{"id":918,"date":"2023-01-19T00:01:00","date_gmt":"2023-01-19T03:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/?post_type=encyclopedia&#038;p=918"},"modified":"2023-01-18T11:25:44","modified_gmt":"2023-01-18T14:25:44","slug":"extras-episodio-28","status":"publish","type":"encyclopedia","link":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-28\/","title":{"rendered":"Extras Epis\u00f3dio 28"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>IMPASSE JUDICIAL<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A pol&iacute;cia do Maranh&atilde;o prendeu <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a> em dezembro de 2003, no mesmo per&iacute;odo em que o j&uacute;ri de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/valentina-de-andrade\/\" target=\"_self\" title=\"L&iacute;der do Lineamento Universal Superior\" class=\"encyclopedia\">Valentina de Andrade<\/a> se encerrou. Em mar&ccedil;o e abril do ano seguinte, o mec&acirc;nico passou a confessar os casos de S&atilde;o Lu&iacute;s e de Altamira. Mais tarde, foi levado ao Par&aacute; para apontar os locais dos crimes.<\/p>\n\n\n\n<p>No m&ecirc;s de setembro de 2004, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/claudio-dalledone-junior\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado de defesa que atuou no j&uacute;ri de Valentina de Andrade\" class=\"encyclopedia\">Cl&aacute;udio Dalledone J&uacute;nior<\/a> virou advogado de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/cesio-flavio-caldas-brandao\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico reconhecido por Agostinho como suspeito na morte de Jaenes\" class=\"encyclopedia\">C&eacute;sio Fl&aacute;vio Caldas Brand&atilde;o<\/a>, e a entrevista de Chagas &agrave; revista Carta Capital foi publicada. No meio disso tudo, o Minist&eacute;rio P&uacute;blico do Par&aacute; se articulou para anular o julgamento de Valentina, enquanto ocorriam as investiga&ccedil;&otilde;es da quebra de incomunicabilidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1iNY6DHGhPImeHQs-xuXgodUOItFqHbQt\/view\" target=\"_blank\">Mat&eacute;ria da Carta Capital &ndash; &ldquo;Fala o serial killer&rdquo;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; nesse contexto que aconteceu em Bras&iacute;lia, em novembro de 2004, a j&aacute; citada audi&ecirc;ncia na Comiss&atilde;o de Direitos Humanos. Na ocasi&atilde;o, estavam presentes o delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/joao-carlos-amorim-diniz\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil conhecido por ligar Chagas a diversos crimes no Maranh&atilde;o\" class=\"encyclopedia\">Jo&atilde;o Carlos Amorim Diniz<\/a>, o perito <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/wilton-carlos-rego\/\" target=\"_self\" title=\"Perito que ajudou a ligar Chagas a diversos crimes no Maranh&atilde;o\" class=\"encyclopedia\">Wilton Carlos Rego<\/a>, duas promotoras do Maranh&atilde;o, al&eacute;m dos advogados Dalledone e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/janio-siqueira\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado de defesa de C&eacute;sio Fl&aacute;vio Caldas Brand&atilde;o\" class=\"encyclopedia\">J&acirc;nio Siqueira<\/a>. Eles eram acompanhados por familiares de C&eacute;sio, An&iacute;sio e Amailton.<\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo da reuni&atilde;o era mostrar como a pol&iacute;cia chegou &agrave; conclus&atilde;o de que Chagas seria o verdadeiro autor das mortes em ambos os estados.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado, quem colocava d&uacute;vidas sobre a culpabilidade do mec&acirc;nico eram os deputados do PT, que historicamente estiveram ao lado das fam&iacute;lias em Altamira. Em um trecho dispon&iacute;vel na transcri&ccedil;&atilde;o da audi&ecirc;ncia, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-geraldo-torres-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Deputado federal pelo PT em 2004, &eacute;poca da audi&ecirc;ncia sobre os emasculados\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Geraldo Torres da Silva<\/a>, o Z&eacute; Geraldo, fez a seguinte indaga&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n\n\n\n<p><em>A minha pergunta &agrave;s Promotoras, ao Delegado, aos Deputados, &agrave; toda a intelig&ecirc;ncia desta reuni&atilde;o &eacute; a seguinte: se as pessoas que est&atilde;o presas e a que foi inocentada n&atilde;o s&atilde;o culpadas, se &eacute; o mec&acirc;nico, quem &eacute; o assessor do mec&acirc;nico? Quem s&atilde;o os mandantes do mec&acirc;nico? Ou ser&aacute; que o mec&acirc;nico passaria 10, 15 anos matando crian&ccedil;as por iniciativa pr&oacute;pria, por sua capacidade? As crian&ccedil;as mortas em Altamira, emasculadas, castradas, n&atilde;o o foram por meio de canivete, de fac&atilde;o e deixada para l&aacute;. N&atilde;o foi um ato praticado por um mec&acirc;nico qualquer que sabia s&oacute; consertar motor de carro, mas por pessoas que faziam bem feito, tanto que algumas n&atilde;o morreram, sen&atilde;o teriam morrido todas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Delegado, eu disse que suas informa&ccedil;&otilde;es foram muito superficiais, e agora eu as refor&ccedil;o com uma pergunta. A informa&ccedil;&atilde;o que tenho at&eacute; agora &eacute; que o mec&acirc;nico n&atilde;o encontrou ossada de nenhuma v&iacute;tima que ele fez em Altamira. Encontrou ou n&atilde;o encontrou? Ou essa ossada, se foi encontrada alguma, ainda est&aacute; sob an&aacute;lise?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em resposta, Diniz explicou que a pol&iacute;cia do Maranh&atilde;o acompanhou o mec&acirc;nico em Altamira, onde foram reproduzidos os processos de levantamento dos locais e de recogni&ccedil;&atilde;o visual gr&aacute;fica. &ldquo;Esse procedimento foi repetido no Par&aacute;. Ele levou [a equipe] a 14 lugares. Se neles foram realmente encontradas algumas das v&iacute;timas, s&oacute; a Pol&iacute;cia Federal de l&aacute; pode dizer&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outro momento, o deputado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/luiz-couto\/\" target=\"_self\" title=\"Deputado do PT que participou em 2004 da audi&ecirc;ncia sobre os emasculados\" class=\"encyclopedia\">Luiz Couto<\/a>, do PT da Para&iacute;ba, questionou o delegado sobre as linhas de investiga&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;cia. Diniz, ent&atilde;o, afirmou que inicialmente uma das hip&oacute;teses inclu&iacute;a a possibilidade de rituais sat&acirc;nicos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de Chagas aparecer, uma equipe do Maranh&atilde;o inclusive acompanhou alguns dos j&uacute;ris em Bel&eacute;m em busca de pistas: seriam os acusados no Par&aacute; tamb&eacute;m respons&aacute;veis pelos crimes no estado vizinho? Para responder a essa pergunta, os policiais tiveram acesso ao material coletado sobre os eventos em Altamira. Na &eacute;poca, a promotora <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rosana-cordovil\/\" target=\"_self\" title=\"Promotora que atuou no j&uacute;ri dos acusados em 2003\" class=\"encyclopedia\">Rosana Cordovil<\/a>, bastante sol&iacute;cita, colaborou com a troca de informa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao analisar os processos, por&eacute;m, agora com a pris&atilde;o do mec&acirc;nico, a hip&oacute;tese de seita ca&iacute;a por terra. &ldquo;Principalmente com a quest&atilde;o das datas, n&oacute;s provamos que, quando Chagas estava em S&atilde;o Lu&iacute;s, ocorreu crime em S&atilde;o Lu&iacute;s. Quando ele estava no Par&aacute;, ocorreu crime no Par&aacute;&rdquo;, relatou Diniz.<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m disso, segundo ele, o estudo das les&otilde;es nas v&iacute;timas e da oculta&ccedil;&atilde;o dos cad&aacute;veres comprovou similaridades entre as mortes nas duas cidades. &ldquo;Os corpos eram encontrados no mato, cobertos por palha, e emasculados. Isso &eacute; semelhan&ccedil;a. Isso &eacute; cient&iacute;fico. S&atilde;o dados, s&atilde;o ind&iacute;cios&rdquo;, completou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda de acordo com o investigador, a partir da descoberta das ossadas e roupas na casa de Chagas, o suspeito n&atilde;o viu outra sa&iacute;da a n&atilde;o ser confessar de forma espont&acirc;nea. Com o tempo, ele tamb&eacute;m admitiu ter atacado garotos em Altamira.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Ele &eacute; quem disse o local, os aspectos f&iacute;sicos das crian&ccedil;as, o que elas usavam, o que conversavam com ele, o que carregavam na m&atilde;o; o local em que as encontrou e em que as deixou. Eu n&atilde;o falei nada para ele, nem o nome das v&iacute;timas, pois na lista s&oacute; tinha as iniciais&rdquo;, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra revela&ccedil;&atilde;o de Diniz sobre as confiss&otilde;es &eacute; o fato de que, j&aacute; preso, o suspeito certa vez assistiu a uma mat&eacute;ria da TV Record sobre os emasculados no Maranh&atilde;o e no Par&aacute;. A reportagem noticiava que pessoas tinham sido presas e condenadas pelas ocorr&ecirc;ncias em Altamira. Chagas, ent&atilde;o, teria chamado os policiais e dito que os detidos de l&aacute; eram inocentes, pois ele tinha feito tudo aquilo sozinho. Exatamente a mesma coisa que falou para o jornalista <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/sergio-lirio\/\" target=\"_self\" title=\"Jornalista da Carta Capital que entrevistou Chagas em 2004\" class=\"encyclopedia\">S&eacute;rgio L&iacute;rio<\/a>, da Carta Capital.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J&aacute; em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s investiga&ccedil;&otilde;es, o delegado apontou, durante a audi&ecirc;ncia, que houve confus&atilde;o entre a Pol&iacute;cia Federal e a Civil no Par&aacute; para saber quem conduziria os trabalhos. No fim, ambas as corpora&ccedil;&otilde;es tiveram envolvimento no caso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/AP-emasculados-camara-18_11_2004.