{"id":686,"date":"2022-11-24T00:01:00","date_gmt":"2022-11-24T03:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/?post_type=encyclopedia&#038;p=686"},"modified":"2022-11-21T11:50:38","modified_gmt":"2022-11-21T14:50:38","slug":"extras-episodio-20","status":"publish","type":"encyclopedia","link":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-20\/","title":{"rendered":"Extras Epis\u00f3dio 20"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>DEPOIMENTOS DOS SOBREVIVENTES<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os depoimentos dos sobreviventes parecem ter sido essenciais para a condena&ccedil;&atilde;o dos homens nos j&uacute;ris. Com tantas narrativas cheias de pontas soltas, essas duas v&iacute;timas montavam uma hist&oacute;ria fechada. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/wandicley-oliveira-pinheiro\/\" target=\"_self\" title=\"Terceiro sobrevivente do caso dos emasculados de Altamira\" class=\"encyclopedia\">Wandicley Oliveira Pinheiro<\/a> afirmava ter sido atacado por um grupo de pessoas e n&atilde;o apenas um indiv&iacute;duo, o que refor&ccedil;ava a ideia de seita. Al&eacute;m disso, tanto ele quanto o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a> diziam ter sentido uma sensa&ccedil;&atilde;o de anestesia no momento da agress&atilde;o, ligando os m&eacute;dicos ao crime.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses elementos foram, sem d&uacute;vida, eficientes nos julgamentos. Mas hoje, quase 20 anos depois das condena&ccedil;&otilde;es, &eacute; poss&iacute;vel analisar os relatos com mais profundidade, longe da press&atilde;o pol&iacute;tica da &eacute;poca. Esse &eacute; o objetivo deste epis&oacute;dio: comparar cada depoimento dos sobreviventes ao longo do processo para entender melhor o que aconteceu nos j&uacute;ris.<\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; preciso, por&eacute;m, deixar claro: ambos s&atilde;o v&iacute;timas e devem ser respeitadas como tais. Por isso, a ideia aqui n&atilde;o &eacute; desacreditar o que elas dizem, mas sim mostrar como as suas declara&ccedil;&otilde;es foram constru&iacute;das dentro de cada contexto. Quais s&atilde;o, portanto, as contradi&ccedil;&otilde;es evidentes? Como elas podem ser confrontadas com o discurso nos j&uacute;ris?<\/p>\n\n\n\n<p>Para come&ccedil;ar, &eacute; importante relacionar o n&uacute;mero de testemunhos prestados pelas v&iacute;timas.<\/p>\n\n\n\n<p>O <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a>, que foi atacado em 16 de novembro de 1989, deu apenas dois depoimentos. O caso dele possui um inqu&eacute;rito pr&oacute;prio, o que provavelmente foi determinante para ele ter sido inclu&iacute;do como uma das v&iacute;timas no processo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Antes mesmo de dar qualquer depoimento, ele forneceu a descri&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica do homem que o levou para o matagal. Esse retrato falado foi produzido uma semana ap&oacute;s o crime. Apesar de bastante detalhadas, as caracter&iacute;sticas relatadas foram incorporadas em um desenho de baixa qualidade.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1989-11-23-Retrato-Falado-Segundo-Sobrevivente-com-ficha.pdf\">Retrato falado com base na descri&ccedil;&atilde;o do Segundo Sobrevivente<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro depoimento prestado pela v&iacute;tima &eacute; datado de 28 de maio de 1991, cerca de um ano e meio depois do ataque. O documento consta no inqu&eacute;rito policial espec&iacute;fico deste caso.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo relato oficial foi registrado em 30 de novembro de 1993, durante a segunda fase de ju&iacute;zo presidida pelo juiz <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-orlando-de-paula-arrifano\/\" target=\"_self\" title=\"Magistrado que ouve testemunhas durante a fase em ju&iacute;zo\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Orlando de Paula Arrifano<\/a>. Neste ponto, j&aacute; haviam se passado quatro anos do crime.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1991-05-28-Primeiro-Depoimento-Segundo-Sobrevivente-inquerito-Segundo-Sobrevivente_compressed.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento do Segundo Sobrevivente na fase de inqu&eacute;rito<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1993-11-30-Segundo-Depoimento-Segundo-Sobrevivente-fase-juizo.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento do Segundo Sobrevivente na fase de ju&iacute;zo<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>No caso de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/wandicley-oliveira-pinheiro\/\" target=\"_self\" title=\"Terceiro sobrevivente do caso dos emasculados de Altamira\" class=\"encyclopedia\">Wandicley Oliveira Pinheiro<\/a>, h&aacute; nos autos quatro depoimentos tomados antes dos j&uacute;ris, al&eacute;m de um retrato falado. O menino, atacado em 23 de setembro de 1990, &eacute; ouvido pela primeira vez de forma oficial em 17 de julho de 1991, cerca de 10 meses depois. Na ocasi&atilde;o, ele auxiliou na elabora&ccedil;&atilde;o de um retrato falado do homem que o sequestrou.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo relato, de 21 de outubro de 1992, faz parte do inqu&eacute;rito que investiga a morte de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jaenes-da-silva-pessoa\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a emasculada e morta em outubro de 1992 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jaenes da Silva Pessoa<\/a>. O terceiro &eacute; prestado quase tr&ecirc;s anos ap&oacute;s o ataque, em 30 de junho de 1993, ao delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a>. &Eacute; neste momento que ele reconhece o ex-PM <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/aldenor-ferreira-cardoso\/\" target=\"_self\" title=\"Ex-PM reconhecido por Wandicley como o seu sequestrador\" class=\"encyclopedia\">Aldenor Ferreira Cardoso<\/a> como o agressor. Por fim, o seu &uacute;ltimo termo de declara&ccedil;&atilde;o &eacute; registrado em 30 de novembro de 1994.