{"id":349,"date":"2023-11-21T00:05:00","date_gmt":"2023-11-21T03:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/?post_type=encyclopedia&#038;p=349"},"modified":"2023-11-20T11:18:14","modified_gmt":"2023-11-20T14:18:14","slug":"extras-episodio-04","status":"publish","type":"encyclopedia","link":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/extras-episodio-04\/","title":{"rendered":"Extras Epis\u00f3dio 04"},"content":{"rendered":"\n<p>O corpo de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/evandro-ramos-caetano\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida e encontrada morta em abril de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Evandro Ramos Caetano<\/a>, de 6 anos, foi encontrado em um matagal em Guaratuba, no litoral do Paran&aacute;, em 11 de abril de 1992, cinco dias ap&oacute;s ter desaparecido. Ele apresentava uma s&eacute;rie de mutila&ccedil;&otilde;es muito espec&iacute;ficas: estava em avan&ccedil;ado estado de putrefa&ccedil;&atilde;o, escalpelado, sem as m&atilde;os e sem os dedos dos p&eacute;s. Al&eacute;m de tudo isso, tamb&eacute;m tinha o ventre completamente aberto, com as costelas serradas e sem nenhum dos &oacute;rg&atilde;os internos.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele mesmo matagal, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a> foi encontrado quase um ano depois. Apesar de ele ter sumido dois meses antes de Evandro, em fevereiro de 1992, a ossada s&oacute; foi descoberta em mar&ccedil;o de 1993. Pelo avan&ccedil;ado estado de decomposi&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel saber detalhes sobre o tipo de viol&ecirc;ncia que ele pode ter sofrido. Contudo, uma coisa chama a aten&ccedil;&atilde;o: essa ossada estava sem as m&atilde;os.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo, foram duas crian&ccedil;as muito parecidas, quase da mesma idade, em uma cidade muito pequena, que desapareceram em datas pr&oacute;ximas. Os corpos de ambas foram encontrados no mesmo matagal, a uma dist&acirc;ncia estimada entre 200 e 400 metros. E os dois estavam sem as m&atilde;os.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas entre esses dois crimes, Ivan Mizanzuk j&aacute; considerava que existiam coincid&ecirc;ncias demais, o que o levava a crer que a mesma pessoa teria matado ambos os meninos. E ele sempre suspeitou que, se esse fosse mesmo o caso, o assassino muito provavelmente teria feito mais v&iacute;timas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, em setembro de 2021, ap&oacute;s uma fala do promotor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/paulo-markowicz\/\" target=\"_self\" title=\"Promotor que atuou nos &uacute;ltimos j&uacute;ris do caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Paulo Markowicz<\/a> no Grupo de Trabalho do Caso Evandro, realizado pela Secretaria de Justi&ccedil;a do Paran&aacute;, ele conheceu o caso de Sandra. E foi quando toda a investiga&ccedil;&atilde;o tomou um novo rumo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O CASO SANDRINHA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No ano de 1989, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/sandra-matheus-da-luz\/\" target=\"_self\" title=\"Menina de 11 anos encontrada morta em Fazenda Rio Grande em 1989\" class=\"encyclopedia\">Sandra Mateus da Luz<\/a> tinha 11 anos. Ela morava em Fazenda Rio Grande, na regi&atilde;o metropolitana de Curitiba. Na &eacute;poca, essa ainda n&atilde;o era uma cidade independente e fazia parte de Mandirituba.<\/p>\n\n\n\n<p>Para quem n&atilde;o &eacute; do Paran&aacute;, &eacute; importante explicar uma quest&atilde;o geogr&aacute;fica. Se uma pessoa mora no Centro de Curitiba, Fazenda Rio Grande fica a cerca de 30 km de dist&acirc;ncia para o sul, um trajeto que hoje, de carro, dura entre 50 minutos a uma hora.<\/p>\n\n\n\n<p>A cidade &eacute; cortada no meio pela BR-116, e boa parte do munic&iacute;pio se desenvolveu em torno dessa rodovia, que &eacute; marcada por v&aacute;rios postos de gasolina.<\/p>\n\n\n\n<p>Um deles &eacute; o chamado Posto 22, que fica no km 122 da BR-116. Esse &eacute; um ponto de refer&ecirc;ncia para entender a hist&oacute;ria da Sandra, pois tudo acontece quase que em torno dele. &Eacute; um estabelecimento gigante, com estacionamento para caminhoneiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Sandra morava a 500 metros ao sul do posto de gasolina, em uma casa bem simples, perto de uma regi&atilde;o conhecida como Parque Verde. A resid&ecirc;ncia n&atilde;o tinha luz el&eacute;trica e nem &aacute;gua encanada. No inqu&eacute;rito, o seu endere&ccedil;o &eacute; registrado como &ldquo;BR-116, km 122 e meio&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/Mapa-FRG-1985.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mapa de Fazenda Rio Grande 1985<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/Mapa-FRG-2003.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Mapa de Fazenda Rio Grande 2003<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>*<em>O assassinato de Sandra ocorreu em 1989. As imagens de sat&eacute;lite mais pr&oacute;ximas que existem dessa &eacute;poca s&atilde;o de 1985 e de 2003. A resolu&ccedil;&atilde;o da primeira &eacute; muito baixa, ent&atilde;o disponibilizamos a de 2003 tamb&eacute;m para melhor visualiza&ccedil;&atilde;o. Contudo, &eacute; necess&aacute;rio ter em mente que a regi&atilde;o mudou muito de 1989 para 2003, sendo a primeira imagem (de 1985) mais pr&oacute;xima da realidade na &eacute;poca do crime<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela morava junto com a m&atilde;e, a dona <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/juvelina-marta-de-lima\/\" target=\"_self\" title=\"M&atilde;e de Sandra, menina de 11 anos morta em 1989 em Fazenda Rio Grande\" class=\"encyclopedia\">Juvelina Marta de Lima<\/a>, e duas irm&atilde;s: M&aacute;rcia, de 14 anos, e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/maria-edileide\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; mais nova de Sandra Mateus da Luz\" class=\"encyclopedia\">Maria Edileide<\/a>, de oito anos. Na casa ao lado, morava um casal de tios e uma prima, que tamb&eacute;m se chamava M&aacute;rcia e tinha 13 anos. Para diferenciar as duas, Ivan chama uma de M&aacute;rcia Irm&atilde; e a outra de M&aacute;rcia Prima.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre a casa de Sandra e o Posto 22, havia poucas moradias, algumas ch&aacute;caras e muito mato. Atr&aacute;s do estabelecimento, ficava localizada a escola municipal Guisela Kuss Rieke, conhecida apenas como &ldquo;Guisa&rdquo;. Ivan n&atilde;o conseguiu confirmar se Sandra estudava l&aacute;, ou sequer se estava indo para a escola na &eacute;poca.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 4 de junho de 1989, um domingo, acontecia uma festa junina na escola Guisa, que ficava a uns 10 minutos da casa de Sandra a p&eacute;. Havia dois caminhos para l&aacute;: um pela BR e outro pelo meio do mato. <\/p>\n\n\n\n<p>As duas M&aacute;rcias, a irm&atilde; e a prima da menina, tinham idades pr&oacute;ximas, o que as fazia serem mais amigas. Naquele domingo, por volta das 14h, as duas decidiram ir juntas para a festa junina. Mais tarde, em hor&aacute;rio dif&iacute;cil de precisar pelos depoimentos tomados, a M&aacute;rcia Irm&atilde; viu chegarem na festa as duas irm&atilde;s menores: Sandra e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/maria-edileide\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; mais nova de Sandra Mateus da Luz\" class=\"encyclopedia\">Maria Edileide<\/a>, de apenas oito anos.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com os relatos, Sandra aparentava querer ficar na festa, mas a irm&atilde; menor reclamava muito do frio. Por causa disso, as duas brigaram, e Sandra se separou dela. As M&aacute;rcias, irm&atilde; e prima, tamb&eacute;m queriam curtir o evento, at&eacute; por serem mais velhas, e n&atilde;o estavam afim de cuidar das irm&atilde;s menores.<\/p>\n\n\n\n<p>Por&eacute;m, ap&oacute;s Sandra fugir no meio da multid&atilde;o, M&aacute;rcia Irm&atilde; foi at&eacute; a pequena <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/maria-edileide\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; mais nova de Sandra Mateus da Luz\" class=\"encyclopedia\">Maria Edileide<\/a> e decidiu que era melhor lev&aacute;-la para casa junto com a prima. Ent&atilde;o, no fim da tarde daquele domingo, todas as meninas voltaram para casa &ndash; com exce&ccedil;&atilde;o de Sandra. Assim que deixou <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/maria-edileide\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; mais nova de Sandra Mateus da Luz\" class=\"encyclopedia\">Maria Edileide<\/a> na resid&ecirc;ncia, a M&aacute;rcia Irm&atilde; resolveu voltar para a festa, para tentar buscar Sandra. A M&aacute;rcia Prima decidiu ficar em casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse meio tempo, Sandra falou com um conhecido seu que estava na festa, um homem que Ivan vai chamar de &ldquo;Jo&atilde;o Ant&ocirc;nio&rdquo;. Esse n&atilde;o &eacute; o nome verdadeiro, &eacute; um pseud&ocirc;nimo por motivo que logo ficar&aacute; claro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele tinha 40 anos e era vigilante. Segundo o pr&oacute;prio depoimento de Jo&atilde;o Ant&ocirc;nio, Sandra teria dito para ele que havia brigado com as irm&atilde;s, e queria que ele a acompanhasse de volta para casa. Ele esperou um pouco e, em seguida, levou-a at&eacute; o Posto 22, quando Sandra lhe disse que dali poderia ir sozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao que tudo indica, Sandra seguiu para casa pela BR, enquanto a irm&atilde; M&aacute;rcia foi pelo caminho do mato. Ou vice-versa. Isso porque, ao chegar, Sandra encontrou a m&atilde;e, que lhe disse que a irm&atilde; tinha sa&iacute;do atr&aacute;s dela. A m&atilde;e falou para ela n&atilde;o sair mais, mas Sandra a ignorou e caminhou em dire&ccedil;&atilde;o ao Posto 22 &ndash; provavelmente na esperan&ccedil;a de encontrar a irm&atilde;.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, M&aacute;rcia foi at&eacute; a festa e n&atilde;o achou Sandra, que, a esta altura, tamb&eacute;m estava procurando por ela. Decidiu, ent&atilde;o, voltar para casa. Ao chegar, foi informada pela m&atilde;e que Sandra havia sa&iacute;do novamente em busca dela. Ap&oacute;s o desencontro, M&aacute;rcia Irm&atilde; decidiu n&atilde;o sair mais e esperar por Sandra.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent&atilde;o, por volta das 20h, uma vizinha chamada Cec&iacute;lia foi para o restaurante do Posto 22 para comprar cigarros. L&aacute;, encontrou Sandra sentada nas escadas. De acordo com o seu depoimento, Cec&iacute;lia chegou a perguntar para a menina o que ela estava fazendo ali sozinha, mas Sandra n&atilde;o respondeu. De acordo com o inqu&eacute;rito, Cec&iacute;lia foi a &uacute;ltima pessoa a ver a garota viva.<\/p>\n\n\n\n<p>Geralmente, para tornar o trabalho mais transparente, Ivan costuma disponibilizar partes dos autos de processo e inqu&eacute;rito para que os ouvintes tenham acesso &agrave;s informa&ccedil;&otilde;es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No caso de Sandra, isso n&atilde;o ser&aacute; poss&iacute;vel por se tratar de uma investiga&ccedil;&atilde;o arquivada que cont&eacute;m dados sens&iacute;veis de pessoas que n&atilde;o podem mais ser acusadas de nada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, para preservar essas pessoas, tanto testemunhas como suspeitos, ele vai usar pseud&ocirc;nimos. Os &uacute;nicos nomes que vai manter s&atilde;o os da fam&iacute;lia da Sandra. O pr&oacute;prio nome da Cec&iacute;lia, citado anteriormente, &eacute; um pseud&ocirc;nimo.<\/p>\n\n\n\n<p>O inqu&eacute;rito de Sandra n&atilde;o possui boletim de ocorr&ecirc;ncia sobre o desaparecimento. A m&atilde;e, a dona Juvelina, n&atilde;o sabia que tinha que fazer uma den&uacute;ncia em uma delegacia da Pol&iacute;cia Civil. Nos dias que se sucederam, ela s&oacute; foi at&eacute; um posto da Pol&iacute;cia Militar que havia pr&oacute;ximo de casa para avisar do desaparecimento da filha, mas n&atilde;o avan&ccedil;ou com isso.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent&atilde;o, chegou o dia 12 de junho de 1989, uma segunda-feira, Dia dos Namorados. Sandra estava desaparecida h&aacute; nove dias. O senhor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/ilario-dolci\/\" target=\"_self\" title=\"Homem que encontrou o corpo de Sandra em um terreno baldio em junho de 1989\" class=\"encyclopedia\">Il&aacute;rio Dolci<\/a> morava em uma ch&aacute;cara entre a casa da menina e o Posto 22.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda manh&atilde;, ele tinha o h&aacute;bito de soltar os cachorros para passear pelo campo. Naquele dia, um dos animais n&atilde;o voltou. Decidiu, ent&atilde;o, ir atr&aacute;s dele. Quando o encontrou, notou que o c&atilde;o tinha passado para o lado de fora da propriedade, que era demarcada por uma cerca de arame. Ao se aproximar, viu que o cachorro estava em cima do corpo de uma crian&ccedil;a. Era Sandra.