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ata da audi&ecirc;ncia da Comiss&atilde;o de Direitos Humanos de 2004<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, no Maranh&atilde;o, os processos avan&ccedil;aram. Nas fases de instru&ccedil;&atilde;o judicial, Chagas confessou cada um dos assassinatos que cometeu, sempre acompanhado de um defensor p&uacute;blico.<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1_MZmaUrc4xjd8mHigiwvkaA18_HyiAgo\/view\" target=\"_blank\">Chagas &ndash; Confiss&otilde;es em ju&iacute;zo (2004-2005)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Mas, no Par&aacute;, tudo parecia travar no Minist&eacute;rio P&uacute;blico. Ap&oacute;s a conclus&atilde;o das investiga&ccedil;&otilde;es da Pol&iacute;cia Civil e Federal, os promotores de Altamira deveriam receber os relat&oacute;rios e oferecer den&uacute;ncias contra o suspeito. Dessa forma, assim como no estado vizinho, teria in&iacute;cio a etapa de ju&iacute;zo, com novos interrogat&oacute;rios perante &agrave; justi&ccedil;a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S&oacute; que havia um problema: pessoas j&aacute; estavam presas e condenadas pelos crimes, e isso gerava um impasse por parte do judici&aacute;rio do Par&aacute;. Enquanto isso, os advogados de defesa usaram as confiss&otilde;es de Chagas para tentar conseguir habeas corpus para os acusados.<\/p>\n\n\n\n<p>As respostas para esses esfor&ccedil;os vieram em dezembro de 2004, um ano ap&oacute;s a pris&atilde;o do mec&acirc;nico. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/cesio-flavio-caldas-brandao\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico reconhecido por Agostinho como suspeito na morte de Jaenes\" class=\"encyclopedia\">C&eacute;sio Fl&aacute;vio Caldas Brand&atilde;o<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/anisio-ferreira-de-souza\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico acusado no caso dos meninos emasculados\" class=\"encyclopedia\">An&iacute;sio Ferreira de Souza<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/amailton-madeira-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Filho de Amadeu Gomes, &eacute; um dos acusados no caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Amailton Madeira Gomes<\/a> foram soltos por decis&atilde;o do ministro <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/marco-aurelio-mello\/\" target=\"_self\" title=\"Ministro do STF que concedeu habeas corpus aos acusados\" class=\"encyclopedia\">Marco Aur&eacute;lio Mello<\/a>, do Supremo Tribunal Federal (STF). O ex-PM <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/carlos-alberto-dos-santos-lima\/\" target=\"_self\" title=\"Policial militar acusado no caso dos meninos\" class=\"encyclopedia\">Carlos Alberto dos Santos Lima<\/a> permaneceu detido.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/2004-11-28-Ordem-de-soltura-Cesio-HC-STF.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">2004-11-28 &ndash; Ordem de soltura C&eacute;sio (HC &ndash; STF)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/2004-12-13-Ordem-de-soltura-Amailton-e-Anisio-TJPA-seguindo-STF.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">2004-12-13 &ndash; Ordem de soltura Amailton e An&iacute;sio (TJPA seguindo STF)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Em abril de 2005, por&eacute;m, todos tiveram pris&atilde;o decretada em suas apela&ccedil;&otilde;es. Ainda assim, puderam responder o processo em liberdade at&eacute; o esgotamento dos recursos. Isso aconteceu em maio de 2009, quando os m&eacute;dicos foram presos novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui &eacute; importante esclarecer que, diferente do que parte da imprensa divulgou, An&iacute;sio n&atilde;o estava foragido nessa &eacute;poca, morando no Maranh&atilde;o, seu estado de origem. Juridicamente, ele tinha o direito de se manter em liberdade enquanto recorria do mandado de pris&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>J&aacute; Amailton nunca mais foi encontrado. At&eacute; hoje ele &eacute; considerado foragido pela justi&ccedil;a, com mandado de pris&atilde;o em aberto v&aacute;lido at&eacute; 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 24 de outubro de 2010, Carlos Alberto faleceu em decorr&ecirc;ncia de um c&acirc;ncer. Quando a met&aacute;stase j&aacute; estava instalada, ele p&ocirc;de passar os seus &uacute;ltimos dias em casa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>NOVA AUDI&Ecirc;NCIA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a>? O que aconteceu com os inqu&eacute;ritos policiais que afirmavam que ele era o verdadeiro assassino de Altamira? Onde foram parar os ossos encontrados nos locais que o mec&acirc;nico apontou l&aacute;? Eles foram analisados e identificados?<\/p>\n\n\n\n<p>Essas eram perguntas que tamb&eacute;m passavam pela cabe&ccedil;a dos familiares dos acusados, especialmente de Amailton, C&eacute;sio e An&iacute;sio. Por isso, ap&oacute;s nova mobiliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica da bancada evang&eacute;lica, ocorreu em novembro de 2003 outra audi&ecirc;ncia na Comiss&atilde;o de Direitos Humanos em Bras&iacute;lia. Dessa vez, a sess&atilde;o foi presidida pelo deputado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/marco-feliciano\/\" target=\"_self\" title=\"Presidente da Comiss&atilde;o de Direitos Humanos da C&acirc;mara em 2013\" class=\"encyclopedia\">Marco Feliciano<\/a>, que atuava na &eacute;poca como presidente da Comiss&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Anos antes, entre 2008 e 2009, durante a CPI da Pedofilia, o senador <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/magno-malta\/\" target=\"_self\" title=\"Senador que pediu em 2013 a realiza&ccedil;&atilde;o de nova audi&ecirc;ncia sobre os emasculados\" class=\"encyclopedia\">Magno Malta<\/a> havia afirmado que o caso dos emasculados de Altamira n&atilde;o passava de uma grande injusti&ccedil;a contra os acusados. Agora, em 2013, ele mesmo pediu a realiza&ccedil;&atilde;o da nova audi&ecirc;ncia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a composi&ccedil;&atilde;o da mesa havia mudado. Da reuni&atilde;o anterior, de 2004, apenas o delegado Diniz se fez presente. Al&eacute;m dele, participaram desse segundo encontro parentes dos acusados: Lucimar, a esposa de An&iacute;sio; e Selene e Cl&aacute;udia, irm&atilde;s de C&eacute;sio.<\/p>\n\n\n\n<p>A escritora e crimin&oacute;loga <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/ilana-casoy\/\" target=\"_self\" title=\"Crimin&oacute;loga e escritora, auxiliou a pol&iacute;cia a investigar Chagas em 2004\" class=\"encyclopedia\">Ilana Casoy<\/a> tamb&eacute;m foi &agrave; audi&ecirc;ncia em Bras&iacute;lia, para relatar como auxiliou as investiga&ccedil;&otilde;es contra <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a>. Na ocasi&atilde;o, ela revelou que entrevistou o mec&acirc;nico para a produ&ccedil;&atilde;o de uma monografia sobre o caso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/Ilana-Casoy-%E2%80%93-Perfil_psicologico_e_comportamental_de_a.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Monografia de Ilana Casoy<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Eu mesma conversei com Chagas por mais de 60 horas para o meu trabalho de pesquisa. Ele me contou cada crime, n&atilde;o s&oacute; no Maranh&atilde;o, como tamb&eacute;m em Altamira. Voc&ecirc;s podem ver pelo meu tamanho que, nem que eu quisesse, poderia ter for&ccedil;ado o Chagas. Ele &eacute; um homem bem forte. Conversamos com muita tranquilidade&rdquo;, disse Ilana na &eacute;poca.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com ela, o mec&acirc;nico admitiu ter cometido 45 crimes nos dois estados, com tr&ecirc;s sobreviventes e 42 mortos. &ldquo;Ele pode n&atilde;o lembrar o nome, mas lembra exatamente n&atilde;o s&oacute; da hist&oacute;ria de cada crian&ccedil;a, como a encontrou e o que falou para ela, como tamb&eacute;m tem uma mem&oacute;ria impressionante da roupa que ela vestia e o que fazia quando a abordou. Os de Altamira s&atilde;o os primeiros crimes dele, que, tecnicamente, s&atilde;o a base de todo o processo criminoso, a base psicol&oacute;gica&rdquo;, pontuou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A escritora tamb&eacute;m acompanhou a ida de Chagas &agrave; Altamira e o processo de reconstitui&ccedil;&atilde;o e an&aacute;lise geogr&aacute;fica. Para ela, a precis&atilde;o com que ele apontou os locais era surpreendente. &ldquo;Antes de entrar na mata, e eu tenho isso filmado, ele falou assim &lsquo;aqui eu deixei o menino, na terceira mangueira do lado direito. Foi na terceira mangueira&rsquo;. E, realmente, ele sabia exatamente at&eacute; a vegeta&ccedil;&atilde;o que ali se encontrava&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais adiante na reuni&atilde;o, a palavra foi dada &agrave; pastora <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/damares-alves\/\" target=\"_self\" title=\"Ministra de Bolsonaro, participou em 2004 de audi&ecirc;ncia sobre os emasculados\" class=\"encyclopedia\">Damares Alves<\/a>. Ela comentou que conhecia a hist&oacute;ria de Altamira desde 1999, quando C&eacute;sio teve uma carta lida na Comiss&atilde;o. Em 2004, a ent&atilde;o assessora parlamentar tamb&eacute;m participou da audi&ecirc;ncia sobre os emasculados. Agora, nove anos depois, ela se queixava da falta de resultado de toda essa mobiliza&ccedil;&atilde;o ao longo dos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;As autoridades do Par&aacute; n&atilde;o vieram &agrave; audi&ecirc;ncia, &agrave; esta Comiss&atilde;o, como n&atilde;o vieram hoje de novo. Eu lamento. Eu vi o requerimento. Eles tamb&eacute;m foram convidados e n&atilde;o vieram. Entendo que &eacute; dif&iacute;cil admitir que erraram, e erraram feio&rdquo;, refor&ccedil;ou.