{"id":762,"date":"2022-12-15T00:01:00","date_gmt":"2022-12-15T03:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/?post_type=encyclopedia&#038;p=762"},"modified":"2022-12-15T05:17:08","modified_gmt":"2022-12-15T08:17:08","slug":"extras-episodio-23","status":"publish","type":"encyclopedia","link":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-23\/","title":{"rendered":"Extras Epis\u00f3dio 23"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>GUERRA DE NARRATIVAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O j&uacute;ri de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/valentina-de-andrade\/\" target=\"_self\" title=\"L&iacute;der do Lineamento Universal Superior\" class=\"encyclopedia\">Valentina de Andrade<\/a> come&ccedil;ou em 19 de novembro de 2003. No primeiro dia, a acusa&ccedil;&atilde;o exibiu as duas fitas VHS apreendidas pela Pol&iacute;cia Federal (PF): a da arma com a frase da r&eacute; sobre &ldquo;vampirinhos&rdquo; e a cena teatral que se assemelharia a um ritual de emascula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Fotos dos capuzes encontrados na casa da acusada em Londrina, no Paran&aacute;, tamb&eacute;m foram apresentadas aos jurados. Vale lembrar que a pol&iacute;cia colheu esse material em 1992 e, de alguma maneira inexplic&aacute;vel, ele acabou transferido para o Par&aacute; no ano seguinte, junto com outros pertences do Lineamento Universal Superior (LUS).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda no primeiro dia de j&uacute;ri, Valentina foi interrogada por quase duas horas. Ela se declarou inocente de todas as acusa&ccedil;&otilde;es. Assim como nos outros julgamentos, os familiares das v&iacute;timas e os observadores federais acompanhavam tudo. J&aacute; do outro lado, estavam argentinos do LUS e pessoas pr&oacute;ximas da acusada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto os moradores de Altamira contavam com a ajuda de entidades de caridade para se manter em Bel&eacute;m, o grupo de apoio &agrave; l&iacute;der do Lineamento dispunha de condi&ccedil;&otilde;es mais robustas. Eles filmavam o julgamento e mantinham uma p&aacute;gina na internet para divulgar informa&ccedil;&otilde;es sobre o caso &ndash; o que, em 2003, era algo impressionante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; nesse ponto que o conflito de narrativas entre acusa&ccedil;&atilde;o e defesa se expande para al&eacute;m do processo em si. Em entrevistas posteriores ao j&uacute;ri, o advogado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/claudio-dalledone-junior\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado de defesa que atuou no j&uacute;ri de Valentina de Andrade\" class=\"encyclopedia\">Cl&aacute;udio Dalledone J&uacute;nior<\/a> chegou a dizer que estranhava o fato de fam&iacute;lias pobres possu&iacute;rem tanta estrutura para permanecer na capital. &Agrave; noite, por exemplo, ap&oacute;s as sess&otilde;es, n&atilde;o era incomum que ocorressem atra&ccedil;&otilde;es culturais para entret&ecirc;-las.<\/p>\n\n\n\n<p>Somado a esse fator est&aacute; a antiga hist&oacute;ria de que o estado do Par&aacute; e o pr&oacute;prio governo federal tinham interesse em apoiar os familiares de Altamira, trazendo uma solu&ccedil;&atilde;o exemplar para os crimes. Isso porque a viol&ecirc;ncia contra os menores teria amea&ccedil;ado o repasse de dinheiro de &oacute;rg&atilde;os internacionais envolvidos na preserva&ccedil;&atilde;o de direitos ind&iacute;genas e da floresta amaz&ocirc;nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Ivan Mizanzuk, &eacute; dif&iacute;cil acreditar que as fam&iacute;lias das v&iacute;timas recebiam tanto dinheiro assim. Afinal, era evidente que elas passavam por enormes empecilhos e recebiam ajuda por solidariedade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, esse conflito de narrativas escancara uma quest&atilde;o mais complexa. Quem explica melhor &eacute; a antrop&oacute;loga <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/paula-mendes-lacerda\/\" target=\"_self\" title=\"Antrop&oacute;loga e pesquisadora do caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Paula Mendes Lacerda<\/a>, que produziu uma tese de doutorado focada nas fam&iacute;lias e nos movimentos sociais em torno da causa dos emasculados.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Essa situa&ccedil;&atilde;o de antagonismo entre as v&iacute;timas e aqueles que defendiam os r&eacute;us fez com que cada um dos lados achasse que o outro era muito mais poderoso. Que era muito mais poderoso do que talvez fosse, era muito mais rico. E o poder se converte na posse de bens e tecnologias&rdquo;, disse ela em entrevista ao podcast.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela ressaltou que, apesar disso, a batalha n&atilde;o deixava de ser assim&eacute;trica, considerando as reais condi&ccedil;&otilde;es das fam&iacute;lias de Altamira. Alguns boatos, para a pesquisadora, chegavam a ser absurdos. Um deles foi compartilhado pelo delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/brivaldo-pinto-soares-filho\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado respons&aacute;vel pelo inqu&eacute;rito de Jaenes em outubro de 1992\" class=\"encyclopedia\">Brivaldo Pinto Soares Filho<\/a> durante a entrevista que concedeu para a produ&ccedil;&atilde;o da tese. Na ocasi&atilde;o, ele afirmou que <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rosa-maria-pessoa\/\" target=\"_self\" title=\"M&atilde;e de Jaenes da Silva Pessoa\" class=\"encyclopedia\">Rosa Maria Pessoa<\/a>, m&atilde;e de Jaenes, havia recebido uma esp&eacute;cie de &ldquo;cala boca&rdquo; com dinheiro para n&atilde;o continuar a se envolver no caso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;&Eacute; muito chocante que esse conjunto de boatos e estrat&eacute;gias para deslegitimar [a causa] tenha sido lan&ccedil;ado quando &eacute; flagrantemente contrastante com a realidade material que essas pessoas vivem, n&eacute;? Mas &eacute; parte disso, desse universo simb&oacute;lico de antagonismo e disputas em que voc&ecirc; tenta construir o outro como muito mais forte, muito mais poderoso&rdquo;, completou.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, os defensores da r&eacute; viam como oposi&ccedil;&atilde;o todo um mecanismo composto pelo governo estadual e federal, al&eacute;m de entidades internacionais. &ldquo;A narrativa do Dalledone &eacute; de que ele era um advogado jovem, ambicioso, e estava contra tudo e contra todos no estado do Par&aacute;. Ele fala que o carro dele foi apedrejado, que ele era hostilizado nos restaurantes&hellip; Era ele contra a <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/unicef\/\" target=\"_self\" title=\"&Oacute;rg&atilde;o internacional em defesa dos direitos das crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Unicef<\/a>, contra todos os direitos humanos do mundo, o que &eacute; uma forma dele valorizar o pr&oacute;prio trabalho e o sucesso que teve como advogado&rdquo;, comentou Paula Lacerda.