&aacute; in&uacute;meros fatores ambientais que podem modificar isso. Ent&atilde;o, isso quanto ao tempo de morte. Quanto ao tempo de deposi&ccedil;&atilde;o no local, n&oacute;s temos ali uma vegeta&ccedil;&atilde;o que tem marcas de putrefa&ccedil;&atilde;o. Se tu olhares a vegeta&ccedil;&atilde;o que est&aacute; especialmente do lado esquerdo da cabe&ccedil;a, ela est&aacute; toda escurecida, essa vegeta&ccedil;&atilde;o. Esse escurecimento da vegeta&ccedil;&atilde;o &eacute; produzido pelo material de putrefa&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio corpo. O que, inclusive, pode sugerir que a posi&ccedil;&atilde;o original de deposi&ccedil;&atilde;o do corpo n&atilde;o fosse essa, que os animais tamb&eacute;m&hellip; Se eles est&atilde;o atuando sobre o corpo, eles est&atilde;o produzindo l&aacute; as suas pr&oacute;prias for&ccedil;as e eventualmente modificando a posi&ccedil;&atilde;o do corpo. Ent&atilde;o, o que n&oacute;s temos aqui? N&oacute;s temos uma evolu&ccedil;&atilde;o para a fase coliquativa, o que eu diria que aponta para mais tempo do que menos, ent&atilde;o talvez quatro, cinco dias; e n&oacute;s temos esses elementos de putrefa&ccedil;&atilde;o no local. Ent&atilde;o, pelo menos a &uacute;ltima fase de putrefa&ccedil;&atilde;o aconteceu no local. O que n&oacute;s sabemos de pr&aacute;tico? N&oacute;s sabemos que ele desapareceu no dia 6 e foi encontrado no dia 11. Cinco dias. Ent&atilde;o, qual &eacute; a<\/em> <em>resposta cient&iacute;fica para isso? Olha, o estado desse corpo &eacute; compat&iacute;vel com cinco dias.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas seria tamb&eacute;m com&hellip; &Eacute; isso&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Seria com quatro tamb&eacute;m. Exatamente. Seria com quatro tamb&eacute;m. Assim como seria com cinco, seria com quatro. Eu diria que mais para cinco do que para dois, ent&atilde;o vamos em dire&ccedil;&atilde;o ao cinco, vamos tensionar para o cinco. Parte disso, dessa putrefa&ccedil;&atilde;o, se deu naquele local. Agora, o corpo foi depositado no local tr&ecirc;s dias antes? &Eacute; poss&iacute;vel. Quatro dias antes? &Eacute; poss&iacute;vel. Cinco dias? No dia em que ele desaparece, ele morre no mesmo dia? &Eacute; poss&iacute;vel. O grande problema &eacute; que esse &eacute; um terreno que permite que eu especule qualquer coisa. Ent&atilde;o, vamos ficar no que tem evid&ecirc;ncia cient&iacute;fica: 36, 48. Mais de 48, ficamos bem. Dois dias. Mais de dois, no m&aacute;ximo cinco, porque n&oacute;s sabemos que no dia 6 ele estava vivo, ent&atilde;o acabou aqui a contagem. Entre dois e cinco. Ele est&aacute; ali h&aacute; quanto tempo? Poderia ser qualquer lapso nesse per&iacute;odo de tempo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Mas, assim, vamos tentar fazer por uma elimina&ccedil;&atilde;o. Ele poderia ter ficado ali por poucas horas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: N&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Por exemplo, ele foi encontrado &agrave;s nove da manh&atilde;, foi jogado &agrave;s seis da manh&atilde;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: N&atilde;o. N&atilde;o, porque isso n&atilde;o daria tempo de produzir aquela dispers&atilde;o de material que tem no solo ali ao redor do corpo, t&aacute;? A fauna, nesse aspecto, &eacute; muito econ&ocirc;mica, com exce&ccedil;&atilde;o dos grandes predadores. Ela &eacute; muito econ&ocirc;mica. Ent&atilde;o, essa dispers&atilde;o de putrilagem de material que modificou a flora local ali, que modificou as condi&ccedil;&otilde;es ambientais locais, eu te diria assim, especulando com base em experi&ecirc;ncia de local de crime, talvez dois dias.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: N&atilde;o foi algumas horas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O que me chama a aten&ccedil;&atilde;o, que sempre foi levantado para a possibilidade daquele corpo estar l&aacute; h&aacute; poucas horas, &eacute; porque tinha morador ali perto, era uma regi&atilde;o de lenhadores, que estavam inclusive&hellip; Acho que tirando lenha, fazendo alguma obra ali. E eles notam o corpo do Evandro para dentro da mata porque percebem urubus voando na regi&atilde;o. Ou seja, a gente est&aacute; falando de lenhadores que est&atilde;o sempre ali, e naquele s&aacute;bado de manh&atilde; eles veem os urubus. Ent&atilde;o, transformando isso numa pergunta, quanto tempo leva&hellip; Eu jogo um corpo no mato. Quanto tempo leva para os urubus come&ccedil;arem a sobrevoar?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Eu j&aacute; vi de tudo. Eu j&aacute; vi de tudo. Eu j&aacute; vi eles aparecerem j&aacute; nas primeiras horas. Essas aves de rapina s&atilde;o extremamente boas ca&ccedil;adoras, extremamente boas ca&ccedil;adoras. Ent&atilde;o, a identifica&ccedil;&atilde;o de um corpo im&oacute;vel chama a aten&ccedil;&atilde;o muito r&aacute;pido para elas. Mas a pergunta &eacute;: foram atra&iacute;das pelo cheiro? Foram atra&iacute;das pela vis&atilde;o do corpo? Foram atra&iacute;das pela a&ccedil;&atilde;o de outros predadores no local, pequenos predadores no local? E com que frequ&ecirc;ncia isso acontece naquela regi&atilde;o? Eu sou de cidade do interior, de regi&atilde;o que tinha algumas matas ao redor, ent&atilde;o, aparecer um pequeno animal morto na mata &eacute; extremamente comum, e isso atrai aves de rapina. Ent&atilde;o, com uma certa frequ&ecirc;ncia, elas s&atilde;o atra&iacute;das. O que, nesses lenhadores que est&atilde;o ali, chamou a aten&ccedil;&atilde;o, de especial? Talvez o ac&uacute;mulo de aves de rapina? A grande quantidade de aves de rapina? Pode ser, nesse caso especial. Mas isso pode se dever justamente porque a atra&ccedil;&atilde;o foi se dando ao longo do tempo, t&aacute;? A atra&ccedil;&atilde;o foi se dando ao longo do tempo, e as aves, ent&atilde;o, naquele momento, resolvem atuar. Mas eu diria assim, nesse local, talvez dois dias, especulando, seria o m&iacute;nimo para produzir aquelas altera&ccedil;&otilde;es ambientais ali.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Se ele foi morto na segunda-feira e jogado na segunda-feira, s&oacute; a a&ccedil;&atilde;o do local j&aacute; poderia produzir essas putrefa&ccedil;&otilde;es mais avan&ccedil;adas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Sim. A gente n&atilde;o tem absolutamente nenhuma base para estabelecer que ele estava num local fechado e foi para um local aberto. Porque isso, por si s&oacute;, n&atilde;o modifica a evolu&ccedil;&atilde;o da putrefa&ccedil;&atilde;o. O que modifica a evolu&ccedil;&atilde;o da putrefa&ccedil;&atilde;o s&atilde;o, de um lado, fatores internos do cad&aacute;ver, e de outro lado, as condi&ccedil;&otilde;es ambientais. Mas a putrefa&ccedil;&atilde;o &eacute; basicamente de dentro para fora. Ent&atilde;o, os fatores internos s&atilde;o muito mais importantes do que os fatores externos. Quando a gente vai considerar a a&ccedil;&atilde;o da fauna, a&iacute; sim. Se ele est&aacute; num local fechado, eu n&atilde;o tenho a&ccedil;&atilde;o da fauna, ele est&aacute; protegido. Se ele est&aacute; num local aberto, eu tenho a&ccedil;&atilde;o da fauna porque ele est&aacute; exposto a essa possibilidade. Ent&atilde;o, aqui eu acho que teve uma confus&atilde;o, um pouco de confus&atilde;o, entre o que &eacute; putrefa&ccedil;&atilde;o, que depende basicamente, do ponto de vista ambiental, de dois fatores: calor e umidade, s&atilde;o os dois grandes fatores ambientais que v&atilde;o determinar a velocidade da putrefa&ccedil;&atilde;o, calor e umidade&hellip; O fechado ou aberto s&oacute; &eacute; significativo se ele incide sobre o calor e a umidade. Se ele n&atilde;o incide sobre o calor e umidade, ele n&atilde;o modifica o resultado. Ent&atilde;o, houve uma confus&atilde;o entre o que &eacute; a putrefa&ccedil;&atilde;o aqui e o que &eacute; a a&ccedil;&atilde;o da fauna, que depende muito mais de aberto ou fechado. S&oacute; para tu teres uma ideia, n&oacute;s podemos ter um corpo num quarto fechado com ar-condicionado ligado, que vai retardar a putrefa&ccedil;&atilde;o significativamente se o ar est&aacute; no frio porque ele cria ambiente frio e seco. Mas eu posso ter um corpo tamb&eacute;m com a putrefa&ccedil;&atilde;o bastante retardada se ele estiver num local muito seco, muito quente e muito ventilado. Ambos fechados.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Ent&atilde;o, isso &eacute; uma coisa. A putrefa&ccedil;&atilde;o &eacute; uma coisa, a a&ccedil;&atilde;o dos animais &eacute; outra, ainda que a putrefa&ccedil;&atilde;o chame a fauna e facilite a a&ccedil;&atilde;o da fauna.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o Dr. Sami, a interpreta&ccedil;&atilde;o do Dr. Francisco de que o corpo teria sido armazenado em algum lugar fechado antes de ser descartado n&atilde;o seria exatamente t&atilde;o confi&aacute;vel assim. No m&iacute;nimo, seria um ponto de debate. Na investiga&ccedil;&atilde;o, isso abria mais uma possibilidade: Evandro pode ter sido morto e jogado naquele matagal no mesmo dia em que foi sequestrado. E, com base em todas essas novas leituras, Ivan perguntou ao Dr. Sami se ele conseguia ter uma ideia de qual foi a ordem das les&otilde;es sofridas por Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Eu diria assim, com tudo isso que eu considerei, a minha hip&oacute;tese seria de que ele sofreu uma facada e morreu por causa disso. Todo o resto, todo o resto, &eacute; uma tentativa de oculta&ccedil;&atilde;o do cad&aacute;ver, n&atilde;o de oculta&ccedil;&atilde;o da identidade do cad&aacute;ver. Mas de oculta&ccedil;&atilde;o do cad&aacute;ver como meio de oculta&ccedil;&atilde;o do crime. O que levou &agrave; facada? N&atilde;o tenho a menor ideia. E eu n&atilde;o tiraria da mesa, como eu disse, a possibilidade de viol&ecirc;ncia sexual nesse caso. O que acontece depois? Algu&eacute;m tenta se livrar desse corpo na mesma l&oacute;gica de quem amarra uma pedra e joga no mar ou na lagoa, expondo o corpo para ele desaparecer. E, para mim, infelizmente, &eacute; inevit&aacute;vel fazer links com os outros casos. Porque n&oacute;s sabemos que nesse mesmo local houve sucesso em desaparecer com um corpo, ou um quase sucesso. E o sucesso teria sido total se n&atilde;o fosse o corpo do Evandro ter sido encontrado. O sucesso poderia ter sido total em sumir com outro corpo. Veja, quando a gente pensa nos urubus, nos animais, ningu&eacute;m prestou aten&ccedil;&atilde;o nisso l&aacute; atr&aacute;s. Tinha outro corpo a 200 metros dali, 200 metros. N&atilde;o eram dois quil&ocirc;metros. Ent&atilde;o, quando a gente pensa em todas essas coisas, d&aacute; para tra&ccedil;ar paralelos bem interessantes. Ent&atilde;o, para mim, ele morre por causa de uma facada. Quem praticou o crime busca se livrar do corpo e, assim, ocultar o pr&oacute;prio crime. A motiva&ccedil;&atilde;o para mim &eacute; absolutamente desconhecida. O resto &eacute; o efeito da natureza, propositalmente induzido por quem queria ocultar o corpo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas a gente tem a possibilidade de as m&atilde;os e o escalpelo terem sido a&ccedil;&atilde;o humana? Ou o doutor&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Tem, tem. Eu diria assim, o meu racioc&iacute;nio &eacute; o mesmo do Carl Sagan, que &eacute; uma proposi&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica: exclu&iacute;do o imposs&iacute;vel, todo o resto &eacute; poss&iacute;vel, ainda que improv&aacute;vel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Afirma&ccedil;&otilde;es extraordin&aacute;rias precisam de provas extraordin&aacute;rias.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Provas extraordin&aacute;rias. Ent&atilde;o, eu diria que, na minha opini&atilde;o, &eacute; pouco prov&aacute;vel, mas eu n&atilde;o posso dizer que &eacute; imposs&iacute;vel. Mas n&oacute;s n&atilde;o temos evid&ecirc;ncias extraordin&aacute;rias a sustentar a hip&oacute;tese extraordin&aacute;ria. A hip&oacute;tese ordin&aacute;ria &eacute; aquela com a qual n&oacute;s lidamos todos os dias, que isso tenha sido proposital at&eacute; uma certa medida e a partir dali&hellip; E o que n&oacute;s podemos demonstrar que &eacute; proposital &eacute; a abertura do t&oacute;rax. O resto eu deixaria em &lsquo;stand by&rsquo;. N&atilde;o excluo aqui uma coisa, que realmente n&atilde;o &eacute; uma quest&atilde;o de n&atilde;o excluir, &eacute; uma quest&atilde;o que me parece que h&aacute; elementos suficientes para isso, de que a morte tenha sido produzida num lugar e que ali tenha sido apenas a desova do cad&aacute;ver. Em que momento se deu a morte e em que momento se deu a desova, eu n&atilde;o sei, n&atilde;o arrisco especular sobre tempo em lugar fechado, tempo em lugar aberto. Mas ali n&atilde;o h&aacute; nem elementos para que esse t&oacute;rax tivesse sido aberto no local, n&atilde;o tem sangue, n&atilde;o tem condi&ccedil;&otilde;es ambientais para dizer que esse t&oacute;rax foi aberto no local, com ou sem retirada de &oacute;rg&atilde;os. Mesmo a retirada de &oacute;rg&atilde;os, humana, por a&ccedil;&atilde;o humana, para poder se livrar do corpo e deixar ali exposto, ou retirar e levar, produziria sangue, produziria uma certa sujeira no local, que a gente n&atilde;o encontra. Ent&atilde;o, aquele local &eacute; o local de desova do cad&aacute;ver, n&atilde;o &eacute; o local em que ele foi morto.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Como &eacute; poss&iacute;vel notar nas entrevistas com o Dr. Lipinski e o Dr. Francisco, naquela &eacute;poca, d&eacute;cada de 1990, toda a linha de investiga&ccedil;&atilde;o girava em torno de uma pergunta: qual o motivo desse crime? Essa n&atilde;o &eacute; a postura do Dr. Sami.<\/p>\n\n\n\n<p>Como ele mesmo disse, qualquer discuss&atilde;o em torno de motiva&ccedil;&atilde;o acaba caindo no campo das hip&oacute;teses e suposi&ccedil;&otilde;es. Mas, na &eacute;poca dos crimes, esse era o procedimento padr&atilde;o: por que fizeram isso? Vingan&ccedil;a? Abuso sexual? Pervers&atilde;o? Oculta&ccedil;&atilde;o de identidade? &ldquo;Magia Negra&rdquo;? E, a partir da&iacute;, filtrava-se quais seriam as hip&oacute;teses mais vi&aacute;veis e passava-se a se fazer uma s&eacute;rie de suposi&ccedil;&otilde;es a partir dessa suposta motiva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o passar das d&eacute;cadas, notou-se que esse tipo de metodologia investigativa poderia ser prejudicial. Afinal, por anos, os crimes de Guaratuba foram encarados e aceitos pelas autoridades como um caso de ritual sat&acirc;nico, fruto exatamente daquela metodologia de pensamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, nessa vis&atilde;o do Dr. Sami, abrem-se outras alternativas. E, apesar das d&uacute;vidas se algumas les&otilde;es foram feitas pela natureza ou a&ccedil;&atilde;o humana, duas novas fortes possibilidades aparecem: de que as crian&ccedil;as poderiam ter sido v&iacute;timas de um predador sexual; e de que os meninos de Guaratuba foram deixados naquele estado e local com o intuito de ocultar os corpos em si. Procedimento este que, como o Dr. Sami aponta, seria uma pr&aacute;tica comum entre ca&ccedil;adores no momento que desejam se livrar das carca&ccedil;as de animais.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, seria poss&iacute;vel estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o direta entre os casos dos meninos de Guaratuba e o de Sandra?<\/p>\n\n\n\n<p>Caso sim, a quest&atilde;o da viol&ecirc;ncia sexual seria uma grande pista. E lembrando: assim como no corpo de Evandro, no de Sandra, n&atilde;o foi encontrado nenhum s&ecirc;men, apesar da clara les&atilde;o de abuso que apresentava.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Eu acho que Evandro e Leandro s&atilde;o uma coisa, e Sandra &eacute; outra. Perfis de v&iacute;timas&hellip; Exceto o fato de serem crian&ccedil;as&hellip; H&aacute; alguns fatos excepcionais a&iacute;, que n&atilde;o &eacute; exceto o fato de serem crian&ccedil;as: regi&atilde;o, idade, condi&ccedil;&atilde;o socioecon&ocirc;mica, s&atilde;o pelo menos tr&ecirc;s fatores a&iacute; que unem esses tr&ecirc;s casos. Mas dois meninos de um lado, uma menina de outro. Uma menina com clara viol&ecirc;ncia sexual de um lado. Meninos que&hellip; Eu n&atilde;o excluo no caso do Evandro, mas que n&atilde;o temos maiores elementos para falar em viol&ecirc;ncia sexual. Corpos descartados no mesmo lugar, na mesma regi&atilde;o, talvez com um padr&atilde;o parecido porque&hellip; O problema que n&oacute;s temos no caso do Leandro &eacute; que ele j&aacute; est&aacute; esqueletizado e faltam v&aacute;rias partes do corpo. Ent&atilde;o, eu trataria Leandro e Evandro de um lado, e Sandra do outro. Tamb&eacute;m n&atilde;o encontrei nenhuma conex&atilde;o, salvo engano, n&atilde;o encontrei nenhuma conex&atilde;o de qualquer dos envolvidos nos casos de um lado e de outro, que pudesse estabelecer alguma conex&atilde;o, salvo engano, nesse sentido. Ent&atilde;o, eu diria assim, Sandra para mim &eacute; um perfil de um tipo de crime, de um tipo de criminoso, Evandro e Leandro s&atilde;o outro tipo de crime, outro tipo de criminoso, que tem como grande conex&atilde;o a&iacute; o sucesso&hellip; Para mim, a grande conex&atilde;o entre os dois est&aacute; no sucesso do descarte do corpo do Leandro. Porque at&eacute; a descoberta do corpo do Evandro, o Leandro seria, entre aspas, um case de sucesso para quem matou.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Se a gente&hellip; &Eacute; t&atilde;o dif&iacute;cil falar isso&hellip; Mas, assim&hellip; Surpreenderia o senhor, o doutor, se o mesmo ofensor do Leandro e do Evandro fosse o da Sandra? Seria uma surpresa? Voc&ecirc; n&atilde;o esperaria por isso? Ou voc&ecirc; diz: &ldquo;n&atilde;o, est&aacute; dentro do limite da possibilidade&rdquo;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: N&atilde;o, n&atilde;o surpreenderia. N&atilde;o surpreenderia. Mas a&iacute; n&oacute;s ter&iacute;amos como fio condutor a viol&ecirc;ncia sexual. O fio condutor seria a viol&ecirc;ncia sexual. Porque o caso da Sandra &eacute; nitidamente um caso de agress&atilde;o sexual. Ent&atilde;o, o fio condutor, digamos, o motivador, o moto do agressor, se torna a viol&ecirc;ncia sexual. E n&atilde;o &eacute; absurdo, eu diria que &eacute; at&eacute; plaus&iacute;vel, que eventualmente a gente tenha um agressor que modifica o seu perfil, porque isso faz parte do agressor serial, que ele, digamos, evolua, que ele avance na mudan&ccedil;a do seu padr&atilde;o para aquilo que realmente lhe d&aacute; prazer. Ent&atilde;o, eu n&atilde;o excluiria algu&eacute;m que come&ccedil;a agredindo uma menina antes de criar coragem de partir para os meninos. N&atilde;o &eacute;&hellip; O fato de que ela &eacute; menina e ele &eacute; menino exclui a possibilidade de ter sido o mesmo agressor? N&atilde;o. O que a gente v&ecirc; em agressores seriais &eacute; uma evolu&ccedil;&atilde;o no seu padr&atilde;o de v&iacute;timas, inclusive, n&atilde;o apenas no modus operandi, mas na escolha da v&iacute;tima, que come&ccedil;a com as que s&atilde;o de menor risco para ele &ndash; n&atilde;o apenas o risco t&aacute;tico, o risco de empreender, da empreitada criminosa, mas o risco ps&iacute;quico tamb&eacute;m &ndash; antes de ele evoluir. Ent&atilde;o, eu n&atilde;o excluiria um link entre os tr&ecirc;s casos. Mas, se esse link existir, para mim ele &eacute; de natureza sexual.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Assim, Ivan e Natalia terminaram a primeira reuni&atilde;o com o Dr. Sami, com novas informa&ccedil;&otilde;es que os deixaram apreensivos. De repente, os crimes contra essas crian&ccedil;as ganhavam contornos um pouco mais precisos, que afastavam de vez a influ&ecirc;ncia do p&acirc;nico sat&acirc;nico que marcou o caso Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p>O Dr. Lipinski e o Dr. Francisco s&atilde;o personagens importantes porque estiveram diretamente envolvidos na produ&ccedil;&atilde;o dos laudos, tiveram contato com o corpo de Evandro, possuem informa&ccedil;&otilde;es que nem sempre constam nos documentos oficiais. Ent&atilde;o, h&aacute; coisas que eles falam nos epis&oacute;dios anteriores que s&atilde;o fundamentais para obter pistas, e tamb&eacute;m para entender a mentalidade e condi&ccedil;&otilde;es de trabalho da &eacute;poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, as falas do Dr. Sami servem para tentar olhar para todos esses elementos com uma vis&atilde;o mais atualizada cientificamente, e com um afastamento necess&aacute;rio para ter uma leitura menos contaminada pelas confus&otilde;es do per&iacute;odo.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim das contas, o trabalho de Ivan acaba sendo verificar da melhor maneira poss&iacute;vel o que cada um fala, e ver o que se encaixa melhor. E, com esse intuito, j&aacute; se pode estabelecer algumas novas possibilidades importantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, as les&otilde;es no corpo de Evandro seriam resultado de um esfor&ccedil;o de oculta&ccedil;&atilde;o de cad&aacute;ver, n&atilde;o de sua identidade. E, nas palavras do Dr. Sami, Leandro teria sido um &ldquo;case de sucesso&rdquo;, no qual o ofensor conseguiu dificultar ao m&aacute;ximo a sua localiza&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s de procedimentos que, muito possivelmente, eram parecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo, muitas das les&otilde;es que encontram-se no corpo de Evandro podem ter sido causadas por animais ou a&ccedil;&atilde;o da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>Terceiro, pelo estado de putrefa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o h&aacute; como precisar o tempo que o cad&aacute;ver esteve naquele local. Pode ser que Evandro tenha sido morto na segunda-feira, dia que foi sequestrado. Mas &eacute; seguro dizer que ele n&atilde;o estava l&aacute; h&aacute; poucas horas de quando foi encontrado. No m&iacute;nimo, estaria l&aacute; h&aacute; cerca de dois dias. Isso condiz tamb&eacute;m com as opini&otilde;es do Dr. Francisco e do Dr. Lipinski. Contudo, o Dr. Francisco acreditava que o corpo teria sido armazenado em algum lugar antes de ser jogado l&aacute; &ndash; algo que, de acordo com o Dr. Sami, n&atilde;o teria como ter certeza. Essa &eacute; uma quest&atilde;o de diferen&ccedil;as de interpreta&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a quarta possibilidade nova &eacute; que, se o caso de Sandra estiver realmente conectado, a motiva&ccedil;&atilde;o dos crimes poderia ser de natureza sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>Com tudo isso em mente, ap&oacute;s alguns dias, Ivan, Natalia e o Dr. Sami se reuniram novamente. E, dessa vez, conversaram sobre as poss&iacute;veis rela&ccedil;&otilde;es entre os casos Leandro e Sandra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>LEANDRO E SANDRA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na segunda reuni&atilde;o, os jornalistas decidiram come&ccedil;ar pelo caso de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a>, j&aacute; que era o que provavelmente teria mais rela&ccedil;&otilde;es claras com Evandro. Para quem acompanhou a temporada sobre o caso Evandro, no <a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-evandro\/linhas-do-tempo\/extras-episodio-36\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">epis&oacute;dio 36<\/a>, Ivan fez um esbo&ccedil;o de quais ossos foram encontrados. E, naquele desenho, chamava a aten&ccedil;&atilde;o a aus&ecirc;ncia de alguns deles.