<\/p>\n\n\n\n<p>A pastora tamb&eacute;m fez um discurso inesperado sobre a situa&ccedil;&atilde;o de Amailton. &ldquo;Ele foi acusado porque acredito que tinha trejeitos. Ali havia uma quest&atilde;o de homofobia, e essa Comiss&atilde;o sabia disso. Esse menino sofreu grandemente na cadeia&rdquo;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com ela, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-amadeu-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Rico fazendeiro de Altamira, pai de Amailton Gomes\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Amadeu Gomes<\/a> inclusive denunciou uma s&eacute;rie de torturas pelas quais o filho foi submetido enquanto estava preso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para relembrar, assim como C&eacute;sio e An&iacute;sio, Amailton foi solto por habeas corpus concedido pelo STF no final de 2004. Em 2009, com o esgotamento dos recursos, todos tiveram que voltar &agrave; pris&atilde;o. Diferente dos m&eacute;dicos, entretanto, o filho do fazendeiro permaneceu foragido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2013, na audi&ecirc;ncia, Damares revelou outra informa&ccedil;&atilde;o sobre o que teria acontecido com ele. &ldquo;Depois [das torturas], ele contraiu Aids e morreu, foragido. A fam&iacute;lia chora a morte desse menino. Um jovem que tinha um futuro brilhante morreu inocente, acusado, foragido, e os pais n&atilde;o se conformam&rdquo;, completou.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/AP-emasculados-camara-13_11_2013.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ata da audi&ecirc;ncia da Comiss&atilde;o de Direitos Humanos de 2013<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O caso dos meninos emasculados tem pelo menos quatro fases bem distintas. A primeira &eacute; o per&iacute;odo dos crimes, entre 1989 e 1993. A segunda envolve a suspeita de envolvimento de uma seita sat&acirc;nica e a mobiliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica das fam&iacute;lias das v&iacute;timas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A terceira fase engloba o que acontece a partir dos j&uacute;ris de 2003, quando <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/valentina-de-andrade\/\" target=\"_self\" title=\"L&iacute;der do Lineamento Universal Superior\" class=\"encyclopedia\">Valentina de Andrade<\/a> ganha um protagonismo que n&atilde;o possu&iacute;a at&eacute; ent&atilde;o. J&aacute; a quarta etapa inclui as consequ&ecirc;ncias da pris&atilde;o de Chagas no Maranh&atilde;o. Todos esses per&iacute;odos s&atilde;o bastante politizados, gra&ccedil;as &agrave; movimenta&ccedil;&atilde;o das pessoas que clamavam por justi&ccedil;a &ndash; um desejo totalmente compreens&iacute;vel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, nesta &uacute;ltima fase, o caso ganhou um car&aacute;ter de politiza&ccedil;&atilde;o antag&ocirc;nica. Do lado das fam&iacute;lias dos meninos estavam os setores progressistas da sociedade, historicamente ligados &agrave; esquerda, que acreditavam que Chagas seria uma inven&ccedil;&atilde;o dos poderosos membros da seita. Do outro lado, as esferas mais conservadoras, conhecidas como de direita, defendiam a inoc&ecirc;ncia dos acusados, considerados v&iacute;timas de homofobia e persegui&ccedil;&atilde;o religiosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, &eacute; uma situa&ccedil;&atilde;o que d&aacute; um n&oacute; em qualquer no&ccedil;&atilde;o mais dura que se tenha sobre direita e esquerda no Brasil. E o cen&aacute;rio fica mais confuso quando analisamos o material disponibilizado em uma reportagem especial sobre Altamira e Maranh&atilde;o produzida pela TV Record. Com duas horas de dura&ccedil;&atilde;o, ela foi ao ar em 2020 no programa Rep&oacute;rter Record Investiga&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nela, os jornalistas entrevistam o ex-delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a>, que n&atilde;o quis conversar com Ivan Mizanzuk para a produ&ccedil;&atilde;o do podcast. No canal do YouTube do programa, h&aacute; trechos extras que n&atilde;o foram ao ar na mat&eacute;ria da TV. Em um deles, o ent&atilde;o investigador acusa <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/frederick-wassef\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado que atuou na defesa de Valentina\" class=\"encyclopedia\">Frederick Wassef<\/a>, advogado de Valentina nos anos 90, de tentar suborn&aacute;-lo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na &eacute;poca em que Ivan falou com Wassef para esta temporada do Projeto Humanos, ele n&atilde;o tinha conhecimento do suposto suborno denunciado por <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a>. Mesmo assim, conseguiu question&aacute;-lo de forma mais geral sobre o ent&atilde;o delegado, que tamb&eacute;m &eacute; pr&oacute;ximo do ex-presidente Jair Bolsonaro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Oficialmente, Mauro e Wassef possuem vis&otilde;es contradit&oacute;rias sobre a autoria dos crimes. Enquanto o primeiro trabalhou para prender os &ldquo;membros da seita&rdquo;, o segundo acredita que Chagas foi o &uacute;nico respons&aacute;vel pelos ataques aos meninos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao podcast, o ex-advogado de Valentina se disse surpreso com a postura do colega. Isso porque, na &eacute;poca, quando conversava com <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a>, a opini&atilde;o dele parecia ser outra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Por v&aacute;rias vezes ele me externou que tinha convic&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o existia seita sat&acirc;nica nenhuma. V&aacute;rias vezes ele me disse que quem articulava tudo era a Pol&iacute;cia Federal. &Eacute; claro que, se voc&ecirc; for falar com ele hoje, provavelmente ele vai negar, mas eu me recordo perfeitamente. N&atilde;o tenho nada contra ele, eu o respeito, &eacute; um policial e fez o trabalho dele&rdquo;, comentou. <\/p>\n\n\n\n<p>Wassef ainda acrescentou que, hoje em dia, n&atilde;o tem contato com o ex-delegado.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando &agrave; audi&ecirc;ncia de 2013, a crimin&oacute;loga <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/ilana-casoy\/\" target=\"_self\" title=\"Crimin&oacute;loga e escritora, auxiliou a pol&iacute;cia a investigar Chagas em 2004\" class=\"encyclopedia\">Ilana Casoy<\/a> e o delegado Diniz aproveitaram a ocasi&atilde;o para apresentar uma hip&oacute;tese acerca do lavrador <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/agostinho-jose-da-costa\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha-chave que liga C&eacute;sio e Amailton ao crime contra Jaenes\" class=\"encyclopedia\">Agostinho Jos&eacute; da Costa<\/a>, testemunha que teria visto C&eacute;sio sair da mata com um fac&atilde;o sujo de sangue.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles apresentaram fotografias do m&eacute;dico e do mec&acirc;nico, e apontaram semelhan&ccedil;as f&iacute;sicas entre os dois. A reportagem especial da TV Record tamb&eacute;m aborda a teoria de que Agostinho, na verdade, avistou Chagas naquele dia, e n&atilde;o C&eacute;sio.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=JYHcDiozq4s\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Rep&oacute;rter Record Investiga&ccedil;&atilde;o &ndash; Parte 1<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=TC3K6NMn-i0\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Rep&oacute;rter Record Investiga&ccedil;&atilde;o &ndash; Parte 2<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Nessa &eacute;poca, o m&eacute;dico j&aacute; estava com outro recurso, tentando uma revis&atilde;o criminal. O advogado que lhe auxiliava era <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/roberto-lauria\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado que solicitou em 2012 a revis&atilde;o criminal do processo contra C&eacute;sio\" class=\"encyclopedia\">Roberto Lauria<\/a>. Diante das novas provas, ele solicitava que C&eacute;sio fosse absolvido ou, em &uacute;ltima hip&oacute;tese, passasse por um novo j&uacute;ri, que apresentasse a hist&oacute;ria de Chagas aos jurados. Em mar&ccedil;o de 2014, por&eacute;m, o Tribunal de Justi&ccedil;a do Par&aacute; negou o pedido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dois meses depois, os rep&oacute;rteres <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/evandro-siqueira\/\" target=\"_self\" title=\"Rep&oacute;rter que produziu uma mat&eacute;ria sobre os crimes de Altamira para o Fant&aacute;stico\" class=\"encyclopedia\">Evandro Siqueira<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/mauricio-ferraz\/\" target=\"_self\" title=\"Rep&oacute;rter que produziu uma mat&eacute;ria sobre os casos de Altamira para o Fant&aacute;stico\" class=\"encyclopedia\">Maur&iacute;cio Ferraz<\/a> produziram para o Fant&aacute;stico uma longa mat&eacute;ria sobre a situa&ccedil;&atilde;o dos condenados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A reportagem exp&otilde;e as provas da pol&iacute;cia que indicam a autoria de Chagas. C&eacute;sio e An&iacute;sio, ainda na pris&atilde;o, concederam entrevista aos jornalistas. Ambos reiteraram n&atilde;o serem respons&aacute;veis pelos crimes e se disseram v&iacute;timas de uma grande injusti&ccedil;a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m disso, a mat&eacute;ria exibe um v&iacute;deo do pr&oacute;prio mec&acirc;nico assumindo a culpa. &ldquo;Falei para livrar a barra de quem est&aacute; l&aacute; pagando por uma coisa que n&atilde;o cometeu, que &eacute; muito triste&rdquo;, disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Como contraponto, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rosana-cordovil\/\" target=\"_self\" title=\"Promotora que atuou no j&uacute;ri dos acusados em 2003\" class=\"encyclopedia\">Rosana Cordovil<\/a> afirmou aos rep&oacute;rteres n&atilde;o ter d&uacute;vida de que os m&eacute;dicos tiveram envolvimento nos casos. &ldquo;Tenho certeza absoluta porque estudei esse processo profundamente. Analisei todas as provas existentes contra An&iacute;sio e C&eacute;sio, e s&atilde;o provas robustas, mais do que suficientes para a condena&ccedil;&atilde;o dos dois&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>A mesma opini&atilde;o &eacute; compartilhada por <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rosa-maria-pessoa\/\" target=\"_self\" title=\"M&atilde;e de Jaenes da Silva Pessoa\" class=\"encyclopedia\">Rosa Maria Pessoa<\/a>, m&atilde;e de uma das v&iacute;timas, tamb&eacute;m ouvida na ocasi&atilde;o. &ldquo;Isso n&atilde;o entra na minha cabe&ccedil;a, que o Chagas tenha feito sozinho. Ele sozinho n&atilde;o&rdquo;, comentou.