{"id":988,"date":"2023-02-09T00:01:00","date_gmt":"2023-02-09T03:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/?post_type=encyclopedia&#038;p=988"},"modified":"2023-02-07T11:46:07","modified_gmt":"2023-02-07T14:46:07","slug":"extras-episodio-31","status":"publish","type":"encyclopedia","link":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-31\/","title":{"rendered":"Extras Epis\u00f3dio 31"},"content":{"rendered":"\n<p>Os crimes dos emasculados ocorreram em Altamira entre 1989 e 1993. No final de 2003, o mec&acirc;nico <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a> foi preso e, nos anos seguintes, ele confessou ter atacado mais de 40 meninos no Par&aacute; e no Maranh&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>At&eacute; pouco tempo, o consenso geral era de que Chagas n&atilde;o havia sido acusado formalmente pelo Minist&eacute;rio P&uacute;blico (MP) em Altamira. Mas, ent&atilde;o, o advogado e pesquisador <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rubens-pena-junior\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado e antrop&oacute;logo\" class=\"encyclopedia\">Rubens Pena J&uacute;nior<\/a> fez uma descoberta que mudaria essa hist&oacute;ria: dos 14 inqu&eacute;ritos que as pol&iacute;cias Federal e Civil fizeram em 2004 e 2005 sobre os crimes confessados pelo mec&acirc;nico no Par&aacute;, dois geraram den&uacute;ncias.<\/p>\n\n\n\n<p>Um deles envolvia o desaparecimento de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/tito-mendes-vieira\/\" target=\"_self\" title=\"Menino de 12 anos que desapareceu em Altamira em janeiro de 1991\" class=\"encyclopedia\">Tito Mendes Vieira<\/a>, em 20 de janeiro de 1991. Neste processo, o MP denunciou Chagas em 14 de julho de 2011 &ndash; ou seja, 20 anos depois, o que significa que o crime j&aacute; estava prescrito. A defensoria p&uacute;blica, que representava o acusado, alegou a prescri&ccedil;&atilde;o e conseguiu a extin&ccedil;&atilde;o da punibilidade para este caso espec&iacute;fico. At&eacute; hoje, a fam&iacute;lia de Tito n&atilde;o tem respostas sobre o que aconteceu com ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas havia outro crime pelo qual o mec&acirc;nico foi denunciado: desta vez, pelo ataque ao terceiro sobrevivente, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/wandicley-oliveira-pinheiro\/\" target=\"_self\" title=\"Terceiro sobrevivente do caso dos emasculados de Altamira\" class=\"encyclopedia\">Wandicley Oliveira Pinheiro<\/a>, ocorrido em setembro de 1990. Como a den&uacute;ncia foi realizada em 2005, o caso ainda n&atilde;o havia prescrito. Essa talvez poderia ser a &uacute;nica chance de levar Chagas a j&uacute;ri em Altamira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A DESCOBERTA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rubens-pena-junior\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado e antrop&oacute;logo\" class=\"encyclopedia\">Rubens Pena J&uacute;nior<\/a>, durante a pesquisa do mestrado, ele entrou no site do Tribunal de Justi&ccedil;a e encontrou um campo de consulta unificada de processos. L&aacute;, digitou o nome completo de Chagas, e um resultado apareceu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao clicar na numera&ccedil;&atilde;o do arquivo, o advogado conseguiu ter acesso a partes do processo. &ldquo;Era poss&iacute;vel visualizar o conte&uacute;do de algumas decis&otilde;es. Ent&atilde;o, eu verifiquei que <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a> estava denunciado por um homic&iacute;dio na forma tentada, e s&oacute; constavam as iniciais da v&iacute;tima. A&iacute; eu fui atr&aacute;s de saber do que esses autos se tratavam&rdquo;, explicou ele em entrevista ao podcast.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de viajar &agrave; Altamira para obter o processo completo, Rubens investigou quem mais teve acesso a ele. O pesquisador verificou que a filha do m&eacute;dico <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/cesio-flavio-caldas-brandao\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico reconhecido por Agostinho como suspeito na morte de Jaenes\" class=\"encyclopedia\">C&eacute;sio Fl&aacute;vio Caldas Brand&atilde;o<\/a>, chamada Stefany, sabia da exist&ecirc;ncia da den&uacute;ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela havia requerido uma c&oacute;pia dos autos, que lhe foi concedida &agrave; &eacute;poca atrav&eacute;s de uma advogada correspondente. A filha de C&eacute;sio, por&eacute;m, n&atilde;o conseguiu o processo na &iacute;ntegra, apenas algumas pe&ccedil;as. O pedido de Stefany aconteceu no per&iacute;odo em que o doutor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/roberto-lauria\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado que solicitou em 2012 a revis&atilde;o criminal do processo contra C&eacute;sio\" class=\"encyclopedia\">Roberto Lauria<\/a> tentava pleitear uma revis&atilde;o criminal para o m&eacute;dico.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui vale compartilhar um pouco dos bastidores: at&eacute; o momento em que Rubens fez essa descoberta, a produ&ccedil;&atilde;o do podcast n&atilde;o sabia exatamente o que a Pol&iacute;cia Federal investigou sobre Chagas em Altamira nos anos 2000. Tudo o que a equipe tinha era o relat&oacute;rio da PF sobre o caso de Wandicley, anexado ao pedido de revis&atilde;o criminal de C&eacute;sio. O documento produzido pelos agentes federais est&aacute; dispon&iacute;vel aqui:<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1csjabBEpVTk6tMbVEOMmS5gxL91YlTJe\/view\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Relat&oacute;rio final da PF sobre o caso de Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>J&aacute; os relat&oacute;rios dos demais inqu&eacute;ritos n&atilde;o s&atilde;o p&uacute;blicos, por isso n&atilde;o ser&aacute; poss&iacute;vel disponibiliz&aacute;-los na enciclop&eacute;dia. O que d&aacute; para dizer &eacute; que todos possuem basicamente as mesmas informa&ccedil;&otilde;es sobre como a PF em 2004 e 2005 chegou &agrave; conclus&atilde;o de que Chagas &eacute; o verdadeiro culpado dos crimes no Par&aacute;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da nova descoberta, por&eacute;m, Rubens precisava ir al&eacute;m. Ele viajou at&eacute; Altamira com o objetivo de obter o processo completo, o que conseguiu ap&oacute;s muito imbr&oacute;glio. Isso porque, logo de cara, o advogado percebeu que o documento era bastante protegido pelos servidores do Tribunal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com o material em m&atilde;os, um detalhe inicial j&aacute; chamou a aten&ccedil;&atilde;o do pesquisador. &ldquo;Eu fiquei confuso por diversas circunst&acirc;ncias. A primeira &eacute; que, at&eacute; ent&atilde;o, eu nunca tinha ouvido falar de dois crimes sendo denunciados com a mesma v&iacute;tima e acusados distintos. E essa &eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o que aconteceu nesse caso&rdquo;, comentou Rubens.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse ponto, o advogado se refere ao seguinte: Wandicley foi inclu&iacute;do no processo contra os cinco suspeitos em Altamira &ndash; Amailton, Carlos Alberto, C&eacute;sio, An&iacute;sio e Valentina. Um caso, inclusive, que resultou em quatro condena&ccedil;&otilde;es. Mas, agora, o sobrevivente tamb&eacute;m era v&iacute;tima em outra den&uacute;ncia, desta vez com Chagas como o acusado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m disso, outra coisa que surpreendeu Rubens foi a evidente discrep&acirc;ncia entre o relat&oacute;rio da PF e o conte&uacute;do da den&uacute;ncia formalizada pelo MP. &ldquo;A gente tem um inqu&eacute;rito novo, de 2004, em uma investiga&ccedil;&atilde;o sigilosa realizada pela Pol&iacute;cia Federal, autorizada pelo Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a. E n&oacute;s temos uma den&uacute;ncia estadual em que os ind&iacute;cios de autoria partem do processo principal, de 1992, da Pol&iacute;cia Civil&rdquo;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, enquanto o documento produzido pela PF &eacute; robusto, com 61 p&aacute;ginas, e detalha os ind&iacute;cios de autoria de Chagas no caso de Wandicley; a den&uacute;ncia &eacute; curta, com apenas quatro folhas, e segue a linha das investiga&ccedil;&otilde;es realizadas nos anos 90.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O promotor que denunciou Chagas em 2005 foi <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/afonso-jofrei-macedo-ferro\/\" target=\"_self\" title=\"Promotor de Altamira respons&aacute;vel pela den&uacute;ncia contra Chagas em 2005\" class=\"encyclopedia\">Afonso Jofrei Macedo Ferro<\/a>. Ivan Mizanzuk entrou em contato com ele, hoje j&aacute; aposentado, para entender os motivos da incompatibilidade entre os documentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma breve conversa, o ex-promotor disse que, na &eacute;poca, teria ouvido hist&oacute;rias sobre Chagas ser um laranja. Por isso, pretendia chegar na fase de instru&ccedil;&atilde;o criminal para investigar essa situa&ccedil;&atilde;o, al&eacute;m de conduzir outros procedimentos necess&aacute;rios. Logo ap&oacute;s a den&uacute;ncia, por&eacute;m, ele foi removido do caso e n&atilde;o p&ocirc;de mais acompanh&aacute;-lo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan chegou a enviar um e-mail para o advogado com o relat&oacute;rio da PF sobre o caso Wandicley, pois tinha a inten&ccedil;&atilde;o de entrevist&aacute;-lo. Mas ele nunca respondeu a mensagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de poss&iacute;veis especula&ccedil;&otilde;es, entretanto, &eacute; importante esclarecer que, no geral, promotores, delegados e ju&iacute;zes costumam atuar por pouco tempo em Altamira. N&atilde;o &eacute; &agrave; toa que h&aacute; tantos personagens nessa hist&oacute;ria. Isso certamente atrapalha o andamento dos processos, ainda mais em uma cidade com &iacute;ndices de viol&ecirc;ncia t&atilde;o altos. No caso de Wandicley, n&atilde;o foi diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>No total, Rubens encontrou 12 inqu&eacute;ritos da Pol&iacute;cia Federal contra Chagas, cada um com uma v&iacute;tima, enviados ao Minist&eacute;rio P&uacute;blico do Par&aacute;. Ele n&atilde;o chegou a ter acesso a todos eles, mas descobriu que a maioria acabou arquivada.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Alguns foram denunciados, outros foram arquivados. S&oacute; que com uma observa&ccedil;&atilde;o importante: todos os arquivados antes da den&uacute;ncia foi pela prescri&ccedil;&atilde;o, e todos os denunciados prescreveram. Isso &eacute; uma coisa incomum&rdquo;, pontuou o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p>O relat&oacute;rio da PF anexado &agrave; revis&atilde;o criminal de C&eacute;sio fala em 14 inqu&eacute;ritos, mas dois deles nunca foram confessados por Chagas: o caso de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/renan-santos-de-souza\/\" target=\"_self\" title=\"Menino de oito anos que desapareceu em janeiro de 1993 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Renan Santos de Souza<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/ednaldo-de-souza-teixeira\/\" target=\"_self\" title=\"Menino encontrado morto dentro de um po&ccedil;o em Altamira em abril de 1992\" class=\"encyclopedia\">Ednaldo de Souza Teixeira<\/a>. No fim, restaram 12, mas apenas o de Wandicley continuou em aberto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O PROCESSO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas, afinal, qual o conte&uacute;do do processo do terceiro sobrevivente? No total, Chagas prestou quatro depoimentos espec&iacute;ficos sobre o ataque a Wandicley.