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Rascunho-de-esquema-com-ossos-encontrados.png\"><strong>Esbo&ccedil;o com ossos encontrados (em vermelho) &ndash; caso Leandro<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1s6CuYqtTPrK59HyfqtdgLIKaCU8TrQSt\/view\" target=\"_blank\"><strong>Exame cadav&eacute;rico da ossada de Leandro<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&Agrave; primeira vista, a falta das m&atilde;os e dos dedos dos p&eacute;s poderiam ser uma rela&ccedil;&atilde;o direta com Evandro. S&oacute; que havia tamb&eacute;m a aus&ecirc;ncia do f&ecirc;mur direito, que tinha todo o aspecto de ter sido a&ccedil;&atilde;o animal.<\/p>\n\n\n\n<p>E, quando se coloca em perspectiva que a aus&ecirc;ncia de m&atilde;os e dedos dos p&eacute;s de Evandro pode ser por a&ccedil;&atilde;o da natureza, fica mais dif&iacute;cil estabelecer com certeza que o corpo de Leandro tamb&eacute;m sofreu essas mutila&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Vamos para o Leandro, ent&atilde;o, que eu acho que &eacute;, de todos, o mais pobre tamb&eacute;m de elementos que n&oacute;s temos. Porque &eacute; uma ossada em que n&atilde;o foi feito exame de local, pelo que a gente p&ocirc;de levantar. A gente revirou o Paran&aacute; inteiro, procuramos peritos, Pol&iacute;cia Cient&iacute;fica e, ao que tudo indica, n&atilde;o foi feito exame de local mesmo. A gente n&atilde;o sabe responder uma pergunta b&aacute;sica: se a ossada estava vestindo as roupas, ou se elas estavam localizadas pr&oacute;ximo. A gente n&atilde;o tem essa resposta. Mas pelo menos a gente conseguiu com a Pol&iacute;cia Cient&iacute;fica os laudos do exame cadav&eacute;rico completo e do exame odontol&oacute;gico. Da&iacute;, no caso do Leandro, eu acho que antes da gente come&ccedil;ar a fazer as perguntas espec&iacute;ficas, eu gostaria que o doutor falasse as suas impress&otilde;es assim, lendo esses dois laudos que n&oacute;s conseguimos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Confirmando isso que tu dissestes, assim, a per&iacute;cia m&eacute;dico legal recebe uma ossada envolta em saco pl&aacute;stico. Isso, infelizmente, n&atilde;o &eacute; t&atilde;o incomum assim, que ossadas, especialmente no interior, n&atilde;o seja chamada a per&iacute;cia para o local, e sejam recolhidas e enviadas. Isso gera um problema, um primeiro problema, que &eacute; de quais outros elementos &oacute;sseos poderiam existir no local com rela&ccedil;&atilde;o ao que foi encontrado. Ent&atilde;o, o primeiro problema &eacute; esse. O encontro de uma ossada deveria remeter a um estudo arqueol&oacute;gico do local na tentativa de verificar se essa ossada n&atilde;o est&aacute; parcialmente enterrada e se n&atilde;o h&aacute; outros elementos &oacute;sseos pr&oacute;ximos. Ent&atilde;o, a aus&ecirc;ncia da per&iacute;cia de local nos privou de v&aacute;rias coisas. N&atilde;o apenas, eu diria, n&atilde;o apenas da quest&atilde;o das roupas, mas da quest&atilde;o da pr&oacute;pria rela&ccedil;&atilde;o da ossada com o local. A outra quest&atilde;o que eu&hellip; A&iacute; a quest&atilde;o que eu observaria &eacute; que o Leandro tamb&eacute;m n&atilde;o tinha as m&atilde;os. Ele tamb&eacute;m n&atilde;o tinha as m&atilde;os. Mas ele n&atilde;o tinha&hellip; N&atilde;o s&oacute; as m&atilde;os. Por exemplo, do lado esquerdo, faltava todo o antebra&ccedil;o e a m&atilde;o esquerda; e do lado direito, faltava a m&atilde;o direita e faltava mais um conjunto de outros ossos. Ent&atilde;o, de certa forma, fazendo uma correla&ccedil;&atilde;o com o caso do Leandro, a pergunta seria: onde est&atilde;o os outros ossos? Ficaram no local? N&atilde;o foram encontrados?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Acho que falta um f&ecirc;mur tamb&eacute;m, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Falta o f&ecirc;mur direito, falta o osso do p&uacute;bis, falta a t&iacute;bia esquerda. Ent&atilde;o, na verdade&hellip; Faltam os p&eacute;s&hellip; Se a gente pensar numa ossada de uma crian&ccedil;a de oito anos, em termos de m&atilde;os e p&eacute;s, n&oacute;s estamos pensando em ossinhos muito pequenininhos. Ossinhos, alguns com menos de um cent&iacute;metro de di&acirc;metro. Ent&atilde;o, esses ossos poderiam estar ali enterrados, semienterrados, poderiam ter sido levados. Se tivessem sido efetivamente levados, e a gente n&atilde;o encontrasse eles at&eacute;, digamos, um n&iacute;vel de terra compactado&hellip; Que, normalmente, voc&ecirc; faz a pesquisa disso at&eacute; o primeiro n&iacute;vel de terra compactado, naturalmente compactado. Se n&atilde;o estivessem ali, poderia tamb&eacute;m remeter &agrave; quest&atilde;o de os animais terem levado as m&atilde;os, terem levado os p&eacute;s. Tamb&eacute;m n&atilde;o excluiria que tivessem sido retirados. Mas a gente tamb&eacute;m n&atilde;o tem, nesses ossos, maiores detalhes sobre o que eles encontraram. A quest&atilde;o da causa morte ficou em aberto. E eu n&atilde;o sei se a quest&atilde;o da causa morte ficou em aberto porque realmente n&atilde;o tinha nenhum elemento para correlacionar com a causa morte, ou porque eles n&atilde;o tinham capacidade para fazer um estudo antropol&oacute;gico adequado. A mesma quest&atilde;o remetendo ao Evandro. Eu sou sincero, eu adoraria exumar essas duas ossadas hoje. Porque se a gente est&aacute; pensando, por exemplo, em ossos serrados ou at&eacute; em corte no couro cabeludo, dificilmente tu consegue fazer um corte no couro cabeludo sem deixar uma marca da l&acirc;mina no osso em algum momento, ter mantido ela t&atilde;o superficial que n&atilde;o deixasse nenhuma marca no osso. Ent&atilde;o, do Leandro, me chama a aten&ccedil;&atilde;o isso: a aus&ecirc;ncia da per&iacute;cia do local, que prejudicou n&atilde;o apenas a quest&atilde;o dos achados de local em geral, mas do pr&oacute;prio achado da ossada; a falta de v&aacute;rios elementos &oacute;sseos, que n&oacute;s n&atilde;o temos como saber se foram degradados pelo ambiente ou se foram levados por animais, ou se permaneceram no local. N&atilde;o &eacute; incomum que alguma coisa permane&ccedil;a no local, porque quem recolhe n&atilde;o &eacute; exatamente um especialista nisso. E a quest&atilde;o da causa morte tamb&eacute;m, que, sem ter um bom exame, um exame antropol&oacute;gico adequado dos ossos, para mim fica em aberto se realmente a ossada era pobre e n&atilde;o poderia nos informar nada, ou se alguma les&atilde;o possa ter passado despercebida durante o exame por quem n&atilde;o estava qualificado para fazer isso. Esse &eacute; o problema que a gente tem, na verdade, com as duas ossadas que foram encontradas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Deixa eu tirar uma d&uacute;vida com o doutor. Exames antropol&oacute;gicos dessa natureza que o doutor gostaria j&aacute; eram comuns em 1992 ou n&atilde;o, assim? &Eacute; uma coisa recente?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: N&atilde;o. N&atilde;o eram comuns. Se a gente pensar que a equipe, a maior equipe de antropologia forense da Am&eacute;rica Latina, e quem efetivamente distribuiu o know how dessa &aacute;rea, foi fundada em 1987 na Argentina&hellip; A Am&eacute;rica Latina n&atilde;o tinha esse know how. Os estudos antropol&oacute;gicos na &eacute;poca eram grosseiros, grosseiros. Quando muito, para estimar, para estabelecer perfil biol&oacute;gico, sexo, estatura, caracter&iacute;sticas gerais do corpo. Mas n&atilde;o eram detalhados no n&iacute;vel que a gente tem hoje. Isso foi um know how que veio para a Am&eacute;rica Latina no final dos anos 80, in&iacute;cio dos anos 90, via equipe argentina de antropologia forense, que foi depois quem fundou a Associa&ccedil;&atilde;o Latino-americana de Antropologia Forense. E esse know how acabou chegando no Brasil tamb&eacute;m. Mas, nessa &eacute;poca, o n&iacute;vel que n&oacute;s temos hoje estava rec&eacute;m come&ccedil;ando a ser constru&iacute;do aqui, e com a ajuda dos norte-americanos. Quem tinha esse know how eram os norte-americanos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Em que ano ou per&iacute;odo o doutor considera que, ok, a partir desse momento, est&aacute; estabelecida a antropologia forense como uma &aacute;rea importante, e isso aqui passa a ser padr&atilde;o? Eu sei que tem muitos lugares do Brasil em que n&atilde;o &eacute; ainda, mas, assim, que a gente melhora um pouco nesse per&iacute;odo&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: No Brasil, n&oacute;s n&atilde;o chegamos nesse ponto, Ivan. N&oacute;s temos um s&eacute;rio problema no Brasil hoje que &eacute; o seguinte: enquanto os outros pa&iacute;ses t&ecirc;m forma&ccedil;&atilde;o numa &aacute;rea chamada de antropologia f&iacute;sica, o Brasil n&atilde;o tem forma&ccedil;&atilde;o em antropologia f&iacute;sica. N&oacute;s formamos antrop&oacute;logos culturais e n&atilde;o antrop&oacute;logos f&iacute;sicos. Ent&atilde;o, quem come&ccedil;ou a ocupar o espa&ccedil;o que seria da antropologia f&iacute;sica nesse trabalho, digamos, nos &uacute;ltimos 15 anos, 20 anos, foram os odont&oacute;logos forenses. De 15 a 20 anos para c&aacute;, foi o pessoal da odontologia forense que come&ccedil;ou a ocupar esse espa&ccedil;o porque j&aacute; fazia odontologia forense nas ossadas antes, e foi meio que natural j&aacute; que eles j&aacute; estavam vinculados &agrave;s ossadas, e os m&eacute;dicos legistas&hellip; Poucos se interessavam pelo assunto. Mas n&oacute;s temos uma caminhada ainda pela frente em termos de Brasil, viu? A pr&oacute;pria odonto forense nessa &aacute;rea, no Brasil, ainda deixa um pouco a desejar. Tem uma equipe boa da Pol&iacute;cia Federal, da per&iacute;cia criminal federal, que se formou a&iacute; nesses &uacute;ltimos 15, 20 anos, e at&eacute; em fun&ccedil;&atilde;o de todos os programas de desastres de massas e tudo mais, mas em termos de per&iacute;cias estaduais n&oacute;s temos&hellip; Eu te diria que, assim, n&oacute;s temos a&iacute; dois ou tr&ecirc;s estados com equipe dedicada e o resto corre atr&aacute;s do preju&iacute;zo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. &Eacute;. Bom, ent&atilde;o, dentro dessas limita&ccedil;&otilde;es da &eacute;poca, que n&oacute;s temos, o doutor apontou bem que n&oacute;s temos a ossada do Leandro, ent&atilde;o, faltando v&aacute;rios ossos, inclusive do bra&ccedil;o esquerdo, do antebra&ccedil;o, perd&atilde;o, esquerdo. N&oacute;s temos faltando o f&ecirc;mur direito. S&atilde;o ossos grandes, n&eacute;? Desses ossos grandes, pode ser a&ccedil;&atilde;o animal, que foram retirados aqueles ossos&hellip; Estou supondo, n&eacute;? Mas podem ter sido tamb&eacute;m cortados&hellip; &Eacute; que, assim, o f&ecirc;mur direito me chama a aten&ccedil;&atilde;o porque se tirar o f&ecirc;mur, mas botar a perna ali, a t&iacute;bia, o tarso, n&atilde;o me faz sentido&hellip; Ent&atilde;o, &eacute; muito prov&aacute;vel que tenha sido retirado do local por algum animal, por exemplo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Sim. A dificuldade&hellip; Quando a gente encontra uma ossada incompleta, na aus&ecirc;ncia de sinais evidentes de que os ossos tenham sido cortados, na aus&ecirc;ncia de sinais evidentes disso, &eacute; virtualmente imposs&iacute;vel saber&hellip; &Eacute; imposs&iacute;vel, na verdade, saber quem nasceu primeiro ali, o ovo ou a galinha. Quer dizer, veio um animal e retirou, arrancou um peda&ccedil;o? Primeiro houve a putrefa&ccedil;&atilde;o e a esqueletiza&ccedil;&atilde;o, porque quando tu tem a esqueletiza&ccedil;&atilde;o completa, os ossos soltam naturalmente, e depois esse osso foi perdido? O que aconteceu primeiro? Vem um animal e retira um peda&ccedil;o? Ou ocorre a esqueletiza&ccedil;&atilde;o, e o osso solto, depois vem o animal e retira? Eventualmente, a gente consegue identificar esses fen&ocirc;menos quando tu encontra, por exemplo, uma ossada que tem um cr&acirc;nio pr&oacute;ximo; e que o cr&acirc;nio, tu consegue, pelas condi&ccedil;&otilde;es do local, pelas caracter&iacute;sticas do local, dizer: &ldquo;olha, este cr&acirc;nio se descolou e deslizou para outra posi&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Ent&atilde;o, eu sei que este cr&acirc;nio n&atilde;o foi arrancado, ele deslizou quando houve a completa esqueletiza&ccedil;&atilde;o e o rompimento dos ligamentos, dos &uacute;ltimos ligamentos que prendiam o cr&acirc;nio no local. Agora, fora isso, nessas circunst&acirc;ncias, qualquer coisa pode ter acontecido primeiro. Pode ter havido a&ccedil;&atilde;o de animal, veio, retira tecido mole, retira o osso e leva junto, e o que ficou, ficou. Pode ter tido a putrefa&ccedil;&atilde;o e esqueletiza&ccedil;&atilde;o primeiro e os animais v&ecirc;m depois. Pode algum osso ter sido cortado, e o fragmento que ficou tamb&eacute;m ter desaparecido por a&ccedil;&atilde;o animal ou porque ficou l&aacute; no mato, na retirada dos ossos. Quer dizer, a sequ&ecirc;ncia dos eventos, n&oacute;s n&atilde;o temos como fazer o traceback, n&eacute;? Rastrear para tr&aacute;s a sequ&ecirc;ncia de eventos que levou a essa perda de fragmentos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Perfeito. Acho que a d&uacute;vida desses ossos menores, por exemplo, dos dedos, das m&atilde;os, dos p&eacute;s, que est&atilde;o faltando, a gente sabe que &eacute; poss&iacute;vel a a&ccedil;&atilde;o humana, &eacute; poss&iacute;vel a a&ccedil;&atilde;o animal. Mas eu queria saber: &eacute; poss&iacute;vel tamb&eacute;m a&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio ambiente? Imaginando que essa ossada ficou por um ano l&aacute;. Isso &eacute; tempo suficiente para o osso desaparecer por a&ccedil;&atilde;o do solo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Degradar, sim. N&oacute;s estamos frente a uma crian&ccedil;a que tem um osso muito pouco calcificado ainda, esse osso &eacute; basicamente tecido fibroso com c&aacute;lcio. Pode ocorrer ali a descalcifica&ccedil;&atilde;o e a completa destrui&ccedil;&atilde;o desse fragmento &oacute;sseo. Isso &eacute; mais dif&iacute;cil em adultos e mesmo assim acontece. Mas em crian&ccedil;as &eacute; muito f&aacute;cil. Tendo as condi&ccedil;&otilde;es ambientais apropriadas ali, eu te diria que, considerando o tempo transcorrido, um pequeno fragmento de osso pode ter ficado ali perdido na vegeta&ccedil;&atilde;o, levemente enterrado, alguns poucos cent&iacute;metros&hellip; Porque basta o ac&uacute;mulo de &aacute;gua, lama, &aacute;gua, lama, &aacute;gua, lama&hellip; Cobre aquilo que antes estava exposto&hellip; E ele pode ter degradado completamente. Especialmente esses ossinhos menores que t&ecirc;m um componente de matriz de c&aacute;lcio, um componente mineral muito pequeno e muito fr&aacute;gil. Perfeitamente podem ter sido degradados ali. Mais dif&iacute;cil isso ocorrer com um f&ecirc;mur ou uma t&iacute;bia. Mais dif&iacute;cil, mas n&atilde;o imposs&iacute;vel. Mas pode ter ocorrido.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ainda mais levando em considera&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m que &eacute; uma regi&atilde;o muito &uacute;mida, &eacute; um banhad&atilde;o aquele matagal. Chove muito, ele acumula &aacute;gua, a vegeta&ccedil;&atilde;o cresce em volta, ent&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Exatamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, as aus&ecirc;ncias das m&atilde;os e dos p&eacute;s na ossada de Leandro n&atilde;o necessariamente significam que foram arrancados por a&ccedil;&atilde;o humana. Pode ter sido at&eacute; mesmo por degrada&ccedil;&atilde;o natural do solo nesses ossos menores.<\/p>\n\n\n\n<p>Com base nas provas existentes, o que mais liga com certeza os casos de Evandro e Leandro s&atilde;o as datas pr&oacute;ximas que os garotos desapareceram, o local onde eles foram encontrados e suas semelhan&ccedil;as f&iacute;sicas. Pelas les&otilde;es em si, pouca coisa se sabe. E a &uacute;nica mutila&ccedil;&atilde;o que se tem certeza de que foi a&ccedil;&atilde;o humana em Evandro, que foram as costelas cortadas, n&atilde;o estava presente na ossada de Leandro.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mat&eacute;ria publicada no jornal Folha de Londrina, em 9 de mar&ccedil;o de 1993, faz uma rela&ccedil;&atilde;o entre as costelas cortadas de Evandro com a aus&ecirc;ncia de um dos ossos de Leandro: o esterno, que fica bem na frente do t&oacute;rax. Pela reportagem, dava-se a entender que essa poderia ser uma poss&iacute;vel rela&ccedil;&atilde;o entre os casos.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-file\"><a id=\"wp-block-file--media-24da5c8e-5f12-4370-9a19-84a76ac8adf7\" href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/12\/1993-03-09-Folha-de-Londrina-1-1.jpeg\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Mat&eacute;ria do jornal Folha de Londrina (9 de mar&ccedil;o de 1993)<\/strong><\/a><\/div>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Da&iacute; eu tenho essa d&uacute;vida do osso do esterno tamb&eacute;m. Porque da&iacute; tinha essa discuss&atilde;o&hellip; Isso apareceu em mat&eacute;rias da &eacute;poca, t&aacute;? Que eu acho que foi uma barrigada dos jornalistas&hellip; Mas que ele fala: &ldquo;chamou a aten&ccedil;&atilde;o que a ossada encontrada estava sem o esterno e isso aproximaria o caso do Evandro, que estava com as costelas abertas&rdquo;. S&oacute; que da&iacute; eu lembrei j&aacute;&hellip; N&atilde;o, mas o esterno de uma crian&ccedil;a &eacute; super poroso ainda, ele pode se degradar com o tempo numa condi&ccedil;&atilde;o como essa. Ent&atilde;o, acho que&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Para come&ccedil;ar, s&atilde;o tr&ecirc;s ossos, n&eacute;? Para come&ccedil;ar, o esterno s&atilde;o tr&ecirc;s ossos na crian&ccedil;a, n&atilde;o &eacute; um s&oacute;, j&aacute; come&ccedil;a por a&iacute;. S&atilde;o tr&ecirc;s fragmentos de ossos. Depois, &eacute; um osso que, na sua por&ccedil;&atilde;o central, ainda tem medula &oacute;ssea na crian&ccedil;a. Ou seja, ele n&atilde;o &eacute; todo osso. Ele ainda tem capacidade de produ&ccedil;&atilde;o de tecido vascular. Em cima disso, tem uma camadinha de osso, que ele &eacute; perfeitamente tranquilo de ser reabsorvido ali, de ser degradado completamente e desaparecer. Eu n&atilde;o faria o v&iacute;nculo com base nisso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute;. Porque, do Evandro, o que a gente consegue dizer com certeza que foi a&ccedil;&atilde;o humana s&atilde;o os cortes nos arcos costais, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Exatamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Coisa que n&atilde;o temos aqui no Leandro, pelo que o laudo nos mostra. Correto?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: O laudo&hellip; Ele deixa&hellip; Ele descreve a presen&ccedil;a de 17 arcos costais. Mas n&atilde;o nos descreve, digamos, a condi&ccedil;&atilde;o de degrada&ccedil;&atilde;o desses arcos costais. Mas, ao mesmo tempo, n&atilde;o descreve nenhuma les&atilde;o corto-contundente, cortante, nada disso, naqueles arcos costais; que, salvo absoluta, digamos, imper&iacute;cia de quem examinou isso, n&atilde;o seriam les&otilde;es que passariam despercebidas. Realmente n&atilde;o seriam les&otilde;es que passariam despercebidas, esses arcos costais terem sido cortados.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim. O que ele faz aqui&hellip; Ou seja, o que o doutor est&aacute; falando &eacute;: se aparecesse ali algum sinal de corte, o m&eacute;dico legista teria que colocar isso, alguma men&ccedil;&atilde;o, pelo menos, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Sim, sim. Ele deve ter visto ali a termina&ccedil;&atilde;o do osso e m&iacute;nimas condi&ccedil;&otilde;es, porque, sen&atilde;o, aquilo que estava no Leandro n&atilde;o passaria&hellip; Aquilo que estava no Evandro, perd&atilde;o, n&atilde;o passaria despercebido no Leandro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Claro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Ent&atilde;o, realmente, faltavam arcos costais, mas o que tinha, eles teriam visto.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute;. E o que ele faz aqui para garantir alguma no&ccedil;&atilde;o, pelo menos, &eacute; que o menor arco costal mede 36 mil&iacute;metros de extens&atilde;o e o maior 168 mil&iacute;metros. Por esse c&aacute;lculo, a gente consegue entender que os arcos costais estariam completos, eles n&atilde;o teriam sido cortados, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Isso. Exatamente. Ele examinou e mediu, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>E, por essa medi&ccedil;&atilde;o, entende-se que os arcos costais n&atilde;o foram cortados. Eles estavam &iacute;ntegros. N&atilde;o havia nivelamento e regularidade, como no caso de Evandro. Ent&atilde;o, novamente, o que leva a ligar esses dois casos n&atilde;o s&atilde;o as condi&ccedil;&otilde;es dos ossos ou aus&ecirc;ncia de alguns deles. Talvez, se essa ossada fosse encontrada hoje, poderia ser submetida a exames antropol&oacute;gicos mais detalhados. Se tiv&eacute;ssemos conhecimento de onde essa ossada est&aacute; hoje, ela poderia ser melhor examinada para tirar essas d&uacute;vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, como j&aacute; foi explicado no <a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/extras-episodio-05-preludio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">epis&oacute;dio 5<\/a> do Prel&uacute;dio, a ossada se perdeu. E com ela, foi-se embora tamb&eacute;m qualquer esperan&ccedil;a para se obter mais informa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela&ccedil;&atilde;o ao caso de Sandra, no <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/extras-episodio-04\/\" target=\"_blank\">epis&oacute;dio 4<\/a>, Ivan citou algumas les&otilde;es que ela apresentava, como o arrancamento da m&aacute;scara facial, a aus&ecirc;ncia de m&atilde;os e as marcas de viol&ecirc;ncia sexual que ela sofreu &ndash; que, pela avalia&ccedil;&atilde;o do Dr. Francisco no epis&oacute;dio anterior, teria ocorrido pouco antes de ela ser morta.<\/p>\n\n\n\n<p>Sandra n&atilde;o apresentava nenhum sinal de facada. N&atilde;o estava com o ventre aberto. Estava com todos os &oacute;rg&atilde;os internos. Ent&atilde;o, se foi o mesmo assassino, houve uma evolu&ccedil;&atilde;o entre o seu caso e o de Evandro. Mas h&aacute; outros detalhes no corpo de Sandra que n&atilde;o foram revelados no epis&oacute;dio 4. Alguns deles Ivan s&oacute; p&ocirc;de perceber na conversa com o Dr. Sami, que tamb&eacute;m se preocupou em tentar verificar poss&iacute;veis semelhan&ccedil;as.