{"id":95,"date":"2022-04-14T00:01:00","date_gmt":"2022-04-14T03:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/?post_type=encyclopedia&#038;p=95"},"modified":"2022-05-03T09:08:32","modified_gmt":"2022-05-03T12:08:32","slug":"extras-episodio-02","status":"publish","type":"encyclopedia","link":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-02\/","title":{"rendered":"Extras Epis\u00f3dio 02"},"content":{"rendered":"\n<p>A mobiliza&ccedil;&atilde;o social em Altamira come&ccedil;ou ap&oacute;s a emascula&ccedil;&atilde;o do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a> em novembro de 1989 e se intensificou com a morte do garoto ind&iacute;gena <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/judirley-da-cunha-chipaia\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a emasculada e morta em janeiro de 1992 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Judirley da Cunha Chipaia<\/a> em janeiro de 1992. Mas o estopim para que as fam&iacute;lias se organizassem em um movimento mais forte e para que a popula&ccedil;&atilde;o sa&iacute;sse massivamente &agrave;s ruas aconteceria depois da morte de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jaenes-da-silva-pessoa\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a emasculada e morta em outubro de 1992 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jaenes da Silva Pessoa<\/a>, em outubro do mesmo ano. Com isso, tornou-se imposs&iacute;vel para o poder p&uacute;blico continuar a ignorar as mortes na cidade, especialmente em &eacute;poca eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>Em depoimento, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/juarez-gomes-pessoa\/\" target=\"_self\" title=\"Pai de Jaenes da Silva Pessoa\" class=\"encyclopedia\">Juarez Gomes Pessoa<\/a>, o pai de Jaenes, dizia que o vice-governador <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/carlos-jose-oliveira-santos\/\" target=\"_self\" title=\"Vice-governador do Par&aacute; entre 1991 e 1994\" class=\"encyclopedia\">Carlos Jos&eacute; Oliveira Santos<\/a> esteve presente no funeral do menino e l&aacute; lhe prometeu que tomaria medidas para que o respons&aacute;vel pelo crime fosse preso. Como a popula&ccedil;&atilde;o local n&atilde;o confiava nos policiais da cidade, a Secretaria de Seguran&ccedil;a do Par&aacute; designou um renomado delegado de Bel&eacute;m para conduzir as investiga&ccedil;&otilde;es: seu nome era <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/brivaldo-pinto-soares-filho\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado respons&aacute;vel pelo inqu&eacute;rito de Jaenes em outubro de 1992\" class=\"encyclopedia\">Brivaldo Pinto Soares Filho<\/a>.<strong> <\/strong>Na &eacute;poca, ele ocupava o cargo de diretor de Policiamento do Interior do estado. &Eacute; para ele que Juarez presta o seu primeiro depoimento em 15 de outubro, poucos dias ap&oacute;s o investigador ter chegado na cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Brivaldo faleceu em 2017. Por isso, sempre ser&aacute; um personagem-chave cheio de mist&eacute;rios. O que ficou claro ao longo da pesquisa, no entanto, &eacute; que a sua entrada no caso significou um ponto de virada para as fam&iacute;lias das v&iacute;timas. Pela primeira vez, ap&oacute;s quatro anos de crimes, algu&eacute;m parecia estar disposto a fazer alguma coisa. Ao mesmo tempo, &eacute; surpreendente descobrir que, quando chegou em Altamira, ao contr&aacute;rio do esperado, poucas pessoas quiseram falar com ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para entender essa resist&ecirc;ncia por parte da popula&ccedil;&atilde;o, muitos elementos precisam ser considerados. Al&eacute;m da seguran&ccedil;a p&uacute;blica ser um problema s&eacute;rio no Brasil, h&aacute; ainda quest&otilde;es mais profundas quando os envolvidos n&atilde;o s&atilde;o brancos ou v&ecirc;m de uma classe social mais baixa. A invisibilidade dos casos, inclusive, faz com que seja dif&iacute;cil at&eacute; hoje estabelecer qual era a ra&ccedil;a ou etnia das v&iacute;timas. Diversas crian&ccedil;as n&atilde;o tinham certid&atilde;o, documento ou at&eacute; mesmo foto. Mas pode-se afirmar que muitas delas n&atilde;o seriam hoje identificadas como brancas e que, ao menos uma, Judirley, era ind&iacute;gena. Diante disso, &eacute; imposs&iacute;vel compreender as din&acirc;micas sociais envoltas no caso sem mergulhar na hist&oacute;ria de Altamira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ALTAMIRA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Altamira fica localizada no Norte do pa&iacute;s, no estado do Par&aacute;, a cerca de 830 km da capital, Bel&eacute;m. O rio Xingu, que passa pelo munic&iacute;pio e &eacute; muito importante para toda a regi&atilde;o, &eacute; um forte s&iacute;mbolo do local. Os diversos cursos de &aacute;gua que entrecortam o Norte obrigam que estradas tenham longos desvios ou, em determinadas &aacute;reas, fazem com que elas sequer sejam constru&iacute;das. Em estados como o Amazonas, por exemplo, &eacute; comum que as pessoas se desloquem para munic&iacute;pios do interior n&atilde;o de &ocirc;nibus, mas sim de barco. No Par&aacute;, o transporte fluvial tamb&eacute;m &eacute; utilizado, por&eacute;m em menor quantidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o s&eacute;culo XVI, com a coloniza&ccedil;&atilde;o europeia por todo o continente, o Par&aacute; foi visto