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em um deles, de primeiro de abril de 2004, o suspeito fala sobre os deslocamentos que fazia entre o Par&aacute; e o Maranh&atilde;o. Depois que a m&atilde;e dele morreu, quando ele ainda era crian&ccedil;a, Chagas passou a ser criado por uma tia de nome Maria. Como ela tinha parentes em Altamira, era comum que levasse o sobrinho para l&aacute;.<\/p>\n\n\n\n<p>Os problemas de mem&oacute;ria de Chagas j&aacute; se tornam evidentes neste relato, a partir da confus&atilde;o que ele faz sobre a idade que tinha quando a m&atilde;e morreu, em 1976. Apesar de dizer que era uma crian&ccedil;a de seis ou sete anos na &eacute;poca, a informa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o bate ao ser confrontada com a data de nascimento dele, em 1964 &ndash; ou seja, ele teria na verdade 12 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>As incongru&ecirc;ncias temporais n&atilde;o param por a&iacute;. &ldquo;Quando voc&ecirc; come&ccedil;a a fazer um levantamento de onde ele trabalhou e em quais per&iacute;odos, &eacute; como se ele tivesse vivido 100 anos em 30. Ele tem muito problema em falar datas, o que depois vem se consubstanciar nas an&aacute;lises psiqui&aacute;tricas&rdquo;, comentou Rubens.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/02\/2004-04-01-Interrogatorio-Chagas-para-PF-1-WANDICLEY.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Chagas para a PF &ndash; 01 de abril de 2004<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma vez, esses detalhes da narrativa contrastam com a ideia disseminada nas investiga&ccedil;&otilde;es de que Chagas tinha uma mem&oacute;ria perfeita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda sobre esse assunto, o pesquisador citou o trabalho da professora e doutora em Pol&iacute;ticas P&uacute;blicas, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/valdira-barros\/\" target=\"_self\" title=\"Doutora em Pol&iacute;ticas P&uacute;blicas, estudou sobre o caso dos meninos emasculados do Maranh&atilde;o\" class=\"encyclopedia\">Valdira Barros<\/a>, que estudou o caso dos meninos emasculados do Maranh&atilde;o. &ldquo;Na tese de doutorado, ela explica muito bem que os policiais que trabalharam nessas investiga&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m tentaram criar um serial killer perfeito. Eles ignoraram os elementos controversos dessa suposta autoria e constru&iacute;ram o criminoso, assim como foi feito no Par&aacute; com as pessoas da &lsquo;seita&rsquo;&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, defende ele, h&aacute; tamb&eacute;m uma tend&ecirc;ncia das pr&oacute;prias delegadas que pegaram o caso nos anos 2000 de conduzir o acusado, mesmo que n&atilde;o intencionalmente. Apesar disso, &eacute; ineg&aacute;vel que as novas investiga&ccedil;&otilde;es sobre Chagas foram mais robustas e eficientes do que aquelas realizadas em Altamira na d&eacute;cada de 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando ao processo de Wandicley, Chagas deu mais detalhes sobre como abordou o menino em outro termo de declara&ccedil;&otilde;es, de junho de 2004. Ele disse n&atilde;o se lembrar da data exata do ocorrido, apenas que era um m&ecirc;s &ldquo;pr&oacute;ximo do fim do ano&rdquo;, em um dia sem sinal de chuva, com cara de ver&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na ocasi&atilde;o, ele trabalhava como ajudante de pedreiro de um senhor chamado Raimundo, perto do est&aacute;dio de Altamira. Segundo o depoimento, Chagas saiu do servi&ccedil;o por volta das 15h30 e, em sua bicicleta vermelha, seguiu at&eacute; a frente do campo de futebol e viu o pessoal jogar bola.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele observou que tr&ecirc;s meninos brincavam perto do port&atilde;o e conversavam sobre papagaios. Um deles falou que j&aacute; tinha ouvido esse tipo de ave na regi&atilde;o do Igarap&eacute; dos Panelas. O outro garoto, que o suspeito descreve como &ldquo;moreninho&rdquo;, retrucou que era longe, que n&atilde;o daria para ir a p&eacute;. Foi quando eles pediram a bicicleta de Chagas emprestada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como o mec&acirc;nico n&atilde;o aceitou deix&aacute;-la com as crian&ccedil;as, o &ldquo;moreninho&rdquo; o chamou para ir junto com ele. O segundo menino tamb&eacute;m queria ir, mas o pneu da bicicleta estava baixo e n&atilde;o aguentaria os dois.<\/p>\n\n\n\n<p>Chagas e o primeiro garoto foram, ent&atilde;o, em dire&ccedil;&atilde;o ao igarap&eacute;. De acordo com o suspeito, a crian&ccedil;a tinha cerca de 10 anos, cabelos lisos pretos e usava apenas um shorts e uma sand&aacute;lia havaiana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ambos seguiram de bicicleta por quatro quil&ocirc;metros at&eacute; chegar ao igarap&eacute;, no trecho depois da ponte. Eles entraram, ent&atilde;o, &agrave; esquerda e continuaram at&eacute; o ponto indicado pelo menino, &agrave;s margens do curso d&rsquo;&aacute;gua. Como n&atilde;o ouviram nenhum papagaio, decidiram sentar por ali mesmo e esperar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, Chagas afirmou que saiu sozinho do local por volta das 17h30, e que n&atilde;o se lembrava se teria feito algum mal para o garoto. Ele foi direto para casa e n&atilde;o encontrou mais ningu&eacute;m na regi&atilde;o do igarap&eacute;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/02\/2004-06-05-Interrogatorio-Chagas-para-PF-2-WANDICLEY.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Chagas para a PF 2 &ndash; 05 de junho de 2004<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/02\/2004-06-07-Interrogatorio-Chagas-para-PF-3-WANDICLEY.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Chagas para a PF 3 &ndash; 07 de junho de 2004<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/02\/2004-06-09-Interrogatorio-Chagas-para-PF-4-WANDICLEY.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Chagas para a PF 4 &ndash; 09 de junho de 2004<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O menino &ldquo;moreninho&rdquo; a que o suspeito se refere &eacute; Wandicley. E aqui outros pontos coincidem. &ldquo;Acho que a primeira observa&ccedil;&atilde;o importante &eacute; que, se a gente cruzar os dados do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a> no que ele estava trabalhando nessa &eacute;poca, confere que atuava como ajudante de pedreiro. Ent&atilde;o, isso bate com a data em que Wandicley foi emasculado&rdquo;, observou Rubens.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o depoimento de Chagas n&atilde;o &eacute; nulo de contradi&ccedil;&otilde;es. Um detalhe que o pesquisador estranhou, por exemplo, &eacute; a dist&acirc;ncia de quatro quil&ocirc;metros descrita no testemunho. Como ele sabia que a medida era exatamente essa entre o est&aacute;dio e o Igarap&eacute; dos Panelas?<\/p>\n\n\n\n<p>E n&atilde;o s&oacute; isso. O sobrevivente, na verdade, foi emasculado em outro ponto, antes do igarap&eacute;, em frente a um terreno baldio. &ldquo;Uma coisa interessante &eacute; que ele [Chagas] diz que, saindo do est&aacute;dio, entrou para o mato com o Wandicley para a esquerda, e realmente &eacute; para a esquerda. Na lateral ali existe um terreno alagado, e l&aacute; para dentro h&aacute; &aacute;rvores de tucum. N&atilde;o sei o que aconteceu, mas n&atilde;o &eacute; nesse local perto do igarap&eacute;&rdquo;, afirmou o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p>Como j&aacute; explicado em epis&oacute;dios passados, em alguns casos, h&aacute; discrep&acirc;ncias entre o lugar apontado por Chagas em Altamira e onde as v&iacute;timas foram encontradas. Esse, inclusive, &eacute; um dos motivos que levam muitas fam&iacute;lias a desconfiar que ele n&atilde;o cometeu os crimes.<\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; importante ter em mente, por&eacute;m, que o mec&acirc;nico est&aacute; relatando tudo isso depois de ter atacado mais de 40 crian&ccedil;as em dois estados. N&atilde;o &eacute; absurdo imaginar que ele possa confundir os detalhes, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao analisar todos os fatores, Rubens acredita que as coincid&ecirc;ncias s&atilde;o mais fortes. &ldquo;Essas informa&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas que a Pol&iacute;cia Federal reduz a termo nesse inqu&eacute;rito n&atilde;o continham no processo principal. De alguma forma, elas foram levantadas, seja com Chagas, com os moradores locais ou com o pr&oacute;prio Wandicley. Ent&atilde;o, essa &eacute; outra investiga&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o aquela anterior&rdquo;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isso, portanto, enfraqueceria a teoria de que Chagas teria sido orientado a confessar os crimes a partir do conte&uacute;do dos primeiros autos. Afinal, parece improv&aacute;vel algu&eacute;m usar os mesmos argumentos da pol&iacute;cia contra os cinco acusados para, agora, livr&aacute;-los da cadeia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>PR&Oacute;XIMOS PASSOS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com o processo em m&atilde;os, Rubens verificou o que aconteceu durante a tramita&ccedil;&atilde;o dele na justi&ccedil;a entre 2005 e 2021 &ndash; data da descoberta do documento. Isso significa que o caso j&aacute; teria passado pela fase de instru&ccedil;&atilde;o, em que as testemunhas e o pr&oacute;prio denunciado seriam ouvidos, e as provas colhidas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, no entanto, a trajet&oacute;ria n&atilde;o foi nada simples. O processo passou por v&aacute;rios ju&iacute;zes. Um deles pediu, em 2006, a c&oacute;pia dos autos de Altamira que resultaram nas quatro condena&ccedil;&otilde;es. O problema &eacute; que a solicita&ccedil;&atilde;o s&oacute; foi atendida 10 anos depois, em 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s testemunhas, a frustra&ccedil;&atilde;o &eacute; a mesma. A v&iacute;tima, Wandicley, e a m&atilde;e acabaram dispensados pelo Minist&eacute;rio P&uacute;blico e n&atilde;o foram ouvidos em audi&ecirc;ncia. A &uacute;nica pessoa a depor &eacute; <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/nelson-monteiro-de-souza\/\" target=\"_self\" title=\"Amigo de Chagas da &eacute;poca em que ele morou em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Nelson Monteiro de Souza<\/a>, que morou com Chagas em Altamira na &eacute;poca dos casos. No depoimento, ele diz que o amigo jamais teria capacidade de cometer os crimes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A p&eacute;ssima instru&ccedil;&atilde;o deixou claro que o MP n&atilde;o se preocupou muito com a den&uacute;ncia, que ainda n&atilde;o havia sido julgada pelo juiz de pron&uacute;ncia. Por isso, Rubens passou a estudar uma forma do processo avan&ccedil;ar antes da prescri&ccedil;&atilde;o, que ocorre em 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a&iacute; que o pesquisador pensou em uma possibilidade: entrar no caso como assistente de acusa&ccedil;&atilde;o. Mas ele s&oacute; poderia ir em frente com a ideia se o pr&oacute;prio Wandicley o aceitasse como advogado. Rubens, ent&atilde;o, conseguiu contato com o sobrevivente. Como a v&iacute;tima n&atilde;o quer ser localizada, o modo como isso aconteceu n&atilde;o ser&aacute; revelado.