{"id":942,"date":"2023-01-26T00:01:00","date_gmt":"2023-01-26T03:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/?post_type=encyclopedia&#038;p=942"},"modified":"2023-01-25T16:41:04","modified_gmt":"2023-01-25T19:41:04","slug":"extras-episodio-29","status":"publish","type":"encyclopedia","link":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-29\/","title":{"rendered":"Extras Epis\u00f3dio 29"},"content":{"rendered":"\n<p>Esse epis&oacute;dio exp&otilde;e tr&ecirc;s revela&ccedil;&otilde;es referentes &agrave; atua&ccedil;&atilde;o da Pol&iacute;cia Federal (PF) em Altamira na d&eacute;cada de 1990. Chegou a hora de finalmente trazer &agrave; luz alguns pontos nunca esclarecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes, &eacute; importante recapitular os eventos. Naquela &eacute;poca, a PF esteve na cidade no m&iacute;nimo tr&ecirc;s vezes:<\/p>\n\n\n\n<ul><li>A primeira fase da Opera&ccedil;&atilde;o Monstro de Altamira aconteceu em 1993, quando as informa&ccedil;&otilde;es levantadas foram repassadas ao delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a>. A miss&atilde;o resultou nas pris&otilde;es de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/anisio-ferreira-de-souza\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico acusado no caso dos meninos emasculados\" class=\"encyclopedia\">An&iacute;sio Ferreira de Souza<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/cesio-flavio-caldas-brandao\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico reconhecido por Agostinho como suspeito na morte de Jaenes\" class=\"encyclopedia\">C&eacute;sio Fl&aacute;vio Caldas Brand&atilde;o<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/carlos-alberto-dos-santos-lima\/\" target=\"_self\" title=\"Policial militar acusado no caso dos meninos\" class=\"encyclopedia\">Carlos Alberto dos Santos Lima<\/a>; e nos indiciamentos de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-amadeu-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Rico fazendeiro de Altamira, pai de Amailton Gomes\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Amadeu Gomes<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/valentina-de-andrade\/\" target=\"_self\" title=\"L&iacute;der do Lineamento Universal Superior\" class=\"encyclopedia\">Valentina de Andrade<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/aldenor-ferreira-cardoso\/\" target=\"_self\" title=\"Ex-PM reconhecido por Wandicley como o seu sequestrador\" class=\"encyclopedia\">Aldenor Ferreira Cardoso<\/a>. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/amailton-madeira-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Filho de Amadeu Gomes, &eacute; um dos acusados no caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Amailton Madeira Gomes<\/a> j&aacute; estava detido desde o final de 1992.<\/li><li>A segunda fase, em 1994, focou no relato da adolescente <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eudilene-pereira-da-costa\/\" target=\"_self\" title=\"Adolescente que se diz testemunha de uma s&eacute;rie de crimes contra meninos\" class=\"encyclopedia\">Eudilene Pereira da Costa<\/a>, de 13 anos, que dizia ter sido abusada por C&eacute;sio. Al&eacute;m disso, a testemunha denunciou uma s&eacute;rie de crimes contra meninos que teria presenciado em uma ch&aacute;cara no munic&iacute;pio.<\/li><li>A terceira fase, realizada no ano seguinte, teve como personagem principal <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/valdete-rodrigues-barroso\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que desapareceu ap&oacute;s passar informa&ccedil;&otilde;es para a PF\" class=\"encyclopedia\">Valdete Rodrigues Barroso<\/a>, que afirmava sofrer amea&ccedil;as de um suposto pistoleiro da fam&iacute;lia Gomes. O motivo seria uma cena que ela viu em 1988, de Amailton transportando uma crian&ccedil;a morta dentro de um carro.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Estranhamente, essas hist&oacute;rias n&atilde;o t&ecirc;m nenhum desdobramento no processo dos meninos de Altamira. Os autos cont&ecirc;m apenas os depoimentos dessas testemunhas, j&aacute; destrinchados nos epis&oacute;dios <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-13\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">13<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-14\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">14<\/a> do podcast. Os relatos foram lidos nos j&uacute;ris como prova contra os acusados, mas nunca passaram por uma investiga&ccedil;&atilde;o mais profunda.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de n&atilde;o ter sido poss&iacute;vel responder todas as d&uacute;vidas sobre o trabalho da PF nos anos 90, algumas quest&otilde;es finalmente ser&atilde;o divulgadas ao grande p&uacute;blico. Com sorte, elas se tornar&atilde;o base para pesquisadores que tenham vontade e meios de mergulhar nesse tema.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>PRIMEIRA REVELA&Ccedil;&Atilde;O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta b&aacute;sica &eacute;: quem autorizou a ida dos agentes federais para Altamira? Afinal, quem tem jurisdi&ccedil;&atilde;o para investigar crimes no estado &eacute; a Pol&iacute;cia Civil. Para a PF se envolver, em teoria, seria necess&aacute;ria a permiss&atilde;o de um &oacute;rg&atilde;o federal. No processo, no entanto, n&atilde;o h&aacute; nenhuma portaria nesse sentido, relacionada &agrave; primeira fase da opera&ccedil;&atilde;o, em 1993.<\/p>\n\n\n\n<p>Por meio dos relatos dos parentes das v&iacute;timas, sabemos que a PF esteve na cidade entre abril e junho de 1993. Uma mat&eacute;ria do jornal O Globo, de 10 de junho, que cita a presen&ccedil;a dos agentes, confirma isso. Curiosamente, por&eacute;m, a reportagem tamb&eacute;m afirma que deputados do Par&aacute; pediam ao ent&atilde;o ministro da justi&ccedil;a, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/mauricio-correa\/\" target=\"_self\" title=\"Ministro da Justi&ccedil;a entre 03 de outubro de 1992 e 05 de abril de 1994\" class=\"encyclopedia\">Maur&iacute;cio Corr&ecirc;a<\/a>, que a pr&oacute;pria PF conclu&iacute;sse as investiga&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/05\/Jornal-O-Globo-10-06-1993.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mat&eacute;ria do jornal O Globo &ndash; &ldquo;Magia negra pode ter matado meninos em sacrif&iacute;cio no Par&aacute;&rdquo;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Ainda segundo as fam&iacute;lias, o envolvimento da corpora&ccedil;&atilde;o teria como origem um pedido do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/conselho-nacional-dos-direitos-da-crianca-e-do-adolescente\/\" target=\"_self\" title=\"&Oacute;rg&atilde;o que contribui para definir pol&iacute;ticas para a inf&acirc;ncia e a adolesc&ecirc;ncia\" class=\"encyclopedia\">Conselho Nacional dos Direitos da Crian&ccedil;a e do Adolescente<\/a> (Conanda) ap&oacute;s uma visita &agrave; Altamira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A produ&ccedil;&atilde;o do podcast verificou todas as atas do &oacute;rg&atilde;o e os Di&aacute;rios Oficiais do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, e n&atilde;o encontrou nada que justificasse a ida dos agentes &agrave; cidade em abril, maio e junho de 1993. O que existem s&atilde;o registros de reuni&otilde;es do Conanda sobre o caso dos meninos, feitas ap&oacute;s as pris&otilde;es dos acusados, em julho. Isso poderia explicar a segunda e terceira fase da opera&ccedil;&atilde;o, mas n&atilde;o a primeira.<\/p>\n\n\n\n<p>H&aacute; apenas duas exce&ccedil;&otilde;es: uma delas &eacute; a ata de 13 de abril de 1993, em que o Conselho se prop&otilde;e a discutir sobre os crimes em Altamira e montar uma comiss&atilde;o de combate &agrave; viol&ecirc;ncia. A partir dessa data, os representantes acompanhariam a situa&ccedil;&atilde;o mais de perto. A a&ccedil;&atilde;o foi motivada pelo trabalho de um de seus conselheiros, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/augustino-pedro-veit\/\" target=\"_self\" title=\"Conselheiro do Conanda na &eacute;poca dos crimes\" class=\"encyclopedia\">Augustino Pedro Veit<\/a>, que foi at&eacute; o Par&aacute;, avaliou o caso e produziu um relat&oacute;rio preliminar.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/1993-04-13-ata-2-ao-conanda.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ata do Conanda de 13 de abril de 1993<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a publica&ccedil;&atilde;o do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/comite-em-defesa-das-criancas-altamirenses\/\" target=\"_self\" title=\"Grupo criado por familiares das v&iacute;timas para pedir por justi&ccedil;a\" class=\"encyclopedia\">Comit&ecirc; em Defesa da Vida das Crian&ccedil;as Altamirenses<\/a>, de 1996, Veit sugeriu ao Conanda &ldquo;que iniciasse mobiliza&ccedil;&atilde;o para que a Pol&iacute;cia Federal e a Procuradoria Geral da Uni&atilde;o entrassem no caso&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1UMXRiEBpuGXWbnMD2XYJ_x9-iYNzdyRJ\/view\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Relat&oacute;rio de Veit citado na publica&ccedil;&atilde;o do Comit&ecirc;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Ivan Mizanzuk entrou em contato com <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/augustino-pedro-veit\/\" target=\"_self\" title=\"Conselheiro do Conanda na &eacute;poca dos crimes\" class=\"encyclopedia\">Augustino Pedro Veit<\/a>, que aceitou gravar uma entrevista. Ele foi questionado sobre a recomenda&ccedil;&atilde;o que teria dado ao Conselho.&nbsp;&ldquo;Se eu sugeri [a entrada da PF], &eacute; porque na &eacute;poca tinha uma not&iacute;cia de que no Maranh&atilde;o e em outros estados poderia estar ocorrendo a mesma coisa&rdquo;, disse. Nesse per&iacute;odo, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a> j&aacute; havia atacado seis crian&ccedil;as no estado vizinho: cinco em 1991, e uma em 1992.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Mas no caso espec&iacute;fico de Altamira, eu nem poderia ter recomendado a presen&ccedil;a da Pol&iacute;cia Federal porque [a investiga&ccedil;&atilde;o] &eacute; de compet&ecirc;ncia da pol&iacute;cia do estado. Essa informa&ccedil;&atilde;o de eu ter sugerido a PF, acho que n&atilde;o procede n&atilde;o. Porque eu me lembro que a gente teve uma reuni&atilde;o com o delegado de Altamira, e ele me pareceu bastante empenhado&rdquo;, completou Veit.<\/p>\n\n\n\n<p>J&aacute; a segunda men&ccedil;&atilde;o em atas do Conanda sobre os emasculados, antes das pris&otilde;es, data de 8 de junho de 1993. O documento afirma:<\/p>\n\n\n\n<p><em>O Conselheiro Roberto de Mello Ramos informou que a Comiss&atilde;o de Viol&ecirc;ncia voltar&aacute; &agrave; Altamira na semana que vem, pois a Pol&iacute;cia Federal j&aacute; teve autoriza&ccedil;&atilde;o para fazer a investiga&ccedil;&atilde;o sobre a emascula&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;as e o inqu&eacute;rito j&aacute; est&aacute; praticamente concluso.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/1993-06-08-ata-4-ao-conanda.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ata do Conanda de 8 de junho de 1993<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, o Conanda j&aacute; sabia que a PF estava envolvida. Como o pr&oacute;prio Veit relatou, n&atilde;o partiu do Conselho o pedido para a entrada da corpora&ccedil;&atilde;o no caso. Portanto, o relato das fam&iacute;lias n&atilde;o condizia com a documenta&ccedil;&atilde;o da &eacute;poca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a&iacute; que Ivan Mizanzuk encontrou uma reportagem do jornal O Liberal, de 2 de agosto de 1993. Nela, h&aacute; uma entrevista com o ent&atilde;o coordenador geral da Pol&iacute;cia Civil do Par&aacute;, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/paulo-tamer\/\" target=\"_self\" title=\"Coordenador geral da Pol&iacute;cia Civil do Par&aacute; em 1993\" class=\"encyclopedia\">Paulo Tamer<\/a>. &Agrave; mat&eacute;ria, ele nega que a entrada dos agentes federais no caso tenha sido determina&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a:<\/p>\n\n\n\n<p><em>O que de fato ocorreu, diz [Tamer], foi a tomada de consci&ecirc;ncia coletiva da gravidade da situa&ccedil;&atilde;o por parte dos &oacute;rg&atilde;os respons&aacute;veis. Essa tomada de consci&ecirc;ncia efetivou-se em esfor&ccedil;o conjunto do qual participaram a Secretaria de Seguran&ccedil;a, atrav&eacute;s da Divis&atilde;o de Ordem Pol&iacute;tica e Social &ndash; a DOPS &ndash;, o Tribunal de Justi&ccedil;a do Estado, o Minist&eacute;rio P&uacute;blico Estadual e a Superintend&ecirc;ncia da Pol&iacute;cia Federal. Da soma de esfor&ccedil;os entre os diversos &oacute;rg&atilde;os, ocorreram provid&ecirc;ncias na esfera de cada um. A Secretaria de Estado de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica marcou presen&ccedil;a com a entrada da DOPS no caso, a Pol&iacute;cia Federal recebeu autoriza&ccedil;&atilde;o para investigar os crimes, o Poder Judici&aacute;rio nomeou uma ju&iacute;za espec&iacute;fica para atuar na esfera judicial e o Minist&eacute;rio P&uacute;blico designou promotor espec&iacute;fico para acompanhamento das investiga&ccedil;&otilde;es.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/1993-08-02-Tamer-admite-erros-em-Altamira-O-Liberal.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mat&eacute;ria do jornal O Liberal &ndash; &ldquo;Tamer admite erros em Altamira&rdquo;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O promotor designado para acompanhar essas investiga&ccedil;&otilde;es foi <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/sergio-tiburcio-dos-santos-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Promotor designado para atuar em Altamira em junho de 1993\" class=\"encyclopedia\">S&eacute;rgio Tib&uacute;rcio dos Santos Silva<\/a>. A produ&ccedil;&atilde;o do podcast tentou entrar em contato com o gabinete dele para marcar uma entrevista, mas n&atilde;o obteve retorno.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J&aacute; <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/paulo-tamer\/\" target=\"_self\" title=\"Coordenador geral da Pol&iacute;cia Civil do Par&aacute; em 1993\" class=\"encyclopedia\">Paulo Tamer<\/a> topou conversar com Ivan Mizanzuk. E aqui j&aacute; &eacute; necess&aacute;rio um esclarecimento: quando se pensa em DOPS, geralmente vem &agrave; cabe&ccedil;a a Pol&iacute;cia Civil na &eacute;poca da ditadura militar. Mas o ex-coordenador relatou que, ap&oacute;s a redemocratiza&ccedil;&atilde;o, a Divis&atilde;o passou por algumas mudan&ccedil;as. Uma explica&ccedil;&atilde;o mais detalhada veio em uma mensagem de WhatsApp para a produ&ccedil;&atilde;o do podcast. Nela, Tamer diz:<\/p>\n\n\n\n<p><em>A DOPS era uma unidade da Pol&iacute;cia Civil, esta &oacute;rg&atilde;o da Secretaria de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tanto a Pol&iacute;cia Civil quanto a Federal, &agrave; &eacute;poca, em seu quadro de unidades, tinha a DOPS.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>A DOPS, na era dos governos militares, era institui&ccedil;&atilde;o destinada a apurar os crimes, &agrave; &eacute;poca, praticados contra a ordem social e pol&iacute;tica do estado ou na&ccedil;&atilde;o, entretanto, com o advento da Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988, passou a apurar crimes praticados contra a administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica (sonega&ccedil;&atilde;o fiscal) e ordem social, aqueles de larga repercuss&atilde;o social, como o caso dos emasculados.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>A diferen&ccedil;a entre as institui&ccedil;&otilde;es &eacute; que uma apura crimes praticados contra a administra&ccedil;&atilde;o federal e a outra apura crimes que n&atilde;o sejam da esfera federal.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Tamer, a forte cobran&ccedil;a da popula&ccedil;&atilde;o de Altamira fez com que o secret&aacute;rio de seguran&ccedil;a do Par&aacute; o procurasse, para buscar ajuda nas investiga&ccedil;&otilde;es. Na &eacute;poca, ele havia acabado de assumir a coordenadoria geral da Pol&iacute;cia Civil no estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamer, ent&atilde;o, sugeriu ao secret&aacute;rio a realiza&ccedil;&atilde;o de um conv&ecirc;nio com agentes federais. Enquanto a PF forneceria os profissionais, a Civil daria o apoio log&iacute;stico necess&aacute;rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Foi uma equipe da Pol&iacute;cia Federal para l&aacute; e, depois, fechou-se o conv&ecirc;nio. Se n&atilde;o me falha a mem&oacute;ria, ap&oacute;s uns 15 dias, eles trouxeram um relat&oacute;rio. Em cima dele, a&iacute; sim n&oacute;s designamos a equipe do delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a> para ouvir as pessoas e pedir as pris&otilde;es&rdquo;, comentou ele ao Projeto Humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso significa que n&atilde;o houve interfer&ecirc;ncia do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a na primeira ida dos agentes &agrave; Altamira. Tamer afirmou ainda que a formaliza&ccedil;&atilde;o desse conv&ecirc;nio deveria estar nos autos, e se mostrou incr&eacute;dulo quando Ivan lhe informou que o processo n&atilde;o cont&eacute;m nenhum documento sobre isso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O espanto se estendeu tamb&eacute;m em rela&ccedil;&atilde;o ao sumi&ccedil;o de todos os registros da Opera&ccedil;&atilde;o Monstro de Altamira, conduzida pela PF. &ldquo;Olha, &eacute; uma grande surpresa para mim porque eu te dou certeza que nessa &eacute;poca o inqu&eacute;rito policial foi anexado aos autos. Eu era o delegado geral. Eu li todos os relat&oacute;rios sobre como eles chegaram ao poss&iacute;vel envolvimento dos m&eacute;dicos&rdquo;, completou.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Ivan entrevistou Tamer, assim como na &eacute;poca em que lan&ccedil;ou os epis&oacute;dios sobre a investiga&ccedil;&atilde;o de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a>, ele s&oacute; tinha acesso aos autos principais dos casos de Altamira. No decorrer dos meses, no entanto, o advogado e pesquisador <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rubens-pena-junior\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado e antrop&oacute;logo\" class=\"encyclopedia\">Rubens Pena J&uacute;nior<\/a> o contatou sobre a descoberta de um anexo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nele, estava o antes sumido relat&oacute;rio do delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a>, um documento de cinco p&aacute;ginas, datado de 15 de julho de 1993. O texto completo, que n&atilde;o cita a Pol&iacute;cia Federal em nenhum momento, est&aacute; dispon&iacute;vel aqui:<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/1993-07-15-Relatorio-final-Eder-Mauro.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Relat&oacute;rio final produzido por &Eacute;der Mauro<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Ao analisar com cuidado o processo principal, Ivan notou que faltam 27 folhas. Como se trata de um documento f&iacute;sico, entretanto, era comum que materiais entrassem ou sa&iacute;ssem dos autos e, por isso, o escriv&atilde;o precisava renumerar tudo manualmente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como v&aacute;rios desses profissionais passaram pelo caso dos emasculados, a diferen&ccedil;a de folhas pode ou n&atilde;o ser um erro na enumera&ccedil;&atilde;o.