{"id":296,"date":"2023-11-14T00:05:00","date_gmt":"2023-11-14T03:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/?post_type=encyclopedia&#038;p=296"},"modified":"2023-11-17T07:34:43","modified_gmt":"2023-11-17T10:34:43","slug":"extras-episodio-03","status":"publish","type":"encyclopedia","link":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/extras-episodio-03\/","title":{"rendered":"Extras Epis\u00f3dio 03"},"content":{"rendered":"\n<p>No dia 15 de fevereiro de 1992, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a> desapareceu. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/aramis\/\" target=\"_self\" title=\"Amigo de Leandro, que teria sumido por algumas horas durante o show do Moraes Moreira\" class=\"encyclopedia\">Aramis C&acirc;ndido de Castro<\/a> tamb&eacute;m sumiu por algumas horas, mas voltou para casa tarde da noite com a ajuda da Pol&iacute;cia Militar de Guaratuba, litoral do Paran&aacute;. Leandro e Aramis tinham a mesma idade, entre sete e oito anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois meses depois, no dia 6 de abril de 1992, uma segunda-feira, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/evandro-ramos-caetano\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida e encontrada morta em abril de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Evandro Ramos Caetano<\/a> desapareceu pela manh&atilde;. Ele havia sa&iacute;do da escola Olga Silveira, onde estava a m&atilde;e, que trabalhava l&aacute;. Dizia que ia para casa pegar um brinquedo e j&aacute; voltava. Mas n&atilde;o voltou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cinco dias depois, no s&aacute;bado, 11 de abril, o corpo dele foi encontrado em um matagal com uma s&eacute;rie de mutila&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>OS IRM&Atilde;OS FRAN&Ccedil;A&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nos autos do processo do caso Evandro, consta que, ap&oacute;s o corpo ser encontrado, uma mulher se lembrou de uma hist&oacute;ria que havia acontecido com os filhos poucos dias antes do desaparecimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Acreditando que isso poderia ter alguma rela&ccedil;&atilde;o com o que havia ocorrido com Evandro, ela decidiu ir para Curitiba fazer uma den&uacute;ncia na Divis&atilde;o de Antissequestros da Pol&iacute;cia Civil do Paran&aacute;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O nome dela era <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/maria-ferreira-de-franca-albuquerque\/\" target=\"_self\" title=\"M&atilde;e dos meninos Fernando e Cleyton Fran&ccedil;a\" class=\"encyclopedia\">Maria Ferreira de Fran&ccedil;a Albuquerque<\/a>, e na &eacute;poca ela tinha 31 anos. Em sua declara&ccedil;&atilde;o, datada de 14 de abril de 1992, a testemunha dizia o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p><em>H&aacute; cerca de uns oito dias atr&aacute;s [ou seja, por volta do dia 6 de abril], os filhos da declarante de nomes Fernando (11 anos) e Cleyton (10 anos) foram seguidos por um elemento desconhecido, com as caracter&iacute;sticas seguintes: cabelos longos e ondulados, barba comprida, bigode, moreno, mais ou menos 1,75 de altura, magro, o qual seguiu-os at&eacute; o Col&eacute;gio, sendo que as crian&ccedil;as, notando que estavam sendo seguidas, passaram a correr. A declarante a princ&iacute;pio n&atilde;o se preocupou muito com o epis&oacute;dio relatado pelos menores. Por&eacute;m, naqueles dias sumiu o garoto Evandro, bem parecido com o filho da declarante (loiro e de olhos claros), o qual foi nestes dias encontrado morto e mutilado<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/1992-04-14-4-Maria-Aparecida-Ferreira-de-Franc%CC%A7a-Albuquerque.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Depoimento de Maria Fran&ccedil;a Albuquerque (14 de abril de 1992)<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O depoimento de Maria continua, com ela dizendo que suspeitava de um homem que morava perto da sua casa. Um homem que, de acordo com ela, seria conhecido pelo apelido de &ldquo;Cheiro&rdquo;, mas cujo nome era <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/juarez-jose-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Primeiro suspeito preso pelo Grupo Tigre no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Juarez Jos&eacute; da Silva<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre Juarez, Maria dizia que ele seria um traficante da regi&atilde;o, que ficava muito inconveniente quando estava drogado. No dia seguinte ao depoimento, a pol&iacute;cia pediu a pris&atilde;o de Juarez, que foi levado para Curitiba logo em seguida.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois dias ap&oacute;s Maria ser ouvida, em 16 de abril de 1992, os filhos <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/fernando-ferreira-de-franca\/\" target=\"_self\" title=\"Um dos irm&atilde;os perseguidos por um homem perto da data de desaparecimento de Evandro\" class=\"encyclopedia\">Fernando Ferreira de Fran&ccedil;a<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/cleyton-everson-ferreira-de-franca\/\" target=\"_self\" title=\"Um dos irm&atilde;os perseguidos por um homem perto da data do desaparecimento de Evandro\" class=\"encyclopedia\">Cleyton Everson Ferreira de Fran&ccedil;a<\/a> tamb&eacute;m prestaram depoimento, narrando basicamente a mesma hist&oacute;ria. Mas com uma diferen&ccedil;a importante: eles relatavam que a persegui&ccedil;&atilde;o teria ocorrido dias antes de Evandro desaparecer &ndash; e n&atilde;o no mesmo dia, como ela dava a entender. De resto, tudo &eacute; igual. Ambos os irm&atilde;os refor&ccedil;am a descri&ccedil;&atilde;o que a m&atilde;e havia passado, de um homem barbado, de bigode, estatura mediana e cor morena.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois dizem tamb&eacute;m que o homem os perseguia fazendo perguntas, incomodando, e oferecendo doces e dinheiro para que os garotos sa&iacute;ssem com ele. E, no depoimento de Fernando, h&aacute; a informa&ccedil;&atilde;o de que tudo teria acontecido por volta das 13h.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/1992-04-16-2-Fernando-Ferreira-de-Franc%CC%A7a.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Depoimento de Fernando Fran&ccedil;a (16 de abril de 1992)<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/1992-04-16-1-Cleiton-Everson-Ferreira-de-Franc%CC%A7a.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Depoimento de Cleyton Fran&ccedil;a (16 de abril de 1992)<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Ivan Mizanzuk narrou essa hist&oacute;ria pela primeira vez ainda durante a temporada do Caso Evandro, no <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/o-caso-evandro\/33-retratos-falados\/\" target=\"_blank\">epis&oacute;dio 33<\/a>. Isso porque o relato dos garotos acabou servindo para a produ&ccedil;&atilde;o de um retrato falado que era muito parecido com o pai de santo <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/osvaldo-marcineiro\/\" target=\"_self\" title=\"Pai de santo acusado pela morte de Evandro Ramos Caetano\" class=\"encyclopedia\">Osvaldo Marcineiro<\/a>, um dos sete acusados pela morte do menino. No mesmo epis&oacute;dio, Ivan explicou que o retrato falado em si n&atilde;o tinha nenhuma caracter&iacute;stica muito forte. Era apenas o rosto gen&eacute;rico de um homem barbado.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Cartaz-com-retrato-falado.png\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Retrato falado com base nos relatos de Fernando e Cleyton<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Fato &eacute; que, a partir dos relatos da m&atilde;e e dos garotos, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/juarez-jose-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Primeiro suspeito preso pelo Grupo Tigre no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Juarez Jos&eacute; da Silva<\/a> foi preso. No interrogat&oacute;rio, Juarez negou ter qualquer envolvimento com o desaparecimento de Evandro e afirmou que n&atilde;o perseguiu nenhum dos meninos, pois trabalhava todos os dias como marceneiro. Al&eacute;m disso, confirmou que era usu&aacute;rio de maconha &ndash; mas n&atilde;o h&aacute; nenhuma men&ccedil;&atilde;o sobre ele ser traficante ou coisa parecida.<\/p>\n\n\n\n<p>Da primeira vez que Ivan leu a hist&oacute;ria de Juarez, duas coisas chamaram a aten&ccedil;&atilde;o: primeiro que, nesse interrogat&oacute;rio, Juarez afirma que o patr&atilde;o era um homem chamado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/edesio-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Uma das principais testemunhas de acusa&ccedil;&atilde;o do caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Ed&eacute;sio da Silva<\/a>. Quem acompanhou o caso Evandro deve lembrar que Ed&eacute;sio virou uma importante testemunha de acusa&ccedil;&atilde;o contra a filha e a mulher do prefeito de Guaratuba, pois ele dizia que teria visto as duas sequestrar Evandro na manh&atilde; do dia 6 de abril de 1992.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/1992-04-16-3-Juarez-Jose%CC%81-da-Silva.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Interrogat&oacute;rio de Juarez Jos&eacute; da Silva (16 de abril de 1992)<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O problema &eacute; que, quando Ed&eacute;sio afirmava isso, fazia acompanhado de uma s&eacute;rie de contradi&ccedil;&otilde;es e situa&ccedil;&otilde;es esquisitas. Ele mudou detalhes importantes do depoimento quando falou em j&uacute;ri, por exemplo. Mas o mais estranho &eacute; o tempo que ele levou para revelar o que sabia. Ed&eacute;sio contava que conhecia muito bem a fam&iacute;lia de Evandro, que chegou a ser vizinho deles, mas n&atilde;o compartilhou nada com a pol&iacute;cia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele s&oacute; apareceu no processo ap&oacute;s as pris&otilde;es dos acusados, tr&ecirc;s meses depois de Evandro ser assassinado. E s&oacute; apareceu por interm&eacute;dio de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/diogenes-caetano-dos-santos-filho\/\" target=\"_self\" title=\"Primo de Evandro Ramos Caetano\" class=\"encyclopedia\">Di&oacute;genes Caetano dos Santos Filho<\/a>, um parente de Evandro que era rival pol&iacute;tico da fam&iacute;lia do prefeito. Com tudo isso somado &agrave;s torturas que os acusados do caso Evandro sofreram, Ivan acredita que o relato de Ed&eacute;sio n&atilde;o &eacute; nada confi&aacute;vel.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/1992-08-13-5-Ede%CC%81sio-da-Silva.