{"id":393,"date":"2023-12-05T00:05:00","date_gmt":"2023-12-05T03:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/?post_type=encyclopedia&#038;p=393"},"modified":"2023-12-05T15:49:43","modified_gmt":"2023-12-05T18:49:43","slug":"extras-episodio-06","status":"publish","type":"encyclopedia","link":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/extras-episodio-06\/","title":{"rendered":"Extras Epis\u00f3dio 06"},"content":{"rendered":"\n<p>Nos &uacute;ltimos epis&oacute;dios, Ivan Mizanzuk falou de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/sandra-matheus-da-luz\/\" target=\"_self\" title=\"Menina de 11 anos encontrada morta em Fazenda Rio Grande em 1989\" class=\"encyclopedia\">Sandra Mateus da Luz<\/a> e de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/evandro-ramos-caetano\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida e encontrada morta em abril de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Evandro Ramos Caetano<\/a>, e agora, mais uma vez, vai precisar olhar para o caso Evandro. &Agrave; medida que avan&ccedil;a nessa investiga&ccedil;&atilde;o, ele diz ser inevit&aacute;vel a sensa&ccedil;&atilde;o de que parece que est&aacute;, mais uma vez, deixando <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a> de lado.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Ivan, isso o incomoda. Contudo, tudo o que poderia levantar de novidades sobre Leandro j&aacute; foi discutido nos &uacute;ltimos epis&oacute;dios do Prel&uacute;dio e nos dois primeiros epis&oacute;dios da temporada. S&atilde;o informa&ccedil;&otilde;es importantes, mas incompletas. E, se h&aacute; a suspeita de se tratar de crimes em s&eacute;rie, &eacute; preciso olhar para aqueles que cont&ecirc;m mais informa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, n&atilde;o h&aacute; caso mais cheio de informa&ccedil;&otilde;es do que o de Evandro. S&oacute; que existe um problema: ele &eacute; repleto de confus&otilde;es. E aqui Ivan nem fala necessariamente da &eacute;poca ap&oacute;s as pris&otilde;es dos inocentes, que contaminaram todo o caso, pois, mesmo antes de eles serem detidos, j&aacute; havia muitas d&uacute;vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Claramente, era um crime muito mais complicado do que se imaginava. Para al&eacute;m de chocantes, as les&otilde;es que o corpo de Evandro apresentava eram muito complexas e dif&iacute;ceis de serem explicadas. Determinar a natureza delas era importante para que os laudos de local e de necropsia informassem a mesma coisa. Mas havia diverg&ecirc;ncias de ideias e interpreta&ccedil;&otilde;es entre os peritos de local, no caso o Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/antonio-carlos-lipinski\/\" target=\"_self\" title=\"Perito que produziu o laudo de exame de local do caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Antonio Carlos Lipinski<\/a> e o Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/arthur-conrado-drischel\/\" target=\"_self\" title=\"Perito que auxiliou Lipinski na produ&ccedil;&atilde;o do laudo de exame de local do caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Arthur Conrado Drischel<\/a>; e os m&eacute;dicos legistas, o Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/francisco-moraes-e-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Chefe do IML de Curitiba na d&eacute;cada de 1990\" class=\"encyclopedia\">Francisco Moraes e Silva<\/a>, o Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/carlos-roberto-ballin\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico legista respons&aacute;vel pela necropsia do corpo de Evandro\" class=\"encyclopedia\">Carlos Roberto Ballin<\/a> e a odontolegista Dra. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/beatriz-sottile-franca\/\" target=\"_self\" title=\"Dentista que realizou o exame de arcada dent&aacute;ria de Evandro\" class=\"encyclopedia\">Beatriz Sottile Fran&ccedil;a<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Laudo-de-Exame-de-Levantamento-de-Local-de-Achado-de-Cadaver.pdf\" target=\"_blank\">Laudo de local do corpo de Evandro<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Laudo-Necropsia.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Laudo de necropsia de Evandro<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Em face disso, foi feita uma reuni&atilde;o no gabinete do delegado geral da Pol&iacute;cia Civil da &eacute;poca, o Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/jose-maria-de-paula-correia\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado geral da Pol&iacute;cia Civil do Paran&aacute; na d&eacute;cada de 1990\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Maria de Paula Correia<\/a>. No encontro, todos come&ccedil;aram a expor as suas interpreta&ccedil;&otilde;es sobre as les&otilde;es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entender isso &eacute; fundamental para ter em mente que os laudos produzidos sobre o corpo de Evandro s&atilde;o frutos de debates, interpreta&ccedil;&otilde;es e reinterpreta&ccedil;&otilde;es. Eles buscavam responder d&uacute;vidas que n&atilde;o eram simples de serem respondidas. Isso significa que pode haver erros n&atilde;o intencionais contidos nesses documentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso em mente, Ivan conversou com o principal respons&aacute;vel pelo laudo de necropsia do caso Evandro, o Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/francisco-moraes-e-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Chefe do IML de Curitiba na d&eacute;cada de 1990\" class=\"encyclopedia\">Francisco Moraes e Silva<\/a>. <\/p>\n\n\n\n<p>Confira abaixo um pequeno trecho da entrevista:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: A minha idade atual &eacute; 83 anos. Eu sou m&eacute;dico, tenho v&aacute;rias especialidades na &aacute;rea m&eacute;dica. Sou m&eacute;dico do trabalho, sou m&eacute;dico legista especialista em per&iacute;cias m&eacute;dicas e medicina legal, e tamb&eacute;m fui cirurgi&atilde;o geral. Atualmente, eu sou exclusivamente m&eacute;dico legista. Aposentado no Instituto M&eacute;dico Legal, mas exercendo a atividade profissional ainda.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim. Fazendo principalmente&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Pareceres.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Certo. Isso para defesas, para acusa&ccedil;&otilde;es?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Aquela pergunta que voc&ecirc; me fez uma vez, de que lado eu estou. O lado que eu estou convencido que seja pr&oacute;ximo da verdade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>CONTAMINA&Ccedil;&Otilde;ES E POL&Ecirc;MICAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Dr. Francisco foi diretor do IML de Curitiba por muitos anos. Foi professor universit&aacute;rio da Federal do Paran&aacute;, e &eacute; considerado uma figura hist&oacute;rica na medicina paranaense. &Eacute; uma grande autoridade.<\/p>\n\n\n\n<p>No j&uacute;ri de 1998, em que as Abagge foram julgadas, o Dr. Francisco ficou depondo por sete dias direto. De acordo com ele, chegou a entrar no Guinness como o depoimento mais longo prestado em j&uacute;ri. E ele ficou tanto tempo falando justamente porque tanto defesa quanto acusa&ccedil;&atilde;o o bombardeavam de perguntas acerca do estado do corpo de Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, o Dr. Francisco tamb&eacute;m &eacute; cercado de controv&eacute;rsias. No ano de 2004, &eacute;poca de um dos julgamentos, ele foi acusado, principalmente na imprensa, por uma s&eacute;rie de casos que iam desde vendas de partes de corpos para universidades at&eacute; ass&eacute;dio sexual.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na &eacute;poca em que Ivan produziu o caso Evandro, contou sobre essas pol&ecirc;micas porque julgava ser importante entender como era o clima pol&iacute;tico em torno do m&eacute;dico e das coisas que ele dizia.<\/p>\n\n\n\n<p>E o clima da &eacute;poca era o seguinte: no meio de tantas pol&ecirc;micas, o Dr. Francisco ganhou a fama de que poderia ser um m&eacute;dico corrupto que falava apenas o que uma das partes interessadas queria, em troca de dinheiro. Algumas horas ele era bandido, em outras era mocinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo claro disso &eacute; uma quest&atilde;o que Ivan discutiu extensamente no caso Evandro, sobre o suposto corte no pesco&ccedil;o que o corpo teria. Essa les&atilde;o n&atilde;o existe no laudo de necropsia. Mas, depois das pris&otilde;es, nas falsas confiss&otilde;es sob tortura, os acusados passaram a dizer que tinham feito esse corte.<\/p>\n\n\n\n<p>Por conta disso, o Dr. Francisco assinou um parecer atestando que as confiss&otilde;es condiziam perfeitamente com o estado do corpo. Ele chegou at&eacute; a dar entrevista na &eacute;poca sobre esse ferimento no pesco&ccedil;o.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o laudo produzido pelo Dr. Francisco, o corpo de Evandro tinha uma &aacute;rea de putrefa&ccedil;&atilde;o mais acentuada em torno do pesco&ccedil;o. O legista interpretou que ela poderia ser resultado de um corte.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, no julgamento de 1998, ele j&aacute; mudava o discurso. Ivan n&atilde;o possui o &aacute;udio completo daquele depoimento de sete dias, mas tem o que o Dr. Francisco prestou no j&uacute;ri de 2004, quando foram julgados <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/osvaldo-marcineiro\/\" target=\"_self\" title=\"Pai de santo acusado pela morte de Evandro Ramos Caetano\" class=\"encyclopedia\">Osvaldo Marcineiro<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/vicente-de-paula-ferreira\/\" target=\"_self\" title=\"Ajudante de Osvaldo Marcineiro, foi um dos acusados no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Vicente de Paula Ferreira<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/davi-dos-santos-soares\/\" target=\"_self\" title=\"Artes&atilde;o de Guaratuba, foi um dos acusados no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Davi dos Santos Soares<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um depoimento bem mais curto, de apenas duas horas. Nesse trecho, a promotora <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/lucia-ines-giacomitti-andrich\/\" target=\"_self\" title=\"Promotora que atuou nos j&uacute;ris do caso Evandro em 2004, 2005 e 2011\" class=\"encyclopedia\">L&uacute;cia In&ecirc;s Giacomitti Andrich<\/a> queria esclarecer melhor a confus&atilde;o sobre a exist&ecirc;ncia ou n&atilde;o do corte.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dra. L&uacute;cia: Mas voltando, ent&atilde;o, doutor Francisco, o senhor disse que aquela putrefa&ccedil;&atilde;o no pesco&ccedil;o era devido &agrave; constri&ccedil;&atilde;o, n&eacute;? Que o senhor&hellip; A putrefa&ccedil;&atilde;o mais acentuada no pesco&ccedil;o era por causa da constri&ccedil;&atilde;o, e que o senhor n&atilde;o verificou nenhum corte. Mas aqui no seu depoimento&hellip; Se me permite&hellip; Anterior, que o senhor prestou em ju&iacute;zo, o senhor diz o seguinte: &ldquo;que o depoente pode afirmar que houve uma a&ccedil;&atilde;o traum&aacute;tica no pesco&ccedil;o e que poderia ter havido uma les&atilde;o, mas ela n&atilde;o estava presente para ser descrita&rdquo;. Aqui continua, acredito que faltou alguma coisa. &ldquo;Pela descaracteriza&ccedil;&atilde;o devido &agrave; exist&ecirc;ncia da a&ccedil;&atilde;o de animais e putrefa&ccedil;&atilde;o maior&hellip; E putrefa&ccedil;&atilde;o em maior intensidade&hellip;&rdquo;. Ent&atilde;o, poderia ter existido um corte no pesco&ccedil;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, doutora.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dra. L&uacute;cia: N&atilde;o poderia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Eu repito exatamente como est&aacute; a&iacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dra. L&uacute;cia: &ldquo;Que o depoente&hellip;&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Houve uma a&ccedil;&atilde;o traum&aacute;tica&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dra. L&uacute;cia: Houve uma a&ccedil;&atilde;o traum&aacute;tica&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: A putrefa&ccedil;&atilde;o &eacute; mais intensa em torno do pesco&ccedil;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dra. L&uacute;cia: E que poderia ter havido uma les&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Que n&atilde;o houve les&atilde;o&hellip; N&atilde;o aparece les&atilde;o, isso que eu quis dizer&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dra. L&uacute;cia: Mas que poderia ter havido.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Poderia ter ocorrido, exatamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dra. L&uacute;cia: Uma les&atilde;o&hellip; Mas que n&atilde;o aparece devido ao estado de putrefa&ccedil;&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Isso, exatamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dra. L&uacute;cia: Perfeito, doutor.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O que o Dr. Francisco queria dizer &eacute; que havia sinais de constri&ccedil;&atilde;o, de que Evandro poderia ter sido morto por asfixia. Mas, porque estava com putrefa&ccedil;&atilde;o avan&ccedil;ada, n&atilde;o dava para saber qual o tipo de asfixia. Por exemplo, se foi feita por corda, pelas m&atilde;os, por arame, etc. E a promotora tentava entender se poderia ser um corte tamb&eacute;m.