&nbsp;Para quem tiver interesse, h&aacute; abaixo uma tabela com a an&aacute;lise das rubricas dos escriv&atilde;es:<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/Tabela-Mudanca-Numeracao-Autos-Altamira.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Tabela com an&aacute;lise das rubricas<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Ainda durante a entrevista ao podcast, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/paulo-tamer\/\" target=\"_self\" title=\"Coordenador geral da Pol&iacute;cia Civil do Par&aacute; em 1993\" class=\"encyclopedia\">Paulo Tamer<\/a> revelou um detalhe interessante: o agente federal <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-carlos-de-souza-machado\/\" target=\"_self\" title=\"Policial federal que chefiou as investiga&ccedil;&otilde;es em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Carlos de Souza Machado<\/a>, que chefiou as miss&otilde;es da PF, acompanhava as dilig&ecirc;ncias conduzidas pelo delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a>. Isso significa que as pris&otilde;es de julho de 1993 de fato tiveram como base as informa&ccedil;&otilde;es colhidas durante a Opera&ccedil;&atilde;o Monstro de Altamira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo mat&eacute;rias de imprensa da &eacute;poca, deputados estaduais e federais do Par&aacute; pressionaram o Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a para que a pr&oacute;pria PF encerrasse o inqu&eacute;rito do caso, mas isso nunca aconteceu. No fim, o trabalho ficou sob responsabilidade de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a>, que formalizou as apura&ccedil;&otilde;es dos agentes federais. Estranhamente, essa coopera&ccedil;&atilde;o entre as institui&ccedil;&otilde;es foi retirada dos autos.<\/p>\n\n\n\n<p>O que chama a aten&ccedil;&atilde;o &eacute; como a Pol&iacute;cia Federal parecia tentar emular a situa&ccedil;&atilde;o de Guaratuba, do caso <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/evandro-ramos-caetano\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida e encontrada morta em abril de 1992 em Guaratuba\" class=\"encyclopedia\">Evandro Ramos Caetano<\/a>, ocorrido em 1992. No Paran&aacute;, sete pessoas foram presas. Em Altamira, havia sete suspeitos: Amailton e o pai, os dois m&eacute;dicos, os dois ex-PMs e Valentina. Na &eacute;poca, falava-se que esse era o n&uacute;mero de participantes necess&aacute;rio para a realiza&ccedil;&atilde;o dos rituais. Uma bobagem que nunca teve qualquer fundamento, criada nas confiss&otilde;es sob tortura dos acusados.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas essas informa&ccedil;&otilde;es valem para a primeira fase da opera&ccedil;&atilde;o. Ap&oacute;s as pris&otilde;es, a sensa&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria PF e das fam&iacute;lias das v&iacute;timas era de que a seita tinha mais membros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro de 1993, dois meses depois dos suspeitos serem detidos, mais um garoto desapareceu em Altamira: <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rosinaldo-farias-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Menino de 11 anos que desapareceu em setembro de 1993 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Rosinaldo Farias da Silva<\/a>, de 11 anos. Uma d&eacute;cada mais tarde, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a> admitiria ter sido o respons&aacute;vel pela morte da crian&ccedil;a, que jamais foi encontrada. Na ocasi&atilde;o do sumi&ccedil;o, contudo, a popula&ccedil;&atilde;o acreditava que o menino teria sido v&iacute;tima de outro membro da seita, o fazendeiro <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/vantuil-estevao-de-souza\/\" target=\"_self\" title=\"Fazendeiro de Altamira e marido da ju&iacute;za Vera Ara&uacute;jo\" class=\"encyclopedia\">Vantuil Estev&atilde;o de Souza<\/a>. Tudo isso j&aacute; foi explicado em detalhes no <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-13\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">epis&oacute;dio 13<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma vez, os crimes continuaram mesmo depois das pris&otilde;es dos supostos membros da seita. Para relembrar, os casos de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/klebson-ferreira-caldas\/\" target=\"_self\" title=\"Menino que desapareceu em Altamira em novembro de 1992\" class=\"encyclopedia\">Klebson Ferreira Caldas<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/mauricio-farias-de-souza\/\" target=\"_self\" title=\"Menino de 13 anos que desapareceu em dezembro de 1992 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Maur&iacute;cio Farias de Souza<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/flavio-lopes-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Menino de 10 anos morto em mar&ccedil;o de 1993 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Fl&aacute;vio Lopes da Silva<\/a> aconteceram ap&oacute;s o principal acusado na &eacute;poca, Amailton, ter sa&iacute;do da cidade &ndash; ele viajou de moto em outubro de 1992, data do assassinato de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jaenes-da-silva-pessoa\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a emasculada e morta em outubro de 1992 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jaenes da Silva Pessoa<\/a>. Todos esses garotos est&atilde;o na lista de confiss&atilde;o de Chagas.<\/p>\n\n\n\n<p>O que as fam&iacute;lias viam, por&eacute;m, era uma seita com muitos participantes, a maioria ainda solta pela regi&atilde;o. Baseada nessa cren&ccedil;a, a Pol&iacute;cia Federal conduziu a segunda fase da opera&ccedil;&atilde;o, que possui mais documenta&ccedil;&otilde;es. E elas s&atilde;o bem esquisitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos autos do processo, h&aacute; uma mat&eacute;ria em v&iacute;deo, de 1994 ou 1995, feita para um programa da Rede Bandeirantes e apresentado por <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/marilia-gabriela\/\" target=\"_self\" title=\"Famosa jornalista, apresentou programa que exibiu reportagem especial sobre Altamira\" class=\"encyclopedia\">Mar&iacute;lia Gabriela<\/a>. Nela, o jornalista <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/valteno-de-oliveira\/\" target=\"_self\" title=\"Rep&oacute;rter que produziu mat&eacute;ria especial sobre os emasculados na d&eacute;cada de 1990\" class=\"encyclopedia\">Valteno de Oliveira<\/a> mostra uma c&oacute;pia do relat&oacute;rio Monstro de Altamira, datado de 24 de setembro de 1993 &ndash; ou seja, j&aacute; ap&oacute;s as pris&otilde;es. O documento &eacute; assinado pelo agente <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-carlos-de-souza-machado\/\" target=\"_self\" title=\"Policial federal que chefiou as investiga&ccedil;&otilde;es em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Carlos de Souza Machado<\/a>, o mesmo que dep&ocirc;s no j&uacute;ri de Valentina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CDDPH<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da ordem para a entrada da PF n&atilde;o ter partido do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, h&aacute; ind&iacute;cios de que a pasta acompanhava o caso de perto. Um deles &eacute; uma resolu&ccedil;&atilde;o publicada no Di&aacute;rio Oficial, de 13 de outubro de 1993:<\/p>\n\n\n\n<p><em>O Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a e Presidente do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/conselho-de-defesa-dos-direitos-da-pessoa-humana\/\" target=\"_self\" title=\"At&eacute; 2014, foi o &oacute;rg&atilde;o respons&aacute;vel por investigar viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos no Brasil\" class=\"encyclopedia\">Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana<\/a>, no uso de suas atribui&ccedil;&otilde;es legais e ad referendum do Colegiado, resolve:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Instaurar inqu&eacute;rito para investigar as graves den&uacute;ncias de viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos em Altamira, no Estado do Par&aacute;, onde pelo menos desde 1989 h&aacute; registros de viol&ecirc;ncias praticadas contra crian&ccedil;as: sev&iacute;cias, viola&ccedil;&otilde;es, emascula&ccedil;&otilde;es e assassinatos.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/1993-10-08-Resolucao-Ministerio-da-Justica-para-abertura-de-inquerito-em-Altamira.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Resolu&ccedil;&atilde;o de 13 de outubro de 1993 para abertura de inqu&eacute;rito em Altamira<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Essa resolu&ccedil;&atilde;o partiu do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/conselho-de-defesa-dos-direitos-da-pessoa-humana\/\" target=\"_self\" title=\"At&eacute; 2014, foi o &oacute;rg&atilde;o respons&aacute;vel por investigar viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos no Brasil\" class=\"encyclopedia\">Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana<\/a> (CDDPH), que fazia parte do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A abertura desse inqu&eacute;rito se baseou na lei 4.319, de 16 de mar&ccedil;o de 1964. O artigo e os incisos espec&iacute;ficos afirmam:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Compete ao <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/conselho-de-defesa-dos-direitos-da-pessoa-humana\/\" target=\"_self\" title=\"At&eacute; 2014, foi o &oacute;rg&atilde;o respons&aacute;vel por investigar viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos no Brasil\" class=\"encyclopedia\">Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana<\/a>:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&bull; promover nas &aacute;reas que apresentem maiores &iacute;ndices de viola&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&bull; receber representa&ccedil;&otilde;es que contenham den&uacute;ncias de viola&ccedil;&otilde;es dos direitos da pessoa humana, apurar sua proced&ecirc;ncia e tomar provid&ecirc;ncias capazes de fazer cessar os abusos dos particulares ou das autoridades por eles respons&aacute;veis.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para compor a comiss&atilde;o de inqu&eacute;rito, foram designados tr&ecirc;s membros do CDDPH: <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-roberto-batochio\/\" target=\"_self\" title=\"Membro do CDDPH designado nos anos 90 para investigar as den&uacute;ncias em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Roberto Batochio<\/a>, representante do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB); <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/alvaro-augusto-ribeiro-costa\/\" target=\"_self\" title=\"Membro do CDDPH indicado nos anos 90 para apurar as den&uacute;ncias em Altamira\" class=\"encyclopedia\">&Aacute;lvaro Augusto Ribeiro Costa<\/a>, do Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal; e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-clovis-de-souza\/\" target=\"_self\" title=\"Membro do CDDPH indicado nos anos 90 para investigar as den&uacute;ncias em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Francisco Cl&oacute;vis de Souza<\/a>, da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Imprensa (ABI).<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan Mizanzuk conseguiu conversar com Batochio, que hoje &eacute; um ocupado advogado em S&atilde;o Paulo. Ele foi bastante prestativo, mas n&atilde;o se lembrava de muita coisa. Por isso, declinou o convite para uma entrevista. Infelizmente, o contato com os outros dois envolvidos n&atilde;o foi bem sucedido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer modo, o que importa &eacute; o seguinte: a segunda e a terceira fase da opera&ccedil;&atilde;o da PF provavelmente ocorreu por determina&ccedil;&atilde;o do CDDPH, que era localizado no Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a. No momento, pelo menos, &eacute; o que os documentos dispon&iacute;veis parecem apontar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, afinal, o que era o CDDPH? Como o pr&oacute;prio nome sugere, o Conselho era o &oacute;rg&atilde;o respons&aacute;vel por avaliar den&uacute;ncias de viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos. H&aacute; aqui um grande por&eacute;m: ele teve origem na ditadura militar, justamente o per&iacute;odo de maior repress&atilde;o pol&iacute;tica na hist&oacute;ria do Brasil. Como isso aconteceu? E qual a rela&ccedil;&atilde;o desse grupo com as investiga&ccedil;&otilde;es em Altamira?<\/p>\n\n\n\n<p>Ao pesquisar sobre o CDDPH, Ivan Mizanzuk encontrou o trabalho do professor e historiador <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/leonardo-fetter-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Historiador consultado para o podcast\" class=\"encyclopedia\">Leonardo Fetter da Silva<\/a>, que estudou sobre o tema.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o pesquisador, a primeira proposta de um mecanismo para tratar sobre direitos humanos no Brasil data de 1956. Na ocasi&atilde;o, o Congresso Nacional sugeriu a cria&ccedil;&atilde;o do CDDPH, e o projeto ficou em tramita&ccedil;&atilde;o por oito anos at&eacute; ser aprovado. Em 16 de mar&ccedil;o de 1964, ele passou pela san&ccedil;&atilde;o do presidente Jo&atilde;o Goulart, mas logo encontrou um obst&aacute;culo: 15 dias depois, o governo sofreu um golpe civil-militar, Goulart acabou destitu&iacute;do e a instala&ccedil;&atilde;o do Conselho foi deixada de lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1968, o regime resolveu organizar uma cerim&ocirc;nia para finalmente inaugurar os trabalhos do CDDPH. O evento, que contou com representantes nacionais e internacionais, marcou o in&iacute;cio de um &oacute;rg&atilde;o que atuaria durante todo o per&iacute;odo da ditadura &ndash; ele s&oacute; n&atilde;o se reuniu entre 1974 e 1979.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Leonardo Fetter, entre as institui&ccedil;&otilde;es que insistiram pela instaura&ccedil;&atilde;o do Conselho estavam a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o partido opositor ao regime, o Movimento Democr&aacute;tico Brasileiro (MDB).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Eu destaco 1968 como um ano muito importante para os direitos humanos no Brasil. Como sabemos, nesse per&iacute;odo n&oacute;s temos uma maior repress&atilde;o a uma s&eacute;rie de grandes manifesta&ccedil;&otilde;es da classe m&eacute;dia e dos estudantes, e &agrave;s greves dos trabalhadores. Diante disso, principalmente a OAB vai pautar a instala&ccedil;&atilde;o do Conselho&rdquo;, explicou o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; importante ter em mente que as lutas sociais que n&oacute;s conhecemos hoje, como o movimento negro ou ind&iacute;gena, come&ccedil;aram a surgir com mais for&ccedil;a a partir da d&eacute;cada de 1970, depois da cria&ccedil;&atilde;o do CDDPH. Isso quer dizer que o Conselho n&atilde;o foi instalado com o objetivo de representar essas minorias, mas sim como forma de legitimar a ditadura como n&atilde;o violadora dos direitos humanos &ndash; o que &eacute;, claro, um enorme contrassenso.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Na cerim&ocirc;nia de instala&ccedil;&atilde;o do Conselho, no final de 1968, o ministro da justi&ccedil;a e o presidente ditador Arthur Costa e Silva fazem dois pronunciamentos. Eles destacam esse ato como representante do Estado de Direito que a ditadura buscava trazer para si. Como representante da democracia, da constitucionalidade e do respeito aos direitos humanos no Brasil&rdquo;, completou o historiador.<\/p>\n\n\n\n<p>De 1968 a 1985, o CDDPH foi acionado pelo regime a fim de apurar diversas den&uacute;ncias de viola&ccedil;&otilde;es e, sobretudo, silenci&aacute;-las. &ldquo;Durante todo esse per&iacute;odo, o Conselho n&atilde;o conseguiu promover nenhuma ampla ou profunda investiga&ccedil;&atilde;o. Todos os casos envolvendo opositores pol&iacute;ticos eram prontamente arquivados em uma breve an&aacute;lise. N&atilde;o se questionava a vers&atilde;o oficial dos fatos. N&atilde;o se questionava os &oacute;rg&atilde;os de seguran&ccedil;a, de repress&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os noves membros do CDDPH, quatro at&eacute; tentavam levar as den&uacute;ncias adiante, como era o caso dos representantes da OAB, do MDB e da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Imprensa (ABI). O problema &eacute; que eles n&atilde;o tinham for&ccedil;a o suficiente para que isso de fato acontecesse.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No fim, os relat&oacute;rios reafirmavam a vers&atilde;o oficial do governo: de que a pessoa n&atilde;o esteve presa, de que n&atilde;o morreu em fun&ccedil;&atilde;o de tortura ou n&atilde;o foi assassinada dentro de um &oacute;rg&atilde;o repressivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para piorar, em 1971, a lei Ruy Santos aumentou para 12 o n&uacute;mero de integrantes do Conselho, o que adicionou mais tr&ecirc;s pessoas favor&aacute;veis ao regime. Vale lembrar que o CDDPH estava dentro do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, &oacute;rg&atilde;o que tem o poder de acionar a Pol&iacute;cia Federal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na d&eacute;cada de 1990, o cen&aacute;rio j&aacute; era outro. Com o fim da ditadura, os membros eram todos civis, realmente interessados em investigar as viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos. No entanto, por ser um grupo que j&aacute; surgiu com problemas, ele precisou ser totalmente reestruturado para que pudesse cumprir o seu papel.<\/p>\n\n\n\n<p>Na &eacute;poca dos j&uacute;ris em Bel&eacute;m, em 2003, o governo de Luiz In&aacute;cio Lula da Silva criou a Secretaria Nacional dos Direitos Humanos. Comandada ent&atilde;o por <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/nilmario-miranda\/\" target=\"_self\" title=\"Secret&aacute;rio de Direitos Humanos do primeiro governo Lula\" class=\"encyclopedia\">Nilm&aacute;rio Miranda<\/a>, ela ganhou status ministerial e se tornou posteriormente uma pasta oficial do Executivo.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Talvez a cria&ccedil;&atilde;o dessa secretaria seja um desses caminhos para tentar resolver uma s&eacute;rie de den&uacute;ncias de viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos no Brasil, para que essas quest&otilde;es ganhem mais for&ccedil;a. E a&iacute; o pr&oacute;prio Conselho [CDDPH] fica subordinada &agrave; essa secretaria&rdquo;, afirmou Leonardo Fetter.