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o pesquisador, Wandicley se assustou com a not&iacute;cia da den&uacute;ncia contra Chagas. &ldquo;Ele ficou muito chateado com o fato de ser v&iacute;tima de novo em um processo do qual nem tinha conhecimento. E, pior ainda, existia outra pessoa sendo acusada que n&atilde;o estava entre aquelas que foram ao Tribunal do J&uacute;ri&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Rubens contou que ganhar a confian&ccedil;a do sobrevivente foi um processo demorado e de muito di&aacute;logo &ndash; o que &eacute; compreens&iacute;vel diante de todo o horror que ele viveu. Ao falar a verdade e explicar como poderia ajudar no caso, o advogado conseguiu estabelecer uma boa rela&ccedil;&atilde;o tanto com a v&iacute;tima quanto com os seus familiares. Eles chegaram at&eacute; a se encontrar pessoalmente, e Rubens se tornou oficialmente advogado de Wandicley.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ENTREVISTA COM WANDICLEY<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A partir desse momento, Ivan pediu a Rubens para que Wandicley lhe concedesse uma entrevista, caso se sentisse confort&aacute;vel. Para garantir a seguran&ccedil;a e tranquilidade da v&iacute;tima, ficou combinado que o pesquisador acompanharia tudo, como seu advogado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap&oacute;s meses de negocia&ccedil;&otilde;es, um dia Rubens foi &agrave; Altamira. Na ocasi&atilde;o, o sobrevivente aceitou conversar com Ivan via Skype. Hoje com 41 anos, ele &eacute; uma pessoa simples e reservada, que s&oacute; quer viver em paz com a fam&iacute;lia que formou. <\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo sendo um assunto bastante dif&iacute;cil, Wandicley decidiu falar. E, finalmente, muitas d&uacute;vidas poderiam ser esclarecidas. <\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, como o <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-20\/\" target=\"_blank\">epis&oacute;dio 20<\/a> mostra, os seus relatos ao longo do caso possuem muitas contradi&ccedil;&otilde;es. Alguns deles, inclusive, citam o poss&iacute;vel envolvimento de mais pessoas no ataque.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1991-07-17-Primeiro-Depoimento-Wandicley-Oliveira-Pinheiro-inquerito-Wandicley.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Primeiro depoimento de Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1991-07-17-Retrato-Falado-Wandicley.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Retrato falado com base na descri&ccedil;&atilde;o de Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1992-10-21-Segundo-Depoimento-Wandicley-inquerito-Jaenes.pdf\" target=\"_blank\">Segundo depoimento de Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1992-01-08-Auto-de-Reconhecimento-Wandicley-Oliveira-Pinheiro-inquerito-Judirley.pdf\" target=\"_blank\">Auto de reconhecimento de Rot&iacute;lio por Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1993-06-30-Terceiro-Depoimento-Wandicley-Oliveira-Pinheiro.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Terceiro depoimento de Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1993-06-30-Auto-de-Reconhecimento-Wandicley-Oliveira-Pinheiro.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Auto de reconhecimento de Aldenor por Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1994-11-30-Quarto-Depoimento-Wandicley-de-Oliveira-Pinheiro.pdf\" target=\"_blank\">Quarto depoimento de Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/2003-08-28-Quinto-Depoimento-Wandicley-juri-Amailton-e-Carlos-Alberto_compressed.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Wandicley no j&uacute;ri de Amailton e Carlos Alberto<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/2003-09-03-Sexto-Depoimento-Wandicley-de-Oliveira-Pinheiro-juri-Anisio.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Wandicley no j&uacute;ri de An&iacute;sio<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/2003-09-09-Setimo-Depoimento-Wandicley-de-Oliveira-Pinheiro-juri-Cesio.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Wandicley no j&uacute;ri de C&eacute;sio<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/2003-12-03-Oitavo-Depoimento-Wandicley-de-Oliveira-Pinheiro-juri-Valentina.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Wandicley no j&uacute;ri de Valentina<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Na conversa com Ivan, Wandicley tentou descrever o que lembra do dia 23 de setembro de 1990, quando foi atacado. Leia abaixo partes da transcri&ccedil;&atilde;o da entrevista:<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Voc&ecirc; lembra onde estava? Com quem estava?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> Eu estava perto do est&aacute;dio, estava eu e o meu primo. Ele [o criminoso] chegou l&aacute;, me abordou e perguntou se eu queria tirar ninho de papagaio. Eu falei que sim. Eu fui com ele. Meu primo falou que n&atilde;o era pra eu ir, mas eu fui. Chegando l&aacute; no local, ele mandou eu continuar na frente dele. E eu perguntei &ldquo;onde &eacute;?&rdquo;. Ele falou &ldquo;&eacute; bem aqui perto&rdquo;. De repente, ele botou um pano no meu rosto, n&atilde;o sei o que era, com um cheiro bem forte, e eu desmaiei.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Apagou. O que aconteceu quando voc&ecirc; acordou? Voc&ecirc; tem no&ccedil;&atilde;o de quanto tempo passou?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> O tanto de tempo que eu passei l&aacute; eu n&atilde;o tenho no&ccedil;&atilde;o n&atilde;o. Sei que acordei e continuei andando l&aacute; pra pista. Eu ouvi o barulho dos carros passando. A&iacute; [pensei] &ldquo;&eacute; pra c&aacute; a pista&rdquo;. Segui andando e cheguei num certo lugar l&aacute;. Tinha uma mulher estendendo roupa no varal. Eu parei pra pedir ajuda pra me levar pro hospital.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Nos depoimentos que voc&ecirc; prestou ainda crian&ccedil;a, voc&ecirc; cita que tinha quatro pessoas, uma pessoa e mais tr&ecirc;s depois. Voc&ecirc; pode explicar isso pra mim?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Olha, eu n&atilde;o tenho certeza que eu&hellip; Porque quando aconteceu isso l&aacute;, eu estava dopado, bem dizer, n&eacute;? Sinceramente, eu n&atilde;o tenho certeza n&atilde;o.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>S&oacute; pra deixar isso bem claro, que isso &eacute; importante pra gente. Nos seus depoimentos durante esses anos aparecia sempre a seguinte hist&oacute;ria: um homem levou voc&ecirc; pro mato, e l&aacute; voc&ecirc; encontrou outras tr&ecirc;s pessoas, que via por debaixo de uma venda nos olhos. Voc&ecirc; diz agora, ent&atilde;o, que n&atilde;o se lembra disso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>N&atilde;o. N&atilde;o foi assim n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Voc&ecirc; tem uma explica&ccedil;&atilde;o do porqu&ecirc; nos seus depoimentos tem essa hist&oacute;ria?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>N&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Nos j&uacute;ris voc&ecirc; j&aacute; era adulto e deu quatro depoimentos. Em todos voc&ecirc; tamb&eacute;m falava sobre mais pessoas l&aacute; no dia em que foi atacado. O que aconteceu nos j&uacute;ris?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> Uma coisa que eu falei no j&uacute;ri l&aacute;&hellip; Eu falei que eu n&atilde;o tinha certeza. At&eacute; porque eu estava tipo dopado no mato, eu n&atilde;o tinha certeza mesmo.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Voc&ecirc; tem alguma explica&ccedil;&atilde;o de como &eacute; poss&iacute;vel que tenham colocado no teu depoimento escrito que tinha mais pessoas? Voc&ecirc; tem alguma explica&ccedil;&atilde;o pra isso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>N&atilde;o, n&atilde;o tenho nenhuma. N&atilde;o sei por que mesmo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Voc&ecirc; cita tamb&eacute;m nos j&uacute;ris que reconheceu o Carlos Alberto como sendo uma das pessoas que teriam te atacado. Voc&ecirc; realmente reconheceu o Carlos Alberto?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Na verdade, quando eu olhei pra ele, eu n&atilde;o tinha bem certeza n&atilde;o, mas ele se parece muito com aquele outro. Bastante mesmo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> A quest&atilde;o &eacute; que o Carlos Alberto j&aacute; &eacute; a terceira pessoa que voc&ecirc; reconhece pelos autos do processo. O primeiro foi o Rot&iacute;lio, aquele morador de rua que morreu no in&iacute;cio de 9<\/em>2.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> Vou falar a verdade. Aquele Rot&iacute;lio eu nem cheguei a ver. Na verdade, eu n&atilde;o morava nem aqui, eu morava em Bel&eacute;m quando aconteceu isso. Eu nem cheguei a ver, eu s&oacute; ouvi o coment&aacute;rio l&aacute; em Bel&eacute;m disso a&iacute;. Eu nunca cheguei a ver esse rapaz, nunca fiquei cara a cara com ele, nunca nem vi ele.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Certo. A gente tem aqui o depoimento de um auto de reconhecimento seu, do dia 8 de janeiro de 92. Acredito que o Rubens j&aacute; deve ter te mostrado esse documento, que tem a sua assinatura ali, dizendo que reconhece o Rot&iacute;lio. O que voc&ecirc; est&aacute; me dizendo agora &eacute; que isso n&atilde;o aconteceu?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Rubens: <\/strong>O Wandicley, meu cliente, n&atilde;o estava em Bel&eacute;m no ato da pris&atilde;o do Rot&iacute;lio. Esse depoimento que consta nos autos nunca foi assinado por ele, porque ele nunca esteve presente em Altamira nessa &eacute;poca. Ele passou a residir em Bel&eacute;m logo ap&oacute;s o crime e ficou por l&aacute;. Nunca retornou &agrave; Altamira.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Ent&atilde;o, dia 8 de janeiro de 92&hellip; Esse auto de reconhecimento aqui com o Wandicley n&atilde;o aconteceu?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Rubens: <\/strong>N&atilde;o aconteceu.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>E a assinatura dele? E dessas outras pessoas? Temos explica&ccedil;&atilde;o pra isso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Rubens:<\/strong> Absolutamente. Muito provavelmente tudo foi forjado porque ele n&atilde;o tinha como estar em Altamira e em Bel&eacute;m ao mesmo tempo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Temos como comprovar que o Wandicley estava em Bel&eacute;m nesse per&iacute;odo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Rubens:<\/strong> Sim. Ele tinha resid&ecirc;ncia fixa l&aacute;, junto com o pai. Ele estava em tratamento m&eacute;dico.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>De que ano at&eacute; que ano o Wandicley morou em Bel&eacute;m?