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Um ponto em comum. Ela desaparece dia 4, aparece dia 12, um lapso de tempo tamb&eacute;m muito semelhante a dos outros, oito dias. O que n&oacute;s temos de interessante dela? Bom, primeiro n&oacute;s temos de interessante que o corpo &eacute; encontrado, digamos, &iacute;ntegro, mas faltando a m&atilde;o direita, o antebra&ccedil;o esquerdo e as orelhas. Ent&atilde;o, esses elementos, al&eacute;m dos olhos que tamb&eacute;m n&atilde;o estavam presentes no corpo&hellip; Vestida, com a cal&ccedil;a vestida pelo avesso&hellip; Chama a aten&ccedil;&atilde;o. Pouco sangue no local, que tamb&eacute;m seria um local de desova do corpo. Com algumas manchas verdes pelo corpo, ent&atilde;o j&aacute; iniciando uma putrefa&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o &eacute; compat&iacute;vel com todo esse lapso temporal. Por mais que a gente estique as manchas verdes pelo corpo, n&oacute;s chegar&iacute;amos a&iacute;&hellip; N&oacute;s estamos no m&ecirc;s de junho&hellip; Ent&atilde;o, o frio&hellip; 36 horas. Estourando, muito frio, 48 horas, que n&atilde;o &eacute; compat&iacute;vel com os oito dias do desaparecimento dela. Que mais? Manchas verdes, circula&ccedil;&atilde;o p&oacute;stuma&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Deixa eu fazer essa pergunta das manchas verdes, ent&atilde;o. Essas manchas verdes indicam que ela foi morta h&aacute; quanto tempo, do encontro do corpo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: A mancha verde &eacute; um dos primeiros&hellip; &Eacute; um dos sinais de putrefa&ccedil;&atilde;o, &eacute; um dos primeiros sinais de putrefa&ccedil;&atilde;o que aparecem, e eles dependem muito do ambiente, temperatura e umidade, principalmente temperatura. Ent&atilde;o, em lugares mais quentes, ela come&ccedil;a a aparecer com 18 a 24 horas; em locais mais frios, mais em torno das 24 horas, talvez um pouco mais. Ent&atilde;o, se n&oacute;s pegarmos aqui que estamos no m&ecirc;s de junho no Paran&aacute;, a gente pode jogar&hellip; Eu n&atilde;o cheguei a verificar qual era a temperatura da &eacute;poca, mas a gente vai jogar a&iacute; para mais de 24 horas, mas n&atilde;o vamos exceder 48 horas, 36 horas. Mas isso vem da per&iacute;cia de local. A per&iacute;cia necrosc&oacute;pica j&aacute; apresenta sinais de circula&ccedil;&atilde;o p&oacute;stuma. Ent&atilde;o, significa&hellip; Circula&ccedil;&atilde;o p&oacute;stuma significa que o corpo j&aacute; tem algum incha&ccedil;o, ele est&aacute; j&aacute; na fase gasosa de putrefa&ccedil;&atilde;o, isso &eacute; mais para 36 horas. Ent&atilde;o, vamos l&aacute;, 36, 48 horas, caberia bem aqui, considerada a temperatura da &eacute;poca do ano. No m&aacute;ximo, 48 horas de morte.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ou seja, ela &eacute; sequestrada, mantida viva em algum lugar, morta e jogada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: E jogada. Ent&atilde;o, ela vai morrer ali no m&aacute;ximo dois dias antes do dia do encontro do cad&aacute;ver. Se ela foi encontrada dia 12, ela deve ter morrido l&aacute; pelo dia 10. Ela, de alguma forma, foi mantida em cativeiro nesse per&iacute;odo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Sandra sumiu no domingo, dia 4 de junho de 1989. Seu corpo foi encontrado em uma segunda-feira, dia 12. Ent&atilde;o, de acordo com o Dr. Sami, ela deve ter sido assassinada dois dias antes &ndash; em 10 de junho, um s&aacute;bado.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: A per&iacute;cia encontra sinais indiscut&iacute;veis de estupro. Ela encontra efetivamente lacera&ccedil;&atilde;o anterior do reto e posterior da vagina, ent&atilde;o ela nitidamente foi estuprada. Considerando o porte f&iacute;sico dela, ou por um adulto, um p&ecirc;nis ereto, ou por um objeto. N&atilde;o tem como saber se foi um p&ecirc;nis ereto ou introduzido algum objeto. E a&iacute; n&oacute;s temos as outras caracter&iacute;sticas, ent&atilde;o, do que est&aacute; descrito como uma incis&atilde;o bimastoideana. Ou seja, um corte que &eacute; muito utilizado em necro, que &eacute; o corte que vai de orelha a orelha, vai de orelha a orelha. De novo, Ivan, aparece para mim um outro elemento que remete &agrave; necropsia m&eacute;dico legal. Lembra que quando n&oacute;s falamos do Evandro, eu comentei que aquele corte de costelas me lembrava o corte feito nos necrot&eacute;rios, n&eacute;? Um pouco mais amplo, um pouco menos amplo, mas um padr&atilde;o de corte feito em necrot&eacute;rio. Essa incis&atilde;o bimastoideana que est&aacute; descrita na necropsia dela, feita com uma l&acirc;mina de orelha a orelha, tamb&eacute;m &eacute; outro corte caracter&iacute;stico de necrot&eacute;rio, t&aacute;? Que pareceria que algu&eacute;m est&aacute; usando ou se aproximando das t&eacute;cnicas m&eacute;dico legais. N&atilde;o parece ser um corte de algu&eacute;m que pretendesse retirar o escalpo inteiro porque justamente est&aacute; seccionando o escalpo de fora a fora. Esse corte permite que se retire ou o escalpo, ou s&oacute; o couro cabeludo, mas ele permite que se avance sobre o rosto. Com essa incis&atilde;o d&aacute; para ir descolando e retirar todo o rosto.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Vale lembrar que o Dr. Francisco afirmava que o corpo de Evandro teria tamb&eacute;m marcas de uma incis&atilde;o bimastoideana, e que n&atilde;o necessariamente ele colocaria isso no laudo de necropsia.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: N&atilde;o sei se foi um ensaio, se o objetivo era esse. Mas, aparentemente, a tarefa fica pela metade. A tarefa come&ccedil;a e fica pela metade. Tem o esgorjamento, e fica questionado se ela foi esgorjada, ou seja, se a l&acirc;mina tamb&eacute;m cortou o pesco&ccedil;o ou n&atilde;o cortou o pesco&ccedil;o. Da&iacute; a pergunta seria: o corte no pesco&ccedil;o &eacute;&hellip; O objetivo do corte no pesco&ccedil;o &eacute; matar ou o objetivo de um eventual corte no pesco&ccedil;o &eacute; completar a incis&atilde;o de orelha a orelha, e retirar uma m&aacute;scara facial completa? S&atilde;o quest&otilde;es que ficam para mim indefinidas. Mas a necropsia descreve o arrancamento de ambas as m&atilde;os, e descreve a incis&atilde;o bimastoideana. O arrancamento poderia remeter a semelhan&ccedil;as com os outros casos, a incis&atilde;o bimastoideana tamb&eacute;m, ela n&atilde;o est&aacute; exclu&iacute;da. Mas sem examinar em detalhes os cr&acirc;nios, os outros cr&acirc;nios, fica dif&iacute;cil estabelecer, mas ela me remete a essa t&eacute;cnica que &eacute; tamb&eacute;m uma t&eacute;cnica usada em necrot&eacute;rio. A grosso modo, olhando assim&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Eu queria, da&iacute;&hellip; Acho que essa era uma das minhas grandes d&uacute;vidas: partindo da hip&oacute;tese desses tr&ecirc;s casos estarem relacionados, ser a mesma pessoa, qual &eacute; a diferen&ccedil;a da t&eacute;cnica feita para o hipot&eacute;tico escalpo do Evandro e para o que a gente viu no caso da Sandra? Qual &eacute; o mais complexo? Um &eacute; continua&ccedil;&atilde;o do outro? Um prepara para o outro? Como a gente consegue ver, dentro dessa hip&oacute;tese?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Bom, trabalhando com essa hip&oacute;tese, a incis&atilde;o bimastoideana pode ser o come&ccedil;o de tudo. Ou seja, o que n&oacute;s sabemos &eacute; que o Evandro n&atilde;o tinha couro cabeludo, certo? E que ele tinha o que pode ser uma incis&atilde;o ou pode ser o resultado da pr&oacute;pria a&ccedil;&atilde;o dos animais no n&iacute;vel do superc&iacute;lio, no n&iacute;vel das sobrancelhas; ent&atilde;o, separando o rosto do couro cabeludo. A incis&atilde;o bimastoideana pode ser exatamente o come&ccedil;o disso. Porque, tecnicamente, o que a gente faz no necrot&eacute;rio? A gente faz a incis&atilde;o bimastoideana e vai descolando o couro cabeludo para frente at&eacute; o n&iacute;vel das sobrancelhas e dobra esse couro cabeludo para frente. Atr&aacute;s, se faz a mesma coisa, vai descolando para tr&aacute;s at&eacute; o n&iacute;vel do osso occipital, atr&aacute;s, dobra para tr&aacute;s, e isso permite ter acesso &agrave; c&uacute;pula craniana, o cr&acirc;nio exposto pronto para ser cortado e haver a exposi&ccedil;&atilde;o do enc&eacute;falo. Ent&atilde;o, eu te diria: qual &eacute; a possibilidade de que essa tenha sido a primeira manobra? Digamos que, na hip&oacute;tese de que do Evandro tenha sido tudo por uma incis&atilde;o, ele tenha sido efetivamente escalpelado, a t&eacute;cnica poderia ter iniciado por a&iacute;. Ou seja, quem escalpelou fez a bimastoideana, faz&hellip; O couro cabeludo para frente e corta no n&iacute;vel das sobrancelhas. &Eacute; perfeitamente poss&iacute;vel. At&eacute;, eu diria, eventualmente, para<\/em> <em>quem&hellip; Dependendo da experi&ecirc;ncia da pessoa, eventualmente &eacute; at&eacute; mais f&aacute;cil<\/em> <em>para retirar, ir descolando do meio para os bordos e depois retirar os bordos. &Eacute;<\/em> <em>perfeitamente fact&iacute;vel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o, falando em termos leigos, a bimastoideana, se eu bem entendo, &eacute;: eu pego um bisturi e eu come&ccedil;o a fazer o corte aqui do lado do cr&acirc;nio, acima das orelhas e vou passando aqui por cima?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: &Eacute; exatamente&hellip; A l&acirc;mina passaria exatamente por onde est&aacute; o teu fone de ouvido. Pelo suporte do fone de ouvido. Come&ccedil;a&hellip; Ela come&ccedil;a&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aqui por cima?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Exatamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse momento, eles estavam acompanhando com o dedo o arco do fone de ouvido na cabe&ccedil;a de Ivan. Esse &eacute; o desenho de uma incis&atilde;o bimastoideana, que foi explicada no epis&oacute;dio passado.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: De orelha a orelha?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: De orelha a orelha. Depois, tu s&oacute; vai dobrando para frente e dobrando para tr&aacute;s. Depois que dividiu a cabe&ccedil;a no meio, dobra para tr&aacute;s, dobra para frente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E, da&iacute;, se eu quiser fazer o escalpo, ent&atilde;o eu passo a bimastoideana aqui em cima, de orelha a orelha, da&iacute; eu passo&hellip; Abro o couro para ter acesso &agrave; caixa craniana. A&iacute;, se eu quiser fazer o escalpo, eu s&oacute; passo o bisturi da linha da orelha para frente, de cima das sobrancelhas, e depois aqui pela nuca? E depois aqui pela nuca, aqui atr&aacute;s&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Isso. D&aacute; para fazer de orelha a orelha pela frente, de orelha a orelha por tr&aacute;s, e se retira o couro cabeludo em duas fra&ccedil;&otilde;es, em dois fragmentos, dois grandes fragmentos. Pode ter sido a t&eacute;cnica utilizada? Olha, se a gente pensasse que a Sandra &eacute; o come&ccedil;o e o Evandro &eacute; final, &eacute; uma hip&oacute;tese v&aacute;lida.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Por que o que acontece, da Sandra? Pode ter sido que ele tenha sido mais agressivo, assim? Porque, da&iacute;, como est&aacute; todo o couro cabeludo&hellip; A m&aacute;scara facial retirada&hellip; Eu imagino que pode ter sido&hellip; Faz a bimastoideana, come&ccedil;a a puxar o couro cabeludo e j&aacute; arranca toda a m&aacute;scara facial.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Precisa continuar, para retirar a m&aacute;scara facial, precisa continuar cortando, t&aacute;? Tu n&atilde;o consegue arrancar, tu precisa continuar trabalhando com o bisturi embaixo disso. Mas o acesso para a retirada da m&aacute;scara facial&hellip; Ou ele se d&aacute; de baixo para cima pelo pesco&ccedil;o ou ele se d&aacute; de cima para baixo pela bimastoideana. Ou vai do pesco&ccedil;o de baixo para cima ou vem de cima para baixo. A pergunta aqui seria se a inten&ccedil;&atilde;o era o couro cabeludo ou o rosto, ou a m&aacute;scara facial, ou preservar o rosto&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No inqu&eacute;rito do caso Sandra, por algum motivo, um dos delegados fez algo incomum: pediu para que fosse anexado n&atilde;o apenas o laudo da necropsia, mas tamb&eacute;m o rascunho feito pelo m&eacute;dico.<\/p>\n\n\n\n<p>O rascunho &eacute; produzido durante o exame. Geralmente, o legista est&aacute; examinando o corpo, acompanhado por um auxiliar. Durante o procedimento, o m&eacute;dico fala coisas para o auxiliar anotar. Depois, essas anota&ccedil;&otilde;es s&atilde;o passadas a limpo, e o rascunho fica arquivado.<\/p>\n\n\n\n<p>No laudo final, o m&eacute;dico tem que tomar cuidado de s&oacute; colocar aquilo que ele tem certeza, que pode fundamentar. Por isso, n&atilde;o &eacute; incomum o rascunho conter afirma&ccedil;&otilde;es, d&uacute;vidas ou pensamentos que est&atilde;o passando pela cabe&ccedil;a do legista na hora do exame &ndash; diferente do laudo final, que deve ser o mais t&eacute;cnico poss&iacute;vel.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Ivan, foi a primeira vez que ele viu um rascunho, escrito &agrave; m&atilde;o, anexado em um inqu&eacute;rito. E, ao ler o rascunho, conseguiu entender melhor o motivo de ele estar l&aacute;. Especialmente em um longo trecho escrito &agrave; m&atilde;o onde havia uma anota&ccedil;&atilde;o ao lado, dizendo &ldquo;n&atilde;o bater&rdquo; &ndash; o que significa &ldquo;n&atilde;o bater na m&aacute;quina de escrever&rdquo;. Em outras palavras, aquele trecho n&atilde;o deveria constar na vers&atilde;o finalizada.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E o doutor chegou a ler o rascunho com aquela anota&ccedil;&atilde;o que o m&eacute;dico faz? Porque o rascunho&hellip; Acho que foi uma das partes mais interessantes, assim. E eu achei prudente at&eacute; o m&eacute;dico falar para n&atilde;o bater aquele trecho no laudo final, porque claramente era o que estava se passando na cabe&ccedil;a dele quando estava olhando aqui. Eu achei legal, assim&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Eu li esse rascunho, eu li esse rascunho, mas n&atilde;o estou lembrado agora do que est&aacute; escrito no rascunho.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Eu vou compartilhar aqui a transcri&ccedil;&atilde;o que a gente tem. Olha s&oacute;, isso aqui ele fala para n&atilde;o bater. Est&aacute; escrito &agrave; m&atilde;o, aqui &eacute; a transcri&ccedil;&atilde;o que a gente fez. &ldquo;A incis&atilde;o bimastoideana do couro cabeludo com rebatimento e ex&eacute;rese da pele, a incis&atilde;o em V na altura no man&uacute;brio esternal, a retirada das gl&acirc;ndulas salivares e o arrancamento das m&atilde;os foram, ao que parece, realizados por pessoa afeita ou pelo menos informada em rela&ccedil;&atilde;o aos procedimentos m&eacute;dico legais, pelas caracter&iacute;sticas das incis&otilde;es, e<\/em> <em>tamb&eacute;m &agrave;s implica&ccedil;&otilde;es m&eacute;dico legais. A retirada das gl&acirc;ndulas salivares dificulta o trabalho da qu&iacute;mica legal, e a retirada das impress&otilde;es digitais prejudica a identifica&ccedil;&atilde;o em crian&ccedil;a de 11 anos? E as roupas n&atilde;o seriam elemento para a identifica&ccedil;&atilde;o? Portanto, tal ato hediondo parece ter sido cometido por psicopata com informa&ccedil;&otilde;es m&eacute;dico legais&rdquo;. Eu achei interessante isso porque voc&ecirc; v&ecirc; que, de novo, falando como escritor aqui, eu vejo o m&eacute;dico com uma coisa muito diferente na frente dele; que ele come&ccedil;a a fazer rela&ccedil;&otilde;es, ele est&aacute; botando ali para fora os seus pensamentos e tentando fazer conex&otilde;es, mas ele est&aacute; vendo que n&atilde;o est&aacute; fazendo sentido. A primeira l&oacute;gica que &eacute;: &ldquo;prejudicar a identifica&ccedil;&atilde;o em crian&ccedil;a de 11 anos?&rdquo;. Que foi o mesmo problema que teve l&aacute; no Evandro. &ldquo;Ah, deve ter feito isso para tirar a identifica&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Mas p&ocirc;, ele estava com os objetos da casa dele, ent&atilde;o n&atilde;o &eacute; esse o objetivo. &Eacute; outro. Mas, enfim, eu queria saber a tua leitura sobre essa anota&ccedil;&atilde;o. Porque eu entendo ela n&atilde;o estar no laudo final, mas eu achei interessante ela estar no rascunho e ser resgatada no inqu&eacute;rito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Eu me lembro de ter lido esta anota&ccedil;&atilde;o. O problema desta anota&ccedil;&atilde;o &eacute; que, de um lado, ele tem elementos aqui, desse detalhamento, que ele n&atilde;o botou no laudo. Por exemplo, a retirada das gl&acirc;ndulas salivares, a incis&atilde;o em V na altura do man&uacute;brio esternal. Esses detalhes n&atilde;o est&atilde;o claros no laudo. Ent&atilde;o, ele considerou elementos posteriormente que ele n&atilde;o deixou claro no laudo depois. Mas &eacute; exatamente a impress&atilde;o que eu tenho. Desde o primeiro momento, quando eu olhei, quando eu&hellip; Eu comecei pelo caso da Sandra. Ent&atilde;o, quando eu olhei o caso da Sandra e depois fui olhando e cheguei no caso do Evandro, que foi o &uacute;ltimo que eu analisei&hellip; Eu ordeno &agrave;s vezes, normalmente, por essa coisa mais temporal assim, mais cronol&oacute;gica&hellip; Que foi o &uacute;ltimo que eu analisei, a impress&atilde;o que eu tive foi exatamente essa, de que quem fez isso conhecia os procedimentos de alguma maneira, tinha acesso, conhecia os procedimentos m&eacute;dico legais, porque eles s&atilde;o muito semelhantes ao que a gente faz. Dif&iacute;cil estabelecer intencionalidade. &Eacute; dif&iacute;cil estabelecer a intencionalidade. Dizer&hellip; Ele retirou as gl&acirc;ndulas salivares ou ele queria chegar a obter uma m&aacute;scara facial e n&atilde;o conseguiu fazer isso tecnicamente, n&atilde;o tinha t&eacute;cnica, n&atilde;o tinha habilidade para isso? Ent&atilde;o, retirou, tinha a inten&ccedil;&atilde;o de&hellip; A grande dificuldade quando a gente trabalha com esse tipo de coisa, que &eacute; analisar o perfil de quem faz a partir das les&otilde;es que n&oacute;s encontramos, &eacute; diferenciar modus operandi de assinatura; o que &eacute; uma caracter&iacute;stica que tem significado para o sujeito e o que &eacute; a t&eacute;cnica que ele emprega na situa&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica. A grande diferen&ccedil;a &eacute; que o modus operandi se ajusta &agrave;s circunst&acirc;ncias, e a assinatura &eacute; mais ou menos invari&aacute;vel. Ent&atilde;o, o que &eacute; modus operandi e o que &eacute; assinatura, e o que no modus operandi variou ao longo do tempo. Porque se n&oacute;s estamos pensando que na Sandra ele est&aacute; querendo obter uma m&aacute;scara facial, por que ele n&atilde;o obt&eacute;m essa m&aacute;scara facial no Evandro? Que teve tempo, teve algum tempo para treinar aqui. Os casos realmente est&atilde;o separados porque n&atilde;o houve outros casos no meio? Ou eles est&atilde;o separados porque esse indiv&iacute;duo estava treinando e evoluindo em outro lugar e, portanto, outros casos n&atilde;o foram correlacionados com esse? Mas o que me chama a aten&ccedil;&atilde;o &eacute; isso. Se a inten&ccedil;&atilde;o era obter determinadas pe&ccedil;as, determinadas caracter&iacute;sticas, preserv&aacute;-las, na forma, por exemplo, de uma crian&ccedil;a empalhada em casa, quer dizer, uma esp&eacute;cie de&hellip; Preserva&ccedil;&atilde;o daquele rosto, isso n&atilde;o vai acontecer no Evandro. A &uacute;nica coisa que &ndash; deduzindo que o Evandro tivesse as m&atilde;os arrancadas &ndash; se manteria como padr&atilde;o ao longo dos casos, seriam as m&atilde;os; o que fugiria &agrave; l&oacute;gica da identifica&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Ent&atilde;o, a descri&ccedil;&atilde;o do legista aqui tem alguns detalhes que, independentemente de eles estarem ou n&atilde;o no laudo de necropsia, j&aacute; tinham me chamado a aten&ccedil;&atilde;o. Tem uma semelhan&ccedil;a muito grande desses casos com aquilo que n&oacute;s fazemos no necrot&eacute;rio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O que &eacute; essa incis&atilde;o em V na altura do man&uacute;brio esternal, em termos leigos, para a gente entender, visualizar, assim? Porque eu estou imaginando um corte aqui na linha do pesco&ccedil;o, mais ou menos, em V. S&oacute; que n&atilde;o d&aacute; para ver nas fotos, isso n&atilde;o est&aacute; tamb&eacute;m descrito no laudo. Ent&atilde;o, eu queria que o doutor explicasse para a gente, para n&atilde;o m&eacute;dicos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: A incis&atilde;o em V, como t&eacute;cnica necrosc&oacute;pica, &eacute; uma t&eacute;cnica de abertura. Existem basicamente duas formas, as duas formas mais usadas de acesso ao corpo, de acesso &agrave;s cavidades do corpo. Uma delas &eacute; a incis&atilde;o<\/em> <em>mento-pubiana. Ent&atilde;o, &eacute; um corte que vem do queixo, desce pelo pesco&ccedil;o e vai, faz a volta no umbigo e vai at&eacute; o p&uacute;bis. Uma incis&atilde;o &uacute;nica. Essa incis&atilde;o permite expor todo o t&oacute;rax, todo o abd&ocirc;men, e ter acesso ao plastr&atilde;o, aos arcos costais anteriores e ao esterno, para fazer a retirada do plastr&atilde;o. A outra incis&atilde;o &eacute; aquela que aparece mais nos filmes, que &eacute; aquela que vem das clav&iacute;culas, descendo na forma de um V at&eacute; esta proemin&ecirc;ncia &oacute;ssea que a gente tem no esterno. Se tu botares a tua m&atilde;o na parte mais superior do teu esterno, no ter&ccedil;o superior, tu vais&hellip; Desliza um pouquinho, que tu vai encontrar um calo &oacute;sseo, uma proemin&ecirc;ncia &oacute;ssea que fica mais ou menos nesta altura aqui, no ter&ccedil;o inferior. Ali &eacute; uma jun&ccedil;&atilde;o que est&aacute; separada em crian&ccedil;a, e ali fica o man&uacute;brio. Ent&atilde;o, que incis&atilde;o &eacute; essa que o sujeito fez ali? &Eacute; essa da clav&iacute;cula at&eacute; o man&uacute;brio? Essa &eacute; uma t&eacute;cnica de abertura utilizada em medicina legal. &Eacute; a t&eacute;cnica que mais aparece nos filmes, n&atilde;o &eacute; a mais usada no nosso meio, mas &eacute; a que mais aparece nos filmes e, de novo, remeteria a algu&eacute;m com algum conhecimento ou tentando ensaiar algum conhecimento, tentando ensaiar&hellip; Porque a gente n&atilde;o pode esquecer que, mesmo no final dos anos 80, muitas dessas coisas j&aacute; apareciam em filmes. N&oacute;s sempre pensamos que&hellip; Mas muitas dessas coisas j&aacute; apareciam em filmes. N&atilde;o, obviamente, com a frequ&ecirc;ncia com que come&ccedil;aram a aparecer com as s&eacute;ries de CSI e m&eacute;dicos legistas na televis&atilde;o nos &uacute;ltimos 20 anos, mas j&aacute; apareciam. De qualquer maneira, a abertura dos ossos do Evandro n&atilde;o era algo que aparecesse em filme. Ent&atilde;o, a gente come&ccedil;a a juntar tudo isso, e eu diria: bom, algu&eacute;m aqui passou por um necrot&eacute;rio em algum momento e viu, assistiu alguma coisa num necrot&eacute;rio em algum momento.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Essa descri&ccedil;&atilde;o da incis&atilde;o em V est&aacute; apenas no rascunho. Em todas as fotos de Sandrinha, tanto no local quanto no IML, ela est&aacute; vestindo uma blusa. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel ver detalhes. Tudo o que se sabe &eacute; o que est&aacute; escrito no trecho do rascunho.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o Dr. Sami, isso &eacute; relevante, pois seria uma t&eacute;cnica de necrot&eacute;rio &ndash; assim como os cortes das costelas de Evandro. E s&atilde;o nessas semelhan&ccedil;as que os casos parecem come&ccedil;ar a ficar mais pr&oacute;ximos, pelo menos na sua interpreta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>S&oacute; que essa quest&atilde;o de que o assassino supostamente possui algum conhecimento de medicina legal sempre incomodou Ivan. Afinal, foi esse o erro que ocorreu em Altamira, temporada passada do Projeto Humanos. As pessoas viam os cortes nas crian&ccedil;as, diziam que eles seriam muito precisos e que, portanto, s&oacute; poderiam ter sido feitos por m&eacute;dicos. E nisso, dois m&eacute;dicos inocentes foram acusados e presos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h&aacute; uma grande diferen&ccedil;a. Em Altamira, n&atilde;o havia nenhum documento mostrando que os cortes examinados poderiam ter sido feitos apenas por m&eacute;dicos. Essa ideia partiu da popula&ccedil;&atilde;o, foi para a imprensa e acabou contaminando todo o caso. J&aacute; no Paran&aacute;, nos casos de Evandro e Sandra, s&atilde;o tipos de cortes muito espec&iacute;ficos que chamam a aten&ccedil;&atilde;o justamente por serem mais comuns em pr&aacute;ticas de necrot&eacute;rios.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Poderia ser algu&eacute;m que, por exemplo, foi criado na ro&ccedil;a e fazia abate de animais para comer carne?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Olha, em abate de animais, n&atilde;o se faz a incis&atilde;o bimastoideana, como regra geral, e essa em V no t&oacute;rax, n&atilde;o teria por que fazer uma incis&atilde;o em V. Eu n&atilde;o sou exatamente da ro&ccedil;a&hellip; Mas, como regra geral, todos os abates que eu vi&hellip; Eu sou da fronteira&hellip; Abate de ovelha, a gente escolhe a ovelha no campo e leva para abater, o abate &eacute; mento-pubiano mesmo. Quer dizer, o corte come&ccedil;a l&aacute; em cima no pesco&ccedil;o do animal e desce at&eacute; embaixo inteiro. Ent&atilde;o, n&atilde;o me recordo, em nenhum momento, de ter visto algo semelhante.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Certo. Vamos l&aacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: N&atilde;o sou um expert em abates, mas todos os abates que eu vi eram mento-pubianos, de cima a baixo, um corte s&oacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, Ivan entrou em contato com o Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/claudio-dalledone-junior\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado de defesa que atuou em diversas ocasi&otilde;es nos casos de Guaratuba e Altamira\" class=\"encyclopedia\">Cl&aacute;udio Dalledone J&uacute;nior<\/a>, que foi advogado de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/valentina-de-andrade\/\" target=\"_self\" title=\"L&iacute;der do grupo Lineamento Universal Superior (LUS)\" class=\"encyclopedia\">Valentina de Andrade<\/a> no caso dos emasculados de Altamira. E o motivo do contato foi justamente porque Dalledone &eacute; ca&ccedil;ador e tem o costume de descarnar animais.<\/p>\n\n\n\n<p>Basicamente, Ivan perguntou para ele se costelas serradas, a incis&atilde;o bimastoideana e o corte em V no peito poderiam ser sinais de um ca&ccedil;ador, ou de algu&eacute;m acostumado com o abate de animais. O Dr. Dalledone respondeu por mensagem dizendo o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Esses s&atilde;o cortes que usamos para tirar couro de animais. Seria o caso da incis&atilde;o bimastoideana. Serrar as costelas, ou o que corresponde ao esterno para eviscerar, tem a ver com retirar as v&iacute;sceras. Eu sempre dividi as partes da ca&ccedil;a dessa forma, inclusive serrando as costelas. De acordo com a minha experi&ecirc;ncia, o corte do tipo em V tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; incomum de ser feito em animais<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso em mente, por mais que o Dr. Sami enxergue ali mais caracter&iacute;sticas de necrot&eacute;rio,<em> <\/em>n&atilde;o se pode descartar tamb&eacute;m a possibilidade de ser um ca&ccedil;ador &ndash; ou<em> <\/em>pelo menos algu&eacute;m com alguma experi&ecirc;ncia em abate e corte de animais.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi falado anteriormente sobre a perfura&ccedil;&atilde;o que Evandro possu&iacute;a nas costas, do lado esquerdo, e Ivan p&ocirc;de verificar com algumas pessoas que dominam pr&aacute;ticas de abate,<em> <\/em>especialmente de porcos, que uma perfura&ccedil;&atilde;o parecida com aquele tipo n&atilde;o &eacute; incomum para<em> <\/em>causar maior sangramento e levar o animal a &oacute;bito.<\/p>\n\n\n\n<p>O pr&oacute;prio Dr. Sami falou sobre como o corpo de Evandro parecia ter as caracter&iacute;sticas de algu&eacute;m que busca ocultar sua localiza&ccedil;&atilde;o, de forma parecida com a que ca&ccedil;adores fazem com animais, jogando suas carca&ccedil;as em matagais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, n&atilde;o se deve descartar nenhuma das possibilidades: de conhecimento de necrot&eacute;rio ou de conhecimento de abate de animais. E essas n&atilde;o s&atilde;o coisas que qualquer um sabe. N&atilde;o se trata de uma pessoa qualquer. Ela tinha algum conhecimento diferente. O dif&iacute;cil &eacute; identificar qual exatamente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CONEX&Otilde;ES<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O doutor falou tamb&eacute;m que, no caso da Sandra, est&aacute; faltando n&atilde;o s&oacute; a m&atilde;o esquerda, mas o antebra&ccedil;o esquerdo tamb&eacute;m est&aacute; faltando? Isso me passou batido, que eu s&oacute; li&hellip; Eu lembro de ler que as duas m&atilde;os foram arrancadas, agora n&atilde;o me lembro do bra&ccedil;o ou antebra&ccedil;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Sim. Na per&iacute;cia de local, a gente tem a observa&ccedil;&atilde;o de que falta o antebra&ccedil;o esquerdo. Na ficha odontol&oacute;gica, existe uma observa&ccedil;&atilde;o: &ldquo;antebra&ccedil;o esquerdo com osso&rdquo;, mas n&atilde;o nos diz se o osso est&aacute; completo, se est&aacute; incompleto, o que est&aacute; faltando aqui com rela&ccedil;&atilde;o ao antebra&ccedil;o esquerdo da Sandra. E na necro fala em arrancamento de ambas as m&atilde;os, ent&atilde;o para mim ficou uma quest&atilde;o mal resolvida aqui, do que est&aacute; faltando. Na per&iacute;cia de local, ele diz que falta o antebra&ccedil;o esquerdo, a m&atilde;o direita e as orelhas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: No Leandro, falta o antebra&ccedil;o esquerdo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Tamb&eacute;m falta o antebra&ccedil;o esquerdo. E a m&atilde;o direita.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Que nem a Sandra.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr.&nbsp; Sami: Exatamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Da&iacute;, desculpe&hellip; Da&iacute;, sabe? Da&iacute; &eacute; o que eu estou falando. S&atilde;o coincid&ecirc;ncias&hellip; Mas tudo bem&hellip; Pode ser uma grande coincid&ecirc;ncia? Pode, pode&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: N&atilde;o, tem coincid&ecirc;ncias demais. Se a gente pensasse numa linha que conectasse os tr&ecirc;s casos, eles passariam realmente pela amputa&ccedil;&atilde;o das m&atilde;os como principal marca, e a&iacute; a quest&atilde;o de qual o papel das les&otilde;es no couro cabeludo, para mim, fica em aberto, qual o papel das les&otilde;es do couro cabeludo. Se realmente queriam o escalpo, se a quest&atilde;o era levar um fragmento de cabelo com couro cabeludo, se tentou ensaiar todo o rosto e desistiu porque n&atilde;o aprendeu, n&atilde;o obteve uma boa t&eacute;cnica, n&atilde;o teve tempo de aprender. Passaria pelas m&atilde;os e pelo couro cabeludo. Esse seria o elemento conector desses casos, se a gente extrapolar um pouquinho cada um deles.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>S&atilde;o tr&ecirc;s crian&ccedil;as loiras, brancas, de estatura parecida. Sandra, a &uacute;nica menina, estava com os cabelos raspados, aparentando ser um menininho. As tr&ecirc;s v&iacute;timas est&atilde;o sem as m&atilde;os. Sandra e Evandro est&atilde;o sem o couro cabeludo. Ambos possuem mutila&ccedil;&otilde;es com cortes que n&atilde;o s&atilde;o comuns de serem feitos por qualquer pessoa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As tr&ecirc;s v&iacute;timas foram encontradas relativamente perto de suas casas, com roupas e objetos que permitiam uma identifica&ccedil;&atilde;o mais r&aacute;pida. E, no caso de Sandra e Leandro, h&aacute; a enorme coincid&ecirc;ncia de que ambos est&atilde;o sem o antebra&ccedil;o esquerdo &ndash; diferente de Evandro, que estava com o antebra&ccedil;o.<\/p>\n\n\n\n<p>A aus&ecirc;ncia das m&atilde;os por a&ccedil;&atilde;o natural &eacute; uma possibilidade que n&atilde;o pode ser descartada. Mas quando se observa esse quadro geral, fica muito dif&iacute;cil n&atilde;o ver uma conex&atilde;o entre os tr&ecirc;s. Se forem casos isolados, s&atilde;o coincid&ecirc;ncias muito grandes.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do momento que Sandra entra no quadro com elementos de conex&atilde;o mais fortes com os casos de Guaratuba, vem a lembran&ccedil;a de que ela foi violentada sexualmente. E a poss&iacute;vel motiva&ccedil;&atilde;o dos crimes pode ficar mais evidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o Dr. Francisco, ela foi violentada antes de morrer. Ivan queria a opini&atilde;o do Dr. Sami sobre isso.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Eu n&atilde;o diria que essas les&otilde;es foram post mortem. N&atilde;o s&atilde;o les&otilde;es post mortem. S&atilde;o les&otilde;es com caracter&iacute;stica de vitalidade, s&atilde;o les&otilde;es que t&ecirc;m algum infiltrado hemorr&aacute;gico, ainda t&ecirc;m alguma vermelhid&atilde;o, s&atilde;o les&otilde;es pr&eacute;-mortem ou perimortem, pelo menos, n&eacute;? Ou elas s&atilde;o enquanto ela estava viva ou naquele intervalo em que a gente ainda tem alguns funcionamentos fisiol&oacute;gicos, chamado intervalo perimortem &ndash; imediatamente antes e imediatamente depois.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>E, ent&atilde;o, enquanto eles analisavam essa foto de Sandra, notaram uma ferida na parte interna da coxa direita. Uma ferida circular.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Tem at&eacute; uma feridinha aqui tamb&eacute;m&hellip; Aqui&hellip; Chamou a aten&ccedil;&atilde;o agora isso aqui tamb&eacute;m. Isso aqui &eacute; nesse mesmo per&iacute;odo que foi feito, provavelmente?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Isso, essa &eacute; uma ferida em vida. Essa &eacute; uma ferida em vida, com as mesmas caracter&iacute;sticas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Com as mesmas caracter&iacute;sticas aqui.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: &Eacute;. Eu at&eacute; diria que essa ferida na perna tem at&eacute; um bordinho ali de&hellip; J&aacute; arredondadinho, j&aacute; de inflamat&oacute;rio, ent&atilde;o, algumas horas de vida, pelo menos.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Quem mantinha ela em c&aacute;rcere pode ter feito isso aqui para machucar ela&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Pode, e eu n&atilde;o excluiria, pela caracter&iacute;stica, pelo tamanho, o formato, pelo que tem ao redor dela, eu n&atilde;o excluiria nem que pudesse ter sido feita com cigarro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Pode ter sido um cigarro isso aqui?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: &Eacute;, eu n&atilde;o excluiria nem que ela tivesse sido feita com cigarro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Ok. Eu s&oacute; acho uma pena que a gente n&atilde;o tenha mais fotos, porque eu queria ver essa incis&atilde;o em V, que fala&hellip; Que a gente n&atilde;o consegue ver como est&aacute; aqui. D&aacute; a entender, ent&atilde;o, que est&aacute; tudo aberto aqui embaixo dela, debaixo da roupa, n&eacute;? Aqui assim&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: &Eacute; a impress&atilde;o que o legista deixa, de que est&aacute; tudo aberto at&eacute; embaixo, ou pelo menos alguns cent&iacute;metros para baixo, que a gente n&atilde;o consegue ter acesso a essa informa&ccedil;&atilde;o. Ele fala, inclusive, em retirada de gl&acirc;ndulas salivares naquele coment&aacute;rio dele.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. E n&oacute;s n&atilde;o temos mais detalhes disso, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: N&atilde;o. N&atilde;o temos mais detalhes disso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: [&hellip;] Assim, para a gente poder encerrar de vez, o que o doutor acredita? Os tr&ecirc;s casos s&atilde;o relacionados? N&atilde;o s&atilde;o? Outros elementos podem nos levar a isso? O que se passa na sua cabe&ccedil;a de entendido? Porque, como leigo, a gente fica imaginando aqui, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Eu diria, assim, eu n&atilde;o posso excluir&hellip; Eu sou um c&eacute;tico por natureza, t&aacute;? Ent&atilde;o, eu n&atilde;o posso excluir a correla&ccedil;&atilde;o entre os tr&ecirc;s casos. Correlacion&aacute;-los requer uma certa extrapola&ccedil;&atilde;o em fun&ccedil;&atilde;o, por exemplo, do estado do corpo do Leandro, do pr&oacute;prio estado do corpo do Evandro. Quer dizer, o corpo da Sandra &eacute; o que nos d&aacute; mais informa&ccedil;&otilde;es, e todo o resto n&oacute;s temos uma perda significativa de informa&ccedil;&otilde;es. Ent&atilde;o, correlacion&aacute;-los requer alguma extrapola&ccedil;&atilde;o daquilo que a gente est&aacute; efetivamente vendo no Leandro e no Evandro. Ent&atilde;o, feitas essas extrapola&ccedil;&otilde;es que, necessariamente, s&atilde;o hipot&eacute;ticas <\/em><em>&ndash;<\/em><em> mesmo nesse contexto de um monte de coincid&ecirc;ncias, elas s&atilde;o hipot&eacute;ticas <\/em><em>&ndash;<\/em><em>, d&aacute; para tra&ccedil;ar uma linha que une esses casos. E que passaria pela caracter&iacute;stica da Sandra, que era o corpo em melhores condi&ccedil;&otilde;es, uma linha de natureza de crime sexual, ou essencialmente sexual; do qual, o resto aparece como fetiche, como, digamos, alguma pervers&atilde;o do agressor para al&eacute;m, obviamente, do abuso de crian&ccedil;as. Isso eu estou tirando de&hellip; Basal, linha basal. Ent&atilde;o, precisaria de uma certa extrapola&ccedil;&atilde;o. Eu n&atilde;o descarto. Me anima a tese, excita a minha disposi&ccedil;&atilde;o investigativa a hip&oacute;tese de que os casos estejam conectados, mas eu n&atilde;o me sinto &agrave; vontade para bater o martelo e dizer: &ldquo;olha, definitivamente eles est&atilde;o conectados&rdquo;. Eu acho que ainda falta alguma coisa a&iacute;, falta um elo. Quer dizer&hellip; Digamos que a gente pensasse tudo isso que n&oacute;s discutimos at&eacute; agora, que a gente considerasse, n&oacute;s temos um lapso de tempo entre a Sandra e o Leandro que &eacute; um lapso de tempo muito grande. Mesmo que eu pensasse em per&iacute;odo de &lsquo;cool off&rsquo;, quer dizer, o per&iacute;odo de esfriamento da viol&ecirc;ncia, est&aacute; me faltando um elo a&iacute;. Esse elo pode ser porque as caracter&iacute;sticas&hellip; O estado dos outros dois corpos n&atilde;o me permite amarrar melhor eles, mas esse lapso temporal me chama a aten&ccedil;&atilde;o. Digamos que os casos estejam conectados, e digamos que seja o suspeito X. O que ele fez em tr&ecirc;s anos? Onde ele estava em tr&ecirc;s anos? Que crimes ele praticou em tr&ecirc;s anos? Ele ficou tr&ecirc;s anos frio? Duvido. Depois do primeiro&hellip; Pode ser. Mas o segundo e o terceiro com um lapso de dois meses, e o primeiro para o segundo um lapso de tr&ecirc;s anos? Eu te diria assim&hellip; Se tu me perguntasse o que eu faria, eu cavaria mais v&iacute;timas no meio desse tempo, entre 1989 e 1992. Eu procuraria mais v&iacute;timas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute;. A gente tem, inclusive, casos de crian&ccedil;as abertos ainda, de desaparecidos. Eu compilei todos os dados do que a gente tem, pegando data de desaparecimento, nome da crian&ccedil;a, idade, cidade, e quatro fontes diferentes: uma mat&eacute;ria da Gazeta do Povo, sites de desaparecidos atuais, cartazes do Sicride e um cartaz de 1992 que a gente localizou, que tinha crian&ccedil;as desaparecidas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nessa hora, Ivan abriu no computador uma tabela com todos os casos de crian&ccedil;as desaparecidas no Paran&aacute;.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/12\/Crianc%CC%A7as-desaparecidas-Parana%CC%81-Dados.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Tabela com casos de crian&ccedil;as desaparecidas no Paran&aacute;<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>OS N&Uacute;MEROS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Servi&ccedil;o de Investiga&ccedil;&atilde;o de Crian&ccedil;as Desaparecidas (Sicride) do Paran&aacute; s&oacute; foi aberto em 1995. Desde a cria&ccedil;&atilde;o, ele passou a concentrar todos os casos desse tipo. Mas os anteriores a isso s&atilde;o dispersos. &Eacute; poss&iacute;vel que alguns tenham sido esquecidos, ou at&eacute; mesmo ignorados pelas autoridades, especialmente em alguma cidade no interior.<\/p>\n\n\n\n<p>Com os dados que Ivan tinha em m&atilde;os, pode-se notar que desde 1986 havia uma constante de apenas uma ou no m&aacute;ximo duas crian&ccedil;as desaparecidas. Mas, em 1992, ano em que Leandro e Evandro foram mortos, esse n&uacute;mero saltou para seis. E o interessante &eacute; que, quando se organiza esses dados em uma disposi&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica, nota-se que os casos de crian&ccedil;as desaparecidas desde 1987 ocorreram pr&oacute;ximos &agrave; Curitiba.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1992, ano do pico desses eventos, h&aacute; tr&ecirc;s casos nesta regi&atilde;o. Os outros tr&ecirc;s ocorreram no norte do Paran&aacute;, em Londrina e Maring&aacute;. E todos eles em datas muito pr&oacute;ximas.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre fevereiro de 1992, data em que Leandro desapareceu, at&eacute; 20 de abril de 1992, foram cinco casos de desaparecidos. Se incluir Evandro, s&atilde;o seis. E, em novembro de 1992, houve o desaparecimento de uma menina em Arauc&aacute;ria, na regi&atilde;o metropolitana de Curitiba.<\/p>\n\n\n\n<p>Os desaparecidos s&atilde;o meninos e meninas, com idades entre cinco e 12 anos. Ivan n&atilde;o sabe se esses eventos est&atilde;o conectados e se houve mais casos al&eacute;m destes. Mas s&atilde;o dados que chamam a aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: No ano de 1992, que &eacute; o ano do Evandro&hellip; Isso aqui, s&oacute; casos de desaparecidos em aberto, n&atilde;o casos de desaparecidos solucionados, tem toda essa quest&atilde;o, n&eacute;? Corpos encontrados, condi&ccedil;&otilde;es de putrefa&ccedil;&atilde;o avan&ccedil;ada, a gente n&atilde;o sabe. Mas aqui, &oacute;, em 1992, a gente tem realmente um salto. E o que a gente come&ccedil;ou a fazer &eacute;&hellip; Vamos tentar cruzar a cidade por ano. E da&iacute; &eacute; interessante&hellip; Quando a gente faz pela disposi&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica delas, o que a gente v&ecirc; aqui? A gente v&ecirc;, numa regi&atilde;o espec&iacute;fica, de 1987 a 1992, uma aglutina&ccedil;&atilde;o de alguns casos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Um &lsquo;clusterzinho&rsquo; ali&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Um &lsquo;clusterzinho&rsquo;, isso. E que vai se alterando, n&eacute;? Um tempo depois ele vai para outros lugares e tudo, mas isso aqui j&aacute; &eacute; coisa mais recente tamb&eacute;m, pode ser outras coisas. Mas aqui, por exemplo, Arauc&aacute;ria, Almirante Tamandar&eacute;, Curitiba&hellip; Ent&atilde;o, com base nesses casos em aberto, que nunca foram solucionados, pode ter alguma coisa. &Eacute; o nosso suspeito, s&atilde;o outros? N&atilde;o sei. Mas foi uma coisa que chamou a aten&ccedil;&atilde;o da &eacute;poca, tanto que criou toda a mobiliza&ccedil;&atilde;o, movimentos de pais e m&atilde;es de crian&ccedil;as desaparecidas e tal. Mas, assim, geograficamente e cronologicamente, a gente tem casos, s&oacute; dos casos em aberto, que despertam a nossa aten&ccedil;&atilde;o de alguma forma.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: E os casos encerrados podem ter sido encerrados naquelas que a gente sabe, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Mal encerrados.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Apareceu uma ossada super deteriorada, anos depois&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Identifica&ccedil;&atilde;o positiva e deu&hellip; E encerraram o caso, ou apareceu um suspeito de ocasi&atilde;o, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Isso, exatamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Um suspeito de ocasi&atilde;o que acaba condenado por um crime que eventualmente n&atilde;o cometeu.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute; o pr&oacute;prio caso Evandro. O caso Evandro &eacute; considerado um caso resolvido&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Sami: Pois &eacute;, &eacute; considerado um caso&hellip; Exatamente&hellip; Ent&atilde;o, ali tem um cluster de casos n&atilde;o resolvidos e pode ter talvez um cluster maior de casos resolvidos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Essa conversa com o Dr. Sami ocorreu antes da revis&atilde;o criminal dos acusados de Guaratuba, e por isso Ivan comentou que o caso era dado como resolvido pelo Estado &ndash; como de fato era na &eacute;poca. Hoje, tudo voltou para a estaca zero, mas n&atilde;o haver&aacute; nova investiga&ccedil;&atilde;o, visto que o crime j&aacute; prescreveu.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>PSICOLOGIA INVESTIGATIVA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap&oacute;s as conversas com o Dr. Sami, Ivan enviou as entrevistas com ele para o psic&oacute;logo investigativo <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/denis-lino\/\" target=\"_self\" title=\"Psic&oacute;logo investigativo consultado pelo Projeto Humanos\" class=\"encyclopedia\">Denis Lino<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Eu sou formado em psicologia pela [universidade] estadual da Para&iacute;ba, tenho especializa&ccedil;&atilde;o em psicologia jur&iacute;dica e investiga&ccedil;&atilde;o criminal. Fiz o meu mestrado em psicologia forense investigativa pela Universidade de Liverpool, e atualmente estou fazendo doutorado em psicologia na Universidade Federal de Pernambuco. A minha &aacute;rea de atua&ccedil;&atilde;o sempre foi e vem sendo psicologia investigativa com consultoria, artigos publicados. Estou com um livro publicado, outro que eu organizei sempre dentro da tem&aacute;tica de perfil criminal ou de psicologia investigativa, e &eacute; por a&iacute; que eu me encontro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Antes dessa conversa com o Dr. Denis, Ivan tamb&eacute;m enviou para ele todos os materiais que havia mandado para o Dr. Sami &ndash; hist&oacute;ricos resumidos dos casos, todos os laudos e uma lista de perguntas.