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Depoimento de Ed&eacute;sio&nbsp;da Silva (13 de agosto de 1992)<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Mas, mesmo que n&atilde;o soubesse das fitas de tortura, bastaria analisar os fatos. Suponha que uma pessoa viu uma crian&ccedil;a sendo raptada. Essa pessoa conhece o garoto e os sequestradores. Por algum motivo inexplic&aacute;vel, ela n&atilde;o fala para ningu&eacute;m e deixa a fam&iacute;lia sofrendo. Depois, um amigo &eacute; preso por esse caso. Essa pessoa continua quieta. De repente, tr&ecirc;s meses depois, ela decide falar, sendo justamente conduzida pelo principal articulador que gerou a acusa&ccedil;&atilde;o contra aquelas pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer forma, duas coisas chamaram a aten&ccedil;&atilde;o de Ivan na hist&oacute;ria de Juarez. A primeira era essa proximidade com Ed&eacute;sio. E a segunda &eacute; que, no interrogat&oacute;rio, Juarez dizia que tinha cortado o cabelo e a barba. E os garotos afirmavam que tinham sido perseguidos por um homem barbudo e cabeludo. S&atilde;o meninos de 10 e 11 anos. Os depoimentos em si j&aacute; seriam complicados de serem considerados em um inqu&eacute;rito, visto que os relatos de crian&ccedil;as nem sempre podem ser considerados confi&aacute;veis, especialmente se n&atilde;o est&atilde;o acompanhados de assistentes sociais e psic&oacute;logos infantis.<\/p>\n\n\n\n<p>Por&eacute;m, com a mudan&ccedil;a de visual de Juarez, tudo ficou mais complexo ainda. Essa parte do processo n&atilde;o deixa claro o que teria acontecido. N&atilde;o h&aacute; termo formal de reconhecimento, que &eacute; uma pe&ccedil;a b&aacute;sica nesse tipo de situa&ccedil;&atilde;o. Mas, atrav&eacute;s de um of&iacute;cio de um delegado de Guaratuba, datado de 20 de abril de 1992, d&aacute;-se a entender que os garotos n&atilde;o reconheceram Juarez e, por isso, ele foi solto.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/1992-04-20-1-Dispensa-Juarez.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Of&iacute;cio &ndash; dispensa de Juarez (20 de abril de 1992)<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Pode ser que o reconhecimento n&atilde;o tenha sido bem feito. Pode ser que a mudan&ccedil;a de visual dele alterou alguma coisa. Ent&atilde;o, Ivan foi atr&aacute;s da dona Maria, m&atilde;e dos meninos Fernando e Cleyton, em Guaratuba. Ela n&atilde;o quis dar entrevista, mas conversou com Ivan e com a jornalista Natalia Filippin.<\/p>\n\n\n\n<p>Da conversa com Maria, o que mais chamou a aten&ccedil;&atilde;o foi a descri&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica do filho Fernando na &eacute;poca. Ele era loiro, de olhos claros e, apesar de ter 11 anos, era bem pequeno, aparentando ter oito anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse incidente teria ocorrido provavelmente no in&iacute;cio do m&ecirc;s de abril, j&aacute; depois de Leandro desaparecer e poucos dias antes de Evandro sumir. E teria ocorrido perto da Escola Olga Silveira, de onde Evandro saiu para ir para casa e nunca mais foi visto.<\/p>\n\n\n\n<p>Como Ivan falou no epis&oacute;dio anterior, Leandro morava perto da Associa&ccedil;&atilde;o dos Fiscais em Guaratuba, que fica exatamente na mesma rua da Escola Olga Silveira, a poucas quadras de dist&acirc;ncia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Inclusive, os depoimentos dos irm&atilde;os Fran&ccedil;a indicam que eles tamb&eacute;m moravam perto da Associa&ccedil;&atilde;o dos Fiscais. Os endere&ccedil;os constam como: &ldquo;Avenida Paran&aacute;, sem n&uacute;mero &ndash; fundos Associa&ccedil;&atilde;o dos Fiscais &ndash; Vila Esperan&ccedil;a&rdquo;. &Eacute; praticamente o mesmo endere&ccedil;o descrito como o de Leandro: &ldquo;Avenida Paran&aacute;, sem n&uacute;mero, perto da Associa&ccedil;&atilde;o dos Fiscais &ndash; Vila Esperan&ccedil;a&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse local tamb&eacute;m aparece no seguinte trecho do depoimento do garoto Cleyton, de 10 anos:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dias antes de haver desaparecido seu colega <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/evandro-ramos-caetano\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida e encontrada morta em abril de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Evandro Ramos Caetano<\/a>, o informante vinha com seu irm&atilde;o Fernando em dire&ccedil;&atilde;o da escola Olga Silveira, no bairro da Cohapar e, ao chegarem no come&ccedil;o da Vila Esperan&ccedil;a, veio um homem que come&ccedil;ou a fazer perguntas ao informante e seu irm&atilde;o, dizendo que dava bala e dinheiro para ambos. O homem veio acompanhando o informante e seu irm&atilde;o desde aquela rua, vindo pelos fundos da Associa&ccedil;&atilde;o dos Fiscais. E, quando chegaram pr&oacute;ximo da Escola, j&aacute; na Cohapar, o informante e seu irm&atilde;o combinaram de despistar aquele homem, indo ambos por uma rua nos fundos daquela vila, e foram para a Escola<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, Leandro morava perto da Associa&ccedil;&atilde;o dos Fiscais e desapareceu em fevereiro. Em abril, os irm&atilde;os Fran&ccedil;a moravam perto da Associa&ccedil;&atilde;o dos Fiscais e, no trajeto para a Escola Olga Silveira, foram perseguidos por um homem na regi&atilde;o. Pouco tempo depois, Evandro desapareceu por ali tamb&eacute;m, perto da escola Olga Silveira. Isso tudo pode ser coincid&ecirc;ncia. Pode ser que a dona Maria e os irm&atilde;os estivessem aumentando uma hist&oacute;ria banal por medo. Contudo, a impress&atilde;o que Ivan tem &eacute; de que aquela era uma &aacute;rea visada pelo ofensor em s&eacute;rie que ele procura. E pode ser que os irm&atilde;os Fran&ccedil;a tenham escapado dele.<\/p>\n\n\n\n<p>O Projeto Humanos tentou localizar Cleyton e Fernando, os irm&atilde;os Fran&ccedil;a. A m&atilde;e n&atilde;o quis passar os contatos deles, mas informou que ambos j&aacute; n&atilde;o moram em Guaratuba. Ivan procurou eles em redes sociais, tentou por outros bancos de dados, mas n&atilde;o conseguiu localiz&aacute;-los. Ent&atilde;o, n&atilde;o foi poss&iacute;vel ouvir o lado deles dessa hist&oacute;ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan tamb&eacute;m foi atr&aacute;s de Juarez. Ele ainda mora em Guaratuba, &eacute; um homem muito simples, vivendo em condi&ccedil;&otilde;es prec&aacute;rias. Ele acredita que foi preso porque tentaram armar contra ele, porque os assassinos seriam a filha e a mulher do prefeito com outras pessoas. Ele nem sabia que tinha sido preso por causa da den&uacute;ncia da dona Maria, m&atilde;e dos irm&atilde;os Fran&ccedil;a.<\/p>\n\n\n\n<p>O ponto &eacute; que, depois da conversa com a dona Maria, Ivan passou a achar que essa hist&oacute;ria envolvendo Juarez n&atilde;o se sustentava. Ele n&atilde;o duvida que os meninos tenham sido perseguidos, mas ela mesma diz que n&atilde;o viu nada, que s&oacute; repassou o que os filhos lhe falaram. Para Ivan, parece que ela j&aacute; conhecia Juarez, n&atilde;o gostava dele por algum motivo e, por isso, sup&ocirc;s que ele poderia ser o assassino de Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo que p&ocirc;de levantar sobre esses casos, Ivan acha pouco prov&aacute;vel que tenha sido Juarez o respons&aacute;vel pelas mortes de Leandro e Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>HIP&Oacute;TESE DAS DUAS CRIAN&Ccedil;AS&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Partindo do princ&iacute;pio de que os irm&atilde;os Fran&ccedil;a falaram a verdade, ent&atilde;o, quatro crian&ccedil;as foram abordadas em uma mesma regi&atilde;o. Duas desapareceram, duas conseguiram fugir. Aqui, Ivan come&ccedil;a a desenvolver o que est&aacute; chamando de &ldquo;Hip&oacute;tese das Duas Crian&ccedil;as&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 15 de fevereiro de 1992, sumiram Leandro e Aramis &ndash; que conseguiu voltar para casa. No in&iacute;cio de abril, os irm&atilde;os Cleyton e Fernando Fran&ccedil;a podem ter escapado de uma iminente tentativa de sequestro. E, quanto a Evandro, no inqu&eacute;rito, h&aacute; duas testemunhas que parecem sustentar a possibilidade de que ele n&atilde;o foi a &uacute;nica crian&ccedil;a a ser sequestrada naquele dia 6 de abril em Guaratuba.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essas testemunhas foram ignoradas ap&oacute;s o relato de Ed&eacute;sio, pois as hist&oacute;rias s&atilde;o diretamente contr&aacute;rias &agrave;quela que ele contava. E, tendo em vista que a acusa&ccedil;&atilde;o se apoiava em Ed&eacute;sio, esses relatos acabaram ficando para tr&aacute;s.<\/p>\n\n\n\n<p>Em abril de 1992, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/rachel-machado-duarte\/\" target=\"_self\" title=\"Adolescente de 17 anos que teria visto Evandro com duas crian&ccedil;as no dia do desaparecimento\" class=\"encyclopedia\">Rachel Machado Duarte<\/a> tinha 17 anos. Ela trabalhava como bab&aacute; na casa de uma mulher chamada <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/silmari\/\" target=\"_self\" title=\"Esposa de Edson Cristofolini, era dona da casa onde Rachel Duarte trabalhava\" class=\"encyclopedia\">Silmari<\/a>, perto da escola Olga Silveira.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/silmari\/\" target=\"_self\" title=\"Esposa de Edson Cristofolini, era dona da casa onde Rachel Duarte trabalhava\" class=\"encyclopedia\">Silmari<\/a>, a patroa de Rachel, era casada com um irm&atilde;o de S&eacute;rgio Cristofolini, um dos sete inocentes acusados no caso Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma das cartas que escreveu, Di&oacute;genes diz que Rachel teria tido um caso com Cristofolini &ndash; o que ela sempre negou. No texto, ele tamb&eacute;m &eacute; bem claro em cham&aacute;-la de mentirosa, como se estivesse mentindo para proteger criminosos. Di&oacute;genes publicou a carta no livro que lan&ccedil;ou em 2011 sobre o caso Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/Dio%CC%81genes-sobre-Raquel-data_.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Carta de Di&oacute;genes sobre Rachel<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Rachel trabalhava todos os dias cuidando das duas filhas da patroa <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/silmari\/\" target=\"_self\" title=\"Esposa de Edson Cristofolini, era dona da casa onde Rachel Duarte trabalhava\" class=\"encyclopedia\">Silmari<\/a>. A dist&acirc;ncia da casa de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/silmari\/\" target=\"_self\" title=\"Esposa de Edson Cristofolini, era dona da casa onde Rachel Duarte trabalhava\" class=\"encyclopedia\">Silmari<\/a> para a de Evandro era de cerca de 400 metros &ndash; o que corresponderia a quatro quadras.