{"id":383,"date":"2023-11-28T00:05:00","date_gmt":"2023-11-28T03:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/?post_type=encyclopedia&#038;p=383"},"modified":"2023-12-01T07:13:04","modified_gmt":"2023-12-01T10:13:04","slug":"extras-episodio-05","status":"publish","type":"encyclopedia","link":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/extras-episodio-05\/","title":{"rendered":"Extras Epis\u00f3dio 05"},"content":{"rendered":"\n<p>Ap&oacute;s a descoberta do caso Sandra, a principal d&uacute;vida de Ivan Mizanzuk era: seria poss&iacute;vel que o caso Sandrinha estivesse relacionado com os de Evandro e Leandro?<\/p>\n\n\n\n<p>Os dos meninos s&atilde;o f&aacute;ceis de conectar. Apesar de ser dif&iacute;cil extrair informa&ccedil;&otilde;es da ossada de Leandro, devido &agrave; demora para ser descoberta, ambos os garotos eram parecidos, de uma mesma cidade, que sumiram em um per&iacute;odo curto de tempo e foram encontrados no mesmo matagal.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas e Sandra? O corpo da menina n&atilde;o tinha as m&atilde;os e estava sem a m&aacute;scara facial, fatores similares ao caso Evandro. Ela tinha 11 anos, mas era bem pequena e aparentava ter apenas oito. Era loira e estava com o cabelo raspado, o que a deixava parecida com um menininho.<\/p>\n\n\n\n<p>&Agrave; primeira vista, &eacute; dif&iacute;cil ignorar as semelhan&ccedil;as entre os casos. S&oacute; que Sandra foi assassinada tr&ecirc;s anos antes que os garotos de Guaratuba, em outra cidade: Fazenda Rio Grande, na regi&atilde;o metropolitana de Curitiba. E ela era uma menina, que foi abusada sexualmente. Isso talvez torna o caso diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, assim como nos crimes de Guaratuba, Sandra foi encontrada em um matagal, perto de casa, com suas roupas. Nesse ponto, parece que h&aacute; mais semelhan&ccedil;as do que diferen&ccedil;as.<\/p>\n\n\n\n<p>S&oacute; que existem v&aacute;rias formas de uma pessoa morrer. H&aacute; v&aacute;rias situa&ccedil;&otilde;es que, para olhos leigos, podem ser muito parecidas, mas que se diferem em detalhes importantes. Por causa dessas d&uacute;vidas, Ivan sentiu a necessidade de conversar com especialistas. Ele come&ccedil;ou essa parte da investiga&ccedil;&atilde;o falando com pessoas que trabalharam na elucida&ccedil;&atilde;o da morte de Evandro, j&aacute; que &eacute; o caso que possui documentos mais detalhados acerca do corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>A esperan&ccedil;a de Ivan &eacute; de que, se descobrir mais coisas sobre a forma como Evandro foi morto e como o corpo foi colocado naquele local, possa obter mais informa&ccedil;&otilde;es sobre o modus operandi do assassino dessas crian&ccedil;as. Dessa forma, poderia melhor supor fatores sobre o caso Leandro e tentar estabelecer compara&ccedil;&otilde;es com a morte de Sandra.<\/p>\n\n\n\n<p>Partindo do princ&iacute;pio de que o assassino de Evandro &eacute; o mesmo de Leandro, ser&aacute; que &eacute; poss&iacute;vel encontrar semelhan&ccedil;as entre Evandro e Sandra, e assim estabelecer uma conex&atilde;o entre os tr&ecirc;s?<\/p>\n\n\n\n<p>Como n&atilde;o h&aacute; muitas informa&ccedil;&otilde;es sobre Leandro, Ivan decidiu olhar para o caso Evandro do zero. E, nesse esfor&ccedil;o, conversou com o perito de local que viu o corpo do menino no dia em que ele foi encontrado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Laudo-de-Exame-de-Levantamento-de-Local-de-Achado-de-Cadaver.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Laudo de local do corpo de Evandro<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Antonio Carlos Lipinksi, de 62 anos, &eacute; perito criminal aposentado e atualmente atua como advogado. Ivan j&aacute; apresentou o doutor Lipinski no epis&oacute;dio 5 do Prel&uacute;dio, que antecedeu essa temporada, e contou em detalhes sobre como ele foi chamado para ir para Guaratuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Recapitulando, Lipinski havia entrado no plant&atilde;o em um s&aacute;bado de manh&atilde;, 11 de abril de 1992. Na &eacute;poca, toda ocorr&ecirc;ncia no litoral do Paran&aacute; exigia que um perito do Instituto de Criminal&iacute;stica de Curitiba fosse chamado para se deslocar at&eacute; l&aacute;.<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente, Lipinski seguiu para Paranagu&aacute; atender uma fuga de presos. Depois, foi chamado para Morretes, cidade pr&oacute;xima, para verificar um furto em uma maternidade. Por fim, foi informado que um corpo havia sido encontrado em Guaratuba, e se deslocou para l&aacute; em seguida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/10\/1993-03-04-Livro-registro-deslocamento-Viaturas-1.jpeg\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Registro de deslocamento de viaturas &ndash; 04 de mar&ccedil;o de 1993<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/10\/1992-04-06-Livro-registro-deslocamento-Viaturas-min-2-scaled.jpg\" target=\"_blank\"><strong>Registro de deslocamento de viaturas &ndash; 11 de abril de 1992<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O doutor Lipinski nunca deu entrevista sobre o caso. Mas foi ele o respons&aacute;vel por ir at&eacute; o local do corpo. Naquela &eacute;poca, geralmente duas pessoas assinavam o laudo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo perito que assinou o documento foi <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/arthur-conrado-drischel\/\" target=\"_self\" title=\"Perito que auxiliou Lipinski na produ&ccedil;&atilde;o do laudo de exame de local do caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Arthur Conrado Drischel<\/a>, que j&aacute; &eacute; falecido. Ele nunca viu o corpo de Evandro no local, apenas quando j&aacute; estava no IML de Curitiba, no dia seguinte ao achado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, o doutor Drischel acabou sendo uma importante testemunha da defesa dos acusados de Guaratuba, pois ele colocava d&uacute;vidas sobre o corpo de Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan j&aacute; adianta que, apesar de todos os problemas na cadeia de cust&oacute;dia, o exame de DNA feito em 1992 confirmou a identidade do corpo. Relembrar isso &eacute; importante porque Drischel, o perito que nunca foi ao local, deu muitas entrevistas. Falou com advogados de defesa, deu depoimentos no j&uacute;ri. Ou seja, ele tamb&eacute;m acabou contaminado com todo o sensacionalismo em torno do caso Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Laudos-DNA.pdf\" target=\"_blank\">Exame de DNA realizado em 1992&nbsp;&ndash; caso Evandro<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/drive.google.com\/open?id=1D_IxQUDQz8yK-E7pNOqJEsbPNwvOJEp_&amp;usp=drive_fs\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Entrevista de Drischel ao jornal Hora H (1996)<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Diferente do doutor Lipinski, que nunca deu nenhuma entrevista &ndash; justamente para n&atilde;o se deixar levar por nenhum lado, nem acusa&ccedil;&atilde;o, nem defesa. Esse envolvimento de Drischel incomodava Lipinski j&aacute; naquela &eacute;poca. <\/p>\n\n\n\n<p>Confira abaixo um trecho da conversa de Lipinski com Ivan para o podcast:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: E a&iacute; que eu divergia do Arthur. Porque o Arthur fazia umas reuni&otilde;es l&aacute; com uma advogada. Eu n&atilde;o lembro o nome&hellip; Como &eacute; que &eacute;? Isabel&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ah, a Isabel&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Essa da&iacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Isabel Kluger&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A doutora Isabel Kugler Mendes foi uma advogada que, desde a &eacute;poca das pris&otilde;es dos acusados em Guaratuba, sempre lutou para comprovar que eles eram inocentes e tinham sido torturados.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Isso, isso. A&iacute; era com ela&hellip; E &agrave;s vezes ela vinha com mais algu&eacute;m, e da&iacute; ficavam conversando l&aacute; na se&ccedil;&atilde;o, e eu j&aacute;&hellip; N&atilde;o vou participar&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Isso depois das pris&otilde;es j&aacute;, n&eacute;? Isso j&aacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Eu lembro que isso durou, assim, alguns meses. Eles se reuniam, conversavam e tal. A quest&atilde;o &eacute;&hellip; Veja s&oacute;&hellip; Eu n&atilde;o posso me envolver nem com a defesa, nem com a acusa&ccedil;&atilde;o. Porque o trabalho t&eacute;cnico foi feito. Eu posso esclarecer alguma coisa para eles. Agora, n&atilde;o tem l&oacute;gica eu ficar toda hora conversando&hellip; &ldquo;Ah, pode ser isso, pode ser aquilo, n&atilde;o sei o qu&ecirc;&rdquo;. Por qu&ecirc;? Porque voc&ecirc; n&atilde;o pode&hellip; Nesse momento &eacute; o Estado se manifestando sobre uma prova que ele produziu. Ent&atilde;o, o que eu digo? N&atilde;o, eu vou ser isento. Se voc&ecirc;s quiserem saber alguma coisa, voc&ecirc;s requerem l&aacute;, o delegado vai me mandar, e eu vou responder. Ent&atilde;o, quanto a isso, n&atilde;o tem problema. Eu respondo com a maior&hellip; Mas de uma forma que eu vou responder para defesa e pra acusa&ccedil;&atilde;o. Volta para o inqu&eacute;rito. Voc&ecirc;s t&ecirc;m que&hellip; A coisa tem que estar em sintonia. A partir do momento que eu come&ccedil;o a responder para um e ocultar de outro&hellip; N&atilde;o &eacute; fun&ccedil;&atilde;o minha fazer isso&hellip; Eu posso estar prejudicando a acusa&ccedil;&atilde;o ou a defesa. E a fun&ccedil;&atilde;o da prova &eacute; esclarecer e n&atilde;o prejudicar nem um e nem outro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Deixa eu te fazer essa pergunta, ent&atilde;o, que eu acho que tem a ver com o que o doutor est&aacute; falando. Quando o doutor e o Drischel conversavam sobre o corpo, em algum momento na discuss&atilde;o para a reda&ccedil;&atilde;o do laudo&hellip; Sei l&aacute;, dessas semanas que voc&ecirc;s ficaram discutindo aqui&hellip; Em algum momento ele falou coisa do tipo: &ldquo;eu acho que aquele cad&aacute;ver estava congelado&rdquo;? &ldquo;Eu acho que esse n&atilde;o pode ser do menor Evandro&rdquo;? Ele levantou d&uacute;vidas sobre isso? Isso &eacute; uma curiosidade&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o, n&atilde;o, n&atilde;o. Nunca. Pelo seguinte&hellip; Porque a gente fez, procurou fazer o laudo assim&hellip; De uma forma assim&hellip; Dentro do prazo de 10 dias. Ent&atilde;o, a gente conversou nesse per&iacute;odo sobre&hellip; Mas em momento algum houve pergunta do tipo &ldquo;estava congelado, n&atilde;o estava congelado&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Porque ele falava em j&uacute;ri. O doutor Drischel falou assim: &ldquo;ah, eu notei manchas no corpo que davam a entender que ele poderia ter sido um corpo congelado&rdquo;. Isso nunca&hellip; Nunca levantou?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o, n&atilde;o, n&atilde;o&hellip; Nunca&hellip; N&atilde;o foi objeto de discuss&atilde;o nossa tamb&eacute;m, n&atilde;o. Veja, esse &eacute; o problema, talvez algu&eacute;m perguntou isso para ele. &ldquo;Olha, isso n&atilde;o pode ser uma mancha disso ou daquilo?&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E da&iacute; ele come&ccedil;ou a&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Ent&atilde;o, esse &eacute; o problema de voc&ecirc; se envolver e come&ccedil;ar de repente&hellip; Bom, tudo bem, pode ser&hellip; N&atilde;o, espera s&oacute;&hellip; A quest&atilde;o tem que voltar para o foco. O perito n&atilde;o &eacute; legista. Ele vai descrever as les&otilde;es externas, entendeu? Colora&ccedil;&atilde;o da pele, voc&ecirc; at&eacute; pode descrever. &ldquo;Olha, teve&hellip;&rdquo;. Pode. &ldquo;Achei l&aacute; uma mancha&rdquo;. S&oacute; que tem um detalhe: esse corpo ficou no meio ambiente. Ent&atilde;o, essa mancha podia ser at&eacute; sujeira. Porque quando chega l&aacute; no IML, eles lavam o corpo&hellip; Salvo casos onde voc&ecirc; depende de exame de dist&acirc;ncia de tiro, que da&iacute; voc&ecirc; precisa verificar aquela impregna&ccedil;&atilde;o de p&oacute;lvora na pele, aquela coisa toda. Voc&ecirc; n&atilde;o lava. Mas num caso desse, o corpo ia ser lavado. At&eacute; por conta das ader&ecirc;ncias que tinha&hellip; Aquilo grudou&hellip; Veja&hellip; Garoou, choveu no dia anterior&hellip; No dia que houve o encontro, eu devo ter atendido ele ali por volta de duas horas da tarde. Estava quente. Mas, veja, era outono. &Eacute; que nem o&hellip; Vamos supor, vamos pegar ontem: amanheceu o dia, acho que estava 14 graus. Na hora do almo&ccedil;o estava 28, gente. Entende?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; v&ecirc; aqui, &oacute;&hellip; A gente tem o laudo t&eacute;cnico das precipita&ccedil;&otilde;es em Guaratuba naquele per&iacute;odo. Ele some no dia 6 e &eacute; encontrado no dia 11. Ent&atilde;o, voc&ecirc; sabe que na ter&ccedil;a e quarta, dias 7 e 8, choveu, e dia 8 choveu bastante, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/1997-10-09-Precipitac%CC%A7o%CC%83es-em-Guaratuba-Abril-1992.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Laudo de precipita&ccedil;&otilde;es em Guaratuba em 1992<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Ent&atilde;o, veja, do dia 8&hellip; O corpo foi encontrado tr&ecirc;s dias depois. Ent&atilde;o, vamos supor o seguinte: que n&atilde;o choveu nada, a pessoa que falou&hellip; &ldquo;Choveu, mas n&atilde;o choveu muito&rdquo;. T&aacute;, tudo bem. N&atilde;o foi ontem, foi anteontem. Beleza. Ent&atilde;o, aquela quantidade de &aacute;gua que estava contingenciada dentro do abd&ocirc;men do menino evaporou tamb&eacute;m. Ent&atilde;o deveria ser um volume maior e aquilo era um volume menor. Ent&atilde;o, se aquilo ali aconteceu tr&ecirc;s dias antes, &eacute; mais ou menos o tempo de o corpo estar ali no local.