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb&eacute;m no in&iacute;cio dos anos 2000, um projeto de lei prop&ocirc;s transformar o CDDPH no que hoje &eacute; o Conselho Nacional de Direitos Humanos, o que s&oacute; ocorreu em 2014. A partir dessa mudan&ccedil;a, ele saiu do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a para integrar o Minist&eacute;rio de Direitos Humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, o &oacute;rg&atilde;o respons&aacute;vel por avaliar den&uacute;ncias relacionadas aos direitos humanos foi estruturado durante a ditadura militar, de forma que silenciasse os crimes e legitimasse o regime. Ap&oacute;s a redemocratiza&ccedil;&atilde;o, o CDDPH continuou a enfrentar v&aacute;rias dificuldades, mas era o que existia na &eacute;poca. E, por estar dentro do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, ele podia acionar a Pol&iacute;cia Federal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a PF em espec&iacute;fico, o historiador relembrou que a institui&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m esteve envolvida em a&ccedil;&otilde;es repressivas no per&iacute;odo da ditadura, e acabou citada na Comiss&atilde;o Nacional da Verdade. Como a Lei da Anistia, de 1979, absolveu n&atilde;o s&oacute; os perseguidos pelo regime, mas tamb&eacute;m os agentes de repress&atilde;o, esses funcion&aacute;rios n&atilde;o foram expulsos do governo. Eles simplesmente foram direcionados para outras fun&ccedil;&otilde;es e reparti&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;A Pol&iacute;cia Federal &eacute; uma das &uacute;nicas institui&ccedil;&otilde;es que participaram da repress&atilde;o e que sobreviveram &agrave; passagem para a democracia. Ent&atilde;o, muitos desses agentes que faziam parte de outros &oacute;rg&atilde;os podem ter sido incorporados &agrave; PF&rdquo;, comentou o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p>A auto-anistia, cujas consequ&ecirc;ncias vemos at&eacute; hoje, fez com que m&eacute;todos do regime continuassem a ser adotados mesmo ap&oacute;s a redemocratiza&ccedil;&atilde;o. &ldquo;A perman&ecirc;ncia desses agentes dentro do Estado possibilita que eles fiquem livres e impunes dos crimes que cometeram, e provavelmente replicando pr&aacute;ticas aprendidas durante a ditadura. Pr&aacute;ticas que violam os direitos humanos&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Ivan Mizanzuk, a forma&ccedil;&atilde;o dos policiais federais que foram para Altamira na d&eacute;cada de 1990 &eacute; uma quest&atilde;o-chave. Eles estavam em uma miss&atilde;o sob a bandeira dos direitos humanos, a mando do CDDPH, um &oacute;rg&atilde;o projetado para n&atilde;o ter for&ccedil;a de atua&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso &eacute; especialmente curioso porque o Arquivo Nacional cont&eacute;m dois relat&oacute;rios sobre <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-carlos-de-souza-machado\/\" target=\"_self\" title=\"Policial federal que chefiou as investiga&ccedil;&otilde;es em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Carlos de Souza Machado<\/a>, o chefe de miss&atilde;o nas tr&ecirc;s primeiras fases da Opera&ccedil;&atilde;o Monstro de Altamira. Esses documentos, produzidos nos anos 70, ajudam a entender os m&eacute;todos de investiga&ccedil;&atilde;o utilizados por ele.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>RELAT&Oacute;RIOS DO ARQUIVO NACIONAL<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro relat&oacute;rio &eacute; da Divis&atilde;o de Seguran&ccedil;a de Informa&ccedil;&otilde;es, do Minist&eacute;rio do Interior. Ele &eacute; o resultado de uma investiga&ccedil;&atilde;o sobre um conflito contra garimpeiros no Amap&aacute;, em 14 de setembro de 1976. A primeira p&aacute;gina diz:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Segundo a autoridade processante, a autoria dos crimes de homic&iacute;dios e les&otilde;es corporais graves cabiam a um servidor da <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/funai\/\" target=\"_self\" title=\"Institui&ccedil;&atilde;o que tem como miss&atilde;o proteger os direitos dos povos ind&iacute;genas\" class=\"encyclopedia\">FUNAI<\/a> e ao agente da Pol&iacute;cia Federal <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-carlos-de-souza-machado\/\" target=\"_self\" title=\"Policial federal que chefiou as investiga&ccedil;&otilde;es em Altamira\" class=\"encyclopedia\">JOS&Eacute; CARLOS DE SOUZA MACHADO<\/a>, por estarem na ocasi&atilde;o da dire&ccedil;&atilde;o da dilig&ecirc;ncia.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o documento, Jos&eacute; Carlos teria sido o respons&aacute;vel por iniciar o confronto, com a ajuda de ind&iacute;genas e servidores da <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/funai\/\" target=\"_self\" title=\"Institui&ccedil;&atilde;o que tem como miss&atilde;o proteger os direitos dos povos ind&iacute;genas\" class=\"encyclopedia\">FUNAI<\/a>. Um deles era um respeitado sertanista da regi&atilde;o, chamado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/fiorello-parise\/\" target=\"_self\" title=\"Sertanista do Amap&aacute; citado em relat&oacute;rio do Arquivo Nacional\" class=\"encyclopedia\">Fiorello Parise<\/a>.&nbsp;Ivan Mizanzuk entrou em contato com a fam&iacute;lia de Parise para tentar uma entrevista, mas ele recusou por quest&otilde;es de sa&uacute;de.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist&oacute;ria do relat&oacute;rio &eacute; a seguinte: em certa ocasi&atilde;o, ind&iacute;genas denunciaram &agrave; <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/funai\/\" target=\"_self\" title=\"Institui&ccedil;&atilde;o que tem como miss&atilde;o proteger os direitos dos povos ind&iacute;genas\" class=\"encyclopedia\">FUNAI<\/a> a invas&atilde;o de suas terras por garimpeiros. O servidor da Funda&ccedil;&atilde;o, ent&atilde;o, procurou o aux&iacute;lio da Pol&iacute;cia Federal, que enviou o agente Jos&eacute; Carlos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O policial teria agido com trucul&ecirc;ncia e mandado os ind&iacute;genas e servidores atirar contra os garimpeiros. Al&eacute;m disso, o grupo teria amarrado os invasores, os espancado e os colocado de joelhos em cima de pedregulhos. Como consequ&ecirc;ncia, um indiv&iacute;duo morreu e outros ficaram feridos.<\/p>\n\n\n\n<p>A investiga&ccedil;&atilde;o ainda apurou que os garimpeiros n&atilde;o sabiam que aquela era uma &aacute;rea reservada, por serem pessoas muito simples e ignorantes. Para tornar o caso ainda mais estranho, a morte causada no epis&oacute;dio foi atribu&iacute;da &agrave; a&ccedil;&atilde;o do servidor da <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/funai\/\" target=\"_self\" title=\"Institui&ccedil;&atilde;o que tem como miss&atilde;o proteger os direitos dos povos ind&iacute;genas\" class=\"encyclopedia\">FUNAI<\/a>, incentivada por Jos&eacute; Carlos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o documento, essa viol&ecirc;ncia era desnecess&aacute;ria, j&aacute; que as armas dos invasores j&aacute; haviam sido apreendidas. Uma passagem do relat&oacute;rio lista os supostos abusos:<\/p>\n\n\n\n<p><em>E o que se sentiu desde o primeiro contato mantido entre <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/funai\/\" target=\"_self\" title=\"Institui&ccedil;&atilde;o que tem como miss&atilde;o proteger os direitos dos povos ind&iacute;genas\" class=\"encyclopedia\">FUNAI<\/a> e Departamento da Pol&iacute;cia Federal foi que <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-carlos-de-souza-machado\/\" target=\"_self\" title=\"Policial federal que chefiou as investiga&ccedil;&otilde;es em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Carlos de Souza Machado<\/a>, que ent&atilde;o respondia pela citada Divis&atilde;o, demonstrava logo seu instinto maldoso.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Primeiro: quando da apresenta&ccedil;&atilde;o de Agostinho [um outro agente da PF que estava no grupo], afirmando ser ele de f&eacute;, que atirava primeiro para depois ir ver quem era;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Segundo, quando pediu cordas para amarrar os garimpeiros, depois afirmando que se queriam briga, que aguentassem as consequ&ecirc;ncias;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Terceiro, dando ordem &agrave; Jos&eacute; Alves Sobrinho [outro servidor da <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/funai\/\" target=\"_self\" title=\"Institui&ccedil;&atilde;o que tem como miss&atilde;o proteger os direitos dos povos ind&iacute;genas\" class=\"encyclopedia\">FUNAI<\/a>], que se algu&eacute;m tentasse passar na ponte do rio On&ccedil;a, que podia levantar a &ldquo;carabina&rdquo;. Antes, j&aacute; tinha prendido algumas pessoas e apreendido armas, algumas delas distribu&iacute;das para a dilig&ecirc;ncia.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Nossa afirmativa j&aacute; come&ccedil;ou a se concretizar quando, no caminho, prendeu dois garimpeiros, e os espancou sem que apresentassem qualquer rea&ccedil;&atilde;o. Depois, dando ordens a que dois servidores da <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/funai\/\" target=\"_self\" title=\"Institui&ccedil;&atilde;o que tem como miss&atilde;o proteger os direitos dos povos ind&iacute;genas\" class=\"encyclopedia\">FUNAI<\/a> tamb&eacute;m os espancassem, o que n&atilde;o fizeram, e mandando atirar nos garimpeiros para valer se tentassem reagir, e nas pernas, se tentassem correr.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Quarto, amea&ccedil;ando e prendendo garimpeiros e mandando amarr&aacute;-los com as m&atilde;os para tr&aacute;s, colocando-os de joelhos sobre pedregulhos, bem assim uma senhora que acompanhava o marido e um menor de cinco anos de idade, espancando sem necessidade dois deles, os quais n&atilde;o mandamos para corpo de delito por n&atilde;o apresentarem les&otilde;es aparentes.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Al&eacute;m de uma s&eacute;rie de outras arbitrariedades por ele praticadas, chegando a um desfecho violento, posto que na confus&atilde;o verificada nos garimpos morreu um e dois ficaram feridos, sem que possamos atribuir a outras quaisquer pessoas, a n&atilde;o ser ao agente <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-carlos-de-souza-machado\/\" target=\"_self\" title=\"Policial federal que chefiou as investiga&ccedil;&otilde;es em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Carlos de Souza Machado<\/a> e ao sertanista da <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/funai\/\" target=\"_self\" title=\"Institui&ccedil;&atilde;o que tem como miss&atilde;o proteger os direitos dos povos ind&iacute;genas\" class=\"encyclopedia\">FUNAI<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/fiorello-parise\/\" target=\"_self\" title=\"Sertanista do Amap&aacute; citado em relat&oacute;rio do Arquivo Nacional\" class=\"encyclopedia\">Fiorello Parise<\/a>, a autoria desses crimes, por terem sobre seus ombros a dire&ccedil;&atilde;o da dilig&ecirc;ncia, e n&atilde;o tiveram o controle devido na hora precisa, sendo PARISE acusado frontalmente por dois garimpeiros atacados como o autor do disparo que vitimou um deles.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Esse relat&oacute;rio, que ficou pronto em dezembro de 1976, foi assinado pelo delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-alves-de-oliveira\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado que assinou relat&oacute;rio do Arquivo Nacional referente ao agente Jos&eacute; Carlos\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Alves de Oliveira<\/a>. Na c&oacute;pia do documento que consta no Arquivo Nacional, h&aacute; ainda um pedido do Servi&ccedil;o Nacional de Informa&ccedil;&otilde;es, o antigo SNI, de 8 de mar&ccedil;o de 1977. Nele, o &oacute;rg&atilde;o solicitava atualiza&ccedil;&otilde;es do caso, especialmente em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s acusa&ccedil;&otilde;es contra Parise e Jos&eacute; Carlos.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta, enviada em 12 de maio, dizia apenas que o Minist&eacute;rio P&uacute;blico ainda n&atilde;o havia oferecido den&uacute;ncia, e que a <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/funai\/\" target=\"_self\" title=\"Institui&ccedil;&atilde;o que tem como miss&atilde;o proteger os direitos dos povos ind&iacute;genas\" class=\"encyclopedia\">FUNAI<\/a> aguardava a avalia&ccedil;&atilde;o de um perito para constatar se a &aacute;rea do conflito era de fato ind&iacute;gena.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois disso, n&atilde;o h&aacute; mais informa&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o foi poss&iacute;vel verificar se isso chegou a virar uma a&ccedil;&atilde;o contra o agente Jos&eacute; Carlos, que na &eacute;poca era um jovem policial.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1-LxooMKpv-8kY0E6MOLcSWbJBQXMmOt8\/view\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Jos&eacute; Carlos x Garimpeiros (Arquivo Nacional)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Mas, apesar de n&atilde;o sabermos os rumos legais desse epis&oacute;dio, &eacute; ineg&aacute;vel que ele teve repercuss&otilde;es bastante desagrad&aacute;veis para o agente.<\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; aqui que entra o segundo relat&oacute;rio, uma sindic&acirc;ncia da Pol&iacute;cia Federal, de 8 de junho de 1977. Ele envolve o chamado Jornal do Povo, de Macap&aacute; (AM), o primeiro ve&iacute;culo di&aacute;rio do estado, e relativamente novo na &eacute;poca. O peri&oacute;dico era dirigido pelo jornalista <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/haroldo-franco\/\" target=\"_self\" title=\"Dono de jornal citado em relat&oacute;rio do Arquivo Nacional referente ao agente Jos&eacute; Carlos\" class=\"encyclopedia\">Haroldo Franco<\/a>, que hoje &eacute; considerado um personagem hist&oacute;rico da regi&atilde;o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na d&eacute;cada de 1970, o jornal fez uma s&eacute;rie de reportagens denunciando abusos do agente Jos&eacute; Carlos, sobretudo nos conflitos em garimpos. De acordo com o relat&oacute;rio, em 1977, o policial era Chefe do Servi&ccedil;o de Censura no Amap&aacute;.<\/p>\n\n\n\n<p>Em certo momento, ele teria apreendido todas as edi&ccedil;&otilde;es do Jornal do Povo, sob a justificativa de que estavam sem expediente &ndash; a lista dos jornalistas respons&aacute;veis pelas mat&eacute;rias, al&eacute;m de informa&ccedil;&otilde;es de contato e endere&ccedil;o do ve&iacute;culo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap&oacute;s a apreens&atilde;o, o pr&oacute;prio delegado da Pol&iacute;cia Federal interveio. Ele alegou que Jos&eacute; Carlos teria se confundido, pois o expediente n&atilde;o estava na capa, mas sim na terceira p&aacute;gina do jornal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Anexadas ao relat&oacute;rio, est&atilde;o algumas reportagens que narram a trucul&ecirc;ncia do policial nesse epis&oacute;dio, e como ele estava incomodado com as not&iacute;cias publicadas sobre ele. Uma delas, do jornal O Estado do Par&aacute;, de 9 de maio de 1977, relata:<\/p>\n\n\n\n<p><em>As ocorr&ecirc;ncias vergonhosas no Territ&oacute;rio, patrocinadas pela PF, como se o Jornal do Povo estivesse em algum delito contra a seguran&ccedil;a nacional, foram provocadas pelo agente Z&eacute; Carlos em repres&aacute;lia a uma not&iacute;cia veiculada no JP a respeito de cenas violentas praticadas com armas de fogo contra garimpeiros na localidade Pedra Branca, na zona da Estrada de Ferro. Por causa disso, Jos&eacute; Carlos, b&ecirc;bado, j&aacute; estivera no Jornal do Povo, querendo censurar a reda&ccedil;&atilde;o, no que foi impedido pelos diretores do peri&oacute;dico, que o convidaram a sair. Depois da not&iacute;cia, era inten&ccedil;&atilde;o do agente prejudicar de qualquer maneira o matutino, e com esse prop&oacute;sito envolveu o delegado Geraldo, que foi obrigado a assumir a responsabilidade dos fatos.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No fim, a sindic&acirc;ncia entendeu que a apreens&atilde;o dos jornais havia sido um erro, mas que o policial tinha a autoriza&ccedil;&atilde;o do delegado e agia de acordo com a lei.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como no caso contra os garimpeiros, n&atilde;o se sabe qual foi o desfecho desse outro evento. O teor da conclus&atilde;o, por&eacute;m, deixa claro que a PF n&atilde;o tomou nenhuma medida punitiva contra Jos&eacute; Carlos.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer forma, aqui temos algo novo: ele era bastante ativo em &oacute;rg&atilde;os de repress&atilde;o durante a ditadura e, mesmo nesse contexto, foi suspeito de atos excessivos contra civis.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/15-jysK5Eg8TiPkCMgNZl1C3PQhwFKYWe\/view\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Sindic&acirc;ncia envolvendo Jos&eacute; Carlos (Arquivo Nacional)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m disso, outra informa&ccedil;&atilde;o importante sobre o agente &eacute; que, em maio de 1993, ele foi eleito presidente do Sindicato dos Policiais Federais no Estado do Par&aacute;. Mais detalhes sobre isso foram encontrados na p&aacute;gina da institui&ccedil;&atilde;o na internet:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Em 04 de maio de 1993, houve elei&ccedil;&atilde;o com tr&ecirc;s chapas. Os empossados foram eleitos para o mandato da Diretoria no bi&ecirc;nio 93\/95.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Esta Diretoria dirigiu a maior greve da hist&oacute;ria do Departamento da Pol&iacute;cia Federal. Em novembro de 1994, assumiu interinamente o 2&ordm; tesoureiro, onde foi escolhida uma junta governativa provis&oacute;ria para administrar o sindicato no per&iacute;odo de novembro de 1994 a maio de 1995, em virtude de ren&uacute;ncia coletiva.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Essa elei&ccedil;&atilde;o ocorreu na mesma &eacute;poca em que Jos&eacute; Carlos estava em Altamira na primeira fase das investiga&ccedil;&otilde;es. Por ter sido escolhido em uma disputa com duas chapas, &eacute; poss&iacute;vel supor que ele era uma figura de respeito na PF do Par&aacute;. N&atilde;o &agrave; toa, como o pr&oacute;prio sindicato informa, ele dirigiu a maior greve da hist&oacute;ria da institui&ccedil;&atilde;o, o que resultou na ren&uacute;ncia coletiva do grupo eleito.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/Historico-Presidentes-%E2%80%93-SINPEF-%E2%80%93-PA.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Arquivo Hist&oacute;rico Presidentes &ndash; SINPEF &ndash; PA<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.sinpefpa.org.br\/institucional\/historico\/\">P&aacute;gina do SINPEF &ndash; PA<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Voltando ao caso dos emasculados, em abril de 1994, o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/conselho-nacional-dos-direitos-da-crianca-e-do-adolescente\/\" target=\"_self\" title=\"&Oacute;rg&atilde;o que contribui para definir pol&iacute;ticas para a inf&acirc;ncia e a adolesc&ecirc;ncia\" class=\"encyclopedia\">Conselho Nacional dos Direitos da Crian&ccedil;a e do Adolescente<\/a> (Conanda) realizou um novo encontro. Os membros agora cobravam provid&ecirc;ncias para que os representantes do CDDPH fossem para Altamira investigar a situa&ccedil;&atilde;o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A reuni&atilde;o do Conanda aconteceu na &eacute;poca da finaliza&ccedil;&atilde;o da CPI destinada a apurar crimes contra menores no pa&iacute;s, que ouviu os familiares das v&iacute;timas no Par&aacute;. Na Comiss&atilde;o, destrinchada nos epis&oacute;dios <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-04\/\">4<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-13\/\">13<\/a>, foi levantada a suspeita de que o fazendeiro Vantuil teria participado do desaparecimento do menino Rosinaldo, em setembro de 1993.