<\/p>\n\n\n\n<p>O inqu&eacute;rito de Sandra inicia com uma portaria de abertura de investiga&ccedil;&atilde;o ap&oacute;s o corpo ter sido encontrado. No documento, est&aacute; escrito o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Chegando ao conhecimento desta Autoridade Policial que, por volta das 8 horas da manh&atilde; do dia de hoje, nas proximidades do Km 122 da BR-116, em um terreno baldio, foi encontrado o corpo de uma menor o qual apresentava<\/em> <em>algumas partes dilaceradas, sendo o corpo identificado como sendo da menor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/sandra-matheus-da-luz\/\" target=\"_self\" title=\"Menina de 11 anos encontrada morta em Fazenda Rio Grande em 1989\" class=\"encyclopedia\">Sandra Mateus Da Luz<\/a>, de 11 anos de idade<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Sandra foi encontrada sem as m&atilde;os e escalpelada &ndash; fortes semelhan&ccedil;as com o corpo de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/evandro-ramos-caetano\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida e encontrada morta em abril de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Evandro Ramos Caetano<\/a>, em um crime que ocorreria<em> <\/em>tr&ecirc;s anos depois em Guaratuba. Mas havia algumas diferen&ccedil;as. Para come&ccedil;ar, Evandro estava com o ventre<em> <\/em>aberto e sem os &oacute;rg&atilde;os internos. Esse n&atilde;o era o caso de Sandra. E, em rela&ccedil;&atilde;o ao<em> <\/em>escalpo, o ato praticado na menina foi bem mais violento: al&eacute;m do couro cabeludo, toda a m&aacute;scara<em> <\/em>facial foi arrancada, ficando apenas o cr&acirc;nio &agrave; mostra, sem os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela tamb&eacute;m n&atilde;o demonstrava o mesmo n&iacute;vel de putrefa&ccedil;&atilde;o de Evandro. Ele ficou sumido por cinco dias at&eacute; o corpo ser encontrado, e a decomposi&ccedil;&atilde;o estava bem adiantada. J&aacute; Sandra havia desaparecido por nove dias, e n&atilde;o apresentava uma putrefa&ccedil;&atilde;o t&atilde;o avan&ccedil;ada. Isso significa que, muito provavelmente, desde que foi sequestrada, a menina ficou presa em algum lugar at&eacute; ser morta.<\/p>\n\n\n\n<p>Como <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/ilario-dolci\/\" target=\"_self\" title=\"Homem que encontrou o corpo de Sandra em um terreno baldio em junho de 1989\" class=\"encyclopedia\">Il&aacute;rio Dolci<\/a> tinha o h&aacute;bito de soltar os cachorros todos os dias, e pelo estado do local onde o corpo de Sandra foi descoberto, o cad&aacute;ver provavelmente estava l&aacute; por apenas algumas horas at&eacute; ser achado.<\/p>\n\n\n\n<p>E h&aacute; mais uma diferen&ccedil;a bem importante em rela&ccedil;&atilde;o ao Evandro: a necr&oacute;psia no Instituto M&eacute;dico Legal de Curitiba constatou que Sandra foi violentada sexualmente antes de morrer. Mas n&atilde;o foi encontrado nenhum vest&iacute;gio de s&ecirc;men. <\/p>\n\n\n\n<p>Dadas as diferen&ccedil;as, &eacute; importante tamb&eacute;m dizer que outras semelhan&ccedil;as chamam a aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, apesar da aus&ecirc;ncia de m&atilde;os e rosto, o corpo de Sandra estava vestido. Ou seja, assim como Leandro e Evandro, ela estava com as roupas. &Eacute; importante lembrar que qualquer compara&ccedil;&atilde;o com a ossada de Leandro fica prejudicada pela falta de informa&ccedil;&otilde;es e pelo avan&ccedil;ado estado de decomposi&ccedil;&atilde;o em que ele foi encontrado.<\/p>\n\n\n\n<p>N&atilde;o h&aacute; como saber, por exemplo, se as roupas dele tinham vest&iacute;gios de sangue. O cal&ccedil;&atilde;o que Evandro vestia estava completamente ensanguentado. J&aacute; no caso de Sandra, as roupas estavam relativamente limpas, como se o assassino tivesse vestido a v&iacute;tima ap&oacute;s as mutila&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n\n\n\n<p>Por mat&eacute;rias de jornal, &eacute; poss&iacute;vel saber que pr&oacute;ximo &agrave; ossada de Leandro foram encontrados os seus chinelos. No caso de Evandro, os chinelos tamb&eacute;m estavam presentes, mas de uma forma muito peculiar: ap&oacute;s a descoberta do corpo, uma varredura foi feita na regi&atilde;o em um raio de mais ou menos 40 a 50 metros. Nada foi encontrado na ocasi&atilde;o. No entanto, dias depois, os chinelos surgiram por l&aacute;. Ou seja, aparentemente, o assassino voltou ao matagal para se desfazer desses objetos.<\/p>\n\n\n\n<p>J&aacute; em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Sandra, o corpo foi encontrado em 12 de junho de 1989, e n&atilde;o h&aacute; nenhuma men&ccedil;&atilde;o sobre os chinelos terem sido achados no local. Contudo, quase um m&ecirc;s depois, em 7 de julho, o doutor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/inacio-raymundo-pensin\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado respons&aacute;vel pelas investiga&ccedil;&otilde;es iniciais do caso Sandrinha\" class=\"encyclopedia\">In&aacute;cio Raymundo Pensin<\/a>, o delegado respons&aacute;vel, produziu um of&iacute;cio dizendo que o cal&ccedil;ado deveria ser encaminhado para exame:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Um dos chinelos foi encontrado &agrave; beira da estrada secund&aacute;ria, a cerca de 20 metros do local onde foi encontrado o corpo; o outro p&eacute; foi encontrado no mesmo terreno baldio que o corpo foi encontrado, a uma dist&acirc;ncia de uns 10 metros<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O doutor In&aacute;cio j&aacute; &eacute; aposentado h&aacute; muito tempo e n&atilde;o quis dar entrevista.<em> <\/em>Mas falou com Ivan diversas vezes para tirar algumas d&uacute;vidas. Em uma das<em> <\/em>conversas, o ex-delegado foi questionado sobre quando exatamente os chinelos haviam sido encontrados, pois no inqu&eacute;rito isso n&atilde;o era muito claro. Ele n&atilde;o soube responder.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo inqu&eacute;rito em si, baseando-se nas datas, Ivan tem a impress&atilde;o de que os chinelos foram achados alguns dias depois, exatamente como no caso de Evandro. E, nas investiga&ccedil;&otilde;es sobre a morte do menino em Guaratuba, n&atilde;o h&aacute; nenhum laudo que aponte onde os chinelos estavam e a que dist&acirc;ncia do corpo. S&oacute; h&aacute; uma foto que mostra o matagal e um canal cortando o cen&aacute;rio. Do lado esquerdo do canal, uma seta indica o local onde o cad&aacute;ver foi jogado. Do lado direito, h&aacute; duas setas, distantes uma da outra, apontando os lugares onde cada p&eacute; do chinelo estava. Ou seja, eles se encontravam longe um do outro. Exatamente como no caso de Sandra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/Foto-do-matagal-indicando-local-dos-chinelos-de-Evandro.pdf\" target=\"_blank\">Foto do matagal indicando local dos chinelos de Evandro<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os corpos dos garotos de Guaratuba foram deixados em um matagal perto das suas casas, apesar de pouco frequentado. O corpo de Sandra estava em um terreno baldio, cercado de vegeta&ccedil;&atilde;o, tamb&eacute;m pr&oacute;ximo de onde a menina morava. H&aacute; muitas semelhan&ccedil;as. Mas h&aacute; tamb&eacute;m diferen&ccedil;as &ndash; e uma delas &eacute; bem evidente: o fato de Sandra ser menina.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A FAM&Iacute;LIA DE SANDRA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A m&atilde;e de Sandra, dona Juvelina, j&aacute; faleceu. M&aacute;rcia, a irm&atilde; mais velha, n&atilde;o quis dar entrevista. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/maria-edileide\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; mais nova de Sandra Mateus da Luz\" class=\"encyclopedia\">Maria Edileide<\/a>, a irm&atilde; menor, era muito pequena na &eacute;poca e sequer chegou a prestar depoimento no inqu&eacute;rito. Mas, ent&atilde;o, Ivan descobriu que Sandra tinha uma irm&atilde; mais velha, que em 1989 j&aacute; n&atilde;o morava com a fam&iacute;lia h&aacute; alguns anos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/sueli-aparecida-lima-da-luz-matos\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; mais velha de Sandra Mateus da Luz\" class=\"encyclopedia\">Sueli Aparecida Lima da Luz Matos<\/a> tem 52 anos e ainda mora em Fazenda Rio Grande &ndash; que na &eacute;poca fazia parte do munic&iacute;pio de Mandirituba. Durante esse ano de 2023, ela foi a principal fonte de Ivan no esfor&ccedil;o em entender melhor a hist&oacute;ria de Sandrinha e sua fam&iacute;lia. Leia a transcri&ccedil;&atilde;o de um trecho da entrevista para o podcast:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Bom, eu me casei muito cedo. Casei bem nova, tinha 14 anos. A&iacute; a minha m&atilde;e tinha comprado o terreno aqui. Que o meu pai faleceu a&iacute; em Curitiba. Ela veio, comprou o terreno, e a gente ficou ali com ela. E eu me envolvi muito cedo&hellip; Minha m&atilde;e recolhia bastante tipo de pessoas dentro de casa, e eu n&atilde;o aceitava, n&eacute;? A&iacute; peguei e fui embora, fui viver a minha vida. A&iacute; a minha m&atilde;e vendeu os terrenos que tinha ali e foi para Curitiba. Da&iacute;, de l&aacute;, ela rolou, n&eacute;? Foi para c&aacute;, foi para l&aacute;. Ent&atilde;o, a minha conviv&ecirc;ncia com a m&atilde;e j&aacute; diminuiu, porque eu a via uma vez por m&ecirc;s, &agrave;s vezes a cada dois meses, a cada 15 dias, eu ia visitar a minha m&atilde;e. At&eacute; que perdi uma irm&atilde; de doen&ccedil;a mesmo, no hospital&hellip; Que &eacute; abaixo de mim. E depois ela veio morar no Parque Verde, que foi onde aconteceu a trag&eacute;dia com a minha irm&atilde;, com a Sandra.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A irm&atilde; que Sueli diz que morreu por doen&ccedil;a chamava-se S&ocirc;nia. Ela faleceu com 15 anos, quando Sueli tinha 17. Isso aconteceu por volta de 1987, antes de Sandra ser assassinada.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: A senhora nasceu em 1970, ent&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: 1970. Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: 1970. O seu pai faleceu em que ano?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Ai, o ano, agora voc&ecirc; me&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Quantos anos voc&ecirc; tinha?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Eu tinha sete anos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Tinha sete anos. Ent&atilde;o deve ter sido 1977, mais ou menos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: 1977, por a&iacute;, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o voc&ecirc; tinha sete anos. Voc&ecirc; s&oacute; saiu de casa com quantos anos mesmo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Com 14.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Com 14 anos que a senhora casa&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Que eu casei. Aham. Com o pai dos meus filhos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Isso. Ent&atilde;o, 14 anos, foi em 1984&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Casou e saiu de casa. Ent&atilde;o, ou seja, voc&ecirc; ficou morando ainda uns sete anos com a sua m&atilde;e, de 1977 a 1984, dos seus sete aos 14 anos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Era a dona Juvelina, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: &Eacute;. Falecida hoje tamb&eacute;m&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; &eacute; a mais velha das irm&atilde;s?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Ent&atilde;o, vamos l&aacute;, nesse per&iacute;odo dos seus sete aos 14 anos, voc&ecirc; tinha a S&ocirc;nia, a M&aacute;rcia e a Sandra como irm&atilde;s.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Eu lembro de uma conversa que a gente teve, que voc&ecirc; falou que cuidava mais delas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Era eu, aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Era voc&ecirc;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Era eu mesmo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: A sua m&atilde;e n&atilde;o cuidava.