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E a pr&oacute;pria&hellip; Como &eacute; regi&atilde;o de mato ali, com muita umidade tamb&eacute;m, se passou a noite ali, por exemplo, forma um pouco de &aacute;gua. Ou n&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Essa &eacute;poca faz&hellip; Dependendo da temperatura m&iacute;nima, chega a formar aquele orvalhozinho que fica na coisa&hellip; Porque, voc&ecirc; veja, hoje &eacute; dia 5 [de abril de 2023]&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Hoje &eacute; dia 5. Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Daqui a sete dias, vai ser dia&hellip; Daqui a seis dias, dia 11. Ent&atilde;o, voc&ecirc; veja quanto tempo passou de l&aacute; para c&aacute;, 31 anos. E o clima n&atilde;o muda porque &eacute; ver&atilde;o, outono, inverno, primavera. Ent&atilde;o, isso a gente tem&hellip; Voc&ecirc; pode tirar um par&acirc;metro do que est&aacute; acontecendo aqui agora. Por ser um local de uma vegeta&ccedil;&atilde;o mais fechada, a tend&ecirc;ncia &eacute; que ali, apesar de ter umidade, o calor n&atilde;o seja t&atilde;o intenso. Ent&atilde;o, a evapora&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; t&atilde;o grande. Refor&ccedil;a aquela quest&atilde;o de ter aquela &aacute;gua ali.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Tinha &aacute;gua dentro, ent&atilde;o, quando voc&ecirc;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Um pouco.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, Lipinski se refere ao fato de que o corpo de Evandro estava completamente aberto e oco no peito, j&aacute; que todos os &oacute;rg&atilde;os foram retirados. Aparentemente, havia um pouco de l&iacute;quido l&aacute; dentro. Podia ser da chuva de alguns dias anteriores, mas podia ser tamb&eacute;m da umidade do local. Essa discuss&atilde;o &eacute; importante para se tentar entender quanto tempo o corpo ficou l&aacute; at&eacute; ser encontrado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>OS LIMITES DA &Eacute;POCA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 1992, as fotos eram todas anal&oacute;gicas, o que significa que o doutor Lipinski usava uma m&aacute;quina fotogr&aacute;fica com filme. Ele j&aacute; havia feito duas per&iacute;cias anteriores, em Paranagu&aacute; e Morretes, e o Instituto de Criminal&iacute;stica n&atilde;o tinha muitos rolos para fornecer para os peritos. Ou seja, naquela altura do dia, ele j&aacute; estava sem filme fotogr&aacute;fico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele, ent&atilde;o, acabou pegando o rolo de filme de um fot&oacute;grafo da prefeitura e com isso produziu uma s&eacute;rie de fotos &ndash; algo incomum para a &eacute;poca. Nos arquivos do processo do caso Evandro, h&aacute; uma s&eacute;rie de imagens, e esse n&atilde;o era o procedimento padr&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Talvez, ent&atilde;o, por isso n&atilde;o tenha chegado para a Leila [Bertolini, a delegada do Grupo Tigre]. Mas eu lembro que at&eacute; eu dei c&oacute;pia daquelas fotos que voc&ecirc; diz l&aacute;&hellip; Eram fotos da continuidade do filme. Porque quando voc&ecirc; faz&hellip; Eu fa&ccedil;o assim: eu tiro l&aacute;&hellip; Eu tirava bastante foto. At&eacute; comentei com ela l&aacute;&hellip; Me encheram o saco porque eu batia muita foto. Mas n&atilde;o tem como voc&ecirc; ver tudo. Depois voc&ecirc; p&otilde;e tudo em cima da mesa e a&iacute; voc&ecirc; come&ccedil;a&hellip; Para n&atilde;o esquecer nada e tal, ent&atilde;o voc&ecirc; tem condi&ccedil;&atilde;o de rever tudo aquilo. A&iacute; voc&ecirc; faz o teu laudo. Agora, tem coisa assim que&hellip; Sabe? Porque quando voc&ecirc; faz o laudo, voc&ecirc; n&atilde;o tem a menor no&ccedil;&atilde;o do que est&aacute; sendo a investiga&ccedil;&atilde;o, como ela vai se desenvolver. Ent&atilde;o, eu coloco o que eu acho que &eacute; necess&aacute;rio. Normalmente, naqueles casos, naquela &eacute;poca, no Instituto, a regra era trabalhar com quatro fotos. Uma do local, digamos, uma da casa e duas do corpo. Era mais ou menos isso. Eu ali extrapolei o neg&oacute;cio e fiz o m&aacute;ximo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Essa fala do doutor Lipinski &eacute; importante porque d&aacute; uma perspectiva dos limites da &eacute;poca. Hoje em dia, com c&acirc;meras digitais, s&atilde;o tiradas centenas de fotos de um local de crime. Mas, na &eacute;poca, Lipinski teve a sorte de conseguir um rolo de um fot&oacute;grafo de Guaratuba s&oacute; para usar naquele caso. Para se colocar em perspectiva, no laudo de local do caso da Sandrinha h&aacute; apenas tr&ecirc;s fotos do local.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap&oacute;s o corpo de Evandro ser analisado no IML de Curitiba, os legistas se reuniram com os peritos e o delegado geral para discutir a natureza de algumas daquelas les&otilde;es. O principal m&eacute;dico legista que trabalhou no laudo foi o doutor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/francisco-moraes-e-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Chefe do IML de Curitiba na d&eacute;cada de 1990\" class=\"encyclopedia\">Francisco Moraes e Silva<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Laudo-Necropsia.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Laudo de necropsia &ndash; caso Evandro<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: S&oacute; que, voc&ecirc; veja, na primeira reuni&atilde;o que a gente fez com o delegado geral, eu levei um pacot&atilde;o de fotos. A&iacute; voc&ecirc; come&ccedil;a a ouvir um monte de coisa, tal. &ldquo;O que voc&ecirc; me diz disso?&rdquo;. Eu me lembro que o doutor Francisco estava numa das reuni&otilde;es, falando do bra&ccedil;o&hellip; &ldquo;N&atilde;o, est&aacute; aqui, &oacute;&rdquo;. &ldquo;&Eacute;, essa foto est&aacute; boa&rdquo;. &ldquo;&Eacute;, n&atilde;o &eacute; bem assim&rdquo;. Ent&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Porque tinha a discuss&atilde;o se era a&ccedil;&atilde;o animal ou humana, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Exatamente. Era a tal da les&atilde;o de saca-bocado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A les&atilde;o de saca-bocado &eacute; feita por animais que se alimentam de carne em putrefa&ccedil;&atilde;o, como ratos, por exemplo. Eles mordem e rasgam parte da carne, deixando esse ferimento bem caracter&iacute;stico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan vai entrar nesse assunto mais adiante, mas por ora basta dizer que houve uma intensa discuss&atilde;o entre os legistas e os peritos sobre a aus&ecirc;ncia das m&atilde;os de Evandro, se ela poderia ser de a&ccedil;&atilde;o animal, humana, ou uma mistura das duas coisas.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute; o tipo de coisa, assim, que&hellip; Como eu n&atilde;o tinha colocado todas elas [fotos] naquele momento no laudo, mas o laudo j&aacute; tinha ido, eu tinha as negativas, se precisasse ia revelar mais fotos e assim por diante.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Podia ampliar&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Fazer o que quiser&hellip; Mas a quantidade era bem acima da m&eacute;dia. Ent&atilde;o, eu n&atilde;o tive problema com rela&ccedil;&atilde;o a isso. E as fotos at&eacute;, por sorte, todas elas de uma qualidade que d&aacute; para voc&ecirc; ver exatamente&hellip; Porque &agrave;s vezes eu via alguns colegas, os caras batiam a foto meio&hellip; Sa&iacute;a tremido, sa&iacute;a meio desfocado&hellip; Digo: &ldquo;p&ocirc;, mas tenta fazer melhor&rdquo;. Eu dizia assim, n&eacute;? &ldquo;Porra, se especializa um pouco no tro&ccedil;o, &eacute; t&atilde;o f&aacute;cil. &Oacute;, voc&ecirc; regula a velocidade, aqui o diafragma e tal, &eacute; t&atilde;o f&aacute;cil de fazer&rdquo;. &ldquo;N&atilde;o, n&atilde;o, n&atilde;o, deixa, deixa&rdquo;. T&aacute; bom. Cada um faz o seu, eu nunca dei palpite no laudo dos outros e tal. A gente sempre fazia assim. Eu, por regra, desde o come&ccedil;o, fiz assim. Eu fazia o meu laudo, eu tinha a minha convic&ccedil;&atilde;o. Mas eu sentava ali&hellip; O Arthur at&eacute;&hellip; Porque era, assim, um cara mais dedicado e coisa&hellip; Eu gostava de trabalhar com ele porque ele tinha uma paci&ecirc;ncia de J&oacute;. Ent&atilde;o, &agrave;s vezes alguma coisa que voc&ecirc; n&atilde;o sabia, ele te explicava. Da&iacute; voc&ecirc; entendia. &ldquo;Ah, sorte que tinha isso, tinha aquilo&rdquo;, e a coisa flu&iacute;a. Tinha outros que j&aacute; eram assim mais secos, era dif&iacute;cil voc&ecirc; trabalhar com o cara, porque o cara n&atilde;o tinha paci&ecirc;ncia de explicar nada. Ent&atilde;o, a coisa acabava n&atilde;o tendo o mesmo rendimento e a mesma&hellip; Aquele objetivo que voc&ecirc; tinha para um laudo, n&eacute;? Ent&atilde;o, essa parceria com ele foi para mim&hellip; Eu aprendi muito com ele.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A regi&atilde;o daquele matagal era muito, muito grande. At&eacute; hoje &eacute;. Ap&oacute;s encontrarem o corpo de Evandro, fizeram uma busca em um raio de cerca de 50 metros. Encontraram algumas coisas, como cal&ccedil;as velhas, sacos, mas nada que chamasse a aten&ccedil;&atilde;o. Ainda assim, todos esses materiais foram levados para an&aacute;lise no laborat&oacute;rio de qu&iacute;mica do Instituto de Criminal&iacute;stica. Em nenhum desses itens foi achado algo relevante.<\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; bem prov&aacute;vel que, quando o corpo de Evandro foi encontrado, o de Leandro j&aacute; estivesse l&aacute;. Mas a ossada dele s&oacute; foi achada em mar&ccedil;o de 1993, quase um ano depois.<\/p>\n\n\n\n<p>A ossada de Leandro estava em um lugar de mata bem mais fechada, enquanto o corpo de Evandro foi deixado em um local onde havia um caminho semiaberto &ndash; uma picada na mata, como se diz. Por causa disso, alguns lenhadores que passavam pela regi&atilde;o conseguiram ver os urubus que sobrevoavam a &aacute;rea onde o corpo foi achado e chamaram a pol&iacute;cia logo em seguida.<\/p>\n\n\n\n<p>A ossada de Leandro foi encontrada a uma dist&acirc;ncia estimada entre 200 e 400 metros do local do corpo de Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: A perinecroscopia &eacute; o exame ao redor do cad&aacute;ver. Ent&atilde;o, o que &eacute; ao redor? Voc&ecirc; estabelece um per&iacute;metro, cinco metros, 10 metros, 50 metros e assim vai. Como a gente trabalhou&hellip; Era a rua, o mato&hellip; N&atilde;o era o mato ali, era o mato&hellip; Dali para diante era tudo mato. N&atilde;o tinha campo de futebol, n&atilde;o tinha nada. Eles tinham rec&eacute;m aberto aquela rua. N&atilde;o tinha casa, n&atilde;o tinha nada, provavelmente por isso que o cara escolheu aquilo ali. E tinha o corpo ali. A gente andou ao redor, e uma coisa que chama a aten&ccedil;&atilde;o quando faz uma progress&atilde;o no mato, &eacute; galho quebrado, &eacute; alguma coisa&hellip; Alguma coisa que voc&ecirc; acha e assim por diante. E a gente andou, fez ao redor e n&atilde;o achou tipo assim: &oacute;, aqui j&aacute; teve uma trilha. Aqui algu&eacute;m j&aacute; passou. N&atilde;o, n&atilde;o tinha. Ent&atilde;o, voc&ecirc; vai entrando um pouco, vai aumentando&hellip; Eu acredito que&hellip; Tanto eu quanto os outros devem ter trabalhado, assim, mais ou menos alguma coisa em torno de&hellip; Porque at&eacute; a rua, se eu n&atilde;o me engano, acho que dava uns 20 e pouco metros mais ou menos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Deixa eu te colocar numa outra situa&ccedil;&atilde;o, ent&atilde;o. Em 1992, &eacute; encontrado um corpo num matagal como aquele que foi encontrado. Seria comum para a &eacute;poca fazer uma busca num raio de 400 metros?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Muito grande, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Muito grande. E, veja bem, para ele estar a 400 metros para l&aacute;&hellip; 400 metros s&atilde;o mais ou menos quatro quadras. O problema &eacute; que se voc&ecirc; entrar no mato&hellip; A tua linha reta&hellip; &Eacute; que nem diz o Galv&atilde;o Bueno: &ldquo;uma reta curva&rdquo;. Voc&ecirc; come&ccedil;a aqui, da&iacute; voc&ecirc; tem que desviar porque tem uma &aacute;rvore, da&iacute; tem mais n&atilde;o sei o qu&ecirc;. No que voc&ecirc; desvia 30 cent&iacute;metros aqui, 400 metros l&aacute;, vai refletir pelo menos uns 20 metros. Ent&atilde;o, voc&ecirc; sai&hellip; &Eacute; por isso que as pessoas se perdem no mato. Porque elas perdem a refer&ecirc;ncia. Eu olho, &eacute; &aacute;rvore, &eacute; &aacute;rvore, &eacute; &aacute;rvore. Mas qual &aacute;rvore? &ldquo;Ah, mas eu tenho certeza que era por aqui&rdquo;. E no fim n&atilde;o &eacute; nada disso. &Eacute; muito dif&iacute;cil&hellip; 400 metros&hellip; Naquela &eacute;poca n&atilde;o tinha nem a Pol&iacute;cia Ambiental.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute;. Mas se eu sou mateiro e estou acostumado&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Ah, sim, a&iacute;&hellip; T&aacute;, mas o cara que &eacute; mateiro j&aacute; entra preparado para andar no mato.