como &aacute;rea de extra&ccedil;&atilde;o de diversas mat&eacute;rias-primas. No s&eacute;culo XIX, a regi&atilde;o tornou-se local de interesse por causa do l&aacute;tex dos seringais, utilizado para a produ&ccedil;&atilde;o de borracha &ndash; esse per&iacute;odo &eacute; conhecido como &ldquo;O Ciclo da Borracha&rdquo;. Ap&oacute;s um decl&iacute;nio, um novo ciclo do l&aacute;tex se iniciou na d&eacute;cada de 1940, por conta da Segunda Guerra Mundial. Com o fim do conflito, outras mat&eacute;rias-primas passaram a chamar a aten&ccedil;&atilde;o, o que deixou a borracha em segundo plano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para transportar tanto material, eram necess&aacute;rias estradas que conectassem a regi&atilde;o ao restante do pa&iacute;s. Essa &eacute; a vis&atilde;o que foi constru&iacute;da ao longo dos s&eacute;culos de coloniza&ccedil;&atilde;o: o Norte, com a exuberante Floresta Amaz&ocirc;nica, era um o&aacute;sis da natureza com tanta riqueza natural, mas era tamb&eacute;m uma terra que precisava ser habitada e interligada ao resto do Brasil. E &eacute; por isso que, na d&eacute;cada de 1970, no auge da ditadura militar, Altamira virou palco de um projeto nacional ambicioso: a constru&ccedil;&atilde;o da rodovia Transamaz&ocirc;nica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando se fala em rodovias, geralmente o que vem &agrave; cabe&ccedil;a s&atilde;o ruas asfaltadas. Mas aqui n&atilde;o &eacute; o caso. At&eacute; pouco tempo &ndash; e at&eacute; hoje em alguns trechos -, a Transamaz&ocirc;nica era uma enorme estrada de terra no meio da floresta. Esse &eacute; o cen&aacute;rio de Altamira na &eacute;poca do caso dos meninos emasculados.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem ajuda a ilustrar ainda mais a cidade nesse per&iacute;odo &eacute; a professora <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/maria-ivonete-coutinho-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Professora e ativista\" class=\"encyclopedia\">Maria Ivonete Coutinho da Silva<\/a>, mais conhecida como Professora Netinha. Docente na Universidade Federal do Par&aacute;, ela &eacute; conhecida pelo seu ativismo social no campo da educa&ccedil;&atilde;o e dos direitos humanos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nordestina, Netinha se mudou para Altamira com a fam&iacute;lia no in&iacute;cio do projeto de coloniza&ccedil;&atilde;o da Transamaz&ocirc;nica, na d&eacute;cada de 1970. &ldquo;N&atilde;o tinha escola, n&atilde;o tinha posto de sa&uacute;de, n&atilde;o tinha cemit&eacute;rio, n&atilde;o tinha nada. Tinha terra para trabalhar. E a gente foi contando com a gra&ccedil;a de Deus que ningu&eacute;m adoecia, porque n&oacute;s fomos sete filhos e nunca tivemos nenhum problema de sa&uacute;de grave. Sobrevivemos. N&atilde;o tinha escola na &eacute;poca, tanto que eu fui fazer o ensino m&eacute;dio com 19 anos&rdquo;, diz ela em entrevista ao podcast.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat&iacute;stica (IBGE), em 1970, Altamira contava com 15 mil habitantes. Dentre eles, havia ind&iacute;genas de diversas etnias, que habitavam aquela terra muito antes dos homens brancos a colonizarem. L&aacute; residiam tamb&eacute;m descendentes dos colonizadores europeus, al&eacute;m da popula&ccedil;&atilde;o negra e quilombola, que vinha de gera&ccedil;&otilde;es de escravizados levados ao Norte para realizar trabalho for&ccedil;ado e sustentar os ciclos de explora&ccedil;&atilde;o de mat&eacute;ria-prima. Havia ainda na cidade migrantes de diversas regi&otilde;es do Brasil, como colonos do Sul e Minas Gerais, mas principalmente do Nordeste, com destaque para Rio Grande do Norte e Cear&aacute;. Eles tinham se mudado para o Norte em busca de trabalho, seja no ciclo da borracha ou na constru&ccedil;&atilde;o da grande estrada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para construir uma estrada, precisa-se de homens. Ap&oacute;s o in&iacute;cio das obras da constru&ccedil;&atilde;o da Transamaz&ocirc;nica, em 1980 a cidade j&aacute; possu&iacute;a 46 mil habitantes. Ou seja, em 10 anos, a popula&ccedil;&atilde;o triplicou. Altamira &eacute; um dos maiores munic&iacute;pios do mundo em extens&atilde;o territorial. Chega a ser maior que alguns estados brasileiros e pode ser comparada a pa&iacute;ses como Portugal e Gr&eacute;cia em quest&atilde;o de tamanho. Apesar disso, ela &eacute; pouco povoada: atualmente, conta com cerca de 115 mil moradores e tem um centro urbano concentrado na regi&atilde;o nordeste do munic&iacute;pio. Ali &eacute; onde a maior parte da popula&ccedil;&atilde;o vive, um local que se assemelha a uma pequena cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos &uacute;ltimos 50 anos, Altamira nunca teve um crescimento populacional gradual. Esse processo sempre aconteceu na base de saltos descontrolados, sem planejamento algum, resultado de grandes obras governamentais. A mais recente, que colocou a cidade no notici&aacute;rio nacional, foi a constru&ccedil;&atilde;o da barragem de Belo Monte, por volta de 2011, um projeto que vem desde o per&iacute;odo dos governos militares. A iniciativa foi um fracasso e deu vez a um novo boom populacional, que aumentou o n&uacute;mero de habitantes da cidade para al&eacute;m dos 100 mil. Hoje, Altamira ocupa a triste estat&iacute;stica de um dos munic&iacute;pios mais violentos do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a