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira vez que Rachel &eacute; citada no inqu&eacute;rito do caso Evandro &eacute; em um relat&oacute;rio do Grupo Tigre, da Pol&iacute;cia Civil, respons&aacute;vel pelo in&iacute;cio das investiga&ccedil;&otilde;es. Evandro sumiu em 6 de abril, o corpo foi encontrado no dia 11, e esse relat&oacute;rio &eacute; datado de 19 de abril &ndash; ou seja, quase duas semanas ap&oacute;s o desaparecimento. Nesse relat&oacute;rio, est&aacute; escrito o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Com respeito &agrave; empregada dom&eacute;stica Rachel, a mesma afirma categoricamente que viu o menor Evandro passando em frente a sua casa no dia do desaparecimento junto com duas crian&ccedil;as. Estamos checando todas as casas situadas perto da casa do menino com a inten&ccedil;&atilde;o de localizar testemunhas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/1992-04-19-Relato%CC%81rio-sobre-roc%CC%A7adores-IVO-e-Rachel.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Relat&oacute;rio da Pol&iacute;cia Civil citando Rachel (19 de abril de 1992)<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Rachel foi uma das testemunhas de defesa de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/beatriz-abagge\/\" target=\"_self\" title=\"Filha do prefeito de Guaratuba, foi uma das acusadas no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Beatriz Abagge<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/celina-abagge\/\" target=\"_self\" title=\"Esposa do prefeito de Guaratuba em 1992, foi uma das acusadas no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Celina Abagge<\/a>, a filha e a mulher do prefeito, quando foram julgadas em 1998. Na ocasi&atilde;o, em um depoimento mais longo, ela disse que, assim que Evandro desapareceu, contou para a m&atilde;e que viu o menino passar na frente da casa da patroa com dois outros meninos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Rachel, logo em seguida ela come&ccedil;ou a participar de buscas, tanto com populares quanto com policiais. Mas tudo isso ocorria informalmente.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/1998-04-18-Rachel-Machado-Duarte.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Depoimento de Rachel no j&uacute;ri das Abagge (18 de abril de 1998)<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A segunda vez que Rachel aparece no inqu&eacute;rito de Evandro &eacute; uma intima&ccedil;&atilde;o em que foi chamada a depor. Na &eacute;poca, ainda n&atilde;o sabiam o seu nome completo, ent&atilde;o era chamada de &ldquo;Rachel de Tal&rdquo;. Essa intima&ccedil;&atilde;o &eacute; de 17 de junho de 1992 &ndash; ou seja, mais de dois meses ap&oacute;s o corpo de Evandro ser encontrado. De acordo com o pedido, ela deveria depor na delegacia dois dias depois, em 19 de junho, mas n&atilde;o compareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, em 24 de junho, h&aacute; um relat&oacute;rio da Pol&iacute;cia Civil informando que agentes foram at&eacute; a casa de Rachel para entender o motivo da adolescente n&atilde;o ter comparecido na delegacia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o documento, os policiais conversaram com a m&atilde;e, que disse que a filha s&oacute; iria para a delegacia por determina&ccedil;&atilde;o da ju&iacute;za e acompanhada dela. E ent&atilde;o, naquele mesmo dia, Rachel deu um depoimento pela primeira vez. Ela disse:<\/p>\n\n\n\n<p><em>[Que] conhecia o menino Evandro por pouco tempo e sabia que o mesmo estudava no col&eacute;gio Olga Silveira no bairro Cohapar; Conhecia os pais de Evandro somente de vista; A informante tomou conhecimento que Evandro desapareceu no mesmo dia, quando j&aacute; estava em sua casa; Que lembra a informante que, ap&oacute;s haver tomado conhecimento do desaparecimento de Evandro no mesmo dia, outro dia disse para sua genitora haver notado que o menino havia passado em frente da casa de sua patroa, a Sra. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/silmari\/\" target=\"_self\" title=\"Esposa de Edson Cristofolini, era dona da casa onde Rachel Duarte trabalhava\" class=\"encyclopedia\">Silmari<\/a>, para a qual a informante cuida de suas crian&ccedil;as, e que Evandro passou com mais dois meninos, sendo o primeiro moreno claro, cabelos curtos, puxados para tr&aacute;s, trajando cal&ccedil;&atilde;o e camiseta; e outro menino loiro, trajando cal&ccedil;&atilde;o e bermuda. Isso ocorreu por tr&ecirc;s vezes em frente da casa de sua patroa, e que foram vistos pela janela da casa; Que lembra que Evandro estava trajando bermuda e camiseta, cujas cores n&atilde;o lembra; Que quando outro dia apareceu o tio de Evandro noticiando o desaparecimento, a informante disse para sua irm&atilde; que notou a passagem de Evandro pela rua onde estava trabalhando; No outro dia, alguns policiais solicitaram que a informante ajudasse-os a procurar Evandro e mostrar alguns menores que possivelmente tivessem as mesmas caracter&iacute;sticas dos que foram vistos com Evandro. Por&eacute;m, nada foi poss&iacute;vel encontrar; Que, passados seis dias, a informante soube que Evandro havia sido encontrado em um matagal longe de sua casa; Que, lembra a depoente, Evandro sempre ia na sala de aula onde a informante estudava, e que a m&atilde;e de Evandro trabalhava naquela unidade escolar como secret&aacute;ria. Que at&eacute; esta data n&atilde;o mais a informante viu aqueles dois meninos que acompanhavam Evandro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Esse depoimento foi dado mais de dois meses ap&oacute;s Evandro desaparecer. E nele, a pr&oacute;pria Rachel diz que n&atilde;o conseguiu identificar nem encontrar<em> <\/em>posteriormente os dois meninos que estariam com Evandro naquela manh&atilde; de segunda-feira, 6 de abril de 1992.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/1992-06-24-2-Raquel-Machado-Duarte.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Depoimento de Rachel Machado (24 de junho de 1992)<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>H&aacute; no inqu&eacute;rito algumas anota&ccedil;&otilde;es dos investigadores sobre<em> <\/em>as suspeitas de quem poderiam ser os meninos, e Ivan tentou chec&aacute;-las, mas n&atilde;o<em> <\/em>encontrou nada. A identidade dessas crian&ccedil;as &eacute; um mist&eacute;rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O depoimento da Rachel &eacute; do final de junho<em> <\/em>de 1992. Poucos dias depois, a pol&iacute;cia prendeu em Guaratuba sete pessoas inocentes,<em> <\/em>que foram torturadas e acusadas de um crime que n&atilde;o cometeram. Dessa forma, o relato de Rachel<em> <\/em>caiu no esquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h&aacute; um detalhe muito importante no depoimento dela: na manh&atilde; de 6 de abril de 92, Evandro saiu da escola, onde estava com a m&atilde;e, e disse que ia voltar para casa pegar um brinquedo e j&aacute; voltava. Ao olhar o mapa de cima, a partir da escola Olga Silveira, a casa de Evandro ficava para a esquerda. J&aacute; a casa de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/silmari\/\" target=\"_self\" title=\"Esposa de Edson Cristofolini, era dona da casa onde Rachel Duarte trabalhava\" class=\"encyclopedia\">Silmari<\/a>, onde Rachel trabalhava, ficava para a direita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, Evandro seguia para o sentido contr&aacute;rio daquele que deveria ir. Por que ele fez isso? O que o fez mudar de dire&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/Mapa-Guaratuba-com-casas-Evandro-e-Rachel-1985.pdf\" target=\"_blank\"><strong>Mapa de Guaratuba&nbsp;com casas de Evandro e Rachel (1985)<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>*<em>Utilizamos a vers&atilde;o do mapa do Google Earth em baixa defini&ccedil;&atilde;o (com imagem de sat&eacute;lite de 1985) para preservar as localiza&ccedil;&otilde;es exatas das casas. O importante aqui &eacute; ter no&ccedil;&atilde;o das dist&acirc;ncias e dire&ccedil;&otilde;es apontadas no relato de Rachel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Rachel prestou um &uacute;nico depoimento no final de junho de 1992, pouco antes das pris&otilde;es que ocorrerem em Guaratuba. Ela s&oacute; voltou em cena no ano de 1998, quando foi ouvida no j&uacute;ri das Abagge. O seu relato l&aacute; &eacute; mais longo e detalhado, mas ao mesmo tempo tamb&eacute;m entra em algumas pequenas contradi&ccedil;&otilde;es se comparado ao anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, no primeiro depoimento, Rachel disse que Evandro e os dois meninos chegaram a passar na frente da rua tr&ecirc;s vezes. J&aacute; na declara&ccedil;&atilde;o em j&uacute;ri, ela afirmou que isso aconteceu apenas uma vez. Apesar de detalhes assim, no geral, o relato no julgamento &eacute; bem parecido com o que deu em 1992.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan tentou contatar Rachel em 2023, na esperan&ccedil;a de que, de repente, passados tantos anos, ela poderia ter descoberto quem eram as duas crian&ccedil;as que viu com Evandro. Infelizmente, ela recusou o convite e n&atilde;o quis falar com Ivan.<\/p>\n\n\n\n<p>Por d&eacute;cadas, Rachel foi considerada mentirosa por muitos em Guaratuba que acreditavam que ela estaria inventando uma hist&oacute;ria para proteger assassinos de crian&ccedil;as. Afinal, o seu relato vai totalmente contra o que dizia a principal testemunha de acusa&ccedil;&atilde;o, Ed&eacute;sio, que afirmava ter visto Celina e Beatriz sequestrando Evandro naquela manh&atilde;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda no depoimento dela no j&uacute;ri, h&aacute; um trecho que pode soar estranho para quem n&atilde;o conhece o caso a fundo. Em certo momento, quando est&aacute; respondendo as perguntas do Minist&eacute;rio P&uacute;blico, Rachel diz que n&atilde;o se lembra de ter conhecido nenhuma crian&ccedil;a de nome Eli.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas quem &eacute; Eli?<em> <\/em>Ele &eacute; a segunda testemunha do caso Evandro que foi ignorada, e que parece<em> <\/em>corroborar com a hist&oacute;ria de que o menino estaria com mais crian&ccedil;as no dia que<em> <\/em>desapareceu. E talvez ele seja outra ponta importante desse mist&eacute;rio.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/eli-goncalves-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Adolescente de 16 anos que teria conversado com uma crian&ccedil;a v&iacute;tima de sequestro\" class=\"encyclopedia\">Eli Gon&ccedil;alves da Silva<\/a> tinha 16 anos quando Evandro desapareceu. Ele morava na regi&atilde;o perto do aeroporto de Guaratuba e trabalhava durante o dia em uma marcenaria, cujo dono era um homem chamado Jo&atilde;o. &Agrave; noite, estudava em outra parte da cidade, no Col&eacute;gio Joaquim Mafra, que fica praticamente do lado da Escola Olga Silveira. Ele costumava ir para o col&eacute;gio a p&eacute;, ap&oacute;s o servi&ccedil;o.