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham, sim. Ele j&aacute; se&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: J&aacute; sabe se localizar. Exatamente. &Eacute; diferente. Ele j&aacute; tem aquele &iacute;mpeto porque ele sabe, ele vive disso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham, aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Ent&atilde;o, &eacute; o dia a dia dele. Para ele, n&atilde;o tem dificuldade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho do doutor Lipinski foi feito dentro das melhores condi&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis para os padr&otilde;es da &eacute;poca. Ele at&eacute; chegou a levar bronca porque tirou mais fotos do que deveria. Fizeram uma varredura no ambiente, encontraram pe&ccedil;as, catalogaram, enviaram para an&aacute;lise, n&atilde;o resultou em nada. E pela dist&acirc;ncia entre os corpos, dificilmente encontrariam o corpo de Leandro naquele dia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>OS CHINELOS E A CHAVE<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dias depois da descoberta do corpo de Evandro, um par de chinelos foi achado perto daquele local. Os p&eacute;s estavam distantes um do outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando os chinelos foram encontrados pelos policiais do Grupo Tigre, da Pol&iacute;cia Civil do Paran&aacute;, havia uma discuss&atilde;o se eles poderiam ter sido arremessados de um dos canais que cortavam aquela &aacute;rea.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1Qgp0mYHfL522kJ2Ycd-Q2TXzyvr7cNaG\/view\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Laudo de Qu&iacute;mica Legal &ndash; objetos encontrados pr&oacute;ximo ao corpo de Evandro (1992)<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: O que acontece numa situa&ccedil;&atilde;o dessas? Algu&eacute;m pode ter jogado? Pode. Ali voc&ecirc; perguntou tamb&eacute;m se podiam ter jogado o chinelo. Pelas &aacute;rvores, pela copa dessas &aacute;rvores, eram &aacute;rvores, assim, de dois metros e meio, no m&aacute;ximo tr&ecirc;s. Se algu&eacute;m jogasse o chinelo, ele ia ficar preso na &aacute;rvore. Ele n&atilde;o ia cair. Porque aquele galho&hellip; Como &eacute; que vou te explicar? &Eacute; um galho&hellip; Tipo havaiana&hellip; Havaiana tem aquela&hellip; A al&ccedil;a dela &eacute; alta. Ent&atilde;o, a hora que est&aacute; caindo&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Era um chinelo tipo Rider, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute; a mesma coisa. Ent&atilde;o, teria condi&ccedil;&atilde;o de enroscar. Mas, vamos supor, n&atilde;o enroscou. Beleza. Mas a&iacute; vem a segunda pergunta: eu consigo arremessar um chinelo desse mais do que 40 metros?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o&hellip; Tanto que foi essa&hellip; O senhor sabe a hist&oacute;ria desse chinelo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O doutor Adauto estava l&aacute; com o Pencai e o Blaqueney&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O doutor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/adauto-abreu\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado encarregado pelas investiga&ccedil;&otilde;es do caso Evandro entre abril e julho de 1992\" class=\"encyclopedia\">Adauto Abreu<\/a> era o delegado do Grupo Tigre na &eacute;poca. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/rogerio-podolak-pencai\/\" target=\"_self\" title=\"Policial do Grupo Tigre que atuou no in&iacute;cio das investiga&ccedil;&otilde;es do caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Rog&eacute;rio Podolak Pencai<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/blaqueney-murilo-iglesias\/\" target=\"_self\" title=\"Policial do Grupo Tigre que atuou no in&iacute;cio das investiga&ccedil;&otilde;es do caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Blaqueney Murilo Iglesias<\/a> eram policiais da sua equipe. Todos trabalhavam tamb&eacute;m em conjunto com a delegada <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leila-bertolini\/\" target=\"_self\" title=\"Delegada encarregada pela investiga&ccedil;&atilde;o do caso Evandro entre abril e julho de 1992\" class=\"encyclopedia\">Leila Bertolini<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan:&nbsp;Encontraram esses chinelos. A doutora Leila at&eacute; fala que achava estranho porque parecia que estavam muito limpos, como se tivessem sido lavados ou se fossem novos. E da&iacute; eles t&atilde;o com os dois chinelos na m&atilde;o, e come&ccedil;a uma discuss&atilde;o de &ldquo;n&atilde;o, mas ser&aacute; que a pessoa veio aqui e deixou o chinelo? Ou ser&aacute; que ela jogou do outro lado?&rdquo;. Da&iacute; o doutor Adauto disse assim: &ldquo;n&atilde;o, eu duvido que ela tenha vindo at&eacute; aqui, acho que ela jogou do riacho, quer ver?&rdquo;. Da&iacute; ele pega um chinelo e joga. E da&iacute; o chinelo n&atilde;o passa do riacho, ele cai e se torna inutilizado como prova. Basicamente isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Apesar que aquela prova naquela &eacute;poca s&oacute; ia servir para identificar o tamanho e o reconhecimento, alguma coisa assim. Mas, tudo bem&hellip; Isso a gente sempre tem um cuidado muito grande, para evitar de voc&ecirc; extraviar qualquer coisa do local. Porque determinadas situa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o tem como voc&ecirc; reverter. Eu estava vendo agora&hellip; Outro dia teve um colega advogado&hellip; Me perguntou e me mostrou uma foto do que foi apreendido. Pegaram todas as roupas e misturaram tudo junto. Da&iacute; eu falei: &ldquo;olha, isso a&iacute; criou uma situa&ccedil;&atilde;o&hellip;&rdquo;. Porque pode acontecer a transposi&ccedil;&atilde;o. Eu posso fazer exame de DNA na roupa. S&oacute; que aqui&hellip; O que estava aqui pode ter passado para c&aacute;, sabe? Ent&atilde;o, a pergunta vai ser: qual a confiabilidade que vai ter isso a&iacute;? Entende? Ent&atilde;o&hellip; &Eacute; responsabilidade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Essa hist&oacute;ria do chinelo sempre foi contada como mais um ato de irresponsabilidade das autoridades policiais da &eacute;poca. Mas, novamente, a perspectiva do doutor Lipinski &eacute; importante: em 1992, o que daria para se fazer com aquele chinelo?<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, Ivan continua achando que a atitude foi irrespons&aacute;vel. As provas precisavam ser melhor guardadas e armazenadas, at&eacute; pensando em tecnologias futuras.<\/p>\n\n\n\n<p>Junto com os chinelos, outro fator relevante era a discuss&atilde;o sobre a chave da casa de Evandro encontrada perto do cad&aacute;ver. Al&eacute;m da roupa que usava, essa chave foi mais um objeto utilizado em um primeiro momento para que a fam&iacute;lia j&aacute; tivesse no&ccedil;&atilde;o de que aquele corpo poderia ser realmente de Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p>A doutora <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leila-bertolini\/\" target=\"_self\" title=\"Delegada encarregada pela investiga&ccedil;&atilde;o do caso Evandro entre abril e julho de 1992\" class=\"encyclopedia\">Leila Bertolini<\/a>, delegada do Grupo Tigre, contou um pouco sobre a chave no depoimento que prestou em j&uacute;ri no ano de 2004. Nessa parte do relato, ela respondia &agrave;s perguntas do advogado de defesa <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/haroldo-cesar-nater\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado de defesa dos acusados no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Haroldo C&eacute;sar Nater<\/a>, que tamb&eacute;m lhe questionava sobre os chinelos:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Haroldo: Quando a senhora anunciou que procuraria os chinelos que o garoto Evandro portava quando desapareceu, &eacute; verdade dizer que, logo ap&oacute;s essa comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica atrav&eacute;s da imprensa, esses chinelos apareceram? Como se n&atilde;o tivessem nunca sido usados, como se tivessem sido novos, inclusive, sem nenhuma deformidade?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dra. Leila: &Eacute; verdade, &eacute; verdade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Haroldo: A senhora estranhou esse fato de os chinelos aparecerem na regi&atilde;o onde foi encontrado o cad&aacute;ver, que provavelmente estariam expostos<\/em> <em>ali &agrave;s intemp&eacute;ries por cerca de quatro dias, estarem naquele estado t&atilde;o conservado?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dra. Leila: Eu at&eacute; estranhei a gente achar os chinelos, porque era mato. E n&oacute;s achamos os dois chinelos. Como se tivessem sido colocados naquele dia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Haroldo: Como se tivessem sido colocados naquele dia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dra. Leila: Naquele dia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Haroldo: Relativamente &agrave;s chaves da casa, as chaves que o Evandro portava ao desaparecer, a senhora estranhou tamb&eacute;m essas chaves terem sido encontradas pr&oacute;ximas ao cad&aacute;ver? Sendo que ele n&atilde;o tinha, segundo os laudos, as m&atilde;os? Como &eacute; que iria levar aquelas chaves? Pareceu que essas provas foram plantadas l&aacute; para induzir as investiga&ccedil;&otilde;es?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dra. Leila: Com certeza. Essa chave foi colocada ali para identificar o cad&aacute;ver. Porque, na verdade, o cad&aacute;ver foi encontrado em determinado local. E, para chegar nesse local, havia um carreiro, j&aacute; um mato amassado. E, nesse carreiro, o &uacute;nico lugar que voc&ecirc; precisava olhar para o ch&atilde;o &eacute; onde tinha um tronco, um peda&ccedil;o de madeira atravessado. Ent&atilde;o, para a gente trocar o passo, voc&ecirc; tinha que olhar para o ch&atilde;o, sen&atilde;o voc&ecirc; ia sem olhar, e as chaves estavam ali.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>S&oacute; que essa chave nunca foi apreendida. As hist&oacute;rias da &eacute;poca d&atilde;o conta de que algu&eacute;m<em> <\/em>da cena, provavelmente algum policial militar que cuidava do isolamento, deve ter pegado essa chave e entregado diretamente para a fam&iacute;lia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan sempre achou isso um absurdo, pois a chave, de metal, poderia conter alguma impress&atilde;o digital, e isso seria mais um descaso da cena toda.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Quando o doutor chegou l&aacute;, n&atilde;o tinha mais a chave da casa do Evandro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Algu&eacute;m falou da chave. Mas, assim, no local, eu n&atilde;o me recordo da chave.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O corpo foi encontrado de manh&atilde;. Da&iacute; a hist&oacute;ria que aparece &eacute; que chegou algum PM l&aacute;&hellip; Se duvidar, o sargento Schultz, que &eacute; um cara que trabalhava l&aacute;, pegou a chave e entregou para o pai.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Olha, eu, assim&hellip; Eu s&oacute; passei aquelas orienta&ccedil;&otilde;es&hellip; &ldquo;N&atilde;o deixa ningu&eacute;m entrar&rdquo;. Esses detalhes&hellip; A gente s&oacute; pergunta: &ldquo;tem alguma coisa para relatar?&rdquo;. &ldquo;N&atilde;o&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Se o doutor tivesse chegado l&aacute; e encontrado a chave, qual seria o procedimento daquela &eacute;poca para uma chave encontrada?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Para uma chave? Anexaria no laudo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas&hellip; Desde o in&iacute;cio&hellip; Voc&ecirc; pega uma luva? Pin&ccedil;a? Naquela &eacute;poca&hellip; Ou n&atilde;o? Naquela &eacute;poca&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Olha&hellip; Veja, esse era um grande problema porque luva, a gente come&ccedil;ou a ter aqui no Instituto em 2010. N&oacute;s estamos falando de 1992. Ent&atilde;o, a gente estava bem atrasado. O que eu ia fazer? Eu sempre carregava, naquela &eacute;poca, saco pl&aacute;stico, saco de lixo. Essas sacolinhas de mercado, essas coisas. E, naquela &eacute;poca ainda, n&atilde;o eram todos&hellip; Porque ainda tinha alguns mercados que usavam de papel. Era sacola mesmo, de papel. Eram alguns que estavam come&ccedil;ando com sacola pl&aacute;stica. Eu usava aquilo porque &agrave;s vezes precisava carregar uma arma, que eu coletava l&aacute; num local de morte, alguma coisa&hellip; Ent&atilde;o, como voc&ecirc; tem&hellip; Voc&ecirc; tem que proteg&ecirc;-la, porque voc&ecirc; pode ter uma impress&atilde;o digital&hellip; Eu passei a usar, no caso da arma, uma garrafa PET. Naquela &eacute;poca estava come&ccedil;ando tamb&eacute;m&hellip; Eu cortava o fundo e punha a arma dentro da garrafa vazia, seca e tal. Eu punha ali dentro e trazia, porque da&iacute; eu n&atilde;o corria o risco de transportar a minha impress&atilde;o digital para aquela arma. Porque, sen&atilde;o, p&ocirc;, vai sair um laudo onde tem a minha&hellip; Voc&ecirc; j&aacute; pensou? A minha impress&atilde;o digital sobreposta&hellip; Da&iacute; n&atilde;o d&aacute; para classificar aquela&hellip; A gente tinha esse cuidado para evitar esse tipo de situa&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Com uma chave, teria esse cuidado tamb&eacute;m?