professora Netinha, um fator inerente ao processo de ocupa&ccedil;&atilde;o conduzido pelo Estado &eacute; o espalhamento e separa&ccedil;&atilde;o das pessoas. &ldquo;Em todos os governos que fazem coloniza&ccedil;&atilde;o, eles quebram os la&ccedil;os de familiaridade, de parentesco, para tamb&eacute;m n&atilde;o ter qualquer possibilidade de organiza&ccedil;&atilde;o de enfrentamento&rdquo;, afirma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Junto a esse fen&ocirc;meno, cria-se outro bastante conhecido no Norte do pa&iacute;s: o chamado &ldquo;cons&oacute;rcio da morte&rdquo;. O conceito &eacute; explicado por <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/katia-maria-dos-santos-melo\/\" target=\"_self\" title=\"Professora e pesquisadora\" class=\"encyclopedia\">K&aacute;tia Maria dos Santos Melo<\/a>, graduada em Servi&ccedil;o Social pela Universidade da Amaz&ocirc;nia e mestre e doutora pela Universidade de Bras&iacute;lia. Filha de trabalhadores e ind&iacute;genas da Amaz&ocirc;nia, ela tamb&eacute;m trabalha junto aos movimentos sociais da regi&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;O cons&oacute;rcio da morte era organizado pelos donos de terras ou de garimpos, pessoas que se viam incomodadas, por exemplo, com ind&iacute;genas, pescadores, quilombolas e com os movimentos sociais que lutam pelo direito ao territ&oacute;rio&rdquo;, esclarece. Segundo ela, esses indiv&iacute;duos pagam um pre&ccedil;o para que quem estiver &ldquo;importunando&rdquo; seja assassinado. &ldquo;E a&iacute; tem os caras que matam, os profissionais, os jagun&ccedil;os. Eles matam mesmo&rdquo;, completa.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as v&iacute;timas do cons&oacute;rcio da morte, est&aacute; Dorothy Stang, uma mission&aacute;ria norte-americana naturalizada brasileira que, desde os anos de 1970, militava junto &agrave; pastoral da terra e aos trabalhadores no Xingu &ndash; comum alian&ccedil;a j&aacute; citada no epis&oacute;dio anterior, em que as lideran&ccedil;as cat&oacute;licas se somavam aos movimentos de base. Dorothy, assim como a professora Netinha, a ativista <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/antonia-melo\/\" target=\"_self\" title=\"Ativista fundadora de organiza&ccedil;&otilde;es sociais em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Ant&ocirc;nia Melo<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rosa-maria-pessoa\/\" target=\"_self\" title=\"M&atilde;e de Jaenes da Silva Pessoa\" class=\"encyclopedia\">Rosa Maria Pessoa<\/a>, m&atilde;e de Jaenes, era uma das mulheres que venceram o medo para lutar por justi&ccedil;a. E por isso, incomodava. Ela foi assassinada em 2005 com seis tiros por pistoleiros a mando de um poderoso fazendeiro em Anapu, munic&iacute;pio vizinho de Altamira &ndash; o mesmo do &ldquo;An&ocirc;nimo de Anapu&rdquo;, crian&ccedil;a v&iacute;tima do caso dos emasculados e at&eacute; hoje desconhecida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro caso bastante conhecido &eacute; o de Dema, apelido de Ademir Federicci, que atuou em diversos movimentos e lutas sociais no Norte do pa&iacute;s at&eacute; ser assassinado em 2001 na cidade de Altamira. Na ocasi&atilde;o, ele liderava um movimento de resist&ecirc;ncia &agrave; constru&ccedil;&atilde;o da usina de Belo Monte.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Hoje os conflitos continuam, n&eacute;? A finaliza&ccedil;&atilde;o da obra deixou um passivo socioambiental sem precedentes. Nessa gera&ccedil;&atilde;o, Altamira e regi&atilde;o n&atilde;o se recuperam. Os piores &iacute;ndices, considerando o n&uacute;mero de habitantes, est&atilde;o concentrados no munic&iacute;pio. Assassinato contra a mulher, viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as e adolescentes. Est&aacute; tudo l&aacute;&rdquo;, destaca K&aacute;tia Melo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse cen&aacute;rio de abandono, em que qualquer reivindica&ccedil;&atilde;o por direitos pode resultar em assassinato, muitas vezes comandado por pessoas poderosas, s&oacute; havia uma alternativa para quem queria alguma melhoria de vida: organizar-se socialmente. Se n&atilde;o fossem as fam&iacute;lias e o apoio dos movimentos sociais, o delegado Brivaldo jamais teria sido designado para Altamira. Al&eacute;m disso, foi gra&ccedil;as &agrave; sistematiza&ccedil;&atilde;o feita por elas que o investigador teve acesso &agrave;s informa&ccedil;&otilde;es sobre os crimes anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>Na &eacute;poca, a cidade n&atilde;o contava com nenhum &oacute;rg&atilde;o que pudesse olhar com aten&ccedil;&atilde;o para a situa&ccedil;&atilde;o dos meninos atacados. Na delegacia, os poucos inqu&eacute;ritos que existiam estavam fora de ordem ou eram abandonados. Por isso, o trabalho dos familiares, que segue at&eacute; hoje por meio do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/comite-em-defesa-das-criancas-altamirenses\/\" target=\"_self\" title=\"Grupo criado por familiares das v&iacute;timas para pedir por justi&ccedil;a\" class=\"encyclopedia\">Comit&ecirc; em Defesa da Vida das Crian&ccedil;as Altamirenses<\/a>, &eacute; uma importante fonte prim&aacute;ria para entender o caso. Frente &agrave; aus&ecirc;ncia das autoridades, existe a dificuldade de estabelecer informa&ccedil;&otilde;es simples, como ra&ccedil;a, idade, nome ou filia&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as. E mais ainda: n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel estabelecer qual o n&uacute;mero exato de v&iacute;timas.