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira vez que Eli aparece no inqu&eacute;rito do caso Evandro &eacute; em um despacho datado do dia 14 de abril de 1992 &ndash; ou seja, tr&ecirc;s dias ap&oacute;s o corpo ter sido encontrado. Nesse despacho, est&aacute; escrito o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Tendo-se noticiado que o menor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/eli-goncalves-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Adolescente de 16 anos que teria conversado com uma crian&ccedil;a v&iacute;tima de sequestro\" class=\"encyclopedia\">Eli Gon&ccedil;alves da Silva<\/a>, de 16 anos, morador no Bairro Pi&ccedil;arras, ao caminhar em dire&ccedil;&atilde;o ao Col&eacute;gio, foi abordado por um menino que afirmou haver sido v&iacute;tima de rapto por um homem desconhecido, tome-se por termo suas declara&ccedil;&otilde;es, em vista que poder&aacute; trazer meios para obter-se informa&ccedil;&otilde;es imprescind&iacute;veis &agrave; elucida&ccedil;&atilde;o dos fatos<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/1992-04-14-1-Despacho-sobre-Eli-Gonc%CC%A7alves-da-Silva.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Despacho sobre Eli Gon&ccedil;alves da Silva (14 de abril de 1992)<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Naquele mesmo dia 14, Eli foi ouvido na delegacia de Guaratuba pelo delegado local, o doutor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/gilberto-pereira-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado de Guaratuba na &eacute;poca do desaparecimento de Leandro\" class=\"encyclopedia\">Gilberto Pereira da Silva<\/a>. O depoimento em si &eacute; confuso e bastante misterioso. Acompanhe abaixo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>No dia 7 de abril de 1992, ter&ccedil;a-feira, um dia depois de Evandro desaparecer,<\/em> <em>quando o informante caminhava pr&oacute;ximo da Escola Joaquim Mafra, no Bairro<\/em> <em>Canela, pela rua Joinville, em dire&ccedil;&atilde;o do gin&aacute;sio da Cohapar &agrave;s 19:00,<\/em> <em>apareceu um menino aparentando ter 7 anos de idade, o qual tinha<\/em> <em>caracter&iacute;sticas de cor morena, cabelos lisos, meio longo, com suas roupas<\/em> <em>apresentando-se sujas, o qual indagou ao informante se estava indo para a<\/em> <em>dire&ccedil;&atilde;o da Cohapar, sendo confirmado que sim, e naquele momento o menino<\/em> <em>citado disse que queria acompanh&aacute;-lo na dire&ccedil;&atilde;o da Cohapar; Que, no trajeto,<\/em> <em>o menino disse que um homem que conduzia uma carro&ccedil;a convidou-o para<\/em> <em>irem at&eacute; o Posto de Gasolina comprar botij&atilde;o de g&aacute;s e que, como n&atilde;o tinha no<\/em> <em>posto, que era no centro, foram na dire&ccedil;&atilde;o da praia, afirmando que estava ele<\/em> e <em>mais alguns colegas; que o citado carroceiro levou-os para um local que disse<\/em> <em>n&atilde;o saber onde fica, e que o carroceiro disse que iria traz&ecirc;-los outro dia; Que, o<\/em> <em>menino disse que a casa onde permaneceram n&atilde;o foi contado onde ficava e<\/em> <em>que havia uma espingarda e algumas roupas em cima da cama, e afirmou o<\/em> <em>menino que ele conseguiu fugir daquela casa com outros colegas quebrando<\/em> <em>os vidros da casa onde estavam guardados, e fugiram para um local, e que o carroceiro fugiu tamb&eacute;m para um mato ap&oacute;s haverem o menino e seus colegas<\/em> <em>fugido; Que o menino perguntou ao informante se havia um menino que<\/em> <em>estava desaparecido, sendo confirmado pelo informante que sim, e diante do<\/em> <em>que foi confirmado ao menino, de que havia um desaparecido, ele disse ao<\/em> <em>informante que, quando ele estava na casa, ouviu quando o carroceiro disse<\/em> <em>que o menino desaparecido ele iria levar no outro dia &agrave;s 11:00 n&atilde;o<\/em> <em>afirmando para onde iria levar o menino; Que, ap&oacute;s haver o menino contado<\/em> <em>essas afirmativas ao informante, ao chegarem em frente da casa de Evandro,<\/em> <em>que estava desaparecido, o menino entrou naquela casa de Evandro, pelo<\/em> <em>port&atilde;o da frente e, ap&oacute;s o mesmo entrar na casa, o informante seguiu em<\/em> <em>frente para estudar no col&eacute;gio que fica ali pr&oacute;ximo; Que, ao retornar da aula, &agrave;<\/em> <em>noite, &agrave;s 23:00 aproximadamente, o informante levou ao conhecimento<\/em> <em>de seus pais o que havia presenciado com aquele menino, e no outro dia o<\/em> <em>informante foi trabalhar na marcenaria e contou ao seu patr&atilde;o Sr. Jo&atilde;o o que<\/em> <em>sucedeu-se no dia anterior, pedindo ao seu patr&atilde;o que nada comentasse com<\/em> <em>algu&eacute;m; Seu patr&atilde;o Sr. Jo&atilde;o, disse ao informante que procuraria avisar as<\/em> <em>autoridades policiais sem procurar envolver o nome do informante; Que outro<\/em> <em>dia o informante foi procurado pelo tio do menor Evandro para procurar saber<\/em> <em>das informa&ccedil;&otilde;es que o informante soube daquele menino, sendo contado ao tio<\/em> <em>de Evandro como ocorreram os fatos narrados por aquele menino; Que o informante diz que aquele menino n&atilde;o &eacute; conhecido daquele bairro e nunca o<\/em> <em>viu por perto daquela escola municipal, onde o encontrou; Que o informante<\/em> <em>procurou ajudar a fazer busca para localiza&ccedil;&atilde;o de Evandro<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/1992-04-14-2-Eli-Gonc%CC%A7alves-da-Silva.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Depoimento de Eli Gon&ccedil;alves da Silva (14 de abril de 1992)<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Eli relatou que encontrou esse garoto misterioso quando estava a caminho do col&eacute;gio, localizado no bairro Cohapar. Essa &eacute; a regi&atilde;o onde ficava a casa de Evandro, al&eacute;m de ser pr&oacute;xima de onde Leandro morava e do local onde os irm&atilde;os Fran&ccedil;a foram abordados.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar desse depoimento ser meio confuso, a hist&oacute;ria de Eli &eacute; citada uma &uacute;ltima vez em outro relat&oacute;rio do Grupo Tigre, da Pol&iacute;cia Civil, que realizava as investiga&ccedil;&otilde;es sobre a morte de Evandro. Nesse relat&oacute;rio, que n&atilde;o &eacute; datado, h&aacute; um resumo mais claro e outros detalhes sobre o que Eli teria conversado com o garoto misterioso que encontrou na rua:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Tomamos conhecimento atrav&eacute;s do menor Eli que, na data dos fatos, encontrou um menino bastante apavorado e correndo no bairro Cohapar, nas proximidades do Clube Canela, e que, segundo relato desse menino, o mesmo, em companhia de outro menino, tinham sido levados para uma casa juntamente com um terceiro menino loiro; que esse menino e o outro conseguiram fugir do interior da casa onde existia um elemento barbudo, tendo ficado para tr&aacute;s o menino loiro (que para fugir tiveram que quebrar o vidro da casa). Passamos a sair com o menor Eli em v&aacute;rios pontos da localidade Guaratuba e adjac&ecirc;ncias na inten&ccedil;&atilde;o de localizar esse menino, inclusive junto aos estabelecimentos escolares, sendo que posteriormente fomos prejudicados nessa investiga&ccedil;&atilde;o uma vez que o pai do menor n&atilde;o mais autorizou a sa&iacute;da do menino alegando que o mesmo poderia ficar doente. O menor Eli foi submetido a hipnose junto ao Instituto de Criminal&iacute;stica onde foi elaborado um retrato falado do menino que o mesmo tinha visto na data dos fatos<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/SEM-DATA-Relato%CC%81rio-citando-Eli.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Relat&oacute;rio do Grupo Tigre citando hist&oacute;ria de Eli (sem data)<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-file\"><a id=\"wp-block-file--media-af2e0b24-4f71-4e0c-8eb9-32fe7339aa04\" href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/Retrato-Falado-Eli-1448x2048-1.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Retrato falado com base no relato de Eli<\/strong><\/a><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/11\/Retrato-Falado-Eli-1448x2048-1.jpg\" class=\"wp-block-file__button\" download aria-describedby=\"wp-block-file--media-af2e0b24-4f71-4e0c-8eb9-32fe7339aa04\">Baixar<\/a><\/div>\n\n\n\n<p>O retrato falado que Eli produziu n&atilde;o tem nada de marcante. &Eacute; o rosto gen&eacute;rico de uma<em> <\/em>crian&ccedil;a, sem maiores detalhes que poderiam permitir a identifica&ccedil;&atilde;o. E infelizmente,<em> <\/em>essa crian&ccedil;a nunca foi encontrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Eli prestou depoimento no mesmo dia em que dona Maria, m&atilde;e dos irm&atilde;os<em> <\/em>Fran&ccedil;a, fez a den&uacute;ncia sobre o que teria ocorrido com seus filhos. Tudo isso estava<em> <\/em>acontecendo ao mesmo tempo, ou em per&iacute;odos muito pr&oacute;ximos: Rachel falando que<em> <\/em>viu Evandro andando com duas crian&ccedil;as, o relato dos irm&atilde;os Fran&ccedil;a e o de Eli<em> <\/em>sobre o menino misterioso que encontrou na rua.<\/p>\n\n\n\n<p>No j&uacute;ri das Abagge de 1998, a delegada <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leila-bertolini\/\" target=\"_self\" title=\"Delegada encarregada pela investiga&ccedil;&atilde;o do caso Evandro entre abril e julho de 1992\" class=\"encyclopedia\">Leila Bertolini<\/a>, do Grupo Tigre, que comandava as investiga&ccedil;&otilde;es naquela &eacute;poca, chegou a fazer o seguinte coment&aacute;rio sobre o relato de Eli:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli foi ouvido e os dois outros meninos mencionados por ele n&atilde;o foram<\/em> <em>achados. Eli foi hipnotizado e fez um retrato falado. Que aventa-se a<\/em> <em>possibilidade de que Eli tenha fantasiado fatos<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa fala da Dra. Leila foi o que motivou Ivan a ir atr&aacute;s de Eli. Por um lado, o jornalista acreditava que ela poderia estar certa, que ele teria inventado essa hist&oacute;ria. Por outro lado, a declara&ccedil;&atilde;o dele parecia bater com o fato da bab&aacute; Rachel ter visto dois meninos com Evandro no mesmo dia em que ele desapareceu. H&aacute; tamb&eacute;m o caso dos irm&atilde;os Fran&ccedil;a, de Leandro e Aramis.