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m da CPI, neste mesmo per&iacute;odo, o promotor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/roberto-pereira-pinho\/\" target=\"_self\" title=\"Promotor que pede a impron&uacute;ncia dos r&eacute;us em 1994, com exce&ccedil;&atilde;o de Valentina\" class=\"encyclopedia\">Roberto Pereira Pinho<\/a> sugeriu a impron&uacute;ncia de todos os acusados em Altamira, por considerar que n&atilde;o havia provas suficientes contra eles. No fim, o juiz <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-orlando-de-paula-arrifano\/\" target=\"_self\" title=\"Magistrado que ouve testemunhas durante a fase em ju&iacute;zo\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Orlando de Paula Arrifano<\/a> contrariou a recomenda&ccedil;&atilde;o e determinou que os suspeitos fossem a j&uacute;ri.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, a nova assembleia do Conanda tinha o seguinte clima: &ldquo;os poderosos est&atilde;o agindo para sa&iacute;rem impunes novamente, e algo precisa ser feito&rdquo;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/9.-1994-04-12-e-13-Conanda-13a-Assembleia-cita-Altamira-na-pag-3-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ata da reuni&atilde;o do Conanda de abril de 1994 &ndash; cita Altamira na p&aacute;gina 3<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Em 31 de maio de 1994, uma grande audi&ecirc;ncia p&uacute;blica ocorreu em Altamira. No dia seguinte, ela foi noticiada pelo jornal O Liberal:<\/p>\n\n\n\n<p><em>A Pol&iacute;cia Federal deve voltar a investigar os assassinatos, emascula&ccedil;&otilde;es, sequestros e desaparecimento de meninos em Altamira. Essa foi a principal reivindica&ccedil;&atilde;o dos parentes das v&iacute;timas, representantes de entidades empenhadas na elucida&ccedil;&atilde;o dos crimes e do povo altamirense, feita durante a audi&ecirc;ncia p&uacute;blica realizada, na tarde de ontem, na cidade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O coronel <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/euro-barbosa-de-barros\/\" target=\"_self\" title=\"Coronel do ex&eacute;rcito, era diretor do Departamento de Assuntos de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica nos anos 90\" class=\"encyclopedia\">Euro Barbosa de Barros<\/a>, diretor do Departamento de Assuntos de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica, &oacute;rg&atilde;o vinculado ao Departamento da Pol&iacute;cia Federal, que estava presente, vai entregar ao ministro da Justi&ccedil;a, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/alexandre-dupeyrat\/\" target=\"_self\" title=\"Ministro da Justi&ccedil;a entre abril de 1994 e janeiro de 1995\" class=\"encyclopedia\">Alexandre Dupeyrat<\/a>, um relat&oacute;rio sugerindo a medida. &ldquo;Tudo o que eu vi e ouvi leva ao convencimento de se prosseguir com as investiga&ccedil;&otilde;es atrav&eacute;s da Pol&iacute;cia Federal&rdquo;, disse o coronel, que tentou acompanhar de forma discreta a audi&ecirc;ncia, mas acabou falando ao p&uacute;blico presente no sal&atilde;o de conven&ccedil;&otilde;es Papa Jo&atilde;o XXIII sobre o assunto.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/1994-06-01-Policia-Federal-vai-voltar-a-Altamira-O-Liberal.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mat&eacute;ria do jornal O Liberal &ndash; &ldquo;Pol&iacute;cia Federal vai voltar &agrave; Altamira&rdquo;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Esse nome &eacute; importante: <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/euro-barbosa-de-barros\/\" target=\"_self\" title=\"Coronel do ex&eacute;rcito, era diretor do Departamento de Assuntos de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica nos anos 90\" class=\"encyclopedia\">Euro Barbosa de Barros<\/a>. Um coronel do ex&eacute;rcito que, de acordo com a reportagem, era diretor do Departamento de Assuntos de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica, &oacute;rg&atilde;o vinculado &agrave; Pol&iacute;cia Federal.<\/p>\n\n\n\n<p>Um militar na PF, em 1994. No <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-27\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">epis&oacute;dio 27<\/a>, o ex-ministro da justi&ccedil;a <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/alexandre-dupeyrat\/\" target=\"_self\" title=\"Ministro da Justi&ccedil;a entre abril de 1994 e janeiro de 1995\" class=\"encyclopedia\">Alexandre Dupeyrat<\/a> explicou como a redemocratiza&ccedil;&atilde;o foi marcada por uma tens&atilde;o entre os que queriam militares &agrave; frente do &oacute;rg&atilde;o e os que preferiam delegados de carreira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na &eacute;poca da audi&ecirc;ncia p&uacute;blica divulgada pelo jornal, o diretor geral da PF era <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/wilson-brandi-romao\/\" target=\"_self\" title=\"Militar, foi diretor geral da PF entre 1993 e 1995\" class=\"encyclopedia\">Wilson Brandi Rom&atilde;o<\/a>, um militar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda segundo a mat&eacute;ria, o coronel Euro Barbosa tinha a inten&ccedil;&atilde;o de conversar com Dupeyrat sobre as demandas das fam&iacute;lias. Para relembrar, algo semelhante foi dito pelo agente Jos&eacute; Carlos no j&uacute;ri de Valentina. Na ocasi&atilde;o, ele afirmou que o superintendente da PF na &eacute;poca tamb&eacute;m teria entrado em contato com o ministro.<\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; importante destacar que Jos&eacute; Carlos participou da reuni&atilde;o com os familiares das v&iacute;timas no fim de maio de 1994. Al&eacute;m dele, estavam presentes membros do CDDPH, como foi exigido no encontro do Conanda. Todos se reportavam, em alguma medida, ao Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, Dupeyrat poderia ter algumas respostas. Ele foi ministro da pasta entre abril de 1994 e janeiro de 1995, &eacute;poca da segunda fase da Opera&ccedil;&atilde;o Monstro de Altamira.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as conversas que teve com o ex-ministro, Ivan Mizanzuk lhe enviou uma s&eacute;rie de materiais, como reportagens, publica&ccedil;&otilde;es em di&aacute;rios oficiais e o depoimento de Jos&eacute; Carlos. Durante a entrevista para o podcast, Dupeyrat tamb&eacute;m falou sobre o coronel Euro Barbosa, que hoje j&aacute; &eacute; falecido, assim como <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/wilson-brandi-romao\/\" target=\"_self\" title=\"Militar, foi diretor geral da PF entre 1993 e 1995\" class=\"encyclopedia\">Wilson Brandi Rom&atilde;o<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Eu vi que esse sujeito [Barbosa] ocupava a Secretaria de Seguran&ccedil;a, que era absolutamente apagada e se limitava a fazer o seguinte: dar autoriza&ccedil;&atilde;o &agrave; empresas de seguran&ccedil;a privada para a compra de rifles, balas e rev&oacute;lveres. Um tro&ccedil;o totalmente sem relev&acirc;ncia. Ele era um burocrata que chancelava pedidos de renova&ccedil;&atilde;o de licen&ccedil;a e aquisi&ccedil;&atilde;o de materiais&rdquo;, disse o ex-ministro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Justamente por isso, Dupeyrat estranhou o fato do coronel ter atuado em uma situa&ccedil;&atilde;o t&atilde;o fora de sua al&ccedil;ada e compet&ecirc;ncia, como era o caso de Altamira. &ldquo;Essa pessoa se meteu a palpitar sobre esse assunto sem ter nenhum conhecimento, nada, zero, o que &eacute; uma coisa estranha&rdquo;, completou.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto Euro Barbosa quanto Brandi Rom&atilde;o s&atilde;o citados na Comiss&atilde;o Nacional da Verdade, que foi um grande esfor&ccedil;o do estado brasileiro para tentar elucidar crimes pol&iacute;ticos pelo regime militar.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com uma mat&eacute;ria do G1 sobre o tema, Rom&atilde;o &eacute; mencionado da seguinte forma:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Coronel do Ex&eacute;rcito. Foi secret&aacute;rio de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica do estado do Par&aacute; de maio de 1974 a mar&ccedil;o de 1975, per&iacute;odo em que as For&ccedil;as Armadas levaram a cabo a Opera&ccedil;&atilde;o Marajoara, no sudeste paraense. Durante a opera&ccedil;&atilde;o, pelo menos 49 guerrilheiros foram v&iacute;timas de desaparecimento for&ccedil;ado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>J&aacute; sobre o coronel Barbosa, a reportagem afirma:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Coronel da Pol&iacute;cia Militar do estado do Mato Grosso. Em 1&ordm; de junho de 1973, comandou a invas&atilde;o da sede da prelazia de S&atilde;o F&eacute;lix do Araguaia (MT), como forma de intimida&ccedil;&atilde;o ao bispo dom Pedro Casald&aacute;liga e &agrave; agente da prelazia Thereza Salles. Na opera&ccedil;&atilde;o, foram detidas ilegalmente e torturadas pessoas ligadas &agrave; prelazia.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/politica\/noticia\/2014\/12\/veja-lista-dos-377-apontados-como-responsaveis-por-crimes-na-ditadura.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mat&eacute;ria do G1 &ndash; &ldquo;Veja a lista dos 377 apontados como respons&aacute;veis por crimes na ditadura&rdquo;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso se traduz na seguinte situa&ccedil;&atilde;o: na segunda fase da opera&ccedil;&atilde;o em Altamira, n&oacute;s temos a atua&ccedil;&atilde;o de dois diretores vinculados &agrave; PF citados na Comiss&atilde;o Nacional da Verdade, envolvidos em torturas e viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos na &eacute;poca da ditadura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, o agente que comandou as miss&otilde;es, Jos&eacute; Carlos, foi formado justamente durante o regime, com hist&oacute;rico de ser truculento. Ironicamente, essas pessoas foram designadas pelo CDDPH a investigar os crimes dos emasculados, supostamente por ser um caso de viola&ccedil;&atilde;o de direitos humanos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse &eacute; um resqu&iacute;cio cristalino da anistia que ocorreu ap&oacute;s a ditadura militar. Apesar do fim do regime, os setores policiais continuaram &ldquo;contaminados&rdquo;. O resultado &eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o contradit&oacute;ria agravada pelo fato de Altamira ser uma regi&atilde;o com disputas hist&oacute;ricas entre a popula&ccedil;&atilde;o e os militares, sobretudo no per&iacute;odo da constru&ccedil;&atilde;o da Transamaz&ocirc;nica.<\/p>\n\n\n\n<p>N&atilde;o &agrave; toa, esses conflitos levaram a Igreja Cat&oacute;lica a se posicionar politicamente a favor dos mais pobres. Mas, no caso dos meninos emasculados, os mesmos agentes combatidos por ela, de repente, viraram aliados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na vis&atilde;o de Dupeyrat, n&atilde;o havia qualquer justificativa legal para a entrada da PF nas investiga&ccedil;&otilde;es. A &uacute;nica ocasi&atilde;o em que ele chegou a considerar uma interven&ccedil;&atilde;o federal foi quando se ventilou a hip&oacute;tese de tr&aacute;fico internacional de &oacute;rg&atilde;os.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele lembra que, em certa ocasi&atilde;o, essa tese foi divulgada por um jornal no exterior, a partir da entrevista com um professor universit&aacute;rio brasileiro, que dizia ter convic&ccedil;&atilde;o de que se tratava de tr&aacute;fico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao ler a reportagem, o ent&atilde;o ministro convocou o docente para ouvi-lo. Afinal, se ele tivesse provas, a&iacute; sim era caso de acionar a PF. &ldquo;Mas, chamado &agrave;s falas, primeiro ele n&atilde;o compareceu. E, depois, quando compareceu, n&atilde;o teve nada de concreto. Era tudo &lsquo;ouvi dizer&rsquo;. Por &lsquo;ouvir dizer&rsquo; voc&ecirc; n&atilde;o pode movimentar aparato investigat&oacute;rio nenhum&rdquo;, comentou Dupeyrat.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mat&eacute;ria da Folha de S. Paulo, de 4 de agosto de 1994, h&aacute; mais informa&ccedil;&otilde;es sobre esse epis&oacute;dio:<\/p>\n\n\n\n<p><em>O governo federal suspeita que a organiza&ccedil;&atilde;o criminosa que faz a emascula&ccedil;&atilde;o de meninos em Altamira tamb&eacute;m atue em outros estados e at&eacute; em outros pa&iacute;ses. A Pol&iacute;cia Federal obteve ind&iacute;cios de que a mesma organiza&ccedil;&atilde;o ainda assassinaria beb&ecirc;s para retirada de sangue e faria sequestro de meninas com mais de 14 anos.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Os estados onde ela atuaria s&atilde;o Maranh&atilde;o, Piau&iacute;, Goi&aacute;s, Esp&iacute;rito Santo, Amazonas, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A organiza&ccedil;&atilde;o teria conex&otilde;es dos EUA, Argentina, Uruguai e Paraguai.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O CDDPH, ligado ao Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, se reuniu ontem para avaliar as investiga&ccedil;&otilde;es que a PF faz h&aacute; 40 dias.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O ministro <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/alexandre-dupeyrat\/\" target=\"_self\" title=\"Ministro da Justi&ccedil;a entre abril de 1994 e janeiro de 1995\" class=\"encyclopedia\">Alexandre Dupeyrat<\/a> disse que s&oacute; pedir&aacute; a abertura de inqu&eacute;rito policial depois de obter mais evid&ecirc;ncias sobre a atua&ccedil;&atilde;o da organiza&ccedil;&atilde;o.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O coordenador das investiga&ccedil;&otilde;es, o Coronel <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/euro-barbosa-de-barros\/\" target=\"_self\" title=\"Coronel do ex&eacute;rcito, era diretor do Departamento de Assuntos de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica nos anos 90\" class=\"encyclopedia\">Euro Barbosa de Barros<\/a>, disse que a PF interceptou um telefonema entre uma mulher de Altamira e um homem de Bel&eacute;m, no qual eles negociavam o transporte do corpo de um beb&ecirc;.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>A PF trabalha com a hip&oacute;tese de que a emascula&ccedil;&atilde;o de meninos e os assassinato de beb&ecirc;s, com a retirada do sangue, serviriam para rituais sat&acirc;nicos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/1994-08-04-PF-investiga-rede-para-extracao-de-orgaos-humanos.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mat&eacute;ria da Folha de S. Paulo &ndash; &ldquo;PF investiga rede para extra&ccedil;&atilde;o de &oacute;rg&atilde;os humanos&rdquo;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, de acordo com os documentos que o podcast teve acesso, a primeira fase da Opera&ccedil;&atilde;o Monstro de Altamira, de 1993, seria resultado de um acordo de coopera&ccedil;&atilde;o entre a Pol&iacute;cia Federal e o Estado do Par&aacute;. J&aacute; a segunda e a terceira etapa, de 1994 e 1995, teriam ocorrido a pedido do CDDPH, ligado ao Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, que tinha poderes sobre a PF &ndash; tudo isso intermediado pelo coronel Euro Barbosa, diretor do Departamento de Assuntos de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica da corpora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>No meio da pesquisa, a produ&ccedil;&atilde;o do Projeto Humanos encontrou uma publica&ccedil;&atilde;o no Di&aacute;rio Oficial sobre a reparti&ccedil;&atilde;o comandada pelo coronel. &Eacute; a portaria 717, de 13 de setembro de 1994. Ela determina a cria&ccedil;&atilde;o, dentro do departamento, de um grupo armado que investigaria viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo as suas diretrizes, os membros da equipe seriam escolhidos pelo diretor do setor &ndash; ou seja, Euro Barbosa -, que supervisionaria os trabalhos. Al&eacute;m disso, a atua&ccedil;&atilde;o do grupo dependeria da requisi&ccedil;&atilde;o do CDDPH.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/1994-09-13-Ministerio-da-Justica-Portaria-717.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Portaria 717 de 13 de setembro de 1994<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Outra portaria do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, publicada em Di&aacute;rio Oficial, aprova a credencial dos integrantes do grupo comandado pelo coronel:<\/p>\n\n\n\n<p><em>O portador da presente credencial &eacute; membro do Grupo Permanente de Investiga&ccedil;&atilde;o de Viola&ccedil;&otilde;es aos Direitos Humanos do Departamento de Assuntos de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica, da Secretaria de Pol&iacute;cia Federal, a quem as autoridades p&uacute;blicas e privadas devem prestar aux&iacute;lio e coopera&ccedil;&atilde;o para o desempenho de suas miss&otilde;es oficiais emanadas do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/conselho-de-defesa-dos-direitos-da-pessoa-humana\/\" target=\"_self\" title=\"At&eacute; 2014, foi o &oacute;rg&atilde;o respons&aacute;vel por investigar viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos no Brasil\" class=\"encyclopedia\">Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana<\/a> do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>No exerc&iacute;cio de suas fun&ccedil;&otilde;es, est&aacute; investido das prerrogativas de acesso, fiscaliza&ccedil;&atilde;o e porte de arma, autorizadas aos integrantes do Sistema de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica, nos termos da Lei.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/1994-11-17-Portaria-Ministerio-da-Justica-sobre-Grupo-Permanente-de-Investigacao-de-Violacoes-aos-Direitos-Humanos.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Portaria de 17 de novembro de 1994 &ndash; aprova&ccedil;&atilde;o de credencial<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Abaixo da credencial, viria a assinatura do ministro da justi&ccedil;a &ndash; na &eacute;poca, o doutor Dupeyrat. Ali&aacute;s, ao analisar o documento agora, tantos anos depois, essa foi a primeira coisa que chamou a aten&ccedil;&atilde;o dele. E, curiosamente, o espa&ccedil;o destinado &agrave; assinatura est&aacute; em branco na resolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;O ministro da justi&ccedil;a n&atilde;o assina carteira funcional de ningu&eacute;m. N&atilde;o existe isso em lugar nenhum do mundo. E pior, dando porte de arma e poderes de requisi&ccedil;&atilde;o. Que neg&oacute;cio &eacute; esse?&rdquo;, questionou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Dupeyrat, outros elementos que faltam nesse documento s&atilde;o o n&uacute;mero da portaria e do of&iacute;cio que a encaminhou &agrave; Imprensa Nacional. Al&eacute;m disso, ele notou que a primeira resolu&ccedil;&atilde;o, criando o grupo de trabalho de Barbosa, n&atilde;o aparece no site oficial do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a. Ela s&oacute; est&aacute; dispon&iacute;vel na p&aacute;gina da pr&oacute;pria Imprensa Nacional. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel saber, infelizmente, o motivo dessas aus&ecirc;ncias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de avaliar os documentos e revisitar a mem&oacute;ria, o ex-ministro chegou &agrave; conclus&atilde;o de que, apesar das pessoas envolvidas serem agentes da PF, o que as levou &agrave; Altamira n&atilde;o teria sido a institui&ccedil;&atilde;o em si. Mas sim o departamento comandado pelo coronel Euro Barbosa, uma reparti&ccedil;&atilde;o sem grande import&acirc;ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa &eacute; uma confus&atilde;o t&iacute;pica de um pa&iacute;s que, ao passar por um per&iacute;odo de transi&ccedil;&atilde;o sob a luz de uma nova constitui&ccedil;&atilde;o, preservou agentes e institui&ccedil;&otilde;es que h&aacute; pouco estavam sob o regime da ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;O historiador, ou aquela pessoa que est&aacute; revendo os dados hist&oacute;ricos, precisa ser alertado para essas circunst&acirc;ncias por quem viveu o momento. Eu vivi. Eu vivenciei essa transi&ccedil;&atilde;o e esses dois mundos que conviviam ali feito c&atilde;o e gato. E isso pode explicar muita coisa&rdquo;, finalizou Dupeyrat.<\/p>\n\n\n\n<p>Os fatos, ent&atilde;o, s&atilde;o os seguintes: em um contexto hist&oacute;rico confuso, a Pol&iacute;cia Federal se envolveu nas investiga&ccedil;&otilde;es de Altamira e ficou muito pr&oacute;xima das fam&iacute;lias das v&iacute;timas. At&eacute; onde sabemos, as miss&otilde;es resultaram na produ&ccedil;&atilde;o de dois relat&oacute;rios, um em 1993, durante a primeira etapa, e outro em 1996, sobre a terceira fase.<\/p>\n\n\n\n<p>No <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-15\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">epis&oacute;dio 15<\/a>, o podcast abordou todos os materiais que citam a exist&ecirc;ncia desse &uacute;ltimo parecer. Entre eles, est&atilde;o uma mat&eacute;ria do jornal O Globo, de 1998; um artigo da revista do Instituto Interamericano de Direitos Humanos, de 2004; e os discursos de promotores e procuradores do Par&aacute; durante audi&ecirc;ncia na Comiss&atilde;o de Direitos Humanos em Bras&iacute;lia, em 1996.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/07\/1998-11-10-Materia-do-Globo-que-cita-relatorio-da-PF-2.pdf\" target=\"_blank\">Mat&eacute;ria do jornal O Globo &ndash; &ldquo;Impunidade e mist&eacute;rio nos crimes em Altamira&rdquo;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.iidh.ed.cr\/iidh\/media\/1409\/revista-iidh38.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Artigo da revista do Instituto Interamericano de Direitos Humanos&nbsp;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/14-W28N-3TDCxq4dmzvoh4hQ3YR7leRu1\/view\" target=\"_blank\">Transcri&ccedil;&atilde;o da audi&ecirc;ncia na Comiss&atilde;o de Direitos Humanos em 1996<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo da produ&ccedil;&atilde;o desta temporada, Ivan Mizanzuk conversou com pessoas que tiveram acesso ao relat&oacute;rio anos atr&aacute;s. Elas n&atilde;o quiseram gravar entrevista, mas passaram algumas informa&ccedil;&otilde;es sobre o documento:<\/p>\n\n\n\n<ul><li>O parecer de 1996 tinha como foco o testemunho de uma mulher que auxiliou as investiga&ccedil;&otilde;es de Jos&eacute; Carlos e equipe;<\/li><li>tamb&eacute;m falava sobre como a seita de Altamira teria rela&ccedil;&otilde;es com pessoas dos Estados Unidos;<\/li><li>por fim, segundo um agente federal da &eacute;poca, o relat&oacute;rio usaria v&aacute;rios pseud&ocirc;nimos, explicados em um anexo nas p&aacute;ginas finais.&nbsp;<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Por muito tempo, esses eram os &uacute;nicos dados que Ivan tinha. Elementos que o ajudaram muito nos &uacute;ltimos meses de produ&ccedil;&atilde;o do podcast, levando &agrave; segunda revela&ccedil;&atilde;o deste epis&oacute;dio: ele finalmente teve acesso ao relat&oacute;rio de 1996.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>SEGUNDA REVELA&Ccedil;&Atilde;O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como a fonte que disponibilizou o documento n&atilde;o quer ser relevada, a sua identidade permanecer&aacute; em sigilo. Lembrando que o relat&oacute;rio de 1993, important&iacute;ssimo para se entender a primeira fase da opera&ccedil;&atilde;o, ainda n&atilde;o foi encontrado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De cara, o que chama a aten&ccedil;&atilde;o no parecer de 1996 &eacute; que <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/valentina-de-andrade\/\" target=\"_self\" title=\"L&iacute;der do Lineamento Universal Superior\" class=\"encyclopedia\">Valentina de Andrade<\/a> mal &eacute; citada. O nome da l&iacute;der do Lineamento aparece apenas uma vez, quando Jos&eacute; Carlos menciona o mandado de pris&atilde;o expedido para ela e para o ex-PM <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/aldenor-ferreira-cardoso\/\" target=\"_self\" title=\"Ex-PM reconhecido por Wandicley como o seu sequestrador\" class=\"encyclopedia\">Aldenor Ferreira Cardoso<\/a>, que nunca foi encontrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as informa&ccedil;&otilde;es que Ivan tinha sobre esse relat&oacute;rio foram confirmadas ap&oacute;s analis&aacute;-lo. A data, a quantidade de p&aacute;ginas, as men&ccedil;&otilde;es aos Estados Unidos e a uma mulher muito pr&oacute;xima do chefe da opera&ccedil;&atilde;o, al&eacute;m da cita&ccedil;&atilde;o direta divulgada na revista de direitos humanos. Est&aacute; tudo l&aacute;. Isso &eacute; importante para dizer que, sim, esse documento &eacute; verdadeiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com um total de 87 p&aacute;ginas, as primeiras 81 s&atilde;o o relat&oacute;rio em si, as descri&ccedil;&otilde;es e impress&otilde;es do trabalho da PF. As &uacute;ltimas seis cont&ecirc;m um anexo com a revela&ccedil;&atilde;o dos pseud&ocirc;nimos. N&atilde;o s&atilde;o todos, mas a maioria. Isso comprova a informa&ccedil;&atilde;o repassada ao podcast por um agente federal da &eacute;poca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a mat&eacute;ria do Globo j&aacute; mencionada, o parecer tinha 88 folhas. Pode ser que alguma tenha se perdido, ou que havia uma capa. Mas &eacute; um n&uacute;mero bem pr&oacute;ximo.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de entrar no relat&oacute;rio em si, &eacute; preciso confessar que, sob a luz do que sabemos hoje sobre <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a>, o conte&uacute;do dele parece ser uma grande bobagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem tiver interesse pode acessar o documento completo ou at&eacute; mesmo uma vers&atilde;o comentada por Ivan. As notas em vermelho s&atilde;o questionamentos deixados em aberto:<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1tDDJ8-imWh39ELU0i7SjudUGhrh_wSA_\/view\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">1996-04-18 &ndash;&nbsp; Relat&oacute;rio PF Altamira (Fases 2 e 3 Opera&ccedil;&atilde;o Monstro de Altamira)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/1996-04-18-Relatorio-PF-Altamira-Fases-2-e-3-Operacao-Monstro-de-Altamira-COMENTADO.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">1996-04-18 &ndash;&nbsp; Relat&oacute;rio PF Altamira (Fases 2 e 3 Opera&ccedil;&atilde;o Monstro de Altamira) COMENTADO<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>J&aacute; no in&iacute;cio, o relat&oacute;rio fala sobre a opera&ccedil;&atilde;o de 1993 e cita o n&uacute;mero de um processo no Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, cuja exist&ecirc;ncia n&atilde;o foi poss&iacute;vel atestar. Portanto, &eacute; prov&aacute;vel que a vers&atilde;o de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/paulo-tamer\/\" target=\"_self\" title=\"Coordenador geral da Pol&iacute;cia Civil do Par&aacute; em 1993\" class=\"encyclopedia\">Paulo Tamer<\/a> seja apenas uma parte da realidade. Ou seja, al&eacute;m do termo de coopera&ccedil;&atilde;o entre PF e Estado do Par&aacute;, pode ter havido tamb&eacute;m uma autoriza&ccedil;&atilde;o ministerial. Essa aposta, por&eacute;m, n&atilde;o possui documenta&ccedil;&atilde;o suficiente para ser comprovada.<\/p>\n\n\n\n<p>Como mencionado anteriormente, mat&eacute;rias da &eacute;poca e outras fontes sempre falavam em apenas dois relat&oacute;rios: sobre a primeira e a terceira etapa da opera&ccedil;&atilde;o. Mas e quanto &agrave; segunda? O que aconteceu? Agora, no documento de 1996, h&aacute; uma resposta:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Cumpre aqui esclarecer uma situa&ccedil;&atilde;o. Informar o porqu&ecirc; n&atilde;o foi entregue o Relat&oacute;rio de 1994. Aquele n&atilde;o foi entregue, em virtude de que o Relat&oacute;rio elaborado pela equipe em 1993 foi mostrado ao chefe da Equipe e na ocasi&atilde;o Presidente do Sindicato dos Policiais Federais do Estado do Par&aacute; &ndash; SINPEF\/PA, na sede do pr&oacute;prio Sindicato, por rep&oacute;rter da TV Bandeirantes\/Bras&iacute;lia, que diante das in&uacute;meras respostas de &ldquo;n&atilde;o sei nada sobre isto&rdquo; a perguntas formuladas pertinentes ao assunto, retirou de uma pasta o Relat&oacute;rio, grafado com o carimbo de Confidencial, (este documento nunca foi emitido com tal carimbo) colocou-o em cima da mesa perguntou ao APF Jos&eacute; Carlos, em tom de deboche, se o mesmo o havia assinado, culminando com o relat&oacute;rio sendo mostrado ao vivo e em cores, inclusive com a assinatura do signat&aacute;rio, num programa de domingo da apresentadora <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/marilia-gabriela\/\" target=\"_self\" title=\"Famosa jornalista, apresentou programa que exibiu reportagem especial sobre Altamira\" class=\"encyclopedia\">Mar&iacute;lia Gabriela<\/a>, quando esta ainda trabalhava para a TV Bandeirantes. Tal fato chocou-nos por duas raz&otilde;es: primeiro porque n&atilde;o emitimos nenhum relat&oacute;rio &ldquo;confidencial&rdquo; (da&iacute; considerarmos estranho que algu&eacute;m estivesse querendo dar um cunho de subterf&uacute;gio a algo que n&atilde;o existe); segundo, porque ao revelar fontes e dar conhecimento a terceiros de algo que n&atilde;o lhes dizia respeito, quebrou um relacionamento de confian&ccedil;a existente entre informantes, testemunhas e n&oacute;s, e esta condi&ccedil;&atilde;o nos foi assegurada e asseverada pelo ex-Superintendente desta casa, Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/fabio-caetano-2\/\" target=\"_self\" title=\"Superintendente da Pol&iacute;cia Federal no Par&aacute; na d&eacute;cada de 1990\" class=\"encyclopedia\">F&aacute;bio Caetano<\/a>, quando determinou a realiza&ccedil;&atilde;o da Miss&atilde;o, em Maio\/93. Assim, para que tal fato n&atilde;o se repetisse, houvemos por bem n&atilde;o entregar o relat&oacute;rio da Opera&ccedil;&atilde;o Monstro de Altamira II.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A mat&eacute;ria da Band, citada no in&iacute;cio deste epis&oacute;dio, foi, ent&atilde;o, o motivo para a segunda fase da opera&ccedil;&atilde;o n&atilde;o ter produzido um relat&oacute;rio. Ivan Mizanzuk entrou em contato com <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/valteno-de-oliveira\/\" target=\"_self\" title=\"Rep&oacute;rter que produziu mat&eacute;ria especial sobre os emasculados na d&eacute;cada de 1990\" class=\"encyclopedia\">Valteno de Oliveira<\/a>, o rep&oacute;rter respons&aacute;vel pela reportagem, mas ele n&atilde;o se recordava de nada disso.<\/p>\n\n\n\n<p>O detalhe mais espantoso desse trecho, por&eacute;m, &eacute; o fato de que o superintendente da PF do Par&aacute;, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/fabio-caetano-2\/\" target=\"_self\" title=\"Superintendente da Pol&iacute;cia Federal no Par&aacute; na d&eacute;cada de 1990\" class=\"encyclopedia\">F&aacute;bio Caetano<\/a>, teria prometido sigilo de tudo o que a corpora&ccedil;&atilde;o produzisse sobre o caso. Por um lado, essa seria uma forma de fazer com que eventuais testemunhas perdessem o medo de falar com a pol&iacute;cia. Por outro, a atitude indica que esse relat&oacute;rio nunca foi feito para ser anexado aos autos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida &agrave; parte mencionada acima, o documento relata que, apesar da segunda fase n&atilde;o ter registro, as informa&ccedil;&otilde;es coletadas na &eacute;poca n&atilde;o foram perdidas. Elas est&atilde;o, na verdade, inclu&iacute;das neste novo parecer, de 1996.<\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; aqui que descobrimos que a PF esteve em Altamira duas vezes em 1994, nos meses de setembro e dezembro. Essas idas serviram como resposta &agrave;s demandas das fam&iacute;lias das v&iacute;timas, que pediam o retorno dos agentes &agrave; cidade, e&nbsp;ao envolvimento do CDDPH e do Conanda.<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro, o foco das investiga&ccedil;&otilde;es foi levantar dados sobre poss&iacute;veis outros membros da seita. A cren&ccedil;a de que havia mais pessoas envolvidas se dava principalmente pelo desaparecimento de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rosinaldo-farias-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Menino de 11 anos que desapareceu em setembro de 1993 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Rosinaldo Farias da Silva<\/a>, um ano antes, quando os acusados j&aacute; estavam presos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a fam&iacute;lia da crian&ccedil;a, o principal suspeito do crime seria <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/vantuil-estevao-de-souza\/\" target=\"_self\" title=\"Fazendeiro de Altamira e marido da ju&iacute;za Vera Ara&uacute;jo\" class=\"encyclopedia\">Vantuil Estev&atilde;o de Souza<\/a>, marido da ju&iacute;za Vera. O fazendeiro &eacute;, inclusive, ponto central de grande parte desse relat&oacute;rio, pois a PF acreditava que ele era um integrante da seita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as desconfian&ccedil;as n&atilde;o paravam por a&iacute;. Para a pol&iacute;cia, o grupo contava com o apoio de policiais civis e militares, soldados do ex&eacute;rcito, pol&iacute;ticos, advogados, e outros indiv&iacute;duos de menor destaque social. S&atilde;o levantados, no total, 40 suspeitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al&eacute;m desses absurdos, o parecer possui informa&ccedil;&otilde;es interessantes sobre <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/amailton-madeira-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Filho de Amadeu Gomes, &eacute; um dos acusados no caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Amailton Madeira Gomes<\/a>, que teriam sido apuradas na segunda e terceira fase da opera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Recapitulando, o delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/brivaldo-pinto-soares-filho\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado respons&aacute;vel pelo inqu&eacute;rito de Jaenes em outubro de 1992\" class=\"encyclopedia\">Brivaldo Pinto Soares Filho<\/a> desconfiou do filho de Amadeu por alguns motivos:<\/p>\n\n\n\n<ul><li>Primeiro, a hist&oacute;ria de que o suspeito teria pintado o cabelo de loiro na &eacute;poca em que <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/judirley-da-cunha-chipaia\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a emasculada e morta em janeiro de 1992 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Judirley da Cunha Chipaia<\/a> foi morto, no in&iacute;cio de 1992. Esse detalhe condizia com o relato de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/josivaldo-aranha-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha amea&ccedil;ada no dia em que Judirley foi morto\" class=\"encyclopedia\">Josivaldo Aranha da Silva<\/a>, que afirmava ter sido amea&ccedil;ado por tr&ecirc;s homens, um deles de cabelos claros, no mesmo dia e local em que o garoto ind&iacute;gena havia sido encontrado.<\/li><li>Segundo, as viagens de Amailton ap&oacute;s as mortes das crian&ccedil;as. Brivaldo mencionava os casos de Judirley, momento em que o acusado foi para o Cear&aacute;, e de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jaenes-da-silva-pessoa\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a emasculada e morta em outubro de 1992 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jaenes da Silva Pessoa<\/a>, quando ele saiu de moto rumo ao Sul. Neste &uacute;ltimo evento, por&eacute;m, o delegado acreditava que o filho de Amadeu ainda estava nas redondezas em novembro de 1992, per&iacute;odo em que <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/klebson-ferreira-caldas\/\" target=\"_self\" title=\"Menino que desapareceu em Altamira em novembro de 1992\" class=\"encyclopedia\">Klebson Ferreira Caldas<\/a> foi assassinado. Na vis&atilde;o do investigador, se o pr&oacute;prio suspeito n&atilde;o tinha matado Klebson, ele ao menos seria o mandante do crime.&nbsp;<\/li><li>Terceiro, o fato de que Amailton dirigia uma Pampa cor vinho, ve&iacute;culo visto por testemunhas perto de onde Judirley desapareceu. Durante o j&uacute;ri em 2003, o suspeito foi condenado pela morte do menino ind&iacute;gena. Ou seja, para o processo, haveria provas de que ele seria o respons&aacute;vel nesse caso.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>No relat&oacute;rio da PF, no entanto, o agente Jos&eacute; Carlos deixa claro que n&atilde;o acreditava em nada disso. Pelo contr&aacute;rio, ele leva em considera&ccedil;&atilde;o o que afirmavam as testemunhas de defesa &ndash; que Amailton estava em uma festa na hora que a crian&ccedil;a sumiu:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Quanto a outros fatos que relacionem Amailton aos casos das crian&ccedil;as mortas, temos que Amailton definitivamente n&atilde;o participou do rapto de Judirley Chipaia, j&aacute; que &agrave;quela hora encontrava-se participando de um churrasco numa ch&aacute;cara localizada na estrada da Bet&acirc;nia. Tudo indica que nada teve a ver com a morte e emascula&ccedil;&atilde;o deste menor, deixando d&uacute;vidas, entretanto, pela sua viagem, quase em seguida, ao Cear&aacute;, como, ali&aacute;s, acima j&aacute; foi dito. A viagem feita por Amailton, de moto, para o Sul do Brasil &eacute; inteiramente ver&iacute;dica, inclusive o mesmo recebeu tr&ecirc;s ordens de pagamento no Banco Bamerindus, nas cidades de Itaja&iacute;\/SC e Santa Vit&oacute;ria do Palmar\/RS, (duas) enviadas por seu Pai, antes de seguir para a Argentina. Os telefonemas e fax recebidos e dados para a Argentina s&atilde;o reais, haja vista as contas telef&ocirc;nicas da resid&ecirc;ncia de seu pai e de sua irm&atilde; Marcli.