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: A chave&hellip; Eu iria pegar&hellip; N&atilde;o pegaria direto na chave, pegaria com a sacola e deixaria dentro da sacola. Anexaria aquilo e depois colocaria&hellip; O nosso sistema era um envelope&hellip; E escrevia por fora: &ldquo;cont&eacute;m um chaveiro com tantas chaves&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Porque uma chave daria para pegar uma impress&atilde;o digital, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Depende. Depende. Tem chave que d&aacute;, tem chave que n&atilde;o d&aacute;. Naquela &eacute;poca, ia ser at&eacute; mais dif&iacute;cil de voc&ecirc; ver uma impress&atilde;o digital, porque voc&ecirc; trabalhar com fragmentos no momento&hellip; Hoje &eacute; bem mais f&aacute;cil, voc&ecirc; escaneia. Naquela &eacute;poca, o processo era: eu passava p&oacute;, utilizava uma fita durex, grudava, transpunha aquilo e passava por uma l&acirc;mina de vidro. E a&iacute; fotografava aquela l&acirc;mina de vidro e trabalhava com a fotografia. Ent&atilde;o, fazer todas essas opera&ccedil;&otilde;es&hellip; &Agrave;s vezes a chave era cheia de ranhura. Ent&atilde;o, voc&ecirc; n&atilde;o ia conseguir trazer a impress&atilde;o por causa da ranhura.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Entendi.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Ent&atilde;o era bem mais complicado&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; ia ter, provavelmente, fragmentos de impress&atilde;o digital&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Mas a&iacute; tamb&eacute;m n&atilde;o teria um microsc&oacute;pio adequado para fazer esse confronto papilosc&oacute;pico.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Ou seja, ficar lamentando que a chave n&atilde;o foi para o doutor na &eacute;poca tamb&eacute;m&hellip; Naquela &eacute;poca, n&atilde;o teria o que fazer.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&oacute;s n&atilde;o ter&iacute;amos&hellip; Veja, assim, as superf&iacute;cies ideais para n&oacute;s para coletar impress&atilde;o, naquela &eacute;poca, eram vidro e superf&iacute;cie lisa e polida.<\/em> <em>Por que lisa e polida? Porque a pessoa pega naquilo, fica muito f&aacute;cil eu passar o p&oacute;, passar a fita adesiva e transportar para o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Grafite? P&oacute; de grafite?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o, n&atilde;o. Era um p&oacute; especial para a impress&atilde;o. Agora, numa superf&iacute;cie que &eacute; curva, a probabilidade maior era que o durex ou a fita adesiva enrolasse, ent&atilde;o eu ia ter dificuldade de retirar ela. E outra coisa, ela ia sair curva. Da&iacute; na hora que eu passasse na fita, ela ia abrir&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ela ia estar distorcida.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Ent&atilde;o, ela ia dar uma distor&ccedil;&atilde;o. &Eacute; que nem voc&ecirc; olhar um espelho de carro hoje, um espelho novo de um carro novo, ele te coloca&hellip; Ele amplia o campo de vis&atilde;o porque &eacute; um espelho que reduz o tamanho da imagem. Naquela &eacute;poca, era o contr&aacute;rio. Quer dizer, era o que ia acontecer com a impress&atilde;o naquela &eacute;poca.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. A gente n&atilde;o ia conseguir ter um match&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Veja, eu nunca digo &ldquo;a gente n&atilde;o ia&rdquo;. Eu digo &ldquo;a gente ia tentar&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ia ser muito dif&iacute;cil.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute;. Ia ter um grau de dificuldade bem maior do que o comum.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Ivan, conversar com Lipinski foi uma aula sobre como era a per&iacute;cia do in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1990, desde os desafios tecnol&oacute;gicos at&eacute; a falta de estrutura material.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O DIA 11 DE ABRIL<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sobre o dia da descoberta do corpo, 11 de abril de 1992, Lipinski afirmou o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Me parece que era um loteamento que eles estavam fazendo l&aacute; na &eacute;poca, mas ainda estavam come&ccedil;ando pelas ruas, estava bem na fase inicial. Porque n&atilde;o tinha casas pr&oacute;ximas, n&atilde;o tinha nada maior assim, um ponto de refer&ecirc;ncia, n&eacute;? Tanto que a gente precisou que eles nos levassem at&eacute; l&aacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Ent&atilde;o, o senhor est&aacute; na viatura, chega l&aacute;. Imagino que o policial que est&aacute; te acompanhando fala: &ldquo;estamos chegando&rdquo;, e da&iacute; voc&ecirc;s&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Eles encostaram.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Encostaram, entraram de carro na picada ou n&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o, n&atilde;o. N&atilde;o dava para entrar de carro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o parou na rua&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&oacute;s descemos e fomos a p&eacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; estava do lado do passageiro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Passageiro, isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Na frente. Desce do carro e s&oacute; segue reto, ent&atilde;o? Voc&ecirc; n&atilde;o d&aacute; a volta no carro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Praticamente&hellip; N&atilde;o&hellip; N&atilde;o&hellip; Eu sa&iacute; direto&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sai direto e vai&hellip; Ou seja, voc&ecirc;s est&atilde;o na Avenida das Arauc&aacute;rias, &eacute; do lado direito&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute; certo. Entrou l&aacute;. Da&iacute; agora eu quero que voc&ecirc; tente narrar para a gente o que voc&ecirc; viu, como foi o caminho, a primeira coisa que voc&ecirc; j&aacute; come&ccedil;ou a notar, todas as suas impress&otilde;es. O que voc&ecirc; est&aacute; vendo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Veja&hellip; A primeira coisa que me chamou a aten&ccedil;&atilde;o foi tentar evitar que mais gente viesse atr&aacute;s. Porque a imprensa estava toda l&aacute; esperando. N&atilde;o que voc&ecirc; n&atilde;o quer&hellip; Voc&ecirc; est&aacute; impedindo o trabalho deles, em absoluto&hellip; Mas ali naquele momento era muito importante determinar se mais gente tinha passado ali. Porque, como era mato, &eacute; importante voc&ecirc; saber se aquilo ali era um local de passagem, se era um local pouco utilizado, poucas pessoas&hellip; Agora, se entrasse todo mundo, ia pisotear tudo, qualquer evid&ecirc;ncia que eventualmente a gente pudesse encontrar ia se perder no local. Ent&atilde;o, eu me lembro que eu ainda pedi para o pessoal ficar&hellip; Eu me lembro que veio o rapaz de uma emissora, n&atilde;o me lembro qual, atr&aacute;s ainda, e foi me filmando at&eacute; a hora que eu entrei no mato. Em seguida, ali j&aacute; tinha um policial militar, um pouquinho mais adiante j&aacute; tinha outro, e da&iacute; n&oacute;s j&aacute; est&aacute;vamos ali no corpo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; olha o corpo&hellip; Descreve para mim o que voc&ecirc; viu&hellip; Primeira vez, bateu o olho&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Me chamou a aten&ccedil;&atilde;o at&eacute; porque, veja, ao longo do meu trabalho, eu tive a oportunidade de atender alguns casos que envolviam crian&ccedil;a. Quando &eacute; com adulto, n&atilde;o choca tanto a gente como quando &eacute; com crian&ccedil;a. No que eu olhei, me deu assim&hellip; Gelou&hellip; Eu digo: &ldquo;meu Deus do c&eacute;u, quem &eacute; capaz de uma brutalidade dessas com uma crian&ccedil;a?&rdquo;. O primeiro pensamento. Porque, vamos supor, a pessoa matou? Matou. Mas matou, cortou, retirou, arrancou as m&atilde;os, os p&eacute;s, isso e aquilo. Quer dizer, todas as poss&iacute;veis formas de identifica&ccedil;&atilde;o. Havia uma preocupa&ccedil;&atilde;o muito grande do autor ou dos autores de que n&atilde;o fosse poss&iacute;vel a identifica&ccedil;&atilde;o daquela crian&ccedil;a. Essa foi a primeira coisa que a gente observou no local.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Passou pela cabe&ccedil;a isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Sim, sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Assim, o corpo est&aacute; desfigurado, est&aacute; sem as m&atilde;os. N&atilde;o est&atilde;o querendo que identifique.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Exatamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Essa &eacute; uma hip&oacute;tese que sempre circulou em torno do caso Evandro, especialmente no in&iacute;cio: o assassino teria feito todas aquelas mutila&ccedil;&otilde;es com o intuito de impedir o reconhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa suspeita voltar&aacute; a ser discutida em outro epis&oacute;dio, mas Ivan j&aacute; adianta que ela n&atilde;o faz muito sentido. Primeiro porque, se a pessoa quisesse se desfazer de um corpo em Guaratuba para nunca mais ser encontrado, teriam lugares melhores &ndash; o pr&oacute;prio mar, por exemplo, ou algum rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo, aquele matagal n&atilde;o era muito longe da casa de Evandro. E ele estava com a bermuda que utilizava no dia do desaparecimento, assim como tamb&eacute;m havia a chave perto do corpo. Ou seja, tudo leva a crer que essas mutila&ccedil;&otilde;es foram feitas com outro prop&oacute;sito.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: A&iacute; voc&ecirc; d&aacute; uma olhada geral. Olho para ali&hellip; Opa, j&aacute; tem uma cal&ccedil;a. Mas o teu foco principal &eacute; primeiro fotografar o corpo. Ent&atilde;o eu&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Tinha gente em volta?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Tinha. Tinha o&hellip; Da&iacute; os dois policiais militares estavam ali, tinha mais um fot&oacute;grafo da prefeitura&hellip; Acho que devia ter umas quatro, cinco pessoas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O doutor lembra o nome desse fot&oacute;grafo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o lembro. N&atilde;o lembro. E acredito que em torno de umas cinco pessoas, n&atilde;o mais que isso. Naquele momento. Antes disso, na rua l&aacute; quando a gente entrou, que eu desci da viatura, tinha bastante gente. Ent&atilde;o, eu n&atilde;o sei se essas pessoas tamb&eacute;m n&atilde;o estiveram l&aacute; porque a vegeta&ccedil;&atilde;o ao redor do corpo estava bem pisada ali, uns trechos. Ent&atilde;o, a&iacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Muita gente deve ter andado&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Muita gente, com certeza. Porque algu&eacute;m achou, fala para mais algu&eacute;m, daqui a pouco o cara j&aacute; avisa, daqui a pouco j&aacute; vem todo mundo. &Eacute; impressionante, sabe? Tem gente que sai e pega a fam&iacute;lia inteira para ir ver corpo. Eu digo: &ldquo;poxa, coisa meio macabra&rdquo;. Mas tudo bem&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas quando o doutor chegou l&aacute;&hellip; Salvo engano, o teu laudo diz que &eacute; l&aacute; por uma hora da tarde&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute;, foi&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Lembrando: o corpo foi encontrado de manh&atilde;. Ou seja, &agrave; uma hora da tarde, muita gente j&aacute; devia ter circulado por ali.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Tinha gente perto do corpo naquele momento? Ou j&aacute; tinham feito um c&iacute;rculo de isolamento, alguma coisa assim?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o. Eles tinham colocado uma fita. Mas, assim, ela impedia o pessoal da rua. Mas no trajeto ainda tinha algumas pessoas. Ent&atilde;o, eles estavam contendo l&aacute; atr&aacute;s. Nesse deslocamento ainda&hellip; Ali n&atilde;o tinha como&hellip; &Eacute; muito dif&iacute;cil porque, quando voc&ecirc; chega, j&aacute; est&aacute; vislumbrando a cena do crime, voc&ecirc; j&aacute; est&aacute; come&ccedil;ando a focar no que precisa fazer. Ent&atilde;o, essas coisas, n&atilde;o &eacute; que elas s&atilde;o secund&aacute;rias, mas &eacute; uma coisa que depois, assim, ao longo do tempo, a gente v&ecirc;&hellip; Deveria ter fotografado aquelas pessoas. Porque &eacute; uma coisa assim que&hellip; Provavelmente o autor estava ali. O cara quer ver aquilo ali. Teve o sadismo naquilo&hellip; A pessoa tenta fazer, faz, executa um crime com todos aqueles requintes de crueldade, n&atilde;o &eacute; uma coisa normal. Ent&atilde;o, provavelmente, o cara vai ver o resumo da obra dele.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o o senhor estava aqui com o corpo. As pessoas estavam aqui na rua?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute;. Nessa picada, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Nessa picada. Ou seja, aqui a 35 metros, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Mais ou menos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Ent&atilde;o elas estavam aqui com uma faixa, e no caminho voc&ecirc; j&aacute; via mais pessoas tamb&eacute;m&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas tinha uma faixa aqui isolando. Quantas pessoas o doutor chuta que devia ter aqui assim? S&oacute; para a gente ter uma no&ccedil;&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Voc&ecirc; sabe que nessa hora, quando voc&ecirc; est&aacute; no mato, n&atilde;o d&aacute; para voc&ecirc; ficar olhando muito para cima. A minha preocupa&ccedil;&atilde;o maior ali era com cobra, ent&atilde;o voc&ecirc; tem que olhar onde pisa. Eu estava mais preocupado com isso do que&hellip; Eu lembro, assim, que eu fui passando por algumas pessoas, mas eu n&atilde;o cheguei a olhar no rosto nem nada, porque eu estava de t&ecirc;nis. Eu digo&hellip; Eu n&atilde;o estava preparado para aquele atendimento, assim, com roupa adequada. Quando voc&ecirc; sabe que vai atender num local desse, voc&ecirc; bota uma bota e tal, j&aacute; se protege. Agora, eu estava com uma camisa, uma cal&ccedil;a jeans e t&ecirc;nis. Ent&atilde;o a minha preocupa&ccedil;&atilde;o maior&hellip; Digo: &ldquo;p&ocirc;, venho aqui e ainda levo uma picada de cobra&rdquo;. N&atilde;o d&aacute; para cuidar muito disso&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas, assim, para a gente ter uma no&ccedil;&atilde;o, estava lotada de gente?