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, seria um padr&atilde;o? &Eacute; isso que Ivan passou a chamar de &ldquo;Hip&oacute;tese das Duas Crian&ccedil;as&rdquo;. Talvez, o assassino de Leandro e Evandro tinha planos de sequestrar e matar mais crian&ccedil;as nos dias que cometeu os crimes, mas n&atilde;o conseguiu. Aramis pode ter escapado, assim como os irm&atilde;os Fran&ccedil;a e os garotos misteriosos narrados por Eli.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tudo isso dependia de uma confirma&ccedil;&atilde;o com o pr&oacute;prio Eli. Se ele falasse que tinha inventado tudo, que colocaram palavras na boca dele, Ivan deixaria essa hip&oacute;tese de lado. Foi quando come&ccedil;ou a tentar localiz&aacute;-lo. S&oacute; tinha um problema: Eli n&atilde;o falava com ele.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso de Eli &eacute; diferente do de Rachel. Ela n&atilde;o quis falar, mas tinha dado um depoimento bem longo no j&uacute;ri de 1998. E n&atilde;o &eacute; que ele recusava os pedidos de entrevista. Quando Ivan o contatou pela primeira vez por uma rede social, ele nem respondeu, apenas o bloqueou. Isso foi em 2019, quando ainda produzia o podcast sobre o caso Evandro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan ent&atilde;o pediu ajuda para um primo da testemunha, para que o colocasse em contato com Eli. Esse primo come&ccedil;ou a responder, mas depois tamb&eacute;m o bloqueou.<\/p>\n\n\n\n<p>Por anos, Ivan parou de incomodar Eli. Mas, em 2023, ele precisava tentar novamente. Tentou parentes, amigos, conhecidos. Nada. Conseguiu um n&uacute;mero de telefone, que ele nunca atendia nem respondia por mensagens. No desespero, Ivan chegou a mandar um pix para ele com a mensagem &ldquo;preciso falar com voc&ecirc;&rdquo;. Eli finalmente respondeu essa mensagem, perguntando sobre o que seria. Quando Ivan explicou que queria conversar sobre o caso Evandro, ele voltou a ignor&aacute;-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, avan&ccedil;ando nessa investiga&ccedil;&atilde;o, Ivan conseguiu alguns endere&ccedil;os, todos de Santa Catarina. Ele e a Natalia foram at&eacute; um deles. Natalia bateu palmas no port&atilde;o, e Eli apareceu. E n&atilde;o foi s&oacute; isso. Dessa vez, ele aceitou conversar. Leia um trecho a seguir:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas, olha, o senhor foi a entrevista mais dif&iacute;cil para eu conseguir na minha vida. Eu j&aacute; entrevistei o Frederick Wassef, o advogado do Bolsonaro, mas voc&ecirc; foi dif&iacute;cil.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: At&eacute; ontem&hellip; Que nem eu comentei, n&eacute;? Digo: &ldquo;puxa, o cara&hellip;&rdquo;. Mas s&oacute; que eu falei: &ldquo;n&atilde;o posso bloquear, n&atilde;o vou ser mal-educado&rdquo;. Eu estava pensando: &ldquo;o que eu vou falar?&rdquo;. Falei: &ldquo;ah, n&atilde;o quero, n&atilde;o tenho interesse em falar, n&atilde;o&rdquo;. S&oacute; que a minha esposa&hellip; Tu v&ecirc; como &eacute;, ela falou ontem: &ldquo;amor, n&atilde;o vai demorar, eles v&atilde;o bater aqui em casa&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas se voc&ecirc; falasse: &ldquo;olha, n&atilde;o quero&rdquo;&hellip; &Eacute; que voc&ecirc; nunca falou que n&atilde;o queria falar, voc&ecirc; sempre me bloqueava, mas tudo bem. Cheguei a fazer at&eacute; pix para o senhor.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Isso eu vi. Eu at&eacute; tenho que te devolver l&aacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o, n&atilde;o, n&atilde;o. Fica a&iacute;&hellip; Fica a&iacute; pelo inc&ocirc;modo, t&aacute; bom?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Como diz, a gente n&atilde;o quer tirar vantagem nenhuma&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; vantagem nenhuma.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Ent&atilde;o, o meu nome &eacute; <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/eli-goncalves-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Adolescente de 16 anos que teria conversado com uma crian&ccedil;a v&iacute;tima de sequestro\" class=\"encyclopedia\">Eli Gon&ccedil;alves da Silva<\/a>. Eu tenho 47 anos. Nasci em Guaratuba e moro em Joinville.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Primeiro, [queria] tamb&eacute;m agradecer pelo senhor vir falar com a gente aqui. De novo, a gente est&aacute; fazendo uma investiga&ccedil;&atilde;o para o pessoal de Guaratuba, sobre o caso de Guaratuba. N&atilde;o sei se o senhor viu que virou at&eacute; s&eacute;rie no Globoplay, virou&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Eu ouvi coment&aacute;rios, ainda n&atilde;o cheguei&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;. Ent&atilde;o, foi o meu trabalho que fez&hellip; A gente sempre teve essa d&uacute;vida sobre o teu relato porque era uma desconfian&ccedil;a at&eacute; da delegada da &eacute;poca se voc&ecirc; teria imaginado, inventado aquilo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Sim&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o &eacute; o caso, pelo que o senhor est&aacute; me falando.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: N&atilde;o. N&atilde;o foi nada inventado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Tudo aconteceu&hellip; Isso aconteceu?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o, o que o senhor lembra hoje em dia, passados 31 anos? Eu sei que faz muito tempo, mas eu at&eacute; te passei os pap&eacute;is tamb&eacute;m, n&eacute;? Para ver se o senhor lembrava de alguma coisa. O que o senhor lembra, assim? Tenta desenhar para a gente a cena.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Eu lembro assim&hellip; Eu estava indo para o col&eacute;gio, n&eacute;? Eu n&atilde;o sei exatamente dizer o hor&aacute;rio correto que eu estava indo. E, da&iacute;, nisso, ali no bairro do Cohapar, de Guaratuba, veio um menino correndo assim, atr&aacute;s de mim e tal. Veio, me encontrou, meio assustado, e come&ccedil;ou a conversar e falar sobre&hellip; Ele perguntou: &ldquo;tu sabe sobre aquele neg&oacute;cio do Evandro, do menino?&rdquo;. Da&iacute; eu falei: &ldquo;sim, o menino sumiu e tal&rdquo;. Da&iacute; ele come&ccedil;ou a falar que&hellip; &ldquo;Ent&atilde;o, n&oacute;s est&aacute;vamos andando aqui, da&iacute; passou um cara de carro&ccedil;a, um senhor meio barbudo, e convidou para sair com ele buscar g&aacute;s n&atilde;o sei onde, tal. A gente foi com ele, n&eacute;? E ele levou a gente para uma casa, e da&iacute; de l&aacute;&hellip; Acho que a gente&hellip; Quebramos&hellip; Conseguimos quebrar a vidra&ccedil;a e fugir&rdquo;. Mais ou menos isso que eu lembro, n&eacute;? Da&iacute; eu n&atilde;o sei quantas pessoas tinha na casa mais&hellip; Se ele falou alguma coisa&hellip; Da&iacute; &eacute; isso. Ele falou: &ldquo;e o menino sumiu, n&eacute;, o Evandro?&rdquo;. Eu falei: &ldquo;&eacute;, est&aacute; sumido&rdquo;. Da&iacute; eu fui acompanhando o menino e conversando assim, n&eacute;? Da&iacute;, de l&aacute;, fui para a escola e ele foi para&hellip; O bairro que ele indicou &eacute; l&aacute; para o lado do Carvoeiro, ali onde mais ou menos o carroceiro foi com eles e tal&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O senhor n&atilde;o lembra de ele ter entrado na casa do Evandro, ent&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: N&atilde;o. N&atilde;o lembro de ele ter entrado. Eu lembro que ele entrou em algum lugar, mas n&atilde;o sei&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: O senhor sabia onde era a casa do Evandro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: A casa do Evandro, eu n&atilde;o sei exatamente onde &eacute;. Eu sei que ficava um pouquinho para frente da minha escola ali, eu acho&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Mas, assim, na &eacute;poca, voc&ecirc; n&atilde;o saberia dizer: &ldquo;ah, &eacute; aqui que mora o Evandro&rdquo;? Voc&ecirc; n&atilde;o conhecia o Evandro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: N&atilde;o, n&atilde;o conhecia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ivan fez essa pergunta espec&iacute;fica porque, no depoimento original, Eli dizia que o menino misterioso teria entrado na casa de Evandro. Esse detalhe nunca fez muito sentido, pois, a princ&iacute;pio, Eli n&atilde;o saberia onde exatamente a fam&iacute;lia Caetano morava. Al&eacute;m disso, tudo isso teria ocorrido em 7 de abril, dia seguinte ao desaparecimento do garoto. Pelos relatos, a casa estava cheia de policiais, jornalistas, pessoas que se mobilizaram para ajudar nas buscas.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Nem a fam&iacute;lia dele, nem nada?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: O pai dele&hellip; A gente conhecia assim, s&oacute; de vista, mas nada de&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim. E da&iacute;, ent&atilde;o, o senhor foi para a escola, e ele continuou em dire&ccedil;&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: &Eacute;, ele continuou indo e entrou numa rua l&aacute;, da&iacute; eu n&atilde;o sei para onde que&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Para onde foi. Ele n&atilde;o falou para onde estava indo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: N&atilde;o. N&atilde;o falou&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Nada disso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Que eu lembro, n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E voc&ecirc;s&hellip; Da&iacute;, ok. Voc&ecirc; fala isso no dia seguinte para o seu chefe.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Isso. Como eu trabalhava com um senhor l&aacute; na marcenaria de artesanatos em Guaratuba, eu passei para ele, relatei o que tinha acontecido, n&eacute;? &ldquo;Poxa, ontem eu estava indo para a escola, um menino assim e assim&hellip;&rdquo;. Contei toda essa hist&oacute;ria para ele. A&iacute; ele disse: &ldquo;p&ocirc;, s&eacute;rio, cara? Onde foi isso?&rdquo;. Da&iacute;, come&ccedil;ou a especular&hellip; Falei: &ldquo;foi assim e tal&rdquo;. &ldquo;E quem &eacute; o menino?