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a professora Netinha, &eacute; muito prov&aacute;vel que outros garotos tenham sido atacados, mas que nunca foram identificados ou encontrados. &ldquo;Imagina, naquela &eacute;poca era muito mais dif&iacute;cil. N&atilde;o tinha telefone, n&atilde;o tinha celular, n&atilde;o tinha internet. Ent&atilde;o, &eacute; poss&iacute;vel. A gente ouvia muito dizer que as fam&iacute;lias iam embora com vergonha. O sentimento era de vergonha pelo seu filho ter sido castrado, como eles diziam&rdquo;, afirma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, o interesse geral cresceu ap&oacute;s o caso do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a>, emasculado em novembro de 1989. Isso acontece porque o pai do menino era vigilante da Associa&ccedil;&atilde;o Atl&eacute;tica Banco do Brasil (AABB), bastante conhecida pelos moradores da cidade. &ldquo;&Eacute; o Banco do Brasil, ali estavam os empres&aacute;rios, a ju&iacute;za&hellip; O filho do caseiro foi emasculado e o menino volta com vida para contar a hist&oacute;ria&rdquo;, comenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m do ataque ao <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a>, outro crime que chamou a aten&ccedil;&atilde;o dos movimentos foi a morte de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/ailton-fonseca-do-nascimento\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em maio de 1991 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Ailton Fonseca do Nascimento<\/a>, a terceira v&iacute;tima listada na carta citada no epis&oacute;dio anterior. Ele foi o primeiro menino encontrado sem vida, em 1991. A sua ossada foi enviada para an&aacute;lise em Bel&eacute;m, mas o laudo jamais foi emitido pelo Instituto M&eacute;dico Legal (IML). O corpo nunca foi devolvido para que a fam&iacute;lia pudesse enterr&aacute;-lo e, at&eacute; hoje, &eacute; dado como perdido. O descaso do Estado com as crian&ccedil;as n&atilde;o acabava no momento em que elas morriam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>INQU&Eacute;RITO DE JAENES<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O inqu&eacute;rito sobre a morte de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jaenes-da-silva-pessoa\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a emasculada e morta em outubro de 1992 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jaenes da Silva Pessoa<\/a> foi aberto em 4 de outubro de 1992, um dia depois de seu corpo ter sido encontrado. Em of&iacute;cio de 14 de outubro, o delegado Brivaldo requisitou a exuma&ccedil;&atilde;o do cad&aacute;ver para um novo exame mais detalhado.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta veio no dia seguinte, assinada pelo m&eacute;dico legista <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/armando-aragao\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico legista\" class=\"encyclopedia\">Armando Arag&atilde;o<\/a>. As fotos do procedimento j&aacute; indicavam que o estado do corpo havia se deteriorado bastante. Por conta disso, Arag&atilde;o n&atilde;o conseguiu responder a todos os quesitos solicitados pelo investigador.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nos autos, h&aacute; um prontu&aacute;rio escrito &agrave; m&atilde;o pelo m&eacute;dico, que diz o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&ldquo;Ao Delegado Brivaldo Pinto,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>1) Se o corpo apresenta les&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Resposta: ferida incisa com amputa&ccedil;&atilde;o parcial do p&ecirc;nis (a 1cm da base de implanta&ccedil;&atilde;o) e amputa&ccedil;&atilde;o total da bolsa escrotal.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>2) Se houve ato libidinoso anal?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Resposta: prejudicada em virtude do avan&ccedil;ado estado de decomposi&ccedil;&atilde;o do cad&aacute;ver, impedindo avalia&ccedil;&atilde;o precisa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>3) Se foi encontrada alguma subst&acirc;ncia t&oacute;xica?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Resposta: idem acima.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>4) Se o corte efetuado na v&iacute;tima tem caracter&iacute;sticas de profissional?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Resposta: n&atilde;o.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>5) Qual o instrumento cortante que poderia ter sido utilizado?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Resposta: navalha, faca bem afiada, etc.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>6) Se o &oacute;rg&atilde;o retirado pode servir para ser implantando em outra pessoa e qual o tempo necess&aacute;rio para isso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Resposta: n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Coment&aacute;rio final: possivelmente a causa da morte n&atilde;o decorreu da emascula&ccedil;&atilde;o (indeterminada, devido adiantado estado de putrefa&ccedil;&atilde;o).&rdquo;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/04\/1992-10-15-Dr-Aragao-responde-Brivaldo-sobre-corpo-Jaenes.