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o, n&atilde;o, n&atilde;o. Lotada n&atilde;o. Tinham pessoas&hellip; Mas, assim, eu n&atilde;o tenho como precisar&hellip; Talvez, no m&aacute;ximo, umas 10 pessoas&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: No m&aacute;ximo, umas 10&hellip; T&aacute;. Curiosos passando, pol&iacute;cia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Ah, sim. Curiosos, na parte onde estava abrindo rua, l&aacute; tinha bastante.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aqui?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Isso. N&atilde;o, n&atilde;o&hellip; Aqui &eacute; a picada&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aqui?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Isso, a&iacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aqui tinha muito curioso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No desenho do mapa, ele apontou a Rua das Palmeiras.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Da&iacute; o pessoal olhava aqui o mato&hellip; Tinha uma faixa impedindo o pessoal?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Sim, a faixa estava ali.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Estava aqui, ent&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Exatamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o estava aqui?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o. Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Estava aqui. T&aacute;. Ent&atilde;o, na entrada da picada. Da&iacute; aqui tinha umas 10 pessoas, vamos dizer assim? Com policiais e outras&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Isso, isso, isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. E aqui muito curioso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: A&iacute; bastante curioso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O carro tinha dificuldade para estacionar, inclusive? Teve que ir afastando o pessoal ou n&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o. Porque, quando n&oacute;s chegamos, o pessoal estava mais para c&aacute;. N&oacute;s paramos o carro mais ou menos aqui assim. E da&iacute; as pessoas come&ccedil;aram a se aproximar. Eu j&aacute; avisei o policial: &ldquo;&oacute;, n&atilde;o deixa ningu&eacute;m entrar. Quem entrou n&atilde;o sai, e quem n&atilde;o entrou tamb&eacute;m n&atilde;o vai entrar&rdquo;. Porque, nessa hora, se eu encontrasse alguma coisa l&aacute; que eu achasse importante, eu ia precisar falar com todos eles. Ent&atilde;o, por isso, voc&ecirc; j&aacute; est&aacute; l&aacute; dentro&hellip; Cara, agora voc&ecirc; vai ter que esperar aqui&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E aqui&hellip; O doutor acredita que o assassino ou assassinos poderiam estar aqui nessa&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Poderia estar junto com toda aquela multid&atilde;o de pessoas, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Dezenas? Centenas de pessoas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Olha, eu vou dizer, assim, mais de 50 pessoas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mais de 50 pessoas. T&aacute;. Ok. Daqui do corpo, qual &eacute; mais ou menos a &aacute;rea de busca que voc&ecirc;s fizeram?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: A gente pegou do rio para c&aacute; mais ou menos a&iacute; em torno de uns 50, 60 metros, que a gente foi fazendo ao redor&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: At&eacute; aqui? Ao redor do corpo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Ent&atilde;o, pega o corpo, raio de 50 metros mais ou menos&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Isso. Em todas as dire&ccedil;&otilde;es.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Todas as dire&ccedil;&otilde;es. Inclusive passando por outra picada aqui em cima?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute;&hellip; Mas voc&ecirc; veja&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Porque &eacute; tudo mato.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute; tudo mato. N&atilde;o tem como voc&ecirc; ver confronta&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o tinha nada de divis&oacute;ria&hellip; Agora, &eacute; uma coisa estranha porque, quando voc&ecirc; est&aacute; fazendo uma progress&atilde;o no mato, voc&ecirc; olha ali&hellip; &ldquo;&Oacute;, tem uma coisa ali&rdquo;. No mato, voc&ecirc; olha, &eacute; tudo igual. Ent&atilde;o, voc&ecirc; vai tentando ver se tem um galho quebrado, se algu&eacute;m passou por ali. O nosso objetivo era entender se a pessoa entrou e saiu pelo mesmo lugar, ou ela entrou por um lugar e saiu por outro. Porque, nesse deslocamento, o que pode acontecer? Voc&ecirc; pode enroscar uma roupa, rasgar uma roupa. Voc&ecirc; encontra um fragmento de uma camisa. A&iacute; voc&ecirc; vai l&aacute;&hellip; &ldquo;Quem &eacute; o suspeito? Ah, &eacute; o fulano&rdquo;. Voc&ecirc; vai l&aacute;, faz uma busca e encontra l&aacute; o fragmento daquela roupa. N&atilde;o quer dizer que ele seja o autor&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas que ele esteve l&aacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Mas que ele esteve l&aacute;, e vai ter que explicar o que ele estava fazendo l&aacute;. Agora, e se essa roupa&hellip; Vamos supor que ele carregou esse corpo e ficou com ader&ecirc;ncia de sangue na roupa. Ent&atilde;o, &agrave;s vezes voc&ecirc; vai buscar uma informa&ccedil;&atilde;o e consegue outra. Ent&atilde;o, assim, naquele primeiro momento eu imaginei isso. Porque impress&atilde;o digital n&atilde;o ia encontrar. O que eu poderia encontrar ali que me auxiliasse? Praticamente nada, porque o normal seria uma passagem&hellip; A &uacute;nica coisa seria alguma coisa que a pessoa tenha perdido ao longo dessa passagem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>AS LES&Otilde;ES<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o, qual foi o seu procedimento para registrar o estado do local do corpo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute; o m&eacute;todo descritivo que a gente utiliza. &Eacute; o princ&iacute;pio &ldquo;visum et repertum&rdquo;, eu repito aquilo que eu vejo. Ent&atilde;o, o que eu observei? Eu observei o corpo de uma crian&ccedil;a, em torno de um metro, mais ou menos, deitada em dec&uacute;bito dorsal, e fui fazendo as minhas anota&ccedil;&otilde;es.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Dec&uacute;bito dorsal para leigo &eacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: De costas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: De costas. Ele estava deitado de costas, ent&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Porque as fotos que a gente v&ecirc;, parece que ele est&aacute; de barriga para cima.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Ah, n&atilde;o&hellip; &Eacute;&hellip; Ent&atilde;o, deitado de costas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ah, de costas, deitado de costas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Isso, de barriga para cima.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: De barriga para cima. Aham, certo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: E o posicionamento de bra&ccedil;o&hellip; Mas &eacute; uma coisa, assim, que fica te puxando&hellip; Porra, cara, mas n&atilde;o tem m&atilde;o? Cad&ecirc; a m&atilde;o? Sabe? Voc&ecirc; fica assim pensando: meu Deus, quem vai fazer isso com uma crian&ccedil;a? Por que vai fazer isso com uma crian&ccedil;a? Qual o motivo? Ent&atilde;o, voc&ecirc; come&ccedil;a&hellip; A hora que a tua cabe&ccedil;a come&ccedil;a a formular milhares de hip&oacute;teses&hellip; Por que isso? Por que aquilo? Por que isso? Meu Deus, p&ocirc;, como &eacute; que pode isso? Como &eacute; que pode aquilo? Ent&atilde;o, a&iacute; voc&ecirc; baixa um pouco a adrenalina&hellip; Porque &eacute; uma coisa que a princ&iacute;pio choca qualquer um que visse aquilo, aquela cena. A&iacute; devagarinho voc&ecirc; vai vendo e tal&hellip; N&oacute;s fomos posicionando&hellip; At&eacute; voc&ecirc; me perguntou com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; costela. Ela parece que n&atilde;o tem do lado direito, mas ela tem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>As costelas de Evandro estavam serradas, e esse &eacute; um detalhe importante para se ter em mente. As costelas do lado esquerdo faziam uma esp&eacute;cie de V &ndash; nas mais altas, seguiam uma linha de corte, e de repente subiam, como se algu&eacute;m tivesse cortado ou serrado em dois &acirc;ngulos diferentes. Ou seja, a pessoa come&ccedil;ou de um lado, foi at&eacute; um ponto, e trocou de posi&ccedil;&atilde;o para cortar os ossos restantes.<\/p>\n\n\n\n<p>S&oacute; que, pelo &acirc;ngulo da foto, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel ver se as costelas do lado direito tamb&eacute;m estavam cortadas. O doutor Lipinski explicou que elas estavam sim serradas, mas n&atilde;o tinham aquele declive que existia do lado esquerdo. Elas estavam cortadas de forma mais reta.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Ent&atilde;o, eu fiquei numa posi&ccedil;&atilde;o para pegar aquela costela do lado esquerdo, que eu teria condi&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m de observar a do lado direito. Mas como voc&ecirc; vai olhar ela mais ou menos nessa posi&ccedil;&atilde;o aqui assim, de frente, ela d&aacute; a impress&atilde;o que &eacute; pequena. N&atilde;o, ela at&eacute;&hellip; Voltando &agrave; posi&ccedil;&atilde;o, depois ela&hellip; Numa outra posi&ccedil;&atilde;o, que da&iacute; ele j&aacute; estava mais ou menos um pouquinho de lado. Mas eu precisava aqui&hellip; Aquela foto das costelas do lado esquerdo foi muito importante porque ela consegue, assim, me dar uma s&eacute;rie de informa&ccedil;&otilde;es. Primeiro, qual foi o instrumento utilizado para cortar? Foi uma serra pequena. Pode ser uma serrinha de p&atilde;o, alguma coisa assim. Foi cortado num golpe s&oacute;? N&atilde;o, v&aacute;rios. N&atilde;o, ela foi serrada. Parou&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; conseguia ver a ranhura?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Eu conseguia ver as ranhuras e tal. A mesma coisa a gente observa naquelas cartilagens que tem no pulso do menino. Ali j&aacute; foi cortado com uma faca. Voc&ecirc; v&ecirc; o gume entalhado na cartilagem. Ent&atilde;o, a mesma coisa, ampliando aquela foto, voc&ecirc; consegue observar tudo aquilo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o ali foi fac&atilde;o, por exemplo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Eu n&atilde;o diria fac&atilde;o, uma faca&hellip; Uma faca bem afiada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Foi num golpe s&oacute; ou foi cortando?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Num golpe s&oacute;, ela ia fazer uma incis&atilde;o profunda e ia repartir a cartilagem. Ali n&atilde;o, foi um corte. Ent&atilde;o, foi uma passada, uma deslizada do gume sobre a cartilagem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o, uma faca bem afiada&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Exatamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sendo passada&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute;, veja&hellip; Normalmente, a pessoa que tem um pouco mais de destreza para fazer isso, ela consegue enfiar a ponta da faca e ir cortando entre os ossos. Ela corta o tecido, afasta e depois puxa. Ent&atilde;o, voc&ecirc;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas da&iacute; teria sinal de arrancamento, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute;. Mas se observar bem na borda ali de onde seria o pulso, voc&ecirc; percebe que tem um peda&ccedil;o do tecido. Mesmo ele sendo cortado, alguma coisa ficou, e da&iacute; teve um pux&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas esse pux&atilde;o n&atilde;o pode ser dos saca-bocados, dos animais que comem e puxam a pele<\/em>?<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Pode. Pode. Exatamente, pode tamb&eacute;m. Isso n&atilde;o&hellip; S&oacute; que, veja, &agrave; medida que ele puxar, ele vai arrastar o corpo&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham&hellip; N&atilde;o, mas por um rato, por exemplo&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Ah, o rato n&atilde;o vai conseguir puxar. Teria que ser um animal maior.