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Mas n&atilde;o tem. Olhando&hellip; &Eacute; o que eu disse quando o doutor perguntou. Na frente n&atilde;o tem, e atr&aacute;s eu n&atilde;o sei porque atr&aacute;s ele n&atilde;o mostrava&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dra. L&uacute;cia: Mas o senhor disse que n&atilde;o teria porque&hellip; Do estado de putrefa&ccedil;&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Porque a putrefa&ccedil;&atilde;o era mais intensa a&iacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dra. L&uacute;cia: Ali&hellip; Da&iacute; n&atilde;o poderia aparecer esse corte, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Isso mesmo&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dra. L&uacute;cia: Perfeito, doutor. Perfeito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o. Corte n&atilde;o, doutora. Corte apareceria sempre.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dra. L&uacute;cia: Aparecia sempre?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Ah, claro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dra. L&uacute;cia: Mesmo com a putrefa&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Claro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dra. L&uacute;cia: Ah, perfeito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Porque corte &eacute; solu&ccedil;&atilde;o de continuidade. Ali n&atilde;o tinha solu&ccedil;&atilde;o de continuidade. Mas les&atilde;o deve ter ocorrido sim, traum&aacute;tica, em torno do pesco&ccedil;o. Deve ter ocorrido. Voltando a afirmar, doutora.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Essas eram as informa&ccedil;&otilde;es que Ivan tinha quando produziu o caso Evandro: o Dr. Francisco falou uma coisa no laudo original, reinterpretou o que havia dito ap&oacute;s as pris&otilde;es, e depois mudou novamente as an&aacute;lises nos j&uacute;ris.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, em 2023, Ivan finalmente p&ocirc;de perguntar para o Dr. Francisco sobre toda essa confus&atilde;o:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Eu disse que correspondia? Claro. Pois se eles tiraram tudo na base da tortura, tem que corresponder mesmo. Eles leram o laudo antes para os caras. Da&iacute;: &ldquo;isso aqui tinha, tinha, tinha, tinha&rdquo;. Quer dizer, ent&atilde;o aquele v&iacute;deo n&atilde;o vale tanto assim, entendeu? Tinha que dizer que aquilo foi retirado sob tortura. E, como tal, coincidia por qu&ecirc;? Eles tinham dito para o cara: &ldquo;olha, ele tinha uma les&atilde;o no pesco&ccedil;o? Tinha&rdquo;. Entendeu?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim. &Eacute; que tem uma&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Eles induziram-me a erro. Induziram-me a erro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Agora, eu disse tamb&eacute;m no j&uacute;ri que a mulher n&atilde;o estava em condi&ccedil;&atilde;o normal.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim. Disso eu lembro bem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Eu disse isso. At&eacute; o promotor ficou meu inimigo por causa disso a&iacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, de acordo com o Dr. Francisco, ele foi induzido a erro. E, com o passar dos anos, com as coisas ficando mais claras, ele revisou tudo o que havia dito. Para Ivan, isso faz sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, sempre pairava em torno do m&eacute;dico uma ideia de corrup&ccedil;&atilde;o. E o &aacute;pice disso foi entre 2004 e 2005, quando v&aacute;rias den&uacute;ncias surgiram contra ele e inundaram a imprensa. Nesse clima, tanto acusa&ccedil;&atilde;o quanto defesa usavam dessa m&aacute; fama para tentar desacreditar algo que ele havia afirmado em depoimentos anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi esse jogo ret&oacute;rico que Ivan queria demonstrar tanto no podcast quanto no livro sobre o caso Evandro. Livro este que, por sinal, o Dr. Francisco leu. Pelo menos at&eacute; a p&aacute;gina 302.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Por isso que eu fiquei puto da vida com a porra da folha 302 do seu livro. Porque, porra, o cara que l&ecirc; isso aqui vai dizer que os delegados responderam o inqu&eacute;rito e foram absolvidos. E esse doutor aqui, pelo que escreveu aqui, &eacute; bandido. D&aacute; a impress&atilde;o. Leia de novo, voc&ecirc; vai ver. Voc&ecirc; deixou a margem da d&uacute;vida ali, entendeu? At&eacute; quando eu falei para o Figueiredo: &ldquo;Figueiredo, o que eu fa&ccedil;o com o Ivan?&rdquo;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O Dr. Francisco se refere ao Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/antonio-figueiredo-basto\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado de defesa dos acusados no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Antonio Figueiredo Basto<\/a>, advogado dele atualmente. O mesmo que conseguiu com sua equipe a revis&atilde;o criminal dos acusados de Guaratuba.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: &ldquo;Porra, doutor, fale com ele&rdquo;. &ldquo;Porra, doutor, o cara quis me foder&rdquo;, falei para ele. &ldquo;Fale com ele, doutor, &eacute; um cara bom, um cara s&eacute;rio&rdquo;. S&eacute;rio eu sei que &eacute;, eu li o livro dele, fiquei entusiasmado. At&eacute; a p&aacute;gina 302, ali eu parei! Parei, fechei, falei: &ldquo;n&atilde;o quero mais ver essa merda&rdquo;. Entendeu?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Pe&ccedil;o desculpas, doutor.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Francisco: N&atilde;o, n&atilde;o, eu sei que voc&ecirc; vai reparar na pr&oacute;xima edi&ccedil;&atilde;o. A impress&atilde;o tua &eacute; importante para mim. Se n&atilde;o fosse, eu nem teria falado mais com voc&ecirc; nem nada. Eu faria como fiz l&aacute; com a Isto&Eacute;. Voc&ecirc; ia dizer: eu repeti o que estava na imprensa da &eacute;poca. Da&iacute; eu estava fodido. Eu perdia a a&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O Dr. Francisco se refere a uma mat&eacute;ria da Isto&Eacute; do ano 2000, &eacute;poca em que ele era diretor do IML de Curitiba. A reportagem o acusava de fazer parte de um esquema de venda de partes de corpos para universidades, e apelidava essa opera&ccedil;&atilde;o de &ldquo;Esquema Frankenstein&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/istoe.com.br\/29361_LICAO+DE+ANATOMIA\/\" target=\"_blank\"><strong>Mat&eacute;ria da Revista Isto&Eacute; com den&uacute;ncias sobre o Dr. Francisco (5 de julho de 2000)<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: O interessante &eacute; o seguinte&hellip; Uma coisa que voc&ecirc; n&atilde;o atinou. Eu fiquei nove anos como ref&eacute;m do Minist&eacute;rio P&uacute;blico. Reviraram a minha vida, Ivan, de ponta cabe&ccedil;a, de baixo para&hellip; Do jeito que voc&ecirc; quiser&hellip; Reviraram a minha vida em tudo. Tudo, tudo, tudo. Imposto de renda, sigilo fiscal, banc&aacute;rio, tribut&aacute;rio, tudo. Depois de nove anos, o processo de 12 mil p&aacute;ginas&hellip; Fui buscar l&aacute; no Gaeco [Grupo de Atua&ccedil;&atilde;o Especial de Combate ao Crime Organizado], estava desse tamanho o processo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Falei: &ldquo;porra, mas por que essa merda toda aqui?&rdquo;. &ldquo;N&atilde;o, n&oacute;s investigamos tudo&rdquo;. A&iacute; encontrei of&iacute;cios l&aacute; para Buenos Aires, porra. Para Assun&ccedil;&atilde;o, dizendo se eu tinha mandado &oacute;rg&atilde;os para l&aacute;, porra. Cabe na cabe&ccedil;a de uma pessoa humana que um indiv&iacute;duo tire &oacute;rg&atilde;os vivos daqui e mande para Buenos Aires? N&atilde;o cabe, n&eacute;? Pois &eacute;, mas eles investigaram se tinham sido encaminhados &oacute;rg&atilde;os de cad&aacute;veres ou &oacute;rg&atilde;os ainda vi&aacute;veis; se foi iniciativa do doutor Francisco, diretor do IML de Curitiba, porra. Fiquei conhecido no mundo inteiro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O Frankenstein de Curitiba.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: &Eacute;, o Frankenstein. &Eacute;. Porque o t&iacute;tulo da reportagem era esse, que voc&ecirc; viu depois no ac&oacute;rd&atilde;o o cara dizendo: &ldquo;porra, l&oacute;gico que ofendeu o cara; chamou o cara de Frankenstein, porra&rdquo;. Depois pegaram uma foto minha que eu estou virado para tr&aacute;s, que eu pare&ccedil;o mesmo o Frankenstein.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, o Dr. Francisco come&ccedil;a a citar uma s&eacute;rie de nomes e valores, dizendo que essa mat&eacute;ria teria sido encomendada para desmoraliz&aacute;-lo. Ivan n&atilde;o teve como verificar isso, ent&atilde;o prefere n&atilde;o publicar. Mas o que se pode confirmar &eacute; o seguinte: todas as acusa&ccedil;&otilde;es que surgiram contra o Dr. Francisco no in&iacute;cio dos anos 2000 foram investigadas e nenhuma resultou em condena&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A NECROPSIA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de todas as pol&ecirc;micas em torno da figura do Dr. Francisco, uma coisa Ivan sempre deixou muito clara na temporada do caso Evandro: ele demonstrava muita propriedade, conhecimento e autoridade em tudo o que falava.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo &eacute; um coment&aacute;rio que ele fez sobre a forma como as costelas de Evandro foram serradas, de como aquilo teria sido feito por um amador. O trecho a seguir &eacute; do depoimento no j&uacute;ri de 2004, quando o Dr. Francisco respondia &agrave;s perguntas do juiz <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/rogerio-etzel\/\" target=\"_self\" title=\"Juiz que presidiu os j&uacute;ris de 2004 e 2005 do caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Rog&eacute;rio Etzel<\/a>:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Esse cad&aacute;ver apresentava algumas les&otilde;es nas regi&otilde;es inguinais, assim, caracter&iacute;sticas por a&ccedil;&atilde;o de instrumento cortante, que eram les&otilde;es muito retil&iacute;neas, que eu me recordo assim&hellip; Ele apresentava ainda nas por&ccedil;&otilde;es laterais do t&oacute;rax, nos cotos &oacute;sseos&hellip; Apresentava um aspecto que foi reproduzido, ampliado e filmado, da a&ccedil;&atilde;o de uma serra no coto &oacute;sseo. Porque, tecnicamente, quando voc&ecirc;&hellip; Para voc&ecirc; fazer a abertura de um cad&aacute;ver de uma crian&ccedil;a, Excel&ecirc;ncia, a gente evita um pouco seccionar arcos costais em parte &oacute;ssea. Porque a crian&ccedil;a tem uma por&ccedil;&atilde;o cartilag&iacute;nea ou cartilaginosa grande na regi&atilde;o anterior, e essa por&ccedil;&atilde;o cartilaginosa pode ser seccionada com bisturi. E, neste cad&aacute;ver, curiosamente, a les&atilde;o era mais&hellip; Eu diria mais lateral, porque no corpo a gente fala em lateral e medial, ou mais distante da linha m&eacute;dia. E este sobressalto foi destacado na aut&oacute;psia, foi ampliada a foto mostrando que existia uma&hellip; Os franceses chamam isso de &ldquo;decalagem&rdquo;, uma serrada em que um instrumento que cortava deslizou, produzindo uma les&atilde;o bem caracter&iacute;stica que est&aacute; posta ali como&hellip; Rigorosamente posta como &ldquo;feita por algu&eacute;m&rdquo;, portanto uma les&atilde;o que n&atilde;o foi produzida por carn&iacute;voro carniceiro. [&hellip;] Se fosse uma pessoa especializada em abrir crian&ccedil;as, abriria exatamente em cima das cartilagens. Porque n&atilde;o h&aacute; por que numa crian&ccedil;a&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz Etzel: Especializada com que&hellip; Com que finalidade?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Seccionaria com o bisturi porque a&iacute; fica mais pr&oacute;ximo um pouco da linha m&eacute;dia. Mas o senhor tem um acesso, vamos dizer assim, razo&aacute;vel ou muito bom e que n&atilde;o necessita que o senhor v&aacute; seccionar o plastr&atilde;o, que &eacute; essa parte anterior do t&oacute;rax, numa por&ccedil;&atilde;o mais lateralizada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, o que o Dr. Francisco queria dizer &eacute; o seguinte: se fosse uma pessoa que entendesse de anatomia infantil, ela saberia que n&atilde;o precisaria serrar as costelas daquele jeito para ter acessos aos &oacute;rg&atilde;os internos. Bastaria usar um bisturi em uma &aacute;rea mais central do t&oacute;rax, que seria mais cartilaginosa em uma crian&ccedil;a.<\/p>\n\n\n\n<p>Em linhas gerais, resumindo as conclus&otilde;es do Dr. Francisco sobre o estado do corpo de Evandro: primeiro, as m&atilde;os foram retiradas por a&ccedil;&atilde;o humana. Mas havia nas bordas marcas de dentes de animais necr&oacute;fagos, que poderiam confundir essa a&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Essas les&otilde;es&hellip; Depois, provavelmente, a defesa vai mostrar as fotos&hellip; Ele n&atilde;o tinha as m&atilde;os e nem parte dos dedos. Essas les&otilde;es n&atilde;o foram causadas por esses animais?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, n&atilde;o. Eram les&otilde;es externas produzidas por algu&eacute;m.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Por algu&eacute;m&hellip; Instrumento&hellip;? N&atilde;o se&hellip; Perfuro&hellip;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Francisco: Cortante.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Cortante?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Cortante ou corto-contundente. A regularidade da les&atilde;o lembrava muito um instrumento corto-contundente, Excel&ecirc;ncia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Certo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Lembrava instrumento corto-contundente. Seria da maior conveni&ecirc;ncia porque tamb&eacute;m eu n&atilde;o tenho condi&ccedil;&otilde;es de, cinco anos depois, me lembrar de tudo o que eu falei.