<\/p>\n\n\n\n<p>A reportagem ainda apresenta uma declara&ccedil;&atilde;o oficial da PF sobre o caso. Isso &eacute; importante porque foi a pr&oacute;pria corpora&ccedil;&atilde;o que, na d&eacute;cada de 90, apontou a autoria dos supostos membros da seita. Na nova fase de investiga&ccedil;&atilde;o, nos anos 2000, a equipe policial era outra, e o suspeito tamb&eacute;m. Com base nisso, a nota enviada para o Fant&aacute;stico em 2014 foi a seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p><em>A Pol&iacute;cia Federal afirma que foram usadas modernas t&eacute;cnicas de investiga&ccedil;&atilde;o e algumas delas empregadas em investiga&ccedil;&otilde;es de assassinos em s&eacute;rie nos Estados Unidos, e que reitera suas conclus&otilde;es sobre o caso.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, agora a PF assegurava: o mec&acirc;nico era o verdadeiro assassino. E, diferente das antigas opera&ccedil;&otilde;es, que n&atilde;o est&atilde;o registradas nos autos, nos trabalhos recentes tudo foi devidamente documentado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, afinal, qual o resultado dessa nova atua&ccedil;&atilde;o dos agentes federais? <\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a mat&eacute;ria, Chagas teria sido indiciado por 12 mortes no Par&aacute;. Essa informa&ccedil;&atilde;o, no entanto, n&atilde;o procede: na verdade, ele confessou 14 casos no estado, sendo 11 mortos e tr&ecirc;s sobreviventes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/fantastico\/noticia\/2014\/05\/medicos-presos-aguardam-justica-apos-serial-killer-assumir-culpa.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Reportagem do Fant&aacute;stico sobre os condenados em Altamira<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>OSSADAS EM ALTAMIRA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com not&iacute;cias divulgadas anos antes, quando Chagas esteve em Altamira, ossadas teriam sido descobertas em dois lugares que ele apontou para a pol&iacute;cia. O que aconteceu com elas?<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os inqu&eacute;ritos que consideravam Chagas como o assassino no Par&aacute; foram arquivados. O Minist&eacute;rio P&uacute;blico de l&aacute; nunca ofereceu den&uacute;ncia contra ele, e os casos acabaram prescrevendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a pesquisa para esta temporada, Ivan Mizanzuk conseguiu obter a maior parte dos inqu&eacute;ritos em que o mec&acirc;nico foi investigado em Altamira. Alguns s&atilde;o da Pol&iacute;cia Civil e outros da Federal. O curioso &eacute; que nenhum deles cita os tais ossos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J&aacute; nos autos do processo original dos emasculados, especialmente nos pedidos de revis&atilde;o criminal de C&eacute;sio, h&aacute; a men&ccedil;&atilde;o de que as ossadas teriam sido analisadas. O resultado divulgado pela imprensa, segundo esses documentos, era de que o material coletado pertencia na verdade a animais.<\/p>\n\n\n\n<p>A produ&ccedil;&atilde;o do Projeto Humanos n&atilde;o conseguiu encontrar reportagens ou laudos sobre isso. Oficialmente, nos autos, n&atilde;o existem registros desses ossos, nem nada que indique a realiza&ccedil;&atilde;o de uma per&iacute;cia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O caminho foi, ent&atilde;o, questionar algumas pessoas sobre o assunto. Uma das respostas veio do ex-advogado de Valentina, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/frederick-wassef\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado que atuou na defesa de Valentina\" class=\"encyclopedia\">Frederick Wassef<\/a>. Ele acredita que houve um acerto entre as autoridades, para que a verdade n&atilde;o fosse desmascarada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;&Eacute; &oacute;bvio que devem ter ocorrido novas fraudes, e trocaram os restos mortais humanos por ossos de animais, para dizer que esse cidad&atilde;o [Chagas] mentiu, para manter a farsa. Amigo, o Par&aacute; e in&uacute;meras autoridades foram longe demais por muitos anos. Ent&atilde;o, quando a coisa chega em um n&iacute;vel desse, a verdade a ningu&eacute;m interessa&rdquo;, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; preciso esclarecer que n&atilde;o h&aacute; qualquer indica&ccedil;&atilde;o de que isso realmente tenha acontecido. Como dito aqui, a equipe da Pol&iacute;cia Federal dos anos 2000 era nova, e tinha justamente apontado Chagas como o verdadeiro assassino. Seria poss&iacute;vel, ent&atilde;o, que algu&eacute;m de dentro da corpora&ccedil;&atilde;o atrapalhasse as investiga&ccedil;&otilde;es?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi ent&atilde;o que Ivan, ao olhar de perto os inqu&eacute;ritos da PF, encontrou um nome: <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/iracema-soares-de-jesus\/\" target=\"_self\" title=\"Agente da PF que trabalhou na Opera&ccedil;&atilde;o Monstro de Altamira\" class=\"encyclopedia\">Iracema Soares de Jesus<\/a>, agente que fazia parte da equipe da delegada <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/daniele-gossenheimer-rodrigues\/\" target=\"_self\" title=\"Delegada da PF respons&aacute;vel por investigar Chagas em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Daniele Gossenheimer Rodrigues<\/a> em 2004. A mesma policial que trabalhou com <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-carlos-de-souza-machado\/\" target=\"_self\" title=\"Policial federal que chefiou as investiga&ccedil;&otilde;es em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Carlos de Souza Machado<\/a> anos antes, na d&eacute;cada de 1990. Assim como ele, Iracema tinha bastante proximidade com as fam&iacute;lias das v&iacute;timas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A produ&ccedil;&atilde;o do podcast entrou em contato com a doutora Daniele, e tamb&eacute;m com a profissional que a sucedeu, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/virginia-vieira-rodrigues\/\" target=\"_self\" title=\"Delegada da PF que auxiliou as investiga&ccedil;&otilde;es sobre Chagas em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Virg&iacute;nia Vieira Rodrigues<\/a>, mas nenhuma p&ocirc;de conceder entrevista. Assim como o delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/neyvaldo-costa\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado que atuou no inqu&eacute;rito da quebra de incomunicabilidade\" class=\"encyclopedia\">Neyvaldo Costa<\/a>, da Pol&iacute;cia Civil, ambas acreditavam que Chagas era o autor dos crimes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan conversou algumas vezes com Neyvaldo e o convidou para participar do podcast, mas n&atilde;o conseguiu acertar o encontro por quest&atilde;o de agenda. Em outubro de 2022, ele faleceu aos 60 anos de idade, em decorr&ecirc;ncia de um c&acirc;ncer que enfrentava h&aacute; muitos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>A agente Iracema, hoje aposentada, tamb&eacute;m se recusou a dar entrevista, assim como todo e qualquer policial federal que atuou nas investiga&ccedil;&otilde;es da d&eacute;cada de 1990.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, ent&atilde;o, um agente da PF aceitou conversar com Ivan: <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/benilton-ferreira-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Agente da PF que participou da for&ccedil;a-tarefa respons&aacute;vel por investigar os casos no Maranh&atilde;o\" class=\"encyclopedia\">Benilton Ferreira da Silva<\/a>, que foi designado em 2003 para auxiliar no caso dos meninos emasculados do Maranh&atilde;o. Para entender como ele entra na hist&oacute;ria, &eacute; preciso voltar para 2001, quando foi realizado o pleito para denunciar o Brasil na <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/comissao-interamericana-de-direitos-humanos\/\" target=\"_self\" title=\"&Oacute;rg&atilde;o da OEA respons&aacute;vel pela prote&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos\" class=\"encyclopedia\">Comiss&atilde;o Interamericana de Direitos Humanos<\/a>, diante das in&uacute;meras mortes de crian&ccedil;as no estado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da&iacute;, esses crimes passaram a ganhar maior aten&ccedil;&atilde;o a n&iacute;vel federal, o que resultou na cria&ccedil;&atilde;o de uma for&ccedil;a-tarefa para investig&aacute;-los. A equipe, criada em abril de 2003 e liderada pelo delegado Diniz, contava com promotores, investigadores, policiais militares e o agente federal Benilton.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre agosto e novembro do mesmo ano, Diniz e Benilton acompanharam os j&uacute;ris em Bel&eacute;m &ndash; e, pelo menos um deles, presencialmente. Eles tiveram todo o apoio e colabora&ccedil;&atilde;o da Pol&iacute;cia Federal do Par&aacute; e da promotora <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rosana-cordovil\/\" target=\"_self\" title=\"Promotora que atuou no j&uacute;ri dos acusados em 2003\" class=\"encyclopedia\">Rosana Cordovil<\/a>. Afinal, at&eacute; aquele momento, o pessoal do Maranh&atilde;o n&atilde;o descartava a possibilidade da suposta seita ser respons&aacute;vel pelas mortes nos dois estados.<\/p>\n\n\n\n<p>S&oacute; que a for&ccedil;a-tarefa n&atilde;o encontrou nenhuma rela&ccedil;&atilde;o entre os acusados de Altamira e os eventos em S&atilde;o Lu&iacute;s e regi&atilde;o. No m&aacute;ximo, havia o fato de An&iacute;sio ser maranhense, mas nada al&eacute;m disso indicou qualquer envolvimento do m&eacute;dico nos crimes de l&aacute;.