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as estrat&eacute;gias de Dalledone estava o uso de uma c&acirc;mera, instalada na sua bancada, para registrar todo o julgamento. Era um equipamento emprestado do pai que, segundo o advogado, ajudou a resguardar todo o trabalho diante de um ambiente bastante hostil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A defesa de Valentina tinha um acordo: <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/arnaldo-faivro-busato-filho\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado de Valentina na &eacute;poca do caso Leandro Bossi\" class=\"encyclopedia\">Arnaldo Faivro Busato Filho<\/a> participaria da abertura da sess&atilde;o; enquanto que nos dias seguintes, dedicados &agrave;s milhares de folhas processuais juntadas pela defesa, os procedimentos seriam acompanhados por Dalledone e o colega <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/caio-fortes-de-matheus\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado que auxiliou a defesa de Valentina durante o j&uacute;ri\" class=\"encyclopedia\">Caio Fortes de Matheus<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio ao clima de tens&atilde;o, a expectativa em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s testemunhas s&oacute; aumentava. Era a primeira vez que o marceneiro <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/edmilson-da-silva-frazao\/\" target=\"_self\" title='Testemunha que diz ter participado de uma \"missa negra\" na ch&aacute;cara de An&iacute;sio' class=\"encyclopedia\">Edmilson da Silva Fraz&atilde;o<\/a>, que tinha o depoimento mais forte contra a r&eacute;, falaria no tribunal. O relato dava conta de que, no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1990, ele teria presenciado um culto macabro na ch&aacute;cara do m&eacute;dico <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/anisio-ferreira-de-souza\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico acusado no caso dos meninos emasculados\" class=\"encyclopedia\">An&iacute;sio Ferreira de Souza<\/a>, liderado por Valentina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A acusa&ccedil;&atilde;o queria que Edmilson participasse do julgamento de todos os r&eacute;us, mas ele s&oacute; foi localizado para o da l&iacute;der do LUS. Protegido por agentes da Pol&iacute;cia Federal, o marceneiro seria a grande novidade da promotoria, uma vez que os demais arrolados j&aacute; haviam prestado depoimento nos j&uacute;ris anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>Do lado da defesa, os destaques eram o delegado Brivaldo, que investigou a morte de Jaenes no fim de 1992, e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-carlos-de-souza-machado\/\" target=\"_self\" title=\"Policial federal que chefiou as investiga&ccedil;&otilde;es em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Carlos de Souza Machado<\/a>, agente da PF respons&aacute;vel pelo relat&oacute;rio &ldquo;Opera&ccedil;&atilde;o Monstro de Altamira&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui vai um detalhe importante: quando se inicia um j&uacute;ri, os jurados e testemunhas precisam permanecer incomunic&aacute;veis, para se ter certeza de que n&atilde;o ser&atilde;o influenciados por elementos externos. Isso significa que eles n&atilde;o podem conversar com pessoas de fora, assistir TV ou ler jornais &ndash; enfim, nada que traga informa&ccedil;&otilde;es sobre o que acontece no tribunal. Todos ficam isolados em hot&eacute;is pagos com dinheiro p&uacute;blico.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema &eacute; que a defesa pretendia estender o julgamento indefinidamente. Por quanto tempo, ent&atilde;o, jurados e testemunhas ficariam longe da fam&iacute;lia, amigos e afazeres di&aacute;rios? Como j&aacute; era de se esperar, isso gerou receios, e o primeiro a se manifestar foi o agente aposentado Jos&eacute; Carlos, que pediu para n&atilde;o depor.<\/p>\n\n\n\n<p>O ex-policial federal deveria comparecer ao plen&aacute;rio na primeira sess&atilde;o, mas s&oacute; apareceu no segundo dia, o que era uma irregularidade. Por isso, a promotoria temia que, se ele fosse ouvido e Valentina acabasse condenada, os defensores da r&eacute; entrassem com um recurso pedindo a nulidade do j&uacute;ri.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim, acusa&ccedil;&atilde;o e defesa chegaram a um acordo: Jos&eacute; Carlos seria ouvido como um &ldquo;informante&rdquo;. Ou seja, ele n&atilde;o precisava mais permanecer incomunic&aacute;vel e n&atilde;o tinha o compromisso de dizer apenas a verdade. Ao mesmo tempo, ambas as partes do j&uacute;ri concordaram em n&atilde;o requerer qualquer tipo de nulidade referente a essa quest&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/12\/2003-11-20-Termo-de-Acordo-para-testemunha-Jose-Carlos-de-Souza-Machado-que-apresentou-se-apenas-agora-para-depor.pdf\" target=\"_blank\">Acordo entre acusa&ccedil;&atilde;o e defesa sobre o depoimento de Jos&eacute; Carlos<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Outras testemunhas da defesa tentaram manobras parecidas. Brivaldo, por exemplo, teve inicialmente o pedido negado, mas conseguiu mudar de categoria mais tarde no processo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda sobre as pessoas arroladas, antes mesmo do j&uacute;ri, a acusa&ccedil;&atilde;o solicitou a substitui&ccedil;&atilde;o de dois nomes: o lavrador <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/agostinho-jose-da-costa\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha-chave que liga C&eacute;sio e Amailton ao crime contra Jaenes\" class=\"encyclopedia\">Agostinho Jos&eacute; da Costa<\/a> e a conselheira tutelar <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/sueli-de-oliveira-matos\/\" target=\"_self\" title=\"Conselheira tutelar que escreveu carta sobre o policial A. Santos\" class=\"encyclopedia\">Sueli de Oliveira Matos<\/a>, que n&atilde;o tinham, em seus relatos, nenhum elemento incriminat&oacute;rio espec&iacute;fico contra Valentina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No lugar de ambos, a promotoria sugeriu Edmilson Fraz&atilde;o, que finalmente havia sido localizado, e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eli-pacheco-de-queiroz\/\" target=\"_self\" title=\"Funcion&aacute;rio do hotel que hospedou Valentina em Altamira em 1987\" class=\"encyclopedia\">Eli Pacheco de Queiroz<\/a>, que nunca tinha falado nos autos. O juiz <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/ronaldo-valle\/\" target=\"_self\" title=\"Juiz que presidiu o j&uacute;ri dos acusados em 2003\" class=\"encyclopedia\">Ronaldo Valle<\/a> permitiu que Sueli fosse substitu&iacute;da por Fraz&atilde;o, mas negou o outro pedido.<\/p>\n\n\n\n<p>Eli Pacheco era funcion&aacute;rio do hotel onde Valentina se hospedou em Altamira em 1987, com um grupo de argentinos. Uma mat&eacute;ria do jornal O Liberal, de 21 de novembro de 2003, descreve qual seria o teor do depoimento dele, caso tivesse sido aceito pelo juiz:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Segundo Eli, entre 86 e 88 (ele n&atilde;o soube precisar o ano), Valentina e uma caravana de oito pessoas estiveram em Altamira hospedados no hotel Paulista e n&atilde;o apenas no Xingu. O grupo que estava com Valentina, contou Eli, era oriundo de Londrina. Entre os presentes, o agricultor disse ainda que havia uma pessoa que falava espanhol. &ldquo;O marido de Valentina&rdquo;, ressaltou.