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Lembra o que o senhor achar necess&aacute;rio, importante&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Sim. Eu lembro que isso a&iacute; era relevante para provar que a les&atilde;o n&atilde;o foi produzida por esse tipo de preda&ccedil;&atilde;o. Por animais ou aves. At&eacute; fui na &eacute;poca verificar que apresentava algumas les&otilde;es em extremidades produzidas por roedores. Roedor&hellip; Existe um tipo de roedor que&hellip; At&eacute; na &eacute;poca eu fui ler o que existia a respeito disso&hellip; S&atilde;o os nossos pre&aacute;s aqui. S&atilde;o ratos grandes que existem em banhados. E parece que esses roedores tamb&eacute;m estiveram se alimentando do corpo, no caso. S&atilde;o animais tamb&eacute;m carn&iacute;voros e carniceiros. Essas les&otilde;es s&atilde;o les&otilde;es denominadas de les&otilde;es em saca-bocado. S&atilde;o les&otilde;es irregulares produzidas pela a&ccedil;&atilde;o, especialmente, de incisivos anteriores. Os roedores t&ecirc;m uma disposi&ccedil;&atilde;o de arcada que costuma abocanhar e puxar, eles n&atilde;o seccionam. Eles abocanham e puxam. E, ao puxar, eles determinam essas les&otilde;es caracter&iacute;sticas de les&otilde;es em saca-bocado. Ent&atilde;o, tanto existiam les&otilde;es produzidas por uma a&ccedil;&atilde;o externa, como tamb&eacute;m por esses predadores.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo, Evandro teria sido morto por algum tipo de asfixia mec&acirc;nica. O que o levava a concluir isso eram duas coisas: a regi&atilde;o de putrefa&ccedil;&atilde;o mais acentuada em torno do pesco&ccedil;o e o fen&ocirc;meno dos dentes rosados.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Por uma<\/em> <em>caracter&iacute;stica que ele apresentava j&aacute; &agrave; inspe&ccedil;&atilde;o, abrindo a boca do cad&aacute;ver, j&aacute;<\/em> <em>se percebia a presen&ccedil;a de dentes avermelhados ou r&oacute;seos. Ou n&oacute;s dir&iacute;amos,<\/em> <em>tecnicamente, um dente com uma impregna&ccedil;&atilde;o hemat&iacute;nica, que eu vou<\/em> <em>procurar explicar o que &eacute;. O sangue tem um pigmento avermelhado, que &eacute; a<\/em> <em>hemoglobina. Esse pigmento, com a putrefa&ccedil;&atilde;o, impregna&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Doutor Francisco&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Partes moles&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: A doutora&hellip; Mestre e doutora em odontologia esteve aqui conversando conosco sobre esse aspecto. O que&hellip; Eu vou mais adiante. O que causa essa&hellip; O que pode causar essa pigmenta&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Essa pigmenta&ccedil;&atilde;o pode&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Pode ser causada pelo qu&ecirc;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Pela putrefa&ccedil;&atilde;o, pela pr&oacute;pria putrefa&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: O que mais?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: E por asfixias.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Por asfixias.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Asfixias. Quando n&oacute;s falamos em asfixias, Excel&ecirc;ncia, n&oacute;s temos que abrir uma chave. Tanto uma esganadura &eacute; uma asfixia, como<\/em> <em>um estrangulamento &eacute; uma asfixia, como um enforcamento &eacute; uma asfixia, como a sufoca&ccedil;&atilde;o &eacute; uma asfixia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: At&eacute; uma morte por afogamento?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Tamb&eacute;m &eacute; outro tipo de asfixia. Ent&atilde;o, n&oacute;s temos diversos tipos de asfixias que fazem essa impregna&ccedil;&atilde;o hemat&iacute;nica. Mas a impregna&ccedil;&atilde;o pode ser produzida tamb&eacute;m pela pr&oacute;pria putrefa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o s&oacute; em dentes como em partes moles.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: &Eacute; comprovado cientificamente, pela putrefa&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Nos livros?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Perfeito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Indiscutivelmente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Certo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Claro que, quando acentuada essa impregna&ccedil;&atilde;o, desperta a aten&ccedil;&atilde;o do perito que quer evidentemente estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o. Se aquela impregna&ccedil;&atilde;o foi devido a uma a&ccedil;&atilde;o constritiva em torno do pesco&ccedil;o ou qualquer outro tipo de asfixia. Afogamento, como Vossa Excel&ecirc;ncia lembrou, &eacute; outro tipo de asfixia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Mas n&atilde;o d&aacute; para estabelecer, ent&atilde;o, qual a causa?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, d&aacute; para estabelecer genericamente sim, mas n&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Foi estrangulamento, foi asfixia? Foi&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: A esp&eacute;cie n&atilde;o, Excel&ecirc;ncia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Putrefa&ccedil;&atilde;o&hellip; N&atilde;o sabe?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o. A esp&eacute;cie, definitivamente, n&atilde;o. &Eacute; no g&ecirc;nero. &Eacute; asfixia mec&acirc;nica por&hellip; Interrogado&hellip; Morte por asfixia mec&acirc;nica. Qual? Interrogado. [&hellip;] E, na &eacute;poca, existia uma tese de mestrado, se n&atilde;o me equivoco, da Unicamp, tamb&eacute;m se n&atilde;o me&hellip; Eu n&atilde;o quero aqui exatamente dizer se era isso ou n&atilde;o, mas existia&hellip; Parece que uma tese da Unicamp, que havia relacionado a presen&ccedil;a desses dentes avermelhados, r&oacute;seos, com o sinal de esganadura ou de asfixia. Outro aspecto importante desse cad&aacute;ver &agrave; inspe&ccedil;&atilde;o &eacute; de que ele apresentava um grau de putrefa&ccedil;&atilde;o maior em torno do pesco&ccedil;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Quer dizer&hellip;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Quer dizer que ocorreu, pelo menos em tese, a&ccedil;&atilde;o traum&aacute;tica constritiva em torno do pesco&ccedil;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Por algum objeto?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Sim, externo. A&ccedil;&atilde;o externa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Objeto&hellip; Uma corda, uma m&atilde;o? N&atilde;o d&aacute; para especificar?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o dava para dizer, a&iacute; para&hellip; Se fosse corda, Excel&ecirc;ncia, n&oacute;s ter&iacute;amos que ter um sulco; ou n&atilde;o ter, porque j&aacute; estava em putrefa&ccedil;&atilde;o. Um outro aspecto, que eu me recordo, importante, &eacute; que n&atilde;o guardava muita correla&ccedil;&atilde;o&hellip; N&atilde;o sei quantos dias&hellip; Agora n&atilde;o me recordo mais&hellip; Mas a putrefa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o era do tempo que se falava que aquela crian&ccedil;a esteve nesse local &uacute;mido, nesse local ermo onde foi encontrada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: O estado de decomposi&ccedil;&atilde;o levava o senhor a crer que a crian&ccedil;a, o corpo, estaria morta h&aacute; quanto tempo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Pois &eacute;, a&iacute; &eacute; que est&aacute;, Excel&ecirc;ncia. Isso a&iacute; a gente v&ecirc; sempre em fun&ccedil;&atilde;o de um conjunto de sinais cadav&eacute;ricos, um conjunto de sinais. A putrefa&ccedil;&atilde;o que se encontrava o corpo&hellip; Vamos chamar isso a&iacute; de tempo decorrido desde a morte, que quando a gente fala em &ldquo;quanto tempo&rdquo;, o tempo fica interrogado. Vamos chamar de tempo decorrido desde a morte, para a gente poder ter um referencial. Essa putrefa&ccedil;&atilde;o que era em maior intensidade em torno do pesco&ccedil;o teria que ser do qu&ecirc;? De tr&ecirc;s dias, quatro dias. Porque quanto mais&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Do pesco&ccedil;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: No pesco&ccedil;o, no pesco&ccedil;o. Quanto mais a gente se afasta da hora da morte, mais incerta fica essa estimativa. Os livros de antigamente l&aacute; dos anos 60, 70, falavam em determina&ccedil;&atilde;o da hora da morte. Isso n&atilde;o existe. Existe uma estimativa t&eacute;cnica desse tempo decorrido desde a morte. E essa putrefa&ccedil;&atilde;o, se por um lado era de tr&ecirc;s dias no pesco&ccedil;o, em outros era mais ou menos um tempo menor do que este.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Em outros&hellip; O senhor quer dizer&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Em outras regi&otilde;es do corpo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Juiz: Em outras partes do corpo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Terceiro, o Dr. Francisco acreditava que a caracter&iacute;stica dos cortes nas costelas seria sinal de que a pessoa era amadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses s&atilde;o os pontos gerais mais importantes. De resto, boa parte dos depoimentos do Dr. Francisco girava em torno de responder d&uacute;vidas sobre a identidade do corpo &ndash; algo que Ivan explicou na <a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/temporada\/o-caso-evandro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>temporada do caso Evandro<\/strong><\/a>. A opini&atilde;o do Dr. Francisco sempre foi de que o corpo era de Evandro, e Ivan concorda com ele.<\/p>\n\n\n\n<p>No inqu&eacute;rito de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/sandra-matheus-da-luz\/\" target=\"_self\" title=\"Menina de 11 anos encontrada morta em Fazenda Rio Grande em 1989\" class=\"encyclopedia\">Sandra Mateus da Luz<\/a> h&aacute; um of&iacute;cio de agosto de 1992, assinado pelo Dr. Francisco, dizendo que o caso da menina seria diferente do de Evandro, pois ela foi v&iacute;tima de abuso sexual. Mas, antes de falar sobre isso, &eacute; preciso entender melhor como ele entrou no caso de Guaratuba.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: [Foi] por sugest&atilde;o, na &eacute;poca, do diretor, que se chamava doutor Jos&eacute; C&aacute;ssio [de Albuquerque]. Eu estava na praia, ele me pediu que viesse para c&aacute;. Eu estava inclusive em f&eacute;rias, e pediu que viesse para c&aacute; porque tinham encontrado um corpo em Guaratuba, e que ele queria o profissional que tivesse maior experi&ecirc;ncia naquela &aacute;rea. Eu trabalhava na &eacute;poca como legista, mas estava lotado no necrot&eacute;rio do Instituto M&eacute;dico Legal naquela ocasi&atilde;o. Fui tamb&eacute;m da cl&iacute;nica, fui de todos os servi&ccedil;os do IML. Passei por todos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Por que o senhor&hellip; Por que o doutor Jos&eacute; C&aacute;ssio queria que o senhor fosse para l&aacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Porque&hellip; Eu acredito que por ser o mais capaz e com maior experi&ecirc;ncia na &eacute;poca. Porque eu tamb&eacute;m era&hellip; E sou, coincidentemente&hellip; Fui professor da universidade. Professor catedr&aacute;tico, o antigo catedr&aacute;tico, o professor titular da universidade. Eu era tamb&eacute;m o professor titular da universidade, ent&atilde;o ele achou que eu reunia&hellip; Para ele, como o indiv&iacute;duo mais capaz e mais competente para promover aquela aut&oacute;psia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Era uma aut&oacute;psia muito sui generis? Muito fora do comum?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, n&atilde;o, n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas o estado do corpo era muito fora do comum?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: &Eacute;. A putrefa&ccedil;&atilde;o sim. Como &eacute; um corpo putrefeito, ele achou que tinha que ser uma pessoa que tivesse grande experi&ecirc;ncia em putrefa&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: H&aacute; quanto tempo aquele corpo estava naquele exato local onde foi encontrado?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Que dia ele desapareceu?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Na segunda-feira.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: E foi encontrado quando?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: S&aacute;bado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Ent&atilde;o passaram-se quantos dias? Ter&ccedil;a, quarta, quinta, sexta e s&aacute;bado. Cinco dias. As les&otilde;es ali eram mais de um corpo que esteve conservado em algum lugar, do que um corpo que foi morto e logo atirado ali.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Ele foi conservado em algum local. Porque a putrefa&ccedil;&atilde;o, em 72 horas, voc&ecirc; tem uma putrefa&ccedil;&atilde;o quase que completa de todas as partes, coliqua&ccedil;&atilde;o etc, que ele ainda n&atilde;o tinha. O tipo de hip&oacute;stase tamb&eacute;m&hellip; Eram hip&oacute;stases de corpo&hellip; Que se instalou a hip&oacute;stase logo em seguida&hellip; A hip&oacute;tese de estar h&aacute; tr&ecirc;s dias ap&oacute;s a morte&hellip; E tinha hip&oacute;stases quase que&hellip; Eu diria que com aspecto de recenticidade, portanto, de conserva&ccedil;&atilde;o do corpo, antes de ser atirado ali. Ele esteve em algum lugar sim, conservado eu n&atilde;o sei, se &eacute; em geladeira, n&atilde;o sei. Mas ele esteve antes em algum local, antes de ser atirado ali.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Essa conserva&ccedil;&atilde;o que o doutor diz, isso&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Que postergou&hellip; Veja, que postergou a putrefa&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: A putrefa&ccedil;&atilde;o devia estar mais avan&ccedil;ada, ent&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Muito mais.