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Benilton, assim que a equipe passou a acreditar na autoria de Chagas, o tratamento cordial das autoridades paraenses mudou. &ldquo;A&iacute;, meu amigo, quando a gente parou para fazer as nossas reuni&otilde;es, vimos que estava tudo errado. Tudo errado. N&atilde;o tinha nada a ver. Eu fiquei logo <em>persona non grata <\/em>dos colegas da Pol&iacute;cia Federal de l&aacute;, porque fui question&aacute;-los. Foi uma confus&atilde;o. L&aacute; no Maranh&atilde;o, o Diniz tamb&eacute;m se tornou<em> persona non grata<\/em> dos delegados antigos&rdquo;, disse ele em entrevista ao Projeto Humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Ivan esteve em Altamira em novembro de 2021, muitos envolvidos se recusaram a dar entrevista. L&aacute;, ele notou a quantidade de pessoas que citavam os policiais federais da d&eacute;cada de 1990 como os respons&aacute;veis por solucionar os casos, e como at&eacute; hoje esses agentes s&atilde;o pr&oacute;ximos dos familiares dos garotos.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a conversa para o podcast, Benilton lembrou de um momento espec&iacute;fico que exemplifica essa situa&ccedil;&atilde;o. Durante as investiga&ccedil;&otilde;es sobre Chagas em Altamira, em 2004, os policiais montaram um escrit&oacute;rio onde concentravam todas as atividades. Certa vez, o agente descobriu que uma familiar de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/judirley-da-cunha-chipaia\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a emasculada e morta em janeiro de 1992 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Judirley da Cunha Chipaia<\/a>, menino morto em janeiro de 1992, trabalhava l&aacute; como auxiliar de servi&ccedil;os gerais.<\/p>\n\n\n\n<p>Benilton ficou preocupado com a proximidade que uma pessoa ligada &agrave; v&iacute;tima tinha com o trabalho da pol&iacute;cia. Isso, de acordo com o agente, &eacute; incomum e inclusive prejudicial &agrave;s investiga&ccedil;&otilde;es, que podem ser facilmente contaminadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele resolveu externar tudo isso para a delegada Virg&iacute;nia, que lhe contou que a ideia de colocar essa pessoa no escrit&oacute;rio foi de Iracema, que era amic&iacute;ssima dos Chipaia. &ldquo;Ela ia nos cultos de ora&ccedil;&otilde;es deles, chorava junto com a fam&iacute;lia, essa coisa toda. A&iacute; quando eu mandei tirar a menina de l&aacute;, a animosidade aumentou contra mim. A Iracema era bem intencionada. Mas eles erraram e n&atilde;o quiseram voltar atr&aacute;s&rdquo;, comentou.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Benilton, assim como a promotora <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rosana-cordovil\/\" target=\"_self\" title=\"Promotora que atuou no j&uacute;ri dos acusados em 2003\" class=\"encyclopedia\">Rosana Cordovil<\/a>, Iracema tamb&eacute;m acreditava na hip&oacute;tese de que Chagas fazia parte da &ldquo;seita&rdquo; de Valentina. Por isso, ele travou diversas discuss&otilde;es com ela e outras pessoas que colocavam a culpa nos &ldquo;poderosos&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>O agente afirmou que chegou a pressionar funcion&aacute;rios do Minist&eacute;rio P&uacute;blico do Maranh&atilde;o a realizar uma reuni&atilde;o com o &oacute;rg&atilde;o do Par&aacute;, mas isso nunca aconteceu. A sensa&ccedil;&atilde;o era de que ningu&eacute;m queria comprar aquela briga, para evitar gerar um conflito com as autoridades do estado vizinho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J&aacute; sobre as supostas ossadas descobertas em Altamira, Benilton relatou n&atilde;o ter conhecimento do que ocorreu exatamente, apenas refor&ccedil;ou que os inqu&eacute;ritos n&atilde;o mencionam esse assunto. O policial admitiu, por&eacute;m, que n&atilde;o descarta a possibilidade de algum tipo de fraude nas an&aacute;lises dos materiais.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Eu n&atilde;o sei, mas pode ser que n&atilde;o deram aten&ccedil;&atilde;o [aos ossos] e jogaram fora. Ou pressionaram as delegadas [Virg&iacute;nia e Daniele] para que n&atilde;o usassem aquilo, que n&atilde;o tinha sentido, que era for&ccedil;a&ccedil;&atilde;o de barra. Eu acredito. Pela &iacute;ndole do pessoal de l&aacute; e pelo estado de esp&iacute;rito deles, pode ser isso a&iacute; tranquilamente&rdquo;, opinou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, ent&atilde;o, o que aconteceu com os materiais coletados? Infelizmente, essa pergunta permanece sem resposta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A BICICLETA VERMELHA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao buscar por um elemento comum nos relatos do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a> e de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/wandicley-oliveira-pinheiro\/\" target=\"_self\" title=\"Terceiro sobrevivente do caso dos emasculados de Altamira\" class=\"encyclopedia\">Wandicley Oliveira Pinheiro<\/a>, o terceiro atacado, um detalhe ganha destaque: ambos diziam que o agressor tinha uma bicicleta vermelha.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2004, a Pol&iacute;cia Federal finalmente abriu um inqu&eacute;rito para investigar o caso de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-sidney\/\" target=\"_self\" title=\"Primeiro sobrevivente do caso dos emasculados de Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Sidney<\/a>, a primeira v&iacute;tima em Altamira. Ao ser ouvido pelos policiais, ele tamb&eacute;m relatou que o homem que o sequestrou usava tal bicicleta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em quase todos os inqu&eacute;ritos abertos no Par&aacute; contra Chagas, h&aacute; o depoimento de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/nelson-monteiro-de-souza\/\" target=\"_self\" title=\"Amigo de Chagas da &eacute;poca em que ele morou em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Nelson Monteiro de Souza<\/a>, amigo do mec&acirc;nico. Os dois chegaram at&eacute; a morar juntos em Altamira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu testemunho, Nelson revelou:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Q<\/em><em>UE CHAGAS gostava muito de bicicletas, sendo muito cuidadoso com as mesmas, sendo um xod&oacute; para ele; QUE CHAGAS gostava muito de bicicletas vermelhas.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/2004-07-27-Depoimento-Nelson-Monteiro-de-Souza.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Nelson Monteiro de Souza<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Outro relato semelhante presente nos autos &eacute; o de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/maria-carolina-farias\/\" target=\"_self\" title=\"M&atilde;e de Maur&iacute;cio, que desapareceu em em Altamira em 1992\" class=\"encyclopedia\">Maria Carolina Farias<\/a>, m&atilde;e de Maur&iacute;cio, menino que desapareceu em dezembro de 1992. Em entrevista ao podcast, ela repetiu o que descreveu &agrave; pol&iacute;cia no per&iacute;odo das investiga&ccedil;&otilde;es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Logo ap&oacute;s o registro do Boletim de Ocorr&ecirc;ncia, que ajudou a espalhar a not&iacute;cia do sumi&ccedil;o pela cidade, Maria Carolina recebeu a visita de uma jovem. Ela dizia ter visto Maur&iacute;cio no dia que ele sumiu, entre as 9h30 e 10h, perto da chamada Estrada do Quatro. E o garoto n&atilde;o estava sozinho. Um rapaz o acompanhava.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;O homem estava vestido com uma bermuda jeans e uma camisa branca, empurrando uma bicicleta vermelha. Ele ia de um lado da rua e o Maur&iacute;cio do outro, mas eles subiam na mesma dire&ccedil;&atilde;o&rdquo;, descreveu a m&atilde;e do menino.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com ela, a mo&ccedil;a descreveu o indiv&iacute;duo como &ldquo;moreno, com 1,60 m a 1,65 m de altura&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>No inqu&eacute;rito do desaparecimento de Maur&iacute;cio, comandado pelo delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/neyvaldo-costa\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado que atuou no inqu&eacute;rito da quebra de incomunicabilidade\" class=\"encyclopedia\">Neyvaldo Costa<\/a>, h&aacute; uma confiss&atilde;o espec&iacute;fica de Chagas sobre o caso. Para relembrar, o garoto havia sa&iacute;do cedo de casa para pegar um dinheiro e comprar a&ccedil;&uacute;car, pois queria que a m&atilde;e lhe fizesse canjica, um doce feito com milho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o interrogat&oacute;rio a Neyvaldo, o mec&acirc;nico contou que estava em frente a uma revendedora de carros quando encontrou um ambulante vendendo &lsquo;geladinho&rsquo; &ndash; ou sacol&eacute;. Ele, ent&atilde;o, comprou o produto e permaneceu por ali. Neste momento, surgiu na rua um menino de 11 ou 12 anos, moreno, magro, de cabelo preto e liso, que o ficou observando. Chagas ofereceu um geladinho para ele, que aceitou o agrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, ele comentou com o ambulante que estava com vontade de apanhar milho e, naquele momento, o garoto se prontificou a acompanh&aacute;-lo na empreitada. Eles seguiram juntos rumo a uma propriedade na Estrada do Quatro, com o menor sentado no var&atilde;o da bicicleta do mec&acirc;nico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegaram em frente a um posto de combust&iacute;veis, ambos continuaram o caminho a p&eacute;. A partir da descida da ladeira, eles montaram novamente na bicicleta e dobraram &agrave; direita na Rodovia Transamaz&ocirc;nica, avan&ccedil;ando at&eacute; parar em uma barreira. Nesse ponto, por volta das 12h30, o mec&acirc;nico pediu para que ambos esperassem por um conhecido dele, que estava na regi&atilde;o e poderia encontr&aacute;-los ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois disso, Chagas afirmou n&atilde;o se lembrar de mais nada. Quando deu por si, j&aacute; estava pedalando a bicicleta, no trajeto de volta. Neste dia, ele usava uma bermuda jeans e uma camisa branca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao delegado, alegou que em nenhum momento teve a inten&ccedil;&atilde;o de matar a crian&ccedil;a, pois s&oacute; queria apanhar milho. Mais tarde, ele viu na televis&atilde;o uma not&iacute;cia sobre o desaparecimento do garoto, mas n&atilde;o deu muita aten&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que n&atilde;o se recordava de ter feito algo ruim com ele.