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O agricultor detalhou que no per&iacute;odo que Valentina ficou hospedada no Paulista, ele trabalhava como gerente do hotel. &ldquo;Eu coordenava as coisas quando os donos viajavam&rdquo;, disse. Um detalhe, recorda Eli, chamava aten&ccedil;&atilde;o no comportamento do grupo liderado por Valentina: &ldquo;Eles ficavam at&eacute; altas horas da madrugada, na cal&ccedil;ada, conversando. A maneira que ela era respeitada tamb&eacute;m chamava aten&ccedil;&atilde;o. Valentina era chamada de mam&atilde;e, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/maezinha\/\" target=\"_self\" title=\"Conhecida m&atilde;e de santo em Altamira na d&eacute;cada de 1990\" class=\"encyclopedia\">m&atilde;ezinha<\/a>, por todos&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/12\/2003-11-21-Testemunha-dispensada-diria-o-que-viu-em-hotel-de-Altamira-O-Liberal.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mat&eacute;ria do jornal O Liberal &ndash; &ldquo;Testemunha dispensada diria o que viu em hotel de Altamira&rdquo;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Como se nota, o relato de Eli &eacute; bastante parecido com o depoimento de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/duilio-nolasco-pereira\/\" target=\"_self\" title=\"Marido de Valentina entre 1953 e 1973\" class=\"encyclopedia\">Du&iacute;lio Nolasco Pereira<\/a>, ex-marido de Valentina que se mudou para Altamira na d&eacute;cada de 1970. Em uma reportagem do Jornal Nacional na &eacute;poca do j&uacute;ri, o funcion&aacute;rio do hotel afirmou que o comportamento dos argentinos perante a l&iacute;der do LUS era &ldquo;quase como uma obedi&ecirc;ncia militar&rdquo;. De qualquer forma, n&atilde;o foi permitido que ele fosse ouvido no lugar de Agostinho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Acertadas as quest&otilde;es sobre as testemunhas, come&ccedil;ou na segunda sess&atilde;o, uma quinta-feira, a intermin&aacute;vel leitura de pe&ccedil;as juntadas pela defesa. &Agrave;quela altura, todos j&aacute; sabiam que o j&uacute;ri se estenderia para o final de semana &ndash; diferenciando-se dos julgamentos anteriores, que duraram apenas tr&ecirc;s dias no total.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, o fundador do LUS na Argentina, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/carlos-calvo\/\" target=\"_self\" title=\"Fundador e presidente do LUS na Argentina\" class=\"encyclopedia\">Carlos Calvo<\/a>, concedeu uma entrevista exclusiva &agrave; Rede Globo. Ela foi anexada aos autos e est&aacute; dispon&iacute;vel aqui na enciclop&eacute;dia, com legendas:<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Gy_dLGp31gI\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Entrevista com Carlos Calvo para a TV Globo<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/2003-09-13-O-Liberal-Lider-da-LUS-chega-da-Argentina-para-depor-Carlos-Calvo.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Vers&atilde;o impressa da entrevista de Carlos Calvo<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Ao ser questionado sobre o que Valentina quis dizer sobre &ldquo;se acautelar com as crian&ccedil;as&rdquo; no livro que escreveu, Calvo responde:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>As crian&ccedil;as, vou explicar de novo, s&atilde;o violentas. N&atilde;o s&atilde;o todas. Tem gente que &eacute; muito violenta. Tamb&eacute;m n&atilde;o estamos fazendo nada contra as crian&ccedil;as. Ela [Valentina] fala isso num contexto. Ou seja, est&aacute; explicando os esp&iacute;ritos, como chegam, e fala isso, e como fazer para que a crian&ccedil;a se torne melhor. Tem muita crian&ccedil;a que &eacute; dif&iacute;cil de educar. Ent&atilde;o, ela fala como fazer com todo o amor.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Como j&aacute; mencionado outras vezes no podcast, a obra de Valentina &eacute; uma mistura de v&aacute;rias fontes religiosas e m&iacute;sticas. Uma delas seria a vis&atilde;o, defendida por linhas do espiritismo, de que algumas pessoas nascem com o peso energ&eacute;tico de encarna&ccedil;&otilde;es passadas &ndash; algo similar ao conceito de carma, tamb&eacute;m presente em religi&otilde;es orientais.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer modo, esse era o tom do julgamento: a acusa&ccedil;&atilde;o exibia trechos de v&iacute;deos e outros materiais que seriam evid&ecirc;ncias de que o Lineamento era uma seita que matava crian&ccedil;as. J&aacute; a defesa mostrava milhares de p&aacute;ginas para provar que o LUS era um grupo que acreditava em coisas meio incomuns, mas que n&atilde;o tinha nada de criminoso. Era uma guerra entre o p&acirc;nico e o t&eacute;dio.<\/p>\n\n\n\n<p>A leitura j&aacute; se arrastava por dias, e os jurados e testemunhas come&ccedil;aram a apresentar sinais de cansa&ccedil;o. Arrolada pela defesa, a professora <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/socorro-patello\/\" target=\"_self\" title='Professora que produziu uma an&aacute;lise do livro \"Deus, a Grande Farsa\"' class=\"encyclopedia\">Socorro Patello<\/a>, que fez o parecer sobre o livro de Valentina, passou mal e pediu para ser dispensada. Enquanto esperava a ocasi&atilde;o em que prestaria depoimento, ela chegou a ser internada em um hospital. A pr&oacute;pria r&eacute; teve crises de choro e ansiedade, e tamb&eacute;m precisou de atendimento m&eacute;dico.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos recursos impetrados no Superior Tribunal de Justi&ccedil;a (STJ), a acusada n&atilde;o conseguiu habeas corpus e permaneceu presa. Enquanto Busato estava em Curitiba, no Paran&aacute;, Dalledone mantinha o esquema de leitura de pe&ccedil;as no j&uacute;ri. Isso se estendeu por quase duas semanas, com jurados e testemunhas isolados em um hotel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ent&atilde;o, no 14&ordm; dia, as coisas mudaram de rumo. O advogado de Valentina desistiu da cansativa estrat&eacute;gia, para apressar os trabalhos. &ldquo;A defesa abriu m&atilde;o das outras pe&ccedil;as porque o imprescind&iacute;vel, o essencial do essencial, foi lido e assimilado pelos senhores do j&uacute;ri&rdquo;, disse Dalledone em entrevista concedida para a TV na &eacute;poca.