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante meses, Ivan e o Dr. Denis trocaram informa&ccedil;&otilde;es, discutiram alguns pontos dos casos e, ap&oacute;s as entrevistas com o Dr. Sami, Denis sentiu-se mais &agrave; vontade para poder finalizar as suas an&aacute;lises como psic&oacute;logo investigativo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/12\/RELATO%CC%81RIO-CASE-LINKAGE.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Relat&oacute;rio An&aacute;lise Comparativa de Dados &ndash; Denis Lino<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/12\/RELATO%CC%81RIO-Geoprofiling.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Relat&oacute;rio Perfil Criminal Geogr&aacute;fico &ndash; Denis Lino<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Tendo em vista que essa n&atilde;o &eacute; uma &aacute;rea ainda muito conhecida e difundida no Brasil, Ivan aproveitou para pedir para ele explic&aacute;-la um pouco.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Psicologia investigativa e psicologia forense seriam a mesma coisa? Ou a gente est&aacute; falando de &aacute;reas pr&oacute;ximas, mas separadas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: A gente est&aacute; falando de &aacute;reas pr&oacute;ximas, mas separadas. &Eacute; basicamente a diferen&ccedil;a de onde voc&ecirc; atua. Forense vem de f&oacute;rum, ent&atilde;o &eacute; quando voc&ecirc; est&aacute; atuando ali junto ao f&oacute;rum de justi&ccedil;a, quando voc&ecirc; est&aacute; fazendo per&iacute;cia para um tribunal tomar uma decis&atilde;o, um juiz ou um j&uacute;ri, ou voc&ecirc; est&aacute; como assistente t&eacute;cnico de algum caso nesse sentido. Enquanto a investigativa, como o nome diz, &eacute; a psicologia aplicada na investiga&ccedil;&atilde;o, que &eacute; o que a gente vai chamar de fase pr&eacute;-processual, antes do processo, da parte judicial como um todo. &Eacute; como a psicologia pode contribuir para que a investiga&ccedil;&atilde;o seja mais eficaz e que gaste menos recursos humanos, de pessoa, de dinheiro e tudo mais, e garanta uma justi&ccedil;a de fato mais justa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Quando a gente fala de psicologia investigativa, eu penso em duas coisas. Eu queria saber se &eacute; por a&iacute; mesmo. Eu penso primeiro em um contato entre um psic&oacute;logo e um potencial suspeito, ou at&eacute; testemunhas, depoentes que precisam de alguma avalia&ccedil;&atilde;o. E tamb&eacute;m penso, dentro de uma &aacute;rea da Pol&iacute;cia Cient&iacute;fica talvez, de que seria de perfilamento criminal. A gente tem alguns elementos aqui, a gente precisa fazer um perfil criminal desse ofensor. &Eacute; por a&iacute; que voc&ecirc; trabalha mesmo, nessas duas &aacute;reas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Isso. Exatamente nesses dois contatos &eacute; onde eu mais entro. Mas a psicologia investigativa&hellip; Eu costumo dizer que ela &agrave;s vezes &eacute; quem faz a coisa, mas &agrave;s vezes ela est&aacute; por tr&aacute;s das cortinas, fazendo uma prepara&ccedil;&atilde;o para os policiais que v&atilde;o estar na linha de frente. Ent&atilde;o, essa parte de interrogat&oacute;rio com suspeitos ou coleta de depoimento com testemunhas e v&iacute;timas, eu nunca fiz porque eu n&atilde;o sou policial. O policial &eacute; que faz isso. O que a gente faz &eacute; tentar contribuir com a forma&ccedil;&atilde;o policial, com t&eacute;cnicas e conceitos da psicologia, para que eles consigam l&aacute; naquele momento do interrogat&oacute;rio, da entrevista, obter mais sucesso na coleta de dados, com colabora&ccedil;&atilde;o de quem est&aacute; ali. Um suspeito que n&atilde;o quer conversar, que n&atilde;o quer falar nada, como que a gente consegue desenvolver uma rela&ccedil;&atilde;o com ele que gere colabora&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o, n&atilde;o sou eu que fa&ccedil;o o interrogat&oacute;rio, mas a gente traz conceitos da psicologia para garantir uma entrevista menos sugestiva e que traga mais frutos para a investiga&ccedil;&atilde;o. Mas a gente tamb&eacute;m tem a outra atua&ccedil;&atilde;o, que &eacute; fazendo algo mais pericial, como na quest&atilde;o do perfil criminal, da aut&oacute;psia psicol&oacute;gica, da an&aacute;lise comparativa de casos, que &eacute; de fato uma an&aacute;lise psicol&oacute;gica de algo que no fim gera um relat&oacute;rio, um laudo, um parecer, dependendo da situa&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o, acontece um crime ou uma s&eacute;rie de crimes. Voc&ecirc; tenta pegar os elementos dispon&iacute;veis da investiga&ccedil;&atilde;o e pode tentar montar um perfil com&hellip; Sempre suposi&ccedil;&otilde;es, n&eacute;? Nada &eacute; 100% garantido. Mas, assim, &ldquo;existe uma grande probabilidade de o ofensor ter as seguintes caracter&iacute;sticas&rdquo;. &Eacute; isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Isso, exatamente. Essa &eacute; uma das formas de atua&ccedil;&atilde;o da psicologia investigativa. Talvez a principal confus&atilde;o que a gente tem aqui no Brasil &eacute; a no&ccedil;&atilde;o de que psicologia investigativa e perfil criminal s&atilde;o sin&ocirc;nimos. Mas, na verdade, n&atilde;o s&atilde;o. Perfil criminal &eacute; uma t&eacute;cnica de aplica&ccedil;&atilde;o da psicologia na investiga&ccedil;&atilde;o. E a&iacute; &eacute; justamente como voc&ecirc; falou. A gente tenta analisar como o crime foi cometido. Ent&atilde;o, quando a gente fala de psicologia, a gente est&aacute; falando de comportamento de pessoas, e aqui especificamente de comportamento do criminoso. Ent&atilde;o, a gente olha para o comportamento no crime e tenta levantar as prov&aacute;veis caracter&iacute;sticas de quem teria cometido aquilo dali, que tipo de pessoa agiria dessa forma num contexto criminal como esse.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. Eu imagino tamb&eacute;m que &eacute; um trabalho colaborativo no ponto de&hellip; Tem quest&otilde;es at&eacute; de medicina legal, se a gente est&aacute; falando de homic&iacute;dios, n&eacute;? A gente est&aacute; falando de casos em s&eacute;rie. Foi at&eacute; o caso que a gente est&aacute; trabalhando aqui, n&eacute;? A gente tem tr&ecirc;s casos separados. A gente se faz a pergunta: ok, at&eacute; que ponto a gente pode dizer que &eacute; a mesma pessoa? Voc&ecirc; vai ter a sua leitura em um certo ponto, s&oacute; olhando os documentos da &eacute;poca. Mas da&iacute; a gente conversou com o Dr. Sami&hellip; Voc&ecirc; tamb&eacute;m deu uma olhada em tudo o que j&aacute; foi falado sobre esse caso no passado com outros peritos e m&eacute;dicos legistas, e da&iacute; voc&ecirc; tenta montar: ok, a partir do momento que entendo que esses casos s&atilde;o ligados, o perfil seria assim. Se fosse com tr&ecirc;s pessoas diferentes, seria outro. Ent&atilde;o, eu acho que a gente pode estabelecer aqui uma regra, para n&atilde;o ficar uma conversa intermin&aacute;vel, a gente vai partir do ponto de que os tr&ecirc;s casos est&atilde;o ligados, n&eacute;? E, a partir desse ponto, tem um conceito que voc&ecirc; usa em um dos seus pareceres, que eu gostaria que voc&ecirc; tamb&eacute;m explicasse para a gente, que &eacute; o &lsquo;case linkage&rsquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Durante essa conversa, tanto Ivan quanto Denis chamaram os documentos produzidos por ele de &ldquo;pareceres&rdquo;, mas na realidade s&atilde;o relat&oacute;rios.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O que &eacute; case linkage?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Certo. O case linkage &eacute; um termo em ingl&ecirc;s que a gente j&aacute; tentou traduzir de algumas formas diferentes. Acho que a gente ainda n&atilde;o achou o nome ideal, mas seria algo como &ldquo;vincula&ccedil;&atilde;o criminal&rdquo;, &ldquo;vincula&ccedil;&atilde;o de crimes&rdquo; ou &ldquo;an&aacute;lise comparativa de casos&rdquo;. Que &eacute; basicamente quando voc&ecirc; olha para dois ou mais crimes e busca identificar se existem ali semelhan&ccedil;as suficientes entre eles para dizer que foram cometidos pelo mesmo autor. Foi o mesmo ofensor que cometeu o crime A e o crime B. Ent&atilde;o, vamos dizer que surgiu um novo crime de homic&iacute;dio na cidade, e a&iacute; a investiga&ccedil;&atilde;o achou muito semelhante ou teve alguma suposi&ccedil;&atilde;o de que poderia ter sido cometido pela mesma pessoa que cometeu um homic&iacute;dio no passado. A gente vai olhar para os comportamentos. Como esse crime foi cometido? Como foi que esse ofensor chegou at&eacute; a v&iacute;tima? Que instrumento ele usou? Como foi? Se a gente tem relatos sobre o que ele falou, se teve comportamento sexual ou n&atilde;o, que tipo de comportamento foi esse&hellip; Para ver se existem duas coisas: uma, se existe semelhan&ccedil;a suficiente em como esses crimes foram cometidos, se eles s&atilde;o consistentes entre si; mas tamb&eacute;m se esses dois crimes apresentam caracter&iacute;sticas que v&atilde;o diferenciar eles dos outros crimes semelhantes que acontecem na regi&atilde;o e na mesma &eacute;poca. Porque eu posso encontrar dois crimes que s&atilde;o id&ecirc;nticos baseados em alguns comportamentos, mas que isso por si s&oacute; n&atilde;o garante que foi&hellip; N&atilde;o &eacute; nem garante&hellip; Mas n&atilde;o indica que foi cometido pela mesma pessoa. A gente sabe que os homic&iacute;dios no Brasil, cerca de 75% a 80%, s&atilde;o cometidos por arma de fogo. Ent&atilde;o, por mais que eu possa olhar para dois homic&iacute;dios e dizer: &ldquo;o comportamento &eacute; id&ecirc;ntico. No homic&iacute;dio A e no homic&iacute;dio B foi usado um instrumento, foi uma arma de fogo, foi atirado na pessoa e ela morreu&rdquo;. Mas 80% dos homic&iacute;dios s&atilde;o assim. Ent&atilde;o, n&atilde;o tem como a gente usar isso para diferenciar. Ent&atilde;o, &eacute; como se fosse um balan&ccedil;o entre ser pr&oacute;ximo, ter muitas similaridades, mas tamb&eacute;m esse conjunto de<\/em> <em>comportamentos n&atilde;o ser t&atilde;o comum para dizer que qualquer outro tipo de crime igual a esse nessa &eacute;poca e nessa regi&atilde;o apresentaria essas caracter&iacute;sticas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Como foi falado anteriormente, o trabalho que o Dr. Denis desenvolve ainda n&atilde;o &eacute; muito aplicado no Brasil. Mas j&aacute; existem casos solucionados de crimes em s&eacute;rie em que essa metodologia ajudou na resolu&ccedil;&atilde;o. Um exemplo disso ocorreu em 2021, em Curitiba, e virou at&eacute; um epis&oacute;dio do programa Linha Direta, da Rede Globo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pr\/parana\/noticia\/2022\/07\/14\/serial-killer-de-homossexuais-e-condenado-a-104-anos-de-prisao-por-latrocinio-e-extorsao.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Mat&eacute;ria do G1 &ndash; &ldquo;Serial killer de homossexuais &eacute; condenado a 104 anos de pris&atilde;o por latroc&iacute;nio e extors&atilde;o&rdquo; (14 de julho de 2022)<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Eu acho que um caso que eu lembro de ter acompanhado porque aconteceu aqui em Curitiba e que a psicologia criminal, a psicologia investigativa, foi importante, foi o caso do [Jos&eacute; Tiago Correia] Soroka, que foi esse serial killer de homossexuais que foi preso em maio de 2021; e que ele tinha um modus operandi que foi&hellip; Que foi esse modus operandi que permitiu &agrave; pol&iacute;cia identificar: &ldquo;ok, t&aacute; acontecendo um padr&atilde;o aqui&rdquo;. Ele entrava em contato com as pessoas por aplicativos de encontros. Era exatamente&hellip; Eu n&atilde;o me lembro agora com detalhes, mas ele tinha&hellip; Isso levou a pol&iacute;cia a mostrar: &ldquo;ok, existe um m&eacute;todo que est&aacute; sendo apresentado, muito provavelmente &eacute; a mesma pessoa&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: A gente inclusive teve um psic&oacute;logo, que era o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/guilherme-bertassoni\/\" target=\"_self\" title=\"Perito criminal da Pol&iacute;cia Cient&iacute;fica do Paran&aacute;\" class=\"encyclopedia\">Guilherme Bertassoni<\/a>, que &eacute; perito criminal l&aacute; no Paran&aacute;, e que fez a colabora&ccedil;&atilde;o junto &agrave; pol&iacute;cia, trazendo conceitos da psicologia. E essa ideia de &ldquo;a gente tem um m&eacute;todo, que parece que &eacute; a mesma pessoa&rdquo; &eacute; como se voc&ecirc; pensasse assim: voc&ecirc; aprendeu a fazer algo de determinada forma, voc&ecirc; n&atilde;o mexe naquilo dali. Voc&ecirc; continua repetindo. Toda vez voc&ecirc; vai, sei l&aacute;, lavar a lou&ccedil;a, voc&ecirc; come&ccedil;a por uma coisa e depois outra. Outra pessoa acha melhor come&ccedil;ar lavando os copos, outra pessoa acha melhor come&ccedil;ar lavando os pratos. A gente tem aquela nossa estrutura de como a gente vai agir. E a gente, quanto mais faz, vai aprimorando isso, ajustando melhor a lou&ccedil;a suja, depois a lou&ccedil;a limpa, e cada um tem a sua forma de fazer. Mas quando voc&ecirc; identifica ali mais ou menos o que d&aacute; certo para mim, voc&ecirc; tem uma certa repeti&ccedil;&atilde;o, que &eacute; o que a gente viu, por exemplo, nessa situa&ccedil;&atilde;o dele. Teve essa ideia inicial&hellip; Se a gente supor, partir da ideia de que o primeiro crime que a gente tem conhecimento &eacute; de fato o primeiro crime dele&hellip; Porque isso tamb&eacute;m n&atilde;o tem<\/em> <em>comprova&ccedil;&atilde;o, pode ter algum outro que a gente n&atilde;o saiba&hellip; Mas a partir do momento que identificou aquela forma de agir&hellip; Que, se eu n&atilde;o me engano, ele tinha o aplicativo de relacionamento, combinava na casa da pessoa, trancava a porta e, pouco antes de ter de fato o ato sexual, ele vinha a matar a sua v&iacute;tima por estrangulamento, enforcamento, algo do tipo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O tipo de trabalho do Dr. Denis n&atilde;o &eacute; ci&ecirc;ncia exata. Todo o estudo que ele faz &eacute; com base em probabilidades de outros casos, e tamb&eacute;m de conceitos psicol&oacute;gicos. Logo, tudo o que ele diz s&atilde;o estimativas do que &eacute; o mais prov&aacute;vel de ter acontecido. Em casos em s&eacute;rie, esse estudo de probabilidade ganha grande import&acirc;ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Geralmente, quando se trata de crimes em s&eacute;rie, por conta da influ&ecirc;ncia de filmes de Hollywood, &eacute; comum pensar em serial killers. Mas esse n&atilde;o &eacute; o tipo de crime em s&eacute;rie mais comum. Existem estupradores em s&eacute;rie. Existem arrombadores de casas em s&eacute;rie. Existe toda uma mir&iacute;ade de crimes que podem ser considerados nesse sentido de continuidade.<\/p>\n\n\n\n<p>E, para entrar nas quest&otilde;es t&eacute;cnicas, o Dr. Denis explica dois conceitos fundamentais nessa metodologia de investiga&ccedil;&atilde;o que busca solucionar crimes em s&eacute;rie: Modus Operandi e Assinatura.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Ok. De fato, s&atilde;o dois conceitos que s&atilde;o centrais dentro da psicologia investigativa voltada &agrave; essa parte de perfil criminal, an&aacute;lise comparativa, e que a confus&atilde;o &eacute; generalizada. Porque se mistura muito e &agrave;s vezes tem confus&atilde;o at&eacute; em quem estuda sobre o que deve ser definido A ou B. Ent&atilde;o, voc&ecirc; vai encontrar diversas defini&ccedil;&otilde;es diferentes. Aqui eu vou trazer o que eu trabalho, que eu acho que faz mais sentido, t&aacute;? Modus operandi significaria o modo de operar, que &eacute; esse m&eacute;todo, essa forma que eu fa&ccedil;o, qual a sequ&ecirc;ncia de a&ccedil;&otilde;es que eu utilizo para chegar no meu objetivo. Ent&atilde;o, qual &eacute; o meu passo a passo para atingir aquilo dali que eu quero. No caso do agressor, ele vai ter uma sequ&ecirc;ncia de a&ccedil;&otilde;es que faz para atingir o seu objetivo que &eacute;&hellip; Dependendo do crime, vai ter objetivos diferentes. Num homic&iacute;dio &eacute; tirar a vida da pessoa; num estupro vai ser variado, mas pode ser geralmente uma<\/em> <em>gratifica&ccedil;&atilde;o sexual; no arrombamento de uma casa, seria roubar essa casa. Mas, em todos os crimes, junto a isso, a gente tem a situa&ccedil;&atilde;o de: ele n&atilde;o quer ser identificado, ele n&atilde;o quer ser interrompido, ele n&atilde;o quer ser capturado. Claro, vai ter o caso A ou B em que ele gostaria disso, mas a&iacute; a gente entra em outra discuss&atilde;o. Mas, de uma maneira geral, o ofensor quer alcan&ccedil;ar o que ele quer sem ser interrompido, sem ser identificado e sem ser capturado depois. Ent&atilde;o, o modus operandi &eacute;: quais s&atilde;o as a&ccedil;&otilde;es que eu tomo para garantir que isso aconte&ccedil;a. Alguns ofensores v&atilde;o ser extremamente agressivos e deixar a v&iacute;tima inconsciente antes de ela ter chance de reagir. Outros ofensores v&atilde;o decidir usar uma m&aacute;scara para evitar que sejam identificados. Alguns ofensores v&atilde;o usar luvas, seja l&aacute; que tipo de luva, para n&atilde;o deixar nenhum tipo de impress&atilde;o digital. Outros v&atilde;o ser menos descuidados com isso. Ent&atilde;o, o modus operandi, apesar de ele ser essa forma de agir do ofensor, ele tem muitas varia&ccedil;&otilde;es entre quem comete crime, devido &agrave; natureza de cada um. &Agrave;s vezes &eacute; o conhecimento que ele tem. Ent&atilde;o, um estudioso de per&iacute;cia criminal, quando for cometer um crime, vai ter muito mais cuidado com coisas do que algu&eacute;m que tem um acesso de raiva quando estava embriagado e matou outra pessoa. Ent&atilde;o, s&atilde;o dois momentos, s&atilde;o duas pessoas, s&atilde;o conhecimentos diferentes. Do mesmo jeito que algu&eacute;m que j&aacute; cometeu crimes, j&aacute; foi preso, sabe como funciona o sistema de justi&ccedil;a e investiga&ccedil;&atilde;o, vai ter um conhecimento mais aprofundado sobre quais cuidados ele deve ter para n&atilde;o ser identificado e tudo mais, do que aquele que est&aacute; cometendo o seu primeiro crime. Ent&atilde;o, modus operandi, em resumo, seria quais s&atilde;o as a&ccedil;&otilde;es que esse ofensor toma, que esse ofensor faz para garantir que ele atinja o seu objetivo do crime sem ser identificado naquele momento, sem ser interrompido naquele momento, e sem ser capturado depois. O modus operandi tem uma certa consist&ecirc;ncia, ele se repete. &Eacute; como eu disse sobre lavar lou&ccedil;a. A gente vai tendo uma certa forma de agir que se repete. S&oacute; que ele tamb&eacute;m tem uma certa flexibilidade. Porque pode ser que voc&ecirc; encontre uma maneira melhor de fazer aquela atividade. Ent&atilde;o, talvez o indiv&iacute;duo que estava cometendo crimes desarmado, ele come&ccedil;a a levar uma arma porque viu que, em determinado momento, aquela v&iacute;tima fugiu quando ele s&oacute; amea&ccedil;ou sem uma arma na m&atilde;o. Ent&atilde;o, houve uma modifica&ccedil;&atilde;o. Algu&eacute;m que cometeu dois crimes de estupro sem usar faca, sem usar arma de fogo, no terceiro come&ccedil;ou a usar uma faca, uma arma de fogo. Porque tem uma altera&ccedil;&atilde;o ali do que ele acha que talvez fique melhor. Ent&atilde;o, o modus operandi tanto pode evoluir, ter algum tipo de sofistica&ccedil;&atilde;o no seu ato, quanto involuir, ficar de alguma forma menos sofisticado por N motivos. Pode ser que o indiv&iacute;duo estava sob o efeito de drogas, pode ser que ele tenha algum tipo de transtorno mental que piorou, algum tipo de processo cognitivo que ele tenha, pode ser que ele esteja demasiado confiante e por isso ele tomou menos precau&ccedil;&otilde;es. Ent&atilde;o, o modus operandi tem uma certa repeti&ccedil;&atilde;o, mas ele tem mais abertura para se modificar, geralmente evoluir, mas tamb&eacute;m pode ter alguns casos de involu&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E pode ser tamb&eacute;m algum imprevisto, n&eacute;? Aconteceu alguma situa&ccedil;&atilde;o ali, algu&eacute;m estava passando ali perto, n&eacute;? Imprevistos acontecem tamb&eacute;m, e a gente raramente vai ficar sabendo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Exatamente. &Eacute; uma das principais&hellip; Como eu posso dizer&hellip; Decep&ccedil;&otilde;es da &aacute;rea, de quem vem, assim como eu vim, de filmes, de seriados e tudo mais. Porque o filme, quando voc&ecirc; resolve o crime, est&aacute; ali perto do fim do filme, voc&ecirc; tem a encena&ccedil;&atilde;o de exatamente como o assassino fez alguma coisa. Ent&atilde;o, voc&ecirc; sabe exatamente o que ocorreu. Quando, na vida real, a possibilidade disso existir &eacute; quase zero, se voc&ecirc; n&atilde;o tem uma c&acirc;mera l&aacute; gravando todo o ato criminal. Ent&atilde;o, pode ser que aconte&ccedil;a alguma situa&ccedil;&atilde;o de improviso ali que a gente s&oacute; venha a descobrir depois ou nunca, e fique naquela&hellip; Talvez um crime n&atilde;o seja considerado como parte de uma s&eacute;rie porque justamente a v&iacute;tima reagiu, era mais forte do que ele esperava, passou uma viatura de pol&iacute;cia com o som da sirene e ele fugiu. Ent&atilde;o, N fatores est&atilde;o envolvidos, que podem influenciar a a&ccedil;&atilde;o do ofensor, e, por consequ&ecirc;ncia, a nossa pr&oacute;pria percep&ccedil;&atilde;o do crime, da possibilidade de ser o mesmo ofensor ou n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E a assinatura?