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, a Pol&iacute;cia Federal ligava Amailton ao assassinato de outros garotos. O relat&oacute;rio menciona, por exemplo, a hist&oacute;ria da <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/empregada-fatima\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que teria visto Amailton com uma camisa suja de sangue\" class=\"encyclopedia\">empregada F&aacute;tima<\/a>, contada no <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-05\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">epis&oacute;dio 5<\/a>. Para relembrar, parte da suspeita de Brivaldo vinha da informa&ccedil;&atilde;o de que, ap&oacute;s a morte de Judirley, o filho de Amadeu teria chegado em casa com a camisa suja de sangue e sido flagrado por uma funcion&aacute;ria da fam&iacute;lia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu&eacute;m nunca conseguiu sequer confirmar a exist&ecirc;ncia dessa mulher. Agora, as apura&ccedil;&otilde;es da PF d&atilde;o conta de outra vers&atilde;o para esse evento. Ap&oacute;s anos de boataria rolando solta em Altamira, os agentes ouviram a seguinte narrativa: o caso da camisa manchada n&atilde;o teria ocorrido depois da morte de Judirley, mas sim de Jaenes.<\/p>\n\n\n\n<p>O filho de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rosa-maria-pessoa\/\" target=\"_self\" title=\"M&atilde;e de Jaenes da Silva Pessoa\" class=\"encyclopedia\">Rosa Maria Pessoa<\/a> foi assassinado em outubro de 1992. No inqu&eacute;rito conduzido por Brivaldo, n&atilde;o h&aacute; nenhum depoimento que ligue a hist&oacute;ria da empregada ao caso de Jaenes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O relat&oacute;rio de 1996, entretanto, descreve uma situa&ccedil;&atilde;o totalmente diferente. A dom&eacute;stica n&atilde;o era mais F&aacute;tima, mas sim <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rosa-souza-coelho\/\" target=\"_self\" title=\"Mulher encontrada morta em um igarap&eacute; em outubro de 1992\" class=\"encyclopedia\">Rosa Souza Coelho<\/a>, a mulher encontrada morta dentro de um igarap&eacute;, tamb&eacute;m em outubro de 1992. Enquanto o laudo oficial apontou que ela sofreu um afogamento acidental, a popula&ccedil;&atilde;o de Altamira sempre acreditou na tese de assassinato.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o documento da PF, a equipe de Jos&eacute; Carlos recebeu boa parte dessas informa&ccedil;&otilde;es por volta de outubro de 1995, durante a terceira fase da opera&ccedil;&atilde;o. O inqu&eacute;rito para apurar a morte de Rosa foi aberto pela Pol&iacute;cia Civil no m&ecirc;s seguinte, em novembro. Ou seja, tudo indica que o levantamento dos agentes federais motivou as investiga&ccedil;&otilde;es da Civil:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Outro ponto a salientar &eacute; de que, desde o in&iacute;cio das nossas investiga&ccedil;&otilde;es, em 1993 na cidade de Altamira, escutamos dizer que uma empregada de sua casa, de nome F&aacute;tima, encontrara a camisa suja de sangue que Amailton usava no dia em que Jaenes foi morto, e que em raz&atilde;o disto Amailton teria tamb&eacute;m assassinado a empregada e desaparecido com o seu corpo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tais boatos n&atilde;o tornaram ver&iacute;dica a exist&ecirc;ncia de F&aacute;tima at&eacute; o presente momento, por&eacute;m, v&aacute;rias foram as vozes correntes na cidade de Altamira de que Rosa Coelho de Souza, que adiante mencionaremos, teria sido morta em raz&atilde;o de ser ela a pessoa empregada, &agrave; &eacute;poca, na resid&ecirc;ncia de Amailton, e que teria visto as ditas roupas sujas de sangue.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Pois bem, se Rosa foi ou n&atilde;o morta pelos motivos acima descritos, a Equipe n&atilde;o pode ainda constatar, todavia, presume-se que a mesma tivesse tomado conhecimento de algo que pudesse identificar os envolvidos nos crimes de emascula&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o documento, a testemunha <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jaciara-silva-barros\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha no inqu&eacute;rito da morte de Rosa Coelho\" class=\"encyclopedia\">Jaciara Silva Barros<\/a> teria contado aos agentes que Rosa trabalhou para a fam&iacute;lia Gomes e viu Amailton com a roupa suja de sangue.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O problema &eacute; que, no inqu&eacute;rito da Pol&iacute;cia Civil, existem dois depoimentos de Jaciara dizendo justamente o contr&aacute;rio, que Rosa jamais foi funcion&aacute;ria de Amadeu. Al&eacute;m disso, nenhuma das declara&ccedil;&otilde;es menciona a camisa manchada de sangue.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/07\/1995-11-20-ROSA-Depoimento-Jaciara-Silva-Barros-1-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Primeiro depoimento de Jaciara Silva Barros<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/07\/1995-11-21-ROSA-Depoimento-Jaciara-Silva-Barros-2.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Segundo depoimento de Jaciara<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Isso &eacute; um telefone sem fio. O relat&oacute;rio da PF tem como fonte uma mensagem recebida por fax de uma pessoa identificada como &ldquo;Irm&atilde; Vanilda&rdquo;, que morava em Roma, e afirmava ter ouvido essa hist&oacute;ria de Jaciara.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da&iacute;, a narrativa fica ainda mais complicada:<\/p>\n\n\n\n<p><em>No limiar do encerramento da miss&atilde;o em 1995, ap&oacute;s havermos praticamente esgotado todos os esfor&ccedil;os no sentido de encontrar F&aacute;tima, locali<a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/zamo\/\" target=\"_self\" title=\"Cabo eleitoral de An&iacute;sio nas elei&ccedil;&otilde;es de 1992\" class=\"encyclopedia\">zamo<\/a>s uma pessoa que havia trabalhado na resid&ecirc;ncia de Amailton, que nos disse ter visto uma camisa azul, suja de sangue, embaixo de uma cama, dentro de um dos quartos da casa, dois dias depois do sumi&ccedil;o de Jaenes Pessoa, &eacute;poca em que a mesma come&ccedil;ou a trabalhar para a fam&iacute;lia. A est&oacute;ria ora narrada s&oacute; &eacute; do conhecimento da testemunha, da Equipe e de uma outra pessoa, amiga da testemunha, que a indicou-nos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Diante destes fatos, usa-se o racioc&iacute;nio de que anteriormente &agrave; testemunha, alguma outra empregada teria trabalhado na casa de Amailton e, esta pessoa teria vivido o cl&iacute;max dos fatos e comentado a outras pessoas o que teria visto, raz&atilde;o pela qual a mesma poderia ter sido morta, fortificando ainda as informa&ccedil;&otilde;es prestadas por outra testemunha residente numa cidade da regi&atilde;o do Tocantins, que narra ter ouvido Amailton dizer para um parente pr&oacute;ximo, numa fazenda, na noite do dia em que Jaenes foi assassinado: &ndash; &ldquo;que ele ficara com pena de ter ajudado a matar seu parente&rdquo;, e deste parente ter dito, relacionando-se a empregada assassinada por Amailton: &ndash; &ldquo;Por que voc&ecirc; fez isso com ela? Ela j&aacute; trabalhava h&aacute; mais de tr&ecirc;s anos com a fam&iacute;lia&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Aqui temos mais uma vers&atilde;o sobre quem seria a empregada dos Gomes. N&atilde;o era mais Rosa, mas sim uma mulher chamada <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/olinda-mora-silva\/\" target=\"_self\" title='Testemunha citada no relat&oacute;rio da PF de 1996, &eacute; uma das vers&otilde;es da \"empregada F&aacute;tima\"' class=\"encyclopedia\">Olinda Mora Silva<\/a>, que teria narrado aos agentes o epis&oacute;dio da camisa azul.<\/p>\n\n\n\n<p>Novamente, nada disso condiz com os autos. F&aacute;tima aparece pela primeira vez no processo por meio do depoimento de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-luiz-sobrinho\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que traz &agrave; tona elementos contra Amailton Madeira Gomes\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Luiz Sobrinho<\/a>, de 23 de outubro de 1992. No relato, ele diz que ouviu a hist&oacute;ria sobre a empregada por volta de janeiro, &eacute;poca do assassinato de Judirley.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/04\/1992-10-23-Depoimento-Jose-Luiz-Sobrinho-2.pdf\" target=\"_blank\">Depoimento de Jos&eacute; Luiz Sobrinho<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Fora isso, o relat&oacute;rio da PF sugere que Amailton matou Jaenes, deixou a tal camisa embaixo da cama, onde qualquer um poderia encontrar, e saiu de moto por meses. Isso n&atilde;o faz sentido nenhum.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Parece que os agentes est&atilde;o tentando adaptar um boato frente aos fatos apurados, como o &aacute;libi de Amailton para a morte de Judirley. Na vis&atilde;o deles, se todo mundo falava da camisa suja de sangue, ent&atilde;o a hist&oacute;ria era verdadeira. Se ela n&atilde;o aconteceu no caso do menino ind&iacute;gena, ent&atilde;o teria sido com outra v&iacute;tima.<\/p>\n\n\n\n<p>F&aacute;tima pode n&atilde;o existir ou ser uma pessoa que nunca foi encontrada. Pode ser Rosa ou Olinda, ou uma mulher chamada <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/madalena-da-silva-brito\/\" target=\"_self\" title=\"Empregada dom&eacute;stica da fam&iacute;lia Gomes na &eacute;poca dos crimes\" class=\"encyclopedia\">Madalena da Silva Brito<\/a>, que trabalhou para os Gomes. Ela pode ter rela&ccedil;&atilde;o com o caso de Judirley ou de Jaenes, ou os dois. &Eacute; isso que a investiga&ccedil;&atilde;o da PF levantou sobre o assunto. Nada com coisa alguma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre isso, h&aacute; um trecho do relat&oacute;rio bastante revelador:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Outro caso que n&atilde;o podemos desvincular desses monstruosos crimes &eacute; o assassinato de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rosa-souza-coelho\/\" target=\"_self\" title=\"Mulher encontrada morta em um igarap&eacute; em outubro de 1992\" class=\"encyclopedia\">Rosa Souza Coelho<\/a> ocorrido em 07.10.92, em circunst&acirc;ncias at&eacute; hoje obscuras. <\/em><strong><em>&Eacute; fato e voz corrente, ainda n&atilde;o provado<\/em><\/strong><em>, que Rosa teria sido a empregada da casa de Amadeu que teria visto Amailton quando retornou, provavelmente do assassinato de Jaenes, com a roupa suja de sangue e disse que &ldquo;tinha deixado seu priminho assim, assim&rdquo;. Rosa foi encontrada morta, segundo o laudo do Dr. Arag&atilde;o, afogada no igarap&eacute; Amb&eacute;, localidade conhecida por Tr&ecirc;s Pontes.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;<strong>&Eacute; fato e voz corrente, ainda n&atilde;o provado&rdquo;<\/strong>. Ou &eacute; fato provado ou n&atilde;o &eacute;. Isso foi escrito por um agente da Pol&iacute;cia Federal &agrave; frente de uma investiga&ccedil;&atilde;o importante. Ser &ldquo;voz corrente&rdquo; n&atilde;o torna algo verdadeiro. Pelo menos n&atilde;o deveria. Os policiais deveriam ter sido mais criteriosos, mas n&atilde;o foram.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Amailton, o relat&oacute;rio cont&eacute;m outras informa&ccedil;&otilde;es curiosas. No <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-03\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">epis&oacute;dio 3<\/a>, que relata a investiga&ccedil;&atilde;o de Brivaldo, aparece uma testemunha chamada <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/adijael-silva-feitosa\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que relata ter sido abusada por Amailton Madeira Gomes\" class=\"encyclopedia\">Adijael Silva Feitosa<\/a>. Em 13 de novembro de 1992, o rapaz contou ao delegado que teria sido abusado pelo filho de Amadeu ap&oacute;s dar uma carona para ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na &eacute;poca, o relato de Adijael serviu para formar a imagem que Brivaldo montou de Amailton: um homossexual violento e abusador, capaz de emascular e matar os meninos de Altamira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/04\/1992-11-13-Adijael-Silva-Feitosa-1.pdf\" target=\"_blank\">Depoimento de Adijael Silva Feitosa<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Esse mesmo policial est&aacute; no relat&oacute;rio da PF, onde &eacute; citado como um &ldquo;bate-pau&rdquo; &ndash; indiv&iacute;duo que trabalhava informalmente para a Pol&iacute;cia Civil. Uma das pessoas que exerciam essa fun&ccedil;&atilde;o era <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/edmilson-da-silva-frazao\/\" target=\"_self\" title='Testemunha que diz ter participado de uma \"missa negra\" na ch&aacute;cara de An&iacute;sio' class=\"encyclopedia\">Edmilson da Silva Fraz&atilde;o<\/a>, a testemunha que relata a suposta &ldquo;missa macabra&rdquo; na ch&aacute;cara de An&iacute;sio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na &eacute;poca em que era delegado geral da institui&ccedil;&atilde;o, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/paulo-tamer\/\" target=\"_self\" title=\"Coordenador geral da Pol&iacute;cia Civil do Par&aacute; em 1993\" class=\"encyclopedia\">Paulo Tamer<\/a> j&aacute; expunha os problemas que esse tipo de &ldquo;contrata&ccedil;&atilde;o&rdquo; causava, inclusive nas investiga&ccedil;&otilde;es de Altamira. Ele abordou o assunto durante a entrevista que concedeu ao jornal O Liberal, de 2 de agosto de 1993:<\/p>\n\n\n\n<p><em>O efetivo policial do sul do Par&aacute;, por exemplo, at&eacute; pouco tempo formado de bate-paus, hoje &eacute; completamente constitu&iacute;do de policiais de carreira. &ldquo;Bate-pau&rdquo;, explica o chefe da Pol&iacute;cia, &ldquo;&eacute; o policial comissionado, indicado por pol&iacute;ticos e nomeado pela Secretaria de Estado de Administra&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Altamira, lamentavelmente, foi, durante os primeiros anos de investiga&ccedil;&atilde;o dos crimes, v&iacute;tima dos &ldquo;bate-paus&rdquo;, mas esse quadro, assegura o delegado, est&aacute; mudando.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o relat&oacute;rio, Adijael seria um &ldquo;bate-pau&rdquo;. Mas, se na investiga&ccedil;&atilde;o de Brivaldo ele aparecia como uma figura importante para denunciar um suspeito, agora a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; outra.<\/p>\n\n\n\n<p>O trecho a seguir se refere ao assassinato de Klebson, ocorrido em novembro de 1992, enquanto Amailton estava foragido:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Na emascula&ccedil;&atilde;o de Klebson surge claramente a participa&ccedil;&atilde;o de Policiais Militares e bate-paus da Pol&iacute;cia Civil como executantes dos crimes. A&iacute; &eacute; que se encaixa com perfei&ccedil;&atilde;o o depoimento dado por A. Santos para a Conselheira Sueli do Conselho Tutelar do Amap&aacute;, oportunidade em que lhe contou como eram executados os crimes.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Na madrugada seguinte ao dia da morte de Klebson, um bate-pau que havia chegado em casa com a camisa suja de sangue sumiu de Altamira para nunca mais voltar. Dias depois, outro ex bate-pau, ligado &agrave; fam&iacute;lia do Amadeu, seguiria o mesmo caminho. A est&oacute;ria do primeiro bate-pau tomamos conhecimento atrav&eacute;s de sua av&oacute;, pessoa hoje j&aacute; falecida, mas que revelou os fatos para vizinhos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O texto n&atilde;o identifica quem seriam esses policiais e bate-paus. Mas, no ap&ecirc;ndice do relat&oacute;rio, que possui uma lista de nomes, h&aacute; a seguinte informa&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n\n\n\n<p><em>ADJAEL DA SILVA FEITOSA &ndash; segundo os informes, participou da morte de Klebson, junto com <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-gomes-coelho\/\" target=\"_self\" title=\"&Eacute; citado no relat&oacute;rio da PF de 1996 como suspeito na morte de Klebson\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;DER GOMES COELHO<\/a>. Ambos s&atilde;o ex bate-pau e desapareceram da cidade ap&oacute;s o homic&iacute;dio, seguido de emascula&ccedil;&atilde;o de Klebson.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>N&atilde;o se explica aqui como exatamente Jos&eacute; Carlos chegou nesses nomes e a essas conclus&otilde;es. O depoimento de Adijael para Brivaldo, incriminando Amailton, foi feito no mesmo dia em que Klebson sumiu. Como &eacute; poss&iacute;vel, ent&atilde;o, a PF suspeitar que o bate-pau teria participado da morte do menino?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma coisa &eacute; certa: Ivan Mizanzuk sempre se perguntou o que teria acontecido com Adijael. Segundo o relat&oacute;rio, ele teria desaparecido da cidade ap&oacute;s a morte de Klebson &ndash; ou seja, tamb&eacute;m depois de ser ouvido por Brivaldo. N&atilde;o h&aacute; como saber se esses fatos s&atilde;o relacionados, ou sequer se s&atilde;o verdadeiros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J&aacute; a outra pessoa citada, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-gomes-coelho\/\" target=\"_self\" title=\"&Eacute; citado no relat&oacute;rio da PF de 1996 como suspeito na morte de Klebson\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Gomes Coelho<\/a>, aparece brevemente nos autos em alguns depoimentos. Um que logo vem &agrave; mem&oacute;ria &eacute; o relato de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/luiz-kapiche-neto\/\" target=\"_self\" title=\"Radialista e advogado em Altamira ligado aos Gomes\" class=\"encyclopedia\">Luiz Kapiche Neto<\/a>, radialista e advogado ligado &agrave; fam&iacute;lia Gomes, de 30 de novembro de 1993. Nele, a testemunha afirma que um investigador de pol&iacute;cia chamado &ldquo;&Eacute;der&rdquo; teria feito de tudo para incrimin&aacute;-la. Possivelmente, tratava-se de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-gomes-coelho\/\" target=\"_self\" title=\"&Eacute; citado no relat&oacute;rio da PF de 1996 como suspeito na morte de Klebson\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Gomes Coelho<\/a>. Se realmente esse for o caso, &eacute; dif&iacute;cil acreditar que o bate-pau seria aliado de Amailton.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/1993-11-30-Depoimento-em-Juizo-13-Luiz-Kapiche-Neto.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Luiz Kapiche Neto<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Como era de se esperar, Kapiche tamb&eacute;m era apontado como um membro da seita pelo relat&oacute;rio da PF. Ele est&aacute; entre os quase 40 suspeitos listados no documento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para recapitular, o radialista chegou a ser foco das investiga&ccedil;&otilde;es em Altamira ainda na &eacute;poca da morte de Judirley, em janeiro de 1992. O motivo era a tal caminhonete Pampa cor vinho, que teria sido vista nas redondezas. Inicialmente, a pol&iacute;cia desconfiou que o ve&iacute;culo pertenceria a Kapiche. Foi s&oacute; depois que as suspeitas reca&iacute;ram sobre Amailton.<\/p>\n\n\n\n<p>O parecer da Pol&iacute;cia Federal afirma que n&atilde;o era nem um, nem outro. Na verdade, o autom&oacute;vel n&atilde;o tinha cor vinho, mas sim caf&eacute; com leite. E o dono era <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-carlos-bergamin\/\" target=\"_self\" title=\"&Eacute; apontado no relat&oacute;rio da PF de 1996 como suspeito na morte de Judirley\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Carlos Bergamin<\/a>, que teria conex&otilde;es com o fazendeiro Vantuil. Para a PF, ele era, inclusive, um dos principais suspeitos da morte do garoto ind&iacute;gena.