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas que viram o corpo &ndash; especialmente as que n&atilde;o s&atilde;o m&eacute;dicas &ndash; sempre falaram que ele estaria com putrefa&ccedil;&atilde;o muito adiantada para ser de Evandro, visto que o menino havia sumido na segunda-feira e o corpo aparecido no s&aacute;bado. Mas o que o Dr. Francisco est&aacute; falando &eacute; outra coisa: se o corpo tivesse sido deixado no mato logo ap&oacute;s a morte, ele estaria com decomposi&ccedil;&atilde;o ainda mais avan&ccedil;ada do que aquela que apresentava.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato de ter partes conservadas e outras com putrefa&ccedil;&atilde;o avan&ccedil;ada levou o Dr. Francisco a crer que o corpo teria sido armazenado em algum local fechado. Se fosse em um lugar aberto, a decomposi&ccedil;&atilde;o estaria mais uniforme e adiantada, tornando-se cada vez mais dif&iacute;cil de se determinar o tempo decorrido da morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa foi tamb&eacute;m em parte a interpreta&ccedil;&atilde;o do Dr. Lipinski, que participou do epis&oacute;dio anterior. E essa diferen&ccedil;a de putrefa&ccedil;&atilde;o pode ter in&uacute;meros fatores: desde a posi&ccedil;&atilde;o em que o corpo ficou at&eacute; o local onde esteve. Se em uma parte do corpo batia mais sol do que em outra, por exemplo, j&aacute; haveria diferen&ccedil;a.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Porque o que se falava era que o corpo estava com putrefa&ccedil;&atilde;o avan&ccedil;ada demais para apenas cinco dias.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o. &Eacute; o contr&aacute;rio. A putrefa&ccedil;&atilde;o estava quase que conservada, portanto, de menos do que cinco dias. De tr&ecirc;s dias, de dois dias.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Lembrando, isso tamb&eacute;m condiz com o que o Dr. Lipinski falava. Como foi mostrado no epis&oacute;dio anterior, para ele, o corpo estava naquele local h&aacute; tr&ecirc;s dias. Ent&atilde;o, sendo a putrefa&ccedil;&atilde;o t&iacute;pica de menos de cinco dias, encaixa-se na linha do tempo do pensamento do Dr. Francisco.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas tem &aacute;reas que est&atilde;o bem avan&ccedil;adas, tipo a do pesco&ccedil;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o. O pesco&ccedil;o em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s outras les&otilde;es, n&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; conserva&ccedil;&atilde;o. A les&atilde;o do pesco&ccedil;o era em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s outras les&otilde;es que ele apresentava. N&atilde;o, &eacute; putrefa&ccedil;&atilde;o maior no pesco&ccedil;o do que em outros locais. Por causa da presen&ccedil;a de sangue. O sangue putrefaz mais depressa. Geralmente a ordem &eacute; do aparecimento desses elementos no corpo. Por exemplo, o que mais putrefaz, e mais rapidamente, &eacute; o interior do c&eacute;rebro, que &eacute; o que primeiro aparece, entendeu? Ele guarda essa rela&ccedil;&atilde;o. Essa rela&ccedil;&atilde;o existe. Como existe rela&ccedil;&atilde;o de dim&iacute;dio tamb&eacute;m. Eu aprendi isso a&iacute; quando morreu um grego, foi para o IML, e n&oacute;s tivemos que conservar o grego porque ele ia para Gr&eacute;cia. Ent&atilde;o, tinha que ficar l&aacute; conservado. E eu que fiz a pr&aacute;tica de conserva&ccedil;&atilde;o do corpo, chamado impropriamente hoje de tanatopraxia. Voc&ecirc; nunca vai usar isso a&iacute; tamb&eacute;m, porque voc&ecirc; vai dizer&hellip; &ldquo;P&ocirc;, n&atilde;o falou comigo o Ivan&rdquo;. Por que n&atilde;o &eacute; tanatopraxia, Ivan? Porque tanatopraxia vem do grego &ldquo;thanatos, pr&aacute;xis&rdquo;, pr&aacute;tica e morto. Uma aut&oacute;psia &eacute; uma pr&aacute;tica de tanatopraxia. Voc&ecirc; vai dizer: &ldquo;mas por que eles usaram isso para o grande p&uacute;blico?&rdquo;. Me pergunte isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Por qu&ecirc;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Vou te dizer. Para criar uma situa&ccedil;&atilde;o nova. &ldquo;Ah, voc&ecirc; quer fazer tanatopraxia?&rdquo;. N&atilde;o &eacute;, &eacute; tanatoconserva&ccedil;&atilde;o, conserva&ccedil;&atilde;o do morto. N&atilde;o tem nada de tanatopraxia. Porque uma aut&oacute;psia &eacute; uma pr&aacute;tica de&hellip; No morto. &Eacute; uma tanatopraxia, uma pr&aacute;tica de tanatopraxia&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim. Mas t&aacute;, de novo, para a gente que est&aacute; tentando entender o que aconteceu com o Evandro, quais s&atilde;o as condi&ccedil;&otilde;es ideais para fazer com que o corpo aparecesse desse jeito cinco dias depois?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Foi conservado em algum lugar antes. Aonde, eu n&atilde;o sei.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ele foi&hellip; Vamos dizer assim, ele desaparece na segunda-feira. Ele pode ter sido morto j&aacute; na segunda?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Segunda ele morreu.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. E da&iacute;? Ele foi colocado&hellip; Foi deixado solto, depois foi colocado&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Colocado em algum lugar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Que tipo de lugar?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Geladeira, um lugar fechado, um ambiente fechado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Um ambiente fechado&hellip; Sei l&aacute;, um porta-malas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Um porta-malas. Ficou algum tempo l&aacute;. Algum tempo. Quanto tempo, eu n&atilde;o sei. Algum tempo ele ficou num lugar n&atilde;o exposto a intemp&eacute;ries, ao ambiente normal.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O doutor tem uma fala que me marcou muito, que o doutor fala assim: &ldquo;o cad&aacute;ver apresentava caracter&iacute;sticas de quem&hellip; Como se algu&eacute;m morresse dentro de um apartamento e ficasse l&aacute; alguns dias at&eacute; algu&eacute;m encontrar&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Ambiente fechado, isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ambiente fechado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o ambiente externo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Isso. Se ele estivesse num ambiente externo, como ele deveria estar?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Muito mais putrefeito do que conservado antes, n&eacute;? Estaria muito mais. A putrefa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o era de seis dias, entendeu? Era de menos. Putrefa&ccedil;&atilde;o conservada, vamos chamar assim, impropriamente, claro. Porque a putrefa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tem como conservar, n&eacute;? Ela &eacute; progressiva, &eacute; inexor&aacute;vel, n&eacute;? O corpo retorna ao p&oacute;, como diz a B&iacute;blia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute;. Ent&atilde;o ele pode ter sido conservado num quarto?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Pode, perfeitamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Numa casa pequena, num barraco&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Num barraco, no interior de um carro&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o precisava ser um congelador, por exemplo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, n&atilde;o, n&atilde;o. N&atilde;o necessariamente congelador, n&atilde;o, n&atilde;o. Nem&hellip; Eu n&atilde;o falei nunca em congelador. Falei em ambiente externo do&hellip; Ambiente interno diferente do externo. Isso que eu disse sempre e repito para voc&ecirc; hoje. Foi conservado em algum ambiente fechado, entendeu? Porta-malas do carro&hellip; Ficou rodando com ele&hellip; &ldquo;Agora, o que n&oacute;s fazemos com o corpo?&rdquo;. &ldquo;Vamos jogar l&aacute; no banhado&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Estou dizendo da cabe&ccedil;a de quem matou, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Claro, claro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Eu estou pensando como o criminoso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Uma caixa?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Uma caixa. Colocaram ele numa caixa e deixaram na caixa fechada. Sem inseto, sem nada, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim, sim. A gente consegue dizer&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Afirmar, vamos dizer assim&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim, sim. Mas a gente, ent&atilde;o, n&atilde;o consegue dizer em que dia da semana ele morreu e em que dia da semana ele foi colocado ali no&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Seguramente, n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o. Mas se for para chutar, qual seria a sua melhor&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, para voc&ecirc; fazer uma estimativa grosseira da morte, que coincidiria com a morte ocorrida na segunda-feira&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Pode-se dizer isso pelos sinais que ele tinha de putrefa&ccedil;&atilde;o, putrefa&ccedil;&atilde;o que foi o corpo conservado em algum lugar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, pelas estimativas feitas por cima pelo Dr. Francisco, que eram muito dif&iacute;ceis de serem verificadas j&aacute; naquela &eacute;poca, Evandro pode ter sido morto j&aacute; no dia em que desapareceu. Mas, de novo, tudo isso &eacute; incerto. E n&atilde;o h&aacute; como ter certeza.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Quais os instrumentos que poderiam ser usados para o corte no peito e na barriga? E, na barriga, eu digo o seguinte, doutor: a gente nota que ele tem um buraco aqui&hellip; Eu vou falar em termos leigos. Eu vejo que ele tem um&hellip; T&aacute; aberta a barriga dele. &Eacute; um corte cont&iacute;nuo feito para tirar tipo uma tampa assim, da barriga?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Exatamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute; assim que &eacute; feito?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Assim, assim mesmo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nessa hora, com o dedo indicador, Ivan fez um movimento circular no peito, apontando desde a base do pesco&ccedil;o at&eacute; abaixo do umbigo.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E &eacute; um corte &uacute;nico que &eacute; feito?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Instrumento cortante, bisturi.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Ou uma faca bem afiada, n&eacute;? Ou um punhal bem afiado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Uma navalha?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Navalha, claro. Instrumento cortante t&iacute;pico. Cortante t&iacute;pico, que tenha gume.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim. Mas&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Porque a les&atilde;o a&iacute; &eacute; les&atilde;o t&iacute;pica, sabe? Porque a ferida incisa&hellip; Tem que dar outra explica&ccedil;&atilde;o para voc&ecirc;. A ferida incisa &eacute; uma ferida de bordas regulares. Aquela que eu mostrei para voc&ecirc; l&aacute; em cima. Ferida incisa aquilo, t&iacute;pica. Na ferida corto-contusa, as bordas s&atilde;o irregulares, tem equimose ao redor, tem retalhos de pele. Nesse caso a&iacute; n&atilde;o tinha nunca, foi por incis&atilde;o. Incis&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Vai ter uma incis&atilde;o em cima&hellip; Se manteve o corte.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Exatamente. Assim que foi feito isso a&iacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Certo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Tanto l&aacute; como no t&oacute;rax.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Certo. E o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Como aqui tamb&eacute;m.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: No pesco&ccedil;o tamb&eacute;m. Ent&atilde;o, provavelmente&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Mesmo instrumento. Ele n&atilde;o variou o instrumento.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o variou o instrumento.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, variou sim quando ele usou a serra.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim, sim, sim&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Que ele encontrou dificuldade de abrir o interior do t&oacute;rax.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Perfeito. Deixa eu mostrar aqui para o doutor uma quest&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Que usou serra, eu tenho absoluta certeza.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Vamos para as costelas agora. A gente consegue dizer se ele come&ccedil;ou cortando da esquerda ou da direita? D&aacute; para ter uma estimativa disso ou a ordem&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Pela dificuldade, eu acho que ele come&ccedil;ou do lado esquerdo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Do Evandro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Do Evandro.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O lado esquerdo &eacute; o que tinha aquela inclina&ccedil;&atilde;o em V que, de acordo com o Dr. Lipinski, seria um sinal de que o assassino se cansou no meio e mudou de &acirc;ngulo. Do lado direito, o corte das costelas estava reto.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Pela dificuldade. Porque uma hora a serra n&atilde;o conseguiu serrar completamente, e ele teve uma decalagem, um degrau. Aquele degrau eu mostrei com fotografia ampliada, bonita, tal, mostrando que houve ali a&ccedil;&atilde;o externa, entendeu? N&atilde;o foi animal nenhum que produziu aquela les&atilde;o. Foi um animal humano.