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>TESTEMUNHAS DE ACUSA&Ccedil;&Atilde;O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente chegou o momento das pessoas arroladas serem ouvidas. Das cinco testemunhas de acusa&ccedil;&atilde;o, quatro j&aacute; haviam prestado depoimento nos julgamentos anteriores: os dois sobreviventes; <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/lucia-da-cunha-chipaia\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; de Judirley da Cunha Chipaia\" class=\"encyclopedia\">L&uacute;cia da Cunha Chipaia<\/a>, irm&atilde; de Judirley; e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/juarez-gomes-pessoa\/\" target=\"_self\" title=\"Pai de Jaenes da Silva Pessoa\" class=\"encyclopedia\">Juarez Gomes Pessoa<\/a>, pai de Jaenes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/agostinho-jose-da-costa\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha-chave que liga C&eacute;sio e Amailton ao crime contra Jaenes\" class=\"encyclopedia\">Agostinho Jos&eacute; da Costa<\/a> acabou dispensado pela promotoria, j&aacute; que n&atilde;o possu&iacute;a relev&acirc;ncia para o caso de Valentina. Na realidade, nenhum dos nomes na lista tinha algo espec&iacute;fico a dizer contra a r&eacute; &ndash; exceto por Edmilson Fraz&atilde;o, cujo relato era o mais aguardado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o depoimento, que durou quatro horas, o marceneiro reconheceu Valentina como uma das participantes de um culto macabro realizado na ch&aacute;cara de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/anisio-ferreira-de-souza\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico acusado no caso dos meninos emasculados\" class=\"encyclopedia\">An&iacute;sio Ferreira de Souza<\/a> em 1990. De acordo com ele, tamb&eacute;m estavam no local os j&aacute; condenados <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/amailton-madeira-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Filho de Amadeu Gomes, &eacute; um dos acusados no caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Amailton Madeira Gomes<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/carlos-alberto-dos-santos-lima\/\" target=\"_self\" title=\"Policial militar acusado no caso dos meninos\" class=\"encyclopedia\">Carlos Alberto dos Santos Lima<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/cesio-flavio-caldas-brandao\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico reconhecido por Agostinho como suspeito na morte de Jaenes\" class=\"encyclopedia\">C&eacute;sio Fl&aacute;vio Caldas Brand&atilde;o<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A defesa, por&eacute;m, alega ter conseguido extrair v&aacute;rias contradi&ccedil;&otilde;es ao longo do testemunho. Uma delas, por exemplo, faz refer&ecirc;ncia ao fato de Edmilson dizer que a r&eacute; estava de capuz no dia do ritual, em um ambiente iluminado apenas por velas. Diante desse detalhe, Dalledone pergunta como era o cabelo da acusada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Ele [Edmilson] disse: &lsquo;era um cabelo curto e tal&rsquo;. No final, eu questionei: &lsquo;mas como voc&ecirc; viu, com a sala escura e o capuz, o cabelo de Valentina?&rsquo;. Bum. Desmontou. Desmontou ali&rdquo;, contou o advogado.<\/p>\n\n\n\n<p>O mentor de Dalledone, Arnaldo Busato, voltou para Bel&eacute;m quando os depoimentos das testemunhas come&ccedil;aram. Por isso, tamb&eacute;m interrogou Fraz&atilde;o. &ldquo;No j&uacute;ri, ele disse que as pessoas [da seita] estavam com tridentes. Ent&atilde;o, eu fui citando detalhes do imagin&aacute;rio e ele ia confirmando tudo. Se eu dissesse que o pr&oacute;prio dem&ocirc;nio apareceu naquele instante com a ponta do rabo, ele confirmaria, porque a coisa era nessa linha&rdquo;, afirmou em entrevista ao podcast.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, a entrada da Pol&iacute;cia Federal no caso provocou um desvio nas investiga&ccedil;&otilde;es e consolidou a teoria de seita sat&acirc;nica. &ldquo;A&iacute; que come&ccedil;am a surgir essas testemunhas, como o Edmilson Fraz&atilde;o, que era cagoete da pol&iacute;cia. Era um indiv&iacute;duo de p&eacute;ssimos antecedentes e foi plantado ali para dizer que assistiu aos rituais&rdquo;, completou Busato.<\/p>\n\n\n\n<p>A acusa&ccedil;&atilde;o sobre a fabrica&ccedil;&atilde;o de depoimentos por parte da PF &eacute; grave. Mas a defesa tinha motivos para acreditar nisso, como j&aacute; explicado no <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-14\/\" target=\"_blank\">epis&oacute;dio 14<\/a>. Em 1995, Edmilson prestou dois relatos contradit&oacute;rios ao Minist&eacute;rio P&uacute;blico, ap&oacute;s a fase de instru&ccedil;&atilde;o. No primeiro, ele afirmou que foi coagido pela PF e, por isso, inventou toda a hist&oacute;ria do culto na ch&aacute;cara de An&iacute;sio. Mais tarde, no segundo termo de declara&ccedil;&otilde;es, ele desmentiu que agentes federais o pressionaram e relatou ter sofrido amea&ccedil;as da fam&iacute;lia Gomes e seus advogados.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/07\/1995-03-24-Termo-de-Declaracao-Edmilson-Frazao-ao-MP-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Edmilson Fraz&atilde;o sobre a press&atilde;o da PF<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/07\/1995-03-28-Termo-de-Declaracao-Edmilson-Frazao-ao-MP-2-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Edmilson Fraz&atilde;o sobre a fam&iacute;lia Gomes<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a defesa de Valentina acreditava que o marceneiro havia falado a verdade no primeiro relato, quando denunciou a coa&ccedil;&atilde;o da PF. Contribu&iacute;ram tamb&eacute;m para essa tese as diversas contradi&ccedil;&otilde;es e a falta de explica&ccedil;&otilde;es convincentes durante o depoimento dele no j&uacute;ri.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao compar&aacute;-lo com os tr&ecirc;s testemunhos prestados por Fraz&atilde;o no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1990, fica evidente a mudan&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o a um detalhe espec&iacute;fico: as pessoas presentes na tal &ldquo;missa negra&rdquo;. Anteriormente, ele cita An&iacute;sio, a esposa do m&eacute;dico, o contrabandista <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/antonio-parana\/\" target=\"_self\" title=\"Suposto contrabandista e traficante conhecido em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Ant&ocirc;nio Paran&aacute;<\/a>, Valentina e um rapaz que n&atilde;o soube identificar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J&aacute; no segundo depoimento, a testemunha afirma que, durante o culto, An&iacute;sio teria dito que faltava um homem ali, que seria o ex-PM Carlos Alberto. Por fim, no terceiro, em ju&iacute;zo, o marceneiro &eacute; questionado se C&eacute;sio participou do evento na ch&aacute;cara, e ele responde que n&atilde;o. Mas, agora, no j&uacute;ri, a informa&ccedil;&atilde;o era outra: Edmilson diz, com todas as letras, que o m&eacute;dico estava sim no culto.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/06\/1993-07-16-Edmilson-Frazao-para-delegado-Jefferson-Jose-Gualberto-Neves-1-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Primeiro depoimento de Edmilson Fraz&atilde;o<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/06\/1993-07-16-Edmilson-Frazao-para-delegado-Jefferson-Jose-Gualberto-Neves-transcrito-2.