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: J&aacute; quando a gente fala de assinatura, ela seria j&aacute; um comportamento mais raro e mais espec&iacute;fico, muitas vezes n&atilde;o necess&aacute;rio para atingir esse objetivo do crime. Ent&atilde;o, a gente pode ter&hellip; Geralmente a gente trabalha com exemplos de assinatura. Quando a gente fala em crimes de estupro, pode ser um tipo de vestimenta espec&iacute;fica que ele pede para a v&iacute;tima<\/em> <em>usar, ou algum tipo de a&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica que ele pede para a v&iacute;tima fazer. A gente est&aacute; falando, por exemplo, de uma humilha&ccedil;&atilde;o que ele faz com a v&iacute;tima, de exercer controle sobre a v&iacute;tima ou de ser mais violento do que o necess&aacute;rio com a v&iacute;tima, ou direcionado a algum tipo de parte do corpo da v&iacute;tima. Ent&atilde;o, pode ser que seja um ofensor que chame a v&iacute;tima por algum nome espec&iacute;fico, que xingue a v&iacute;tima de algum jeito espec&iacute;fico, que busque humilhar a v&iacute;tima de alguma maneira. Nos casos de homic&iacute;dio, a gente j&aacute; tem outros casos de exemplos de assinatura, como necrofilia, como desmembramento, como a forma de oculta&ccedil;&atilde;o de cad&aacute;ver, como at&eacute; mesmo o m&eacute;todo de abordagem <\/em><em>&ndash;<\/em><em> talvez um ofensor que chegue na sua v&iacute;tima de alguma forma espec&iacute;fica. Ent&atilde;o, seria um comportamento raro. Quando a gente diz assinatura pensando em quadros, pensando em documentos, o que a gente tem &eacute;: quando voc&ecirc; v&ecirc; um quadro A e um quadro B, voc&ecirc; n&atilde;o sabe, tem alguma semelhan&ccedil;a no desenho, nos tra&ccedil;os, mas tem ali uma assinatura que voc&ecirc; sabe exatamente que &eacute; daquela pessoa. &Eacute; uma coisa rara, &eacute; uma coisa muito espec&iacute;fica que aquela pessoa coloca ali. No crime, ele seria essa coisa diferencial que facilitaria a gente a identificar que crime A e B &eacute; do mesmo ofensor. N&atilde;o necessariamente, como no quadro, &eacute; intencional deixar a assinatura, n&atilde;o necessariamente &eacute; o que acontece nos crimes. Existe essa concep&ccedil;&atilde;o err&ocirc;nea de que o assassino quer deixar algo l&aacute; para ser encontrado. &Agrave;s vezes nem &eacute;. &Agrave;s vezes &eacute; o que ele quer fazer naquele momento, &eacute; o motivo pelo qual ele quer cometer o crime, ele quer exercer controle sobre a v&iacute;tima, e para isso ele vai humilhar, vai atacar, vai fazer isso, vai fazer aquilo. E isso &eacute; uma consequ&ecirc;ncia, deixar algum tipo de evid&ecirc;ncia comportamental ou f&iacute;sica depois. Mas a assinatura, ent&atilde;o, em poucas palavras, seria um comportamento ou um conjunto de comportamentos que &eacute; extremamente raro e espec&iacute;fico, e muitas vezes n&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio para o cometimento do crime. Ele vai al&eacute;m do que &eacute; necess&aacute;rio e pode estar relacionado a&iacute; a algum tipo de fantasia do ofensor.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim. Eu lembro do&hellip; Um exemplo bem banal assim, mas &eacute; do filme &ldquo;Esqueceram de Mim&rdquo;, os bandidos molhados, que eles tinham o h&aacute;bito de roubar as casas e abrir todas as torneiras e tapar o ralo, para que a casa ficasse inundada. Ent&atilde;o, essa era a assinatura deles. A sua casa foi roubada e est&aacute; inundada, ent&atilde;o s&atilde;o os bandidos molhados.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: &Eacute; melhor do que uma que eu j&aacute; vi, de arrombamento de casa tamb&eacute;m, que era defecar na cama de casal.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ah, t&aacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: &Eacute; um comportamento completamente desnecess&aacute;rio e deixa a evid&ecirc;ncia forense l&aacute;, que &eacute; do indiv&iacute;duo, mas que para ele tinha uma gratifica&ccedil;&atilde;o para al&eacute;m de roubar. Ent&atilde;o, est&aacute; vendo? &Eacute; o comportamento espec&iacute;fico. Quantos casos voc&ecirc; sabe que isso aconteceu? Eu s&oacute; conhe&ccedil;o esse. E ele tem um significado para a pessoa, um tipo de mensagem, de desprezo para quem mora naquela resid&ecirc;ncia, de algum sinal que ele deixa ali. Mas, e a&iacute; eu acho importante dizer tamb&eacute;m, que a assinatura, apesar de ela ser est&aacute;tica, assim como o modus operandi, ela &eacute; bem mais fixa, ela &eacute; bem mais repetida. O modus operandi pode ter mais modifica&ccedil;&otilde;es na sua forma de agir. Mas a assinatura se mant&eacute;m mais comum. S&oacute; que ela tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; perfeitamente comum. N&atilde;o &eacute; como se toda vez que ele fosse, nesse caso, defecar, seria na cama de casal, milimetricamente correto, com determinada quantidade ou coisa do tipo. Mas ele vai talvez fazer a&ccedil;&otilde;es que danifiquem a casa que ele arrombou e que deixem as pessoas com a mesma sensa&ccedil;&atilde;o de nojo ou coisa do tipo. N&atilde;o necessariamente a mesma a&ccedil;&atilde;o, mas que tenha aquela fun&ccedil;&atilde;o para ele, que tenha aquele sentido para ele. Ent&atilde;o, no caso em que o ofensor humilha a v&iacute;tima, ele pode humilhar de determinadas formas diferentes. N&atilde;o &eacute; porque ele sempre repete a mesma frase ou o mesmo comportamento, que s&oacute; aquilo &eacute; a assinatura, mas com a fun&ccedil;&atilde;o desse comportamento para um indiv&iacute;duo psicologicamente na sua fantasia. A&iacute; &eacute; que a gente entra na possibilidade de assinatura.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Quando eu penso em modus operandi e assinatura, eu sempre fico&hellip; Dentro desse ramo de possibilidades, eu lembro que tipo: ok, esses s&atilde;o par&acirc;metros que a gente vai ter, vai tentar levar em casos seriais ou suspeitos de casos seriais. Mas, ao mesmo tempo, voc&ecirc; vai ter exemplos como, sei l&aacute;&hellip; Acho que o que mais me vem &agrave; mente, que &eacute; mais cl&aacute;ssico, &eacute; o caso do Zod&iacute;aco, dos Estados Unidos, em que ele fez uma s&eacute;rie de v&iacute;timas, e a gente s&oacute; sabe que ele fez uma s&eacute;rie de v&iacute;timas porque ele escrevia para os jornais fazendo&hellip; Porque ele matava cada v&iacute;tima de maneira diferente, n&eacute;? Inclusive usando roupas diferentes, abordando em hor&aacute;rios diferentes. Ent&atilde;o, parece que o grande prazer dele ali era simplesmente cometer o crime, fugir da pol&iacute;cia e avisar para o jornal: &ldquo;olha, cometi tal crime, eu sou o Zod&iacute;aco&rdquo;. Era isso. Ent&atilde;o, o modus operandi era completamente aleat&oacute;rio, mas uma assinatura estava ali, que era falar com os jornais, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Aham. E a&iacute; entra numa outra discuss&atilde;o sobre crimes em s&eacute;rie, a ideia de que ele vai ter sempre o mesmo padr&atilde;o de crime, vai ser repetido igualzinho o modus operandi. Mas a gente v&ecirc; que tem possibilidade de altera&ccedil;&atilde;o, seja de evolu&ccedil;&atilde;o ou involu&ccedil;&atilde;o, ou o caso concreto, algum tipo de situa&ccedil;&atilde;o contextual. Mas a pr&oacute;pria assinatura sofre modifica&ccedil;&atilde;o. E tem essa no&ccedil;&atilde;o de que se n&atilde;o &eacute; exatamente igual, se as v&iacute;timas n&atilde;o s&atilde;o perfeitamente iguais, n&atilde;o &eacute; um assassino em s&eacute;rie, ou n&atilde;o &eacute; algum tipo de estuprador em s&eacute;rie ou coisa do tipo. Mas n&atilde;o, &eacute;. Se ele cometeu dois ou mais crimes, do mesmo tipo de crime, ele j&aacute; &eacute; aquele criminoso em s&eacute;rie. Isso vai depender de teorias e te&oacute;ricos, mas dois a tr&ecirc;s crimes repetidos j&aacute; s&atilde;o a&iacute; crimes em s&eacute;rie, independente se a v&iacute;tima era um homem e depois era uma mulher, se era maior de idade, se era menor de idade. Ele j&aacute; entra em s&eacute;rie, e a&iacute; a gente vai ver os pormenores de cada um especificamente no caso a caso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Essa &eacute; uma vari&aacute;vel importante de ser colocada na investiga&ccedil;&atilde;o. &Agrave;s vezes, a tend&ecirc;ncia &eacute; achar que tudo deve se repetir exatamente da mesma forma, mas n&atilde;o &eacute; o caso. Imprevistos acontecem. Situa&ccedil;&otilde;es variam, pessoas mudam. Ficam mais habilidosas em alguns casos, ou &agrave;s vezes n&atilde;o conseguem fazer exatamente o que pretendiam desde o in&iacute;cio.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se considerar que os tr&ecirc;s casos s&atilde;o conectados, h&aacute; um modus operandi espec&iacute;fico nos sequestros e mortes dessas crian&ccedil;as, que pode sofrer algumas varia&ccedil;&otilde;es, mas que possui uma assinatura muito clara: os corpos sem as m&atilde;os, jogados com as roupas em um matagal pr&oacute;ximo de suas casas. Olhando por esse lado, os crimes parecem ter ainda mais rela&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan conheceu o trabalho do Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/denis-lino\/\" target=\"_self\" title=\"Psic&oacute;logo investigativo consultado pelo Projeto Humanos\" class=\"encyclopedia\">Denis Lino<\/a> na &eacute;poca em que produzia a temporada sobre Altamira. Ele estava interessado em entender melhor sobre Geografia do Crime, que foi o m&eacute;todo aplicado pelos investigadores do caso de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o em 2003 pela morte e emascula&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a>, no Maranh&atilde;o, em 2004.<\/p>\n\n\n\n<p>Procurando por artigos cient&iacute;ficos sobre o tema, Ivan encontrou alguns escritos pelo Dr. Denis. E o interesse em falar com ele era justamente pelo fato de que n&atilde;o sabia muitas coisas sobre os casos Evandro, Leandro e Sandra al&eacute;m do que j&aacute; existia nas documenta&ccedil;&otilde;es oficiais. Mas Ivan sabia de v&aacute;rios lugares relevantes nesses crimes, que nunca foram analisados com cuidado como m&eacute;todo de investiga&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/12\/Perfil-criminal-geogra%CC%81fico-novas-perspectivas-comportamentais-para-investigac%CC%A7a%CC%83o-de-crimes-violentos-no-Brasil.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Artigo &ndash; Perfil Criminal Geogr&aacute;fico: novas perspectivas comportamentais para investiga&ccedil;&atilde;o de crimes violentos no Brasil &ndash; D. Lino, L.H. Matsunaga (2018)<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Assim, ele pediu a ajuda do Dr. Denis justamente para entender melhor como esse m&eacute;todo de investiga&ccedil;&atilde;o funciona, e se ele teria ferramentas dispon&iacute;veis para auxiliar com base em probabilidades.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Eu achei interessante quando voc&ecirc; falou &ldquo;eu n&atilde;o sei o que aconteceu com essa crian&ccedil;a, mas eu sei onde o crime aconteceu&rdquo;, seja porque o corpo foi encontrado ali ou porque a gente tem uma no&ccedil;&atilde;o mais ou menos de onde a crian&ccedil;a foi vista pela &uacute;ltima vez ou de onde ela pode ter sido raptada. Eu estou considerando aqui r&aacute;pido em todos os tr&ecirc;s casos&hellip; Porque uma coisa que a gente n&atilde;o tocou ainda, mas que para mim &eacute; o que mais faz sentido dentro do que eu chamo de perfil criminal geogr&aacute;fico, como voc&ecirc; chamou de geografia do crime, &eacute; que o local do crime n&atilde;o &eacute; aleat&oacute;rio. Porque se crime fosse aleat&oacute;rio, a gente n&atilde;o ia ter, por exemplo, o que a gente chama de hotspots, que s&atilde;o as &aacute;reas de calor, concentra&ccedil;&atilde;o de crimes. A gente n&atilde;o teria mais crimes de rela&ccedil;&otilde;es, de brigas interpessoais, at&eacute; de assassinatos, em fins de semana, que &eacute; quando as pessoas est&atilde;o fora de casa, socializando, que tem mais possibilidade de conflitos. A gente n&atilde;o teria crimes em algumas cidades que s&atilde;o de veraneio, fora do ver&atilde;o, porque tem menos pessoas nas casas. Ent&atilde;o, o crime n&atilde;o &eacute; aleat&oacute;rio, e o local do crime n&atilde;o &eacute; aleat&oacute;rio. As pessoas que cometem crimes t&ecirc;m que ter, de alguma forma, um contato com aquele local em que o crime ocorreu. Eu costumo falar tamb&eacute;m em sala de aula, como eu dou aula n&iacute;vel Brasil, online, desde a pandemia&hellip; Se voc&ecirc; fosse cometer um crime aqui em Campina Grande, que &eacute; a cidade que eu estou agora,<\/em> <em>em que bairro voc&ecirc; faria isso? Em que rua voc&ecirc; faria isso? Voc&ecirc; vai arrombar uma casa para roubar um notebook, uma televis&atilde;o. Em que bairro voc&ecirc; faria isso? A maioria dos alunos n&atilde;o sabe, porque n&atilde;o s&atilde;o de Campina Grande. Ent&atilde;o, para voc&ecirc; saber que existe uma v&iacute;tima em potencial ali, voc&ecirc; tem que, de alguma forma, ter contato com aquele local. Esse contato geralmente se d&aacute; pelo o que essa pessoa faz no seu dia a dia. &Eacute; porque ela mora na regi&atilde;o, &eacute; porque ela trabalha na regi&atilde;o. De alguma forma, ela tem que se locomover por aquela &aacute;rea para saber: &ldquo;aqui eu posso levar essa crian&ccedil;a porque n&atilde;o tem uma fiscaliza&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Ou ent&atilde;o, se eu estou aqui, tem algum motivo para eu estar aqui. Seja porque eu estou me locomovendo da minha casa para a casa de um colega, de uma esposa, de outra pessoa; seja porque eu estou saindo no trajeto de trabalho&hellip; Eu lembro de um caso espec&iacute;fico em que crimes de um estuprador em s&eacute;rie ocorreram por volta ali das tr&ecirc;s e meia, quatro da tarde, que era justamente o hor&aacute;rio de sa&iacute;da do trabalho dele, e era no trajeto que ele fazia do trabalho at&eacute; a sua casa. Ent&atilde;o, ele trabalhava das sete &agrave;s tr&ecirc;s. Tr&ecirc;s e meia para as quatro horas, ali entre os bairros em que ele trabalhava e para onde ele sa&iacute;a para sua casa, era onde ele fazia as suas v&iacute;timas. Ent&atilde;o, tinha uma rela&ccedil;&atilde;o com o local e tamb&eacute;m com o tempo, que fazia a conex&atilde;o com ele. Ent&atilde;o, o perfil criminal geogr&aacute;fico seria a an&aacute;lise dos locais dos crimes e tamb&eacute;m de como esses crimes foram cometidos, o modus operandi, a assinatura, para tentar identificar onde esse ofensor tem um ponto de &acirc;ncora, uma base. Geralmente, a gente considera como sendo a casa deles. &Oacute;bvio, j&aacute; tiveram a&iacute; alguns estudos que mostraram que alguns ofensores tinham como base um bar que costumavam frequentar. Ficava muito tempo nesse bar, e ele sa&iacute;a desse bar para cometer os seus crimes. Ent&atilde;o, acabava que o ponto dele era aquele bar. Em algum outro caso espec&iacute;fico, foi onde ele j&aacute; morou. Mas, de uma maneira geral, o que a gente tem &eacute; a casa do ofensor, onde ele reside atualmente, como sendo a sua base. Mas tamb&eacute;m pode ter algum outro tipo de situa&ccedil;&atilde;o assim. Ent&atilde;o, a gente olha pra: em que local geogr&aacute;fico aconteceu esse crime, como esse crime foi cometido e o que a gente sabe sobre a rela&ccedil;&atilde;o movimenta&ccedil;&atilde;o e comportamento criminal. Porque, como eu disse, se ele cometeu crime em algum local, ele tem que ter alguma rela&ccedil;&atilde;o com aquilo dali. Algumas caracter&iacute;sticas de modus operandi v&atilde;o indicar talvez uma dist&acirc;ncia maior ou menor percorrida por aquele indiv&iacute;duo. Caracter&iacute;sticas individuais tamb&eacute;m v&atilde;o dizer isso. Ent&atilde;o, a gente tem que, geralmente, indiv&iacute;duos que cometem crimes muito jovens, ainda ali no in&iacute;cio, metade, fim da adolesc&ecirc;ncia, costumam percorrer dist&acirc;ncias bem mais curtas comparadas a jovens adultos. Mais ou menos ali pelos 30 anos &eacute; quando o pessoal viaja as dist&acirc;ncias mais longas. E, depois, quando eles passam a uma idade mais avan&ccedil;ada, os seus 40, 50 anos, eles voltam a percorrer dist&acirc;ncias curtas. Ent&atilde;o, de acordo com caracter&iacute;sticas individuais do crime, a gente tem algumas intera&ccedil;&otilde;es com como eles se movimentam. Crimes interpessoais, de estupro, homic&iacute;dio, geralmente s&atilde;o cometidos mais pr&oacute;ximos da casa do ofensor, comparado a crimes monet&aacute;rios, aquisitivos, como roubos, assaltos, arrombamentos, que eles costumam viajar mais. Ent&atilde;o, algumas caracter&iacute;sticas espec&iacute;ficas v&atilde;o indicar mais ou menos a dist&acirc;ncia percorrida desse indiv&iacute;duo. E o principal ponto que a gente tem hoje, que &eacute; pac&iacute;fico, digamos assim, na literatura de estudos de perfil criminal geogr&aacute;fico, &eacute; a ideia de que os ofensores em geral viajam dist&acirc;ncias curtas para cometer o seu crime. Isso entra justamente no princ&iacute;pio do m&iacute;nimo esfor&ccedil;o. A gente tem a teoria do princ&iacute;pio. Quando a gente for ver na pr&aacute;tica, de fato, n&atilde;o &eacute; como se eles fossem como alguns filmes ou s&eacute;ries retratam, que ele sai viajando e matando pessoas &agrave; medida em que viaja. Na verdade, ele viaja dist&acirc;ncias de dois, tr&ecirc;s, quatro quil&ocirc;metros em m&eacute;dia para cometer os seus crimes. Ent&atilde;o, a gente busca construir uma &aacute;rea ali dentro do mapa, analisando o local e como os crimes foram cometidos, para indicar: &ldquo;&eacute; por aqui mais ou menos que essa pessoa provavelmente tem a sua base&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Com base nessas teorias, o Dr. Denis elaborou um relat&oacute;rio de perfil criminal geogr&aacute;fico, examinando especificamente a cidade de Guaratuba. S&oacute; foi poss&iacute;vel fazer nela, j&aacute; que l&aacute; houve dois casos &ndash; o m&iacute;nimo necess&aacute;rio para se fazer esse tipo de estimativa. E tudo gira em torno do matagal onde os corpos de Evandro e Leandro foram encontrados.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Uma das coisas que a gente, dentro do perfil criminal geogr&aacute;fico, desenvolveu nas &uacute;ltimas duas d&eacute;cadas foram softwares, programas de computador para tentar auxiliar nessa constru&ccedil;&atilde;o do perfil geogr&aacute;fico. Partindo principalmente dessa ideia do m&iacute;nimo esfor&ccedil;o, que reflete na no&ccedil;&atilde;o de que os ofensores v&atilde;o viajar dist&acirc;ncias menores para cometer o crime. Ent&atilde;o, quanto mais distante do crime, menos prov&aacute;vel de ele residir ali. Isso se aplica na maioria dos casos, mas como a gente j&aacute; viu, a gente est&aacute; lidando&hellip; Existe sempre a possibilidade de ser a exce&ccedil;&atilde;o &agrave; regra. Mas supondo que n&atilde;o &eacute; uma exce&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que a gente trabalha com regras, com o que &eacute; mais prov&aacute;vel de acontecer, utilizando de um dos softwares dispon&iacute;veis, que &eacute; o Dragnet, que foi desenvolvido pelo professor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/david-canter\/\" target=\"_self\" title=\"Psic&oacute;logo e professor que desenvolveu softwares de an&aacute;lise criminal\" class=\"encyclopedia\">David Canter<\/a> l&aacute; da Universidade de Liverpool, que tamb&eacute;m &eacute; a pessoa que meio que criou a psicologia investigativa enquanto &aacute;rea&hellip; A gente v&ecirc; que n&atilde;o s&oacute; o programa identifica essa &aacute;rea de mata em que foram encontrados os corpos como &aacute;rea em potencial para estar a base do ofensor, seja ela resid&ecirc;ncia, local de trabalho, ou algo do tipo; mas tamb&eacute;m uma &aacute;rea ali de intersec&ccedil;&atilde;o, meio que entre o local onde o Evandro foi visto pela &uacute;ltima vez e tamb&eacute;m o local onde talvez o Leandro tenha sido raptado, que seria na sua casa. A gente tem algumas informa&ccedil;&otilde;es dentro dos relatos que mais ou menos pontuam onde o Evandro talvez tenha sido visto. E como a gente sabe que o Leandro voltou at&eacute; a sua resid&ecirc;ncia e depois desapareceu, eu tratei desses dois pontos como sendo o prov&aacute;vel rapto. Porque se n&atilde;o foi ali, deve ter sido em alguma coisa pr&oacute;xima. Ent&atilde;o, a gente teria uma pessoa que, por algum motivo, tamb&eacute;m est&aacute; nessa regi&atilde;o que conecta esses dois pontos, onde o Evandro foi visto e onde o Leandro morava e pode ter sido raptado. A gente n&atilde;o est&aacute; falando necessariamente, em quest&atilde;o de probabilidade, de acordo com o software e a t&eacute;cnica, de pessoas que moram na beira da praia, de pessoas que moram muito ao norte, de pessoas que moram muito a oeste ou coisa do tipo. &Eacute; prov&aacute;vel que ele estava naquela regi&atilde;o, e se a gente pega crimes em que surgiu a oportunidade &ndash; aparentemente foram crimes n&atilde;o planejados, mas s&atilde;o crimes de oportunidade &ndash;, a gente pega a situa&ccedil;&atilde;o que ocorreu&hellip; N&atilde;o &eacute; como se o Leandro toda vez sa&iacute;sse de casa naquela hora, n&atilde;o &eacute; como se o Evandro toda vez sa&iacute;sse de casa naquela hora. Porque se &eacute; algo que est&aacute; dentro da rotina deles, a gente espera que pode ter tido um planejamento para aquele rapto acontecer naquela hora. Mas em ambos os casos e at&eacute; mesmo no caso da Sandra, se a gente for ver, analisar, a gente v&ecirc; que n&atilde;o foi uma situa&ccedil;&atilde;o t&iacute;pica o dia em que aquilo aconteceu, mas sim uma situa&ccedil;&atilde;o mais incomum do que comum. Ent&atilde;o, a possibilidade de ter sido algu&eacute;m que estava esperando aquela crian&ccedil;a voltar para casa porque todo dia, vamos dizer, &agrave;s cinco da tarde, ela sai da escola e passa por aquele caminho, n&atilde;o era uma situa&ccedil;&atilde;o assim. Ent&atilde;o, por algum motivo, ele<\/em> <em>estava naquele local naquela hora. Que motivo &eacute; esse? &Eacute; o que a gente come&ccedil;a a hipotetizar. Se ela &eacute; uma pessoa que trabalha como comerciante ambulante por aquela regi&atilde;o, ela estava ali naquele momento. Se ele trabalha fazendo entregas naquela regi&atilde;o, ele talvez n&atilde;o more por l&aacute;, mas &eacute; uma &aacute;rea que ele frequenta por conta do seu trabalho. Ent&atilde;o, o que a gente defende ou tem a hip&oacute;tese principal, &eacute; que ele tem alguma a&ccedil;&atilde;o ou tinha algum tipo de a&ccedil;&atilde;o cotidiana que colocava ele naquele local, naquela regi&atilde;o. E, de acordo com o software, mais especificamente nessa&hellip; Como se fosse nessa linha, nessa &aacute;rea, que conecta esses dois pontos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No relat&oacute;rio que o professor Denis produziu, h&aacute; duas estimativas de mapas gerados pelo Dragnet, que tentam passar uma estimativa prov&aacute;vel de onde poderia ser a base do assassino de Evandro e Leandro. E a maior probabilidade, de acordo com o programa, &eacute; de que ele tivesse como base de opera&ccedil;&otilde;es algum lugar perto daquela regi&atilde;o do matagal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isso significa que ele morava l&aacute;? Estatisticamente falando, sim, mas n&atilde;o necessariamente. Pode ser apenas que o local onde ele matou os meninos era naquela regi&atilde;o. Pode ser que ele n&atilde;o morasse na cidade &ndash; o que n&atilde;o seria uma possibilidade a se desprezar, visto que Guaratuba &eacute; uma cidade onde muita gente tem casa para passar f&eacute;rias ou finais de semana, mas mora em Curitiba, por exemplo. &Eacute; uma cidade com muito tr&acirc;nsito, ent&atilde;o n&atilde;o se pode descartar nada.