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Desde o acontecido. Dos nove at&eacute; uns 30 e poucos anos, por a&iacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Existe outro reconhecimento, datado de 30 de junho de 93, em que o Wandicley, de acordo com os autos, reconhece em Bel&eacute;m, atrav&eacute;s de fotos, a figura de um homem chamado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/aldenor-ferreira-cardoso\/\" target=\"_self\" title=\"Ex-PM reconhecido por Wandicley como o seu sequestrador\" class=\"encyclopedia\">Aldenor Ferreira Cardoso<\/a>. Eu queria saber se voc&ecirc; lembra dessas fotos sendo apresentadas pelo delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>N&atilde;o lembro n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Nesse reconhecimento, o documento diz que o seu pai est&aacute; presente. Da&iacute; s&atilde;o apresentadas v&aacute;rias fotos que aparentam ser de policiais militares ou militares, e &eacute; reconhecido esse homem, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/aldenor-ferreira-cardoso\/\" target=\"_self\" title=\"Ex-PM reconhecido por Wandicley como o seu sequestrador\" class=\"encyclopedia\">Aldenor Ferreira Cardoso<\/a>. Ele vira um dos acusados por conta do reconhecimento feito por foto. Esse &eacute; o &uacute;nico momento que o Aldenor aparece, atrav&eacute;s do reconhecimento que voc&ecirc; e o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a> fazem. Voc&ecirc;, nessa &eacute;poca, tamb&eacute;m era uma crian&ccedil;a. Voc&ecirc; n&atilde;o se lembra desse reconhecimento?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>N&atilde;o lembro disso a&iacute; n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Rubens: <\/strong>Existe outro aspecto jur&iacute;dico que eu gostaria de comentar desses reconhecimentos realizados em 93. Ambos eram menores, mas especificamente o meu cliente n&atilde;o estava acompanhado de um respons&aacute;vel legal. Por mais que estivesse com o pai, ele n&atilde;o poderia ser curador dele porque tamb&eacute;m n&atilde;o tinha alfabetiza&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o, eu acredito que muito provavelmente esse reconhecimento tamb&eacute;m n&atilde;o tenha ocorrido.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Ent&atilde;o, o que a gente est&aacute; entendendo aqui &eacute; que, dos dois reconhecimentos anteriores presentes nos autos do processo, a pr&oacute;pria pessoa que teoricamente reconheceu, que era uma crian&ccedil;a na &eacute;poca, o Wandicley, afirma que n&atilde;o aconteceram esses reconhecimentos. &Eacute; isso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, de acordo com o pr&oacute;prio sobrevivente, nenhum dos reconhecimentos anteriores ao j&uacute;ri teriam ocorrido. Nem de Rot&iacute;lio, em 1992, nem de Aldenor, em 1993. Wandicley afirma que n&atilde;o estava em Altamira nessa &eacute;poca, pois permaneceu em Bel&eacute;m durante todo o tratamento m&eacute;dico pelo qual passou. Rubens, como seu advogado e tendo estudado o processo, reafirma isso.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, &eacute; preciso deixar claro que alguns ind&iacute;cios em outros depoimentos indicam que o sobrevivente teria passado o in&iacute;cio de 1992 em Altamira. Talvez ele visitou parentes na virada do ano, e hoje em dia ningu&eacute;m mais se lembra disso. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel saber o que de fato aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>O que d&aacute; para dizer &eacute; que esse caso tem um hist&oacute;rico de forjar depoimentos. Um deles &eacute; o de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/edmilson-da-silva-frazao\/\" target=\"_self\" title='Testemunha que diz ter participado de uma \"missa negra\" na ch&aacute;cara de An&iacute;sio' class=\"encyclopedia\">Edmilson da Silva Fraz&atilde;o<\/a>, citado no <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-30\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">epis&oacute;dio 30<\/a>. Mas h&aacute; tamb&eacute;m os relatos das testemunhas <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jeferson-cicero-dos-santos\/\" target=\"_self\" title=\"Policial de Vit&oacute;ria do Xingu, munic&iacute;pio pr&oacute;ximo &agrave; Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jeferson C&iacute;cero dos Santos<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/maria-de-nazare-vieira-da-costa\/\" target=\"_self\" title=\"Dona de restaurante em Vit&oacute;ria do Xingu, cidade pr&oacute;xima &agrave; Altamira\" class=\"encyclopedia\">Maria de Nazar&eacute; Vieira da Costa<\/a>, narrados no <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-05\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">epis&oacute;dio 5<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/05\/1993-02-10-Depoimento-Jefersson-Cicero-dos-Santos-1.pdf\" target=\"_blank\">Depoimento de Jeferson C&iacute;cero dos Santos em ju&iacute;zo<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/05\/1993-02-10-Depoimento-Maria-de-Nazare-Vieira-da-Costa-1.pdf\" target=\"_blank\">Depoimento de Maria de Nazar&eacute; em ju&iacute;zo<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Nos autos, as primeiras declara&ccedil;&otilde;es de Jeferson e Maria diziam que Amailton teria sido visto perto de Altamira em novembro de 1992, quando Klebson foi assassinado. Depois, ambos prestaram novos depoimentos, afirmando que nunca disseram isso e que os testemunhos anteriores haviam sido fabricados.<\/p>\n\n\n\n<p>No decorrer da pesquisa para esta temporada, Ivan ouviu outras hist&oacute;rias nesse sentido. Uma testemunha chegou a relatar explicitamente que nunca deu o depoimento presente nos autos. Infelizmente, essa pessoa depois cortou contato com o podcast, provavelmente por medo das consequ&ecirc;ncias. Por isso, a identidade dela n&atilde;o ser&aacute; revelada.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante de tudo isso, n&atilde;o seria surpresa se os reconhecimentos feitos por Wandicley de fato tenham sido forjados.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando para a entrevista, Ivan tamb&eacute;m perguntou ao sobrevivente sobre outra contradi&ccedil;&atilde;o em seus relatos. Nos primeiros depoimentos, Wandicley afirmou que chegou a desmaiar de dor ap&oacute;s o ataque; j&aacute; no j&uacute;ri, disse que n&atilde;o sentiu nada, nem as pernas, como se estivesse anestesiado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:&nbsp; <\/strong>[&hellip;] Voc&ecirc; pode me explicar como isso aqui aparece no j&uacute;ri?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>A&iacute; eu n&atilde;o sei n&atilde;o. S&oacute; sei falar a verdade. As minhas pernas realmente eu n&atilde;o sentia. At&eacute; porque o meu p&eacute; estava cheio de espinhos, todo furado, e eu n&atilde;o sentia nada. Nada, nada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Mas ser&aacute; que isso n&atilde;o podia ser por causa do medo, do choque?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> N&atilde;o, n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>De voc&ecirc; perder tanto sangue? N&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> N&atilde;o. Eu realmente n&atilde;o estava sentindo nada nas pernas.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Eu pergunto isso, Wandicley, porque eu j&aacute; tive que passar por cirurgia com essa anestesia que falaram aqui no j&uacute;ri, que os m&eacute;dicos teriam anestesiado voc&ecirc;&hellip; E essa anestesia &eacute; muito dolorida, inclusive. Voc&ecirc; fica com uma dor nas costas muito grande porque ela d&aacute; na base da sua espinha. E a gente n&atilde;o consegue andar por algumas horas. Voc&ecirc; diz que conseguia andar. Voc&ecirc; n&atilde;o tinha problema pra andar, voc&ecirc; s&oacute; n&atilde;o estava sentindo os seus p&eacute;s, n&eacute;?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Mas voc&ecirc; estava sentindo dor nas costas tamb&eacute;m?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>N&atilde;o, nas costas n&atilde;o.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Ent&atilde;o voc&ecirc; conseguiu ajuda [para ser socorrido]. Em algum momento, apagou e acordou de novo s&oacute; em Bel&eacute;m.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Acordei s&oacute; em Bel&eacute;m.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>O senhor lembra de algum policial ter tentado conversar com voc&ecirc;, pegar alguma informa&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o? Isso a&iacute; &eacute; um branco pra voc&ecirc;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> N&atilde;o, n&atilde;o. A&iacute; eu n&atilde;o lembro n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>O senhor n&atilde;o lembra de um delegado chamado Tavinho?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> N&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Ele chegou a fazer um relat&oacute;rio dizendo que falou com voc&ecirc; logo no dia seguinte ao ataque, ou no mesmo dia, alguma coisa assim.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>N&atilde;o. N&atilde;o lembro n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ivan aqui se refere a <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/otavio-torres-filho\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado de Vit&oacute;ria do Xingu, cidade pr&oacute;xima &agrave; Altamira\" class=\"encyclopedia\">Ot&aacute;vio Torres Filho<\/a>, na &eacute;poca um escriv&atilde;o que posteriormente se tornou delegado. Ele produziu um Boletim de Ocorr&ecirc;ncia dois dias depois de Wandicley ser atacado. Nele, afirmou que, ao conversar com a v&iacute;tima, percebeu que ela estava em completo estado de choque.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1990-09-25-Boletim-de-Ocorrencia-do-escrivao-Otavio-Torres-Filho-sobre-o-crime-contra-Wandicley.pdf\" target=\"_blank\">Boletim de Ocorr&ecirc;ncia do ataque a Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A vida de Wandicley virou de ponta-cabe&ccedil;a ap&oacute;s o crime. Ele passou praticamente a morar no hospital, devido ao intenso tratamento m&eacute;dico que precisava fazer. Pelo mesmo motivo, teve de largar a escola, pois as cirurgias e a recupera&ccedil;&atilde;o demandavam muito tempo. At&eacute; hoje, ele lida com as consequ&ecirc;ncias f&iacute;sicas da agress&atilde;o que sofreu.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>[&hellip;] Veio mais sofrimento agora, depois de adulto j&aacute;, que eu tenho que tomar um horm&ocirc;nio, n&eacute;?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Voc&ecirc; tem que tomar horm&ocirc;nio pelo resto da sua vida, ent&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> Isso. &Eacute; uma coisa que eu encontro muita dificuldade pra comprar e conseguir receita. Isso &eacute; dif&iacute;cil. Quando eu n&atilde;o tomo, me d&aacute; muito sono, eu emagre&ccedil;o bastante, n&atilde;o d&aacute; vontade de fazer nada. &Eacute; falta de horm&ocirc;nio, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>E voc&ecirc; trabalha com o que hoje?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Eu trabalho em fazenda, mexendo com cerca, essas coisas&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Ou seja, precisa de for&ccedil;a e disposi&ccedil;&atilde;o, e a falta de horm&ocirc;nio te atrapalha at&eacute; no seu trabalho.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Isso, aham.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Ent&atilde;o voc&ecirc; vai pra Bel&eacute;m logo depois que &eacute; atacado e praticamente mora no hospital. L&aacute; no hospital, voc&ecirc; n&atilde;o lembra do pessoal vindo perguntar pra voc&ecirc; o que aconteceu, fofocando e especulando? Voc&ecirc; n&atilde;o lembra de nada disso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>N&atilde;o. Faziam as perguntas deles, mas era com eles mesmos l&aacute;. Mas comigo mesmo n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>T&aacute;. Indo direto ao ponto. Voc&ecirc; n&atilde;o lembra de, em algum momento, algu&eacute;m chegar e falar &ldquo;eu acho que o doutor An&iacute;sio est&aacute; por tr&aacute;s disso, o doutor C&eacute;sio, ou os Gomes&rdquo;? Voc&ecirc; n&atilde;o se lembra das pessoas especulando isso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>N&atilde;o, n&atilde;o. S&oacute; depois de muitos anos que passaram a comentar em Altamira.