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E da&iacute; j&aacute; do lado direito ele conseguiu fazer&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Com mais facilidade. Porque ele se aproximou mais da cartilagem do que do osso. Do lado direito est&aacute; mais pr&oacute;ximo da linha m&eacute;dia do que da parte externa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Vai virando cartilagem ou tem uma &aacute;rea que a gente v&ecirc; bem&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Se delimita bem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Se delimita bem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Delimita bem, Ivan.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas o osso, &agrave; medida que vai chegando perto da cartilagem, vai ficando mais&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Mais f&aacute;cil de voc&ecirc; cortar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Entendi.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Para mim, ele come&ccedil;ou do lado esquerdo por causa da dificuldade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. Da&iacute; ele aprendeu do lado esquerdo e foi fazer do lado direito&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Melhorou do lado direito. Ele fez mais pr&oacute;ximo da linha m&eacute;dia, mais na parte esbranqui&ccedil;ada do osso, no caso, que &eacute; a cartilagem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Para o m&eacute;dico legista, por que algu&eacute;m estaria fazendo isso? Na verdade, de ele n&atilde;o saber cortar&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Entendi.<\/em>..<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Por que&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Para a retirada dos &oacute;rg&atilde;os internos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas n&atilde;o daria s&oacute; para abrir a barriga?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o. A barriga n&atilde;o chega l&aacute; porque tem diafragma. Tem um m&uacute;sculo grande que separa o t&oacute;rax do abd&ocirc;men, que &eacute; o diafragma. Voc&ecirc;, para entrar no t&oacute;rax, tem que furar, cortar o diafragma. E por aqui voc&ecirc; abriu o plastr&atilde;o, que a gente chama, condroesternal, das costelas e do esterno, voc&ecirc; j&aacute; est&aacute; diante da cavidade, do interior da cavidade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ou seja, a pessoa queria pegar&hellip; Por exemplo, o cora&ccedil;&atilde;o j&aacute; pega direto daqui de cima&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Exatamente por isso que ele fez essa incis&atilde;o l&aacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Certo. J&aacute; vou avan&ccedil;ar um pouquinho ent&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Por que ele n&atilde;o tinha a pr&aacute;tica? Isso &eacute; importante. Por que n&atilde;o foi um m&eacute;dico ou um enfermeiro que fez isso? Ou um indiv&iacute;duo habituado a fazer isso? Porque, se fosse, ele n&atilde;o serraria arco costal de crian&ccedil;a. Se fosse. Como ele serrou, voc&ecirc; j&aacute; v&ecirc; que ele &eacute; um ne&oacute;fito, n&eacute;? Um indiv&iacute;duo despreparado porque&hellip; Eu, se fosse querer tirar o interior do t&oacute;rax de uma crian&ccedil;a, eu pegava o bisturi e cortava o arco costal aqui e aqui, e tirava. Por essa raz&atilde;o. Condi&ccedil;&atilde;o, para mim, de convencimento tamb&eacute;m, Ivan.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: At&eacute; nesse ponto tamb&eacute;m, eu, como leigo, se eu digo assim&hellip; Se eu quero tirar todos os &oacute;rg&atilde;os ou o cora&ccedil;&atilde;o que seja, eu nem cortaria as costelas. Eu abriria a barriga, cortaria o diafragma e da&iacute; ia por baixo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Ah sim, pois &eacute;. Mas ele n&atilde;o sabia disso. Ele achou que &eacute;&hellip; O problema da vis&atilde;o direta, n&eacute;? A pessoa tem condi&ccedil;&atilde;o de vis&atilde;o direta, n&eacute;? O cora&ccedil;&atilde;o est&aacute; aqui atr&aacute;s, ent&atilde;o eu vou abrir aqui&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Consegue ver, n&eacute;? Consegue ver o que est&aacute; fazendo&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: De vis&atilde;o direta, de observa&ccedil;&atilde;o direta, vamos dizer assim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Queria abrir para ver como que era tudo l&aacute; dentro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: &Eacute;, porque ele n&atilde;o sabe, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>OS MIST&Eacute;RIOS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Baseado na sua extensa experi&ecirc;ncia, o Dr. Francisco frequentemente fornece a sua interpreta&ccedil;&atilde;o sobre a inten&ccedil;&atilde;o do assassino. Essa quest&atilde;o do porqu&ecirc; serrar as costelas &eacute; um exemplo claro. Para o Dr. Francisco, o assassino quis fazer isso para ver ou ter melhor acesso aos &oacute;rg&atilde;os internos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o fato &eacute; que n&atilde;o h&aacute; como ter certeza se esse era o prop&oacute;sito. Nessas horas, Ivan afirma sempre lembrar do caso de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o em 2003 pela morte e emascula&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a>, o assassino em s&eacute;rie citado na <a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/temporada\/altamira\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">temporada passada<\/a>, Altamira. Entre os anos de 1989 e 2003, ele matou mais de 40 meninos nos estados do Par&aacute; e Maranh&atilde;o, e tamb&eacute;m costumava realizar mutila&ccedil;&otilde;es nas v&iacute;timas. A mais frequente era a emascula&ccedil;&atilde;o &ndash; ou seja, a retirada do p&ecirc;nis e bolsa escrotal.<\/p>\n\n\n\n<p>Por anos, as autoridades e a popula&ccedil;&atilde;o se perguntavam o motivo disso. Seria transplante de &oacute;rg&atilde;os? &ldquo;Magia Negra&rdquo;? Alguma pervers&atilde;o sexual?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nas confiss&otilde;es, Chagas explicou que fazia isso porque uma vis&atilde;o o mandava matar crian&ccedil;as e emascul&aacute;-las. Assim, ele retiraria das v&iacute;timas o pecado original para que &ldquo;virassem anjos&rdquo;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Era algo que ningu&eacute;m poderia imaginar. N&atilde;o faz sentido para ningu&eacute;m &ndash; apenas para o assassino.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou&ccedil;a <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-27\/\" target=\"_blank\">aqui<\/a> o epis&oacute;dio de Altamira sobre as confiss&otilde;es de Chagas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan cita isso tudo porque n&atilde;o sabe dizer o motivo pelo qual o assassino de Evandro serrou as costelas do menino. Ningu&eacute;m sabe. Tudo o que se pode fazer &eacute; especular. E, para o Dr. Francisco, a t&eacute;cnica empregada era amadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, em certo momento da conversa, Ivan mostrou para ele o laudo de exame cadav&eacute;rico da ossada de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a>. Ele leu toda a lista de ossos encontrados.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1s6CuYqtTPrK59HyfqtdgLIKaCU8TrQSt\/view\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Exame cadav&eacute;rico da ossada de Leandro Bossi<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o tem a descri&ccedil;&atilde;o das m&atilde;os, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute;. N&atilde;o tem ossos das m&atilde;os.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Francisco: E dos p&eacute;s, tem?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Dos p&eacute;s, tem aqueles ossinhos ali que eu marquei embaixo. Mas n&atilde;o tem os dedos dos p&eacute;s.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o tem descri&ccedil;&atilde;o de nenhum dedo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Nenhum dedo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Nem das m&atilde;os tamb&eacute;m, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Nem das m&atilde;os, nem dos p&eacute;s.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Ent&atilde;o, &eacute; sinal de que podem ter sido serrados tamb&eacute;m&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: S&oacute; que da&iacute; teria descri&ccedil;&atilde;o de marcas de serra, n&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Exatamente no osso&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Deveria ter?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, n&atilde;o. N&atilde;o, n&atilde;o necessariamente, n&eacute;? Ele pode ter seccionado a m&atilde;o aqui sem serrar o osso, nesse caso. N&atilde;o &eacute; excludente n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E os dedos dos p&eacute;s tamb&eacute;m?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Mesma coisa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mesma coisa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O senhor quer comparar com o laudo de novo para ver se encontra algum osso ali?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, n&atilde;o. Isso aqui ele n&atilde;o tem n&atilde;o. Nem metatarso, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Nem carpo, nem &uacute;mero, nem r&aacute;dio do bra&ccedil;o esquerdo, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute;. E me chama a aten&ccedil;&atilde;o ali tamb&eacute;m que n&atilde;o tem o f&ecirc;mur do lado esquerdo&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Do lado direito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Lado direito?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Direito do cad&aacute;ver.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute;, isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Esquerdo de quem olha.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Isso, exato.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Sempre descreva no cad&aacute;ver, viu?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Perd&atilde;o, sim&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Para voc&ecirc; n&atilde;o errar nunca&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Metacarpiano n&atilde;o tem nenhum, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o. Metacarpo&hellip; N&atilde;o fala de nada&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Mas metacarpiana s&atilde;o os ossos da m&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o fala nada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Pode ter sido um animal que tirou?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Pode.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Em um ano, a ossada l&aacute; pode ter&hellip; Algum animal tirado, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Comeu, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas da&iacute; tirado das duas m&atilde;os?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, a&iacute; tamb&eacute;m n&atilde;o, n&eacute;? N&atilde;o, n&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Bom&hellip; A aus&ecirc;ncia de m&atilde;os pode ser uma coisa ou pode n&atilde;o ser, pode ser a&ccedil;&atilde;o animal&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Pode ser animal.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: S&oacute; que, pelo fato de ser no mesmo matagal, mesma data&hellip; Muito pr&oacute;xima&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Pode ter todas as coincid&ecirc;ncias que voc&ecirc; est&aacute; imaginando, que n&atilde;o &eacute; teoria da conspira&ccedil;&atilde;o n&atilde;o. &Eacute; possibilidade concreta.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>SEMELHAN&Ccedil;AS E DIFEREN&Ccedil;AS ENTRE CASOS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E sobre a menina, a Sandra, encontrada em Mandirituba em 1989&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Como que est&aacute; o laudo dela? Eu n&atilde;o vi.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Vamos l&aacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Foi a &uacute;ltima pergunta que voc&ecirc; fez para mim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Isso. Estamos na &uacute;ltima pergunta j&aacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Bom, ali tem o escalpe&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: A aus&ecirc;ncia de m&atilde;os&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: A aus&ecirc;ncia de m&atilde;os&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Dos p&eacute;s tamb&eacute;m.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham&hellip; N&atilde;o, os p&eacute;s ela tem, os p&eacute;s ela tem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Ah, a menina, no caso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ela tem os p&eacute;s. Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Mas as m&atilde;os n&atilde;o existem mais, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: As m&atilde;os n&atilde;o existem mais. E tem uma diferen&ccedil;a bem&hellip; Ela n&atilde;o tem as m&atilde;os&hellip; [Ivan mostra laudo] Feito o escalpe&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Certo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E tem uma diferen&ccedil;a grande, que &eacute;: ela foi violada. Ela foi abusada sexualmente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Junto, n&eacute;? Antes da morte, n&eacute;? Porque isso a&iacute; &eacute; tudo vermelhid&atilde;o de pessoa viva, viu?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham, t&aacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Anterior &agrave; morte, n&atilde;o foi depois de morto n&atilde;o. Porque podia ser ap&oacute;s a morte tamb&eacute;m, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Porque um doido desse a&iacute;, voc&ecirc; pode imaginar qualquer coisa, n&eacute;? Que &eacute; um animal, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Foi feito com ela viva, ent&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: &Eacute; o crime&hellip; Eu chamo esses crimes de crimes contra a humanidade, Ivan. N&atilde;o &eacute; contra a menina, nem contra a fam&iacute;lia dela.