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/2004-07-01-Interrogatorio-Chagas-para-Civil-caso-Mauricio-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Chagas &ndash; caso Maur&iacute;cio<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>DISCREP&Acirc;NCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O detalhe da bicicleta vermelha pode ser considerado um forte ind&iacute;cio contra Chagas. No entanto, outros fatores dificultam a identifica&ccedil;&atilde;o do suspeito como o autor dos crimes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um deles, por exemplo, &eacute; o fato de que, em 2004, durante a investiga&ccedil;&atilde;o do inqu&eacute;rito de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-sidney\/\" target=\"_self\" title=\"Primeiro sobrevivente do caso dos emasculados de Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Sidney<\/a>, os policiais mostraram uma foto do mec&acirc;nico para a v&iacute;tima, mas ela n&atilde;o o reconheceu. Por&eacute;m, &eacute; preciso levar em considera&ccedil;&atilde;o que, a essa altura, muito tempo j&aacute; havia se passado desde o ataque, que aconteceu em 1989.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer forma, oficialmente, Chagas nunca foi reconhecido pelos sobreviventes em Altamira. Al&eacute;m disso, h&aacute; outra quest&atilde;o ainda mais complicada: a pol&iacute;cia n&atilde;o encontrou nenhum corpo nos locais apontados pelo suspeito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para relembrar, o mec&acirc;nico confessou 14 casos no Par&aacute;, sendo tr&ecirc;s sobreviventes e 11 mortes. Entre os assassinatos, cinco v&iacute;timas permaneciam desaparecidas. Se os restos mortais de qualquer uma delas tivessem sido descobertos, provavelmente a hist&oacute;ria seria outra. No entanto, apenas duas ossadas teriam sido achadas pelos peritos, e h&aacute; a chance de nenhuma delas ser humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan Mizanzuk considera muito dif&iacute;cil que um cad&aacute;ver pudesse ser encontrado tanto tempo depois naquela regi&atilde;o. Altamira &eacute; rodeada de vegeta&ccedil;&atilde;o e, nesses mais de 10 anos entre os crimes e a an&aacute;lise dos locais com Chagas, animais poderiam ter mexido nos corpos. Mesmo que esse n&atilde;o fosse o caso, as pr&oacute;prias condi&ccedil;&otilde;es do ambiente seriam capazes de fazer os restos mortais desaparecerem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m de tudo isso, por conta de dificuldades espec&iacute;ficas, os peritos n&atilde;o conseguiram escavar alguns dos lugares apontados pelo suspeito. &Eacute; o caso da v&iacute;tima <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-chagas-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Menino que desapareceu em 1992 em Altamira e nunca mais foi localizado\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Chagas da Silva<\/a>, tamb&eacute;m conhecida como &ldquo;Pinduquinha&rdquo;, cujo corpo jamais foi encontrado. Essa &eacute;, inclusive, uma das ocorr&ecirc;ncias mais fr&aacute;geis de todo o processo.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai de Pinduquinha se chamava <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Pai de Jos&eacute; Chagas, menino que sumiu em Altamira no ano de 1992\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas da Silva<\/a>, em uma infeliz coincid&ecirc;ncia com o nome do poss&iacute;vel assassino do seu filho. Aqui vale a ressalva: o sobrenome &ldquo;das Chagas&rdquo; aparece com frequ&ecirc;ncia nos autos, e parece ser relativamente comum na regi&atilde;o. Ao que tudo indica, a irm&atilde; de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/flavio-lopes-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Menino de 10 anos morto em mar&ccedil;o de 1993 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Fl&aacute;vio Lopes da Silva<\/a>, morto em 1993, teria tamb&eacute;m tido um companheiro hom&ocirc;nimo do mec&acirc;nico.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai de Jos&eacute; Chagas foi ouvido pela pol&iacute;cia em 9 de maio de 2004. Na ocasi&atilde;o, ele afirmou que o filho havia sumido entre abril e maio de 1992, ano de elei&ccedil;&atilde;o. No dia do desaparecimento, Francisco acompanhou Jos&eacute; at&eacute; a chamada ladeira da Sarav&aacute;, de onde o garoto seguiu sozinho rumo &agrave; caixa d&rsquo;&aacute;gua, perto do mirante, para vender frutas. Essa foi a &uacute;ltima vez que viu a crian&ccedil;a.<\/p>\n\n\n\n<p>N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel saber o que aconteceu com Jos&eacute; depois disso. Mesmo o local apontado pelo pai pode ser impreciso, j&aacute; que ele s&oacute; prestou depoimento mais de uma d&eacute;cada depois do sumi&ccedil;o. Se &agrave; &eacute;poca ele chegou a ser ouvido pela pol&iacute;cia, esse testemunho n&atilde;o est&aacute; no processo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre o caso de Jos&eacute;, o mec&acirc;nico <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a> disse ter encontrado o menino &ldquo;perto do cruzamento das estradas que v&atilde;o para Cachoeirinha e Cupi&uacute;ba&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 8 de julho de 2004, os investigadores iniciaram as buscas pelos restos mortais de Jos&eacute; Chagas nos locais indicados. Contudo, segundo o laudo assinado pelo perito federal <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/gustavo-ota-ueno\/\" target=\"_self\" title=\"Perito que fez a an&aacute;lise geogr&aacute;fica dos crimes em Altamira em 2004\" class=\"encyclopedia\">Gustavo Ota Ueno<\/a>, as escava&ccedil;&otilde;es n&atilde;o puderam ser realizadas:<\/p>\n\n\n\n<p><em>O Perito estimou, de acordo com os meios dispon&iacute;veis para realiza&ccedil;&atilde;o do exame, a &aacute;rea a ser varrida. Por&eacute;m o signat&aacute;rio considerou o exame prejudicado, pois o local provavelmente situava-se sobre um imenso formigueiro ativo de formigas traco&aacute;, impedindo a equipe de trabalhar por mais de uma hora.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>CONCLUS&Atilde;O:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O exame da &aacute;rea apontada pessoalmente por Francisco como sendo aquela onde deixou o corpo de Jos&eacute; Carlos foi considerado prejudicado e, portanto, n&atilde;o foi poss&iacute;vel encontrar qualquer vest&iacute;gio material que corroborasse a confiss&atilde;o de Francisco.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/Jose-Chagas-da-Silva-Pinduquinha-Laudo-Local.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Laudo de local &ndash; caso Jos&eacute; Chagas<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, a &aacute;rea n&atilde;o foi vastamente analisada pela pol&iacute;cia, o que significa que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel afirmar se havia ou n&atilde;o um corpo l&aacute;.<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m das crian&ccedil;as desaparecidas, Chagas tamb&eacute;m indicou locais onde teria deixado as v&iacute;timas cujos corpos foram localizados. Um deles era de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/klebson-ferreira-caldas\/\" target=\"_self\" title=\"Menino que desapareceu em Altamira em novembro de 1992\" class=\"encyclopedia\">Klebson Ferreira Caldas<\/a>, morto em novembro de 1992 e encontrado &agrave;s margens da Transamaz&ocirc;nica. O problema &eacute; que, ao ser questionado sobre o lugar referente a esse caso, o mec&acirc;nico apontou para o lado errado da estrada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse tipo de equ&iacute;voco &eacute; constante em todo o trabalho de reconhecimento de local feito por Chagas em Altamira. Enquanto no Maranh&atilde;o os apontamentos foram de uma precis&atilde;o realmente impressionante, no Par&aacute; a hist&oacute;ria era outra. L&aacute;, essas discrep&acirc;ncias ajudaram a refor&ccedil;ar a cren&ccedil;a de que o mec&acirc;nico foi instru&iacute;do a assumir os crimes.<\/p>\n\n\n\n<p>Os agentes envolvidos na investiga&ccedil;&atilde;o justificaram as incongru&ecirc;ncias destacando as altera&ccedil;&otilde;es em Altamira desde que Chagas saiu de l&aacute;. A cidade cresceu, recebeu constru&ccedil;&otilde;es, e a vegeta&ccedil;&atilde;o local mudou. Afinal, o suspeito voltou para o munic&iacute;pio uma d&eacute;cada depois dos crimes.<\/p>\n\n\n\n<p>No pr&oacute;prio inqu&eacute;rito de Klebson conduzido pela PF, a conclus&atilde;o do perito Gustavo era a seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Considerando o tempo decorrido do desaparecimento de Klebson (mais de 11 anos e meio), o aspecto do local na &eacute;poca do desaparecimento e na atualidade, a a&ccedil;&atilde;o da natureza (crescimento da vegeta&ccedil;&atilde;o), o erro embutido nas leituras de GPS e o poss&iacute;vel erro e esquecimento de Francisco ao apontar o local, pode-se afirmar que o local apontado pessoalmente por Francisco &eacute; relativamente pr&oacute;ximo ao local onde o corpo foi encontrado, segundo a Pol&iacute;cia Civil. Por&eacute;m, h&aacute; uma discrep&acirc;ncia nos terrenos apontados j&aacute; que aquele apontado por Francisco e pelo parente da v&iacute;tima est&aacute; no lado oposto da Rodovia Transamaz&ocirc;nica em rela&ccedil;&atilde;o ao informado pela Pol&iacute;cia Civil.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/Klebson-Ferreira-Caldas-Laudo-Local.