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Sabe se o seu pai ainda tinha muito contato com o pessoal de Altamira, tentando entender mais coisa?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> Eu n&atilde;o sei.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Eu te pergunto isso porque tem um depoimento que o seu pai d&aacute;, em outubro de 92, em Bel&eacute;m. Voc&ecirc; est&aacute; em tratamento, e ele d&aacute; um depoimento. Ele fala sobre um retrato-falado que teria sido feito com base no seu depoimento. Ele diz que um irm&atilde;o seu correu atr&aacute;s pra descobrir algu&eacute;m que poderia se parecer com aquele retrato-falado. Ele chega na figura do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/luiz-kapiche-neto\/\" target=\"_self\" title=\"Radialista e advogado em Altamira ligado aos Gomes\" class=\"encyclopedia\">Luiz Kapiche Neto<\/a>, que era um radialista l&aacute; de Altamira, pr&oacute;ximo da fam&iacute;lia Gomes. O seu pai nunca comentou isso com voc&ecirc;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> N&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Nunca ningu&eacute;m conversou sobre isso com voc&ecirc;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>N&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O depoimento do pai de Wandicley, citado por Ivan, pode ser acessado aqui:<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/04\/1992-10-20-Depoimento-Cezario-Loiola-Pinheiro-pai-Wandicley-2.pdf\">Depoimento de Cez&aacute;rio Loiola Pinheiro<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Ent&atilde;o voc&ecirc; lembra de ser atacado por uma pessoa. Voc&ecirc; n&atilde;o sabe dizer de onde veio essa hist&oacute;ria de mais pessoas, que te amarraram&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> N&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Eu sei que o assunto &eacute; muito delicado, fique &agrave; vontade pra n&atilde;o responder, mas voc&ecirc; lembra de ter sido abusado por essa pessoa?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>N&atilde;o, n&atilde;o. N&atilde;o lembro n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>[&hellip;] Voc&ecirc; sabia que existia um processo correndo em que voc&ecirc; &eacute; a v&iacute;tima e que o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a> &eacute; o r&eacute;u?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> N&atilde;o, n&atilde;o sabia n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Nunca te falaram sobre essa investiga&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Nunca.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Voc&ecirc; sabia quem era o Chagas? Algu&eacute;m te falou?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> Sabia sim. Via falar na televis&atilde;o, cheguei a ver na televis&atilde;o, mas n&atilde;o sabia n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Voc&ecirc; sabia, ent&atilde;o, que prenderam um cara, e esse cara tava falando coisas. Mas nunca te procuraram&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Nunca me procuraram n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Pra dar depoimento, pra fazer reconhecimento?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Nunca.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>A Pol&iacute;cia Federal nunca te procurou pra falar sobre isso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Rubens: <\/strong>Licen&ccedil;a, Ivan.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Rubens:<\/strong> O meu cliente prestou um depoimento &agrave; Pol&iacute;cia Federal em 2005 ainda dentro das investiga&ccedil;&otilde;es do inqu&eacute;rito n&uacute;mero 107\/2004, que originou o processo do Chagas. Ele foi procurado pela delegada Virg&iacute;nia em 21 de mar&ccedil;o de 2005.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Certo. Voc&ecirc; lembra desse depoimento, Wandicley?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>N&atilde;o lembro n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Em 2005, voc&ecirc; n&atilde;o se lembra de dar esse depoimento pra ela?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>N&atilde;o. N&atilde;o lembro n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Voc&ecirc; acha que esse depoimento n&atilde;o aconteceu ou voc&ecirc; s&oacute; n&atilde;o est&aacute; lembrado?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Eu n&atilde;o estou lembrado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>O Rubens chegou a te mostrar esse depoimento? As tuas assinaturas, voc&ecirc; reconheceu?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Mas voc&ecirc; n&atilde;o lembra dos detalhes do que falou nele.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> N&atilde;o, n&atilde;o. Tem tanta coisa na minha cabe&ccedil;a, que tem horas que d&aacute; um branco.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Nesse processo do Chagas, voc&ecirc; chegou a ver alguma foto dele? Sabe dizer se ele parece a pessoa que te atacou?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Voc&ecirc; olhou a foto dele?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Parece bastante.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Parece bastante. Ent&atilde;o voc&ecirc; olhou a foto dele e acredita que pode ter sido ele?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Sim. Absoluto.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> [&hellip;] Eu tenho um monte de depoimento seu falando coisas que hoje voc&ecirc; est&aacute; me dizendo que n&atilde;o aconteceram. O que aconteceu nesses depoimentos? Voc&ecirc; tem alguma explica&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>N&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Ningu&eacute;m te disse &ldquo;fale isso&rdquo;? E a&iacute; hoje d&aacute; essa confus&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Quem teria falado pra voc&ecirc; dizer certas coisas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[sil&ecirc;ncio]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Teve algu&eacute;m que mandou voc&ecirc; falar alguma coisa, Wandicley, nesses anos todos?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Tem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Quem?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Foi o&hellip; Esqueci o nome do advogado. Como &eacute; o nome dele? Eu n&atilde;o estou lembrado do nome dele&hellip; &Eacute; o Clodomir.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Clodomir?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Doutor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/clodomir-araujo\/\" target=\"_self\" title=\"Assistente de acusa&ccedil;&atilde;o nos j&uacute;ris em 2003\" class=\"encyclopedia\">Clodomir Ara&uacute;jo<\/a>?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para quem n&atilde;o se lembra, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/clodomir-araujo\/\" target=\"_self\" title=\"Assistente de acusa&ccedil;&atilde;o nos j&uacute;ris em 2003\" class=\"encyclopedia\">Clodomir Ara&uacute;jo<\/a> foi o assistente de acusa&ccedil;&atilde;o nos j&uacute;ris de Bel&eacute;m em 2003, ao lado da promotora <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rosana-cordovil\/\" target=\"_self\" title=\"Promotora que atuou no j&uacute;ri dos acusados em 2003\" class=\"encyclopedia\">Rosana Cordovil<\/a>. Ivan entrou em contato com o advogado para marcar uma entrevista, mas ele recusou o convite.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>O que ele falava pra voc&ecirc;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Ele sempre mandava falar&hellip; &ldquo;Olha, tu sempre fala isso, s&oacute; essa palavra aqui, pra ti n&atilde;o falar outra. S&oacute; fala isso&rdquo;. Me orientando. N&oacute;s fomos no apartamento dele em Bel&eacute;m e ele ia orientando. Foi tipo um treinamento. Ele dizia, antes de come&ccedil;ar o julgamento, o que era pra falar l&aacute; no tribunal.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>O que ele falou? O que ele disse pra voc&ecirc; falar no j&uacute;ri?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Um monte de coisa. Nem lembro quase&hellip; Um monte de coisa a&iacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Sobre o Carlos Alberto, por exemplo. Ele mandou voc&ecirc; falar do Carlos Alberto?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Do Carlos Alberto eu lembro mesmo. Ele falou uma coisa, que era pra confirmar que era ele.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Ele falou pra voc&ecirc; &ldquo;confirma que &eacute; o Carlos Alberto que te sequestrou&rdquo;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> Isso. Sei que no dia l&aacute; ele botava a press&atilde;o dele. Era press&atilde;o mesmo. Eu ficava com aquela coisa na minha cabe&ccedil;a.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>O filho dele tamb&eacute;m te ajudou nisso? O <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/clodomir-araujo-junior\/\" target=\"_self\" title=\"Atuou junto com o pai, Clodomir Ara&uacute;jo, na assist&ecirc;ncia de acusa&ccedil;&atilde;o dos j&uacute;ris\" class=\"encyclopedia\">Clodomir Ara&uacute;jo J&uacute;nior<\/a>?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Aham, estavam os dois l&aacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Os dois disseram &ldquo;fala que foi o Carlos Alberto&rdquo;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Eles tamb&eacute;m disseram pra falar dessa quest&atilde;o da seda&ccedil;&atilde;o? &ldquo;Diga que voc&ecirc; n&atilde;o sentia os seus p&eacute;s&rdquo;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> N&atilde;o, n&atilde;o. Isso a&iacute; aconteceu porque eu n&atilde;o sentia mesmo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Voc&ecirc; lembra de mais alguma coisa que ele falou pra voc&ecirc;, que tinha que falar no j&uacute;ri?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>N&atilde;o. N&atilde;o lembro n&atilde;o.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Por que ele falou pra voc&ecirc; reconhecer o Carlos Alberto?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Eu n&atilde;o sei.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Voc&ecirc; n&atilde;o sabe dizer? Ele nunca te explicou?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> N&atilde;o, n&atilde;o sei o porqu&ecirc;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Eu estou te perguntando isso, Wandicley, porque &eacute; algo bem grave, t&aacute;? Um assistente de acusa&ccedil;&atilde;o falando pra uma v&iacute;tima dizer &ldquo;voc&ecirc; tem que reconhecer essa pessoa&rdquo;. Esse reconhecimento tinha que ter partido de voc&ecirc;, n&atilde;o dele. Voc&ecirc; entende isso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Entendo sim.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>E voc&ecirc; est&aacute; me dizendo que n&atilde;o partiu de voc&ecirc;, partiu do assistente de acusa&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Deixa eu aproveitar, ent&atilde;o, pra fazer uma pergunta. No depoimento do j&uacute;ri do C&eacute;sio, um dos m&eacute;dicos, voc&ecirc; at&eacute; faz uma men&ccedil;&atilde;o sobre outras pessoas que estariam ali naquele momento. S&oacute; que dessa vez &eacute; diferente. Voc&ecirc; fala que uma pessoa te levou pro mato, te atacou, e voc&ecirc; apagou. Quando voc&ecirc; acordou, viu outras pessoas. Ser&aacute; que nesse momento, quando voc&ecirc; era crian&ccedil;a, tamb&eacute;m teve press&atilde;o pra dizer que teve mais pessoas te atacando?