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. Ent&atilde;o, n&atilde;o foi seccionado o t&oacute;rax, ela tem os dedos dos p&eacute;s ainda&hellip; Tr&ecirc;s anos antes&hellip; Mas a gente&hellip; Se est&aacute; falando de um serial killer, pode ser que esteja ficando mais violento, ele vai&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Pode, mas&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ele vai testando&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr.<\/em> <em>Francisco: Escalpe e as m&atilde;os &eacute; para n&atilde;o identificar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute; para n&atilde;o identificar. Mas &eacute; comum? Quantos casos o doutor j&aacute; pegou assim?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Ah, centenas&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o &eacute; incomum, ent&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o &eacute; incomum n&atilde;o. &Eacute; muito comum.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Naquela &eacute;poca principalmente?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, porque o cara v&ecirc; no cinema que voc&ecirc;, tirando a face, n&atilde;o reconhece mais quem &eacute;. &Eacute; besteira, n&eacute;? Tem os dentes.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Tem as roupas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Tem as roupas, tem os dentes, tem h&aacute;bitos, tem utens&iacute;lio de uso pessoal, tem pr&oacute;teses no interior do corpo que o cara n&atilde;o sabe quais s&atilde;o, que podem identificar a pessoa.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Meu ponto &eacute;: se eu vou matar uma crian&ccedil;a e eu n&atilde;o quero que ela seja identificada, eu n&atilde;o vou deixar ela perto de casa, como foi o caso aqui da Sandra e dos meninos de Guaratuba, e eu n&atilde;o vou deixar ela com as roupas. Eu vou jogar em outro lugar. Ainda mais em Guaratuba, eu vou jogar no mar&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Claro. E a&iacute; tamb&eacute;m&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham, exato. Ent&atilde;o, assim, n&atilde;o me parece que a pessoa est&aacute; com inten&ccedil;&atilde;o de tirar a identifica&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, est&aacute;. O escalpe &eacute; patognom&ocirc;nico, vamos dizer assim, a pessoa que n&atilde;o quer que identifique; e as m&atilde;os, por causa das impress&otilde;es digitais. Porque ele acha que a impress&atilde;o digital &eacute; o &uacute;nico elemento que define a pessoa, quando n&atilde;o &eacute;, porra. Te contei v&aacute;rios exemplos, n&eacute;? Pr&oacute;teses&hellip; Situa&ccedil;&otilde;es como essa aqui, de uma fratura antiga, me identifica. Porque voc&ecirc; n&atilde;o tem um polegar inferior ao outro, voc&ecirc; tem iguais. Eu tenho certeza de que voc&ecirc; tem iguais. Voc&ecirc; n&atilde;o teve fratura tamb&eacute;m. Teve fratura na m&atilde;o, voc&ecirc; vai ter um menor um pouco.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham, sim. Mas&hellip; T&aacute;&hellip; Quantos casos&hellip; Vamos fazer quest&atilde;o concreta. Nos seus 50 anos, que o doutor trabalhou no IML&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: 48.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: 48. Estou arredondando. O doutor quantas vezes pegou casos de crian&ccedil;as&hellip; Crian&ccedil;as&hellip; Sem m&atilde;os e escalpeladas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Todos os casos que o indiv&iacute;duo n&atilde;o queria identificar a v&iacute;tima.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Quantos? Eu quero n&uacute;meros.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Ah, porra. Vamos supor&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Chuta um n&uacute;mero&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: 500 casos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: De crian&ccedil;a?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Crian&ccedil;as.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Crian&ccedil;as escalpeladas sem as m&atilde;os&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Para n&atilde;o identificar. E que todas foram identificadas, ou por h&aacute;bitos pessoais, por vestes, por objetos pessoais que &agrave;s vezes estavam no corpo da pessoa. Estava com uma chave l&aacute; que &eacute; da casa dela. Porra, n&atilde;o tem mais o que falar, n&eacute;? A chave do quarto, da casa da pessoa. A menina tinha a chave&hellip; O caso do Evandro. Estava com a chave da casa e o chinelo dele l&aacute; no local. A roupa dele&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O chinelo apareceu alguns dias depois.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Eu sei. Pois &eacute;, mas isso a&iacute; &eacute; comum na pol&iacute;cia do Paran&aacute;, n&eacute;?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O senhor lembra de casos, nomes de v&iacute;timas que a gente poderia&hellip; Porque eu queria muito dar uma olhada em outros casos que tenham isso aqui tamb&eacute;m. Porque, olhando assim, me parece muito fora do comum. Eu esperaria que o doutor me falasse assim: &ldquo;n&atilde;o, Ivan, eu vi pouqu&iacute;ssimos casos de crian&ccedil;as&hellip;&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, eu vi muitos. N&atilde;o, vi muitos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Crian&ccedil;as.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Crian&ccedil;as escalpeladas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E sem as m&atilde;os.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: E sem as m&atilde;os.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: As duas coisas juntas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: As duas coisas concomitantes, vamos dizer.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim. Quando? Que casos?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, 500&hellip; Eu falei muito at&eacute;, sabe? Vamos diminuir um pouco a&iacute;. Um por 15 mil&hellip; 5%. &Eacute;, d&aacute; mais ou menos isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: 3%. Vamos p&ocirc;r menos, vamos p&ocirc;r o menor &iacute;ndice poss&iacute;vel&hellip; 50 casos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O senhor lembra de nomes de casos? Nomes de v&iacute;timas, que a gente poderia verificar?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Eu lembro mais de les&otilde;es produzidas ap&oacute;s a morte em crian&ccedil;as. As <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/irmas-nakadaira\/\" target=\"_self\" title=\"Meninas de 10 e 12 anos que foram violentadas e mortas em Curitiba em 1982\" class=\"encyclopedia\">irm&atilde;s Nakadaira<\/a>, aqui em Campo Comprido, eu me lembro bem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O caso das <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/irmas-nakadaira\/\" target=\"_self\" title=\"Meninas de 10 e 12 anos que foram violentadas e mortas em Curitiba em 1982\" class=\"encyclopedia\">Irm&atilde;s Nakadaira<\/a> &eacute; um caso hist&oacute;rico da pol&iacute;cia paranaense. Em 1982, duas crian&ccedil;as que eram irm&atilde;s foram mortas, violentadas e tiveram objetos introduzidos em seus corpos. O crime nunca teve solu&ccedil;&atilde;o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.bandab.com.br\/seguranca\/sem-resposta-depois-de-33-anos-familia-das-irmas-nakadaira-ainda-tenta-esquecer-crime\/\" target=\"_blank\">Mat&eacute;ria do Portal Banda B &ndash; &ldquo;Sem resposta depois de 33 anos, fam&iacute;lia das &lsquo;Irm&atilde;s Nakadaira&rsquo; ainda tenta esquecer crime&rdquo; (2015)<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esse caso n&atilde;o tem nenhuma similaridade not&aacute;vel com os de Sandra, Leandro e Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim. S&oacute; que as irm&atilde;s&hellip; Foram introduzidos objetos&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Violentadas, isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Tem um monte de coisa. Mas elas t&ecirc;m as m&atilde;os e elas n&atilde;o foram escalpeladas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, n&atilde;o foram.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Eu estou dizendo especificamente de escalpo&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o. Eu sei mais de les&otilde;es post mortem com o prop&oacute;sito de n&atilde;o identificar. O escalpe e as m&atilde;os s&atilde;o sinais patognom&ocirc;nicos&hellip; Repito para voc&ecirc;&hellip; De que a pessoa n&atilde;o queria a identifica&ccedil;&atilde;o do corpo.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;, mas o doutor falou que pelo menos 500 casos que pegou foram de crian&ccedil;as escalpeladas e sem as m&atilde;os.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Sem as m&atilde;os.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Nomes? Para a gente poder olhar&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Ah, eu n&atilde;o sei n&atilde;o. N&atilde;o lembro aqui, s&atilde;o tantas&hellip; A gente fazia 20 aut&oacute;psias por dia, 60 por semana, 60 por semana&hellip; &Eacute;, 60 corpos por semana. [&hellip;] Agora eu n&atilde;o teria condi&ccedil;&otilde;es de dar para voc&ecirc; nenhum nome.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Ok.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Foram tantos que eu vou&hellip; Agora, com certeza, eu posso afirmar para voc&ecirc;: a retirada do escalpe e das m&atilde;os simultaneamente&hellip; N&atilde;o s&oacute; o escalpe&hellip; O escalpe s&oacute; n&atilde;o &eacute; sinal de que n&atilde;o quer identificar n&atilde;o. Mas, com as m&atilde;os junto, &eacute; a imagem leiga de que voc&ecirc; s&oacute; identifica com impress&otilde;es digitais.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o posso&hellip; Isso a&iacute; &eacute; uma pergunta que eu n&atilde;o vou responder para voc&ecirc;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o, tudo bem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Teria que consultar todos os arquivos do IML, pegar um por um. S&atilde;o quantas mortes por ano l&aacute; no IML? Hoje deve ter mais ou menos umas 5 mil mortes por ano. No meu tempo era muito maior.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Ent&atilde;o, deixa eu colocar de outra forma. Quando eu vejo esses casos, esses tr&ecirc;s casos, o Evandro, o Leandro e a Sandra, eu vejo que eles s&atilde;o muito similares&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: S&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas eu sou levado a crer que pode ter sido a mesma pessoa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Pode.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas o doutor est&aacute; me falando que esse tipo de morte em crian&ccedil;as n&atilde;o &eacute; incomum, quando elas s&atilde;o assassinadas. Ent&atilde;o, pode ter sido tr&ecirc;s casos isolados tamb&eacute;m.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Podem ser casos isolados tamb&eacute;m.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Mas eu estou achando que voc&ecirc; est&aacute; no caminho certo. Impress&atilde;o minha. Talvez mais a mo&ccedil;a de Mandirituba do que o Leandro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Por qu&ecirc;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Por causa do escalpe e da aus&ecirc;ncia das m&atilde;os.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas se isso &eacute; uma coisa comum&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Comum quando o indiv&iacute;duo n&atilde;o quer que o corpo seja identificado, e o autor tenha parentesco com a v&iacute;tima; ou ent&atilde;o, como ele cometeu um crime, ele n&atilde;o quer que descubram que &eacute; ele, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Algu&eacute;m pode ter visto ele na rua&hellip; Um cara viu ele com a menina, entendeu? &ldquo;O cara estava andando com a menina aqui, ent&atilde;o &eacute; esse cara&rdquo;, e v&atilde;o atr&aacute;s dele. E a pol&iacute;cia &eacute; muito [inintelig&iacute;vel] em fazer isso, ir atr&aacute;s de detalhe, detalhe que n&atilde;o &eacute; importante. Voc&ecirc; viu a&iacute; no caso do Evandro. Detalhes important&iacute;ssimos. Instrumentos que mataram a crian&ccedil;a, onde est&atilde;o? Quem procurou? Procure no inqu&eacute;rito para voc&ecirc; ver se acha.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o tem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Se voc&ecirc; achar um, eu vou dizer: &ldquo;olha, Ivan, voc&ecirc; &eacute; um investigador terr&iacute;vel&hellip; Te contratar como investigador da pol&iacute;cia&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;, ent&atilde;o pelo&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: E voc&ecirc; viu a import&acirc;ncia disso, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham, sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Quantas vezes voc&ecirc; perguntou para mim: &ldquo;doutor, mas foi faca? Foi bisturi? Foi o qu&ecirc;?&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. &Eacute; porque, se foi bisturi, j&aacute; vejo que &eacute; uma pessoa que tem interesse em ter um bisturi&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Claro&hellip; Que &eacute; uma coisa pouco usual.