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Laudo de local &ndash; caso Klebson Caldas<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Justamente por conta desses erros, &eacute; complicado afirmar que Chagas tinha uma mem&oacute;ria &oacute;tima e precisa. Se ele de fato matou mais de 40 crian&ccedil;as em 15 anos, seria natural que misturasse v&iacute;timas, datas e locais. H&aacute; ind&iacute;cios disso, por exemplo, na an&aacute;lise do local onde ele disse ter deixado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/tito-mendes-vieira\/\" target=\"_self\" title=\"Menino de 12 anos que desapareceu em Altamira em janeiro de 1991\" class=\"encyclopedia\">Tito Mendes Vieira<\/a>, que desapareceu em 1991 e nunca foi encontrado.<\/p>\n\n\n\n<p>O lugar apontado por Chagas &eacute;, na verdade, onde o corpo de Klebson foi descoberto. Ent&atilde;o, &eacute; poss&iacute;vel que ele tenha confundido os dois. N&atilde;o h&aacute; como saber.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2023\/01\/Tito-Mendes-Vieira-Laudo-Local.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Laudo de local &ndash; Tito Vieira<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, h&aacute; ainda as quest&otilde;es referentes ao pr&oacute;prio suspeito. Depois de passar o ano de 2004 sendo interrogado, confessando e indicando locais, ele decidiu parar de colaborar com as investiga&ccedil;&otilde;es. Passou a dizer que havia sido torturado e coagido, e que n&atilde;o tinha nada a ver com os casos. Atualmente, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a> est&aacute; preso em Pedrinhas, em S&atilde;o Lu&iacute;s do Maranh&atilde;o, e n&atilde;o admite mais os crimes.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a escritora e crimin&oacute;loga <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/ilana-casoy\/\" target=\"_self\" title=\"Crimin&oacute;loga e escritora, auxiliou a pol&iacute;cia a investigar Chagas em 2004\" class=\"encyclopedia\">Ilana Casoy<\/a>, a mudan&ccedil;a de postura do mec&acirc;nico teria ocorrido pouco antes do primeiro j&uacute;ri no Maranh&atilde;o, do caso <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jonathan-vieira\/\" target=\"_self\" title=\"Adolescente de 15 anos que desapareceu em 2003 no Maranh&atilde;o\" class=\"encyclopedia\">Jonnathan Silva Vieira<\/a>. Na ocasi&atilde;o, a irm&atilde; do acusado, que seria uma das testemunhas, pediu para falar com ele. Nessa &eacute;poca, ela ainda morava em Altamira.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Quando ela v&ecirc; o Chagas, conta para ele todo o massacre que vem sofrendo, de quase linchamento e de agress&otilde;es, e que teve que mudar de casa. Inclusive, o depoimento dela foi com o rosto escondido por uma balaclava, para n&atilde;o ser reconhecida. E ela pede para ele n&atilde;o falar. &lsquo;A nossa fam&iacute;lia est&aacute; em Altamira, n&atilde;o fale de Altamira&rsquo;&rdquo;, relatou Ilana em entrevista ao podcast. &Eacute; a partir desse momento, j&aacute; no pr&oacute;prio j&uacute;ri, que Chagas passa a negar os eventos no Par&aacute;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan Mizanzuk e a roteirista Tain&aacute; Muhringer gravaram uma longa entrevista com a escritora, que ser&aacute; publicada como epis&oacute;dio b&ocirc;nus ao final desta temporada.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Ivan, o relato de Ilana encontra respaldo nas horas e horas de confiss&otilde;es gravadas por Chagas. O Projeto Humanos teve acesso aos v&iacute;deos produzidos pela Pol&iacute;cia Civil anexados nos autos do Maranh&atilde;o. H&aacute; grava&ccedil;&otilde;es desde a &eacute;poca em que o suspeito negava tudo at&eacute; o momento em que &eacute; confrontado pelas provas encontradas na casa dele &ndash; quando, enfim, come&ccedil;a a admitir os crimes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Pol&iacute;cia Federal tamb&eacute;m gravou as confiss&otilde;es do mec&acirc;nico, mas a produ&ccedil;&atilde;o do podcast n&atilde;o teve acesso a elas. Fora isso, h&aacute; ainda as fitas com a entrevista do acusado ao jornalista <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/sergio-lirio\/\" target=\"_self\" title=\"Jornalista da Carta Capital que entrevistou Chagas em 2004\" class=\"encyclopedia\">S&eacute;rgio L&iacute;rio<\/a>, e tamb&eacute;m &agrave; pr&oacute;pria Ilana, que conversou com Chagas por cerca de 60 horas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante dois anos, ele confessou tudo para delegados, promotores, ju&iacute;zes, psic&oacute;logos e jornalistas. Repetiu a mesma hist&oacute;ria por horas e horas, in&uacute;meras vezes. Ent&atilde;o, chegou um momento em que ele simplesmente cansou de falar. Isso fica evidente, por exemplo, no j&uacute;ri em que o mec&acirc;nico &eacute; julgado pela morte de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/antonio-reis-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Menino de 12 anos que foi morto e emasculado no Maranh&atilde;o em 1991\" class=\"encyclopedia\">Ant&ocirc;nio Reis Silva<\/a>, conhecido como &ldquo;Carrapato&rdquo;, uma das v&iacute;timas do Maranh&atilde;o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No julgamento, que ocorreu em 2009, Chagas se mostrou bastante impaciente e chegou a se desentender com o juiz. Tudo isso foi gravado e inclu&iacute;do nos autos do processo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao ser interrogado, ele se negou a responder &agrave;s perguntas do magistrado. &ldquo;Eu sou revoltado com a justi&ccedil;a. Sabe por qu&ecirc;? Porque o que a justi&ccedil;a do Maranh&atilde;o est&aacute; fazendo comigo &eacute; coisa de m&aacute;fia, de corrup&ccedil;&atilde;o&rdquo;, diz Chagas.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;O senhor prefere ficar calado?&rdquo;, questionou o juiz em seguida. &ldquo;N&atilde;o vou falar mais nada n&atilde;o&rdquo;, respondeu o r&eacute;u.<\/p>\n\n\n\n<p>No decorrer do interrogat&oacute;rio, Chagas negou tudo. Disse que foi pressionado, torturado, que n&atilde;o teve nada a ver com os crimes. O promotor o confrontou com o laudo de exame psicol&oacute;gico, que descreve os casos a partir das confiss&otilde;es do pr&oacute;prio acusado. &ldquo;Quero dizer que &eacute; a minha palavra contra as deles [psic&oacute;logos]. Que eu n&atilde;o falei isso para eles. Eu n&atilde;o falei&rdquo;, retrucou o mec&acirc;nico.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o j&uacute;ri, o r&eacute;u tamb&eacute;m falou especificamente sobre Altamira. Em sua defesa, afirmou que nenhum sobrevivente jamais o reconheceu e que outras cinco pessoas foram presas e condenadas pelos casos de l&aacute;.<\/p>\n\n\n\n<p>A estrat&eacute;gia era alegar que ele teria sofrido press&otilde;es de policiais, promotores e at&eacute; de pol&iacute;ticos do Maranh&atilde;o para assumir as ocorr&ecirc;ncias. Apesar da tentativa, a t&aacute;tica n&atilde;o funcionou e Chagas acabou condenado. Eram muitas as provas contra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos longos v&iacute;deos de confiss&atilde;o para a Pol&iacute;cia Civil, o mec&acirc;nico est&aacute; calmo e fala livremente, dando detalhes dos assassinatos que cometeu. Ao compararmos essa postura com o que ouvimos nas fitas do caso Evandro, em que houve de fato tortura, &eacute; not&aacute;vel a diferen&ccedil;a no tom. E l&aacute;, mesmo os acusados que n&atilde;o tinham advogado denunciaram em poucos dias as agress&otilde;es que sofreram.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J&aacute; Chagas passou quase dois anos sendo interrogado e avaliado por profissionais de sa&uacute;de, dando entrevistas e confessando, mesmo na presen&ccedil;a de advogados. Portanto, &eacute; dif&iacute;cil acreditar na possibilidade de ele ter recebido orienta&ccedil;&otilde;es sobre o que dizer nos depoimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>No Maranh&atilde;o, no total, o mec&acirc;nico foi condenado por 20 dos 30 crimes que confessou. Os outros 10 ainda n&atilde;o passaram por julgamento &ndash; e talvez isso nem aconte&ccedil;a, pois h&aacute; corpos que nunca foram encontrados. Um deles &eacute; o de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jondelvanes-macedo-escorcio\/\" target=\"_self\" title=\"Menino de 10 anos que desapareceu no Maranh&atilde;o em 1991\" class=\"encyclopedia\">Jondelvanes Macedo Esc&oacute;rcio<\/a>, que sumiu em setembro de 1991 e teria sido a primeira v&iacute;tima no estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Com base nas confiss&otilde;es, an&aacute;lise de depoimentos e estudos geogr&aacute;ficos, a Pol&iacute;cia Civil concluiu que Chagas foi o respons&aacute;vel pelo desaparecimento e morte do garoto. Por&eacute;m, como os restos mortais jamais foram localizados, n&atilde;o h&aacute; materialidade do crime comprovada. Por isso, o suspeito n&atilde;o foi a j&uacute;ri por esse caso espec&iacute;fico.<\/p>\n\n\n\n<p>Somando todas as senten&ccedil;as, o mec&acirc;nico teve quase 600 anos de pris&atilde;o decretada. Ele foi preso em dezembro de 2003 e, nessa &eacute;poca, a pena m&aacute;xima no Brasil era de 30 anos. Em 2019, esse prazo mudou para 40 anos, mas isso n&atilde;o se aplica ao caso de Chagas, uma vez que a nova lei n&atilde;o &eacute; retroativa. Logo, em princ&iacute;pio, ele seria solto em dezembro de 2033.<\/p>\n\n\n\n<p>Na consulta do atestado de pena, entretanto, o t&eacute;rmino da senten&ccedil;a est&aacute; previsto para 28 de mar&ccedil;o de 2041. A produ&ccedil;&atilde;o do podcast n&atilde;o conseguiu verificar o motivo pelo qual esta data aparece e, ao que tudo indica, n&atilde;o seria algo simples de se compreender. Casos como o de Chagas, com tantos crimes e condena&ccedil;&otilde;es, passando por julgamentos que n&atilde;o seguem a linha cronol&oacute;gica dos eventos, s&atilde;o rar&iacute;ssimos. Isso deve complicar at&eacute; mesmo o cumprimento da pena.<\/p>\n\n\n\n<p>O mec&acirc;nico tentou passar por um exame de insanidade mental, mas os examinadores conclu&iacute;ram que ele seria sim capaz de entender a gravidade dos seus atos. Por isso, a alega&ccedil;&atilde;o n&atilde;o avan&ccedil;ou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas no j&uacute;ri de 2009 citado aqui, Chagas tinha um ponto v&aacute;lido: ele realmente nunca foi acusado no Par&aacute;. O Minist&eacute;rio P&uacute;blico poderia ter denunciado o suspeito nos casos que ele confessou, e realizado novas dilig&ecirc;ncias para averiguar as informa&ccedil;&otilde;es. No entanto, isso n&atilde;o aconteceu. Os inqu&eacute;ritos foram arquivados e o mec&acirc;nico jamais foi responsabilizado por nada em Altamira.