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>N&atilde;o, n&atilde;o. N&atilde;o teve press&atilde;o nenhuma n&atilde;o. Eu falo mesmo. O que eu lembro que falei &eacute; que essa pessoa me levou mesmo l&aacute;&hellip; E eu n&atilde;o vi mais pessoas. Se eu falei, eu n&atilde;o lembro n&atilde;o, porque eu estava dopado. S&oacute; se foi no primeiro dia que me levaram pro hospital que falaram isso, porque eu n&atilde;o lembro de falar isso.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Voc&ecirc; n&atilde;o lembra, de repente, de quando voc&ecirc; acordou, ter visto mais pessoas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>N&atilde;o, n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Ent&atilde;o a gente n&atilde;o sabe dizer de onde veio essa hist&oacute;ria de que tinha mais pessoas&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Eu n&atilde;o sei de onde surgiu isso da&iacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Na sequ&ecirc;ncia, Rubens exp&ocirc;s alguns elementos ao longo do processo que podem ter contribu&iacute;do para essa tese. Segundo ele, a hist&oacute;ria do crime praticado em grupo teria surgido a partir do caso de outros meninos ap&oacute;s Wandicley &ndash; como de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/tito-mendes-vieira\/\" target=\"_self\" title=\"Menino de 12 anos que desapareceu em Altamira em janeiro de 1991\" class=\"encyclopedia\">Tito Mendes Vieira<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/ailton-fonseca-do-nascimento\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em maio de 1991 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Ailton Fonseca do Nascimento<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da narrativa processual desses inqu&eacute;ritos, os delegados que passavam pelas investiga&ccedil;&otilde;es come&ccedil;aram a ventilar a possibilidade dos crimes serem cometidos por mais de um indiv&iacute;duo. De acordo com o pesquisador, isso &eacute; corroborado at&eacute; mesmo por mat&eacute;rias de jornal da &eacute;poca.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso de Ailton, por exemplo, a testemunha <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/dilurdes-maria-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha no caso de Ailton, morto em 1991 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Dilurdes Maria da Silva<\/a> afirma que viu o menino ser abordado por cinco homens. Ela foi ouvida pelo delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-maria-alves-pereira\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado que investigou o caso de Ailton, morto em 1991 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Maria Alves Pereira<\/a> em 31 de maio de 1991. Quando esse mesmo investigador supostamente escuta Wandicley dois meses depois, em Bel&eacute;m, ele j&aacute; est&aacute; com a ideia fixa de que os crimes foram praticados por um grupo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/02\/1991-05-31-AILTON-Dilurdes-Maria-da-Silva.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Dilurdes Maria da Silva<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Outra men&ccedil;&atilde;o a mais de um agressor aparece na edi&ccedil;&atilde;o do Jornal O Liberal de 25 de setembro de 1990, dois dias ap&oacute;s o ataque a Wandicley. A reportagem diz que o sobrevivente foi v&iacute;tima de dois homens, um &ldquo;moreno de barba e outro alto&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1990-09-25-Materia-O-Liberal-Wandicley.pdf\" target=\"_blank\">Mat&eacute;ria do jornal O Liberal &ndash; &ldquo;Menino foi castrado em Altamira&rdquo;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Rubens, tudo isso contraria a narrativa de Wandicley, que sempre afirmou ter sido abordado e levado para o mato por uma &uacute;nica pessoa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Voc&ecirc;, Rubens, como advogado e pesquisador desse caso, tem alguma explica&ccedil;&atilde;o do porqu&ecirc; esses primeiros depoimentos t&ecirc;m o Wandicley falando de quatro pessoas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Rubens: <\/strong>Na minha compreens&atilde;o, j&aacute; existia uma desconfian&ccedil;a por tantos crimes estarem acontecendo no mesmo per&iacute;odo de tempo, e por v&aacute;rios termos de declara&ccedil;&atilde;o em pol&iacute;cia falarem sobre pessoas mal encaradas que eram vistas conversando com essas crian&ccedil;as. Ent&atilde;o, eu acredito que, desde os primeiros crimes, j&aacute; existia essa possibilidade de ser mais de uma pessoa. Isso foi tomando forma, ganhando corpo com o tempo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan: <\/strong>Wandicley, eu j&aacute; estou satisfeito com as informa&ccedil;&otilde;es que voc&ecirc; me passou. Tem alguma coisa que voc&ecirc; gostaria de falar que nunca te deram espa&ccedil;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley: <\/strong>Na verdade, o que eu queria falar&hellip; Eu mesmo gostaria de ficar frente a frente com o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Voc&ecirc; acha que conseguiria reconhecer ele melhor frente a frente?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> Com certeza.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Ent&atilde;o voc&ecirc; tem interesse que o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a> seja julgado no Par&aacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Voc&ecirc; tem alguma ideia do porqu&ecirc; ele nunca foi julgado?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> N&atilde;o. N&atilde;o tenho essa ideia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ivan:<\/strong> Isso sempre foi escondido de voc&ecirc;. Nunca foram transparentes.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Wandicley:<\/strong> Nunca.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>ALEGA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS E DECIS&Atilde;O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A situa&ccedil;&atilde;o era a seguinte: ap&oacute;s descobrir o processo de Wandicley, Rubens conseguiu se tornar advogado da v&iacute;tima e entrar no caso como assistente de acusa&ccedil;&atilde;o. J&aacute; havia se passado muito tempo, e o Minist&eacute;rio P&uacute;blico de Altamira n&atilde;o fez nada. N&atilde;o chamou testemunhas para prestar depoimento, n&atilde;o interrogou Chagas, sequer ouviu o sobrevivente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa altura, o processo estava na fase de alega&ccedil;&otilde;es finais. A acusa&ccedil;&atilde;o deveria elencar as raz&otilde;es pelas quais acreditava que Chagas tinha que ir a j&uacute;ri. A defesa do denunciado, por sua vez, argumentaria contra isso. No fim, um juiz decidiria se havia ind&iacute;cios suficientes para pronunciar o acusado.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como Rubens &eacute; um jovem advogado e estava atendendo Wandicley sem cobrar nada, ele precisava de ajuda. Por isso, atrav&eacute;s da indica&ccedil;&atilde;o de um amigo, o pesquisador conseguiu o apoio de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jader-marques\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado que trabalhou no processo aberto contra Chagas em 2005 no Par&aacute;\" class=\"encyclopedia\">Jader Marques<\/a>, conhecido advogado criminalista do Rio Grande do Sul.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto Rubens contribu&iacute;a com o vasto conhecimento sobre o caso, Jader entrava para auxili&aacute;-lo na parte t&eacute;cnica do Direito. A parceria rendeu a entrega das alega&ccedil;&otilde;es finais do processo, usadas pela acusa&ccedil;&atilde;o para defender a ida de Chagas a j&uacute;ri.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Eu queria que o Chagas fosse a j&uacute;ri porque ele precisa ser levado a j&uacute;ri. Existem ind&iacute;cios de autoria e materialidade suficientes para que ele seja julgado, pelo menos isso. Se ser&aacute; considerado culpado ou n&atilde;o, eu n&atilde;o sei. Mas na minha compreens&atilde;o enquanto operador do Direito, isso &eacute; um dever do Estado. E &eacute; um pleito n&atilde;o s&oacute; meu, mas dos familiares. Eu escutei isso das fam&iacute;lias de Altamira. &lsquo;Se &eacute; ele [o autor], por que n&atilde;o vai a j&uacute;ri?&rsquo;&rdquo;, explicou Rubens.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como o pesquisador, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jader-marques\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado que trabalhou no processo aberto contra Chagas em 2005 no Par&aacute;\" class=\"encyclopedia\">Jader Marques<\/a> tamb&eacute;m estranhou o modo como o caso de Wandicley foi tratado ao longo dos anos. &ldquo;O que eu pude observar foi exatamente a aus&ecirc;ncia de uma s&eacute;rie de atitudes, como se o n&atilde;o andamento do processo fosse mais importante do que a sua tramita&ccedil;&atilde;o regular. N&atilde;o houve interesse em efetivamente promover a acusa&ccedil;&atilde;o do r&eacute;u, n&atilde;o houve a realiza&ccedil;&atilde;o de provas por parte da acusa&ccedil;&atilde;o&rdquo;, comentou ele em entrevista ao Projeto Humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade &eacute; que, ap&oacute;s a den&uacute;ncia, nada aconteceu, e o processo foi deixado de lado. Prova disso, segundo Jader, &eacute; a demora do Minist&eacute;rio P&uacute;blico em atender a intima&ccedil;&atilde;o para apresentar as alega&ccedil;&otilde;es finais. &ldquo;Ela n&atilde;o foi atendida por mais de uma vez, o que n&atilde;o &eacute; comum se tratando de um &oacute;rg&atilde;o que tem o dever de cumprir prazos&rdquo;, pontuou.<\/p>\n\n\n\n<p>O MP, na verdade, agiu da forma contr&aacute;ria do que &eacute; o esperado. Mesmo que fatores como a troca de ju&iacute;zes ou a sobrecarga de atividades pudessem atrasar os trabalhos, o &oacute;rg&atilde;o n&atilde;o pareceu preocupado em pedir mais agilidade e reverter essa situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a atua&ccedil;&atilde;o de Rubens e Jader, e a chegada de um novo magistrado na comarca, as coisas finalmente avan&ccedil;aram. O problema &eacute; que a possibilidade de finalmente levar Chagas a j&uacute;ri esbarrou na fraqu&iacute;ssima fase de instru&ccedil;&atilde;o conduzida pelo MP. Por isso, ap&oacute;s ler as alega&ccedil;&otilde;es finais da defesa e da acusa&ccedil;&atilde;o, o juiz entendeu que n&atilde;o havia ind&iacute;cios suficientes de autoria para que o r&eacute;u fosse pronunciado. Ou seja, o acusado n&atilde;o passaria por um julgamento.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;N&oacute;s t&iacute;nhamos esperan&ccedil;a de que ele [o juiz] admitisse a possibilidade de dar confian&ccedil;a &agrave; palavra da v&iacute;tima e jogasse essa hip&oacute;tese de comprova&ccedil;&atilde;o das quest&otilde;es para a segunda fase [o j&uacute;ri]. Mas, juridicamente, para a pron&uacute;ncia, &eacute; preciso ter o m&iacute;nimo de ind&iacute;cios de autoria. E o processo, ao longo de todos esses anos, sequer foi capaz de produzir na instru&ccedil;&atilde;o o m&iacute;nimo para que fosse adiante&rdquo;, relatou Jader.