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Pouco usual, n&eacute;? &Eacute; diferente se for uma faca&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Gillette&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Gillette&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Francisco: Navalha&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham, exato. Ent&atilde;o, mas o fato de ter as roupas e objetos pessoais, isso j&aacute; &eacute; mais&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Francisco: Identifica a pessoa&hellip; E condi&ccedil;&otilde;es pessoais que o matador desconhece. Por exemplo, a minha fratura. Se voc&ecirc; me mata, algu&eacute;m vai dizer: &ldquo;P&ocirc;, uma vez ele caiu no pr&eacute;dio l&aacute; e quebrou a m&atilde;o&rdquo;. A aut&oacute;psia vai ver l&aacute; a minha fratura, o meu osso consolidado, que &eacute; o doutor. N&atilde;o precisa mais nada. N&atilde;o precisa de impress&atilde;o digital, n&atilde;o precisa de nada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>PROPOSITAL OU ERRO?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Eu estou falando de Mandirituba em 89 e Guaratuba em 92. S&atilde;o duas cidades muito pequenas. Se some crian&ccedil;a, as pessoas v&atilde;o ficar sabendo. As crian&ccedil;as aparecem mortas sem as m&atilde;os, escalpeladas e com as roupas do corpo. Se eu sou o assassino, eu acho muito dif&iacute;cil que n&atilde;o v&atilde;o saber quem s&atilde;o essas crian&ccedil;as, quando encontrarem. &Eacute; cidade pequena, as crian&ccedil;as est&atilde;o sumindo, e eu estou deixando elas com as roupas. Eu n&atilde;o estou me esfor&ccedil;ando muito em esconder a identidade delas. Eu n&atilde;o estou jogando numa cidade vizinha, eu n&atilde;o estou jogando no meio do mar, eu n&atilde;o estou queimando as roupas dela&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, &eacute; por causa da caracter&iacute;stica do crime tamb&eacute;m. Tem que levar em conta sempre, Ivan, o seguinte: o indiv&iacute;duo que quer matar, ao matar, ele esquece uma por&ccedil;&atilde;o de circunst&acirc;ncias importantes. Por exemplo, o local em que ele vai matar. Certo? Se eu vou te matar, por exemplo, na minha casa, eu vou me comprometer. Porra, eu vou matar o Ivan na minha casa, todo mundo vai saber que fui eu que matei.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: O local do crime, ele esquece. Depende do crime que ele vai praticar. Por exemplo, no caso da menina l&aacute; de Mandirituba &eacute; estupro de vulner&aacute;vel.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; acha que as roupas podem ter sido esse esquecimento dele, ent&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Ah, n&atilde;o tenha d&uacute;vida.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; acha que ele cometeu um erro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: &Eacute;, porque depende do crime que ele vai praticar, entendeu? Nesse caso a&iacute; foi estupro da menina, l&aacute; foi estupro. Ent&atilde;o, ele estuprou e disse: &ldquo;n&atilde;o, est&aacute; morta a guria, eu vou me livrar do corpo&rdquo;. Mais nada. Esqueceu de roupa, de tudo. Mas antes foi escalpelar para impedir que ela fosse identificada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: S&oacute; que, veja, ela foi encontrada&hellip; Ela foi violada, escalpelada e vestida depois. Ele veste ela depois.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Querendo ainda dissimular a morte, para n&atilde;o saber&hellip; Certamente o burro n&atilde;o sabia que um indiv&iacute;duo, depois de morto&hellip; Tira as roupas para examinar tudo isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o, mas eu digo assim: a roupa que ajudou a identificar ela, se ele quisesse n&atilde;o identificar, j&aacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Ele n&atilde;o lembra disso, Ivan. N&atilde;o lembra disso. O criminoso se esquece de detalhes important&iacute;ssimos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o ele simplesmente abusou dela, ela estava pelada. Abusou dela, matou ela, da&iacute; vestiu ela e jogou l&aacute;, porque ele nem se ligou que pela roupa poderia&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Claro, l&oacute;gico. Roupa&hellip; Algu&eacute;m vai saber de roupa? Entendeu? Ele esquece detalhes que s&atilde;o importantes na identifica&ccedil;&atilde;o do autor. Claro que a cosmogonia do crime, como voc&ecirc; sabe tamb&eacute;m bem, &eacute; muito ampla e &eacute; complexa, n&eacute;? Se fosse t&atilde;o simples assim, todos os crimes seriam esclarecidos, e n&atilde;o s&atilde;o. Sabendo que n&atilde;o s&atilde;o todos&hellip; Voc&ecirc; est&aacute; h&aacute; quantos anos trabalhando nisso a&iacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Quase 10 j&aacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Quase 10, ent&atilde;o voc&ecirc; v&ecirc;&hellip; E at&eacute; hoje&hellip; Certamente voc&ecirc; aprendeu uma por&ccedil;&atilde;o de coisas hoje comigo. Certamente. Por qu&ecirc;? Porque a minha experi&ecirc;ncia nessa &aacute;rea &eacute; muitas vezes maior que a tua, mesmo lendo bastante, entendeu?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Mas n&atilde;o quer dizer que a minha vers&atilde;o das coisas seja a correta tamb&eacute;m.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Claro, claro.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Como &eacute; poss&iacute;vel notar, esse foi o maior problema de Ivan com as interpreta&ccedil;&otilde;es do Dr. Francisco.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan conversou com uma s&eacute;rie de peritos e m&eacute;dicos legistas para verificar se algu&eacute;m j&aacute; tinha lidado com tantos casos de crian&ccedil;as escalpeladas e m&atilde;os retiradas. Ningu&eacute;m nunca viu um crime assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o Dr. Francisco afirma que j&aacute; viu no m&iacute;nimo 50. Ivan acredita que ele cr&ecirc; nisso porque se baseia na sua interpreta&ccedil;&atilde;o do motivo dessas mutila&ccedil;&otilde;es. Para ele, foram feitas com o intuito de impedir a identifica&ccedil;&atilde;o. Mas isso n&atilde;o parece se sustentar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan afirma que fica cada vez mais convencido de que o assassino de Sandra, Leandro e Evandro, se foi realmente a mesma pessoa, queria que as crian&ccedil;as fossem identificadas. Ele sempre deixou as v&iacute;timas com as roupas, e poderia ter colocado os corpos em lugares muito mais afastados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, por algum motivo, o assassino deixou as crian&ccedil;as relativamente pr&oacute;ximas de suas casas, com seus objetos pessoais. Talvez ele sentisse remorso, talvez n&atilde;o quisesse deixar as fam&iacute;lias sem respostas. Talvez quisesse desafiar autoridades. Talvez n&atilde;o pensasse em nada disso, e apenas ficava sempre por aquelas regi&otilde;es. Talvez fosse realmente desatento a detalhes, como o Dr. Francisco afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>O que Ivan sabe &eacute; que esses casos s&atilde;o semelhantes, e muito diferentes da maioria dos crimes contra menores.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O que o doutor, ent&atilde;o&hellip; Leva a crer que esses tr&ecirc;s casos podem&hellip; Se for para chutar, apostar, um caso de apostas&hellip; Esses casos est&atilde;o relacionados ou n&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Seguramente que est&atilde;o, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E por qu&ecirc;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: O Leandro por causa da proximidade da morte do outro. A da menina aqui por causa do escalpe e das m&atilde;os, e do Evandro pelas caracter&iacute;sticas que n&oacute;s vimos, todas&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas o escalpe e tirar as m&atilde;os&hellip; Volto para aquele ponto: n&atilde;o &eacute; uma coisa comum de acontecer?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, n&atilde;o, &eacute; quando ele n&atilde;o quer identificar a v&iacute;tima. Porque a identifica&ccedil;&atilde;o da v&iacute;tima leva &agrave; autoria. Sempre. A identifica&ccedil;&atilde;o da v&iacute;tima leva quase sempre &agrave; autoria.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas a identifica&ccedil;&atilde;o da v&iacute;tima &eacute; r&aacute;pida&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, nem sempre. Nem sempre. N&atilde;o &eacute; assim n&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o, estou falando do que aconteceu aqui com a Sandra. Foi assim&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Foi r&aacute;pida l&aacute; nesse caso, porque era grosseiro, n&eacute;? Por causa das vestes da menina, tudo, o desaparecimento da menina, o trauma social que causou numa cidade desse tamanhinho.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham, sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Entendeu?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: O prop&oacute;sito do indiv&iacute;duo que mata, que faz escalpe e tira as m&atilde;os &eacute; evitar que a v&iacute;tima seja identificada. Sempre, sem exce&ccedil;&atilde;o &agrave; esta regra. Quando isso acontece, &eacute; sinal que o autor n&atilde;o queria&hellip; Descobrir, por exemplo, um parentesco entre eles&hellip; &Eacute; comum isso a&iacute;. &Eacute; o tio que matou&hellip; &Eacute; muito comum, sabe em que caso? Da mulher que se casou com um segundo marido, e o marido n&atilde;o gosta da mulher, est&aacute; se separando da mulher e mata a filha&hellip; A enteada, no caso&hellip; Muito comum. &Eacute; o caso que ele vai escalpelar e vai serrar a m&atilde;o. &ldquo;A&iacute; n&atilde;o v&atilde;o identificar a menina, n&atilde;o v&atilde;o chegar em mim&rdquo;. Porque, para chegar na autoria, &eacute; t&atilde;o dif&iacute;cil como isso que eu falei para voc&ecirc;, dos detalhes do crime. Um detalhe, por exemplo, do Evandro. Seria importante para mim, importante, descobrir os instrumentos que participaram da morte. Voc&ecirc; vai ver&hellip; &ldquo;P&ocirc;, doutor, estudei esse processo, esse inqu&eacute;rito de ponta-cabe&ccedil;a, de cima para baixo, com fotos, com tudo; e nenhum policial foi ver se tinha faca, tinha n&atilde;o sei o qu&ecirc;&hellip;&rdquo;. Foram para a serraria l&aacute; ver o qu&ecirc;? As serras que o cara usou l&aacute;. Que serra daquelas o cara pegou para serrar a crian&ccedil;a? Qual &eacute; a serra? Serra de serraria, porra&hellip; N&atilde;o &eacute; serra&hellip; Isso a&iacute; deve ser serra fita, entendeu?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aquela pequenininha?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: &Eacute;. Pequenininha, &eacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham, sim. O senhor j&aacute; teve que serrar costela desse jeito?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Nunca. De crian&ccedil;a, nunca.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas e em adulto? Teve que fazer&hellip; A serra aguenta, o fio, at&eacute; terminar todas as costelas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Aguenta, aguenta. Porque a gente usa aquela serra comprida, sabe?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham, sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Essa serra que a gente usa em adulto para serrar os arcos costais. Mas &agrave;s vezes n&atilde;o precisa, porque &agrave;s vezes &eacute; um adolescente que tem ainda cartilagem grande, sabe? Ent&atilde;o, voc&ecirc; corta com bisturi. N&atilde;o precisa serrar. Geralmente n&atilde;o precisa. Por isso que eu digo que n&atilde;o era um indiv&iacute;duo habituado a fazer isso a&iacute;. N&atilde;o &eacute; ningu&eacute;m da &aacute;rea de sa&uacute;de, por exemplo. Pode excluir.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em agosto de 1992, o Dr. Francisco assinou um of&iacute;cio pelo IML dizendo acreditar que o caso Sandra n&atilde;o teria nenhuma rela&ccedil;&atilde;o com o de Evandro pelo fato da menina ter sido violentada sexualmente. Tamb&eacute;m naquela &eacute;poca, ele disse que as confiss&otilde;es dos acusados estariam de acordo com o estado do corpo. Anos depois, o m&eacute;dico revisou tudo, revelando que foi induzido ao erro pelas torturas.<\/p>\n\n\n\n<p>E, agora, ele diz que esses casos poderiam sim estar relacionados. Ao mesmo tempo, tamb&eacute;m &eacute; firme na convic&ccedil;&atilde;o de que tais tipos de mutila&ccedil;&otilde;es teriam como objetivo a oculta&ccedil;&atilde;o da identidade da v&iacute;tima &ndash; o que, segundo Ivan, n&atilde;o parece fazer sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de todo o seu conhecimento, os relatos do Dr. Francisco tamb&eacute;m foram influenciados pela contamina&ccedil;&atilde;o sofrida pelo caso Evandro &ndash; tanto na quest&atilde;o da hist&oacute;ria de &ldquo;Magia Negra&rdquo; quanto na discuss&atilde;o sobre o corpo n&atilde;o ser do menino.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, al&eacute;m disso, h&aacute; tamb&eacute;m um problema: o que Ivan pode verificar &eacute; que as conclus&otilde;es do Dr. Francisco n&atilde;o s&atilde;o exatamente ponto pac&iacute;fico entre outros peritos. E um exemplo disso &eacute; uma das les&otilde;es de Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O Lipinski que fez as fotos aqui do local, t&aacute;? Isso aqui &eacute; foto do local, e ele dizia que achava interessante essa les&atilde;o que tinha nas costas dele. Aqui seria a costela esquerda do Evandro. Ele at&eacute; colocou com uma marca&ccedil;&atilde;o, com uma seta, indicando como parecia um punhal, alguma coisa assim. N&atilde;o tinha&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, n&atilde;o. Nada disso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O senhor lembra disso? Dessa&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Lembro. Lembro sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Essa les&atilde;o pode ter sido de animal?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: De animal carn&iacute;voro e carniceiro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. Bicudo. Uma bicada assim&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Uma bicada, isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Uma bicada. Que animal poderia fazer uma les&atilde;o dessa?