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Prontu&aacute;rio do doutor Armando Arag&atilde;o<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista concedida para a pesquisadora Paula Lacerda em 2010 para a produ&ccedil;&atilde;o da sua tese, Brivaldo relatou que era muito dif&iacute;cil obter informa&ccedil;&otilde;es no munic&iacute;pio naquela &eacute;poca. &ldquo;Ele me dizia: &lsquo;olha, Paula, em Altamira, como em qualquer cidade do interior, voc&ecirc; n&atilde;o tem nenhuma estrutura para quem chega l&aacute;. Ou voc&ecirc; bota a tua rede em cima da mesa e dorme, ou voc&ecirc; aceita a oferta do prefeito de dormir no hotel&nbsp;da cidade com a prefeitura pagando&rsquo;&rdquo;, conta ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a pesquisadora, isso mostra a profunda conex&atilde;o entre as autoridades locais: prefeitura, ju&iacute;zes, e pessoas que n&atilde;o necessariamente possuem um cargo, mas que talvez sejam donas do hotel, da pousada ou do posto de gasolina do munic&iacute;pio. &ldquo;Eu acredito que &eacute; uma configura&ccedil;&atilde;o e concentra&ccedil;&atilde;o de poder econ&ocirc;mico e pol&iacute;tico o que ele me relatou. Eu acho que ajuda muito fortemente a entender um pouco o medo da popula&ccedil;&atilde;o e tamb&eacute;m esse abafamento dos casos&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a popula&ccedil;&atilde;o desamparada chegava a uma conclus&atilde;o: se os crimes ocorriam por tantos anos sem ningu&eacute;m fazer nada, os criminosos s&oacute; poderiam ser gente poderosa. Teriam provavelmente pistoleiros, policiais, ju&iacute;zes e promotores em sua folha de pagamento n&atilde;o-oficial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A hip&oacute;tese de que se tratava de um grupo e n&atilde;o de apenas um agressor ganha for&ccedil;as com o relato do terceiro sobrevivente, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/wandicley-oliveira-pinheiro\/\" target=\"_self\" title=\"Terceiro sobrevivente do caso dos emasculados de Altamira\" class=\"encyclopedia\">Wandicley Oliveira Pinheiro<\/a>, atacado aos nove anos de idade em 1990. Em depoimentos que prestou, ele diz ter visto quatro pessoas na cena do crime.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do hist&oacute;rico dos casos, Brivaldo passou a desenhar o perfil de um man&iacute;aco sexual que agiria em Altamira. De acordo com o investigador, ele teria prazer em abusar dos meninos com o uso da viol&ecirc;ncia. Al&eacute;m disso, o suspeito n&atilde;o agiria sozinho e provavelmente teria algum prest&iacute;gio social.<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo dia em que <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/juarez-gomes-pessoa\/\" target=\"_self\" title=\"Pai de Jaenes da Silva Pessoa\" class=\"encyclopedia\">Juarez Gomes Pessoa<\/a> prestou seu primeiro depoimento, uma importante testemunha tamb&eacute;m foi ouvida pelo delegado Brivaldo. Seu nome era <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/josivaldo-aranha-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha amea&ccedil;ada no dia em que Judirley foi morto\" class=\"encyclopedia\">Josivaldo Aranha da Silva<\/a>, de 22 anos de idade. Na ocasi&atilde;o, o jovem narrou uma estranha situa&ccedil;&atilde;o que teria vivenciado enquanto catava lenha em uma estrada na &aacute;rea rural de Altamira, no dia 3 de janeiro de 1992 &ndash; dia em que o corpo do garoto ind&iacute;gena Judirley Chipaia havia sido encontrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Josivaldo contou que viu um carro tipo picape, com uma carroceria de madeira, parado debaixo das &aacute;rvores. Dentro do ve&iacute;culo havia dois homens, enquanto um terceiro indiv&iacute;duo estava parado do lado de fora, encostado na porta. Ele era alto, magro, tinha cabelos lisos e loiros. Assim que Josivaldo passou por perto, esse rapaz apontou uma arma para ele e disse: &ldquo;olha, se tu contares que nos vistes aqui ou que vistes alguma coisa, vamos te matar aonde quer que tu te escondas, em qualquer estado do Brasil&rdquo;. Assustado, o jovem respondeu: &ldquo;descobrir o qu&ecirc;?&rdquo;. O homem loiro retrucou: &ldquo;cala a boca&rdquo;. Quando Josivaldo se afastou do grupo, um deles gritou: &ldquo;olha o que eu falei pra voc&ecirc;&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>A testemunha, ent&atilde;o, continuou a caminhada com a lenha at&eacute; voltar para casa. L&aacute;, encontrou sua m&atilde;e de cria&ccedil;&atilde;o, que lhe perguntou se ele j&aacute; sabia de um crime que havia acontecido perto do local onde ia apanhar lenha. Segundo ela, o corpo de um menino tinha sido encontrado justamente naquela regi&atilde;o. Josivaldo respondeu que at&eacute; ent&atilde;o n&atilde;o sabia de nada, mas tamb&eacute;m n&atilde;o comentou sobre o trio na picape e a amea&ccedil;a que recebeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Em mar&ccedil;o de 1992, o rapaz estava de bicicleta quando viu novamente os mesmos homens em um lugar conhecido na cidade como &ldquo;a entrada da Bet&acirc;nia&rdquo;. Os tr&ecirc;s fizeram Josivaldo parar. Um deles lhe mostrou uma arma e falou: &ldquo;est&aacute;s lembrado daquele dia que n&oacute;s dissemos que se tu falasses alguma coisa, n&oacute;s te mat&aacute;vamos?