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m disso, no relat&oacute;rio, o ve&iacute;culo &eacute; relacionado ao testemunho de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/josivaldo-aranha-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha amea&ccedil;ada no dia em que Judirley foi morto\" class=\"encyclopedia\">Josivaldo Aranha da Silva<\/a> &ndash; o rapaz que teria sido amea&ccedil;ado por tr&ecirc;s homens, um deles loiro, pr&oacute;ximo da data e local onde o corpo de Jurdiley foi descoberto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/04\/1992-10-15-Depoimento-Josivaldo-Aranha-da-Silva-1.pdf\" target=\"_blank\">Depoimento de Josivaldo Aranha<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Agora, o homem de cabelos claros n&atilde;o seria mais Amailton. Afinal, ele tinha &aacute;libi para a ocasi&atilde;o. No documento, o agente Jos&eacute; Carlos diz o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Josivaldo Aranha, filho de cria&ccedil;&atilde;o de uma fam&iacute;lia que possui um pequeno s&iacute;tio &agrave;s proximidades do Cupi&uacute;ba, dias ap&oacute;s a morte de Judirley Chipaia, em janeiro\/92, declarou ao delegado da Pol&iacute;cia Civil Bertolino que fora abordado, ainda dentro do mato, numa estradinha interna que liga o s&iacute;tio a estrada da Serrinha, por tr&ecirc;s homens que estavam numa Pick-up Willys, carroceria de madeira, de cor clara, estacionada a menos de 100 mts. da porteira de sua m&atilde;e adotiva. A descri&ccedil;&atilde;o fornecida por Aranha, desses homens, aproxima-os de militares em opera&ccedil;&atilde;o de busca de informa&ccedil;&otilde;es. Na ocasi&atilde;o, Josivaldo foi por um deles amea&ccedil;ado de morte, se contasse para a Pol&iacute;cia algo sobre eles, suas descri&ccedil;&otilde;es ou apar&ecirc;ncia, ou que ali estiveram fazendo perguntas sobre Judirley.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, segundo a PF, os homens descritos por Josivaldo seriam, na verdade, militares que faziam parte da seita. Essa informa&ccedil;&atilde;o, assim como o avistamento da caminhonete Pampa cor caf&eacute; com leite, tinha como fonte uma &uacute;nica pessoa. A testemunha que o agente Jos&eacute; Carlos considerava ser a mais importante: <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/valdete-rodrigues-barroso\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que desapareceu ap&oacute;s passar informa&ccedil;&otilde;es para a PF\" class=\"encyclopedia\">Valdete Rodrigues Barroso<\/a>, a mulher que teria sofrido amea&ccedil;as de um pistoleiro ligado &agrave; fam&iacute;lia Gomes. Grande parte do relat&oacute;rio, ali&aacute;s, &eacute; baseado em coisas que ela falou para a Pol&iacute;cia Federal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>VALDETE<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em diversos trechos do documento, Jos&eacute; Carlos comenta como funcionava a rede de informantes em Altamira. Ele d&aacute; a entender, inclusive, que alguns deles receberiam algo em troca para colaborar com as investiga&ccedil;&otilde;es:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Elaboramos o Planejamento Operacional da Miss&atilde;o no que tange aos meios de transportes; armamento e comunica&ccedil;&otilde;es, acrescido do custo operacional Altamira, que abrangeu a loca&ccedil;&atilde;o de ve&iacute;culos, suprimentos de fundo para informante; material de consumo; aluguel de embarca&ccedil;&otilde;es; combust&iacute;vel e di&aacute;rias.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O termo &ldquo;fundo para informante&rdquo; nunca &eacute; esclarecido. Pelo contexto, parece ser uma quantia de dinheiro dispon&iacute;vel a fim de manter a rede de informa&ccedil;&otilde;es. Como, quanto e com que objetivo, n&atilde;o d&aacute; para saber.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O conte&uacute;do do relat&oacute;rio tamb&eacute;m indica que muitos materiais coletados pela Pol&iacute;cia Federal nunca foram revelados ao p&uacute;blico. Por exemplo, uma passagem fala da exist&ecirc;ncia de uma pasta com o nome de C&eacute;sio. Isso leva a crer que havia arquivos para os demais investigados, principalmente quando o parecer recomenda que a pasta de n&uacute;mero 39 seja conferida. Ou seja, havia outras 38? Onde elas est&atilde;o? Nenhuma dessas perguntas tem resposta.<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m disso, outro detalhe chama a aten&ccedil;&atilde;o. O <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-08\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">epis&oacute;dio 8<\/a> desta temporada explica como foi feito o reconhecimento de C&eacute;sio pelo lavrador <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/agostinho-jose-da-costa\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha-chave que liga C&eacute;sio e Amailton ao crime contra Jaenes\" class=\"encyclopedia\">Agostinho Jos&eacute; da Costa<\/a>. Na ocasi&atilde;o, a pol&iacute;cia lhe apresentou alguns v&iacute;deos em que o m&eacute;dico aparecia. Essas fitas foram gravadas em uma das visitas dos agentes federais ao hospital onde o acusado trabalhava, pouco antes das pris&otilde;es.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o relat&oacute;rio, a PF fez outras filmagens em Altamira. Uma delas era focada em <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-amadeu-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Rico fazendeiro de Altamira, pai de Amailton Gomes\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Amadeu Gomes<\/a>, pai de Amailton:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Em entrevista gravada em Maio\/93, Amadeu declarou para n&oacute;s que as atitudes que tomou foram a do pai que defende o filho para livr&aacute;-lo de um mal maior, entretanto, sugere ele na entrevista ter oferecido &ldquo;presentes&rdquo; ao Delegado de Pol&iacute;cia Civil Brivaldo e Flexa, na tentativa de abrandar a posi&ccedil;&atilde;o de Amailton no inqu&eacute;rito policial que era presidido pelo Delegado Brivaldo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Poucos meses depois da grava&ccedil;&atilde;o, tanto C&eacute;sio quanto Amadeu foram apontados pelo delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a> como suspeitos nos crimes contra os meninos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas onde foram parar essas fitas? Quem mais foi gravado? Por que os v&iacute;deos sumiram? Tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel saber.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo indica que o material coletado era uma enciclop&eacute;dia de boatos e hist&oacute;rias mal contadas. A coisa chega em um ponto t&atilde;o absurdo que at&eacute; um suposto amante de C&eacute;sio &eacute; citado no relat&oacute;rio:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Em conversa com a Dra. Ociralva Farias de Souza Tabosa, Promotora de Justi&ccedil;a, da 1&ordf; Promotoria de Altamira, a mesma nos informou que l&aacute; pelos idos de 1990, recebeu certo dia a queixa de um enfermeiro que trabalhou com C&eacute;sio na Unidade da SESP em Brasil Novo, o qual relatou ter tido um caso amoroso com o citado m&eacute;dico, quando ali conviviam, habitando o mesmo quarto, e, que o motivo de ele ter comparecido &agrave; presen&ccedil;a da Promotora, fora para que ela o notificasse a fim de que partilhassem os poucos bens que haviam amealhado na vida conjunta. Assim, a Dra. Ociralva expediu uma notifica&ccedil;&atilde;o ao Dr. C&eacute;sio, tendo este comparecido e partilhado com o enfermeiro um ventilador cor-de-rosa, almofadas, roupas de cama, toalhas e outros pequenos objetos. A Dra. Ociralva contou ainda que n&atilde;o sabe que fim levou a notifica&ccedil;&atilde;o expedida, por&eacute;m lembra-se bem do Dr. C&eacute;sio, &ldquo;do seu jeito arrogante e da sua cara feia&rdquo;. Quanto ao enfermeiro, n&atilde;o guardou bem a sua fisionomia, pois s&oacute; o viu naqueles momentos, mas lembra-se de t&ecirc;-lo ouvido falar &ldquo;ser de tamanha injusti&ccedil;a o que estava acontecendo, depois de tanta dedica&ccedil;&atilde;o e carinho. Ele chegava cansado do hospital e deitava-se de roupa e tudo, e eu sempre lhe preparava um lanche e cuidava de suas coisas. Eu n&atilde;o sou qualquer um, sou um enfermeiro formado.&rdquo;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Se essa hist&oacute;ria fosse verdadeira &ndash; o que n&atilde;o &eacute;&nbsp; &ndash; seria mais uma forma da pol&iacute;cia ligar os crimes de emascula&ccedil;&atilde;o &agrave; homossexualidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A leitura do relat&oacute;rio deixa claro que o crit&eacute;rio usado por Jos&eacute; Carlos para filtrar as informa&ccedil;&otilde;es &eacute; muito ruim. &Eacute; uma investiga&ccedil;&atilde;o recheada de boatos que n&atilde;o se sustentam em nada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dessa problem&aacute;tica, surge uma explica&ccedil;&atilde;o para Valdete. No relat&oacute;rio, ela &eacute; chamada de Silvia, mas o texto abaixo foi adaptado com o seu nome verdadeiro. Al&eacute;m dela, o trecho cita o seu companheiro pelas iniciais A.M.A. O contato entre a testemunha e a PF teria se iniciado em outubro de 1994, durante a segunda fase da Opera&ccedil;&atilde;o Monstro de Altamira:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Certa ocasi&atilde;o, dois integrantes da Equipe encontraram-se com Valdete, que estava acompanhada de seu companheiro A. M. A., sendo por ela feitas as apresenta&ccedil;&otilde;es e, depois de um certo bate-papo, as despedidas.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>No dia seguinte a este epis&oacute;dio, recebemos a mensagem de que Valdete precisava falar com a Equipe, e que, para sua seguran&ccedil;a, iria estar em local e hor&aacute;rio determinados por ela. Foi com grande surpresa que a encontramos muito nervosa, chorando e pedindo a nossa prote&ccedil;&atilde;o. Por&eacute;m, n&atilde;o citava qual seria o motivo para tanto nervosismo, nem o porqu&ecirc; da seguran&ccedil;a.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Passados alguns momentos, Valdete narrou que seu companheiro, ap&oacute;s o encontro com os dois colegas no dia anterior, havia lhe perguntado quem eram aquelas pessoas, sendo-lhe respondido por ela que eram amigos da Pol&iacute;cia Federal, ficando A. furioso e proferindo as seguintes palavras: &ndash; &ldquo;Deixe de andar com esse pessoal, voc&ecirc; ainda &eacute; muito mo&ccedil;a para morrer&rdquo;.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Valdete ficou intrigada com aquelas palavras e passou a observar melhor o companheiro, que teve o seu comportamento totalmente alterado nas horas seguintes, inclusive, durante a madrugada tentou esgan&aacute;-la. Tentamos acalm&aacute;-la procurando entender o comportamento de A., pedindo que retornasse &agrave; sua resid&ecirc;ncia e procurasse nos manter informados dos acontecimentos seguintes. Tr&ecirc;s dias depois desta conversa, Valdete informou-nos que A. teria sumido e que provavelmente rumou para a localidade de Bom Jardim, onde teria neg&oacute;cios, ficando a Equipe curiosa com toda a situa&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Terminada a Miss&atilde;o Altamira em outubro 94 e com o retorno da Equipe &agrave; Sede, n&atilde;o mais tivemos contato com Valdete.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Em dezembro de 94, parte da Equipe retornou a Altamira em cumprimento de outra Miss&atilde;o. Contatamos novamente com a mesma que solicitou um encontro reservado, oportunidade que pretendia narrar fatos de seu conhecimento. Entretanto n&atilde;o o fez, mostrando-se dissimulada, vaga, imprecisa, apesar do esfor&ccedil;o da Equipe policial, n&atilde;o falando coisa com coisa, dando a impress&atilde;o de estar propositadamente tentando nos passar uma falsa imagem sobre sua pessoa.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O importante &eacute; que no local onde foi realizada esta reuni&atilde;o, Valdete nada nos revelou, vindo a nos revelar fatos sucintos numa segunda reuni&atilde;o, cujo local foi a estrada que vai para a localidade denominada Cama de Vara. Por ser um local aberto, Valdete n&atilde;o foi incisiva nos fatos revelados, o que nos deixou temerosos quanto &agrave; veracidade dos fatos descritos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Os v&aacute;rios testemunhos de Valdete, cujo valor como prova pode parecer para alguns fracos quando em ju&iacute;zo, para a Equipe &eacute; de um valor incalcul&aacute;vel, pois diante daquilo que se procura para alicer&ccedil;ar a tese da Culpabilidade dos Acusados, seus testemunhos n&atilde;o s&oacute; vieram confirmar dados que j&aacute; eram de nosso conhecimento, como tamb&eacute;m trouxeram &agrave; tona outros dados cuja espontaneidade, em suas declara&ccedil;&otilde;es, sem qualquer tipo de press&atilde;o, tanto f&iacute;sica quanto psicol&oacute;gica, nos ser&atilde;o de grande valia, pois, depois de totalmente confirmados, colocar&atilde;o n&atilde;o s&oacute; esses acusados, mas tamb&eacute;m os outros, se Deus quiser, definitivamente atr&aacute;s das grades.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sendo Valdete uma pessoa totalmente insegura, o seu interlocutor tem de ser dotado de grande habilidade &ndash; tato -, pois ao menor sinal de d&uacute;vida, a mesma se fecha e come&ccedil;a a soltar evasivas, sendo essas as raz&otilde;es de que, no princ&iacute;pio, pens&aacute;vamos ser ela uma doida ignorante, que falava alhos com bugalhos, n&atilde;o dizia coisa com coisa, mas que com o passar do tempo, come&ccedil;amos a compreender aquele tipo de evasiva, de algu&eacute;m que deseja fazer-se de bobo e o consegue, iludindo aqueles que se consideram sabidos demais, nada lhes revelando, apesar de saber muito a respeito dos fatos que se est&aacute; perquirindo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Quando, atrav&eacute;s de um consenso da Equipe, aprendemos a lidar com a mesma, adotando medidas que come&ccedil;aram a lhe agradar, utilizando as mesmas palavras que ela, adotando o seu linguajar, descendo ao seu n&iacute;vel de express&otilde;es idiom&aacute;ticas, contornamos o maior obst&aacute;culo que se depara na cidade de Altamira, que &eacute; justamente a omiss&atilde;o e o medo latente que a popula&ccedil;&atilde;o tem dos poderosos, principalmente aqueles que viveram ou sofreram em algum momento essas mortes.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mormente porque n&atilde;o s&oacute; nesses, mas em todos, est&aacute; intrinsecamente arraigado que os criminosos permaneceram, permanecem ou permanecer&atilde;o eternamente impunes, em raz&atilde;o da Justi&ccedil;a ser morosa, e as Pol&iacute;cias Civil e Militar serem suscept&iacute;veis &agrave; influ&ecirc;ncia pol&iacute;tica, e alguns dos seus elementos venais, haja vista a implica&ccedil;&atilde;o direta desses policiais na pr&aacute;tica destes crimes, quase sempre utilizados pelos poderosos para pegarem os meninos, mant&ecirc;-los em cativeiro, fazerem a seguran&ccedil;a do local onde os mesmos ficavam presos e eram sacrificados, e por fim proteg&ecirc;-los de forma a que n&atilde;o fossem incomodados nas investiga&ccedil;&otilde;es, incumbidos ainda de se elas amea&ccedil;assem se dirigir para eles, desvi&aacute;-las, de modo que nunca fossem atingidos pela lei, quer em processos, quer na sua aplica&ccedil;&atilde;o. Enfim, a impunidade total, consideram-se intoc&aacute;veis.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ao ler o depoimento de Valdete presente nos autos, a hist&oacute;ria &eacute; a seguinte: no final da d&eacute;cada de 1980, ela tinha um namorado chamado Isa&iacute;as. Certa vez, ela o viu dentro de um carro com Amailton, levando um menino morto no porta-malas. O companheiro, ent&atilde;o, a amea&ccedil;ou e mandou que ela n&atilde;o contasse aquilo para ningu&eacute;m.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/07\/1995-10-18-VALDETE-Termo-de-declaracoes-Valdete.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Valdete Rodrigues Barroso<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Em 1994, quando a PF foi &agrave; Altamira, Valdete conversou com os agentes. No ano seguinte, passou a ser perseguida por um pistoleiro chamado Maur&iacute;cio, que teria liga&ccedil;&otilde;es com a fam&iacute;lia Gomes. Esse homem foi preso ainda em 1995, e a pol&iacute;cia descobriu que ele era cobrador de d&iacute;vidas. Uma das notas promiss&oacute;rias que o suspeito carregava tinha justamente o nome de um parente do fazendeiro. Toda essa hist&oacute;ria &eacute; contada em detalhes no <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-14\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">epis&oacute;dio 14<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan sempre estranhou o fato disso tudo n&atilde;o ter nenhum desdobramento, dada a gravidade e aparente materialidade da situa&ccedil;&atilde;o. Agora, lendo o relat&oacute;rio da PF, &eacute; poss&iacute;vel entender por que as investiga&ccedil;&otilde;es n&atilde;o avan&ccedil;aram.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o documento de Jos&eacute; Carlos, Valdete na verdade estava sendo amea&ccedil;ada pelo fazendeiro Vantuil. Ele &eacute; quem teria enviado o pistoleiro Maur&iacute;cio atr&aacute;s dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, Valdete tinha um bar em Altamira na &eacute;poca dos crimes, que seria frequentado por v&aacute;rios membros da seita: policiais militares e civis, soldados e muitos outros. L&aacute;, eles falavam sobre atividades estranhas que, na interpreta&ccedil;&atilde;o da testemunha, estavam relacionadas &agrave;s mortes e emascula&ccedil;&otilde;es de crian&ccedil;as. Uma dessas pessoas era <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-carlos-bergamin\/\" target=\"_self\" title=\"&Eacute; apontado no relat&oacute;rio da PF de 1996 como suspeito na morte de Judirley\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Carlos Bergamin<\/a>, dono da caminhonete caf&eacute; com leite, que tamb&eacute;m teria conex&otilde;es com Vantuil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o relat&oacute;rio, em certa ocasi&atilde;o, o fazendeiro Vantuil foi at&eacute; o bar com Maur&iacute;cio, para amea&ccedil;ar Valdete. O motivo teria a ver com o companheiro dela, nomeado pelas iniciais A.M.A.:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Quanto aos fatos por ela narrados, consta o de que seu companheiro A. teria sido empregado de VANTUIL, por um per&iacute;odo de aproximadamente 04 anos, e que teria conhecimento de v&aacute;rios atos praticados pelo patr&atilde;o, citando dentre outras falcatruas, o seguinte: &ndash; &ldquo;Que na fazenda da Estrada da Serrinha, funcionava um desmanche de carros roubados e que tamb&eacute;m havia um barrac&atilde;o onde eram alojados menores por ele levados para trabalhar, e que seu capataz distribu&iacute;a alguns v&iacute;veres com o intuito de atrair esses menores&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a vida amorosa de Valdete, o parecer aponta que, entre 1988 e 1994, ela teve tr&ecirc;s relacionamentos: Isa&iacute;as, que estava com Amailton na hist&oacute;ria do carro; um homem chamado Josivaldo, ex bate-pau da pol&iacute;cia; e A.M.A, que trabalharia para Vantuil. Para a PF, todos eles tinham algum envolvimento com a seita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre Isa&iacute;as, a narrativa tem outros elementos. Valdete dizia que ele tinha sido motorista de An&iacute;sio, no mesmo per&iacute;odo em que ela tamb&eacute;m trabalhou na cl&iacute;nica. A testemunha, ainda adolescente, teria sido violentada pelo m&eacute;dico. Foi nessa &eacute;poca que ela conheceu Isa&iacute;as, e eles iniciaram um relacionamento.