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Um urubu, corvo&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Um urubu mesmo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Urubu, que &eacute; preto e tem um bico grande, ele bica porque quer tirar partes moles, ele n&atilde;o tira partes duras.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para o Dr. Lipinski, essa les&atilde;o teria sido a que provocou a morte de Evandro. J&aacute; para o Dr. Francisco, o menino foi morto por asfixia mec&acirc;nica. E ele baseava isso em dois elementos: o fen&ocirc;meno dos dentes rosados e a &aacute;rea de maior putrefa&ccedil;&atilde;o em torno do pesco&ccedil;o. Ivan chegou a discutir isso com o Dr. Lipinski, perito que foi ao local da achada do corpo de Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Assim, tinha partes da pele onde estava muito acelerada a putrefa&ccedil;&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Mas a les&atilde;o no pesco&ccedil;o, voc&ecirc; pode ver ela externamente. Mas &eacute; mais importante ver ela internamente. O legista teria total condi&ccedil;&atilde;o de ver aqui as marcas que iam ficar, porque veja junto comigo aqui&hellip; Ele est&aacute; vivo. Ele &eacute; esganado. Eu vou ter&hellip; &Agrave;s vezes a gente d&aacute; uma batidinha na pele aqui, alguma coisa, e j&aacute; fica roxo. Se voc&ecirc; vai imprimir uma for&ccedil;a bem maior para tentar matar uma pessoa, a for&ccedil;a que voc&ecirc; vai aplicar ali &eacute; muito maior. Voc&ecirc; veja, uma coisa de nada aqui j&aacute; ficou roxo, j&aacute; fez todo esse espectro equim&oacute;tico. Voc&ecirc; acha que aqui, internamente, n&atilde;o teria a constri&ccedil;&atilde;o, o rompimento de vaso, tudo isso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim. Isso, inclusive&hellip; Al&eacute;m do doutor Francisco, refor&ccedil;a a quest&atilde;o do esganamento a doutora Beatriz Sotille Fran&ccedil;a, por conta dos dentes rosados. Os vasos romperam, ent&atilde;o da&iacute; teria uma constri&ccedil;&atilde;o que rompe os vasos, e da&iacute; depois&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Pode. Como voc&ecirc; falou, pode ter sido das duas formas. O cara foi l&aacute;, esganou, ficou na d&uacute;vida, foi l&aacute; e deu uma facada. Talvez ele n&atilde;o tenha morrido na hora. N&atilde;o chegou a esganar mesmo. O hioide ia ser o suficiente para voc&ecirc; determinar isso&hellip; Teria condi&ccedil;&atilde;o de voc&ecirc; atestar porque na esganadura&hellip; Imagine um adulto esganando uma crian&ccedil;a. Com certeza eu ia ter fratura de hioide. N&atilde;o tem como n&atilde;o acontecer isso. &Eacute; muita for&ccedil;a que foi aplicada ali.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O hioide &eacute; um osso que fica bem na garganta, abaixo da mand&iacute;bula. E, de fato, no laudo de necropsia de Evandro n&atilde;o h&aacute; qualquer men&ccedil;&atilde;o a uma fratura nessa &aacute;rea. Por isso, Ivan perguntou ao Dr. Francisco sobre essa observa&ccedil;&atilde;o do Dr. Lipinski.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o devia ter tamb&eacute;m alguma les&atilde;o na traqueia, se fosse esse o caso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o. N&atilde;o necessariamente, viu. Porque a esganadura n&atilde;o mexe muito com a traqueia. Porque a traqueia &eacute; flex&iacute;vel. Quando voc&ecirc; aperta, ela se contrai e, depois que voc&ecirc; solta, ela volta ao normal. Ela &eacute; el&aacute;stica.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. Mas uma fratura no hioide, por exemplo, n&atilde;o teria que ter?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o necessariamente tamb&eacute;m. Porque depende do n&iacute;vel que voc&ecirc; faz a esganadura. Se voc&ecirc; fizer bem baixa, baixa, voc&ecirc; n&atilde;o pega o hioide, porque o hioide est&aacute; na base da l&iacute;ngua. Aqui &eacute; dif&iacute;cil o acesso, inclusive. Para encontrar o hioide, voc&ecirc; tira toda a l&iacute;ngua, voc&ecirc; tem que abrir o cad&aacute;ver e tirar, fazer uma incis&atilde;o mento-pubiana, n&eacute;? Buscar a l&iacute;ngua e puxar a l&iacute;ngua junto, para poder ver o hioide na base da l&iacute;ngua. Ent&atilde;o, ele &eacute; muito protegido, o hioide. O hioide &eacute; um osso &oacute;sseo cartilag&iacute;neo&hellip; Ou &oacute;sseo cartilaginoso sesam&oacute;ide. O que &eacute; um osso sesam&oacute;ide? &Eacute; um osso que n&atilde;o se articula com nada. Ent&atilde;o, como sesam&oacute;ide &oacute;sseo cartilaginoso, ele &eacute; muito fr&aacute;gil.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ivan queria entender as diferen&ccedil;as e similaridades das t&eacute;cnicas de escalpo que ocorreram entre Sandra e Evandro. Afinal, se foi a mesma pessoa, ser&aacute; que ela foi mais agressiva com Sandra, arrancando todo o rosto, talvez porque estava praticando? E, no Evandro, estava mais habilidosa e decidiu retirar apenas o couro cabeludo? Ou ser&aacute; que &eacute; o contr&aacute;rio? Ou ser&aacute; que uma coisa n&atilde;o tem nada a ver com a outra?<\/p>\n\n\n\n<p>No laudo de necropsia de Evandro, n&atilde;o h&aacute; detalhes sobre a les&atilde;o no cr&acirc;nio. Consta apenas que ele se encontrava com &ldquo;aus&ecirc;ncia de couro cabeludo&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: O escalpelo que a gente chama, o escalpe, o escalpelo, &eacute; a retirada de toda a pele da face.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E o couro cabeludo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: E o couro cabeludo, claro. Da face e do couro cabeludo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Como &eacute; feito?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Ent&atilde;o, &eacute; feito de que maneira? Se faz uma incis&atilde;o do mento at&eacute; o outro mento, bimastoideana, da mastoide a mastoide.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Uma incis&atilde;o bimastoideana &eacute; feita na mesma regi&atilde;o da cabe&ccedil;a onde se usa um arco para prender o cabelo, por exemplo, indo do topo de uma orelha para o topo da outra.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Se faz uma incis&atilde;o e puxa a pele para tr&aacute;s com o couro cabeludo junto, e a pele para frente. A&iacute; vai descolando toda a face.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: S&oacute; que a gente n&atilde;o consegue ver esses cortes&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, n&atilde;o, n&atilde;o. Voc&ecirc; v&ecirc; depois, quando ele puxa para c&aacute;, voc&ecirc; v&ecirc; que houve a incis&atilde;o aqui.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Houve uma incis&atilde;o onde, que a gente consegue verificar?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Aqui. Bimastoideana. Aqui no meio da cabe&ccedil;a.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Isso est&aacute; marcado no laudo? O doutor lembra?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Eu n&atilde;o sei. N&atilde;o sei. Porque&hellip; Mas n&atilde;o precisa necessariamente estar. Porque &eacute; rotina do IML. Quando voc&ecirc; vai fazer a abertura da cavidade craniana, voc&ecirc; faz a incis&atilde;o bimastoideana. Mas n&atilde;o puxa a pele toda, n&atilde;o &eacute; preciso, puxa s&oacute; at&eacute; aqui, para voc&ecirc; poder ver a calota craniana.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: At&eacute; a testa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Isso. At&eacute; a testa. Voc&ecirc; v&ecirc; a calota craniana.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Entendi.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Ent&atilde;o, no laudo, pode n&atilde;o estar. Pode n&atilde;o estar aqui, a incis&atilde;o aqui de escalpelo, nada disso. Porque foi com o prop&oacute;sito de abrir a cabe&ccedil;a, certamente, que ele fez a bimastoideana e puxou para frente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O assassino, no caso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Exatamente. Ou quem matou o menino, n&eacute;? Vamos chamar assim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O Dr. Francisco fala que o cr&acirc;nio de Evandro teria marcas de uma incis&atilde;o bimastoideana, mas n&atilde;o h&aacute; nada desse tipo mencionado no laudo. Quando questionado sobre isso, ele disse que n&atilde;o precisava necessariamente ter.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan n&atilde;o sabe dizer se o Dr. Francisco realmente lembra desses detalhes, se ele est&aacute; confundindo com outros casos, se n&atilde;o incluiu isso no laudo porque achou desnecess&aacute;rio ou porque realmente n&atilde;o existia.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Porque olhando a foto&hellip; Eu posso at&eacute; aqui mostrar para a gente dar uma olhadinha. Eu tenho dificuldade em ver onde que assim&hellip; Porque arranca a pele&hellip; E onde que tem pele, ent&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Pode ser que ele arrancou, depois fez a incis&atilde;o e tirou a pele.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Daqui do queixo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Aqui embaixo da&hellip; Do queixo. Isso. Da regi&atilde;o mentoniana, mentoniana aqui.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Olhando a foto, o doutor consegue verificar isso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Consigo perfeitamente. Posso at&eacute; mostrar para voc&ecirc; na foto. Mas n&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio, Ivan, que conste no laudo isso, sabe? [&hellip;] A incis&atilde;o &eacute; bem t&iacute;pica. T&aacute; vendo? Vai aqui, vai para c&aacute;, est&aacute; vendo? Isso &eacute; a ferida incisa, que foi feita por instrumento cortante. Porque tem bordas n&iacute;tidas, est&aacute; vendo? Ent&atilde;o, a gente pode saber que foi cortado antes isso a&iacute;. N&atilde;o foi traum&aacute;tico. Foi um traumatismo produzido por um instrumento que cortou, que seccionou. Talvez um bisturi.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Talvez um bisturi, t&aacute;. N&atilde;o teria&hellip; Eu at&eacute; perguntei isso para voc&ecirc; em outra ocasi&atilde;o. N&atilde;o teria outro instrumento t&atilde;o cortante e t&atilde;o preciso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Como o bisturi, n&atilde;o. Isso a&iacute; &eacute; les&atilde;o por bisturi.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Ent&atilde;o corta aqui em cima&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Ou navalha, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ou navalha.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Um instrumento que tenha corte, que tenha gume.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: E o gume pode ser ou unilateral ou bi, dependendo da&hellip; O punhal, por exemplo, tem dois gumes, n&eacute;? Tem um aqui e outro l&aacute;. Mas um instrumento que tinha gume. Isso eu posso dizer com certeza.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Quando eu penso no caso da Sandra, aquela outra menina&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: Daqui de Mandirituba.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: De Mandirituba, exato. Quando a gente olha o rosto dela, eu imagino que, se eu tivesse que fazer um procedimento desse tipo, eu ia acabar chegando nisso aqui, sabe? Ia ser muito mais grosseiro isso aqui. Isso aqui parece ser muito mais violento, que n&atilde;o tem mais nenhuma pele, n&atilde;o tem carne&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Francisco: N&atilde;o, n&atilde;o, n&atilde;o. O resultado &eacute; o mesmo, para mim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, de acordo com o Dr. Francisco, o procedimento para chegar no estado do corpo de Sandra era o mesmo para o de Evandro. S&oacute; que n&atilde;o h&aacute; maiores detalhes sobre isso no laudo de necropsia do menino.<\/p>\n\n\n\n<p>A conversa com o Dr. Francisco se mostrou extremamente importante, pois foi a primeira vez que Ivan p&ocirc;de tirar d&uacute;vidas mais detalhadas de coisas que nem sempre apareceram nos autos do caso Evandro. S&oacute; que s&atilde;o 30 anos de caso, com diversas idas, vindas, interpreta&ccedil;&otilde;es e reinterpreta&ccedil;&otilde;es. E tudo isso em um caso muito mais complexo do que aparentava ser.<\/p>\n\n\n\n<p>O laudo de necropsia de Evandro foi assinado por ele e por outro m&eacute;dico legista, o Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/carlos-roberto-ballin\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico legista respons&aacute;vel pela necropsia do corpo de Evandro\" class=\"encyclopedia\">Carlos Roberto Ballin<\/a>. Ivan tentou uma entrevista com ele, pois queria comparar o que cada um teria para dizer. Por&eacute;m, o Dr. Ballin recusou o convite.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, frente &agrave; necessidade de se ter uma nova vis&atilde;o sobre tudo, Ivan entrou em contato com um m&eacute;dico legista independente, que pudesse olhar os laudos dos tr&ecirc;s casos e fazer esse exerc&iacute;cio de compara&ccedil;&atilde;o de forma mais livre, sem as contamina&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas que eles possuem.<\/p>\n\n\n\n<p>E, al&eacute;m desse novo m&eacute;dico legista, Ivan pediu aux&iacute;lio para um psic&oacute;logo forense, para que tamb&eacute;m olhasse os tr&ecirc;s casos e fizesse um parecer. Para esses dois profissionais, ele pediu essencialmente uma coisa: que analisassem os tr&ecirc;s crimes e respondessem se eles poderiam ter sido cometidos pela mesma pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse esfor&ccedil;o, Ivan acabou ganhando potenciais novas pistas. 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