&rdquo;. Eu falei: &ldquo;eu n&atilde;o sei, eu nunca vi, n&atilde;o conhe&ccedil;o&rdquo;. O menino aparentava ser uns tr&ecirc;s, quatro anos mais novo do que eu. A&iacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute; que o senhor tinha 16 na &eacute;poca&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: &Eacute;, acho que o menino devia ter mais ou menos uns 13 anos, por a&iacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Esse &eacute; um bom exemplo de como &eacute; complicado falar com pessoas 30 anos depois de um ocorrido, e o motivo pelo qual sempre &eacute; melhor se basear nos relatos mais antigos, mais pr&oacute;ximos dos fatos. No depoimento original, Eli falava que o menino aparentava ter sete anos &ndash; e n&atilde;o 13, como ele parece se lembrar agora. Com o passar dos anos, especialmente em casos rumorosos, as mem&oacute;rias se alteram muito. <\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Da&iacute;, ele [o chefe Jo&atilde;o]&hellip; &ldquo;Ah, ent&atilde;o vou falar para o pai do menino&rdquo;. At&eacute; eu falei para ele: &ldquo;n&atilde;o, isso a&iacute; &eacute; bobeira, &agrave;s vezes o menino est&aacute; inventando hist&oacute;ria e tal&rdquo;. &ldquo;N&atilde;o, n&atilde;o, cara, mas essa hist&oacute;ria &eacute; muito&hellip; Coisa para ser inventada? Eu acho que isso a&iacute; &eacute; tudo&hellip;&rdquo;. Que o Jo&atilde;o, acho que ele &eacute; meio parente do pai do Evandro, se eu n&atilde;o me engano, ou conhecido. S&oacute; sei que ele falou: &ldquo;n&atilde;o, eles est&atilde;o desesperados&rdquo;. Ele falou: &ldquo;pensa na tua fam&iacute;lia&hellip; A fam&iacute;lia desesperada querendo pista, e essa tua pista pode ser importante&rdquo;. Da&iacute; eu falei: &ldquo;quer falar, fala&rdquo;. Mas eu falei: &ldquo;eu acho que &eacute; bobeira e tal&rdquo;. E ele foi na casa deles l&aacute; e falou com eles. A&iacute; &agrave; tarde vieram os pais do Evandro, vieram conversar comigo. Contei toda a mesma hist&oacute;ria e tal, e dali em diante come&ccedil;ou a pol&iacute;cia a todo tempo na minha casa, e rep&oacute;rter, pessoal querendo saber sobre toda&hellip; Da&iacute; eu<\/em> <em>contava sempre a mesma&hellip; Da&iacute; at&eacute; o meu pai ficou&hellip; Porque a gente j&aacute; n&atilde;o tinha mais&hellip; Era de manh&atilde;, de tarde, de noite, na hora de almo&ccedil;o, qualquer hor&aacute;rio. &Agrave;s vezes at&eacute; eu estava almo&ccedil;ando e tinha que sair da mesa para&hellip; Da&iacute; o meu pai falou: &ldquo;n&atilde;o, &eacute; a &uacute;ltima vez, ele n&atilde;o vai falar mais nada. O que ele tinha que falar, j&aacute; falou, e isso &eacute; coisa de crian&ccedil;a e tal&rdquo;. Mas s&oacute; que tudo j&aacute; estava&hellip; Da&iacute; eu fui para Paranagu&aacute; para ver se eu conseguia fazer o retrato falado&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Foi em Paranagu&aacute; que o senhor fez? N&atilde;o foi em Curitiba?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: N&atilde;o. Eles me levaram para Paranagu&aacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: T&aacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: At&eacute; o meu pai foi junto, como eu era menor. S&oacute; que ele n&atilde;o entrou junto comigo na sala, n&eacute;? Da&iacute; l&aacute; eu sei que eles me fizeram a hipnose, que fizeram eu dormir e me perguntaram&hellip; At&eacute; a &uacute;nica coisa que eu lembro &eacute; que a mulher me perguntava&hellip; &ldquo;Ah, voc&ecirc; est&aacute; vendo um gato assim e assim, est&aacute; subindo a escada, tal&hellip;&rdquo;. Mais ou menos&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ia guiando.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Isso. A&iacute; dali eu j&aacute; n&atilde;o lembro muito mais o que eu falei. Eu s&oacute; sei que, quando eu acordei, sa&iacute; com esse retrato falado a&iacute; do menino&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E o senhor chegou a olhar o retrato falado e alguma lembran&ccedil;a ativou?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Eu olhei&hellip; Umas coisas assim&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Voc&ecirc; falou: &ldquo;n&atilde;o, &eacute; esse menino mesmo, ele parece&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: &Eacute; meio parecido. Mas como eu n&atilde;o conhe&ccedil;o o menino, n&atilde;o sei nem&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o sabia dizer. &Eacute; porque o rosto do menino&hellip; Ele parece uma crian&ccedil;a normal, assim. N&atilde;o tem nada de mais, n&eacute;? Ent&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Da&iacute; o que eles conseguiram tirar foi isso, n&eacute;? Da&iacute; quando eu acordei&hellip; A&iacute; eu n&atilde;o sei se comentei mais alguma coisa que eu lembrava, n&eacute;, ent&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o, mas isso da&iacute; &eacute; o que est&aacute; no depoimento. O senhor me falou tamb&eacute;m que em algum momento chegou a fazer rondas com a pol&iacute;cia &agrave; procura do menino&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Ah, sim, a gente fez&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Quantas vezes voc&ecirc;s fizeram isso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Eu acho que a gente fez umas quatro vezes, mais ou menos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Como era? A pol&iacute;cia chegava na sua casa&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: &Eacute;, eles iam na minha casa, me buscavam, geralmente uns dois policiais, &agrave;s vezes tinha uma mulher junto. A&iacute; a gente sa&iacute;a pelos bairros ali onde&hellip; Mais para ver se eu encontrava o menino que me contou a hist&oacute;ria, n&eacute;? Tipo, nos bairros ali, no Canela, na Cohapar, Carvoeiro, aqueles pr&oacute;ximos da&hellip; A gente andava por ali tudo&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham, e nunca&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: &Agrave;s vezes, assim, parava algu&eacute;m meio conhecido e eles&hellip; &ldquo;N&atilde;o &eacute; esse ali o menino? Voc&ecirc; n&atilde;o lembra?&rdquo;. Da&iacute;&hellip; &ldquo;N&atilde;o, n&atilde;o&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Chegou a ir para escolas, para entrar em salas de aula, para ver se reconhecia algu&eacute;m?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Eu n&atilde;o lembro se eu estive ou n&atilde;o em sala de aula, mas eu acho que at&eacute; estive sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Porque eu n&atilde;o sei como o senhor &eacute;, mas se eu estivesse numa situa&ccedil;&atilde;o como o senhor passou, eu n&atilde;o conseguiria reconhecer essa pessoa. Eu sou p&eacute;ssimo para rosto&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Eu tamb&eacute;m, eu tamb&eacute;m n&atilde;o tenho muita&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: E &eacute; uma coisa t&atilde;o grave assim, eu n&atilde;o saberia dizer quem foi a crian&ccedil;a que eu vi exatamente num momento desses, ent&atilde;o&hellip; Na hora, o senhor, quando estava ali andando com o menino, n&atilde;o chegou a pensar em de repente: &ldquo;n&atilde;o, mas vamos falar com algu&eacute;m, vamos tentar te ajudar&rdquo;? Ou nem&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Isso&hellip; Eu acho que no momento n&atilde;o veio isso na cabe&ccedil;a. At&eacute; se viesse, de repente a gente conseguia&hellip; Se eu tivesse, digamos&hellip; &ldquo;Ah, puxa, o menino est&aacute; me contando algo que pode ajudar, eu vou mais a fundo&rdquo;, mas n&atilde;o veio assim. N&atilde;o sei se por ser tamb&eacute;m novo ainda e n&atilde;o ter a experi&ecirc;ncia&hellip; Da&iacute; eu n&atilde;o me interessei muito em especular mais, saber mais casos, olhar bem como era o menino. Entendeu? Como o cara falou para mim: &ldquo;e se &eacute; com a tua fam&iacute;lia?&rdquo;. Talvez eu j&aacute; tivesse mais&hellip; &ldquo;Poxa, esse cara me falou algo aqui que&hellip;&rdquo;. Mas como a gente nunca&hellip; Uma cidade que era pacata, n&atilde;o tinha&hellip; A gente n&atilde;o tem&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Nem pensava nessas coisas. Voc&ecirc; j&aacute; estava sabendo que o Evandro estava desaparecido, naquele ponto? J&aacute; tinha no&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Eu sabia. Aham. Mas n&atilde;o sabia o motivo. At&eacute;, na &eacute;poca, os pais assustavam muito a gente, n&eacute;? A gente vivia nessa de&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: &Eacute;. E eu imagino assim, de voc&ecirc; estar andando numa rua, da&iacute; chega um menino do nada e fala: &ldquo;posso andar com voc&ecirc;, que eu estou com medo?&rdquo;. Foi uma hist&oacute;ria mais ou menos assim, n&eacute;? Bizarro, n&eacute;? &ldquo;Anda aqui, qual o problema?&rdquo;. E, desde ent&atilde;o, nunca mais&hellip; O teu pai falou que n&atilde;o era mais para sair com a pol&iacute;cia, que j&aacute; estava de saco cheio. Desde ent&atilde;o, alguma outra vez essa hist&oacute;ria voltou? Algu&eacute;m veio perguntar? Algu&eacute;m veio com uma lembran&ccedil;a?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Passou um tempo&hellip; Teve mais gente na minha casa querendo saber se podia conversar comigo e tal, mas eu acredito que n&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Seu pai n&atilde;o deixou?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: N&atilde;o, n&atilde;o conversei. Ou, se conversei, foi assim&hellip; S&oacute; contei a hist&oacute;ria e depois n&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o teve nada de mais.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: N&atilde;o, n&atilde;o teve mais nada de&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Nunca te&hellip; Sei l&aacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: &Eacute; que o meu pai&hellip; O medo do meu pai era o seguinte&hellip; &Eacute; que chegava tanta gente l&aacute; em casa dizendo &ldquo;sou rep&oacute;rter, sou isso, sou aquilo&rdquo;. Como a gente &eacute; de fam&iacute;lia simples, eles n&atilde;o entendem, n&atilde;o sabem. Da&iacute; eles tentavam preservar a fam&iacute;lia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Claro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Eu n&atilde;o sei quem&hellip; Se &eacute; pol&iacute;cia mesmo, se &eacute; rep&oacute;rter, se &eacute;&hellip; Ent&atilde;o, o medo dele era isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Sim. Eu fico&hellip; Eu te fa&ccedil;o essa pergunta mais porque tem pessoas que deram relatos importantes na &eacute;poca, que ajudariam a solucionar o crime, que eram pistas s&eacute;rias. Mas depois das pris&otilde;es da mulher do prefeito, da filha do prefeito, isso a&iacute; foi tudo jogado fora. Ent&atilde;o, tinha muita gente que era chamada de mentirosa, que estava inventando&hellip; O senhor nunca foi chamado de mentiroso, que estava inventando? Nada disso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Nunca fui&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Nunca foi atacado por ningu&eacute;m?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: N&atilde;o. Nada, ningu&eacute;m nunca&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, Eli confirmava a hist&oacute;ria. E &eacute; s&oacute; isso mesmo: ele se deparou com um menino na rua que falou tudo aquilo para ele, e acabou. Nunca mais foi encontrado nada. E justamente por ser uma hist&oacute;ria frustrante, e que exigiu tanto dele na &eacute;poca, ele &eacute; avesso a repeti-la para um jornalista que n&atilde;o conhece.