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: A m&atilde;e cuidava, mas n&atilde;o ligava muito. Era eu que tomava conta das meninas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. O seu pai cuidava antes, quando era vivo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o. Da&iacute; ele trabalhava e a m&atilde;e cuidava de n&oacute;s. A&iacute; era ela, que eu era pequena tamb&eacute;m, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Depois que ele faleceu, da&iacute; ela&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Deu uma abandonada, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ela ficou mal com a morte do seu pai, ent&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: &Eacute;. Deu uma deca&iacute;da, na verdade, com a morte dele. Ficou com quatro, n&eacute;? Na verdade&hellip; Pequenininhas, n&oacute;s &eacute;ramos. E eu era a mais velha&hellip; Tinha quatro anos. A Sandra tinha oito meses quando ele faleceu. Eu tinha sete, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ele faleceu do qu&ecirc;? Desculpa perguntar&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Morreu no trabalho. Ele era mestre de obra. A&iacute; ele pegou uma empresa&hellip; Por sinal, que n&atilde;o registrava a carteira nunca. Da&iacute;, nessa empresa, ele conseguiu registrar a carteira. E ele fez um barrac&atilde;o para essa empresa em que foi trabalhar. Deu de chave na m&atilde;o, prontinho. Da&iacute; foi limpar um po&ccedil;o, que era poceiro uma &eacute;poca. Era pedreiro, carpinteiro, poceiro&hellip; E ele foi limpar um po&ccedil;o para esse patr&atilde;o que pediu pra ele. Da&iacute; ele foi limpar&hellip; Nesse po&ccedil;o tinha motor, n&eacute;? N&atilde;o sei te dizer tamb&eacute;m se foi de choque ou se foi de g&aacute;s, sei que morreu, ele e mais um companheiro dele. Morreu&hellip; Que da&iacute; ele estava l&aacute; embaixo, o outro foi descer&hellip; Morreram&hellip; Diz que agarrado&hellip; Eu n&atilde;o vi, mas diz que n&atilde;o conseguiu nem tirar, assim. Mas meu pai ficou bem roxo. Ent&atilde;o, n&atilde;o sei se foi o g&aacute;s ou se foi o choque&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Foi acidente de trabalho, ent&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Foi acidente de trabalho, na verdade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ah, t&aacute;. E da&iacute; quando&hellip; Da&iacute; a tua m&atilde;e ficou muito mal, quatro filhas para criar&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: &Eacute;. Deu uma desnorteada, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ela se mantinha como financeiramente? Ela trabalhava? Ela&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o. At&eacute; ent&atilde;o, ela s&oacute; era do lar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Era do lar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Era. Da&iacute; meu pai faleceu. Como era registrado o meu pai, conseguiram aposentar, deixar pens&atilde;o para ela. E ela ficou com a pens&atilde;o, n&eacute;? A pens&atilde;o&hellip; E da&iacute; nesse tempo tinha aqueles abonos, aquelas coisas. Ficou com abono nosso, que da&iacute; conforme a gente foi pulando de idade, foi decaindo o dinheiro dela, n&eacute;? Mas ela vivia at&eacute; bem, tinha um sal&aacute;rio, que da&iacute;&hellip; Por todos esses anos, ela recebeu. Era pensionista, no caso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas voc&ecirc;s passavam dificuldades, assim?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Bastante, n&eacute;? Bastante, n&eacute;? Que o dinheiro n&atilde;o era muito, n&eacute;? E muito filho&hellip; Demais&hellip; Voc&ecirc; v&ecirc;, quatro meninas. N&atilde;o era f&aacute;cil.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ap&oacute;s a morte do pai, com apenas sete anos, Sueli se tornou a principal cuidadora das irm&atilde;s. Isso continuou at&eacute; os 14 anos, quando ela saiu de casa para se casar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nas<em> <\/em>palavras dela, sua m&atilde;e nunca cuidou bem das filhas. A vida era muito inst&aacute;vel<em> <\/em>com ela.<em> <\/em>Ap&oacute;s Sueli sair de casa, Juvelina se mudou para Curitiba com as meninas. Mais tarde, ela e as crian&ccedil;as voltaram para<em> <\/em>Fazenda Rio Grande.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1989, quando Sandra morreu, a fam&iacute;lia j&aacute; morava l&aacute; h&aacute; cerca de dois anos. Nessa &eacute;poca, Sueli tinha 19 anos e um filho pequeno.<em> <\/em>Mesmo distante da m&atilde;e, ela ainda se preocupava muito com as irm&atilde;s. Afinal, Sueli n&atilde;o<em> <\/em>apenas havia criado as meninas, como tamb&eacute;m reprovava algumas atitudes da m&atilde;e, especialmente<em> <\/em>em rela&ccedil;&atilde;o a homens.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Ent&atilde;o, eram os pr&oacute;prios vizinhos que iam para tomar chimarr&atilde;o, tomar um caf&eacute;, e ela recolhia. E eu ficava brava porque tinha mulher em casa. Eu dizia: &ldquo;deixa a mulher em casa e vem aqui na casa da minha m&atilde;e. A minha m&atilde;e n&atilde;o tem homem para voc&ecirc; conversar&rdquo;. Eu pensava. Voc&ecirc; veja, eu era menina e pensava assim. &ldquo;O que quer aqui na minha casa se n&atilde;o tem homem? S&oacute; tem a minha m&atilde;e e n&oacute;s, meninas. N&atilde;o tem que ficar aqui. Se suma&rdquo;. Eu atropelava realmente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas voc&ecirc; j&aacute; dirigia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Atropelava&hellip; Voc&ecirc; est&aacute; dizendo&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Atropelava os homens de casa&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ah, atropelar de expulsar. Eu imaginei que voc&ecirc; estava com um carro e tocou o carro em cima da pessoa&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o&hellip; Atropelava de dentro de casa. Eu dizia: &ldquo;se suma daqui&rdquo;. Tipo assim, n&eacute;? &ldquo;N&atilde;o tem homem, o que quer aqui, n&eacute;?&rdquo;. Era isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o, voc&ecirc; atropelava no caso de expulsar o pessoal de casa&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Isso, aham. &ldquo;J&aacute; dirigia&hellip;&rdquo;. Coitada, eu n&atilde;o tinha nem carrinho de verdade&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>OS PRIMEIROS SUSPEITOS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O fato de dona Juvelina levar homens para casa aparece algumas<em> <\/em>vezes no inqu&eacute;rito de Sandra. Aparentemente, isso a levava a ter uma fama<em> <\/em>de &ldquo;mulher f&aacute;cil&rdquo;, at&eacute; mesmo de prostituta. Isso surge em v&aacute;rios momentos no inqu&eacute;rito,<em> <\/em>atrav&eacute;s de depoimentos de algumas testemunhas.<\/p>\n\n\n\n<p>A casa tinha apenas um quarto. A m&atilde;e dormia com as filhas. Se ela levava<em> <\/em>homens para dentro, para morar ou dormir com ela, as meninas estariam junto tamb&eacute;m.<em> <\/em>Sabendo disso, a pol&iacute;cia come&ccedil;ou a olhar para um suspeito em espec&iacute;fico. Um homem que Ivan vai chamar de<em> &ldquo;<\/em>Edson&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Fala aqui de um homem chamado [nome ocultado], que ela chegou a levar para casa para dormir, e da&iacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Para dormir, eu n&atilde;o posso te falar. Agora, que ele ia de dia, isso eu sabia que ia. Mas para dormir&hellip; Que eu saiba, as meninas tamb&eacute;m podiam falar, n&eacute;? Nunca falaram que dormia&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute;. Ela falou aqui no depoimento, a tua irm&atilde; M&aacute;rcia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Que ele dormia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute;, que ele dormia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: &Eacute;. Da&iacute; j&aacute; n&atilde;o &eacute; do meu conhecimento, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Que ele ficou um tempo, assim&hellip; Ficou dois, tr&ecirc;s meses, e parece que roubou a sua m&atilde;e&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o &eacute; do meu conhecimento. Eu n&atilde;o sabia que tinha homem dentro da casa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Pelo menos quando eu ia, n&atilde;o estava, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Nunca viu?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Nunca vi. Nem conhe&ccedil;o, para voc&ecirc; ter uma ideia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Edson, cujo nome verdadeiro foi ocultado na conversa com Sueli, se tornou suspeito por uma s&eacute;rie de motivos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, porque ele tinha um hist&oacute;rico de doen&ccedil;a mental, chegando at&eacute; a ser internado em algum ponto da vida. Segundo, porque ele teria matado o pr&oacute;prio pai quando era jovem, alegando autodefesa. E terceiro, porque no pr&oacute;prio depoimento, Edson dizia que, certa noite, enquanto dormia, Sandra e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/maria-edileide\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; mais nova de Sandra Mateus da Luz\" class=\"encyclopedia\">Maria Edileide<\/a> teriam tentado mexer em seu p&ecirc;nis. Ainda de acordo com ele, quando notou a atitude das meninas, afastou-as.<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco tempo depois, Edson teria roubado alguns pertences e dinheiro de dona Juvelina, e sa&iacute;do da casa. Mas, tamb&eacute;m de acordo com o inqu&eacute;rito, o indiv&iacute;duo tinha um &aacute;libi: no dia que Sandra sumiu, ele estaria trabalhando como caseiro em uma ch&aacute;cara distante. Ningu&eacute;m o viu pela regi&atilde;o no dia do desaparecimento. Ent&atilde;o, tudo em torno dele ficou apenas na base da suspeita.<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m de Edson, outro homem investigado foi o vigia Jo&atilde;o Ant&ocirc;nio, aquele que saiu da festa junina na escola Guisa para levar Sandra at&eacute; uma parte do caminho para casa, deixando-a na BR-116.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por muito tempo, ele foi o principal suspeito do caso, visto que tinha acabado de se mudar do interior do Paran&aacute; para Fazenda Rio Grande e, na cidade de onde veio, tinha uma acusa&ccedil;&atilde;o de estupro &ndash; que ele admitia ter cometido.<\/p>\n\n\n\n<p>S&oacute; que, neste caso, a v&iacute;tima era uma mulher maior de idade. Fora isso, de acordo com o inqu&eacute;rito, Jo&atilde;o Ant&ocirc;nio tamb&eacute;m tinha problemas mentais e chegou a ser internado &ndash; assim como o outro suspeito, Edson.<\/p>\n\n\n\n<p>Por&eacute;m, em alguns dos relat&oacute;rios, os investigadores comentam que o vigia demonstrava n&atilde;o ter problema algum em admitir os crimes que havia cometido no passado, mas negava veementemente ter praticado qualquer coisa contra Sandra.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda segundo os relat&oacute;rios, nos dias seguintes &agrave; festa, muitas pessoas viram e acompanharam a rotina de Jo&atilde;o Ant&ocirc;nio. Ningu&eacute;m notou nada de incomum. E isso era importante porque, ao que tudo indicava, Sandra teria ficado presa em algum local. Quem quer que a tenha matado teria que ter alterado a rotina de alguma forma, ou ao menos ter se isolado. N&atilde;o era o caso dele, pelo menos de acordo com os investigadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto o caso de Jo&atilde;o Ant&ocirc;nio quanto o de Edson mostram uma coisa: o fato de ambos terem problemas psiqui&aacute;tricos foi fundamental para que se tornassem suspeitos. Mas os dois foram descartados justamente porque n&atilde;o havia nada que os ligasse ao crime diretamente.<\/p>\n\n\n\n<p>A impress&atilde;o que Ivan tem &eacute; de que muita coisa do inqu&eacute;rito de Sandra gira em torno de mulheres em rela&ccedil;&otilde;es abusivas e da sexualiza&ccedil;&atilde;o de menores, al&eacute;m de muita reprova&ccedil;&atilde;o e cobran&ccedil;a sobre como uma mulher deve se portar &ndash; no caso, a m&atilde;e de Sandra, que tinha m&aacute; fama. Isso aparece em v&aacute;rios depoimentos da investiga&ccedil;&atilde;o e, por isso, Ivan queria entender melhor esse contexto pelas lembran&ccedil;as de Sueli.<\/p>\n\n\n\n<p>Sueli se casou muito nova, com 14 anos. O marido j&aacute; &eacute; falecido, e os dois ficaram juntos at&eacute; o fim da vida dele. Ent&atilde;o, Ivan decidiu come&ccedil;ar por essa hist&oacute;ria:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; queria sair de casa r&aacute;pido?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o. N&atilde;o que eu me arrependa, n&eacute;? Que n&atilde;o me arrependi porque peguei a pessoa certa na vida. Mas n&atilde;o gostaria&hellip; Se fosse hoje, n&atilde;o sairia, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Eu pergunto isso porque voc&ecirc; se casou super nova. Eu conhe&ccedil;o pessoas que se casaram super novas geralmente porque assim&hellip; &ldquo;Ah, eu n&atilde;o via a hora de sair de casa&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: &Eacute;, n&atilde;o&hellip; Na verdade, eu sa&iacute; n&atilde;o querendo sair. Na verdade, eu era uma menina. Eu casei, eu nem mo&ccedil;a era, para voc&ecirc; ter uma ideia. Eu fiquei mo&ccedil;a, mulher, tudo junto, depois, n&eacute;? Nem mo&ccedil;a era. Ent&atilde;o, quando eu sa&iacute; de casa&hellip; Foi pelo fato de a m&atilde;e recolher muita pessoa mesmo dentro de casa. E da&iacute; eu n&atilde;o aceitava, mas eu n&atilde;o mandava, n&eacute;? E eu achava errado j&aacute;. Mas se a m&atilde;e recolhia, eu vou fazer o qu&ecirc;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Quando a sua m&atilde;e come&ccedil;ou a trazer homens para casa?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Quando ela veio morar aqui, ela j&aacute; come&ccedil;ou a recolher&hellip; J&aacute; fazia, n&eacute;? Tanto que arrumou essa minha irm&atilde;, que da&iacute; acabou criando sozinha, que esse marido dela quis me pegar. Da&iacute; eu contei, fui e contei para essa minha tia&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Uma coisa de cada vez, ent&atilde;o. Vamos para essa &uacute;ltima irm&atilde;, a <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/maria-edileide\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; mais nova de Sandra Mateus da Luz\" class=\"encyclopedia\">Maria Edileide<\/a>. Isso a&iacute;&hellip; A sua m&atilde;e j&aacute; era bem mais velha.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: J&aacute;. J&aacute; uma boa idade&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Juvelina nasceu em 1943. Logo, em 1981, quando <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/maria-edileide\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; mais nova de Sandra Mateus da Luz\" class=\"encyclopedia\">Maria Edileide<\/a> nasceu, ela tinha 38<em> <\/em>anos &ndash; e era m&atilde;e solo de quatro meninas. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/maria-edileide\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; mais nova de Sandra Mateus da Luz\" class=\"encyclopedia\">Maria Edileide<\/a> era a quinta filha, fruto de um<em> <\/em>novo relacionamento.