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de tudo isso, para o advogado, a conclus&atilde;o &eacute; uma s&oacute;: o processo nasceu para ter esse final. &ldquo;Apesar da enorme quantidade de elementos para que o r&eacute;u fosse levado a j&uacute;ri, o caso teve o desfecho esperado por todos. N&atilde;o pela v&iacute;tima e pela sociedade, que gostariam de ter a correta aprecia&ccedil;&atilde;o dele, e por tantos outros envolvidos injustamente. Mas n&oacute;s chegamos em uma fase em que, apesar das alega&ccedil;&otilde;es finais e do di&aacute;logo com o magistrado, n&atilde;o foi poss&iacute;vel reverter o quadro j&aacute; instaurado&rdquo;, finalizou.<\/p>\n\n\n\n<p>Igualmente frustrado com o desfecho do caso, Rubens aproveitou uma de suas &uacute;ltimas conversas com Ivan para destacar outros termos de declara&ccedil;&otilde;es de Chagas sobre o caso de Wandicley. Depoimentos que poderiam ter sido um ponto de partida para que o Minist&eacute;rio P&uacute;blico produzisse uma boa acusa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos testemunhos &eacute; de 9 de junho de 2004. Nele, o suspeito repetiu as informa&ccedil;&otilde;es j&aacute; relatadas sobre como abordou o garoto na frente do est&aacute;dio e o levou at&eacute; uma &aacute;rea de matagal para ca&ccedil;ar papagaio. Alegou que se lembrava de ter sa&iacute;do sozinho de l&aacute; e ido direto para casa. Na ocasi&atilde;o, ao ser apresentado com sete fotografias de crian&ccedil;as, ele apontou a de Wandicley como o menino &ldquo;moreninho&rdquo; com quem saiu naquele dia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em outro depoimento, no m&ecirc;s seguinte, Chagas finalmente deu detalhes do que teria acontecido no mato. O mec&acirc;nico disse que era comandado por uma &ldquo;coisa&rdquo; que aparecia para ele, uma pessoa sem rosto e que flutuava. Ela o mandava machucar os meninos. A ordem era enforcar as v&iacute;timas primeiro e cort&aacute;-las depois. Assim ele fazia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, procurava um p&eacute; de tucum e cavava uma vala na terra em forma de cruz. Colhia um pouco de sangue e colocava no buraco. O modo como o corpo do garoto ficava &ndash; de lado ou de bru&ccedil;os &ndash; indicava o tempo que ele deveria aguardar para cometer o pr&oacute;ximo crime. Poderiam ser tr&ecirc;s ou seis meses, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>&Agrave;s vezes, a &ldquo;coisa&rdquo; dizia para que Chagas deixasse o menino vivo. Foi o que aconteceu no caso de Wandicley. Assim que chegou no mato com a crian&ccedil;a, a voz lhe falou para enforc&aacute;-la. Ao obedecer, ele ouviu, em seguida, que precisava solt&aacute;-la, que n&atilde;o era para ir at&eacute; o fim.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O mec&acirc;nico parou e partiu, ent&atilde;o, para a emascula&ccedil;&atilde;o. Posteriormente, ap&oacute;s o ritual com a vala e o sangue, ele deixou o local.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Rubens, Wandicley n&atilde;o quis saber o que Chagas disse nesses termos de declara&ccedil;&otilde;es, o que &eacute; bastante compreens&iacute;vel. Ele relatou, por&eacute;m, que se lembra de ter sido deixado dentro de uma vala. Esse &eacute; mais um ponto que se conecta com as descri&ccedil;&otilde;es fornecidas pelo suspeito.<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1nrqCOtZ8PrnZkqEjFClfH4ALEBO3hkhC\/view\" target=\"_blank\">Depoimento de Chagas para a PF &ndash; 06 de julho de 2004<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1QsBRtyUEErbMUpGanDnQlwIBfdnKZxV9\/view\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Chagas para a PC do Maranh&atilde;o &ndash; 12 de julho de 2004<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>DESPEDIDAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap&oacute;s a impron&uacute;ncia de Chagas, o doutor Jader saiu do caso. Rubens ainda continuou por um tempo, talvez com um recurso em mente para tentar reverter a decis&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, em outras conversas com Wandicley, Ivan percebeu mais um fator doloroso. Se por um lado ele acreditava que quem o atacou foi Chagas, por outro tamb&eacute;m dizia que n&atilde;o queria contribuir com esfor&ccedil;os que tentassem inocentar os condenados no Par&aacute;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa confus&atilde;o, evidente nas contradi&ccedil;&otilde;es de seus depoimentos, &eacute; resultado de um trauma que roubou a sua inf&acirc;ncia e o deixou totalmente desamparado. O pouco de assist&ecirc;ncia que o sobrevivente recebeu foi fruto da luta incans&aacute;vel da sua fam&iacute;lia e de outros parentes de v&iacute;timas. Uma luta marcada por dores que ningu&eacute;m deveria sofrer &ndash; tudo isso consequ&ecirc;ncia de um Estado que n&atilde;o cuidou dessas pessoas, e de um assassino serial que agiu livremente por 14 anos, em dois estados, sem medo de ser pego.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se em um primeiro momento Wandicley demonstrava disposi&ccedil;&atilde;o para tentar levar Chagas ao j&uacute;ri, &agrave; medida que o tempo foi passando, esse cen&aacute;rio mudou. Reviver tudo &eacute; doloroso demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesses quase tr&ecirc;s anos de trabalho para esta temporada, Ivan notou que Rubens tinha um h&aacute;bito: sempre que precisava falar algo que exigia aten&ccedil;&atilde;o, ele escrevia um texto. No encerramento dessa jornada, isso n&atilde;o poderia ser diferente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O advogado lhe escreveu tudo o que ocorreu nos &uacute;ltimos meses. Suas palavras tocaram Ivan profundamente, e ele mesmo n&atilde;o teria como se expressar melhor sobre tudo o que ambos fizeram e descobriram juntos. Os sentimentos de Rubens e Ivan s&atilde;o exatamente os mesmos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O texto completo est&aacute; dispon&iacute;vel abaixo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>O caso dos meninos emasculados de Altamira do meu ponto de vista &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o social que envolve in&uacute;meros aspectos, imposs&iacute;veis de serem compreendidos apenas por um &uacute;nico vi&eacute;s, seja ele cient&iacute;fico ou jornal&iacute;stico. Infelizmente, este constructo surgiu em meio a muito sofrimento, sangue e dor da perda de familiares de pessoas. Atribuir responsabilidades pelo que ocorreu ou mesmo procurar encontrar verdadeiro(s) culpado(s) nunca foi o meu objetivo enquanto pesquisador. Eu j&aacute; pesquisava o caso muito antes de me tornar advogado e a profiss&atilde;o s&oacute; me fez ainda mais c&eacute;tico com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; possibilidade de obter respostas para quest&otilde;es n&atilde;o respondidas. Mas procurarei aqui deixar alguma singela mensagem sobre o resultado da pesquisa (que ainda vai demorar um pouco para ser publicada) e sobre a conclus&atilde;o do projeto humanos podcast Altamira.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>No tempo em que pesquisei sobre Altamira eu tive altos e baixos. Momentos em que fui confrontado com minhas certezas, momentos em que precisei acreditar naquilo que era imposs&iacute;vel acreditar, momentos em que o Direito confrontava a Antropologia e vice-versa. Esse exerc&iacute;cio me fez chegar &agrave; compreens&atilde;o de que dever&iacute;amos (Ivan e Eu no podcast e apenas Eu na pesquisa) fazer um trabalho s&eacute;rio, que proporcionasse &agrave;s pessoas (que se dispusessem a ouvir\/ler) a possibilidade de conhecer a fundo o que estava contido nos autos do processo e posteriormente com o trabalho de campo em Altamira, que permitisse &agrave;s pessoas conhecer um pouquinho a realidade do caso, na pele, ou melhor, pelos ouvidos.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Nesses longos anos de pesquisa perdi algumas amizades, talvez (quase certeza) pelo meu envolvimento com o caso, sempre n&atilde;o dando ouvidos &agrave;s pessoas que diziam para n&atilde;o me envolver tanto. Ao fim, acredito que s&atilde;o ossos do of&iacute;cio, talvez essas amizades perdidas queriam mesmo que eu concordasse com o que diziam e fizesse o que queriam, e eu desde que comecei a mergulhar fundo no caso me condicionei a encontrar a minha pr&oacute;pria maneira de examinar a situa&ccedil;&atilde;o.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ouvi os dois lados. Estive com familiares de v&iacute;timas in&uacute;meras vezes. Compartilhei suas dores, suas l&aacute;grimas, algumas vezes sua indigna&ccedil;&atilde;o comigo por estar tratando de assunto t&atilde;o delicado e pessoal. Estive tamb&eacute;m com os familiares dos acusados, que compartilharam tamb&eacute;m suas dores, l&aacute;grimas e principalmente indigna&ccedil;&atilde;o. Todos estes lados, para mim, formam o polo passivo dos fatos. Todos n&atilde;o tiveram seus direitos resguardados e sofreram arbitrariedades da parte de todos que de uma forma ou de outra se envolveram com a situa&ccedil;&atilde;o. Aqui assumo: minhas arbitrariedades tamb&eacute;m. Pois muitas vezes precisei tocar a ferida e n&atilde;o tinha rem&eacute;dio poss&iacute;vel para apaziguar a dor.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>A pesquisa de mestrado que conclu&iacute; &eacute; sobre pr&aacute;ticas de poder, o Estado em formato de papel. J&aacute; o trabalho com o podcast h&aacute; muito extrapolou os limites da pesquisa e foi fundo, encontrando respostas, outras nem tanto.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Um dos encontros mais importantes desta trajet&oacute;ria foi com uma das v&iacute;timas, de quem quero falar agora e concluir essas palavras. Wandicley (meu amigo e constituinte) hoje j&aacute; n&atilde;o &eacute; mais uma crian&ccedil;a, um adolescente, um jovem. O terceiro sobrevivente &eacute; um homem, com fam&iacute;lia. Que tamb&eacute;m possui suas perguntas n&atilde;o respondidas, e pessoalmente acredito que nunca ser&atilde;o respondidas.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Nesse caminho tentamos levar <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a> ao tribunal do J&uacute;ri em Altamira, pelos crimes contra Wandicley, mas o Estado-Juiz entendeu que n&atilde;o havia provas suficientes para pronunci&aacute;-lo ao Tribunal do J&uacute;ri e o processo foi arquivado definitivamente.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Wandicley tem certeza absoluta de que quem o atacou foi o Maranhense <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a>, mas em nenhuma oportunidade falou que acredita serem inocentes as pessoas que foram condenadas. Com exce&ccedil;&atilde;o de A. Santos (Carlos Alberto Santos de Lima) que disse ser muito parecido com Chagas na &eacute;poca do j&uacute;ri, mas n&atilde;o havia sido ele (Carlos Alberto) que o levara pro mato. Quando Wandicley olha as fotos de Chagas, ele n&atilde;o tem d&uacute;vida e at&eacute; hoje anseia se encontrar com o mesmo para fazer uma pergunta que n&atilde;o quis me dizer qual seria.