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as d&uacute;vidas &oacute;bvias que surgem a partir disso s&atilde;o: ent&atilde;o, quem &eacute; esse menino? Por que ele nunca apareceu em 30 anos?<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, existe uma grande possibilidade de que esse menino misterioso n&atilde;o se lembre mais do ocorrido, ainda mais se era uma crian&ccedil;a de sete anos. Especialmente se os pais mandaram ele ficar quieto, com medo de que alguma coisa pudesse acontecer. Ou ainda, pior, se ele nem contou nada para os pais, com medo de sofrer um castigo, do tipo &ldquo;onde j&aacute; se viu voc&ecirc; sair com um desconhecido na rua?&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo menos no caso dos meninos emasculados de Altamira, que Ivan investigou na <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/temporada\/altamira\/\" target=\"_blank\">temporada anterior<\/a> do Projeto Humanos, essa n&atilde;o era uma situa&ccedil;&atilde;o incomum. Muitas fam&iacute;lias tinham medo de denunciar alguma coisa que o filho passou. A l&oacute;gica era: &ldquo;se voltou para casa vivo e se est&aacute; bem, n&atilde;o temos motivo para procurar autoridades&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan conta que chegou a ouvir o relato de uma fonte sobre uma pessoa, moradora de Guaratuba, que era crian&ccedil;a na d&eacute;cada de 1990. Essa pessoa dizia ter ficado presa junto com o Evandro na ocasi&atilde;o do crime. O problema &eacute; que ela n&atilde;o tem condi&ccedil;&otilde;es de falar por quest&otilde;es familiares, e o seu relato n&atilde;o poderia ser 100% confi&aacute;vel. &Eacute; poss&iacute;vel que ela tenha inventado tudo isso. N&atilde;o h&aacute; como saber.<\/p>\n\n\n\n<p>O que Ivan sabe &eacute; que a hist&oacute;ria de Eli &eacute; verdadeira, que ele n&atilde;o a inventou.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: [&hellip;] N&atilde;o sei, Eli, se tem alguma outra lembran&ccedil;a assim que&hellip; Porque foi s&oacute; isso, n&eacute;? Voc&ecirc; s&oacute; encontrou o menino&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: &Eacute;, encontrei o menino&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Falou com a pol&iacute;cia&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Isso. A hist&oacute;ria que ele me passou foi essa, n&eacute;, que da&iacute;&hellip; Realmente eu lembrei que ele me falou alguma coisa mesmo de estar na casa, e da&iacute; ter quebrado a janela e fugido&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ele chegou a falar onde era essa casa?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Ele apontou para o lado do Carvoeiro ali, n&eacute;, que &eacute; o bairro&hellip; Hoje eu n&atilde;o sei se ainda continua esse nome l&aacute;. &Eacute; um bairro que tinha ali, que era uma rua de areia l&aacute;, l&aacute; era onde&hellip; A maior parte dos problemas de Guaratuba era ali, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham, sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Carvoeiro &eacute; a regi&atilde;o do matagal onde os corpos de Evandro e Leandro foram encontrados.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Ent&atilde;o, ele me apontou ali. &ldquo;A gente foi ali para&hellip;&rdquo;. Mas s&oacute; n&atilde;o apontou casa, nada. S&oacute; falou que&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: S&oacute; falou: &ldquo;foi para aquele lado l&aacute;&rdquo;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Que tinha sa&iacute;do com a carro&ccedil;a, e ele falou que ia buscar g&aacute;s&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ele falou que&hellip; Dava a entender que ele tinha acabado de sair daquela casa ou que ele estava circulando h&aacute; um tempinho? Voc&ecirc; tem uma ideia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Ent&atilde;o, quando o menino falou de buscar o g&aacute;s&hellip; &ldquo;Vamos na carro&ccedil;a buscar o g&aacute;s&rdquo;&hellip; Eu s&oacute; n&atilde;o lembro se eles sa&iacute;ram da casa com o homem para buscar o g&aacute;s, ou se o homem levou eles, que ia buscar g&aacute;s, e levou eles para casa. Isso a&iacute; que eu n&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: N&atilde;o lembra. Mas, quando voc&ecirc; encontrou ele, parecia que ele tinha acabado de fugir da casa?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Parecia, porque ele veio andando, veio atr&aacute;s de mim correndo assim, n&eacute;? Ent&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Como se estivesse fugindo de&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Isso. At&eacute; na &eacute;poca eu indiquei para a pol&iacute;cia a rua de onde o menino veio. N&oacute;s andamos por tudo l&aacute; e n&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. E nada foi&hellip; T&aacute;. T&aacute; certo. Seu Eli, era isso. S&oacute; tenho&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: O que eu lembro &eacute; isso. Foi uma hist&oacute;ria que o menino me contou, e eu passei isso para a pol&iacute;cia, passei sempre a mesma&hellip; Claro que tem umas coisas que eu n&atilde;o estava lembrando, mas realmente&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Aham. N&atilde;o, mas &eacute;&hellip; Tudo bem, se &eacute; isso que o senhor sabe. O que eu mais precisava era confirmar que essa hist&oacute;ria era verdadeira, que isso aconteceu. Porque, se n&atilde;o fosse, n&atilde;o teria consequ&ecirc;ncia nenhuma para o senhor. J&aacute; passaram 30 anos&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: N&atilde;o, mas foi realmente isso que aconteceu&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Ent&atilde;o existiu esse menino.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eli: Existiu o menino e existiu o Jo&atilde;o, que era o meu chefe, e teve todo esse&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ivan: Esse desdobramento.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Com tudo isso, Ivan trouxe &agrave; tona a hip&oacute;tese das duas crian&ccedil;as. &Eacute; poss&iacute;vel que Leandro e Aramis n&atilde;o tenham sido coincid&ecirc;ncia, especialmente quando pensamos no contexto trazido pelos irm&atilde;os Fran&ccedil;a e nos relatos das crian&ccedil;as que estariam com Evandro no dia do desaparecimento. Essa hip&oacute;tese levanta a possibilidade de que o assassino teria interesse em fazer mais v&iacute;timas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas &eacute; importante tamb&eacute;m deixar claro os furos dessa hip&oacute;tese. E eles s&atilde;o os seguintes:<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, Ivan est&aacute; olhando muito para a regi&atilde;o da Cohapar, especificamente a &aacute;rea entre o col&eacute;gio Olga Silveira e a Associa&ccedil;&atilde;o dos Fiscais, que lhe parece ser onde o assassino transitava para buscar v&iacute;timas. E essa regi&atilde;o n&atilde;o &eacute; muito pr&oacute;xima da Praia Central, o local onde ocorreu o show do cantor Moraes Moreira. Logo, se Aramis &ndash; ou at&eacute; mesmo Leandro &ndash; sumiu durante o show, isso j&aacute; seria uma quebra de padr&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra coisa &eacute; a vitimologia, ou seja, o estudo do perfil das v&iacute;timas. Leandro e Evandro tinham entre seis e oito anos, eram meninos loiros de olhos claros. Dos irm&atilde;os Fran&ccedil;a, Fernando se encaixava nesse perfil f&iacute;sico, pois, mesmo tendo 11 anos, era pequeno e aparentava ser mais novo. Cleyton, o outro irm&atilde;o, j&aacute; n&atilde;o possu&iacute;a as mesmas caracter&iacute;sticas. E Aramis tamb&eacute;m n&atilde;o tinha olhos claros.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, n&atilde;o se pode ignorar um fato importante: crian&ccedil;as brancas e loiras de olhos claros n&atilde;o s&atilde;o incomuns no Paran&aacute;, especialmente mais para o Sul, como &eacute; a regi&atilde;o de Guaratuba. Ou seja, pode ser que essas caracter&iacute;sticas f&iacute;sicas sejam mais coincid&ecirc;ncias, e n&atilde;o exatamente perfis que o assassino procurava.<\/p>\n\n\n\n<p>Os hor&aacute;rios tamb&eacute;m s&atilde;o um pouco divergentes: Leandro pode ter sumido de manh&atilde; ou de noite. Evandro sumiu de manh&atilde;. Os irm&atilde;os Fran&ccedil;a teriam sido perseguidos ap&oacute;s o almo&ccedil;o, no in&iacute;cio da tarde. E, por fim, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel confirmar que o caso deles tem qualquer rela&ccedil;&atilde;o com os de Evandro e Leandro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan ressalta uma quest&atilde;o importante levantada por alguns especialistas de casos em s&eacute;rie com quem conversou. &Agrave;s vezes, todos ficam procurando padr&otilde;es demais, esperando que tudo se repita exatamente da mesma forma. Nem sempre &eacute; assim. Na criminologia, existe uma teoria chamada &ldquo;Tri&acirc;ngulo do Crime&rdquo;, que basicamente afirma que, para que um crime ocorra, s&atilde;o necess&aacute;rios tr&ecirc;s elementos:<\/p>\n\n\n\n<p>&bull; um indiv&iacute;duo motivado a cometer um crime;<\/p>\n\n\n\n<p>&bull; uma t&eacute;cnica que o criminoso domina, e que permite que ele cometa tal ato;<\/p>\n\n\n\n<p>&bull; e, por fim, uma oportunidade. &Eacute; aquele momento e local ideal em que ele se v&ecirc; em condi&ccedil;&otilde;es de fazer o que quer.<\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; nesse terceiro elemento que as coisas podem variar mais. Pode ser que o assassino se concentrasse naquela regi&atilde;o do col&eacute;gio Olga Silveira, mas que tamb&eacute;m buscasse oportunidades em outros lugares.<\/p>\n\n\n\n<p>E, sobre a t&eacute;cnica, pode ser que ele tentasse levar primeiro uma v&iacute;tima, depois outra &ndash; como seriam nos casos de Leandro e Aramis. Pode ser que depois tenha mudado, agindo para pegar mais de uma crian&ccedil;a de uma s&oacute; vez. Isso pode ter acontecido com os irm&atilde;os Fran&ccedil;a e Evandro, que teria sido visto com outros dois garotos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan sente que esses s&atilde;o elementos dif&iacute;ceis de se ignorar, pois em conjunto eles parecem desenhar um quadro diferente do que se viu durante todos esses anos. Mas pode ser tamb&eacute;m que tudo seja resultado de um p&acirc;nico generalizado. Quando a popula&ccedil;&atilde;o fica apavorada, qualquer detalhe pode ser assustador.