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Uma das hip&oacute;teses que eu levanto nos meus momentos antes de dormir, que essas coisas n&atilde;o saem da minha cabe&ccedil;a, &eacute;: ele n&atilde;o mora em Guaratuba. Ele passa, comete um crime, rapta uma crian&ccedil;a e comete um crime em outro lugar incerto, que a gente n&atilde;o sabe. Mas por algum motivo&hellip; Ele n&atilde;o quer ser pego, ent&atilde;o ele vai preparar os corpos de uma forma que eles n&atilde;o v&atilde;o ser identificados, n&atilde;o v&atilde;o ser achados t&atilde;o r&aacute;pido. Mas por algum motivo ele quer que um dia a fam&iacute;lia saiba&hellip; &ldquo;T&aacute; aqui o teu filho, que voc&ecirc; encontrou. S&oacute; que ele est&aacute; de um jeito j&aacute; que voc&ecirc; n&atilde;o consegue mais me localizar&rdquo;. Ent&atilde;o da&iacute; ele joga no mato perto da casa. Ele volta para Guaratuba para jogar os corpos. E eu penso nisso muito porque&hellip; O fato de ele deixar com as roupas&hellip; Ele n&atilde;o quer impedir a<\/em> <em>identifica&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as. Ele quer deixar de alguma forma. Que eu saiba, o Evandro estava sem a camisa. Mas ele estava com a bermuda. Os chinelos do Evandro s&atilde;o achados alguns dias depois, como se ele tivesse voltado ao local do crime, estava com ele, e ele joga l&aacute; as sand&aacute;lias. Talvez porque&hellip; Eu lembro que da&iacute; come&ccedil;a a discuss&atilde;o se era o Evandro ou n&atilde;o, apesar que j&aacute; tinha&hellip; Foi enterrado como o Evandro, rapidamente. Mas pode ser porque ele estava com provas&hellip; Mas eu tenho a impress&atilde;o que ele quer que&hellip; Algum tipo de remorso, n&atilde;o sei&hellip; &Eacute; uma possibilidade. Ele quer deixar assim: &ldquo;n&atilde;o, est&aacute; aqui&rdquo;. Porque as duas crian&ccedil;as s&atilde;o deixadas num matagal muito pr&oacute;ximo da casa, quando ele poderia deixar em qualquer lugar de Guaratuba. Tem uma &aacute;rea l&aacute; perto, por exemplo&hellip; Ela &eacute; perto da serraria mesmo, Abagge, que ficou t&atilde;o famosa no [caso] Evandro. Aquela &aacute;rea l&aacute;, assim, tem um rio que passa por tr&aacute;s, que des&aacute;gua no mar. Daria para fazer&hellip; Teria jeitos melhores de se livrar de um corpo, para ele nunca mais ser encontrado, entende? Ent&atilde;o, assim, eu n&atilde;o consigo deixar de pensar de por que deixar nesses lugares. Da&iacute; eu lembro da Sandra. A Sandra est&aacute; perto de casa tamb&eacute;m. Ela &eacute; deixada perto de casa com as suas roupas, de uma maneira que n&atilde;o tem como identificar ela. Mas &eacute; deixada l&aacute;. Ent&atilde;o, assim, tudo isso&hellip; Ou seja, a gente n&atilde;o sabe dizer onde ele cometeu o crime, a gente n&atilde;o sabe onde &eacute; a sua base de opera&ccedil;&atilde;o. Mas, com base no Dragnet, a gente tem a hip&oacute;tese, com base em estat&iacute;sticas de outros casos, pegando outros casos&hellip; Os crimes ocorreram aqui, &eacute; aqui que seria mais ou menos a &aacute;rea&hellip; As probabilidades de ele estar morando&hellip; Mas pode ser que ele nem more em Guaratuba. &Eacute; poss&iacute;vel tamb&eacute;m.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: &Eacute; poss&iacute;vel tamb&eacute;m. Inclusive, um caso de aplica&ccedil;&atilde;o do perfil criminal geogr&aacute;fico que deu errado foi disso. Os atiradores de Washington, se eu n&atilde;o me engano, de sniper&hellip; Que tinham uma van, e eles ficavam andando pelo pa&iacute;s e cometendo os seus crimes. E participou-se a&iacute; a constru&ccedil;&atilde;o de um perfil criminal geogr&aacute;fico que n&atilde;o ajudou em nada porque a base deles era m&oacute;vel. E a&iacute; n&atilde;o tem como voc&ecirc; descobrir isso, a n&atilde;o ser a partir do depois, do posteriori. Ent&atilde;o, existem as nossas pr&oacute;prias limita&ccedil;&otilde;es.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Pois &eacute;. Ele pode ter uma base m&oacute;vel, ele pode ter uma Kombi, naquela &eacute;poca, por exemplo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Hoje em dia, naquela &eacute;poca, em qualquer momento. S&oacute; que a quest&atilde;o &eacute;: esse caso pode ser justamente isso, e por isso talvez esteja t&atilde;o complicado. Mas pode tamb&eacute;m ser um caso em que o indiv&iacute;duo que conhece uma &aacute;rea de mata pouco frequentada decidiu largar os corpos l&aacute;. Tanto que a gente n&atilde;o v&ecirc; muito mais cuidado para esconder ele. Voc&ecirc; pode dizer: &ldquo;ah, ele colocou numa &aacute;rea de mata pouco frequentada, ele queria uma oculta&ccedil;&atilde;o total do cad&aacute;ver&rdquo;. Mas ele poderia tamb&eacute;m ter cavado, poderia ter feito outras coisas. Ent&atilde;o, a gente tem a&ccedil;&otilde;es desse indiv&iacute;duo que n&atilde;o necessariamente&hellip; &Eacute; o complicado da coisa. N&atilde;o necessariamente d&aacute; a entender que pode ser A ou B. [&hellip;] Eu concordo com a vis&atilde;o do Sami, em que parece ser o seguinte: eu cometi um crime como eu gostaria, meu modus operandi seguiu o seu prop&oacute;sito, em que eu consegui raptar aquela crian&ccedil;a. Ningu&eacute;m nem sabe onde foi esse rapto, n&atilde;o est&atilde;o na minha cola, eu fiz o que eu queria &ndash; supondo a&iacute; de as poss&iacute;veis mutila&ccedil;&otilde;es terem sido intencionais, cometidas por seres humanos. Eu fiz o que eu gostaria, me descartei desse corpo nessa &aacute;rea que eu sei que n&atilde;o &eacute; comum as pessoas virem para c&aacute;, ent&atilde;o vou deixar l&aacute;. Vou cometer um segundo crime. A&iacute; tem o nosso ditado: para que mexer em time que est&aacute; ganhando? Por que eu vou modificar algo que d&aacute; certo? S&oacute; que a&iacute; a gente tem o rapto de uma crian&ccedil;a que movimenta muito mais, e n&atilde;o &eacute; nem por causa desse movimento, pelo o que eu me recordo, que ela &eacute; encontrada, &eacute; por algum acaso. Das pessoas terem passado naquela regi&atilde;o. Mas&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Viram urubus andando e decidiram&hellip; Eram dois lenhadores que estavam ali na regi&atilde;o justamente para tirar lenha. Era uma regi&atilde;o que tinha um caminho, tinha uma picada para dentro do mato, diferente do Leandro, pelo o que a gente p&ocirc;de levantar. O Leandro &eacute; numa mata fechada, e do Evandro tinha um caminho. Ent&atilde;o, esses lenhadores que estavam ali naquela regi&atilde;o decidiram entrar naquele caminho e viram os urubus, da&iacute; encontraram o corpo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: A gente pode falar de involu&ccedil;&atilde;o do modus operandi. A gente repete, mas ser&aacute; que eu precisava ir t&atilde;o fundo naquele matagal para deixar o corpo? Talvez n&atilde;o. A&iacute; &eacute; onde come&ccedil;a a dar problema para o ofensor. Agora est&aacute; todo mundo vindo atr&aacute;s, tem toda uma como&ccedil;&atilde;o sobre o fato, ent&atilde;o agora eu tenho que mudar. E talvez por isso que a gente n&atilde;o saiba da exist&ecirc;ncia de outros crimes. E aqui eu j&aacute; estou partindo da ideia de que&hellip; Vamos at&eacute; excluir a possibilidade de Sandra. A gente tem o Leandro, a gente tem o Evandro, e a&iacute; parou. Mas a&iacute; &eacute; dif&iacute;cil essa quest&atilde;o do parar. N&atilde;o &eacute; imposs&iacute;vel, quando a gente tem um assassino em s&eacute;rie, ele parar. Geralmente os motivos que colocam o assassino em s&eacute;rie a parar s&atilde;o pessoais, da sua vida. Morreu, parou. Ficou preso. Est&aacute; numa idade muito avan&ccedil;ada. Ou &agrave;s vezes algumas outras quest&otilde;es. Tem caso em que o ofensor parou de cometer crimes em s&eacute;rie porque ele se casou e a&iacute; estava vivendo bem, a sua esposa n&atilde;o era envolvida com crime e tudo mais. E, depois de tantos anos, quando se separou, ele voltou a cometer os crimes. Ele est&aacute; numa situa&ccedil;&atilde;o de vida diferente, que faz ele mudar. Ent&atilde;o, existem tamb&eacute;m diversas possibilidades. Geralmente, s&atilde;o uma dessas que eu comentei, que a gente tem de informa&ccedil;&atilde;o de porqu&ecirc; para&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Uma mudan&ccedil;a de rotina, de trabalho, que impede ele tamb&eacute;m. Antes ele trabalhava na rua, de alguma forma, e agora ele est&aacute; trabalhando no escrit&oacute;rio das oito &agrave;s dezoito, por exemplo&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: N&atilde;o &eacute; imposs&iacute;vel, mas eu diria que &eacute; menos comum. Porque se ele est&aacute; de oito &agrave;s dezoito, ele ainda teria ali dezoito &agrave; meia-noite, digamos assim, pra fazer algo. Eu n&atilde;o diria que essa seria uma motiva&ccedil;&atilde;o t&atilde;o grande para parar com crimes em que a gente v&ecirc; o grau de teor psicol&oacute;gico nele. N&atilde;o &eacute; como se fosse uma briga de bar, que agora aconteceu algo e eu parei de beber ou coisa do tipo. A gente tem coisas que v&atilde;o al&eacute;m do necess&aacute;rio. A gente tem uma assinatura muito bem estabelecida com a&ccedil;&otilde;es de mutila&ccedil;&atilde;o, que &eacute; dif&iacute;cil voc&ecirc; ver depois de acontecer, imagina de voc&ecirc; estar fazendo aquilo dali. Ent&atilde;o, tem uma carga emocional aparentemente grande nesse tipo de crime para&hellip; Ent&atilde;o, para se parar algo assim, muito provavelmente precisa ser algo grande. Por isso que eu estou levantando aqui a possibilidade de que a fantasia de cometer esses crimes, de realizar esses atos, n&atilde;o necessariamente cessou.<\/em> <em>Mas pode ser que, porque come&ccedil;ou a ter como&ccedil;&atilde;o com aquele caso e o modus operandi n&atilde;o funcionou t&atilde;o bem, ele teve alguma modifica&ccedil;&atilde;o. Talvez ele saiu da cidade. Quando a gente fala de ofensores mais organizados, a gente tem uma das a&ccedil;&otilde;es dele&hellip; &Eacute; justamente quando ele sente que a investiga&ccedil;&atilde;o est&aacute; chegando perto de si, mudar de local. Mudar de resid&ecirc;ncia, mudar de local de trabalho para evitar ser identificado. A gente pode ter uma pessoa que agora, em 2023, escute o podcast, sabe que &eacute; ele e sabe que n&atilde;o parou a&iacute;. Existe essa possibilidade quando a gente fala de assassinos em s&eacute;rie, porque ele pode ter passado a fazer uma das v&aacute;rias coisas que voc&ecirc; falou para descartar os corpos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Na conclus&atilde;o do relat&oacute;rio criminal geogr&aacute;fico, acerca das mortes de Leandro e Evandro, o Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/denis-lino\/\" target=\"_self\" title=\"Psic&oacute;logo investigativo consultado pelo Projeto Humanos\" class=\"encyclopedia\">Denis Lino<\/a> afirma o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Em ambos os perfis criminais &eacute; defendido que o ofensor &eacute; um indiv&iacute;duo da localidade que, durante os crimes de rapto, estava na regi&atilde;o realizando alguma atividade de seu dia a dia, quando vislumbrou uma oportunidade para o crime. O local de desova do corpo indica tamb&eacute;m conhecimento da &aacute;rea, especialmente nos crimes de 1992, sugerindo que ele possa ter uma base ou se locomover pelas redondezas da &aacute;rea de mata. De posse dessas informa&ccedil;&otilde;es &eacute; poss&iacute;vel gerar uma lista de suspeitos ou filtrar os suspeitos existentes<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m do relat&oacute;rio do perfil criminal geogr&aacute;fico, o Dr. Denis tamb&eacute;m elaborou dois outros documentos: um sobre a dificuldade em se confiar em testemunhos prestados<em> <\/em>com base em mem&oacute;ria, especialmente em crian&ccedil;as; e outro sobre as possibilidades dos<em> <\/em>casos Sandra, Leandro e Evandro estarem conectados.<\/p>\n\n\n\n<p>O relat&oacute;rio sobre mem&oacute;ria foi mais para auxiliar Ivan em cuidados que precisava tomar em confiar ou n&atilde;o em alguns detalhes que eram dados em depoimentos &ndash; por exemplo, no caso dos irm&atilde;os Fran&ccedil;a, que devem ser lidos com bastante cautela, dadas as condi&ccedil;&otilde;es da &eacute;poca.<\/p>\n\n\n\n<p>J&aacute; no relat&oacute;rio sobre as possibilidades de conex&otilde;es dos tr&ecirc;s casos, ele estabelecia uma s&eacute;rie de crit&eacute;rios e, em seguida, ia marcando a presen&ccedil;a ou n&atilde;o deles em cada um. Por exemplo, a v&iacute;tima tinha at&eacute; 12 anos de idade? Tinha cabelo loiro? Foi raptada? Foi raptada em um final de semana? E por a&iacute; vai. Ao todo, foram 33 categorias para formar essa base de compara&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, o Dr. Denis ia para uma quest&atilde;o estat&iacute;stica, em um plano mais macro. Por exemplo: quantas pessoas s&atilde;o assassinadas por ano? Dessas pessoas, quantas s&atilde;o menores de idade? Dessas crian&ccedil;as assassinadas, quantas foram antes raptadas? Dessas que foram raptadas e mortas, quantas tiveram mutila&ccedil;&otilde;es em seus corpos?<\/p>\n\n\n\n<p>Bases de dados para isso n&atilde;o s&atilde;o das mais simples, e frequentemente s&atilde;o mal alimentadas &ndash; isso quando n&atilde;o s&atilde;o inexistentes no Brasil. Nessas situa&ccedil;&otilde;es, para base de compara&ccedil;&atilde;o estat&iacute;stica, o Dr. Denis recorria a fontes estrangeiras.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E da&iacute; tem outra coisa que o Dr.&nbsp;Sami falou que me bateu muito e para voc&ecirc; tamb&eacute;m, que &eacute; a quest&atilde;o da possibilidade de abuso sexual. Porque da&iacute; a gente teria um link bem mais claro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: E bem mais forte tamb&eacute;m. Que a&iacute; volta a ser um&hellip; Qual &eacute; a motiva&ccedil;&atilde;o do crime? Talvez a gente nem saiba a motiva&ccedil;&atilde;o. Foi o abuso sexual e a&iacute; o homic&iacute;dio foi para a v&iacute;tima n&atilde;o denunciar? Era o homic&iacute;dio junto do abuso sexual? Ou era a mutila&ccedil;&atilde;o, s&oacute; que, porque estava ali na oportunidade, fez isso? Ser&aacute; que era tudo? Mas, independente de qual seja a motiva&ccedil;&atilde;o dele, de qual era, digamos, o ponto prim&aacute;rio, eu acho que&hellip; Eu acho n&atilde;o, s&oacute; fortalece a no&ccedil;&atilde;o de que os tr&ecirc;s foram cometidos pela mesma pessoa. E eu tamb&eacute;m&hellip; E a&iacute; &eacute; um problema, que a gente come&ccedil;a a entrar um pouco nos achismos<\/em> <em>porque existe a possibilidade de o Evandro ter sido [abusado], porque n&atilde;o tem informa&ccedil;&atilde;o. Existe a possibilidade de o Leandro ter sido [abusado], porque n&atilde;o tem informa&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. A gente n&atilde;o pode descartar a possibilidade de abuso sexual&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Mas a gente tamb&eacute;m levar para crer que existiu, porque n&atilde;o pode descartar tamb&eacute;m, &eacute; o &lsquo;wishful thinking&rsquo;, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute;, sim&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Ent&atilde;o, eu vou trabalhar com isso daqui&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o, vamos fazer um exerc&iacute;cio aqui. O que nos conecta Sandra e Evandro seria&hellip; &Eacute; que a gente vai pulando de um a um. O que nos conecta Sandra e Evandro &eacute; o aparente escalpo, que pode ter sido feito&hellip; No caso do Evandro, pode ter sido feito por a&ccedil;&atilde;o natural. A aus&ecirc;ncia das m&atilde;os&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: E no caso Evandro tamb&eacute;m se coloca que pode ter sido feito de maneira diferente do da Sandra. S&oacute; que isso n&atilde;o significa dizer que foram duas pessoas diferentes. &Eacute; s&oacute; porque foi uma maneira diferente da retirada. E, como eu disse, existe uma certa experimenta&ccedil;&atilde;o dentro do modus operandi, que &eacute; uma modifica&ccedil;&atilde;o, ent&atilde;o&hellip; Eu cheguei a pesquisar&hellip; Eu vou ver se eu encontro aqui com uma certa facilidade&hellip; O qu&atilde;o comum &eacute; o ato de mutila&ccedil;&atilde;o p&oacute;s-morte.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ah, sim. Isso&hellip; Acho que foi uma das partes mais legais, assim, dos seus pareceres. Porque da&iacute; voc&ecirc; vai fazendo esse c&aacute;lculo, do tipo: quantas crian&ccedil;as morrem e tal&hellip; Acho que esse &eacute; um bom ponto. &Eacute; um bom ponto para a gente ver.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: E a&iacute; a gente tem pouqu&iacute;ssimo material que fala de assassinato sexual de crian&ccedil;as, que &eacute; o que talvez seja o que a gente est&aacute; lidando. Com certeza no caso da Sandra e muito provavelmente no dos outros. Porque o assassinato sexual tem algumas defini&ccedil;&otilde;es diferentes, mas a mais cl&aacute;ssica, que &eacute; a do FBI, coloca que se o corpo &eacute; encontrado e tem algum tipo de abuso sexual, seja por penetra&ccedil;&atilde;o de p&ecirc;nis, de algum outro objeto, algum tipo de ato sexual&hellip; Seja porque esse corpo foi deixado em algum tipo de pose para ser encontrado daquela forma, algum tipo de pose sexual, por exemplo, ou se o corpo foi encontrado desnudo ou parcialmente nu. Ent&atilde;o, a gente sabe que no caso da Sandra, ela foi de fato abusada sexualmente. No caso do Leandro, a gente s&oacute; encontrou, se eu n&atilde;o me engano, possivelmente a cueca dele; e no caso do Evandro, tamb&eacute;m ele estava parcialmente desnudo, e h&aacute; a possibilidade de ter sido retirada a roupa para fazer as mutila&ccedil;&otilde;es. Ent&atilde;o, meio que eles se encaixam dentro dessa defini&ccedil;&atilde;o de assassinato sexual, e todas eram crian&ccedil;as. Quando a gente vai ver os materiais que tem sobre, em menos de 20% dos casos de homic&iacute;dio sexual de crian&ccedil;a teve o desmembramento depois que a v&iacute;tima foi morta, e em 90% dos casos o corpo foi escondido. Em uma pesquisa apenas de assassinato em s&eacute;rie, sem ser especificamente assassinos sexuais de crian&ccedil;a, o desmembramento s&oacute; ocorre em at&eacute; 10% dos casos. Ent&atilde;o, &eacute; como se, de 100, apenas 10 haviam cometido esse tipo de ato. De assassinato de crian&ccedil;a, especificamente assassinato sexual, um pouco mais comum. Mas, ainda assim, n&atilde;o &eacute; um comportamento que a gente pode dizer que se repete. Se a gente pega que foram dois casos&hellip; Pensando especificamente no escalpelamento, a gente tem a Sandra e o Evandro. Tr&ecirc;s anos de diferen&ccedil;a. Perfil vitimol&oacute;gico semelhante; um perfil temporal semelhante, tr&ecirc;s anos; um perfil geogr&aacute;fico semelhante tamb&eacute;m, em cidades praticamente vizinhas, a&iacute; &eacute; assim&hellip; Em 10 anos, em 20 anos, aconteceram 10% de mutila&ccedil;&atilde;o, mas aqui, em uma cidade vizinha da outra, duas crian&ccedil;as semelhantes foram mutiladas de maneira semelhante. &Eacute; dif&iacute;cil a gente crer ou ter como ponto principal que s&atilde;o duas pessoas diferentes, porque &eacute; um comportamento extremamente raro. E como a gente tem uma certa repeti&ccedil;&atilde;o nos crimes, mais ainda. Tem estudos que foram especificamente sobre mutila&ccedil;&atilde;o de parte do corpo, a mutila&ccedil;&atilde;o da face n&atilde;o &eacute; comum. Ent&atilde;o, aqui a gente est&aacute; falando apenas de homic&iacute;dios em que teve a presen&ccedil;a de algum tipo de mutila&ccedil;&atilde;o. Em apenas cerca de 10% &eacute; que a face foi mutilada. Ent&atilde;o, a gente novamente&hellip; A mutila&ccedil;&atilde;o da face em crimes em que h&aacute; mutila&ccedil;&atilde;o &eacute; raro. A mutila&ccedil;&atilde;o do corpo em assassinatos em s&eacute;rie &eacute; rara. A mutila&ccedil;&atilde;o do corpo em assassinatos sexuais de crian&ccedil;as &eacute; rara. Mas a gente est&aacute; tendo essa<\/em> <em>repeti&ccedil;&atilde;o no m&iacute;nimo duas vezes num per&iacute;odo de tr&ecirc;s anos, com cerca de cento e poucos quil&ocirc;metros de dist&acirc;ncia entre si, com crian&ccedil;as semelhantes, e ainda h&aacute; a possibilidade de uma terceira&hellip; Ent&atilde;o, s&atilde;o esses comportamentos que s&atilde;o aqueles extremamente raros que indicam assinatura, que parece estar presente em dois crimes.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>E n&atilde;o apenas esses detalhes das mutila&ccedil;&otilde;es s&atilde;o muito &uacute;nicos. A forma como os corpos foram desovados tamb&eacute;m se assemelham muito.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Novamente em forma das tr&ecirc;s mortes semelhantes, n&eacute;? Elas s&atilde;o deixadas numa &aacute;rea, mas n&atilde;o tem uma tentativa maior de n&atilde;o identifica&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o descoberta do corpo. N&atilde;o vou nem falar de identifica&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim, porque cavar um buraco para esconder um corpo leva tempo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: D&aacute; trabalho.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Ivan: D&aacute; trabalho e leva tempo, n&eacute;? Ent&atilde;o, a pessoa tem que agir r&aacute;pido.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Na conclus&atilde;o do relat&oacute;rio sobre a possibilidade de os casos estarem conectados, o Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/denis-lino\/\" target=\"_self\" title=\"Psic&oacute;logo investigativo consultado pelo Projeto Humanos\" class=\"encyclopedia\">Denis Lino<\/a> escreveu o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Os crimes que vitimaram Sandra Matheus da Luz, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/evandro-ramos-caetano\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida e encontrada morta em abril de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Evandro Ramos Caetano<\/a> apresentam modus operandi muito semelhante, com caracter&iacute;sticas singulares que se repetem e denotam evolu&ccedil;&atilde;o do modus operandi e da assinatura. Os crimes praticados n&atilde;o s&atilde;o comuns e algumas das caracter&iacute;sticas presentes s&atilde;o bastante raras, al&eacute;m de ocorrerem em um espa&ccedil;o-tempo muito pr&oacute;ximo. Diante do que foi exposto conclui-se que h&aacute; forte probabilidade de os tr&ecirc;s crimes terem sido cometidos pelo(s) mesmo(s) ofensor(es), e baixa probabilidade de que ofensores distintos e desconhecidos entre si possam ter praticado cada um dos crimes.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Quando Ivan contratou os servi&ccedil;os do Dr. Denis na elabora&ccedil;&atilde;o dos relat&oacute;rios, estava mais<em> <\/em>interessado que ele respondesse sobre as an&aacute;lises geogr&aacute;ficas, estudos de mem&oacute;ria<em> <\/em>e possibilidade de os casos estarem conectados.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan n&atilde;o pediu para que ele elaborasse um<em> <\/em>poss&iacute;vel perfil do assassino, pois ficou com medo de que isso pudesse induzir a falsas impress&otilde;es. Mesmo sabendo que seria um estudo de<em> <\/em>probabilidades e que &eacute; dif&iacute;cil estar 100% correto nesse tipo de trabalho, Ivan tinha esse<em> <\/em>receio. Mas, no fim da conversa, decidiu fazer essa pergunta para ele.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; fez uma an&aacute;lise de uma s&eacute;rie de estat&iacute;sticas, estuda casos assim o tempo inteiro, ent&atilde;o, se a gente tiver que montar o perfil psicol&oacute;gico dessa pessoa com base no que voc&ecirc; tem&hellip; Quando eu digo perfil psicol&oacute;gico, &eacute; do tipo: com base em estat&iacute;sticas, as probabilidades &oacute;bvias, alguma coisa que nos chame a aten&ccedil;&atilde;o, como seria essa pessoa? O que a gente poderia dizer sobre essa pessoa, com base em probabilidades? N&atilde;o &ldquo;eu acho que&hellip;&rdquo;, n&eacute;? Com base nos casos que j&aacute; aconteceram, de semelhantes, que a gente v&ecirc;, modus operandi e assinaturas envolvendo v&iacute;timas parecidas, o que a gente pode falar?