<\/p>\n\n\n\n<p>*Aqui um aviso de gatilho: Sueli relata como, ainda<em> <\/em>crian&ccedil;a, o companheiro da m&atilde;e tentou abusar dela.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Da&iacute; ela [Juvelina] se casou? Chegou a se casar?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o. Ela s&oacute; viveu com esse cara que ela arrumou&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; morava com ela?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Eu morava com ela ainda.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; morava com ela. Voc&ecirc; morava com ela. Trouxe esse cara&hellip; E da&iacute; ele ficou quanto tempo na casa de voc&ecirc;s?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Ah, ele deve ter ficado&hellip; Acho que uns dois anos com a minha m&atilde;e. A minha m&atilde;e engravidou, a&iacute; ele quis abusar de mim, na verdade&hellip; Quis mesmo&hellip; E eu era&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; tinha quantos anos?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Nossa, eu tinha&hellip; Acho que uns 10, 11 anos por a&iacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E ele tentou te abusar?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Aham. Tentou. Da&iacute; ele mentiu para ela que foi me cobrir. Mas eu dormia de roupa apertada, n&eacute;? Cal&ccedil;&atilde;o jeans, cal&ccedil;a jeans, coisa assim&hellip; Que eu tinha medo, n&eacute;? Eu tinha medo. Os outros falavam as coisas, e eu tinha medo. A&iacute; ele veio querer desabotoar o meu cal&ccedil;&atilde;o, eu chamei a m&atilde;e, fiz um esc&acirc;ndalo. Da&iacute; a m&atilde;e meio que acreditou n&atilde;o acreditando, que ele falou que tinha ido me cobrir e ela acreditou nele. Eu falei: &ldquo;n&atilde;o, eu n&atilde;o fico mais aqui&rdquo;. Eu fui na casa dessa minha falecida tia e contei a hist&oacute;ria para ela. Falei o que tinha acontecido, a&iacute; ela foi l&aacute;, conversou com a minha m&atilde;e e falou: &ldquo;ou voc&ecirc; manda ele embora daqui ou eu denuncio voc&ecirc;, e voc&ecirc; vai perder todas as meninas&rdquo;. A&iacute; ela optou em sumir com ele de casa e ficar com n&oacute;s, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Gr&aacute;vida.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o, ela j&aacute; tinha a menina. J&aacute; tinha a menina. J&aacute; tinha. Era bem novinha a menina. Ela criou sozinha tamb&eacute;m a menina.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim. E o cara sumiu?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Sumiu. Da&iacute; nunca mais&hellip; Nunca mais&hellip; Nunca deu uma lata de leite, resumindo, n&eacute;? Criou sozinha a menina.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Criou sozinha. Voc&ecirc; tinha quantos anos quando nasceu a <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/maria-edileide\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; mais nova de Sandra Mateus da Luz\" class=\"encyclopedia\">Maria Edileide<\/a>?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Eu devia ter uns nove, nove para 10 anos j&aacute;&hellip; Que ele ficou uns dois anos com ela, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o foi um dos primeiros, assim, que ela se relacionou?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: &Eacute;. Tinha outros homens. Mas que ela ficou, foi esse. &Eacute;&hellip; Que da&iacute; ela at&eacute; engravidou.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Da&iacute; engravidou, e voc&ecirc; acabou cuidando tamb&eacute;m da <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/maria-edileide\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; mais nova de Sandra Mateus da Luz\" class=\"encyclopedia\">Maria Edileide<\/a>, provavelmente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Da&iacute; eu cuidei&hellip; At&eacute; que eu fiquei&hellip; At&eacute; os 14, eu que cuidei, tamb&eacute;m ajudava&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Tamb&eacute;m ajudava. E da&iacute; todas as meninas ajudavam tamb&eacute;m? Voc&ecirc;, a M&aacute;rcia&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: &Eacute;, a S&ocirc;nia, que era a maiorzinha tamb&eacute;m, dois anos s&oacute; de diferen&ccedil;a. &Eacute; o tal assim: uma fazia uma coisa, a outra fazia outra. Mas quem mais fazia era eu mesmo, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o, por um tempo, foram cinco filhas juntas, uma cuidando da outra&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: &Eacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Voc&ecirc; tamb&eacute;m tinha quem cuidasse de voc&ecirc;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o. Voc&ecirc; que&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Eu que me cuidava e tinha que cuidar das irm&atilde;s&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Nem a S&ocirc;nia conseguia ajudar muito, assim&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o. Porque ela era novinha, eu tamb&eacute;m, n&eacute;? Dois anos, mas s&atilde;o dois anos, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute;. Quando voc&ecirc; tem 11 anos, ela vai ter nove&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: &Eacute;. Bem crian&ccedil;a, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas voc&ecirc; amadureceu muito. Com sete anos j&aacute; ter que&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Muito. Muito, muito, muito. Muito. Amadureci muito. Eu amadureci muito r&aacute;pido, n&eacute;? De verdade, assim, cresci vendo coisas erradas, e tive que aprender que n&atilde;o poderia ser daquela forma que estava acontecendo. Eu j&aacute; cresci vendo assim: eu vou ser diferente, n&eacute;? Porque isso n&atilde;o pode, isso n&atilde;o &eacute; assim que faz, tem que fazer diferente. Ent&atilde;o, cresci, amadureci muito menina.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A ROTINA DAS MENINAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No inqu&eacute;rito de Sandra h&aacute; muitas men&ccedil;&otilde;es de que Juvelina deixava as filhas soltas. H&aacute; relatos de pessoas que viam as meninas tomando banho nuas em um lago que ficava na beira da estrada, perto do Posto 22, onde havia muitos caminhoneiros.<\/p>\n\n\n\n<p>As meninas tamb&eacute;m passavam bastante tempo nesse posto. Aparentemente, conseguiam algum dinheiro com os motoristas de caminh&atilde;o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan chegou a conversar com alguns funcion&aacute;rios antigos do estabelecimento para entender se, naquela &eacute;poca, havia algum problema com prostitui&ccedil;&atilde;o infantil. Eles negaram. Falaram que havia, sim, prostitutas pela &aacute;rea, mas que eram maiores de idade. Nada de menores.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, com base nas d&uacute;vidas que os depoimentos no inqu&eacute;rito levantavam, havia a suspeita de que Sandra poderia estar se prostituindo. E que, de repente, ela poderia ter sido levada por algum caminhoneiro.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Existe nos depoimentos, e eu n&atilde;o sei dizer&hellip; A impress&atilde;o que eu tenho &eacute; que &eacute; uma &eacute;poca que acham que menina de 10, 11 anos, j&aacute; est&aacute; afim de transar, por exemplo. E falam muito, assim, das meninas serem desinibidas, da m&atilde;e ter um comportamento que n&atilde;o &eacute; legal, sabe? Est&aacute; sempre chamando homem&hellip; E d&aacute; a impress&atilde;o em alguma passagem aqui que a Sandra poderia estar envolvida com prostitui&ccedil;&atilde;o. Voc&ecirc; acha isso poss&iacute;vel?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o. De maneira nenhuma. Ela n&atilde;o. Nem ela, nem a outra&hellip; Para voc&ecirc; ter uma ideia&hellip; Que falar &eacute; f&aacute;cil, n&eacute;? O povo fala muito, n&eacute;? O povo fala. E como &eacute; menina&hellip; Menina &eacute; exibida mesmo, menina &eacute; exibida, pronto e acabou. Mas&hellip; Portanto&hellip; Que depois de tudo o que aconteceu, que nem eu j&aacute; te falei, a M&aacute;rcia [irm&atilde;] veio morar comigo, e casou&hellip; Saiu casada da minha casa, e quem tirou a virgindade foi o marido. Ent&atilde;o, de maneira nenhuma a outra era, n&eacute;? De maneira nenhuma. Se essa que vivia junto, que era a mais velha, era mo&ccedil;a&hellip; Imagina as outras, que eram meninas, n&eacute;? Ent&atilde;o, nisso eu boto a m&atilde;o no fogo pela menina l&aacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Elas podiam pedir dinheiro para caminhoneiro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Podiam&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Isso sim. Isso acontecia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Ah, falaram que sim, mas eu tamb&eacute;m n&atilde;o posso dizer que &eacute; verdade. Mas podia pedir. Crian&ccedil;a pede mesmo, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute;. Eu tinha&hellip; Eu conversei com alguns funcion&aacute;rios antigos do posto, e falaram que era muito comum crian&ccedil;a ir l&aacute; para pegar, por exemplo, graxa, &oacute;leo para vender, &oacute;leo velho, coisa assim. Voc&ecirc; n&atilde;o lembra de a Sandra ter alguma&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ou das tuas irm&atilde;s fazerem alguma coisa assim parecida?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o. Nunca nem fiquei sabendo. Que nem eu estou falando, nunca nem fiquei sabendo que elas pediam dinheiro, mas isso era poss&iacute;vel, l&oacute;gico.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Isso era poss&iacute;vel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Poss&iacute;vel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Pela condi&ccedil;&atilde;o que viviam&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Pela condi&ccedil;&atilde;o que viviam&hellip; &ldquo;Me d&aacute; um dinheirinho?&rdquo;. Podia. Podia. Que elas eram sem maldade, n&eacute;? Crian&ccedil;a n&atilde;o v&ecirc; maldade nessas coisas. Ent&atilde;o, podia aqui pedir um dinheiro, mas n&atilde;o que ela se prostitu&iacute;sse para pegar o dinheiro, da&iacute; &eacute; mentira. Da&iacute; eu desafirmo. Desafirmo por ter cuidado dessa minha irm&atilde;, da M&aacute;rcia, que ela saiu casada de dentro da minha casa, e o marido falou para mim que pegou e era virgem. Ent&atilde;o, se ela era virgem, imagina as outras duas, que eram meninas. E ela j&aacute; era mais mocinha.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. E a sua m&atilde;e? Alguma chance de ela ter feito programa na &eacute;poca, alguma coisa assim?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o. Acredito que n&atilde;o. A minha m&atilde;e n&atilde;o, n&atilde;o. A minha m&atilde;e era bem de boa, sobre isso era. Sem chance.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Gostava de um homem, ia l&aacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: &Eacute;, nada, nada a ver. De pegar&hellip; Era mais f&aacute;cil ela dar o dinheiro para o homem ainda.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Coitada. Era mais f&aacute;cil ela te ajudar do que ela tomar de voc&ecirc;, t&aacute; bom? Aham&hellip; [Risos] Verdade, aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em um epis&oacute;dio futuro, Ivan esclarecer&aacute; melhor a quest&atilde;o da aparente sexualiza&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as existente neste caso, pois esse parece ser um ponto importante da investiga&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ela [Sandra] desapareceu no domingo. Quando voc&ecirc; ficou sabendo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Ent&atilde;o, eu trabalhava, na verdade&hellip; O meu marido trabalhava de segunda a sexta, e no s&aacute;bado e domingo eu trabalhava. Da&iacute; ele cuidava do Leandro para mim, o meu marido.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Leandro &eacute; o filho de Sueli com seu falecido marido.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: No domingo&hellip; Por isso que eu falo para voc&ecirc;&hellip; Ele tinha tr&ecirc;s anos&hellip; Que ele fez tr&ecirc;s anos no domingo, que elas vieram ver ele. Veio a minha m&atilde;e e a Sandra. A M&aacute;rcia, a <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/maria-edileide\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; mais nova de Sandra Mateus da Luz\" class=\"encyclopedia\">Maria Edileide<\/a> e a prima&hellip; Diz que j&aacute; estavam nessa festa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Quando &eacute; o anivers&aacute;rio dele?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: &Eacute; no dia 3 de junho.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: 3 de junho?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Ele tinha feito tr&ecirc;s anos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Ele tinha completado tr&ecirc;s aninhos no domingo, e a m&atilde;e veio ver ele. E eu n&atilde;o vi nem a m&atilde;e, nem a irm&atilde;, porque eu estava trabalhando.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. Ent&atilde;o estava s&oacute; o teu marido.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: S&oacute; o meu marido cuidando, aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O teu marido estava cuidando aqui, estava tendo&hellip; Estava tendo festa de anivers&aacute;rio?