&rdquo;. Em seguida, soltaram a bicicleta e ordenaram: &ldquo;some, some, some&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa, no entanto, n&atilde;o foi a &uacute;ltima vez que a testemunha encontrou essas pessoas. Em uma terceira ocasi&atilde;o, em Porto de Vit&oacute;ria, um homem baixo, gordo, moreno, de cabelos lisos e sem barba se aproximou de Josivaldo. Ele comentou: &ldquo;tu &eacute;s aquele com quem tiramos uma brincadeira l&aacute; na entrada da Bet&acirc;nia, quando tu vinhas de bicicleta&rdquo;. O jovem assentiu, no que o outro completou: &ldquo;aquele loiro tem uma granja e uma horta l&aacute; perto do posto Gomes&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/04\/1992-10-15-Depoimento-Josivaldo-Aranha-da-Silva-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Josivaldo Aranha<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O relato de Josivaldo Aranha era relevante para o delegado Brivaldo por uma s&eacute;rie de motivos. Em primeiro lugar, as pessoas que encontraram ou viram os corpos dos meninos emasculados sempre diziam que parecia que eles tinham sido deixados nos locais, j&aacute; que n&atilde;o havia presen&ccedil;a n&iacute;tida de sangue no solo.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui &eacute; importante ressaltar que em nenhum dos crimes existe um laudo de exame do local do achado do corpo. H&aacute; nos autos apenas fotos de algumas das v&iacute;timas na ocasi&atilde;o em que foram encontradas. Mas, para al&eacute;m do choque que geram, elas n&atilde;o dizem muita coisa tecnicamente. De qualquer forma, a impress&atilde;o que elas passam &eacute; que, de fato, as crian&ccedil;as teriam sido mortas em outro lugar antes de serem jogadas em tais pontos.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo motivo da import&acirc;ncia do depoimento de Josivaldo &eacute; o seguinte: aqui h&aacute; o relato de uma pessoa que diz ter sido amea&ccedil;ada no dia e local pr&oacute;ximo em que o corpo de Judirley foi encontrado. Um desses suspeitos, que aparentava ser o l&iacute;der do grupo, seria jovem, magro, loiro e teria uma propriedade perto do posto da fam&iacute;lia Gomes &ndash; que tinha como dono <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-amadeu-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Rico fazendeiro de Altamira, pai de Amailton Gomes\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Amadeu Gomes<\/a>, primo de Juarez, pai de Jaenes.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas eram algumas pistas para Brivaldo. Oficialmente, ele estava a cargo da investiga&ccedil;&atilde;o da morte de Jaenes, em outubro de 1992. Mas ao notar que conseguiu uma informa&ccedil;&atilde;o valiosa no caso de outra crian&ccedil;a, Judirley Chipaia, o delegado suspeitava que teria mais respostas se olhasse para os demais crimes. Foi a&iacute; que ele decidiu ir atr&aacute;s dos sobreviventes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>WANDICLEY PINHEIRO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto Brivaldo fazia as suas investiga&ccedil;&otilde;es, encontravam-se em Bel&eacute;m <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/cezario-loiola-pinheiro\/\" target=\"_self\" title=\"Pai de Wandicley, terceiro sobrevivente emasculado\" class=\"encyclopedia\">Cez&aacute;rio Loiola Pinheiro<\/a>, de 65 anos, e seu filho Wandicley, na &eacute;poca com 11 anos de idade. Atacado em 23 de setembro de 1990, Wandicley era conhecido como o terceiro sobrevivente emasculado. Assim como o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a>, ele teve o p&ecirc;nis e a bolsa escrotal completamente removidos &ndash; diferente da primeira v&iacute;tima, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-sidney\/\" target=\"_self\" title=\"Primeiro sobrevivente do caso dos emasculados de Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Sidney<\/a>, que sofreu pequenos cortes na regi&atilde;o genital, sem danos permanentes. O caso de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-sidney\/\" target=\"_self\" title=\"Primeiro sobrevivente do caso dos emasculados de Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Sidney<\/a> sequer possui inqu&eacute;rito aberto no processo. O garoto nunca prestou depoimento e tudo o que se sabe sobre ele &eacute; decorrente de materiais produzidos pelo Comit&ecirc;.<\/p>\n\n\n\n<p>Devido ao grau de viol&ecirc;ncia que sofreram, o segundo e o terceiro sobreviventes foram atendidos por anos por um renomado m&eacute;dico cirurgi&atilde;o de Bel&eacute;m, o doutor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/lourival-barbalho\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico cirurgi&atilde;o que fez o tratamento de dois sobreviventes\" class=\"encyclopedia\">Lourival Barbalho<\/a>. Irm&atilde;o do ent&atilde;o governador <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jader-barbalho\/\" target=\"_self\" title=\"Governador do Par&aacute; entre 1991 e 1994\" class=\"encyclopedia\">Jader Barbalho<\/a>, ele fez o tratamento de ambas as v&iacute;timas de forma gratuita. O seu objetivo era realizar uma reconstru&ccedil;&atilde;o peniana nos dois meninos, com o uso de pr&oacute;teses.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a> ficou em Altamira com a fam&iacute;lia, indo para Bel&eacute;m de tempos em tempos. J&aacute; Wandicley se mudou para a capital depois do ataque e praticamente morou no hospital por um longo per&iacute;odo. Por esse motivo, ele e o pai n&atilde;o estavam em Altamira nos dias 20 e 21 de outubro de 1992, quando prestaram depoimento no inqu&eacute;rito do garoto Jaenes. Eles foram ouvidos em Bel&eacute;m pela delegada <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/nilma-nazare-de-almeida-alves\/\" target=\"_self\" title=\"Delegada que auxiliou as investiga&ccedil;&otilde;es de Brivaldo em 1992\" class=\"encyclopedia\">Nilma Nazar&eacute; de Almeida Alves<\/a>, como forma de auxiliar as investiga&ccedil;&otilde;es que Brivaldo conduzia a 800 km da capital.