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Transcri&ccedil;&atilde;o do primeiro depoimento de Edmilson<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/06\/1993-07-28-Edmilson-Frazao-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Segundo depoimento de Edmilson<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/06\/1994-05-17-Depoimento-em-Juizo-Edmilson-da-Silva-Frazao-2.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Edmilson em ju&iacute;zo<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m disso, a descri&ccedil;&atilde;o da tal &ldquo;missa negra&rdquo; &eacute; muito mais detalhada nesse depoimento do j&uacute;ri, ao contr&aacute;rio dos testemunhos anteriores. Agora, o marceneiro dizia que, na ch&aacute;cara de An&iacute;sio, Valentina declarou que aquela reuni&atilde;o era &ldquo;especificamente acerca da emascula&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;as&rdquo;. Segundo ele, a l&iacute;der do LUS tamb&eacute;m explicou como seria o trabalho da seita, citando os demais acusados: Amailton seduziria os meninos, que seriam castrados pelos m&eacute;dicos e mortos pelo ex-PM.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se as incongru&ecirc;ncias n&atilde;o bastassem, a defesa ainda tinha outra carta na manga. Pouco antes de Fraz&atilde;o ser ouvido em plen&aacute;rio, os advogados tentaram juntar aos autos a ficha criminal dele. Isso, por&eacute;m, n&atilde;o seria poss&iacute;vel, pois o prazo para anexar novos materiais j&aacute; havia se encerrado. Mesmo sem essa entrada oficial no processo, os jurados ficaram sabendo que a testemunha de acusa&ccedil;&atilde;o tinha uma s&eacute;rie de problemas com a justi&ccedil;a, desde estelionato at&eacute; viol&ecirc;ncia contra a mulher. Essa era uma forma de desmoraliz&aacute;-la diante do Conselho de Senten&ccedil;a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para Arnaldo Busato, essas quest&otilde;es poderiam, inclusive, servir de explica&ccedil;&atilde;o para o surgimento de Edmilson Fraz&atilde;o no processo. &ldquo;Ele era um indiv&iacute;duo pessimamente visto na regi&atilde;o e passou a contar com prote&ccedil;&atilde;o da Pol&iacute;cia Federal. Ele tinha &oacute;bvios interesses em mentir a pedido de pessoas interessadas na incrimina&ccedil;&atilde;o da Valentina. E &eacute; perfeitamente entend&iacute;vel o motivo que o levou a isso&rdquo;, afirmou ao podcast.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o advogado, a fabrica&ccedil;&atilde;o de relatos tamb&eacute;m inclui pessoas como <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/maria-da-conceicao-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Empregada que diz ter visto An&iacute;sio e Valentina juntos na d&eacute;cada de 1990\" class=\"encyclopedia\">Maria da Concei&ccedil;&atilde;o da Silva<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisca-de-souza-oliveira\/\" target=\"_self\" title=\"Empregada que teria visto Valentina em uma casa de freiras em Altamira em 1993\" class=\"encyclopedia\">Francisca de Souza Oliveira<\/a>, mencionadas no <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-21\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">epis&oacute;dio 21<\/a>. Elas apareceram pela primeira vez nos autos pouco antes do j&uacute;ri da r&eacute;. Ambas diziam ter visto Valentina em Altamira na &eacute;poca dos crimes. &ldquo;S&atilde;o testemunhas falsas cooptadas para mentir em ju&iacute;zo, cometer o crime de falso testemunho e incriminar pessoas inocentes&rdquo;, defendeu Busato.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/2003-09-18-2-Termo-de-Declaracoes-Maria-da-Conceicao-da-Silva.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Termo de declara&ccedil;&atilde;o de Maria da Concei&ccedil;&atilde;o da Silva<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/2003-09-18-1-Termo-de-Declaracoes-Francisca-de-Souza-Oliveira.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Termo de declara&ccedil;&atilde;o de Francisca de Souza Oliveira<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>No fim, um dos depoimentos mais importantes para fortalecer a ideia de que as emascula&ccedil;&otilde;es eram cometidas por um grupo de pessoas partia de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/wandicley-oliveira-pinheiro\/\" target=\"_self\" title=\"Terceiro sobrevivente do caso dos emasculados de Altamira\" class=\"encyclopedia\">Wandicley Oliveira Pinheiro<\/a>, o terceiro sobrevivente. Isso porque ele relatava ter visto, no dia do ataque, quatro pares de pernas atrav&eacute;s da venda que tapava os seus olhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme demonstrado no <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-20\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">epis&oacute;dio 20<\/a>, quando comparadas, as declara&ccedil;&otilde;es de Wandicley s&atilde;o marcadas por profundas contradi&ccedil;&otilde;es. Mesmo assim, durante o julgamento, &eacute; poss&iacute;vel notar que a defesa de Valentina n&atilde;o explorou isso. No m&aacute;ximo, pediu para confirmar que, em 1992, a v&iacute;tima chegou a reconhecer <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rotilio-francisco-do-rosario\/\" target=\"_self\" title=\"Morador de rua preso em 1992 como suspeito no caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Rot&iacute;lio Francisco do Ros&aacute;rio<\/a> como o agressor.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1991-07-17-Primeiro-Depoimento-Wandicley-Oliveira-Pinheiro-inquerito-Wandicley.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Primeiro depoimento de Wandicley Oliveira Pinheiro<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1991-07-17-Retrato-Falado-Wandicley.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Retrato falado com base na descri&ccedil;&atilde;o de Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1992-10-21-Segundo-Depoimento-Wandicley-inquerito-Jaenes.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Segundo depoimento de Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1993-06-30-Terceiro-Depoimento-Wandicley-Oliveira-Pinheiro.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Terceiro depoimento de Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1993-06-30-Auto-de-Reconhecimento-Wandicley-Oliveira-Pinheiro.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Auto de reconhecimento de Aldenor por Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1994-11-30-Quarto-Depoimento-Wandicley-de-Oliveira-Pinheiro.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Quarto depoimento de Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1992-01-08-Auto-de-Reconhecimento-Wandicley-Oliveira-Pinheiro-inquerito-Judirley.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Auto de reconhecimento de Rot&iacute;lio por Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Busato, n&atilde;o havia necessidade de enfrentar Wandicley porque ele n&atilde;o acusava a r&eacute; diretamente. &ldquo;Ele n&atilde;o verbalizava uma vers&atilde;o que apontasse para a Valentina. Mas, sobretudo, n&oacute;s t&iacute;nhamos &aacute;libis muito bem estabelecidos para cada um daqueles fatos apontados pela acusa&ccedil;&atilde;o. Em todas aquelas ocasi&otilde;es, ela estava ou em Curitiba, em Londrina ou em Buenos Aires&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>O advogado defende que a vers&atilde;o de autoria intelectual surgiu justamente por causa dos &aacute;libis.