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o, n&atilde;o tinha festa. Eu estava at&eacute; trabalhando&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Estava trabalhando. Elas vieram dar feliz anivers&aacute;rio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Isso, vieram, aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Isso foi num s&aacute;bado, provavelmente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o, foi no domingo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Foi no domingo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Que ela veio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Deixa eu s&oacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: E no domingo que ela veio na minha casa, que ela sumiu.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Deixa eu s&oacute; confirmar&hellip; Calend&aacute;rio 1989&hellip; Que da&iacute; a gente j&aacute; tira essa d&uacute;vida do dia certinho. Em junho de 1989, o dia 3 era um s&aacute;bado, 4 era um domingo. Ent&atilde;o, a festa do domingo foi no dia 4 mesmo. Mas voc&ecirc; trabalhava s&aacute;bado e domingo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Ent&atilde;o, voc&ecirc; podia estar trabalhando no s&aacute;bado, elas vieram aqui&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o, ela veio no domingo mesmo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; tem certeza?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Foi no domingo que ela veio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Foi no domingo. Por que voc&ecirc; tem certeza que foi no domingo que elas vieram?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Porque naquele s&aacute;bado eu n&atilde;o trabalhei. No dia do anivers&aacute;rio dele, eu estava em casa, n&eacute;? Ent&atilde;o, da&iacute; ela n&atilde;o veio no s&aacute;bado e veio no domingo dar um&hellip; A m&atilde;e veio trazer um presentinho para ele, n&eacute;? E eu estava trabalhando no restaurante. Eu trabalhava no restaurante na &eacute;poca.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Qual restaurante?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Na verdade, eu trabalhava com a dona&hellip; Com a dona Ivete&hellip; Com a dona Zeli&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Dona Zeli.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Aham. Que era tipo no [quil&ocirc;metro] 21 aqui, para o lado de c&aacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Ent&atilde;o, foi anivers&aacute;rio no s&aacute;bado, no domingo voc&ecirc; est&aacute; trabalhando. Vem a sua m&atilde;e e a Sandra para entregar um presentinho para o Leandro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: S&oacute; a sua m&atilde;e e a Sandra.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Ela e a Sandra.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Sueli n&atilde;o prestou depoimento no inqu&eacute;rito de Sandra. E essa informa&ccedil;&atilde;o de que Sandra e a m&atilde;e teriam ido para a casa de Sueli no domingo era nova. Mas isso talvez explique o motivo da menina ter demorado para ir at&eacute; a festa junina na escola Guisa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, a irm&atilde; e a prima foram por volta das 14h. Sandra s&oacute; foi horas depois, por volta das 17h, provavelmente. Ent&atilde;o, &eacute; poss&iacute;vel que, nesse intervalo, Sandra estivesse visitando Sueli &ndash; que n&atilde;o estava em casa &ndash; para deixar um presente para Leandro.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Da&iacute; voc&ecirc; ficou sabendo que ia ter uma festa, a festa junina?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Eu nem sabia que tinha festa l&aacute; nesse dia, n&eacute;? Porque eu s&oacute; ficava em casa e da&iacute; trabalhava, n&eacute;? Ent&atilde;o, nem sabia que estava tendo festa, o que estava acontecendo no domingo. Eu s&oacute; cheguei em casa, da&iacute; o marido falou que a m&atilde;e tinha vindo ali com a Sandra, que tinham trazido presente para ele, e tinham ido embora. Ele fez um caf&eacute;, deu para minha m&atilde;e, e elas foram embora. E eu cheguei por volta de 17h, 17h30, que &eacute; o hor&aacute;rio que eu chegava em casa. E da&iacute; fiquei de boa, n&eacute;? Segunda, ter&ccedil;a, quarta, quinta, sexta. Da&iacute; n&atilde;o vi mais a m&atilde;e. N&atilde;o pude mais tamb&eacute;m ir. Chegava o final de semana, eu ia trabalhar. Ela ficou nove dias desaparecida.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Quando voc&ecirc; ficou sabendo que ela sumiu?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Bem no dia que acharam, que fazia nove dias que ela tinha sumido.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; nem sabia que ela tinha sumido.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Nem sabia que ela tinha sumido. N&atilde;o, sabia. A minha m&atilde;e veio&hellip; Fazia&hellip; Acho que&hellip; Ela veio no domingo&hellip; Ela veio no domingo, e ela sumiu. Da&iacute;, no meio da semana, quando foi&hellip; Acho que na quarta, por a&iacute;, na quarta ou na quinta, a minha m&atilde;e veio falar que ela tinha sumido&hellip; Se ela n&atilde;o estava l&aacute; em casa, n&eacute;? Mas jamais eu ia ficar com ela tantos dias sem avisar a m&atilde;e. Eu falei: &ldquo;n&atilde;o, aqui n&atilde;o apareceu&rdquo;. Da&iacute; j&aacute; deu aquele apavoro, n&eacute;? Onde est&aacute; a menina? Tantos dias j&aacute;, n&eacute;? Da&iacute; eu perguntei para a m&atilde;e se ela tinha ido na delegacia, ela disse que tinha ido. Ent&atilde;o, se ela foi, n&atilde;o precisava eu estar indo. A&iacute; a gente come&ccedil;ou a procurar, n&eacute;? Foi procurar nos matos, e saiu por aqui, saiu para&hellip; Quase ficamos todos loucos. E n&atilde;o encontrava, n&atilde;o encontrava. Quando fazia nove dias certinho que ela tinha sumido, vieram atr&aacute;s de mim para eu reconhecer ela.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Como foi nesse dia? Como que&hellip; Voc&ecirc; estava em casa?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Estava. Estava de manh&atilde; em casa. A minha tia chegou e falou que tinham achado a Sandra morta.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Qual tia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: A tia Eva. Foi ela que veio na minha casa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Tia Eva era vizinha de Sandra, m&atilde;e da M&aacute;rcia Prima.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Que era para eu estar indo l&aacute; reconhecer, que n&atilde;o tinham achado a m&atilde;e, que a m&atilde;e n&atilde;o estava em casa, n&eacute;? A&iacute; eu peguei o meu menino no colo e sa&iacute; para ir reconhecer a minha irm&atilde;. Chegando l&aacute;, eu que&hellip; No caso, a tia Eva j&aacute; tinha reconhecido&hellip; Eu que reconheci o corpo dela.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: No local, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A morte de Sandra foi noticiada em v&aacute;rios jornais da &eacute;poca. Em um deles, o Di&aacute;rio Popular, de 13 de junho de 1989, h&aacute; uma mat&eacute;ria cheia de erros sobre o estado do corpo. Na reportagem &eacute; citado, por exemplo, que ela teria sido espancada. N&atilde;o h&aacute; sinais disso no laudo de necr&oacute;psia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas uma foto na mat&eacute;ria chama a aten&ccedil;&atilde;o. &Eacute; Sueli, com 19 anos, com v&aacute;rias pessoas ao seu redor. Ela est&aacute; segurando no colo seu filho Leandro, de tr&ecirc;s anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na imagem, ela tira um pano de cima do corpo da irm&atilde;. Em seu rosto, &eacute; poss&iacute;vel ver a express&atilde;o de quem n&atilde;o acredita no que est&aacute; vendo. E o menino, no seu colo, olha para aquilo tamb&eacute;m, atento, provavelmente sem conseguir entender o que est&aacute; acontecendo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/1989-06-13-Crianc%CC%A7a-foi-estuprada-e-morta-por-espancamento.-Dia%CC%81rio-Popular-CAPA.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mat&eacute;ria do Di&aacute;rio Popular &ndash; &ldquo;Menina estuprada e morta a cacetadas&rdquo; (13 de junho de 1989\/capa)<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/1989-06-13-Crianc%CC%A7a-foi-estuprada-e-morta-por-espancamento.-Dia%CC%81rio-Popular-PAG-1-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mat&eacute;ria do Di&aacute;rio Popular &ndash; &ldquo;Crian&ccedil;a foi estuprada e morta por espancamento&rdquo; (13 de junho de 1989\/p&aacute;gina)<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/1989-06-17-Prefeito-pede-ajuda-para-esclarecer-morte-da-menor.-Dia%CC%81rio-Popular.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mat&eacute;ria do Di&aacute;rio Popular &ndash; &ldquo;Prefeito pede ajuda para esclarecer morte da menor&rdquo; (17 de junho de 1989)<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Como&hellip; Voc&ecirc; consegue me dizer como foi chegar no local? Como voc&ecirc;s foram para l&aacute;? Voc&ecirc;s foram a p&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Ah, algu&eacute;m trouxe a minha tia, da&iacute; eu fui junto, de carro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Foi de carro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o me lembro&hellip; N&atilde;o tenho lembran&ccedil;a se foi parente, n&atilde;o tenho lembran&ccedil;a de quem foi. Sei que me levaram e me trouxeram para casa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. Desceram&hellip; Estacionou o carro, desceu&hellip; O que voc&ecirc; viu assim que desceu do carro? Qual a primeira coisa que voc&ecirc; viu?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Na verdade, era um campo. Um campo, assim, que n&atilde;o tinha casa, n&atilde;o tinha nada, tinha uma ch&aacute;cara do lado. E era tudo campo, mato. E j&aacute; estava o pessoal l&aacute;, que j&aacute; tinha achado&hellip; Da&iacute; vem um, vem outro&hellip; Estava cheio de gente j&aacute;, por sinal. Pol&iacute;cia, tudo ali&hellip; E da&iacute; eu cheguei com o meu menino, para ver realmente se era, e era ela mesmo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Estava com um pano em cima?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Acho que era jornal, uma coisa assim&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. Da&iacute; voc&ecirc; olhou&hellip; Mas ela estava bem desfigurada. Como voc&ecirc; conseguiu reconhecer ela?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Na verdade, por causa do cabelo, da roupa&hellip; A pele dela&hellip; Que as m&atilde;os n&atilde;o tinha, n&eacute;? A pele dela era diferenciada, tipo um courinho de sapo assim, uma pele diferenciada. Pelo p&eacute; e pela nuca&hellip; Que desfiguraram tudo, mas na parte de tr&aacute;s dava para ver que a minha m&atilde;e tinha raspado o cabelo dela, estava nessa altura assim. Tanto da <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/maria-edileide\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; mais nova de Sandra Mateus da Luz\" class=\"encyclopedia\">Maria Edileide<\/a> como o dela, por isso&hellip; Por a&iacute; que eu reconheci que era ela.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Como foi essa hist&oacute;ria de raspar o cabelo? Voc&ecirc; chegou a ver ela de cabelo raspado?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o ela tinha raspado o cabelo, fazia&hellip; Quando foi a &uacute;ltima vez que voc&ecirc; viu ela? Que voc&ecirc; conversou com ela?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Fazia umas duas semanas que eu tinha ido na casa da m&atilde;e.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o, se ela desapareceu no in&iacute;cio de junho, foi ali pela metade de maio&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Maio&hellip; Que eu estive na casa da m&atilde;e.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Que voc&ecirc; esteve na casa da sua m&atilde;e. Da&iacute; voc&ecirc; viu ela, ela estava de cabelo raspado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: J&aacute; estava. Mas j&aacute; estava grandinho j&aacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. Ah, j&aacute; tinha raspado fazia tempo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: J&aacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. E voc&ecirc; chegou a comentar assim: &ldquo;ah, cabelo raspado&rdquo;, alguma coisa?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: &Eacute;, perguntei por que fez isso com a cabe&ccedil;a das meninas, que tinha feito nas duas. A&iacute; a m&atilde;e comentou que era por causa de piolho, que n&atilde;o vencia tirar os piolhos e tinha raspado o cabelo das duas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Mas j&aacute; estava grandinho o cabelo das duas&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E ela, de cabelo raspado, na sua lembran&ccedil;a, parecia uma menina? Ou ela ficou parecendo mais um menininho?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Parecia um menino, n&eacute;? Porque de cabe&ccedil;a raspada&hellip; N&atilde;o usava roupa adequada, vamos dizer, de menina, n&eacute;? Se olhasse, falava que era pi&aacute;&hellip; Tanto uma como a outra.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. As duas podiam ser.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>REPETI&Ccedil;&Atilde;O DE PERFIL DAS V&Iacute;TIMAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esse era um detalhe que Ivan n&atilde;o sabia. Quando foi sequestrada e morta, Sandra estava com o cabelo raspado. Ent&atilde;o, ela poderia ser confundida com um menino. E n&atilde;o s&oacute; isso: ela tamb&eacute;m era loira.