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a produ&ccedil;&atilde;o dessa temporada, Ivan contratou uma equipe de tr&ecirc;s jovens jornalistas para fazer uma pesquisa na Biblioteca P&uacute;blica do Paran&aacute;. Durante seis meses, Breno Antunes, Mavi Bruzamolin e Raissa Micheluzzi vasculharam todos os jornais policiais do Paran&aacute; desde 1980 at&eacute; 1992, catalogando todos os casos de crian&ccedil;as mortas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan pediu para eles fazerem isso com base na cren&ccedil;a de que, muito provavelmente, o assassino de Evandro e Leandro n&atilde;o parou s&oacute; neles. Se foi a mesma pessoa, deve ter feito mais v&iacute;timas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na procura pelos casos paranaenses, a equipe encontrou um ou outro caso que chamava a aten&ccedil;&atilde;o, mas nada muito evidente. Essa pesquisa foi importante para tirar essa d&uacute;vida, mas n&atilde;o foi conclusiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma vez, o ideal seria ter um banco de dados feito pela pr&oacute;pria pol&iacute;cia sobre crimes contra menores nesse per&iacute;odo &ndash; o que n&atilde;o existe. Pode ser que casos aconteceram no interior do Paran&aacute;, por exemplo, ou at&eacute; mesmo em outros estados vizinhos, mas nunca foram publicados em nenhum jornal.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode ser que as outras crian&ccedil;as que sumiram na &eacute;poca, e cujos casos ainda est&atilde;o em aberto, tenham sido v&iacute;timas. Pode ser que ossadas encontradas de crian&ccedil;as muitos anos depois dos desaparecimentos sejam v&iacute;timas do mesmo assassino. &Eacute; imposs&iacute;vel fechar essas pontas sem mais informa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>UM NOVO CASO SEMELHANTE&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se o assassino de Evandro e Leandro fez outras v&iacute;timas, muito provavelmente conseguiu sair ileso de qualquer outro assassinato que tenha cometido. Mas, ent&atilde;o, algo novo apareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Era setembro de 2021. Ivan estava produzindo a temporada anterior do Projeto Humanos, sobre o caso dos meninos emasculados de Altamira. O resultado do novo DNA de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a> ainda n&atilde;o tinha sa&iacute;do.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan acompanhava pelo YouTube as transmiss&otilde;es do Grupo de Trabalho do Caso Evandro, uma iniciativa da Secretaria de Justi&ccedil;a do Paran&aacute; ap&oacute;s a exibi&ccedil;&atilde;o da s&eacute;rie no Globoplay. Ele explicou melhor sobre esse esfor&ccedil;o do governo paranaense no <a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/extras-episodio-01-preludio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">epis&oacute;dio 1 do prel&uacute;dio<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia primeiro de setembro de 2021, o doutor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/paulo-markowicz\/\" target=\"_self\" title=\"Promotor que atuou nos &uacute;ltimos j&uacute;ris do caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Paulo Markowicz<\/a>, o &uacute;ltimo promotor respons&aacute;vel pelas acusa&ccedil;&otilde;es do caso Evandro, deu seu relato para o Grupo de Trabalho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua fala, que serviu como uma forma de representar a fam&iacute;lia de Evandro, que se recusou a participar, ele refor&ccedil;ava sua convic&ccedil;&atilde;o da culpa dos sete acusados, mesmo ap&oacute;s a revela&ccedil;&atilde;o das fitas de tortura. E ent&atilde;o, em certo ponto, no meio dos slides, ele apresenta uma coisa que Ivan n&atilde;o conhecia.<\/p>\n\n\n\n<p>E &eacute; importante refor&ccedil;ar que isso tudo ele est&aacute; falando antes de existir a confirma&ccedil;&atilde;o de que a ossada encontrada em Guaratuba em 1993 era de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a>. Ele ainda se baseava na hist&oacute;ria da confiss&atilde;o falsa do pai de santo <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/osvaldo-marcineiro\/\" target=\"_self\" title=\"Pai de santo acusado pela morte de Evandro Ramos Caetano\" class=\"encyclopedia\">Osvaldo Marcineiro<\/a>, dizendo que teriam jogado Leandro na ba&iacute;a de Guaratuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Leia abaixo a transcri&ccedil;&atilde;o do trecho:<\/p>\n\n\n\n<p><em><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/paulo-markowicz\/\" target=\"_self\" title=\"Promotor que atuou nos &uacute;ltimos j&uacute;ris do caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Paulo Markowicz<\/a>: &Eacute;, mas j&aacute; estou quase finalizando, Dr. Olympio. Eu agrade&ccedil;o, agrade&ccedil;o sua interven&ccedil;&atilde;o. A hip&oacute;tese de que seria um serial killer, que &eacute; lan&ccedil;ada na miniss&eacute;rie&hellip; Para mim, se &eacute; assassino serial, eu acho que s&atilde;o v&aacute;rios assassinos. Porque, na verdade, o que acontece? V&aacute;rios assassinos, eu digo, com o mesmo modus operandi. Vejam, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a> desaparece em fevereiro de 1992, durante o show de Moraes Moreira. A&iacute; tem todo aquele indicativo de que poderia ter sido sacrificado, enfim, tem aquela confiss&atilde;o naquela fita do Osvaldo, dizendo que jogaram na ba&iacute;a de Guaratuba; e inclusive isso foi motivo para que a Pol&iacute;cia Federal fizesse uma investiga&ccedil;&atilde;o, inclusive com intercepta&ccedil;&otilde;es telef&ocirc;nicas, que inclusive tem conte&uacute;dos interessantes para investigar a morte do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a>. Inclusive o Delegado era o Dr. Rog&eacute;rio, que eu lembro &agrave; &eacute;poca, ele pediu at&eacute; que mergulhadores&hellip; S&oacute; que os bombeiros n&atilde;o chegavam porque &eacute; muito fundo ali na regi&atilde;o da ba&iacute;a, os bombeiros n&atilde;o conseguiriam, para tentar achar restos mortais do Leandro. O inqu&eacute;rito acabou sendo arquivado, est&aacute; arquivado. Mas enfim, tinha o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a>, e antes de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a> e depois de Evandro, em abril, crian&ccedil;as em Curitiba desapareceram. Guilherme Tiburtius, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/everton-goncalves\/\" target=\"_self\" title=\"Menino de quatro anos que desapareceu em Curitiba em 1988\" class=\"encyclopedia\">Everton Gon&ccedil;alves<\/a> e outros que eu n&atilde;o lembro agora, mas o que chama aten&ccedil;&atilde;o &eacute; que n&oacute;s juntamos o processo &ndash; pode ir adiante, me perdoem se choca a imagem, pode parar a&iacute;, pode aumentar. Essa &eacute; a Sandrinha, a Sandra, que ela &eacute; encontrada em Fazenda Rio Grande em 1989, escalpelada, sem todo o rosto, a face, o couro cabeludo e, pior ainda &ndash; pode ir adiante, a foto em baixo, por favor, aumenta um pouquinho &ndash; sem as duas m&atilde;os. <\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[pausa]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/paulo-markowicz\/\" target=\"_self\" title=\"Promotor que atuou nos &uacute;ltimos j&uacute;ris do caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Paulo Markowicz<\/a>: Pode tirar, acho que n&atilde;o precisa mais isso. Ent&atilde;o, nesse caso &eacute; espantosa a similaridade, me perdoem, mas &eacute; espantosa, pelo menos quanto a dois elementos de Evandro: a quest&atilde;o da aus&ecirc;ncia do couro cabeludo, toda a face extra&iacute;da e as duas m&atilde;os amputadas. Ent&atilde;o, vejam, a quest&atilde;o de lan&ccedil;ar hip&oacute;teses &eacute; uma coisa, n&atilde;o vou dizer assim: &ldquo;olha, n&atilde;o, n&atilde;o tem, eles s&atilde;o os respons&aacute;veis&rdquo;. O que eu posso dizer &eacute; que, em rela&ccedil;&atilde;o a Osvaldo e Vicente, essa convic&ccedil;&atilde;o ningu&eacute;m me tira; s&atilde;o eles. Convic&ccedil;&atilde;o pessoal, absoluta; esses dois participaram do sacrif&iacute;cio de Evandro. Os outros, certeza processual? Certeza processual, convic&ccedil;&atilde;o. Agora com rela&ccedil;&atilde;o a esses dois, eu tenho a convic&ccedil;&atilde;o pessoal que eles participaram da morte de Evandro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=tKR3RRRx75k&amp;t=5578s\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Trecho da transmiss&atilde;o do Grupo de Trabalho do caso Evandro (2021)<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>V&aacute;rias coisas s&atilde;o chocantes nessa fala do doutor Markowicz. A primeira &eacute; essa aparente infer&ecirc;ncia que ele faz de que <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/osvaldo-marcineiro\/\" target=\"_self\" title=\"Pai de santo acusado pela morte de Evandro Ramos Caetano\" class=\"encyclopedia\">Osvaldo Marcineiro<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/encyclopedia\/vicente-de-paula-ferreira\/\" target=\"_self\" title=\"Ajudante de Osvaldo Marcineiro, foi um dos acusados no caso Evandro\" class=\"encyclopedia\">Vicente de Paula Ferreira<\/a>, dois dos acusados do caso Evandro, estariam por tr&aacute;s deste outro, de 1989, ocorrido em Fazenda Rio Grande, na regi&atilde;o metropolitana de Curitiba. E Ivan j&aacute; adianta: n&atilde;o h&aacute; nada que os ligue a esse crime.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda coisa que impressionou muito foi o caso em si. Como assim havia ocorrido uma morte t&atilde;o parecida com a de Evandro, e Ivan nunca ficou sabendo?<\/p>\n\n\n\n<p>E a terceira coisa, talvez a mais importante: em sua fala no Grupo de Trabalho, Markowicz partia dos suspeitos do caso Evandro para dizer: &ldquo;olha aqui esse crime muito similar, eles devem ser os respons&aacute;veis tamb&eacute;m&rdquo;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o caminho tinha que ser outro. Se esse caso de 1989 era realmente t&atilde;o parecido, Ivan precisava olhar primeiro para ele, para ent&atilde;o poder tirar qualquer conclus&atilde;o. Foi o que ele fez. E, a partir desse momento, tudo mudou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As Crian\u00e7as de Guaratuba<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":25,"template":"","encyclopedia-category":[6],"encyclopedia-tag":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia\/296"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/encyclopedia"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=296"}],"wp:term":[{"taxonomy":"encyclopedia-category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-category?post=296"},{"taxonomy":"encyclopedia-tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/caso-leandro-bossi\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-tag?post=296"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}