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Um dia, est&aacute;vamos almo&ccedil;ando na beira do Rio Xingu em Altamira e Wandicley me olhou e disse: o dia que eu me encontrar com o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a>, que fez isso comigo, eu tenho uma &uacute;nica pergunta pra fazer para ele. Eu perguntei qual seria a pergunta. Wandicley respondeu: essa pergunta s&oacute; pode ser feita para ele&hellip;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tentei recorrer da senten&ccedil;a de Impron&uacute;ncia do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a>, mas n&atilde;o o fiz. Nos momentos finais do prazo a pedido do meu cliente Wandicley, que hoje n&atilde;o se sente mais capaz de suportar tudo de novo, pediu-me que n&atilde;o o fizesse. Que j&aacute; n&atilde;o acreditava mais na Justi&ccedil;a dos Homens. Juiz, Promotor, Policiais, J&uacute;ri&hellip; sua vida inteira foi isso. H&aacute; quase 40 anos e talvez com o ressurgimento do caso mais 40 anos de sofrimento.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mas o sofrimento nunca h&aacute; de acabar&hellip;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dona Irene (irm&atilde; de Ailton) continua sem saber o que aconteceu com a ossada de seu irm&atilde;o que foi trazida para Bel&eacute;m e nunca foi devolvida. Provavelmente ela nunca ter&aacute; a oportunidade de sepultar os restos mortais do irm&atilde;o. Dona Carolina nunca teve oportunidade de ao menos saber o que houve com Maur&iacute;cio, ou mesmo de sepultar sua ossada muito provavelmente encontrada pelos agentes estatais durante as investiga&ccedil;&otilde;es de 2004. Dona Esther n&atilde;o teve o direito de ter julgado o assassino de seu irm&atilde;o. E assim, muitos outros familiares de meninos v&iacute;timas em Altamira convivem no fim de suas vidas com as dores e incertezas.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Por outro lado&hellip;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>A m&atilde;e de Amailton, Dona Za&iacute;la tem sua sala cheia de fotos do filho falecido, as irm&atilde;s choram ao lembrar da alegria do irm&atilde;o mas relatam continuar com o n&oacute; na garganta da injusti&ccedil;a e da dor. Zaila me mostrou uma caixa onde guarda todas as cartas de Amailton enquanto esteve preso, &aacute;lbuns de fotografias, poemas que ele escrevia. O Sr. Amadeu, pai de Amailton, tem na sua sala um cantil militar que era do filho, um cachimbo que tamb&eacute;m era do filho e ornamenta sua sala de estar. N&atilde;o tem fotos expostas, n&atilde;o gosta de lembrar. Mas tem guardada a camisa rasgada de Amailton de quando foi preso e espancado pelos policiais que o prenderam.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>A Dona Lucimar vive com os filhos e com a dor de lembrar o calv&aacute;rio que An&iacute;sio passou. Vive entre o Maranh&atilde;o e o Par&aacute;, procura viver feliz apesar de tudo, acredita que com a morte o sofrimento do marido se encerrou. A fam&iacute;lia de C&eacute;sio tamb&eacute;m procura esquecer o per&iacute;odo sombrio da pris&atilde;o, hoje, ele &eacute; pai-av&ocirc; de dois netinhos, se dedicam ele e sua esposa Alda a cuidar dos netos e superar dores mais recentes de perdas de familiares importantes pra fam&iacute;lia. Por onde se v&ecirc; no dia a dia, C&eacute;sio est&aacute; a brincar com as crian&ccedil;as.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ent&atilde;o, com a prescri&ccedil;&atilde;o de todos os crimes dos meninos emasculados de Altamira. A omiss&atilde;o do Poder Judici&aacute;rio frente a todas as provas que poderiam levar a respostas. A morte de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/amailton-madeira-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Filho de Amadeu Gomes, &eacute; um dos acusados no caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Amailton Madeira Gomes<\/a>, a morte de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/carlos-alberto-dos-santos-lima\/\" target=\"_self\" title=\"Policial militar acusado no caso dos meninos\" class=\"encyclopedia\">Carlos Alberto dos Santos Lima<\/a>, a morte de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/anisio-ferreira-de-souza\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico acusado no caso dos meninos emasculados\" class=\"encyclopedia\">An&iacute;sio Ferreira de Souza<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/valentina-de-andrade\/\" target=\"_self\" title=\"L&iacute;der do Lineamento Universal Superior\" class=\"encyclopedia\">Valentina de Andrade<\/a>. A progress&atilde;o para o regime Aberto de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/cesio-flavio-caldas-brandao\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico reconhecido por Agostinho como suspeito na morte de Jaenes\" class=\"encyclopedia\">C&eacute;sio Fl&aacute;vio Caldas Brand&atilde;o<\/a> e a decis&atilde;o de Wandicley, do primeiro e do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">segundo sobrevivente<\/a>s de n&atilde;o tocarem mais nesse assunto. Concluo o meu trabalho com o caso dos meninos emasculados de Altamira.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tenho esperan&ccedil;as de que o registro feito pelo projeto humanos Altamira sirva para a observ&acirc;ncia das nossas a&ccedil;&otilde;es pessoais no cumprimento de nossos deveres enquanto cidad&atilde;os, o cuidado e a responsabilidade implicada nas acusa&ccedil;&otilde;es e nas defesas seja em qualquer situa&ccedil;&atilde;o que enfrentemos da nossa vida.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Bel&eacute;m do Par&aacute;, 24 de janeiro de 2023.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Rubens Jos&eacute; Garcia Pena Junior<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ivan Mizanzuk come&ccedil;ou a pesquisar sobre o caso dos meninos emasculados de Altamira com uma &uacute;nica coisa em mente: tentar encontrar uma resposta para o que aconteceu com <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/evandro-ramos-caetano\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida e encontrada morta em abril de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Evandro Ramos Caetano<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a>, meninos assassinados em Guaratuba em 1992.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist&oacute;ria que ele sempre ouvia tinha <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/valentina-de-andrade\/\" target=\"_self\" title=\"L&iacute;der do Lineamento Universal Superior\" class=\"encyclopedia\">Valentina de Andrade<\/a> como ponto central. A l&iacute;der do Lineamento tinha sido suspeita nos casos do Paran&aacute;, mas n&atilde;o encontraram provas contra ela. Pouco tempo depois, ela tamb&eacute;m foi acusada de estar envolvida na morte de crian&ccedil;as no Par&aacute;, do outro lado do pa&iacute;s.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan descobriu algumas respostas, mas n&atilde;o as que buscava. Ele est&aacute; convencido de que Valentina n&atilde;o teve nada a ver com esses crimes, e acredita que ela s&oacute; apareceu como suspeita no Par&aacute; justamente por conta da repercuss&atilde;o nacional do caso Evandro. Ele est&aacute; convencido tamb&eacute;m de que Chagas &eacute; o verdadeiro assassino de Altamira.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas s&atilde;o as respostas que o Projeto Humanos encontrou. Infelizmente, ainda n&atilde;o h&aacute; solu&ccedil;&atilde;o para o que aconteceu em Guaratuba. &Eacute; por isso que a pr&oacute;xima temporada do podcast ser&aacute; focada em uma nova investiga&ccedil;&atilde;o sobre o caso <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/leandro-bossi\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em 15 de fevereiro de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Leandro Bossi<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, ap&oacute;s a confirma&ccedil;&atilde;o de que a ossada encontrada em mar&ccedil;o de 1993 de fato pertencia a ele, &eacute; preciso ir atr&aacute;s de explica&ccedil;&otilde;es. &Eacute; com isso que Ivan se ocupar&aacute; nos pr&oacute;ximos meses. A fam&iacute;lia Bossi quer e merece uma solu&ccedil;&atilde;o para o caso. Ou pelo menos que algu&eacute;m tente consegui-la.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho do Projeto Humanos sobre Altamira est&aacute; encerrado. Independente disso, Ivan ainda tem esperan&ccedil;as de encontrar o relat&oacute;rio da Pol&iacute;cia Federal de 1993, a grande pe&ccedil;a que falta nesse quebra-cabe&ccedil;a. Se isso acontecer, ele far&aacute; quest&atilde;o de anunciar em um novo epis&oacute;dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando come&ccedil;ou a pesquisar sobre Altamira, assim como muitos ouvintes, Ivan j&aacute; sabia sobre Francisco de Chagas. J&aacute; os motivos que levaram o estado do Par&aacute; a n&atilde;o reconhec&ecirc;-lo como o verdadeiro assassino n&atilde;o estavam claros. Por isso, o desenvolvimento desta temporada foi uma tentativa de mostrar todos os detalhes para o p&uacute;blico geral, de uma vez por todas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se Chagas nunca foi considerado como o verdadeiro assassino no Par&aacute;, Ivan espera que esse trabalho enciclop&eacute;dico sirva pelo menos como refer&ecirc;ncia e exemplo de que, muitas vezes, a justi&ccedil;a n&atilde;o est&aacute; interessada na verdade. O caminho para mudar esse cen&aacute;rio &eacute; longo, e o trabalho do podcast &eacute; apenas uma pequena contribui&ccedil;&atilde;o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Projeto Humanos tem centenas de horas de &aacute;udios n&atilde;o utilizados nesta temporada. &Aacute;udios de pessoas que sequer foram citadas. A ideia foi focar no que era mais importante para a elucida&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria, tentando responder &agrave; seguinte pergunta: se Chagas &eacute; o assassino de Altamira, por que nunca foi julgado no Par&aacute;?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan espera que tenha encontrado uma resposta. &Eacute; uma resposta frustrante e dolorosa, mas &eacute; uma resposta. E, se serve de algum consolo, m&iacute;nimo que seja, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a> est&aacute; cumprindo pena. Ele n&atilde;o saiu impune. E mais nenhuma crian&ccedil;a morreu nas suas m&atilde;os.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso dos meninos emasculados de Altamira tem uma solu&ccedil;&atilde;o real. Mas ele possui uma resposta formal diferente, e mais outras no imagin&aacute;rio. Elas se cruzam em alguns pontos, mas s&atilde;o totalmente diferentes entre si.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se existe uma coisa em comum em todas elas, &eacute; que todos os envolvidos querem descansar. Por mais que as fam&iacute;lias das v&iacute;timas defendam que suas dores nunca sejam esquecidas, e que as dos acusados desejem seus nomes limpos, ningu&eacute;m est&aacute; mais disposto a enfrentar os dolorosos caminhos de uma suposta justi&ccedil;a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, aqui, Ivan agradece e se despede de Altamira &ndash; e torce para que suas crian&ccedil;as tenham algum descanso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Este epis&oacute;dio usou reportagens da Rede Globo.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Sobrevivente<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":35,"template":"","encyclopedia-category":[6],"encyclopedia-tag":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia\/988"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/types\/encyclopedia"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=988"}],"wp:term":[{"taxonomy":"encyclopedia-category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-category?post=988"},{"taxonomy":"encyclopedia-tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-tag?post=988"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}