&nbsp;&ldquo;Antes, a Valentina participava ativamente, inclusive liderava a a&ccedil;&atilde;o naqueles rituais sat&acirc;nicos na ch&aacute;cara do An&iacute;sio. De repente, ela n&atilde;o participava mais porque ficou evidente que estava a milhares de quil&ocirc;metros de dist&acirc;ncia. Mas a&iacute; que ficou pior e mais clara a fragilidade das teses acusat&oacute;rias. E, essa segunda tese, de que ela comandaria tudo &agrave; dist&acirc;ncia, n&atilde;o tinha respaldo nenhum&rdquo;, argumentou Busato.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>TESTEMUNHAS DE DEFESA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap&oacute;s as testemunhas de acusa&ccedil;&atilde;o, os jurados ouviram as pessoas arroladas pela defesa. A primeira a falar foi a professora <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/socorro-patello\/\" target=\"_self\" title='Professora que produziu uma an&aacute;lise do livro \"Deus, a Grande Farsa\"' class=\"encyclopedia\">Socorro Patello<\/a>, que produziu uma an&aacute;lise do livro de Valentina, &ldquo;Deus, a Grande Farsa&rdquo;. Em plen&aacute;rio, ela afirmou que a obra n&atilde;o possu&iacute;a nenhum elemento incriminat&oacute;rio e que as declara&ccedil;&otilde;es consideradas pol&ecirc;micas foram tiradas de contexto. &ldquo;&Eacute; a mesma coisa que destacar uma frase de Saramago e dizer que ele fundou uma seita sat&acirc;nica&rdquo;, disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da professora, era a vez de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-carlos-de-souza-machado\/\" target=\"_self\" title=\"Policial federal que chefiou as investiga&ccedil;&otilde;es em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Carlos de Souza Machado<\/a>, o agente aposentado da Pol&iacute;cia Federal, prestar depoimento. Ele havia sido respons&aacute;vel pela miss&atilde;o em Altamira que levou &agrave; pris&atilde;o de todos os acusados em 1993.<\/p>\n\n\n\n<p>No j&uacute;ri, Jos&eacute; Carlos relatou que esteve na cidade para investigar os casos em tr&ecirc;s ocasi&otilde;es: durante um m&ecirc;s em 1993, dois meses em 1994 e tr&ecirc;s meses em 1995. De acordo com ele, assim que os agentes se convenceram de que tinham material probat&oacute;rio suficiente, entraram em contato com o governo do Par&aacute; por meio da Secretaria de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica. O &oacute;rg&atilde;o, ent&atilde;o, disponibilizou policiais e os documentos que possu&iacute;am sobre o caso para conseguir, junto &agrave; justi&ccedil;a, o mandado de pris&atilde;o contra os suspeitos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda durante o julgamento, o policial aposentado listou quais seriam as provas mais fortes contra cada um deles:<\/p>\n\n\n\n<ul><li>Contra Amailton, seria a suposta fuga de Altamira na &eacute;poca da descoberta dos crimes;<\/li><li>Contra Carlos Alberto, o depoimento dos sobreviventes, que o reconheceram nos j&uacute;ris como o agressor;<\/li><li>Contra An&iacute;sio, relatos de diferentes testemunhas, com quem Jos&eacute; Carlos conversou durante a estadia na cidade;<\/li><li>Contra C&eacute;sio, as declara&ccedil;&otilde;es de Agostinho e o pr&oacute;prio comportamento do acusado;<\/li><li>Contra Valentina, os depoimentos de pessoas que a teriam visto em Altamira no fim da d&eacute;cada de 1980 e in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1990, al&eacute;m do reconhecimento fotogr&aacute;fico feito por Edmilson Fraz&atilde;o e por uma senhora de nome &ldquo;Francis&rdquo;.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Aqui vale um coment&aacute;rio: n&atilde;o h&aacute; nos autos nenhuma mulher chamada Francis. O mais pr&oacute;ximo disso &eacute; a testemunha <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisca-de-souza-oliveira\/\" target=\"_self\" title=\"Empregada que teria visto Valentina em uma casa de freiras em Altamira em 1993\" class=\"encyclopedia\">Francisca de Souza Oliveira<\/a>, que apareceu um pouco antes do j&uacute;ri. Por isso, &eacute; poss&iacute;vel que elas sejam a mesma pessoa, mas n&atilde;o h&aacute; nada que comprove essa suspeita.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a descri&ccedil;&atilde;o de Jos&eacute; Carlos, Francis tinha entre 28 e 30 anos de idade na &eacute;poca dos casos, pele clara e cabelos escuros. Ela morava em S&atilde;o Paulo, enquanto a m&atilde;e residia em Altamira. A narrativa do policial dava conta de que a testemunha viu Valentina durante as visitas que fazia &agrave; cidade paraense. E n&atilde;o s&oacute; isso: Francis teria guiado a acusada at&eacute; a ch&aacute;cara de An&iacute;sio, onde aconteciam os rituais.<\/p>\n\n\n\n<p>O agente aposentado afirmou que todas essas informa&ccedil;&otilde;es foram inclu&iacute;das em um relat&oacute;rio da Pol&iacute;cia Federal, encaminhado posteriormente ao ministro da Justi&ccedil;a da &eacute;poca, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/alexandre-dupeyrat\/\" target=\"_self\" title=\"Ministro da Justi&ccedil;a entre abril de 1994 e janeiro de 1995\" class=\"encyclopedia\">Alexandre Dupeyrat<\/a>. <\/p>\n\n\n\n<p>Ivan Mizanzuk entrou em contato com Dupeyrat, e o advogado afirmou que jamais recebeu qualquer relat&oacute;rio referente ao caso dos emasculados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A PF foi &agrave; Altamira pela primeira vez em abril de 1993 e, neste per&iacute;odo, o ministro era o j&aacute; falecido <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/mauricio-correa\/\" target=\"_self\" title=\"Ministro da Justi&ccedil;a entre 03 de outubro de 1992 e 05 de abril de 1994\" class=\"encyclopedia\">Maur&iacute;cio Corr&ecirc;a<\/a>. Dupeyrat passou a exercer o cargo no ano seguinte, quando os agentes conduziam a segunda miss&atilde;o na cidade. Logo, &eacute; poss&iacute;vel que um contato tenha sido estabelecido com o Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, mas &eacute; evidente que isso n&atilde;o gerou nenhuma lembran&ccedil;a profunda no advogado.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o j&uacute;ri, Jos&eacute; Carlos alegou n&atilde;o ter conhecimento sobre o paradeiro do relat&oacute;rio por ele mencionado, que n&atilde;o foi anexado aos autos. N&atilde;o havia tamb&eacute;m no processo nenhum depoimento tomado pela PF &ndash; o que era estranho, j&aacute; que o ex-agente reiterou que ouviu v&aacute;rias testemunhas em Altamira. Por isso, a defesa foi incisiva nas perguntas: como, afinal, a pol&iacute;cia registrava as informa&ccedil;&otilde;es levantadas? Onde estavam os documentos com as dilig&ecirc;ncias?<\/p>\n\n\n\n<p>Diante dos questionamentos, o agente aposentado se limitou a dizer que a instrumentaliza&ccedil;&atilde;o dos trabalhos foi a entrega do relat&oacute;rio, que ele n&atilde;o sabia onde estava.