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o, mas ele puxa um pouco da pele, da&iacute; faz essas&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o, o rato vai roendo&hellip; Teria que ser um [animal] maior mesmo, um cachorro, alguma coisa assim, um animal maior que tivesse essa for&ccedil;a para conseguir puxar. Vamos supor, ele morde a m&atilde;o e arranca. Ent&atilde;o, ele vai puxar&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Eu n&atilde;o estou falando de arrancar a m&atilde;o. Eu estou falando de&hellip; O assassino cortou a m&atilde;o, deixou ali, da&iacute; voc&ecirc; tem aqui o pulso aberto. Chega um rato e come&ccedil;a a morder as bordas, e da&iacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Mas da&iacute; teria micro&hellip; Aquelas marcas assim como se fossem uns arredondadinhos das mordidas. Seria diferente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Tinha cheiro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o. N&atilde;o, porque ele n&atilde;o tinha&hellip; O cheiro &eacute; produzido pelo conte&uacute;do da cavidade abdominal: intestino, est&ocirc;mago, f&iacute;gado. Como ele n&atilde;o tinha, aquilo foi removido, foi arrancado&hellip; Por isso que dificultou voc&ecirc; valorar quanto tempo da morte. Porque os fen&ocirc;menos transformativos come&ccedil;am a acontecer pelo abd&ocirc;men. Ent&atilde;o voc&ecirc; vai l&aacute;&hellip; Um dia, dois dias, acontece isso, tantos dias acontece aquilo, e assim vai. Quando voc&ecirc; tem um trauma, a gente tem uma coisa chamada espectro equim&oacute;tico, ele vai mudando de cor. Ele vai chegar num ponto que aqui&hellip; Ele fica amarelo e da&iacute; desaparece. Isso aqui &eacute; mais ou menos pr&oacute;ximo do 14&ordm; dia. Voc&ecirc; tem uma pancada maior assim, um extravasamento, isso aqui estaria entre o segundo&hellip; At&eacute; o terceiro dia. Depois, ele fica preto, da&iacute; vai esverdeando, amarelando, e desaparece. Ent&atilde;o, esse tipo de les&atilde;o a gente n&atilde;o p&ocirc;de observar. &Eacute; uma coisa assim que&hellip; &Eacute; por isso que eu falei, precisaria ter lavado o corpo para voc&ecirc; determinar qualquer coisa assim em rela&ccedil;&atilde;o ao tempo exato. Porque, vamos supor, tem folha que quando fica no molhado, descolore. E, por um processo de transposi&ccedil;&atilde;o, ela passa l&aacute; aquele&hellip; Vamos supor, aquele verde para alguma coisa&hellip; Ent&atilde;o, poderia uma mancha na pele levar &agrave; reflex&atilde;o equivocada de, no caso, ser uma les&atilde;o, quando na verdade poderia ser aquilo ali, a fixa&ccedil;&atilde;o daquela pigmenta&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria folha.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim, sim. Tem aqui tamb&eacute;m uma parte do&hellip; Ele est&aacute; com essa bermuda.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: A bermuda estava seca? O senhor lembra se estava dura assim? Porque &eacute; sangue isso aqui, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute;, sim, sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Isso aqui &eacute; de sangue&hellip; Lembra se&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o, n&atilde;o estava dura n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o estava dura.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o. N&atilde;o, porque ele vira ela e assim&hellip; Tem uma foto que a gente fez em que ele est&aacute; de costas, que eu estou tentando indicar uma les&atilde;o que ele tem nas costas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. Acho que n&atilde;o &eacute; aqui, mas eu posso mostrar&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Essa aqui&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Essa aqui?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Isso, &oacute; l&aacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Essa les&atilde;o nas costas parece uma boca semiaberta, com os dois cantos mais finos.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Inclusive aqui nas costas a gente consegue ver v&aacute;rios tons de pele, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute;, mas a&iacute; que est&aacute;, isso da&iacute; &eacute; ocasionado&hellip; Voc&ecirc; veja que tem bastante folha que aderiu na coisa&hellip; Ele ficou&hellip; O que acontece? O terreno n&atilde;o &eacute; plano. Ent&atilde;o, &agrave; medida que ele vai marcando algumas coisas&hellip; Vamos supor que o corpo ficou em cima de uma pedra em algum lugar, uma folha no outro&hellip; A&iacute; voc&ecirc; olha aqui&hellip; Por que aqui est&aacute; limpo e ali n&atilde;o est&aacute;? Ali est&aacute; sujo&hellip; Ou por que ele est&aacute; com uma colora&ccedil;&atilde;o diferente? Isso tudo por conta do qu&ecirc;? Do tempo que ele est&aacute; ali. Agora, ele ficar em cima das folhas a&iacute; um, dois dias, j&aacute; vai fazer isso. Ent&atilde;o, a gente&hellip; Eu sempre fiz isso, at&eacute; o &uacute;ltimo local que eu atendi&hellip; Esse tipo de pigmenta&ccedil;&atilde;o, essas coisas, eu deixava sempre para ver no IML, depois do corpo lavado, porque da&iacute; voc&ecirc; pode afirmar. At&eacute; ent&atilde;o, &eacute; uma expectativa. Por isso que eu digo, eu era contra a gente se pronunciar antes de ter uma coisa assim mais consistente. Porque, voc&ecirc; imagine, eu saio dali e converso l&aacute; com todos os ve&iacute;culos de imprensa, e falo alguma coisa. A&iacute; chega l&aacute; no IML, eles lavam o corpo&hellip; A&iacute; o que vai acontecer? Claro que voc&ecirc; tem um paradigma. O perito falou uma coisa, o legista disse outra. E voc&ecirc; acaba perdendo a objetividade da tua investiga&ccedil;&atilde;o porque j&aacute; cria uma desconfian&ccedil;a. Quem est&aacute; certo e quem est&aacute; errado? Quando, na verdade, voc&ecirc; se manifestar&hellip; A diferen&ccedil;a &eacute; que o legista est&aacute; vendo o corpo l&aacute; na bancada limpinho, lavado, aquela coisa toda. Eu estou vendo ele ali sujo, &agrave;s vezes com formiga, com coisa&hellip; Quer dizer, ent&atilde;o, n&atilde;o posso, assim, ser prematuro num coment&aacute;rio e depois criar toda uma celeuma por conta de uma coisa equivocada. Quer dizer, ent&atilde;o, a gente&hellip; Eu, pelo menos, evitava de me manifestar por causa disso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Essa presen&ccedil;a de larvas aqui nos diz alguma coisa sobre o tempo de decomposi&ccedil;&atilde;o ou sobre quanto tempo ele est&aacute; nesse local?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Veja, isso da&iacute; vai acontecendo a partir de 24 horas&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: A partir de 24 horas j&aacute; come&ccedil;a a ter larva&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute;, mas a gente perdeu a refer&ecirc;ncia porque ele come&ccedil;a pelo trato intestinal. Ent&atilde;o, n&atilde;o tinha como voc&ecirc; valorar a coisa. E veja outra situa&ccedil;&atilde;o&hellip; Como o abd&ocirc;men dessa crian&ccedil;a estava aberto, o lugar onde mais deveria ter larvas era ali. E ali n&atilde;o tinha. Ent&atilde;o, s&atilde;o coisas assim que&hellip; Veja, estudos entomol&oacute;gicos aqui no Brasil come&ccedil;aram ali mais ou menos em torno de 2000, 2005, a partir dali come&ccedil;aram. Porque o Brasil &eacute; muito grande, tem uma fauna muito grande. Ent&atilde;o, vamos supor, larvas que eu tenho aqui no Sul, eu n&atilde;o tenho l&aacute; no Norte. Ent&atilde;o, s&atilde;o coisas assim&hellip; Classificar isso, a idade daquela larva, quem p&ocirc;s aquela larva&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham, sim. Eu tenho um amigo perito que fala bem assim: &ldquo;poxa, se a gente tivesse a an&aacute;lise da larva, a gente saberia dizer quanto tempo que ela estava&hellip;&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute;, eu sei. Mas isso&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: S&oacute; que nessa&hellip; S&oacute; que eu pensei: em 1992?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o existia isso. N&atilde;o existia assim&hellip; Deixa eu corrigir&hellip; N&atilde;o &eacute; que n&atilde;o existia. Essa informa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o estava t&atilde;o acess&iacute;vel para n&oacute;s. Dizer que n&atilde;o existia, n&atilde;o. Ela existia. Mas aqui no Brasil, a gente&hellip; Eu imagino assim, n&oacute;s estamos com um delay de 30 anos em rela&ccedil;&atilde;o aos Estados Unidos. Os estudos que eles t&ecirc;m l&aacute; e coisa, eles s&atilde;o bem mais avan&ccedil;ados. Outra coisa&hellip; Os estudos s&atilde;o feitos nas universidades, eles n&atilde;o s&atilde;o repassados. Veja, e a&iacute; &eacute; um grande equ&iacute;voco&hellip; Porque a per&iacute;cia tem que estar trabalhando aliada com institui&ccedil;&otilde;es de ensino. Voc&ecirc; est&aacute; tendo uma pesquisa l&aacute;&hellip; Ent&atilde;o, tem algu&eacute;m l&aacute; do curso de bot&acirc;nica pesquisando e classificando essas larvas, isso a&iacute; tem um estudo&hellip; O cara bate o olho ali: &ldquo;n&atilde;o, isso a&iacute; dura e tal&hellip; O casulo e tal, n&atilde;o sei o qu&ecirc;&hellip;&rdquo;. Assim, naquela &eacute;poca&hellip; Veja que a gente come&ccedil;ou a ver, assim, estudos embrion&aacute;rios, de pesquisa, mais recente.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o, t&aacute;. Realmente aqui dentro da cavidade n&atilde;o tem&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o tem larva. Exato.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas j&aacute; aqui, ao redor, a gente v&ecirc; algumas, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute;, muito pouquinho&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas muito pouquinho&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: E voc&ecirc; veja que aqui, &oacute;&hellip; Voc&ecirc; pode ver que foi feito um corte quase linear. D&aacute; a impress&atilde;o que utilizaram uma faca muito afiada ou um bisturi, alguma coisa. E o corte n&atilde;o &eacute; daqui, ele estava mais para c&aacute;. Como esse corpo ficou ao ar livre, e l&aacute; durante o dia era quente, ele desidrata e a pele encolhe&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o a pele provavelmente estava aqui assim&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute; mais ou menos isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Esse corte em quest&atilde;o &eacute; o que abriu o peito e a barriga de Evandro. &Eacute; como se fosse um corte &uacute;nico, cont&iacute;nuo, que pode ter come&ccedil;ado da base do pesco&ccedil;o e circulado por todo o peito e barriga, como se tirasse uma tampa. Com o tempo da putrefa&ccedil;&atilde;o, a pele vai ressecando, e deixa uma diferen&ccedil;a de comprimento entre as camadas mais internas para as mais externas.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham, t&aacute;. Ent&atilde;o isso aqui que a gente&hellip; J&aacute; &eacute; a pele ressecada?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: J&aacute; &eacute; a pele ressecada, exatamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Mas quanto tempo o corpo de Evandro ficou no matagal? Ele sumiu em uma segunda-feira. O corpo foi encontrado no s&aacute;bado.<\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; consenso que ele n&atilde;o foi morto naquela &aacute;rea, pois ela n&atilde;o condizia com um local de morte. Ao mesmo tempo, &eacute; dif&iacute;cil estipular o dia exato em que o menino foi assassinado, pois o corpo estava em avan&ccedil;ado estado de putrefa&ccedil;&atilde;o. Na &eacute;poca do caso, havia discuss&otilde;es de que o cad&aacute;ver estaria l&aacute; h&aacute; dias, enquanto outras pessoas diziam que estaria l&aacute; por horas.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Qual a sua opini&atilde;o&hellip; Na sua opini&atilde;o, h&aacute; quanto tempo o corpo estava naquele local?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Naquele local, como eu te falei, em torno de uns tr&ecirc;s dias, mais ou menos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o ele pode estar l&aacute; h&aacute; tr&ecirc;s dias.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Na sua opini&atilde;o, assim que ele foi morto, ele foi guardado em algum lugar ou n&atilde;o? Foi morto e j&aacute; foi jogado l&aacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Olha, eu vou falar uma coisa que eu nunca falei para ningu&eacute;m. Aquilo ali, para mim, foi assim&hellip; Algu&eacute;m pensou assim: &ldquo;putz, fizemos, e agora? Ah, eu n&atilde;o vou mexer com isso. Agora voc&ecirc; que se vire com isso&rdquo;. E deve ter come&ccedil;ado um jogo de empurra&hellip; Para da&iacute; acontecer&hellip; Algu&eacute;m chegar&hellip; &ldquo;N&atilde;o, deixa que eu levo&rdquo;, e levou. &Eacute; a minha opini&atilde;o. Porque, veja s&oacute;, aquela pessoa que tem a frieza de fazer a coisa, para ela&hellip; Ela s&oacute; n&atilde;o vai fazer completo se ela n&atilde;o tiver os meios. Agora, se ele n&atilde;o foi ali&hellip; Eu tenho que partir da premissa que pode ter acontecido em qualquer lugar do mundo, e foi levado para l&aacute;. Em qualquer lugar do mundo, eu vou precisar de um meio de transporte porque eu n&atilde;o posso sair na rua carregando um corpo. Ent&atilde;o, ele provavelmente p&ocirc;s isso num carro ou numa carro&ccedil;a&hellip; Naquela &eacute;poca tinha carro&ccedil;a l&aacute; em Guaratuba.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Muito&hellip; Ainda mais que &eacute; uma regi&atilde;o de mateiro, de pessoal que tira lenha&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Lenha&hellip; Exatamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o, o pessoal vai com carro&ccedil;a direto para l&aacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Ent&atilde;o&hellip; Coloca uma lona em cima&hellip; Veja bem&hellip; Para, desce, joga o corpo, volta&hellip; &ldquo;N&atilde;o tenho nada a ver com isso&rdquo;, e vai embora. Para mim, foi isso que aconteceu.