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Ela foi uma menina bem doentinha, ela teve doen&ccedil;a de &ldquo;mingo&rdquo;, aquela doen&ccedil;a de macaco, que fala&hellip; Ela era uma crian&ccedil;a que n&atilde;o se desenvolveu normalmente como as outras. Tipo, ela tinha 11 anos, mas, se voc&ecirc; olhasse ela, dava para dizer que tinha oito. Oito, nove anos, no m&aacute;ximo, voc&ecirc; daria para ela hoje, se voc&ecirc; visse ela. Porque ela n&atilde;o se desenvolveu assim, normal, n&eacute;? Por causa da pr&oacute;pria doen&ccedil;a que ela teve. Mas era um anjo, n&eacute;? Era uma crian&ccedil;a maravilhosa. N&atilde;o &eacute; que eu n&atilde;o gostava das outras irm&atilde;s. Ela, por ser pequenininha, por ver que ficou sem o pai, e eu menina&hellip; Eu sempre tive uma cabe&ccedil;a, assim, t&atilde;o diferenciada dessas meninas de hoje. Ent&atilde;o, eu tinha assim, tinha que cuidar muito dela, n&eacute;? Ent&atilde;o, me apeguei muito a ela. Era meu nen&eacute;m, vamos dizer, n&eacute;? Eu amava demais ela. Demais mesmo, de verdade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas voc&ecirc;s tinham brincadeiras?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Brincava de boneca com ela. Ela era a nossa boneca, n&eacute;? Ela era a nossa bonequinha, Deus o livre&hellip; E ela era diferenciada, na verdade, porque n&oacute;s todas temos a pele mais escura, e ela era clarinha, branquinha, tipo polaquinha, ela era&hellip; Ela era diferente de n&oacute;s. Era do mesmo pai, mas puxou pelo lado dos meus av&ocirc;s paternos, n&eacute;? Ent&atilde;o, ela era bem loirinha.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Bem loirinha?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Bem loirinha.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E a cor do olho?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Escuro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Escuro. Mas ela era bem loirinha, branquinha, e o olho escuro&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: E o olho escuro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E miudinha assim, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Miudinha.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, em junho de 1989, quando foi assassinada, Sandra era loirinha, tinha a pele bem branca, estava com o cabelo raspado e, apesar de ter 11 anos, aparentava ter oito. Aqui, novamente, h&aacute; a repeti&ccedil;&atilde;o do perfil de v&iacute;timas de Guaratuba.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o, voc&ecirc; chega l&aacute; e&hellip; Voc&ecirc; chegou a virar o corpo, assim, para ver?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o. N&atilde;o mexi nela.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o mexeu.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o. S&oacute; no cabelo que dava para ver, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas voc&ecirc; chegou a tocar, assim?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o, n&atilde;o. N&atilde;o toquei nela.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o tocou.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: No local.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: No local n&atilde;o. S&oacute; descobri mesmo, e da&iacute; j&aacute; dava para ver, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: J&aacute; dava para ver&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: J&aacute;. &Eacute; porque na frente n&atilde;o tinha o que ver, n&eacute;? N&atilde;o tinha como ver nada. Que tiraram assim, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Quando voc&ecirc; diz &ldquo;couro de sapo&rdquo;, da pele dela, era por causa da doen&ccedil;a que ela teve?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o sei te dizer se foi por isso, por causa da pr&oacute;pria doen&ccedil;a que ela teve, mas era diferenciada a pele dela.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: A pele dela parecia mais rugosa assim?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Ent&atilde;o, voc&ecirc; olhou pelo p&eacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Pelo p&eacute;, era ela&hellip; J&aacute; era ela&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Era diferente&hellip; &ldquo;Ah, essa &eacute; a pele da Sandra&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: &Eacute; ela mesmo, aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas parecia, assim, se eu visse ela na rua, se ela estivesse ali, por exemplo, eu conseguiria ver que ela tinha algum problema de pele? Ou s&oacute; se olhasse muito de perto?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o, voc&ecirc; via. J&aacute; de longe voc&ecirc; conseguia ver.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E era s&oacute; nas m&atilde;os, nos p&eacute;s&hellip;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: S&oacute; nas m&atilde;os e nos p&eacute;s.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: S&oacute; nas m&atilde;os e nos p&eacute;s.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: A diferenciada era a m&atilde;ozinha dela e os p&eacute;s.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Como ela estava sem as m&atilde;os&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Da&iacute; pelo p&eacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: S&oacute; pelo p&eacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Eu olhei no p&eacute; e olhei na&hellip; Porque n&atilde;o tinha como dizer que era ela, n&eacute;? Daquela forma que ela estava. Mas, pelo p&eacute; dela e pela nuquinha que dava para ver o cabelo assim, era ela.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; j&aacute; tinha visto uma pessoa morta antes?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Olhe, morta, morta assim, eu nunca&hellip; Acho que nem tinha visto. Daquela forma ali, nunca, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Nunca nem viu, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Nunca nem vi, n&eacute;? Nunca tinha visto, nunca nem vou ver mais, Deus o livre&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. Eu n&atilde;o consigo nem imaginar o choque que deve ser, assim&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Nossa, me deu&hellip; Da&iacute; eu j&aacute; logo pensei, n&atilde;o em mim, no pi&aacute; que estava no meu colo, n&eacute;? E ele lembra at&eacute; hoje tamb&eacute;m.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E ele lembra at&eacute; hoje.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: At&eacute; hoje. N&atilde;o tem como esquecer, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Porque voc&ecirc; estava pensando&hellip; &Eacute; que, assim, voc&ecirc; levou o Leandro porque voc&ecirc; n&atilde;o tinha com quem deixar ele.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Isso. N&atilde;o tinha com quem deixar e eu n&atilde;o sabia que ia estar naquele estado. Achei que ia encontrar morta normal, n&eacute;? N&atilde;o sabia o estado que ia estar, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; achou que ia ter uma menina ali&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: A minha irm&atilde; perfeita, n&eacute;? Morta, mas perfeita, intacta. N&atilde;o&hellip; N&atilde;o foi o que eu consegui ver, n&eacute;, fazer o qu&ecirc;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O que te chamou a aten&ccedil;&atilde;o quando voc&ecirc; olhou, assim, para ela? Al&eacute;m do&hellip; A gente j&aacute; sabe das coisas mais grotescas, mas tinha mais alguma coisa nela que te chamou a aten&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: A roupa dela estava tudo no avesso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Ela estava vestida, tudo normal, mas a blusa estava no avesso, a cal&ccedil;a estava no avesso, estava tudo no avesso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Sueli est&aacute; falando de mem&oacute;ria, ent&atilde;o ela errou em um detalhe. Apenas a cal&ccedil;a de Sandra estava do avesso. A blusa que vestia estava normal.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ou seja, algu&eacute;m tirou a roupa&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: E depois vestiu.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E depois vestiu&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: No avesso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Colocou no avesso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Da&iacute;, quando eu vi aquilo, at&eacute; achei que fosse cachorro, n&eacute;? Tamb&eacute;m na &eacute;poca eu pensei&hellip; Foi o cachorro que fez tudo isso, decerto, estra&ccedil;alhou, n&eacute;? Mas da&iacute; estra&ccedil;alhou, beleza. Mas a m&atilde;o&hellip; Quando eu vi que a m&atilde;o estava cortada certinha, eu falei&hellip; O cachorro ia fazer assim, n&eacute;? Estava certinho cortada. E as m&atilde;os n&atilde;o foram achadas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mais alguma coisa que passou pela sua cabe&ccedil;a? A quest&atilde;o do cachorro, a quest&atilde;o da roupa&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Pois da&iacute; o que eu&hellip; Na hora, eu nem me lembro o que eu pensei, n&eacute;? Faz tantos anos isso. Ent&atilde;o, na hora, eu nem me lembro o que eu pensei direito. Depois eu fiquei sabendo que ela foi estuprada, mas isso foi s&oacute; depois, n&eacute;? N&atilde;o&hellip; Na hora, assim, eu n&atilde;o me lembro o que eu cheguei a pensar, n&eacute;? Sei que foi uma maldade bem grande, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Voc&ecirc; chegou a dar entrevista para jornal na &eacute;poca, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Eu acho que sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute;, nos jornais fala: &ldquo;a irm&atilde; Sueli culpa a m&atilde;e&hellip;&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Aham. Fiquei brava na &eacute;poca, n&eacute;? Xinguei bastante a m&atilde;e, &eacute; verdade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O que a senhora lembra, assim, que os rep&oacute;rteres falavam, perguntavam? Como voc&ecirc; respondia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o me lembro o que eles perguntavam, o que eu respondia tamb&eacute;m n&atilde;o me lembro, o que eu respondia&hellip; Sei que eu fiquei bastante brava com a m&atilde;e na &eacute;poca, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Chegou a brigar com a sua m&atilde;e, assim?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o. N&atilde;o cheguei a brigar, mas fiquei brava. Bastante, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. Mas chegou a falar para ela assim: &ldquo;voc&ecirc; deixa as crian&ccedil;as soltas&rdquo;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Falei, falei. Falei bastante.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; lembra dessa conversa?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Lembro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Conta para mim como foi.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Na verdade, quando foi achada ela, que da&iacute; eu fui contar para a m&atilde;e o que tinha acontecido, ela j&aacute; veio me encontrar chorando, eu falei&hellip; Falei: &ldquo;eu avisei tanto a m&atilde;e para cuidar das meninas, para n&atilde;o vender o terreno&rdquo;. Porque eu fiquei muito triste de ela vender aqui o terreno, n&eacute;? Falei: &ldquo;n&atilde;o venda, m&atilde;e, tem as meninas pequenas para voc&ecirc; criar, fique a&iacute;&rdquo;. Ent&atilde;o, eu falei: &ldquo;viu, m&atilde;e, voc&ecirc; n&atilde;o cuidava, deixava elas fazerem o que queriam, a&iacute; &oacute;&hellip;&rdquo;. Ent&atilde;o, xinguei bastante a m&atilde;e, na verdade, n&eacute;? Fiquei bem triste com ela um tempo, levou um tempo assim&hellip; Eu fiquei meio com raiva da m&atilde;e. Porque eu acho que, se cuida, n&atilde;o tinha acontecido. Que nem eu falei: &ldquo;como que deixam a menina ir sozinha para a festa? V&aacute; junto, ent&atilde;o&rdquo;, n&eacute;? J&aacute; n&atilde;o tem o dom&iacute;nio, ent&atilde;o pegue e v&aacute; junto, fique olhando as filhas, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E o que ela falava?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Que ela n&atilde;o gostava de ir. &ldquo;E eu n&atilde;o mando&hellip; Elas n&atilde;o s&atilde;o&hellip; Tipo, s&atilde;o malcriadas, marotas, n&atilde;o respeitam, v&atilde;o, n&eacute;?&rdquo;. Ent&atilde;o, da&iacute; eu falei: &ldquo;&oacute; no que deu, n&eacute;?&rdquo;. Agora est&aacute; tudo bom. Perdemos uma de doen&ccedil;a, uma agora&hellip; Por n&atilde;o cuidar, que morreu. Porque, se cuidasse, que nem eu falo, se cuidasse, n&atilde;o tinha morrido. N&atilde;o deixe ir, mete o cacete. &ldquo;Ah, porque n&atilde;o pode bater&rdquo;. N&atilde;o pode bater? Eu bato at&eacute; hoje se me desobedecer, n&eacute;? N&atilde;o tenho medo de nada. Eu educo e pronto, acabou. N&atilde;o vai&hellip; Essa menina mesmo a&iacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, Sueli est&aacute; se referindo &agrave; filha, Shariane, que mora junto com ela e tamb&eacute;m se<em> <\/em>tornou m&atilde;e recentemente.