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m disso, Dalledone aproveitou para interrogar Jos&eacute; Carlos sobre eventuais liga&ccedil;&otilde;es que ele poderia ter com a pol&iacute;cia paranaense, j&aacute; que os objetos apreendidos no caso de Guaratuba foram parar nas m&atilde;os da PF no Par&aacute;. Um trecho chama a aten&ccedil;&atilde;o na vaga resposta do agente: ele diz que um colega seu esteve no Paran&aacute; e voltou com o material de l&aacute;. A testemunha n&atilde;o detalha, no entanto, quem seria essa pessoa e como se deu a comunica&ccedil;&atilde;o entre as corpora&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n\n\n\n<p>Com as perguntas sobre os casos Evandro e Leandro, o advogado n&atilde;o buscava apenas descobrir detalhes importantes sobre o processo, mas tamb&eacute;m refor&ccedil;ar que Valentina n&atilde;o tinha nenhum envolvimento neles. Afinal, &agrave;quela altura, os crimes em Guaratuba j&aacute; tinham outras pessoas presas, que passavam por julgamento. De certa forma, o advogado refor&ccedil;ou a culpa das Abagge e dos demais suspeitos para inocentar a l&iacute;der do LUS.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Eu tinha essa convic&ccedil;&atilde;o. S&oacute; os tolos e os mortos jamais mudam de opini&atilde;o. Naquele momento, eu acreditava que existiam sim ind&iacute;cios de autoria contra as Abagge. Depois do j&uacute;ri da Valentina e de um amadurecimento profissional, eu pedi perd&atilde;o em p&uacute;blico para a dona Celina e para a Beatriz. Eu sei da inoc&ecirc;ncia delas&rdquo;, declarou Dalledone ao podcast.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer modo, a t&aacute;tica da defesa aqui n&atilde;o era simplesmente dar voz ao ex-agente da PF. A ideia era confrontar o relato dele com o da pr&oacute;xima testemunha ouvida no j&uacute;ri: o delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/brivaldo-pinto-soares-filho\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado respons&aacute;vel pelo inqu&eacute;rito de Jaenes em outubro de 1992\" class=\"encyclopedia\">Brivaldo Pinto Soares Filho<\/a>, da Pol&iacute;cia Civil. Ele foi o respons&aacute;vel por investigar a morte de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jaenes-da-silva-pessoa\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a emasculada e morta em outubro de 1992 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jaenes da Silva Pessoa<\/a> em outubro de 1992, e chegou &agrave; conclus&atilde;o de que Amailton estava por tr&aacute;s do crime. Ou seja, as teses de Jos&eacute; Carlos e Brivaldo eram intimamente diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>A antrop&oacute;loga Paula Lacerda entrevistou Brivaldo em 2010 para a sua tese de doutorado. Hoje, ele j&aacute; &eacute; falecido. Para ela, o delegado n&atilde;o acreditava na atua&ccedil;&atilde;o de uma seita como a descrita pela Pol&iacute;cia Federal. A principal figura, nesse contexto, n&atilde;o seria Valentina &ndash; que nem havia aparecido no processo ainda -, mas sim Amailton.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Como o Amailton era de uma fam&iacute;lia poderosa, ele poderia dispor de pessoas que realizassem partes dos servi&ccedil;os, ou talvez at&eacute; a parte criminosa do servi&ccedil;o. Mas, ainda assim, ele era o mandante e o articulador. Essa quest&atilde;o de uma seita ou de outras pessoas, por mais que Brivaldo tenha recomendado o prosseguimento das investiga&ccedil;&otilde;es, nunca foi algo que o mobilizou&rdquo;, explicou a pesquisadora sobre a vis&atilde;o defendida pelo delegado.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa era a principal contradi&ccedil;&atilde;o que a defesa de Valentina queria expor. Se ela era acusada de comandar uma seita que matava crian&ccedil;as, como &eacute; poss&iacute;vel que o delegado respons&aacute;vel pela pris&atilde;o de um dos supostos membros do grupo n&atilde;o acreditasse nessa tese?<\/p>\n\n\n\n<p>A l&iacute;der do LUS s&oacute; entrou como suspeita no caso dos emasculados a partir do relato de Edmilson Fraz&atilde;o, que falava no culto macabro na ch&aacute;cara de An&iacute;sio. Mas o pr&oacute;prio m&eacute;dico foi um dos suspeitos investigados por Brivaldo. No j&uacute;ri, o delegado disse:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Que, naquela &eacute;poca, n&atilde;o havia provas indici&aacute;rias contra o Dr. An&iacute;sio. Que havia v&aacute;rias pessoas ventiladas, aparecendo o nome de An&iacute;sio e de outras pessoas que n&atilde;o tinham nomes. Que n&atilde;o havia provas indici&aacute;rias contra CARLOS ALBERTO SANTOS, contra AN&Iacute;SIO, contra C&Eacute;SIO ou contra a Sra VALENTINA, direcionando toda sua investiga&ccedil;&atilde;o sobre AMAILTON.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O depoimento de Brivaldo no julgamento &eacute; d&uacute;bio. Por um lado, ele nunca descartou taxativamente a tese da seita. Afirmou apenas que considerava a possibilidade dos &oacute;rg&atilde;os genitais dos meninos serem utilizados em rituais de magia negra, e ressaltou que Amailton estava na Argentina pouco antes de ser preso &ndash; o que poderia ser interpretado como uma liga&ccedil;&atilde;o com Valentina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por&eacute;m, o fato &eacute; que o delegado sempre acreditou mais na ideia de que &ldquo;gente poderosa cometia crimes de pervers&atilde;o sexual&rdquo; do que &ldquo;crimes ritual&iacute;sticos&rdquo;. E, quando ele declarou n&atilde;o ter encontrado nada contra Valentina e An&iacute;sio, isso serviu &agrave; defesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de Jos&eacute; Carlos e Brivaldo, as outras duas testemunhas chamadas ao plen&aacute;rio foram dois seguidores da acusada, uma mulher brasileira e um homem argentino. Ambos atestam que Valentina era uma pessoa id&ocirc;nea e que o Lineamento n&atilde;o tinha nenhuma liga&ccedil;&atilde;o com &ldquo;magia negra&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira era <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/monica-barbel-walther\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha de defesa de Valentina no j&uacute;ri\" class=\"encyclopedia\">M&ocirc;nica Barbel Walther<\/a>, j&aacute; citada brevemente no <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-15\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">epis&oacute;dio 15<\/a> do podcast. Curiosamente, os pais dela est&atilde;o na famosa mat&eacute;ria da revista Veja, de julho de 1992, usada para o reconhecimento de Valentina por Edmilson Fraz&atilde;o. Na reportagem, eles dizem que a filha, seguidora do LUS, desapareceu ap&oacute;s ter tido contato com o grupo. Em seguida, o texto d&aacute; a entender que M&ocirc;nica teria sofrido um tipo de lavagem cerebral ao se filiar &agrave; tal seita.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/07\/Revista-Veja-29-de-Julho-de-1992-numero-1245-2.