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O doutor tem uma ideia de como foi a ordem do que foi feito? Desde que pegou o menino&hellip; A partir dali, fez o qu&ecirc;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Eu acho que a pessoa que fez o corte era destro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Era destro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Destro, pela posi&ccedil;&atilde;o do serrilhamento nas costelas. Ele vai, vai, vai&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o, mas desde o in&iacute;cio. Como &eacute; que ele mata o menino primeiro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Naquela foto&hellip; Veja&hellip; Aquela que ele est&aacute;&hellip; Que voc&ecirc; me mostrou o shorts por tr&aacute;s&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aqui.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ele est&aacute; falando da perfura&ccedil;&atilde;o em formato de boca citada anteriormente. Ela est&aacute; bem nas costas de Evandro, do lado esquerdo da costela.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Veja que aqui, &oacute;, tem um corte, uma perfura&ccedil;&atilde;o aqui, &oacute;&hellip; Ela &eacute; perfurocortante&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o pode ter sido animal isso aqui?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o. Veja que ela tem o bordo bem caracter&iacute;stico de faca.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. Isso aqui foi&hellip; A gente consegue dizer que foi feito em vida?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Foi. Porque, olha aqui, a partir do momento que ele come&ccedil;ou a repuxar, ele vai abrindo, &oacute;. Ele repuxa e a ferida come&ccedil;a a abrir. S&oacute; que, como foi cortado, veja que aqui ele tracionou o tecido, mas parou aqui.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. Ent&atilde;o, ele enfia a faca&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Veja que &eacute; de baixo para cima, e pega&hellip; E &eacute; lado esquerdo, ele pega no cora&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o ele mata pelo cora&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o, n&atilde;o&hellip; Ele n&atilde;o esgana?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Veja, eu tenho uma coisa bem caracter&iacute;stica. Se voc&ecirc; voltar a foto ali, vamos colocar ele de frente&hellip; Veja que no pesco&ccedil;o n&atilde;o tem a mesma coisa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o, o que tem que sempre falaram &eacute;: que ele tinha uma &aacute;rea de putrefa&ccedil;&atilde;o maior em torno do pesco&ccedil;o, que dava&hellip; Que s&atilde;o sinais que voc&ecirc; veria numa&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Olha, eu pensei muito nisso. Mas, veja s&oacute;, da mesma maneira que a pele teve esse repuxamento, ela encostou e preservou uma parte. Ent&atilde;o, &eacute; a mesma coisa que&hellip; Quando voc&ecirc; toma sol, vamos supor, eu flexiono o bra&ccedil;o e tomo sol assim. Ele queima tudo, e a hora que eu abro o bra&ccedil;o, essa parte ficou branca. E &eacute; o que aconteceu ali. Acredito eu, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim, claro, claro. Porque aqui&hellip; O que me d&aacute; a certeza de que isso aqui foi feito com ele em vida?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Porque o tecido&hellip; Veja s&oacute;, essa parte aqui estaria mais ou menos correspondente na horizontal com o rim. Se fosse na perpendicular, uma perfura&ccedil;&atilde;o em um dos rins, ela poderia lesionar o rim, perfurar&hellip; Mas com um rim, a pessoa viveria. Eu n&atilde;o teria a morte imediata. Agora, se eu, digamos assim, alterar a inclina&ccedil;&atilde;o da faca, do punhal, alguma coisa, e subir, eu posso pegar o cora&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Mas o que me&hellip; A minha d&uacute;vida &eacute; mais assim: e se eu primeiro esganei o menino, mato e da&iacute; enfio a faca? Ele est&aacute; morto j&aacute;, e da&iacute; eu fa&ccedil;o essa les&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Ah, mas a les&atilde;o em morte n&atilde;o ia acontecer&hellip; Acredito que n&atilde;o ia acontecer isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o ia acontecer assim?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o. Outra coisa&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Como seria&hellip; Como ela deveria ser se fosse feita em morte?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Ela n&atilde;o ia repuxar. Quer dizer, ela iria repuxar pela desidrata&ccedil;&atilde;o, mas n&atilde;o ia ter altera&ccedil;&atilde;o. Porque veja que ela tem inclusive altera&ccedil;&atilde;o da colora&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse momento, o doutor Lipinski mostrou uma foto com a parte interna do corpo de Evandro, no local onde deveria ficar o cora&ccedil;&atilde;o que havia sido retirado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Essa altera&ccedil;&atilde;o da colora&ccedil;&atilde;o se deu por deposi&ccedil;&atilde;o de sangue. Ent&atilde;o, foi uma batida&hellip; Algu&eacute;m pegou e BUM&hellip; Para dar uma facada e penetrar com for&ccedil;a.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Certo. Ent&atilde;o, assim&hellip; Vamos imaginar&hellip; A pessoa&hellip; Vamos olhar aqui de novo as les&otilde;es principais. Ah, eu queria perguntar sobre o cheiro antes, de novo. Quando voc&ecirc;s viraram o corpo, n&atilde;o saiu cheiro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o, n&atilde;o saiu cheiro. N&atilde;o, porque, veja&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o tinha cheiro nenhum?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: A gente estava em ambiente aberto. Quando ele est&aacute; confinado, ele fica muito intenso. Nesse caso, como n&atilde;o havia intestino, n&atilde;o havia nada, n&atilde;o tinha o que cheirar. Assim, pelo menos eu n&atilde;o senti. Talvez algu&eacute;m possa ter sentido. Mas eu j&aacute; vivo com o nariz trancado, ent&atilde;o, normalmente&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o, eu&hellip; Ent&atilde;o, t&aacute;&hellip; Porque sempre tem essa discuss&atilde;o sobre cheiro, tudo. Vamos imaginar que ele foi morto no mesmo dia, numa segunda-feira, e retiraram os &oacute;rg&atilde;os dele. No dia seguinte teria cheiro, depois que tira os &oacute;rg&atilde;os?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas, assim, o que eu&hellip; Essa &eacute; a minha dificuldade de entender, tipo, a pele n&atilde;o cheira? O rosto n&atilde;o cheira?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Pois &eacute;, mas a pele n&atilde;o estava em putrefa&ccedil;&atilde;o. O que faz criar esse cheiro &eacute; a putrefa&ccedil;&atilde;o do conte&uacute;do gastrointestinal. A partir do momento que&hellip; Ele vai inchando que nem uma bexiga. A&iacute; chega uma hora que ele estoura. Tanto que quando a gente vai em encontro de cad&aacute;ver, a gente toma at&eacute; certos cuidados. Porque &agrave;s vezes voc&ecirc; est&aacute; atendendo e de repente&hellip; BUM&hellip; &Eacute; como se fosse o estouro de uma bexiga, uma coisa assim mais&hellip; Ele chega a abrir. Porque a pele vai tentando&hellip; Resistindo, resistindo&hellip; Os gases v&atilde;o trabalhando e aumentando. V&atilde;o aumentando, v&atilde;o aumentando, e chega uma hora que&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Incha, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Incha. Exatamente. Agora, isso n&atilde;o aconteceu aqui porque a gente v&ecirc; o corte linear em volta, aqui no peito e tal&hellip; Num caso desses, quando rompe o abd&ocirc;men, a pele&hellip; &Eacute; como se ela tivesse sido arrebentada. Ela fica esgar&ccedil;ada, os peda&ccedil;os s&atilde;o completamente irregulares.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. Porque eu fico vendo, por exemplo, esses buracos aqui na pele&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O corpo de Evandro tinha v&aacute;rias perfura&ccedil;&otilde;es, especialmente nas pernas. Essas, diferentes da les&atilde;o nas costas, foram provavelmente causadas por animais, como urubus.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O pr&oacute;prio rosto&hellip; Eu fico imaginando&hellip; N&atilde;o poderia estar cheirando isso aqui?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o, porque o olho&hellip; O humor aquoso &eacute; como se fosse uma gelatina. Isso dissolve rapidamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o, mas eu digo, bochecha&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O rosto de Evandro tinha uma colora&ccedil;&atilde;o avermelhada, indicando que a primeira camada de pele j&aacute; n&atilde;o estava mais l&aacute;. Poderia ter sido arrancada ou sa&iacute;do pelo processo de decomposi&ccedil;&atilde;o natural.<\/p>\n\n\n\n<p>A &uacute;nica diferen&ccedil;a era bem na cabe&ccedil;a, no cr&acirc;nio, onde era poss&iacute;vel ver uma camada de pele mais profunda, ou at&eacute; mesmo o pr&oacute;prio osso. Era o escalpo, uma les&atilde;o sempre citada no caso Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: A&iacute; que est&aacute; o detalhe. Ele n&atilde;o estava direto no osso. Foi retirada uma camada, a camada superficial. &Eacute; a quest&atilde;o l&aacute; do escalpo. Ele foi retirado ou ele foi arrancado? Veja, &eacute; uma coisa que a gente n&atilde;o tem como precisar, porque eu n&atilde;o tenho pele aqui que demonstre que ele est&aacute; arrancado. Digamos assim, foi removido, n&eacute;? Saiu uma camada. Pode ter sido, digamos&hellip; Um animal puxou&hellip; Como ele estava&hellip; As camadas v&atilde;o se soltando &agrave; medida que o corpo vai ficando em contato com o ar&hellip; Ele remove uma camada. Pode ter sido um animal que puxou? Pode. Pode ter sido um animal que puxou.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute;. Porque a pele vai se soltando, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Isso. Mas voc&ecirc; veja que aqui&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aqui est&aacute; muito retinho&hellip; Aqui, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse momento, eles observam com aten&ccedil;&atilde;o uma linha que divide a parte de cima da bochecha e onde come&ccedil;a a &aacute;rea na altura da orelha.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute;, exatamente. Parece que ele segue essa linha de corte, parece. Mas, assim, aqui ele tem um pouco de irregular&hellip; Mas veja que aqui, ainda, as bochechas n&atilde;o est&atilde;o expostas. E a gente&hellip; N&atilde;o &eacute; que nem a barriga, que a gente tem uma camada adiposa. N&atilde;o, ali &eacute; col&aacute;geno, pele e s&oacute;, n&atilde;o tem assim nada mais de&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: A boca estava&hellip; Parece que est&aacute; inchada&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: T&aacute;, exato. Os l&aacute;bios dele&hellip; Isso&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E os olhos j&aacute; tinham sido tirados por animais? Ou voc&ecirc; viu uma gelatina ali?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Ali o que voc&ecirc; observava &eacute; o seguinte&hellip; &Eacute; como se fosse esse conte&uacute;do aqui, &oacute;. Naquela foto que est&aacute; aqui assim&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham, que tinha lama&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute;, &eacute;. Ele dissolveu&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Dissolveu&hellip; T&aacute;. Certo. Porque tem essa discuss&atilde;o se foram os animais que arrancaram os olhos&hellip; Porque &eacute; uma das primeiras partes que os animais arrancam.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Pode. &Eacute; bem prov&aacute;vel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;, sim. At&eacute; os pr&oacute;prios urubus acabam arrancando&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: E esses furos, inclusive, podem ser bicada do pr&oacute;prio urubu.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Daqui? Da perna?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: No bra&ccedil;o tamb&eacute;m tem ali&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: No bra&ccedil;o tamb&eacute;m. &Eacute;, s&oacute; que aquela das costas, o doutor acredita que n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o, ali n&atilde;o. A&iacute; &eacute; facada&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aqui &eacute;&hellip; Um punhal&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute;. Alguma coisa assim, um instrumento perfurocortante.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Ok. Tem at&eacute;&hellip; &ldquo;A les&atilde;o caracter&iacute;stica de ferida contusa encontrada na regi&atilde;o posterior esquerda do t&oacute;rax&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Ent&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &ldquo;[&hellip;] putrefa&ccedil;&atilde;o que o corpo apresentava&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Ela &eacute; contusa, mas internamente ela tem isso aqui&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Neste ponto, o Dr. Lipinski mostrou novamente a parte interna do corpo, onde ficaria o cora&ccedil;&atilde;o. Ali &eacute; poss&iacute;vel ver uma mancha mais escurecida, como se tivesse sangrado.