<\/p>\n\n\n\n<p>O namorado de Valdete era amigo de Amailton. Por isso, ambos frequentavam a casa dos Gomes. Um trecho do relat&oacute;rio conta um pouco sobre esse per&iacute;odo, no final da d&eacute;cada de 1980. Ele cont&eacute;m alguns nomes desconhecidos:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Durante o namoro, geralmente os encontros eram marcados na esquina do Banco do Brasil, no hor&aacute;rio entre dezessete e dezoito horas, em dias alternados. ISA&Iacute;AS, que andava sempre arrumado, sa&iacute;a para lhe encontrar da resid&ecirc;ncia de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/amailton-madeira-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Filho de Amadeu Gomes, &eacute; um dos acusados no caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">AMAILTON MADEIRA GOMES<\/a>, provavelmente, onde o mesmo trabalhava. Enquanto aguardava o namorado, presenciou certa vez o Dr. An&iacute;sio sair da casa de Amailton com v&aacute;rios sacos de sangue nos bra&ccedil;os e colocar no banco traseiro de sua Bras&iacute;lia. Em mais de uma vez, n&atilde;o se recordando quantas vezes, presenciou <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/luiz-kapiche-neto\/\" target=\"_self\" title=\"Radialista e advogado em Altamira ligado aos Gomes\" class=\"encyclopedia\">LUIZ KAPICHE NETO<\/a> sair da casa de Amailton com uma caixa de isopor, igual a dos vendedores de picol&eacute;s, n&atilde;o sabendo precisar o seu conte&uacute;do, vindo a saber anos depois, atrav&eacute;s de seu companheiro de nome A., que seriam &oacute;rg&atilde;os genitais humanos. Frequentavam tamb&eacute;m a casa de Amailton, nos mesmos dias e hor&aacute;rios que a mesma se encontrava &agrave; espera de seu namorado Isa&iacute;as, um m&eacute;dico que trabalhava no hospital S&atilde;o Jos&eacute;, o qual tinha os cabelos grisalhos, n&atilde;o se recordando do nome do mesmo; viu tamb&eacute;m uma mulher magra, alta, caneluda, cabelos lisos curtos, cortados reto, morena escura, aparentando uns trinta anos, que n&atilde;o conhecia; GENILSON e esposa, ambos mexem com compra e venda de madeiras, e t&ecirc;m fazenda no km 180; VANTUIL, chegava sempre em uma pampinha vermelha acompanhado de um homem moreno forte, aparentando ser mais velho que Vantuil e que pela semelhan&ccedil;a poderia ser seu irm&atilde;o; um m&eacute;dico moreno, 1.70 metros aproximadamente, complei&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica m&eacute;dia, cabelos lisos grossos, penteados para tr&aacute;s, de roupa branca e uma malinha quadrada preta.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>No dia 15.09.95, quando repass&aacute;vamos com Valdete a hist&oacute;ria narrada, esta revelou o nome do m&eacute;dico que visitava a resid&ecirc;ncia de Amailton e portava uma malinha preta, quadrada, era o Dr. C&eacute;sio Brand&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[O ex-companheiro A.M.A.] contou tamb&eacute;m &agrave; Valdete que os &oacute;rg&atilde;os dos meninos emasculados eram enviados para outro lugar junto com embalagens de peixinhos ornamentais e que Eunice sabia de tudo. Quem levava para embalar e tirar de Altamira eram LUIZ KAPICHE E A MULHER DE GENILSON.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Claramente, esse relat&oacute;rio foi feito para montar um caso contra Vantuil e outras pessoas de Altamira, transformando Valdete na grande testemunha da acusa&ccedil;&atilde;o. Uma informante mais poderosa do que Agostinho e Edmilson. Afinal, as hist&oacute;rias mirabolantes repassadas por ela envolviam Amailton, C&eacute;sio, An&iacute;sio, e muitos outros. S&atilde;o desses relatos que surgem v&aacute;rios nomes de suspeitos levantados pelo parecer da PF.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nada disso foi para frente. Ainda bem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>EUDILENE<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Outra resposta que o relat&oacute;rio fornece &eacute; referente &agrave; <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eudilene-pereira-da-costa\/\" target=\"_self\" title=\"Adolescente que se diz testemunha de uma s&eacute;rie de crimes contra meninos\" class=\"encyclopedia\">Eudilene Pereira da Costa<\/a>, de 13 anos, mencionada no <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-13\/\" target=\"_blank\">epis&oacute;dio 13<\/a>. Em depoimento dado em dezembro de 1994, ela acusa a esposa de um tio, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/maria-do-socorro-santos-costa\/\" target=\"_self\" title=\"Apontada por Eudilene como suspeita no caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Maria do Socorro Santos Costa<\/a>, de lev&aacute;-la ao posto de sa&uacute;de da cidade para ser abusada pelo doutor C&eacute;sio. Al&eacute;m disso, a adolescente diz ter presenciado uma s&eacute;rie de crimes contra meninos em uma ch&aacute;cara, cometidos pelo m&eacute;dico, Amailton e outros suspeitos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/06\/1994-12-07-EUDILENE-Termo-de-Informacoes-de-Eudilene-Pereira-da-Costa-1.pdf\" target=\"_blank\">Termo de Informa&ccedil;&atilde;o de Eudilene Pereira da Costa<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Parte da hist&oacute;ria de Eudilene &eacute; explicada no relat&oacute;rio da PF. No documento, ela &eacute; chamada de Samara, mas o texto novamente foi adaptado com o seu nome real. Os eventos narrados aqui n&atilde;o constam no relato anexado aos autos:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Atrav&eacute;s das Dras. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/angelica-nancy-barbosa-araujo\/\" target=\"_self\" title=\"Psiquiatra que examinou a testemunha Eudilene na d&eacute;cada de 1990\" class=\"encyclopedia\">Ang&eacute;lica Nancy Barbosa Ara&uacute;jo<\/a>, M&eacute;dica Psiquiatra da SESPA, e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/simone-aldenora-dos-anjos\/\" target=\"_self\" title=\"Assistente social que auxiliou nos cuidados &agrave; testemunha Eudilene nos anos 90\" class=\"encyclopedia\">Simone Aldenora dos Anjos<\/a>, Assistente Social, membros da Comiss&atilde;o Especial de Altamira designada pelo Governo do Estado do Par&aacute;, tomamos conhecimento da est&oacute;ria da menina Eudilene que perambulava pelas ruas de Altamira em companhia de outros meninos, aparentando n&atilde;o ter eira nem beira, sendo por isso recolhida pelo pessoal do Conselho Tutelar, que, ao ouvir as suas est&oacute;rias, houve por bem conduzi-la a presen&ccedil;a da j&aacute; citada m&eacute;dica que encontrava-se em Altamira realizando trabalho de apoio psiqui&aacute;trico &agrave;s fam&iacute;lias das v&iacute;timas de emascula&ccedil;&atilde;o, e que, ap&oacute;s minucioso exame cl&iacute;nico e psiqui&aacute;trico na menina, impressionada com o que ouviu e viu, houve por bem cientificar-nos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Antes de Eudilene ser analisada pela Dra. Ang&eacute;lica, a mesma foi conduzida pela Presidente do Conselho Tutelar de Altamira, Sra. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/antonia-melo\/\" target=\"_self\" title=\"Ativista fundadora de organiza&ccedil;&otilde;es sociais em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Ant&ocirc;nia Melo<\/a>, &agrave; presen&ccedil;a da Psic&oacute;loga <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/shirley-do-socorro-machado-goes\/\" target=\"_self\" title=\"Psic&oacute;loga que examinou a testemunha Eudilene nos anos 90\" class=\"encyclopedia\">Shirley do Socorro Machado G&oacute;es<\/a>, que a considerou como &ldquo;doida&rdquo; e disse que, por causa disto, n&atilde;o levava a s&eacute;rio as suas den&uacute;ncias. Shirley, entretanto, &eacute; alvo de nossas investiga&ccedil;&otilde;es, por poss&iacute;vel envolvimento com pessoas ligadas &agrave;s emascula&ccedil;&otilde;es.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Segundo a an&aacute;lise da psiquiatra Ang&eacute;lica, apesar do pouco tempo de contato, n&atilde;o se tratava de um quadro psic&oacute;tico, pois a mesma esteve no s&iacute;tio e acreditou que a est&oacute;ria de Eudilene tem muita l&oacute;gica, n&atilde;o achando, em princ&iacute;pio, tratar-se de uma fantasia arquitetada pela mente da menina.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Que certa vez, Socorro, a esposa de seu tio, a levou para uma praia, que n&atilde;o sabe dizer o nome, juntamente com outras pessoas, e que l&aacute; havia um bebezinho, o qual foi morto pela Socorro e foi-lhe tirado uma seringa de sangue e injetado em Eudilene, e que esta se sentiu muito estranha, e que passou a incorporar um esp&iacute;rito chamado esquelet&oacute;ide, e que o corpo do beb&ecirc; foi enterrado embaixo de um coqueiro na praia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eudilene quando estava na Pastoral, ficou folheando uma galeria de recortes de jornal, onde l&aacute; constavam fotos de Amailton, An&iacute;sio, C&eacute;sio, A. Santos e outros. Vendo a foto de Amailton, apontou-a como sendo <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/pedro-fim\/\" target=\"_self\" title=\"Rapaz apontado por Eudilene como suspeito no caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">PEDRO FIM<\/a>, um dos homens que estavam na ch&aacute;cara onde foi levada, e reconheceu o Dr. C&eacute;sio, por&eacute;m ignorava a foto do Dr. An&iacute;sio, como se nunca o tivesse visto.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Por&eacute;m, em uma de nossas sa&iacute;das pela cidade, Eudilene conversava distraidamente quando, em uma rua, parou de falar e em seguida disse: &ldquo;J&aacute; vim aqui nesta rua&rdquo; e, em seguida, o policial que dirigia o carro retornou, trafegando em sentido inverso, ocasi&atilde;o que ela apontou para uma casa e disse: &ldquo; &ndash; Foi aqui que eu vim, mas esta casa n&atilde;o era assim&rdquo;.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Em seguida lhe foi perguntado o que tinha ido fazer l&aacute;, recebendo os policiais como resposta que uma mulher naquela casa tinha recebido esp&iacute;rito antes do tempo, e que ela (Eudilene), Socorro, e outras pessoas que n&atilde;o lembrava os nomes, teriam ido buscar essa dita mulher em um carro grande, vermelho, e a levaram para o terreiro da <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/maezinha\/\" target=\"_self\" title=\"Conhecida m&atilde;e de santo em Altamira na d&eacute;cada de 1990\" class=\"encyclopedia\">M&atilde;ezinha<\/a>, onde ia haver uma comemora&ccedil;&atilde;o e lhe tirariam o esp&iacute;rito.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>A rua era a Isaac Benaroc e a casa que ela apontou era a de An&iacute;sio, que havia sofrido uma reforma, estando a frente mudada. Em raz&atilde;o disso, os policiais levaram Eudilene at&eacute; as imedia&ccedil;&otilde;es de sua ch&aacute;cara, sem que ela desse algum sinal de que conhecia aquela &aacute;rea. Por&eacute;m, ao chegar pr&oacute;ximo ao cercado da mesma, Eudilene come&ccedil;ou a ter uma rea&ccedil;&atilde;o diferente, pedindo para sair daquele local, pois, segundo ela, se ali permanecessem, o que aconteceria n&atilde;o seria bom para ela nem para os policiais.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Percebendo a mudan&ccedil;a no seu tom de voz, na sua fisionomia, enfim, no seu todo, os policiais prudentemente se retiraram do local com ela. Mais adiante, recuperada, explicou que naquela ch&aacute;cara havia reuni&otilde;es de macumba, e que ela recebia um esp&iacute;rito maligno, que se batia todo, rasgava a roupa, enfim, que era muito feio, da&iacute; por que ela n&atilde;o queria ficar na porta da ch&aacute;cara.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Se o depoimento de Eudilene no processo j&aacute; parecia fantasioso, o relat&oacute;rio da PF ajudou a refor&ccedil;ar essa convic&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan Mizanzuk entrou em contato com as pessoas citadas nessa passagem do parecer, mas nenhuma quis gravar entrevista. Outras fontes apontaram a exist&ecirc;ncia de um laudo psiqui&aacute;trico de Eudilene, que foi enviado ao Minist&eacute;rio P&uacute;blico do Par&aacute;. O documento, no entanto, n&atilde;o est&aacute; nos autos.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim, o que aconteceu com as pessoas citadas? E a lista de suspeitos? As investiga&ccedil;&otilde;es da PF tiveram algum resultado nesta fase? Pelos autos, a impress&atilde;o &eacute; de que o relat&oacute;rio de 1996 n&atilde;o deu em nada. Tudo parece um amontoado de boatos, sem nenhuma prova.<\/p>\n\n\n\n<p>N&atilde;o parece ser &agrave; toa, ent&atilde;o, que oito meses depois da conclus&atilde;o do parecer da PF, em dezembro de 1996, houve a decis&atilde;o de impron&uacute;ncia dos acusados. Na ocasi&atilde;o, o juiz respons&aacute;vel, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/paulo-roberto-ferreira-vieira\/\" target=\"_self\" title=\"Juiz de Altamira designado para o caso ap&oacute;s decis&atilde;o do STF\" class=\"encyclopedia\">Paulo Roberto Ferreira Vieira<\/a>, escreveu:<\/p>\n\n\n\n<p><em>As provas manifestam-se por demais fr&aacute;geis. S&atilde;o um amontoado de depoimentos sem nexo, sem liga&ccedil;&atilde;o entre si, sem um m&iacute;nimo de certeza, que leve ao julgador a seguran&ccedil;a necess&aacute;ria para pronunciar o r&eacute;u.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/07\/1996-12-03-Juiz-Paulo-Roberto-Ferreira-Vieira-impronuncia-todos-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Decis&atilde;o de impron&uacute;ncia &ndash; juiz Vieira<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; surpreendente a conclus&atilde;o da promotora <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/elaine-de-souza-nuayed\/\" target=\"_self\" title=\"Promotora que participou da terceira fase de ju&iacute;zo do caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Elaine de Souza Nuayed<\/a> ap&oacute;s a leitura do relat&oacute;rio. Durante a audi&ecirc;ncia realizada em 1996 na Comiss&atilde;o de Direitos Humanos da C&acirc;mara, ela disse:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Depois de ler [o relat&oacute;rio da PF produzido em abril de 1996], entendi por bem que n&atilde;o deve ser apensado aos autos, porque o relat&oacute;rio da Pol&iacute;cia Federal, para mim, n&atilde;o sei se para os senhores que j&aacute; leram, &eacute; uma pe&ccedil;a que coloca mais em d&uacute;vida a autoria ou as autorias do processo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum promotor em s&atilde; consci&ecirc;ncia, querendo construir um caso s&oacute;lido de acusa&ccedil;&atilde;o, colocaria uma pe&ccedil;a dessas nos autos. Mais do que qualquer coisa, esse relat&oacute;rio nos conta mais sobre qu&atilde;o ins&oacute;lita foi a investiga&ccedil;&atilde;o da Pol&iacute;cia Federal.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as d&uacute;vidas permanecem: o que teria acontecido com Maur&iacute;cio, Valdete e Eudilene? O que houve nos bastidores? O que mais n&atilde;o sabemos dessa hist&oacute;ria fantasiosa? Que fim levou o primeiro relat&oacute;rio da PF, da miss&atilde;o de 1993? Ser&aacute; que ele era t&atilde;o infundado quanto este? E por que Valentina sequer &eacute; citada neste relat&oacute;rio?<\/p>\n\n\n\n<p>Essa aus&ecirc;ncia da l&iacute;der do Lineamento comprova a suspeita de que ela n&atilde;o era o foco das investiga&ccedil;&otilde;es, mas passou a ser nos j&uacute;ris de 2003.<\/p>\n\n\n\n<p>&Agrave; luz do que hoje se sabe sobre <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a>, tudo isso se torna ainda mais surreal. Quanto tempo foi gasto? Quanto dinheiro p&uacute;blico? Quantas fam&iacute;lias foram destru&iacute;das? Quantas foram enganadas por confiar nas autoridades federais?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para quem acredita que Chagas &eacute; o verdadeiro culpado, como &eacute; o caso de Ivan, o dano &eacute; incalcul&aacute;vel e irrepar&aacute;vel. Os familiares das v&iacute;timas de Altamira n&atilde;o acreditam na culpa do mec&acirc;nico. Eles foram alimentados por anos por essas sandices. Sofreram o que ningu&eacute;m deveria sofrer e foram enganados por um p&eacute;ssimo trabalho policial. N&atilde;o h&aacute; solu&ccedil;&atilde;o. O dano est&aacute; feito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Este epis&oacute;dio prometeu tr&ecirc;s revela&ccedil;&otilde;es sobre o caso dos emasculados. A primeira foi sobre o que levou a Pol&iacute;cia Federal &agrave; Altamira. A segunda foi o relat&oacute;rio da PF.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A terceira tem a ver com uma das testemunhas mais importantes da acusa&ccedil;&atilde;o: <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/edmilson-da-silva-frazao\/\" target=\"_self\" title='Testemunha que diz ter participado de uma \"missa negra\" na ch&aacute;cara de An&iacute;sio' class=\"encyclopedia\">Edmilson da Silva Fraz&atilde;o<\/a>, o ex-bate pau que dizia ter participado de um culto macabro liderado por Valentina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante as pesquisas, o advogado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rubens-pena-junior\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado e antrop&oacute;logo\" class=\"encyclopedia\">Rubens Pena J&uacute;nior<\/a> conseguiu localizar Edmilson. Ivan, ent&atilde;o, entrou em contato com ele e conseguiu uma entrevista. Nela, ele prometeu contar a verdade sobre tudo. E o que ele disse tem potencial para mudar essa hist&oacute;ria para sempre.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>RELAT&Oacute;RIO DA PF &ndash; 1996<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1tDDJ8-imWh39ELU0i7SjudUGhrh_wSA_\/view\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">1996-04-18 &ndash;&nbsp; Relat&oacute;rio PF Altamira (Fases 2 e 3 Opera&ccedil;&atilde;o Monstro de Altamira)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/1996-04-18-Relatorio-PF-Altamira-Fases-2-e-3-Operacao-Monstro-de-Altamira-COMENTADO.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">1996-04-18 &ndash;&nbsp; Relat&oacute;rio PF Altamira (Fases 2 e 3 Opera&ccedil;&atilde;o Monstro de Altamira) COMENTADO<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><em>*Este epis&oacute;dio usou reportagens da TV Bandeirantes.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As Tr\u00eas Revela\u00e7\u00f5es <\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":35,"template":"","encyclopedia-category":[6],"encyclopedia-tag":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia\/942"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/types\/encyclopedia"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=942"}],"wp:term":[{"taxonomy":"encyclopedia-category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-category?post=942"},{"taxonomy":"encyclopedia-tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-tag?post=942"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}