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mat&eacute;ria da revista Veja sobre Valentina<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Mas, no j&uacute;ri, a testemunha desmente essa hist&oacute;ria por completo. Ela diz que nunca foi dada como desaparecida pela fam&iacute;lia, e que fazia parte do grupo de Valentina na d&eacute;cada de 1980, quando todos foram &agrave; Altamira. M&ocirc;nica refor&ccedil;ou que a viagem era apenas a turismo e que ningu&eacute;m teve contato com os demais acusados.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/12\/2003-11-19-1-Interrogatorio-Valentina.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Interrogat&oacute;rio de Valentina no j&uacute;ri<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1EB4PNAJ3qrOj_gJMfd_6SzkFwz3kZHSG\/view\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimentos de testemunhas no j&uacute;ri<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>VOTOS DOS JURADOS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap&oacute;s os depoimentos, em 5 de dezembro de 2003, foram realizados os debates finais entre acusa&ccedil;&atilde;o e defesa. A imprensa, os familiares das v&iacute;timas e os apoiadores da r&eacute; esperavam ansiosamente pelo resultado do j&uacute;ri mais longo da hist&oacute;ria do Par&aacute;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, os debates deram lugar aos votos dos jurados. Cada um deles, isoladamente, deveria responder a uma s&eacute;rie de perguntas referentes &agrave; culpabilidade ou n&atilde;o da acusada. No fim, a leitura da senten&ccedil;a, feita pelo juiz <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/ronaldo-valle\/\" target=\"_self\" title=\"Juiz que presidiu o j&uacute;ri dos acusados em 2003\" class=\"encyclopedia\">Ronaldo Valle<\/a>, foi transmitida ao vivo pela TV Liberal do Par&aacute;: por seis votos a um, a r&eacute; foi absolvida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1Skc6b5cJRWsiKL5x8C-6DOpUyLyiTgFz\/view\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ata e votos do j&uacute;ri de Valentina<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Neste momento, Valentina desmaiou e precisou ser carregada &agrave;s pressas para fora do tribunal. O clima tenso no j&uacute;ri se estendeu ap&oacute;s a divulga&ccedil;&atilde;o do resultado. Reportagens de TV da &eacute;poca mostram que a popula&ccedil;&atilde;o ficou revoltada e houve tumulto. O Batalh&atilde;o de Choque da Pol&iacute;cia Militar foi acionado e se dirigiu at&eacute; o local para conter os &acirc;nimos.<\/p>\n\n\n\n<p>Do lado de fora do F&oacute;rum, manifestantes derramaram tinta vermelha nas escadarias e espalharam flores, como forma de protesto. Durante a confus&atilde;o, uma mulher acabou detida suspeita de apedrejar o carro onde estavam os advogados de Valentina.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap&oacute;s a senten&ccedil;a, a l&iacute;der do LUS foi levada at&eacute; a penitenci&aacute;ria onde estava presa desde setembro, para assinar o alvar&aacute; de soltura. De l&aacute;, seguiu escondida no banco de tr&aacute;s de um carro at&eacute; um hotel. Na su&iacute;te, concedeu uma entrevista exclusiva para a Rede Globo. Ao rep&oacute;rter, ela disse n&atilde;o ter medo de ser investigada novamente. &ldquo;Com a inoc&ecirc;ncia de sempre, com a verdade de sempre&rdquo;, completou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap&oacute;s as quatro condena&ccedil;&otilde;es anteriores, esse resultado foi totalmente inesperado. A acusa&ccedil;&atilde;o logo reagiu, afirmando que os jurados teriam sido induzidos ao erro e votado contra as provas do processo. Por isso, o pr&oacute;ximo passo seria pedir a anula&ccedil;&atilde;o do j&uacute;ri.<\/p>\n\n\n\n<p>A promotora <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rosana-cordovil\/\" target=\"_self\" title=\"Promotora que atuou no j&uacute;ri dos acusados em 2003\" class=\"encyclopedia\">Rosana Cordovil<\/a> ficou t&atilde;o indignada com a absolvi&ccedil;&atilde;o que considerou parar de atuar em julgamentos. &ldquo;N&atilde;o queremos mais participar do Tribunal do J&uacute;ri, a n&atilde;o ser no caso da Valentina, n&eacute;? Esse foi o crime mais b&aacute;rbaro, mais hediondo e cruel com o qual trabalhei. Eu, confiando na justi&ccedil;a e consciente de que as provas do processo eram suficientes, me deparo com uma decis&atilde;o absurda dessa natureza&rdquo;, desabafou ela em entrevista &agrave; imprensa na &eacute;poca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eventualmente, a promotora voltou atr&aacute;s e desistiu de abandonar os j&uacute;ris. Ela continuou a trabalhar em julgamentos por muitos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, a sensa&ccedil;&atilde;o de impunidade aumentou em Altamira e a popula&ccedil;&atilde;o resolveu ir &agrave;s ruas para protestar. Afinal, a viol&ecirc;ncia contra menores, mesmo que n&atilde;o relacionada ao caso dos emasculados, ainda era uma dura realidade. Segundo reportagem da TV Liberal da &eacute;poca, o Conselho Tutelar do munic&iacute;pio registrou 500 ocorr&ecirc;ncias em um per&iacute;odo de tr&ecirc;s anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J&aacute; em Bel&eacute;m, a acusa&ccedil;&atilde;o preparou o recurso para pedir a anula&ccedil;&atilde;o do j&uacute;ri. O documento ficou pronto em 11 de dezembro de 2003, seis dias ap&oacute;s a leitura da senten&ccedil;a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1L5DdahoGVHGWQrdfe54AB_sG0TZMdZHL\/view\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Apela&ccedil;&atilde;o do MPPA para anular o j&uacute;ri<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Os observadores federais que acompanhavam o caso tamb&eacute;m se movimentaram em Bras&iacute;lia, com a colabora&ccedil;&atilde;o da Pol&iacute;cia Federal. Eles suspeitavam de uma grave irregularidade no j&uacute;ri de Valentina: os jurados teriam quebrado o isolamento e conversado com pessoas de fora do tribunal, o que &eacute; proibido. Se isso fosse verdade, o julgamento poderia ser anulado.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos da acusa&ccedil;&atilde;o tinham certeza que a l&iacute;der do LUS seria condenada. Como isso n&atilde;o aconteceu, muitos passaram a desconfiar que algo estranho ocorreu, e decidiram investigar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Este epis&oacute;dio usou reportagens da Rede Globo, TV Cultura, TV Record, TV Bandeirantes e SBT.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Julgamento de Valentina de Andrade<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":35,"template":"","encyclopedia-category":[6],"encyclopedia-tag":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia\/762"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/types\/encyclopedia"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=762"}],"wp:term":[{"taxonomy":"encyclopedia-category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-category?post=762"},{"taxonomy":"encyclopedia-tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-tag?post=762"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}