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Nossa, n&atilde;o precisou surrar tanto, mas eu conversei muito com ela. A minha filha n&atilde;o era de rua de jeito nenhum. Uma j&aacute; pelo acontecimento com a minha irm&atilde;, eu vou deixar&hellip;? N&atilde;o vai, pronto e acabou. E, se teimar, vai apanhar. &Eacute; melhor eu dar umas palmadas aqui do que eu achar morta a&iacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ivan refor&ccedil;a que, obviamente, n&atilde;o defende que se bata nos<em> <\/em>filhos. &Eacute; &oacute;bvio tamb&eacute;m que dona Juvelina n&atilde;o tem culpa de Sandra ter sido assassinada de<em> <\/em>forma brutal, mesmo com tantas pessoas julgando o modo como vivia e cuidava<em> <\/em>das filhas. Tudo parece ser muito mais o resultado do modo de<em> <\/em>vida prec&aacute;rio daquela fam&iacute;lia, sem muitas condi&ccedil;&otilde;es, assist&ecirc;ncia e rede de apoio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan tamb&eacute;m ressalta que &eacute; importante mostrar como era a mentalidade da &eacute;poca sobre a<em> <\/em>cria&ccedil;&atilde;o dos filhos, sobre a no&ccedil;&atilde;o de seguran&ccedil;a e responsabilidade que se tinha. Ent&atilde;o, ao<em> <\/em>inv&eacute;s de cortar todos esses trechos, ele est&aacute; sendo fiel ao que Sueli relatou,<em> <\/em>sobre como ela se sentia e como essa trag&eacute;dia afetou a si e a sua fam&iacute;lia.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Ent&atilde;o, eu briguei muito com a m&atilde;e. Briguei, fiquei muito triste com ela. N&atilde;o cheguei a ficar de mal, mas sempre que eu via ela, falava: &ldquo;est&aacute; vendo, m&atilde;e, que tristeza, que falta que est&aacute; fazendo a menina?&rdquo;. Sempre tocava na mesma&hellip; Da&iacute; depois larguei m&atilde;o. Falei&hellip; Coitada tamb&eacute;m, n&eacute;? Vai fazer o qu&ecirc;&hellip; Agora j&aacute; morreu, n&atilde;o vai voltar, n&atilde;o vai adiantar, n&eacute;? Mas eu fiquei muito triste na &eacute;poca. Fiquei muito triste.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: A tua m&atilde;e sofreu tamb&eacute;m com a morte dela?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Eu acho que, que nem eu, n&atilde;o. N&atilde;o. Eu que sofri mais ainda. Eu n&atilde;o vivia com a menina, mas eu sofri muito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Criou ela&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: &Eacute;. Sofri muito. Sofro at&eacute; hoje, n&eacute;? Era a minha preferida, era essa irm&atilde;. Ent&atilde;o, sofro muito at&eacute; hoje. Nunca vou esquecer, n&eacute;? Mas a m&atilde;e&hellip; Parece que n&atilde;o dava muita import&acirc;ncia, n&eacute;? Ent&atilde;o, a dor mesmo era minha.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; acha que a tua m&atilde;e tinha no&ccedil;&atilde;o, assim, da gravidade do que tinha acontecido?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Sei l&aacute;, que da&iacute; ela nem chegou a ver a irm&atilde;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas, assim, eu fico pensando o que&hellip; Voc&ecirc;s conversavam sobre a Sandra? Sobre a morte da Sandra? Quem podia ter feito&hellip; Voc&ecirc;s tentavam ter essas conversas assim ou n&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Eu conversei muito com a m&atilde;e, perguntava quem vinha, quem n&atilde;o vinha. Da&iacute; ela dizia que n&atilde;o vinha muita gente, que era s&oacute; fulano e sicrano, e que fulano n&atilde;o podia ter feito&hellip; Fulano n&atilde;o ia ser capaz de fazer aquilo, n&eacute;? Ent&atilde;o, nunca fiquei realmente sabendo quantos homens frequentavam ou deixaram de frequentar&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o voc&ecirc;s chegaram a conversar&hellip; Quem pode ter feito&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Bastante, n&eacute;? Bastante.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E ela n&atilde;o conseguia pensar em ningu&eacute;m?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o. Ela dizia que os que frequentavam a casa dela n&atilde;o tinham sido&hellip; Era o que ela passava para mim, n&eacute;? Eu dizia: &ldquo;mas como voc&ecirc; vai confiar numa pessoa estranha, que voc&ecirc; n&atilde;o conhece?&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim. E voc&ecirc; chegou a ser chamada pela pol&iacute;cia para falar alguma coisa, dar depoimento?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Eu n&atilde;o me lembro. Para te falar a verdade, com certeza dei algum depoimento, com certeza.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Eu n&atilde;o me lembro de ter depoimento seu aqui&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Eu n&atilde;o me lembro tamb&eacute;m de ter dado depoimento. Se dei, eu n&atilde;o me lembro, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;, sim. E, da&iacute;, depois disso, voc&ecirc; chegou a conversar com as suas irm&atilde;s sobre a Sandra? A sua prima&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Bastante, n&eacute;? Para a gente tentar descobrir o que tinha realmente acontecido, com quem elas tinham conversado, se algu&eacute;m estranho&hellip; Eu fazia muita pergunta, n&eacute;? &ldquo;Quem de estranho chegou em voc&ecirc;s? Voc&ecirc; n&atilde;o viu nada de errado?&rdquo;. Como elas tinham bastante conhecido, bastante conhecimento&hellip; &ldquo;N&atilde;o vimos nada de anormal&rdquo;. Dizem que n&atilde;o viram nada. N&atilde;o sei te dizer o que&hellip; Se elas falaram a verdade para mim ou n&atilde;o, tamb&eacute;m n&atilde;o sei dizer, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; acha&hellip; A M&aacute;rcia e&hellip; As duas M&aacute;rcias, a tua irm&atilde; e a tua prima, voc&ecirc; chegou a conversar com elas? O que elas falavam da festa, por exemplo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Na verdade, eu nem&hellip; Para te falar a verdade, eu nem sabia que a prima estava junto. Eu sabia que estavam as minhas irm&atilde;s, as tr&ecirc;s irm&atilde;s na festa. Eu nem sabia que a prima estava junto. Voc&ecirc; falou aquele dia, que eu fiquei sabendo que ela estava junto. Eu nem sabia at&eacute; ent&atilde;o. Tem muita coisa que eu n&atilde;o sei at&eacute; hoje, n&eacute;? Nunca fiquei sabendo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; nem estava convivendo mais ali, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: &Eacute; muita coisa que aconteceu que eu n&atilde;o fiquei sabendo, n&atilde;o participava de quase nada da vida deles e n&atilde;o fiquei sabendo de mais nada assim&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Tamb&eacute;m tinha um filho pequeno para criar&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Tamb&eacute;m. Tinha que cuidar dele, n&eacute;? Ent&atilde;o, toquei a minha vida, n&eacute;? Cuidar da minha fam&iacute;lia&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Afetou, de alguma forma, a vida da sua m&atilde;e? Que voc&ecirc; tenha notado? A morte da Sandra?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Pior que n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Continuou do mesmo jeito?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Mesma coisa. Mesma coisa. N&atilde;o afetou em nada. Do mesmo jeito que ela era, ela ficou, e pronto, acabou. E eu que fiquei, na &eacute;poca, muito&hellip; Depois disso eu tive depress&atilde;o, tive um monte de coisa, Deus o livre. Eu, n&eacute;? Me afetou bastante.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Como a tua vida mudou a partir de l&aacute;, assim? O que voc&ecirc;&hellip; Do seu dia a dia, por exemplo&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Medo s&oacute;&hellip; Eu tinha muito medo, n&eacute;? Medo. Medo. Falava: &ldquo;n&atilde;o deixe ir sozinho para a escola, n&atilde;o deixe ir no mercado&hellip;&rdquo;. Qualquer m&atilde;e que tivesse crian&ccedil;a, eu dizia: &ldquo;cuide&rdquo;, n&eacute;? Eu fiquei&hellip; Fiquei n&atilde;o&hellip; Fiquei e estou at&eacute; hoje&hellip; Os meus filhos todos eram rapazes, e eu levava no col&eacute;gio. Essa menina a&iacute; era mo&ccedil;a, e eu levava de m&atilde;o dada no col&eacute;gio. Tinha vergonha que a m&atilde;e fosse levar e buscar, e eu ia, levava e buscava. Nunca larguei ela sozinha. Morria de medo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Com o tempo, essa hist&oacute;ria foi perdendo for&ccedil;a. A pol&iacute;cia n&atilde;o conseguia desvendar o caso, a fam&iacute;lia foi crescendo, envelhecendo. Dona Juvelina, a m&atilde;e de Sueli e de Sandra, morava com a filha mais nova, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/maria-edileide\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; mais nova de Sandra Mateus da Luz\" class=\"encyclopedia\">Maria Edileide<\/a>. Certo dia, no final da d&eacute;cada de 1990, Sueli foi visit&aacute;-la e viu que ela n&atilde;o estava muito bem. Decidiu, ent&atilde;o, cham&aacute;-la para morar em sua casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Sueli cuidou da m&atilde;e durante 25 anos.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ficaram m&aacute;goas? Deu para resolver tudo isso nesses 25 anos juntas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: N&atilde;o. Da&iacute; depois&hellip; N&atilde;o tem muito o que fazer. A menina n&atilde;o ia voltar mesmo, n&eacute;? Aquela raiva que eu fiquei na &eacute;poca, que eu xinguei, fiz tudo, passou. Era a m&atilde;e, n&eacute;? Tanto que eu preservei, que n&atilde;o deixei nem ela ver a menina. Passou, n&atilde;o, depois&hellip; Sem m&aacute;goa, sem nada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc;s chegavam a conversar sobre a Sandra?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Nunca mais.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Nunca conversavam? Por qu&ecirc;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: A minha m&atilde;e n&atilde;o tocava no assunto e nem eu. Ningu&eacute;m.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Por qu&ecirc;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Ela n&atilde;o&hellip; Para ela, tanto fazia falar, como n&atilde;o, ent&atilde;o da&iacute; ningu&eacute;m tocava no assunto, n&eacute;? Ningu&eacute;m comentava nada. Nunca foi comentado. Nunca chegamos assim: &ldquo;ai, vamos discutir sobre isso, ser&aacute; que pegaram&hellip;? Ser&aacute; que&hellip;?&rdquo;. Nunca, nunca, nunca. N&atilde;o conversava mais sobre isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas o&hellip; &Eacute; que eu fico pensando assim&hellip; Eu nunca estive na situa&ccedil;&atilde;o de voc&ecirc;s. Por isso que eu estou tentando entender. Porque &eacute; uma coisa t&atilde;o horr&iacute;vel, que &eacute; t&atilde;o chocante, e que n&atilde;o teve uma resposta. Deve ter uma hora que cansa, n&eacute;? Assim&hellip; &ldquo;N&atilde;o, a vida tem que continuar&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Exato. N&atilde;o, no in&iacute;cio, a gente queria achar o culpado, mas vai achar como? Que nem eu falei, eu pouco sabia deles. Tinha que achar para a gente ter um pouquinho de felicidade. Pegaram, vai ficar preso, v&atilde;o matar l&aacute;&hellip; Isso que eu queria. Eu, se eu mesma pego, acho que eu tinha matado. Realmente, at&eacute; hoje, se eu souber quem foi e estiver vivo, &eacute; capaz de eu matar ainda, n&eacute;? Na &eacute;poca, eu pensava: &ldquo;nossa, tinha que achar e fazer a mesma coisa&rdquo;. Ir tirando aos pouquinhos, n&eacute;? E eu fiquei assim, com essa dor que&hellip; Que nem eu falo, n&atilde;o mato nem uma galinha para comer, n&atilde;o consigo. Se eu matar, eu n&atilde;o como. Mas a pessoa que fez aquilo, se eu pego, acho que eu ajudo a tirar um pedacinho daqui, um pedacinho&hellip; Eu ajudo. Mas nunca foi descoberto nada, n&atilde;o tem como voc&ecirc; ficar&hellip; Eu nunca julguei ningu&eacute;m porque, quando voc&ecirc; n&atilde;o sabe o que aconteceu, voc&ecirc; n&atilde;o tem como julgar. Foi para magia negra? Foi um man&iacute;aco? Foi um m&eacute;dico? Na &eacute;poca, a gente fica assim, sabe? Foi algu&eacute;m estudado que fez isso? Ser&aacute; que tirou os &oacute;rg&atilde;os? A gente ficava se perguntando. Mas depois acaba que voc&ecirc; come&ccedil;a a rezar e pedir para Deus: &ldquo;tira essas coisas da minha cabe&ccedil;a, eu preciso viver&rdquo;. Que nem eu j&aacute; tinha a minha fam&iacute;lia, eu tenho que cuidar da minha fam&iacute;lia. Acaba que Deus vai te conformando com aquilo que aconteceu, e ficou tudo a ver navios. Ningu&eacute;m fez nada. Nunca foi descoberto nada. E morreu na casca.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; falou de m&eacute;dico. Por que&hellip; Voc&ecirc;s tinham desconfian&ccedil;a que podia ser m&eacute;dico?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Eu pensei na &eacute;poca&hellip; Nossa, eu fiquei tentando achar uma solu&ccedil;&atilde;o para aquilo, para fazer uma coisa t&atilde;o bem feita daquela ali, podia ser algu&eacute;m com muita experi&ecirc;ncia, algu&eacute;m muito estudado, n&eacute;? Passou mil e quinhentas coisas na minha cabe&ccedil;a. Fizeram para tirar &oacute;rg&atilde;o? Tiraram as m&atilde;os, consumiram com as m&atilde;os, n&eacute;? Ent&atilde;o, a gente fica pensando mil e uma coisas, n&eacute;? E eu penso at&eacute; hoje. N&atilde;o sei o que aconteceu. Se mataram, estupraram e mataram, &eacute; um man&iacute;aco, n&eacute;? &Eacute; uma pessoa assim&hellip; Uma pessoa&hellip; Isso n&atilde;o pode nem chamar de pessoa, quem faz isso, n&eacute;? Chamar de pessoa &eacute; um crime, n&eacute;? Que &eacute; b&aacute;rbaro, o que fez foi muito b&aacute;rbaro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Para encerrar mesmo, se a Sandra n&atilde;o tivesse sido morta, o que voc&ecirc; acha que teria acontecido com ela? Como teria sido a vida dela? Ela era inteligente, ela era esperta?