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na ocasi&atilde;o, o menino contou tudo o que lembrava: no dia do ataque, ele brincava com um primo de nome Jailson, antes do hor&aacute;rio de almo&ccedil;o, quando um homem desconhecido se aproximou. O agressor teria o agarrado por tr&aacute;s e o carregado at&eacute; uma bicicleta. O primo ainda tentou intervir, jogando uma pedra em dire&ccedil;&atilde;o ao indiv&iacute;duo, mas de nada adiantou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Wandicley relata que teve as m&atilde;os amarradas na garupa da bicicleta por um fio grosso. Ele se recorda que o agressor era branco, tinha estatura m&eacute;dia, cabelos lisos e pretos penteados para tr&aacute;s, sobrancelhas fartas e rosto cheio e forte. Esse homem estava armado com uma faca, que usava para amea&ccedil;ar a crian&ccedil;a. O garoto, ent&atilde;o, foi conduzido at&eacute; uma regi&atilde;o de matagal, onde foi desamarrado e obrigado a descer um barranco. Ao chegar em uma clareira, viu mais um homem de estatura m&eacute;dia, que tinha olhos escuros, cabelos pretos e ondulados, sobrancelhas fartas, bigode e rosto fino.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A crian&ccedil;a foi vendada, momento em que teriam chegado ao local mais dois indiv&iacute;duos desconhecidos. Wandicley diz que conseguiu not&aacute;-los por meio de uma falha no tecido que cobria os seus olhos. Logo em seguida, o indiv&iacute;duo da bicicleta deu uma pancada na cabe&ccedil;a dele com um peda&ccedil;o de pau, o que fez com que o menino ca&iacute;sse no ch&atilde;o. Nessa hora, o rapaz moreno de bigode o segurou no bra&ccedil;o, enquanto o outro, de cor branca, retirou o cal&ccedil;&atilde;o do garoto e usou a faca para a emascula&ccedil;&atilde;o. A dor foi t&atilde;o forte que a v&iacute;tima perdeu os sentidos e s&oacute; acordou bem depois, j&aacute; sozinha e completamente ensanguentada. Apesar do horror, ele se levantou e passou a caminhar dentro do mato em busca de ajuda. Ap&oacute;s muito tempo, conseguiu chegar em uma casa, onde pediu socorro e acabou sendo levado ao hospital.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Anexado ao relato de Wandicley, h&aacute; um retrato falado que aparenta ter sido feito com fotografias de partes de rostos de diferentes pessoas, como um quebra-cabe&ccedil;a. Ao que tudo indica, foi feito pela pol&iacute;cia com base nos relatos do garoto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/04\/1992-10-21-Depoimento-Wandicley-Oliveira-Pinheiro-com-retrato-falado-2.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/04\/1991-07-17-Retrato-Falado-Wandicley.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Retrato falado com base no relato de Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Em depoimento prestado no dia anterior, o pai da v&iacute;tima comenta que mostrou uma c&oacute;pia do retrato para outro filho, que lhe disse que conhecia algu&eacute;m com um rosto muito parecido: um homem de nome &ldquo;Luiz Capricho&rdquo;, que morava ali no mesmo bairro. Por conta pr&oacute;pria, Cez&aacute;rio come&ccedil;ou a observar o suspeito e descobriu que se tratava de um pistoleiro que morava sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/04\/1992-10-20-Depoimento-Cezario-Loiola-Pinheiro-pai-Wandicley-2.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Cez&aacute;rio<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Luiz Capricho&rdquo; seria, na verdade, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/luiz-kapiche-neto\/\" target=\"_self\" title=\"Radialista e advogado em Altamira ligado aos Gomes\" class=\"encyclopedia\">Luiz Kapiche Neto<\/a>, um empres&aacute;rio de Altamira, mais conhecido por atuar tamb&eacute;m como radialista e advogado na cidade. Mas ele n&atilde;o tinha forma&ccedil;&atilde;o em Direito, apesar de exercer a profiss&atilde;o. Na verdade, isso n&atilde;o era incomum para a &eacute;poca, especialmente em cidades mais isoladas e com falta de estrutura como Altamira. Na hist&oacute;ria do Direito, esse tipo de ocupa&ccedil;&atilde;o tinha at&eacute; um nome: r&aacute;bula. Kapiche era, ent&atilde;o, um r&aacute;bula que frequentemente resolvia problemas para uma fam&iacute;lia em especial: os Gomes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>LUIZ KAPICHE<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O nome de Kapiche aparece pela primeira vez no inqu&eacute;rito do menino ind&iacute;gena <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/judirley-da-cunha-chipaia\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a emasculada e morta em janeiro de 1992 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Judirley da Cunha Chipaia<\/a>. Ele foi interrogado em 8 de janeiro de 1992, cinco dias depois do corpo da v&iacute;tima ter sido encontrado. O motivo que o levou a ser chamado para prestar depoimento &eacute; incerto, mas &eacute; prov&aacute;vel que esteja ligado a uma suspeita em torno do carro que ele tinha na &eacute;poca. O ve&iacute;culo teria sido visto por algumas testemunhas no local onde Judirley desapareceu e, mais tarde, foi achado morto.