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Do que a gente havia combinado inicialmente, a gente n&atilde;o pensou sobre as caracter&iacute;sticas da pessoa, originalmente. Era mais sobre: ser&aacute; que os casos est&atilde;o conectados? Uma coisa. Onde ser&aacute; mais ou menos que essa pessoa mora? Outra coisa. Quando, ent&atilde;o, estatisticamente falando sobre cada um dos comportamentos e ao que ele pode estar vinculado, eu n&atilde;o vou poder aprofundar muito, porque teria que parar para fazer todo o trabalho que eu fiz nesses com essa outra vertente. Mas o que a gente j&aacute; consegue encontrar com rela&ccedil;&atilde;o ao que j&aacute; foi produzido &eacute;: primeiro, essa pessoa tem que ter um<\/em> <em>motivo para estar ali. A gente n&atilde;o sabe, at&eacute; onde eu conhe&ccedil;o, at&eacute; do que foi pesquisado como parte do projeto, outros casos talvez at&eacute; dentro do estado ou fora do estado que fossem semelhantes, para indicar talvez um ofensor em locomo&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o, um ofensor viajante. De alguma forma, ele estava ali quando essas crian&ccedil;as estavam&hellip; E aqui a palavra talvez n&atilde;o seja a mais adequada&hellip; Mas essas crian&ccedil;as estavam &ldquo;dispon&iacute;veis&rdquo; para o rapto dele, dentro do que ele havia planejado, dentro do que ele havia pensado. Os crimes me parecem muito mais oportunistas do que planejados. Isso n&atilde;o quer dizer que &eacute; uma pessoa que n&atilde;o tem&hellip; Muitas vezes quando as pessoas pensam em crimes planejados, &eacute; aquela pessoa fria, calculista, extremamente inteligente, coisa do tipo. A&iacute; quando voc&ecirc; fala que &eacute; oportunista, ele seria o inverso. N&atilde;o necessariamente. Mas quer dizer que &eacute; uma pessoa que estava j&aacute; planejando o cometimento do crime e, quando surgiu a oportunidade, ela fez isso. Ent&atilde;o, n&atilde;o &eacute; como se ele estivesse buscando exatamente a Sandra, buscando exatamente o Leandro, buscando exatamente o Evandro. Pode ter sido de fato uma coisa situacional. Se a gente partir dessa ideia de oportunismo, aquela pessoa estava num posto de gasolina &agrave;s oito horas da noite, que seria mais ou menos a &uacute;ltima vez em que a Sandra foi vista, por algum motivo. Ele poderia estar abastecendo. Refor&ccedil;a a ideia do carro. Ele poderia estar passando por ali&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Est&aacute; jantando no restaurante&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Ele est&aacute; jantando no restaurante l&aacute;. Mas ele estava l&aacute; por algum motivo. Onde o Evandro foi encontrado, segunda&hellip; Era que horas o do Evandro, que ele foi raptado?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: A gente estima entre dez e onze da manh&atilde;, mais ou menos, t&aacute;? Por cima, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Ele foi visto pela &uacute;ltima vez &agrave;s nove e meia, e depois nunca mais foi visto. O Evandro, saindo de casa, a &uacute;ltima vez que foi visto&hellip; Nove e meia para dez horas, talvez at&eacute; onze, houve o rapto. Segunda-feira, onze horas da manh&atilde;, muita gente est&aacute; em hor&aacute;rio de trabalho, est&aacute; fazendo algo do tipo. Ent&atilde;o, ou essa pessoa n&atilde;o tem um emprego; ou nesse emprego ela se<\/em> <em>locomove por aquela regi&atilde;o espec&iacute;fica; ou nesse emprego n&atilde;o sentiriam a sua falta, ent&atilde;o n&atilde;o importaria tanto se ela tivesse faltado naquele dia. H&aacute; a possibilidade de f&eacute;rias, etc? Claro. Mas se a gente trabalha com&hellip; F&eacute;rias &eacute; apenas um de 12 meses, existe essa possibilidade&hellip; A mesma coisa com o Leandro. N&atilde;o foi uma situa&ccedil;&atilde;o do dia a dia, foi algo at&iacute;pico, mas que ele estava l&aacute; naquele local. Por que ele estava l&aacute; naquele local? De alguma forma, ele tem contato com aquela regi&atilde;o, seja porque trabalha, seja porque mora. Ent&atilde;o, eu acho que isso refor&ccedil;a a ideia de que ele seria a&iacute; algu&eacute;m da regi&atilde;o e n&atilde;o necessariamente de fora.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas pode ser&hellip; De novo, a gente est&aacute; falando de Guaratuba, que &eacute; uma cidade que assim, sei l&aacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: De translado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: De muito translado. Ent&atilde;o, tem muita gente que conhece muito bem essa cidade, mas que n&atilde;o mora l&aacute;. Eu conhe&ccedil;o uma boa parte de Guaratuba. A minha v&oacute; vivia em Guaratuba, tinha casa l&aacute;. Mas morava em Curitiba.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Ia visitar a tua v&oacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Eu ia visitar a minha v&oacute;, sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Mas passava um tempo l&aacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Passava. A minha v&oacute; passava bem mais tempo. A minha v&oacute; passava bem mais tempo. A minha v&oacute; passava um m&ecirc;s&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Mas, de alguma forma, voc&ecirc; tem um v&iacute;nculo com a cidade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim, sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Denis: Para voc&ecirc; construir essa no&ccedil;&atilde;o do que &eacute; a cidade, de conhecer ela bem&hellip; Ent&atilde;o, n&atilde;o necessariamente essa pessoa&hellip; Vamos falar&hellip;<\/em> <em>Ent&atilde;o vamos usar a palavra de base, para n&atilde;o dizer que ele mora ou que ele trabalha, mas ele tem uma base ali. Pode ser que ele j&aacute; morou antes. Pode ser que ele j&aacute; trabalhou antes. Mas ele tem que, de alguma forma, ter esse contato l&aacute; nessa regi&atilde;o.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>CONCLUS&Otilde;ES E CUIDADOS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No estudo da filosofia, &eacute; comum em algum momento se deparar com o conceito de fal&aacute;cia. No geral, uma fal&aacute;cia &eacute; uma ideia equivocada apresentada como verdadeira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No estudo de fal&aacute;cias, h&aacute; v&aacute;rias classifica&ccedil;&otilde;es. Existe, por exemplo, a fal&aacute;cia do apelo &agrave; autoridade, aquele tipo que algu&eacute;m diz &ldquo;eu entendo disso mais do que voc&ecirc;&rdquo;, sem necessariamente trazer provas do que est&aacute; falando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outra famosa fal&aacute;cia &eacute; a do ad hominem, que &eacute; o ataque &agrave; pessoa que est&aacute; falando algo. E ela est&aacute; sendo atacada pela sua biografia, e n&atilde;o pelos seus argumentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h&aacute; um tipo de fal&aacute;cia que nem sempre &eacute; lembrada, que em ingl&ecirc;s &eacute; chamada de &ldquo;Slippery Slope&rdquo;. Em portugu&ecirc;s, ela &eacute; chamada &agrave;s vezes de fal&aacute;cia da Derrapagem, da Ladeira Escorregadia, ou fal&aacute;cia da Bola de Neve.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela estipula mais ou menos o seguinte: se voc&ecirc; desenvolve um racioc&iacute;nio longo e comete um erro em algum ponto dele, &eacute; poss&iacute;vel que toda a sua conclus&atilde;o esteja equivocada.<\/p>\n\n\n\n<p>O Caso Evandro foi um &oacute;timo exemplo da fal&aacute;cia da Bola de Neve, entre outras. Em certo momento, quando as autoridades aceitaram que o menino havia sido morto em um ritual de &ldquo;magia negra&rdquo;, tudo come&ccedil;ou a dar errado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan afirma ter plena consci&ecirc;ncia do risco que corre. Ap&oacute;s tantos anos investigando esses casos, ele tem uma tonelada de vari&aacute;veis para considerar. Muitas dessas quest&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o mais poss&iacute;veis de serem respondidas, pois dependem de informa&ccedil;&otilde;es que j&aacute; se perderam. Ainda assim, ele n&atilde;o pode tamb&eacute;m se privar de tentar desenvolver algum racioc&iacute;nio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, com base em tudo o que investigou, e especialmente a partir das falas do Dr. Denis, do Dr. Sami, do Dr. Lipinski e do Dr. Francisco, Ivan vai correr o risco de dizer o que acredita que aconteceu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ele deixa claro que est&aacute; tomando liberdades quase irrespons&aacute;veis, e pode estar errado em algum ponto, caindo involuntariamente em uma fal&aacute;cia da Bola de Neve. Por isso, est&aacute; sendo transparente e detalhista justamente para que algu&eacute;m no futuro possa revisar o trabalho dele e avan&ccedil;ar, caso alguma novidade apare&ccedil;a.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan acredita que os tr&ecirc;s casos est&atilde;o sim conectados. Leandro e Evandro s&atilde;o mais f&aacute;ceis de conectar, mas o fato de Leandro estar com o antebra&ccedil;o esquerdo ausente, assim como Sandrinha, &eacute; um ponto de conex&atilde;o relevante.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele entende tamb&eacute;m o cuidado que o Dr. Sami tem em afirmar que nos laudos de Evandro n&atilde;o h&aacute; elementos suficientes para descartar a&ccedil;&atilde;o de animais. Mas as coincid&ecirc;ncias entre os corpos, especialmente a aus&ecirc;ncia de m&atilde;os, lhe parecem muito fortes.<\/p>\n\n\n\n<p>E, seguindo o racioc&iacute;nio do Dr. Denis, acerca do qu&atilde;o raras s&atilde;o mortes de crian&ccedil;as com mutila&ccedil;&otilde;es, ainda mais levando em conta a proximidade geogr&aacute;fica e temporal, Ivan &eacute; levado a crer que foi tudo a&ccedil;&atilde;o humana. Inclusive a aus&ecirc;ncia das m&atilde;os no caso da ossada de Leandro, ele acredita que foi a&ccedil;&atilde;o humana tamb&eacute;m. Ao mesmo tempo, tamb&eacute;m sup&otilde;e que houve a&ccedil;&atilde;o de animais na aus&ecirc;ncia de alguns ossos grandes &ndash; como o f&ecirc;mur direito, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>O escalpe e as retiradas das m&atilde;os seriam assinaturas mais fixas desse ofensor. J&aacute; as mutila&ccedil;&otilde;es em Evandro foram uma evolu&ccedil;&atilde;o. E quanto ao Modus Operandi, &eacute; dif&iacute;cil saber muitos detalhes. Mas parece evidente que o assassino tinha o costume de sequestrar, ficar alguns dias com a v&iacute;tima &ndash; viva ou morta &ndash; e, depois de mat&aacute;-la, jogava-a em um mato pr&oacute;ximo do local onde ela foi raptada.<\/p>\n\n\n\n<p>Obviamente, Ivan fala isso com base nos casos Sandra e Evandro, j&aacute; que no de Leandro n&atilde;o h&aacute; como saber muita coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan tamb&eacute;m acredita que a motiva&ccedil;&atilde;o foi sexual. Nenhum vest&iacute;gio de esperma foi encontrado em Evandro e Sandra, mas, como o pr&oacute;prio Dr. Sami disse, isso j&aacute; seria esperado, visto que esse tipo de material se degrada muito r&aacute;pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n&atilde;o descarta a possibilidade de o assassino saber t&eacute;cnicas de necrot&eacute;rio, mas est&aacute; mais inclinado a acreditar na possibilidade de um ca&ccedil;ador ou algu&eacute;m que tinha algum conhecimento sobre abater e cortar animais. E acredita nisso especialmente por causa da forma como os corpos de Evandro e Leandro foram descartados.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan acredita que Sandra pode ter sido n&atilde;o a primeira v&iacute;tima, mas o meio do processo. Com o tempo, o assassino foi ficando mais agressivo, descartando melhor os corpos. Pode ser que em suas primeiras v&iacute;timas ele &ldquo;apenas&rdquo; violentava sexualmente. Depois passou a matar. E depois, passou a matar e mutilar. Uma evolu&ccedil;&atilde;o de modus operandi.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan n&atilde;o sabe dizer quais teriam sido as v&iacute;timas anteriores. &Eacute; apenas suposi&ccedil;&atilde;o. Tamb&eacute;m acredita que o assassino n&atilde;o parou nessas tr&ecirc;s crian&ccedil;as. Muito provavelmente, ele fez mais v&iacute;timas. Talvez sejam alguns desses casos de crian&ccedil;as desaparecidas do final dos anos 80 e in&iacute;cio dos anos 90. Talvez mais. E &eacute; poss&iacute;vel que existam crimes supostamente solucionados ou arquivados sem solu&ccedil;&atilde;o que poderiam entrar nesse rol.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra possibilidade que Ivan aponta &eacute; que o assassino queria que os corpos fossem encontrados e identificados. Por isso, os deixava perto de suas casas. Podia fazer isso por remorso, por n&atilde;o querer deixar as fam&iacute;lias das v&iacute;timas sem respostas, mas podia tamb&eacute;m fazer isso por pura soberba, na cren&ccedil;a de que nunca seria pego.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan tamb&eacute;m n&atilde;o acha que o assassino era a pessoa mais brilhante. Se ele tentou realmente raptar mais de uma crian&ccedil;a enquanto cometia os crimes, seja o caso de Aramis, irm&atilde;os Fran&ccedil;a, ou as crian&ccedil;as misteriosas que supostamente estavam presas com Evandro, ele n&atilde;o conseguia ter pleno controle da situa&ccedil;&atilde;o. Ele pode ter cometido erros por fatores que sa&iacute;ram do seu controle, coisas inesperadas, ou se achava muito mais capaz do que realmente era.<\/p>\n\n\n\n<p>Guaratuba e Fazenda Rio Grande s&atilde;o munic&iacute;pios pequenos, e em princ&iacute;pio seria necess&aacute;rio encontrar algu&eacute;m que estava nestas cidades nas duas &eacute;pocas. S&oacute; que uma quest&atilde;o importante n&atilde;o pode ser ignorada: ambas s&atilde;o locais de bastante tr&aacute;fego em seu entorno.<\/p>\n\n\n\n<p>Fazenda Rio Grande tem uma rodovia importante na qual passa muita gente. Com frequ&ecirc;ncia, Guaratuba &eacute; passagem para quem vai para Santa Catarina, ou ainda de pessoas que moram em Curitiba, mas v&atilde;o para l&aacute; com alguma frequ&ecirc;ncia. Ent&atilde;o, pode ser algu&eacute;m que tinha o costume de passar por l&aacute;, mas que n&atilde;o necessariamente morava nesses lugares.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Ivan, &eacute; tamb&eacute;m seguro dizer que a pessoa tinha algum conhecimento das duas cidades. E, para ele, esse indiv&iacute;duo tinha carro, pois agia muito r&aacute;pido em dois momentos: no sequestro e na desova do corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso Evandro, a investiga&ccedil;&atilde;o do Grupo Tigre olhou muito para os carroceiros que frequentavam aquele matagal. Eles iam para l&aacute; para carregar lenhas e varas extra&iacute;das da regi&atilde;o. Uma carro&ccedil;a certamente poderia transportar um corpo. Mas &eacute; um ve&iacute;culo lento, chama a aten&ccedil;&atilde;o, as pessoas conhecem.<\/p>\n\n\n\n<p>Se no momento do sequestro Evandro estivesse andando de carro&ccedil;a, por exemplo, Ivan sup&otilde;e que algu&eacute;m veria. O menino poderia fugir, quem sabe. E vale lembrar que o Grupo Tigre investigava apenas o caso Evandro. Se olhassem para os tr&ecirc;s crimes juntos, talvez tamb&eacute;m chegassem &agrave; mesma desconfian&ccedil;a.<\/p>\n\n\n\n<p>E, ainda sobre carro&ccedil;as, o relato do menino misterioso que conversou com <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/eli-goncalves-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Adolescente de 16 anos que teria conversado com uma crian&ccedil;a v&iacute;tima de sequestro\" class=\"encyclopedia\">Eli Gon&ccedil;alves da Silva<\/a> na semana que Evandro desapareceu dava conta de que ele teria sido levado a um lugar por um carroceiro. S&oacute; que Ivan tem uma d&uacute;vida: de onde veio essa palavra &ldquo;carroceiro&rdquo;? Foi o menino misterioso que falou isso? Ou foi Eli que entendeu isso?<\/p>\n\n\n\n<p>Partindo do princ&iacute;pio de que esse encontro realmente aconteceu, e que o menino n&atilde;o estava mentindo para Eli, Ivan se questiona quem disse a palavra &ldquo;carroceiro&rdquo;, porque ele n&atilde;o descarta que o sequestrador tinha n&atilde;o exatamente uma carro&ccedil;a puxada a cavalo ou por ele mesmo, mas poderia ter um pequeno caminh&atilde;o. Uma carroceria, uma picape, algo assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa quest&atilde;o da mobilidade come&ccedil;ou a ser importante para Ivan. E, com base nela, e com o que sabe do caso Sandra, come&ccedil;ou a descartar alguns suspeitos antigos do caso Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela&ccedil;&atilde;o aos carroceiros, por exemplo, Ivan nunca conseguiu verificar se eles estavam em Fazenda Rio Grande. Tudo leva a crer que n&atilde;o. Da&iacute;, h&aacute; o caso de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/euclidio-soares-dos-reis\/\" target=\"_self\" title=\"Morador de Guaratuba, foi suspeito no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Eucl&iacute;dio Soares dos Reis<\/a>, conhecido como Euclides ou ainda pelo apelido de Barba. Ele morava pr&oacute;ximo do local onde o corpo de Evandro foi encontrado, e foi o principal suspeito do delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/adauto-abreu\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado encarregado pelas investiga&ccedil;&otilde;es do caso Evandro entre abril e julho de 1992\" class=\"encyclopedia\">Adauto Abreu<\/a> do Grupo Tigre na &eacute;poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan conversou com algumas pessoas envolvidas na investiga&ccedil;&atilde;o, e elas falaram que aquela era uma suposi&ccedil;&atilde;o do Dr. Adauto apenas. Havia uma suspeita sim, mas ningu&eacute;m estava t&atilde;o convencido quanto ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1989, Eucl&iacute;dio morava perto de Fazenda Rio Grande, na cidade de Arauc&aacute;ria, que fica a cerca de 30 quil&ocirc;metros de dist&acirc;ncia. S&oacute; que h&aacute; uma quest&atilde;o importante, pelo menos nessa linha de racioc&iacute;nio: Eucl&iacute;dio nunca teve carro. Sempre foi um homem muito pobre que morava na &eacute;poca com esposa e filho. Em 1992, em Guaratuba, morava em uma casa sem luz e sem &aacute;gua. N&atilde;o tinha muita estrutura para fazer grandes locomo&ccedil;&otilde;es, manter um menino em cativeiro, mat&aacute;-lo ou qualquer coisa do tipo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan, com o passar desses anos de investiga&ccedil;&atilde;o, cada vez mais v&ecirc; Eucl&iacute;dio como um homem muito simples e ignorante que se viu no meio de uma hist&oacute;ria grande demais e tentou sobreviver como p&ocirc;de. E em um momento de desespero, quando foi preso por tr&aacute;fico de drogas, chegou a inventar uma hist&oacute;ria em 1995, dizendo que viu <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/diogenes-caetano-dos-santos-filho\/\" target=\"_self\" title=\"Primo de Evandro Ramos Caetano\" class=\"encyclopedia\">Di&oacute;genes Caetano dos Santos Filho<\/a>, o parente do menino Evandro, jogando o corpo no mato. Ivan explicou essa hist&oacute;ria em detalhes no <a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/o-caso-evandro\/34-o-lenhador\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">epis&oacute;dio 34<\/a> do caso Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p>E da&iacute;, claro, h&aacute; a figura de Di&oacute;genes. Segundo Ivan, j&aacute; cansou de receber mensagens de ouvintes perguntando &ldquo;mas esse cara n&atilde;o foi investigado? Por que ele se meteu tanto na investiga&ccedil;&atilde;o assim? Esse cara para mim &eacute; suspeito&rdquo;. H&aacute; anos ele ouve isso, e h&aacute; anos jura que tentou considerar essa hip&oacute;tese. Mas n&atilde;o consegue se convencer disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, &eacute; muito claro que Di&oacute;genes acredita em tudo o que diz. Se ele fosse o assassino de Evandro e Leandro, ele saberia que o corpo de Leandro n&atilde;o estava na Ba&iacute;a de Guaratuba, como falou por tantos anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Di&oacute;genes acredita tanto na hist&oacute;ria de seita sat&acirc;nica que &eacute; incapaz de enxergar qualquer nova evid&ecirc;ncia que apare&ccedil;a &ndash; sejam as fitas de tortura mostrando como os acusados foram for&ccedil;ados a inventar uma hist&oacute;ria sem sentido, seja a verdadeira localiza&ccedil;&atilde;o do corpo de Leandro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isso sem contar todo o esfor&ccedil;o dele em desmentir qualquer testemunha que fosse contra a vers&atilde;o em que ele acredita, tal como os relatos do menino Eli e da bab&aacute; Rachel. Se Di&oacute;genes realmente fosse o assassino, seria dif&iacute;cil n&atilde;o ter cometido algum deslize em tantas d&eacute;cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>E tamb&eacute;m, como Ivan disse em outras ocasi&otilde;es, o caso de Sandra muda tudo para ele. Em 1989, Di&oacute;genes j&aacute; estava morando em Guaratuba por alguns anos. N&atilde;o h&aacute; nada que o coloque em Fazenda Rio Grande em junho de 1989.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan n&atilde;o acredita que o assassino de Sandra, Leandro e Evandro apareceu nos inqu&eacute;ritos de Guaratuba. Tudo o que levantou nos epis&oacute;dios finais do caso Evandro, acerca dos outros suspeitos investigados pelo Grupo Tigre, &eacute; absolutamente inconclusivo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; poss&iacute;vel que algu&eacute;m tenha passado batido naquelas investiga&ccedil;&otilde;es. &Eacute; tamb&eacute;m poss&iacute;vel que Ivan esteja cometendo algum erro, caindo na fal&aacute;cia da Bola de Neve. Por isso, todo cuidado &eacute; pouco.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, ent&atilde;o, se Ivan estiver certo, e se n&atilde;o tiver nenhum suspeito em potencial que se encaixe nessas pistas que coletou, ser&aacute; que ele foi citado em algum outro lugar?<\/p>\n\n\n\n<p>No <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/extras-episodio-04\/\" target=\"_blank\">epis&oacute;dio 4<\/a> dessa temporada, sobre o caso Sandrinha, Ivan citou o fato de que duas pessoas foram investigadas, e que n&atilde;o havia pistas suficientes sobre elas. Mas ele n&atilde;o disse que havia um terceiro suspeito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E &eacute; sobre ele que falar&aacute; no pr&oacute;ximo e &uacute;ltimo epis&oacute;dio desta temporada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Modus Operandi<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":25,"template":"","encyclopedia-category":[6],"encyclopedia-tag":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia\/401"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/encyclopedia"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=401"}],"wp:term":[{"taxonomy":"encyclopedia-category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-category?post=401"},{"taxonomy":"encyclopedia-tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-tag?post=401"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}