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Ai, pois &eacute;&hellip; A minha vontade era que tivesse uma vida que nem eu tenho. Uma vida est&aacute;vel, boa, n&eacute;? Crescesse, fosse namorar, fosse casar, fosse ter uma fam&iacute;lia. Poderia estar melhor do que eu hoje. Ou poderia estar pior&hellip; Que nem essa, que &eacute; a menor, que est&aacute; largada na cacha&ccedil;a&hellip; A gente n&atilde;o sabe o que poderia ser feito. Mas poderia ter morrido com um aninho, um ano e pouco, que quando deu a doen&ccedil;a, ent&atilde;o&hellip; Seria mais f&aacute;cil, que morreu de doen&ccedil;a, n&eacute;? Mas sofreu&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ela quase morreu com um ano?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: &Eacute;. Ela teve doen&ccedil;a, n&eacute;? Essa doen&ccedil;a de &ldquo;mingo&rdquo;, que eu falei para voc&ecirc;. Ent&atilde;o, podia ter morrido nessa &eacute;poca j&aacute;, n&eacute;? N&atilde;o morreu e, com 11 anos, mataram.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute; forte isso, n&eacute;? Voc&ecirc; falou: &ldquo;poxa, se fosse para morrer, que morresse&hellip;&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: De doen&ccedil;a.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: De doen&ccedil;a, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Ent&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Com um ano&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: &Eacute;, pronto. N&atilde;o tinha sofrido, n&atilde;o tinha passado por tudo o que passou, que a vida n&atilde;o foi t&atilde;o boa para ela tamb&eacute;m. Que eu sei que n&atilde;o. E da&iacute; ainda acabar morrendo dessa maneira, n&eacute;? Ent&atilde;o, tivesse morrido de doen&ccedil;a mesmo, l&aacute; pequenininha, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Se voc&ecirc; pudesse falar alguma coisa para a Sandra hoje, o que voc&ecirc; falaria?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Saudade dela.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Imagino. Vamos ver o que a gente consegue fazer, ent&atilde;o, dona Sueli. Quer deixar algum recado? Alguma lembran&ccedil;a?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: Meu Deus&hellip; Onde ela estiver, ela sabe que eu amo ela at&eacute; hoje, n&eacute;? N&atilde;o tem muito o que falar n&atilde;o. A gente n&atilde;o sabe o que falar, n&atilde;o sabe o que fazer. Mas queria muito saber quem fez, o porqu&ecirc; fez. Mas nunca consegui saber. Mas ela sabe que, de onde ela est&aacute;, eu amo ela at&eacute; hoje. Muito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: A gente sabe tamb&eacute;m. Obrigado por falar comigo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sueli: De nada&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Deixa eu te dar um abra&ccedil;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>AS INVESTIGA&Ccedil;&Otilde;ES<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quem come&ccedil;ou a investiga&ccedil;&atilde;o do assassinato de Sandra foi o doutor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/inacio-raymundo-pensin\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado respons&aacute;vel pelas investiga&ccedil;&otilde;es iniciais do caso Sandrinha\" class=\"encyclopedia\">In&aacute;cio Raymundo Pensin<\/a>, que na &eacute;poca era delegado de Mandirituba. A investiga&ccedil;&atilde;o foi boa, dentro dos limites que existiam.<\/p>\n\n\n\n<p>Cerca de um m&ecirc;s depois, uma equipe da Delegacia de Homic&iacute;dios de Curitiba assumiu o caso. Liderados pelo investigador <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/fernando-souza-vidolin\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado da Delegacia de Homic&iacute;dios de Curitiba que investigou o caso Sandrinha\" class=\"encyclopedia\">Fernando Souza Vidolin<\/a>, tamb&eacute;m fizeram um bom trabalho. Tomaram depoimentos, realizaram dilig&ecirc;ncias, exames, mas nada foi conclu&iacute;do.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas investiga&ccedil;&otilde;es demoraram anos. Depois que o doutor Vidolin saiu do caso, o inqu&eacute;rito passou pelas m&atilde;os de v&aacute;rios delegados e promotores sem nenhum andamento. Por fim, foi arquivado por falta de provas. Mas h&aacute; uma coisa muito curiosa nesse caso. E, para isso, &eacute; preciso voltar para Guaratuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Evandro foi morto em abril de 1992, dois meses depois de Leandro desaparecer. Em julho, com base em uma investiga&ccedil;&atilde;o question&aacute;vel e confiss&otilde;es falsas feitas sob tortura, sete pessoas foram presas em Guaratuba, acusadas de terem matado Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p>No m&ecirc;s seguinte, em agosto, consta no inqu&eacute;rito de Sandra uma declara&ccedil;&atilde;o do IML do Paran&aacute;. Ela &eacute; assinada pelos m&eacute;dicos que examinaram o corpo de Evandro, os doutores <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/francisco-moraes-e-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Chefe do IML de Curitiba na d&eacute;cada de 1990\" class=\"encyclopedia\">Francisco Moraes e Silva<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/carlos-roberto-ballin\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico legista respons&aacute;vel pela necropsia do corpo de Evandro\" class=\"encyclopedia\">Carlos Roberto Ballin<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>No documento, eles respondem uma indaga&ccedil;&atilde;o feita pelo diretor do Instituto da &eacute;poca, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/jose-marcos-parreira\/\" target=\"_self\" title=\"Diretor do Instituto M&eacute;dico Legal de Curitiba em 1993\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Marcos Parreira<\/a>. Confira um trecho do documento:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Sobre o caso Sandra: apreciando especialmente o laudo de exame e levantamento de local de morte, bem como o laudo de exame de necr&oacute;psia, constata-se que o prop&oacute;sito do autor (ou autores) [respons&aacute;vel pela morte de Sandra] foi de natureza sexual, produzindo ap&oacute;s a morte mutila&ccedil;&otilde;es diversas descritas nos documentos supra enumerados com o objetivo de impossibilitar ou dificultar a identifica&ccedil;&atilde;o da v&iacute;tima e o local de a&ccedil;&atilde;o mec&acirc;nica determinante da morte, visto que as les&otilde;es predominam na face, pesco&ccedil;o e membros superiores. Comparando com o laudo de exame de necr&oacute;psia referente a <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/evandro-ramos-caetano\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida e encontrada morta em abril de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Evandro Ramos Caetano<\/a>, informo que, segundo a aprecia&ccedil;&atilde;o anal&oacute;gica e fotogr&aacute;fica do feito, n&atilde;o foi poss&iacute;vel estabelecer rela&ccedil;&atilde;o entre esses dois eventos criminosos<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas coisas s&atilde;o importantes nessa declara&ccedil;&atilde;o.<em> <\/em>A primeira &eacute; que, em algum momento, logo ap&oacute;s a morte de Evandro, houve<em> <\/em>d&uacute;vida se os casos poderiam ter alguma rela&ccedil;&atilde;o. Mas essa linha de investiga&ccedil;&atilde;o nunca<em> <\/em>avan&ccedil;ou, pois o trabalho em Guaratuba estava totalmente contaminado com a hist&oacute;ria absurda de<em> <\/em>ritual sat&acirc;nico. E isso gerou um efeito domin&oacute; cujas consequ&ecirc;ncias foram sentidas por<em> <\/em>anos.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda coisa a se notar &eacute; como os m&eacute;dicos legistas da &eacute;poca encararam os dois casos. O fato de Sandra ser uma menina, abusada sexualmente, teria sido o suficiente para eles descartarem qualquer rela&ccedil;&atilde;o com o homic&iacute;dio de Evandro. Novamente, isso pode ser mais um efeito da hist&oacute;ria de ritual sat&acirc;nico.<\/p>\n\n\n\n<p>E a contamina&ccedil;&atilde;o n&atilde;o para por a&iacute;. Os crimes de Guaratuba influenciaram diretamente no caso dos meninos emasculados de Altamira, no estado do Par&aacute;, que foram mortos entre 1989 e 1993.<\/p>\n\n\n\n<p>Como Ivan explicou no <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/leandro-bossi\/preludio-3-valentina\/\" target=\"_blank\">epis&oacute;dio 3<\/a> do Prel&uacute;dio, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/valentina-de-andrade\/\" target=\"_self\" title=\"L&iacute;der do grupo Lineamento Universal Superior (LUS)\" class=\"encyclopedia\">Valentina de Andrade<\/a>, suspeita de estar envolvida nos casos do litoral do Paran&aacute;, acabou na mira das investiga&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m em Altamira. Tudo porque a pol&iacute;cia acreditava que as crian&ccedil;as eram mortas por uma seita sat&acirc;nica liderada por ela. Assim como em Guaratuba, v&aacute;rias pessoas foram detidas no Par&aacute; a partir dessa acusa&ccedil;&atilde;o. A maioria delas morreu presa.<\/p>\n\n\n\n<p>Valentina foi julgada em Bel&eacute;m do Par&aacute; em 2003 e acabou absolvida. Naquele ano, no calor dos j&uacute;ris, e baseada na cren&ccedil;a de uma seita sat&acirc;nica espalhada em c&eacute;lulas por todo o Brasil, foram abertos v&aacute;rios inqu&eacute;ritos pela Pol&iacute;cia Federal.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses inqu&eacute;ritos tinham como objetivo verificar se Valentina estaria envolvida em mortes violentas de crian&ccedil;as pelo pa&iacute;s. A partir desse esfor&ccedil;o, o desaparecimento de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a> acabou sendo investigado por policiais federais, mas sem nenhuma conclus&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que poucos sabem &eacute; que o caso de Sandra tamb&eacute;m passou pela PF. O inqu&eacute;rito foi aberto no final de 2003, o que em teoria poderia ser uma nova chance de investiga&ccedil;&atilde;o para solucionar o caso.<\/p>\n\n\n\n<p>S&oacute; que o inqu&eacute;rito da PF sobre a Sandra nunca teve isso como prop&oacute;sito. Em seus autos, &eacute; bem evidente que os investigadores s&oacute; queriam descobrir se <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/valentina-de-andrade\/\" target=\"_self\" title=\"L&iacute;der do grupo Lineamento Universal Superior (LUS)\" class=\"encyclopedia\">Valentina de Andrade<\/a> teria algo a ver com a morte da menina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum depoimento foi tomado. Nenhuma investiga&ccedil;&atilde;o nova foi feita. Mais uma vez, o caso de Sandra caiu no esquecimento at&eacute; ser novamente arquivado. E uma curiosidade: quem o arquivou no dia 29 de mar&ccedil;o de 2007 foi o ent&atilde;o juiz <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/sergio-moro\/\" target=\"_self\" title=\"Hoje conhecido nacionalmente, foi o juiz que arquivou o caso Sandrinha em 2007\" class=\"encyclopedia\">S&eacute;rgio Moro<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso Sandrinha abriu novas portas para Ivan. Agora, ele tinha mais elementos para tentar montar esse quebra-cabe&ccedil;a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda h&aacute; muita coisa para se falar sobre ela. Mas antes de tudo, Ivan precisava verificar se fazia sentido colocar a sua hist&oacute;ria do lado dos casos Leandro e Evandro. Porque, apesar das semelhan&ccedil;as que encontrou, ele n&atilde;o sabe dizer se as les&otilde;es que existiam no corpo de Sandra seriam realmente compat&iacute;veis ou semelhantes com aquelas encontradas em Leandro e Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, no caso de Leandro n&atilde;o tem muito o que levantar, dado o fato de que informa&ccedil;&otilde;es importantes sobre a forma como ele foi assassinado se perderam no tempo, em decorr&ecirc;ncia da decomposi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o caso de Evandro tinha bastante informa&ccedil;&atilde;o. E, se os crimes est&atilde;o relacionados, Ivan sup&otilde;e que, ao estudar melhor o estado do corpo, vai entender o que aconteceu com Leandro. E, em seguida, pode comparar com o que sabe sobre a forma como Sandra foi morta.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, Ivan decidiu conversar com especialistas: tanto envolvidos da &eacute;poca, que trabalharam nesses casos, quanto pessoas que pudessem lan&ccedil;ar um novo olhar sob esses laudos.<\/p>\n\n\n\n<p>E o primeiro passo parecia &oacute;bvio: pela falta de informa&ccedil;&otilde;es do caso Leandro, Ivan precisava voltar para Evandro. E dessa vez, sem qualquer contamina&ccedil;&atilde;o sobre ritual sat&acirc;nico, olhando apenas para como o corpo foi encontrado. Basicamente, come&ccedil;ar do zero.<\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; sobre essa nova parte da investiga&ccedil;&atilde;o que Ivan falar&aacute; no pr&oacute;ximo epis&oacute;dio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sandrinha<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":25,"template":"","encyclopedia-category":[6],"encyclopedia-tag":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia\/349"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/encyclopedia"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=349"}],"wp:term":[{"taxonomy":"encyclopedia-category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-category?post=349"},{"taxonomy":"encyclopedia-tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-tag?post=349"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}