<\/p>\n\n\n\n<p>Em depoimento, ao ser perguntado se j&aacute; teve problemas com a justi&ccedil;a no estado do Par&aacute;, Kapiche respondeu que sim. Entre o fim de 1980 e o in&iacute;cio de 1981, ele teve pris&atilde;o decretada pela ju&iacute;za da comarca de Altamira, juntamente com outros dois companheiros: <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-amadeu-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Rico fazendeiro de Altamira, pai de Amailton Gomes\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Amadeu Gomes<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/arakem-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde;o de Jos&eacute; Amadeu Gomes\" class=\"encyclopedia\">Araqu&eacute;m Gomes<\/a>. Na ocasi&atilde;o, os tr&ecirc;s foram transferidos para o pres&iacute;dio S&atilde;o Jos&eacute;, em Bel&eacute;m do Par&aacute;. Segundo ele, o motivo teria sido uma suposta amea&ccedil;a de morte &agrave; ju&iacute;za. Diante dessa situa&ccedil;&atilde;o, Kapiche conseguiu sair da cadeia por determina&ccedil;&atilde;o judicial e resolveu voltar &agrave; Altamira. Na ocasi&atilde;o, teve pris&atilde;o novamente decretada por desacato &agrave; autoridade contra outra ju&iacute;za que, posteriormente, revogou o mandado.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/04\/1992-01-08-JUDIRLEY-Depoimento-de-Luis-Kapiche-Neto-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Luiz Kapiche <\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Para o delegado Brivaldo, havia agora algo de muito estranho em torno da fam&iacute;lia Gomes, principalmente do poderoso Amadeu. Kapiche poderia ser um pistoleiro a mando de Amadeu, que fazia pose de advogado mesmo sem forma&ccedil;&atilde;o e com coragem suficiente para amea&ccedil;ar de morte a ju&iacute;za da cidade. Amadeu era primo de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/juarez-gomes-pessoa\/\" target=\"_self\" title=\"Pai de Jaenes da Silva Pessoa\" class=\"encyclopedia\">Juarez Gomes Pessoa<\/a>, o pai da v&iacute;tima Jaenes. Seria ele capaz de estar por tr&aacute;s da morte de um parente?<\/p>\n\n\n\n<p>Envolver o nome dos poderosos Gomes era arriscado e a popula&ccedil;&atilde;o de Altamira sabia bem disso.&nbsp;A pr&oacute;pria professora Netinha, por exemplo, conta algo estranho pelo qual passou enquanto atuava nos movimentos sociais em busca por justi&ccedil;a no caso dos emasculados. O ano era 1992. J&aacute; era noite e ela estava no centro pastoral junto com o padre <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/padre-savio-corinaldesi\/\" target=\"_self\" title=\"Padre e coordenador da Pastoral de Altamira em 1992\" class=\"encyclopedia\">S&aacute;vio Corinaldesi<\/a>. Eles organizavam alguns documentos que levariam para uma audi&ecirc;ncia p&uacute;blica, com o objetivo de denunciar os crimes para as autoridades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim que terminaram os trabalhos, o padre avisou que tomaria um banho e se dirigiu at&eacute; o banheiro. Netinha ficou sozinha na sala, ocupada com seus afazeres. &ldquo;De repente, a luz apagou. A&iacute; eu fiquei apavorada. Tinha uma escada do centro pastoral que dava para a rua. E era exatamente a rua da delegacia, dos Gomes, tudo. Na hora que apagou a luz, o telefone tocou. A&iacute; sim, foi muita amea&ccedil;a. A pessoa disse: &lsquo;n&atilde;o pense que eu n&atilde;o estou te vendo, vagabunda, n&oacute;s vamos te pegar. Quando tu tiveres um filho, tu vais ver. Eu sempre te acompanho, te vejo indo para Bras&iacute;lia&rsquo;&rdquo;, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>Assustada, a professora come&ccedil;ou a chamar pelo padre S&aacute;vio, mas ele n&atilde;o ouviu. Netinha resolveu, ent&atilde;o, bater na porta do banheiro, momento em que ele saiu de l&aacute; e ela ficou mais aliviada. &ldquo;Aquele dia foi o que eu tive o maior medo porque as palavras eram&hellip; O tom de voz, o jeito de falar, foi realmente de muita amea&ccedil;a&rdquo;. Ela, no entanto, jamais descobriu quem era o autor das amea&ccedil;as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O fato &eacute; que, quando ningu&eacute;m mais o fez, coube &agrave; popula&ccedil;&atilde;o procurar pelo monstro de Altamira. Nessa busca, parecia sempre se deparar com um mesmo sobrenome: Gomes. Com Brivaldo parecia haver, pela primeira vez, uma autoridade capaz de escutar. Mas estariam os Gomes por tr&aacute;s de um cons&oacute;rcio da&nbsp;morte, respons&aacute;vel por aterrorizar a popula&ccedil;&atilde;o e matar crian&ccedil;as? E se sim, quem era a pessoa loira referenciada por Josivaldo Aranha?&nbsp;Essas s&atilde;o perguntas para o pr&oacute;ximo epis&oacute;dio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os Poderosos<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":35,"template":"","encyclopedia-category":[6],"encyclopedia-tag":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia\/95"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/types\/encyclopedia"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=95"}],"wp:term":[{"taxonomy":"encyclopedia-category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-category?post=95"},{"taxonomy":"encyclopedia-tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-tag?post=95"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}