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CONSEQU&Ecirc;NCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2015, a a&ccedil;&atilde;o do advogado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/roberto-lauria\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado que solicitou em 2012 a revis&atilde;o criminal do processo contra C&eacute;sio\" class=\"encyclopedia\">Roberto Lauria<\/a> por uma revis&atilde;o criminal para <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/cesio-flavio-caldas-brandao\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico reconhecido por Agostinho como suspeito na morte de Jaenes\" class=\"encyclopedia\">C&eacute;sio Fl&aacute;vio Caldas Brand&atilde;o<\/a> foi negada nas inst&acirc;ncias superiores. Assim, o m&eacute;dico permaneceu preso no Par&aacute; at&eacute; 2018, quando conseguiu transfer&ecirc;ncia para o Esp&iacute;rito Santo, a fim de ficar mais perto da fam&iacute;lia. Durante a pandemia, esteve no regime semi-aberto em uma col&ocirc;nia agr&iacute;cola.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 4 de abril de 2022, C&eacute;sio recebeu alvar&aacute; de soltura para cumprir a pena em regime aberto, junto de seus familiares. O m&eacute;dico vive hoje com a esposa e se dedica aos cuidados dos dois netos. Ele n&atilde;o quis gravar entrevista para o podcast, alegando que lutou muito para reconstruir a vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J&aacute; <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/anisio-ferreira-de-souza\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico acusado no caso dos meninos emasculados\" class=\"encyclopedia\">An&iacute;sio Ferreira de Souza<\/a> sofreu tr&ecirc;s AVCs enquanto estava preso. Com a sa&uacute;de muito debilitada, diabetes e press&atilde;o alta, os problemas pioraram. Em maio de 2020, no auge da pandemia, ele foi internado em estado grave no Hospital da Ordem Terceira, em Bel&eacute;m.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A fam&iacute;lia informou que, mesmo com necrose das feridas causadas pela tornozeleira, a justi&ccedil;a n&atilde;o permitiu a retirada do equipamento. O pedido s&oacute; foi concedido ap&oacute;s solicita&ccedil;&atilde;o por escrito do m&eacute;dico respons&aacute;vel &agrave; Secretaria de Estado de Administra&ccedil;&atilde;o Penitenci&aacute;ria (SEAP).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>An&iacute;sio faleceu em casa no ano de 2020. Ivan Mizanzuk entrou em contato com parentes do m&eacute;dico, mas eles tamb&eacute;m preferiram n&atilde;o falar no momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse &eacute; o mesmo caso dos familiares de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/amailton-madeira-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Filho de Amadeu Gomes, &eacute; um dos acusados no caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Amailton Madeira Gomes<\/a>. Em Altamira, muitos acreditam que ele ainda est&aacute; vivo, morando ali mesmo ou at&eacute; fora do pa&iacute;s, escondido. Mas a fam&iacute;lia garante que ele morreu e foi enterrado com outro nome.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De todos os parentes e amigos, Ivan conseguiu falar apenas com Zaila, m&atilde;e de Amailton. Durante uma longa conversa, ela disse que o filho era inocente, um bom rapaz, que sofreu pela m&aacute; fama da fam&iacute;lia Gomes na cidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado do advogado e pesquisador <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rubens-pena-junior\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado e antrop&oacute;logo\" class=\"encyclopedia\">Rubens Pena J&uacute;nior<\/a>, que auxiliou a produ&ccedil;&atilde;o desta temporada, ser&aacute; dedicada aos familiares dos acusados. Para quem tiver interesse, ela ser&aacute; uma boa fonte de consulta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo lado das v&iacute;timas, hoje as fam&iacute;lias de Altamira recebem uma compensa&ccedil;&atilde;o do Estado pelo o que as crian&ccedil;as sofreram. De acordo com a pesquisadora <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/paula-mendes-lacerda\/\" target=\"_self\" title=\"Antrop&oacute;loga e pesquisadora do caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Paula Mendes Lacerda<\/a>, a demanda pela indeniza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o partiu diretamente dos familiares, mas da assessoria jur&iacute;dica que os apoiava por meio dos movimentos sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Se esses crimes ocorreram, foi sem d&uacute;vida pela a&ccedil;&atilde;o de alguns agentes em particular, mas o Estado n&atilde;o deixou de ter responsabilidade pela omiss&atilde;o, pela falta de a&ccedil;&atilde;o quando seria devido, e pelos anos de morosidade da justi&ccedil;a. Eu entendo que &eacute; uma repara&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica, mas a nossa pol&iacute;tica &eacute; sobretudo simb&oacute;lica&rdquo;, relatou ela ao podcast.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a pesquisadora, o valor concedido &eacute; de um sal&aacute;rio m&iacute;nimo, em uma pens&atilde;o vital&iacute;cia &ndash; o que difere da maioria dos casos que ela conhece. Geralmente, o Estado costuma pagar indeniza&ccedil;&otilde;es de um montante bem mais alto, na forma de precat&oacute;rios. Isso significa que as v&iacute;timas demoram a receber a compensa&ccedil;&atilde;o, mas o valor &eacute; maior.<\/p>\n\n\n\n<p>Para as fam&iacute;lias de Altamira, apesar da baixa quantia, a pens&atilde;o representa o resultado de um ac&uacute;mulo de lutas marcadas pela dor e pela busca por justi&ccedil;a. &ldquo;A impress&atilde;o [dos familiares] &eacute; que nenhum dinheiro compensa nada, tampouco a morte ou o desaparecimento de um filho. Mas o recebimento dessa indeniza&ccedil;&atilde;o est&aacute; muito conectado com o sofrimento e as mem&oacute;rias ruins do atendimento dos servi&ccedil;os p&uacute;blicos, pol&iacute;cia e justi&ccedil;a, principalmente&rdquo;, completou Paula.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que nem a maior das compensa&ccedil;&otilde;es financeiras poderia diminuir a dor dessas m&atilde;es, pais, irm&atilde;os e irm&atilde;s que perderam um ente querido de uma forma t&atilde;o cruel. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/maria-carolina-farias\/\" target=\"_self\" title=\"M&atilde;e de Maur&iacute;cio, que desapareceu em em Altamira em 1992\" class=\"encyclopedia\">Maria Carolina Farias<\/a> que o diga. At&eacute; hoje, mais de 30 anos depois do desaparecimento do filho Maur&iacute;cio, ela n&atilde;o perde a esperan&ccedil;a de descobrir o que aconteceu com ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma pista um dia lhe surgiu em um sonho, quando Maria Carolina fez a chamada &ldquo;prova de Deus&rdquo;: ficou sete dias sem comer e, em troca, pediu para Deus lhe mostrar como o filho estava, seja vivo ou morto.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Toda vida eu sonhava com o Maur&iacute;cio do mesmo tamanho que ele saiu de casa. Quando eu fiz a prova de Deus, sonhei com ele bem diferente. Eu sonhei com ele mais alto do que o irm&atilde;o mais velho. S&oacute; que ele vinha em casa, mas n&atilde;o ficava&rdquo;, contou ela ao Projeto Humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela primeira vez, viu Maur&iacute;cio adulto. Ela vislumbrou como ele estaria se o encontrasse vivo, e as consequ&ecirc;ncias disso para todo mundo. &ldquo;Voc&ecirc; j&aacute; pensou se eu tivesse apontado &lsquo;foi fulano que matou meu filho&rsquo;? E se de repente ele chega no port&atilde;o? Eu n&atilde;o vou passar o restinho dos meus dias na cadeia? Vou. N&atilde;o fa&ccedil;o, meu amigo. Eu n&atilde;o falo. Eu n&atilde;o aponto ningu&eacute;m se n&atilde;o tiver certeza&rdquo;, completou.<\/p>\n\n\n\n<p>As fam&iacute;lias de Altamira sempre afirmaram que jamais apontaram o dedo para ningu&eacute;m, apenas acompanharam o trabalho da pol&iacute;cia. Ao mesmo tempo, diante das novas investiga&ccedil;&otilde;es, ningu&eacute;m acredita na culpa de Chagas. No m&aacute;ximo, se consideram que ele teve algum envolvimento, n&atilde;o pode ter agido sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso &eacute; resultado da atua&ccedil;&atilde;o da PF na cidade, na d&eacute;cada de 1990, que acolheu os familiares dos meninos. Da equipe que nunca deixou claro o que fez, que n&atilde;o tem relat&oacute;rios nos autos e que manteve contato com os familiares mesmo depois de todos esses anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Oficialmente, a hist&oacute;ria acabaria aqui.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, durante o hiato do podcast, a produ&ccedil;&atilde;o teve acesso a novos documentos relacionados &agrave; Pol&iacute;cia Federal. Mais especificamente, sobre o contexto da redemocratiza&ccedil;&atilde;o ap&oacute;s a ditadura, e as atividades desenvolvidas pelos agentes em Altamira. Chegou a hora de esclarecermos algumas coisas importantes, de uma vez por todas. &Eacute; o que faremos no pr&oacute;ximo epis&oacute;dio.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Este epis&oacute;dio usou reportagens da Rede Globo.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As Provas?<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":35,"template":"","encyclopedia-category":[6],"encyclopedia-tag":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia\/918"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/types\/encyclopedia"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=918"}],"wp:term":[{"taxonomy":"encyclopedia-category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-category?post=918"},{"taxonomy":"encyclopedia-tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-tag?post=918"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}