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Ent&atilde;o, foi&hellip; Digamos assim, na hora que ele levou o golpe, foi com bastante for&ccedil;a. Algu&eacute;m chegou e entrou com vontade ali, que era para fazer com que&hellip; Vamos supor&hellip; Eu n&atilde;o me recordo da estatura dele&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Um metro e pouquinho&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Ent&atilde;o, uma faca a&iacute; de 30 cent&iacute;metros daria aqui&hellip; Aqui, &oacute;, j&aacute; no cora&ccedil;&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: A l&acirc;mina n&atilde;o precisa ser muito grande.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O LAUDO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O nome do laudo que o doutor Lipinski produziu &eacute; bem extenso: &ldquo;Laudo de Exame e Levantamento de Local de Achado de Cad&aacute;ver&rdquo;. Ivan ficou curioso em entender o motivo do nome, e isso j&aacute; o levou a outras perguntas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Achado de cad&aacute;ver. Por qu&ecirc;? Porque se eu digo &ldquo;local de morte&rdquo;, eu estou dizendo que ele foi morto ali. E essa tamb&eacute;m foi uma preocupa&ccedil;&atilde;o. A gente n&atilde;o conseguiu encontrar nada que determinasse que o fato aconteceu ali. Ent&atilde;o, eu j&aacute; preciso mudar no t&iacute;tulo isso. Eu j&aacute; procurei tomar toda a precau&ccedil;&atilde;o para amanh&atilde; ou depois n&atilde;o&hellip; &Agrave;s vezes voc&ecirc; est&aacute; com muito servi&ccedil;o, est&aacute; fazendo um laudo e esquece de um detalhe desses. Ent&atilde;o, eu procurei&hellip; Eu repassei, fiz uma, duas, tr&ecirc;s, para n&atilde;o deixar que um laudo desse&hellip; Porque eu j&aacute; imaginei&hellip; Pela brutalidade do crime, esse caso ia ter bastante repercuss&atilde;o no mundo jur&iacute;dico. Ent&atilde;o, essa repercuss&atilde;o&hellip; Amanh&atilde; ou depois, poderia ser questionado isso da&iacute;. &ldquo;N&atilde;o, mas ali foi o local&hellip;&rdquo;. N&atilde;o, n&atilde;o foi o local de morte. Ali foi o local onde foi encontrado o corpo daquela crian&ccedil;a.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim, sim. Ent&atilde;o, tira um monte de foto, o que foi muito bom para a gente poder analisar, na &eacute;poca&hellip; Falando at&eacute; dessa quest&atilde;o da achada, o doutor n&atilde;o acredita que o menino foi morto ali?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o. N&atilde;o tinha elementos para&hellip; Veja, se ele tivesse sido morto ali, quando a gente remexeu aquelas folhas, eu ia encontrar sangue ali no ch&atilde;o, e n&atilde;o tinha. Mas sangue em quantidade. Pelo menos um litro, no m&iacute;nimo. Porque um menino desses a&iacute; devia pesar o qu&ecirc;? Uns 40 quilos? A tua volemia &eacute; 7%. Seria em torno de 2,8 a 3 litros que seria o que ele ia ter de sangue. E ia extravasar praticamente tudo. Ent&atilde;o, n&atilde;o teria como passar em branco uma quantidade de sangue dessas. Ele n&atilde;o ia conseguir se infiltrar no ch&atilde;o. Ele ia ficar em cima das folhas, ia aderir no corpo&hellip; Por mais que chovesse e coisa&hellip; N&atilde;o ia ter essa&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o ele foi morto em outro lugar&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Em outro local e jogado ali.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ele sumiu na segunda-feira e foi encontrado no s&aacute;bado. Quando que o doutor chuta&hellip; Chutaria que ele foi morto?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Eu acredito que em torno de, no m&aacute;ximo, tr&ecirc;s dias.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o, ele pode ter ficado em cativeiro segunda, ter&ccedil;a, quarta&hellip; Quarta foi morto?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Exatamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: No m&aacute;ximo quarta-feira?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Da&iacute; ele &eacute; morto&hellip; O doutor Francisco geralmente falava que ele tinha que ter sido&hellip; Que ele estava com um estado de putrefa&ccedil;&atilde;o que &eacute; como se ele tivesse sido&hellip; Um corpo que, assim, morreu sozinho num apartamento, sabe? E acelerou a putrefa&ccedil;&atilde;o de alguma forma, da pele, que tem &aacute;reas avan&ccedil;adas de putrefa&ccedil;&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Olha&hellip; Veja bem, isso pode acontecer? Pode. Mas eu acredito que n&atilde;o nesse caso. Porque voc&ecirc; v&ecirc; o corte linear. Quando voc&ecirc; tem um estado adiantado de putrefa&ccedil;&atilde;o e o corpo chega a romper o abd&ocirc;men&hellip; Veja, ele vai romper no meio. Eu teria a pele&hellip; Ela vai fazendo isso, isso, isso, isso, isso&hellip; P&Aacute;&hellip; Ela vai estar ali fl&aacute;cida, totalmente irregular, mas vai estar ali. Ali n&atilde;o tinha pele. E voc&ecirc; v&ecirc; que nessa parte aqui superior do t&oacute;rax, &eacute; linear&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Foi cortado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Foi cortado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim. N&atilde;o, o que ele diz &eacute; assim&hellip; O que eu consigo entender, t&aacute;? Que o menino foi morto, foi colocado em algum lugar que acelerou a putrefa&ccedil;&atilde;o da pele. Porque ele n&atilde;o conseguia, por exemplo, ver a les&atilde;o que tinha no pesco&ccedil;o exatamente. Assim, tinha partes da pele em que estava muito acelerada a putrefa&ccedil;&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Mas a les&atilde;o no pesco&ccedil;o, voc&ecirc; pode ver ela externamente. Mas &eacute; mais importante ver ela internamente. O legista teria total condi&ccedil;&atilde;o de ver aqui as marcas que iam ficar, porque veja junto comigo aqui&hellip; Ele est&aacute; vivo. Ele &eacute; esganado. Eu vou ter&hellip; &Agrave;s vezes a gente d&aacute; uma batidinha na pele aqui, alguma coisa, e j&aacute; fica roxo. Se voc&ecirc; vai imprimir uma for&ccedil;a bem maior para tentar matar uma pessoa, a for&ccedil;a que voc&ecirc; vai aplicar ali &eacute; muito maior. Voc&ecirc; veja, uma coisa de nada aqui j&aacute; ficou roxo, j&aacute; fez todo esse espectro equim&oacute;tico. Voc&ecirc; acha que aqui, internamente, n&atilde;o teria a constri&ccedil;&atilde;o, o rompimento de vaso, tudo isso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim. Isso, inclusive&hellip; Al&eacute;m do doutor Francisco, refor&ccedil;a a quest&atilde;o do esganamento a doutora <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/beatriz-sottile-franca\/\" target=\"_self\" title=\"Dentista que realizou o exame de arcada dent&aacute;ria de Evandro\" class=\"encyclopedia\">Beatriz Sottile Fran&ccedil;a<\/a>, por conta dos dentes rosados.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/beatriz-sottile-franca\/\" target=\"_self\" title=\"Dentista que realizou o exame de arcada dent&aacute;ria de Evandro\" class=\"encyclopedia\">Beatriz Sottile Fran&ccedil;a<\/a> foi a odontolegista que realizou o exame de arcada dent&aacute;ria de Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Laudo-Necropsia.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Laudo odontol&oacute;gico &ndash; caso Evandro (incluso no exame de necropsia)<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Os vasos romperam, ent&atilde;o da&iacute; teria uma constri&ccedil;&atilde;o que rompe os vasos, e da&iacute; depois&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Pode. Como voc&ecirc; falou, pode ter sido das duas formas. O cara foi l&aacute;, esganou, ficou na d&uacute;vida, foi l&aacute; e deu uma facada. Talvez ele n&atilde;o tenha morrido na hora. N&atilde;o chegou a esganar mesmo. O hioide ia ser o suficiente para voc&ecirc; determinar isso&hellip; Teria condi&ccedil;&atilde;o de voc&ecirc; atestar porque na esganadura&hellip; Imagine um adulto esganando uma crian&ccedil;a. Com certeza ia ter fratura de hioide. N&atilde;o tem como n&atilde;o acontecer isso. &Eacute; muita for&ccedil;a que foi aplicada ali.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. O doutor j&aacute; viu o v&iacute;deo da necropsia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: Eu vi uns anos atr&aacute;s. Para falar bem a verdade, acho que faz mais de 20 anos que eu vi esse filme. Foi nos anos 90 isso a&iacute;. Foi perto da &eacute;poca do julgamento l&aacute; em S&atilde;o Jos&eacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim. O doutor quer dar uma olhada para ver se&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: N&atilde;o fa&ccedil;o muita quest&atilde;o, sinceramente. &Eacute; engra&ccedil;ado&hellip; Caso que envolve crian&ccedil;a me marca muito. Eu n&atilde;o&hellip; Olha, adulto&hellip; Independente se &eacute; homem ou mulher&hellip; N&atilde;o cria&hellip; Porque, veja, um adulto tem a possibilidade de uma defesa. Pode ser uma mulher, pode ser um homem, n&atilde;o importa, seja l&aacute; quem for. A n&atilde;o ser que seja surpreendido, pego&hellip; A trai&ccedil;&atilde;o, alguma coisa&hellip; Mas a pessoa tem como reagir. Voc&ecirc; v&ecirc; l&aacute;, &agrave;s vezes, a mulher &eacute; v&iacute;tima de um estupro, ela reage, ela agride, ela tem marcas. Voc&ecirc; vai l&aacute;, v&ecirc;, examina o corpo, voc&ecirc; vai colher tecido embaixo da unha. Quer dizer, voc&ecirc; v&ecirc; que ela morreu lutando. Agora, uma crian&ccedil;a&hellip; &Eacute; uma coisa assim, &eacute; de uma brutalidade t&atilde;o grande. &Agrave;s vezes o cara chega pra uma crian&ccedil;a, oferece um doce, na maior inoc&ecirc;ncia a crian&ccedil;a vai e ali ela entrou no caminho da morte. Ela n&atilde;o tem&hellip; Ela n&atilde;o v&ecirc; maldade nas coisas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute; desigual.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dr. Lipinski: &Eacute; desigual. &Eacute; desproporcional. Ent&atilde;o, &eacute; uma coisa assim que&hellip; Olha&hellip; &Eacute; uma coisa que na minha cabe&ccedil;a&hellip; Eu n&atilde;o aceito uma coisa dessas, sabe? Eu acho que ningu&eacute;m aceita. Mas um adulto ainda&hellip; Seja o motivo que for, voc&ecirc; ainda pensa assim: &ldquo;poxa, p&ocirc;de reagir, p&ocirc;de tentar se defender&rdquo;, alguma coisa. [&hellip;] Agora, a crian&ccedil;a n&atilde;o. Primeiro, que ela est&aacute; ali de mente aberta, ela se entrega, ela vai l&aacute; e coisa&hellip; E p&ocirc;, ela vai por causa de um doce, &agrave;s vezes por causa de uma brincadeira, por causa de uma bola, uma coisa assim t&atilde;o&hellip; Sabe? &Eacute; uma coisa que n&atilde;o tem como&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Ivan, a conversa com o doutor Lipinski foi muito esclarecedora para compreender melhor n&atilde;o s&oacute; as dificuldades t&eacute;cnicas que seu trabalho exigia na &eacute;poca, mas tamb&eacute;m para entender detalhes do caso que tinham passado batido. Detalhes que s&atilde;o importantes se Ivan quer saber mais sobre o modus operandi do assassino de Evandro, Leandro e possivelmente de Sandra.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso Evandro &eacute; o que mais possui informa&ccedil;&otilde;es, ent&atilde;o &eacute; por isso que Ivan achou importante come&ccedil;ar por ele. S&oacute; que nem sempre as impress&otilde;es do perito Lipinski eram as mesmas dos m&eacute;dicos legistas. Ali&aacute;s, nem mesmo entre os peritos eram sempre as mesmas.<\/p>\n\n\n\n<p>O doutor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/arthur-conrado-drischel\/\" target=\"_self\" title=\"Perito que auxiliou Lipinski na produ&ccedil;&atilde;o do laudo de exame de local do caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Arthur Conrado Drischel<\/a>, por exemplo, o perito que assinou o laudo junto com Lipinski, dizia que o corpo de Evandro havia sido colocado naquele matagal poucas horas antes de ser encontrado. Ele acreditava nisso por conta das formas que as folhas estariam. Mas h&aacute; um problema importante: Drischel n&atilde;o estava no local do crime. Quem estava era o doutor Lipinski. E, por isso, a sua opini&atilde;o de que o corpo havia sido deixado l&aacute; h&aacute; mais dias torna-se relevante.<\/p>\n\n\n\n<p>H&aacute; tamb&eacute;m a quest&atilde;o da les&atilde;o nas costas, que poderia ter sido ocasionada por uma faca ou punhal. Essa les&atilde;o sequer consta no laudo de necropsia de Evandro, e a opini&atilde;o do doutor Francisco, que foi o legista principal, era de que ela teria sido causada por bicada de urubu. Outra diferen&ccedil;a substancial &eacute; que Lipinski acredita que Evandro teria sido morto justamente por este ferimento das costas &ndash; e n&atilde;o por esganadura, como Francisco conclu&iacute;a.<\/p>\n\n\n\n<p>O que Ivan espera &eacute; que, ao descobrir mais sobre como Evandro foi morto, possa tentar desvendar o que pode ter acontecido com Leandro, e talvez com Sandra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, Ivan precisava conferir essas informa&ccedil;&otilde;es com o doutor Francisco, para entender melhor o que o levou &agrave;quelas conclus&otilde;es. E, por sorte, ele ainda est&aacute; vivo e aceitou conversar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Perito<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":25,"template":"","encyclopedia-category":[6],"encyclopedia-tag":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia\/383"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/encyclopedia"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=383"}],"wp:term":[{"taxonomy":"encyclopedia-category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-category?post=383"},{"taxonomy":"encyclopedia-tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-tag?post=383"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}