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1991-07-17-Primeiro-Depoimento-Wandicley-Oliveira-Pinheiro-inquerito-Wandicley.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Primeiro depoimento de Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1991-07-17-Retrato-Falado-Wandicley.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Retrato falado com base na descri&ccedil;&atilde;o de Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1992-10-21-Segundo-Depoimento-Wandicley-inquerito-Jaenes.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Segundo depoimento de Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1993-06-30-Terceiro-Depoimento-Wandicley-Oliveira-Pinheiro.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Terceiro depoimento de Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1993-06-30-Auto-de-Reconhecimento-Wandicley-Oliveira-Pinheiro.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Auto de reconhecimento de Aldenor por Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1994-11-30-Quarto-Depoimento-Wandicley-de-Oliveira-Pinheiro.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Quarto depoimento de Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Depois de todos esses relatos, os sobreviventes s&oacute; falam novamente nos j&uacute;ris de 2003, quando as suas hist&oacute;rias s&atilde;o contadas de outra forma.<\/p>\n\n\n\n<p>No julgamento de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/valentina-de-andrade\/\" target=\"_self\" title=\"L&iacute;der do Lineamento Universal Superior\" class=\"encyclopedia\">Valentina de Andrade<\/a>, que ainda ser&aacute; abordado no podcast, as duas v&iacute;timas repetem o que disseram nos j&uacute;ris anteriores. Por isso, essas declara&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m foram inclu&iacute;das na an&aacute;lise de Ivan Mizanzuk para este epis&oacute;dio.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/2003-08-28-Quinto-Depoimento-Wandicley-juri-Amailton-e-Carlos-Alberto_compressed.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Wandicley no j&uacute;ri de Amailton e Carlos Alberto<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/2003-09-03-Sexto-Depoimento-Wandicley-de-Oliveira-Pinheiro-juri-Anisio.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Wandicley no j&uacute;ri de An&iacute;sio<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/2003-09-09-Setimo-Depoimento-Wandicley-de-Oliveira-Pinheiro-juri-Cesio.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Wandicley no j&uacute;ri de C&eacute;sio<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/2003-12-03-Oitavo-Depoimento-Wandicley-de-Oliveira-Pinheiro-juri-Valentina.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Wandicley no j&uacute;ri de Valentina<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/2003-08-28-Terceiro-Depoimento-Segundo-Sobrevivente-juri-Carlos-Alberto-e-Amailton-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento do Segundo Sobrevivente no j&uacute;ri de Amailton e Carlos Alberto<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/2003-09-03-Quarto-Depoimento-Segundo-Sobrevivente-juri-Anisio.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento do Segundo Sobrevivente no j&uacute;ri de An&iacute;sio<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/2003-09-09-Quinto-Depoimento-Segundo-Sobrevivente-juri-Cesio.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento do Segundo Sobrevivente no j&uacute;ri de C&eacute;sio<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/2003-12-03-Sexto-Depoimento-Segundo-Sobrevivente-juri-Valentina.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento do Segundo Sobrevivente no j&uacute;ri de Valentina<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>MEM&Oacute;RIA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Antes de partir para a compara&ccedil;&atilde;o, &eacute; necess&aacute;rio esclarecer os crit&eacute;rios utilizados. A ideia &eacute; a seguinte: quanto mais antigo um relato, mais fiel ele tende a ser. Essa afirma&ccedil;&atilde;o tem como base os conceitos cient&iacute;ficos de como a mem&oacute;ria humana funciona. Infelizmente, ela n&atilde;o &eacute; como uma foto ou v&iacute;deo que voc&ecirc; abre de alguma pasta escondida do seu c&eacute;rebro, como um arquivo de computador.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade, &agrave; medida que o tempo passa, quanto mais falamos sobre um evento espec&iacute;fico ou nos for&ccedil;amos a lembr&aacute;-lo, mais essa mem&oacute;ria ganha contornos de inven&ccedil;&atilde;o, at&eacute; mesmo de forma inconsciente. Isso n&atilde;o &eacute; proposital, mas sim um processo natural que torna relatos simples mais complexos e detalhados.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, imagine que voc&ecirc; &eacute; uma crian&ccedil;a de 9 ou 10 anos que passou por um trauma, como os sobreviventes. Imagine como tudo &eacute; assustador e confuso, e como &eacute; enorme a press&atilde;o para ajudar a pol&iacute;cia e explicar o acontecido para a fam&iacute;lia. O constrangimento &eacute; constante &ndash; por dias, meses e anos. Quantas vezes essas hist&oacute;rias foram contadas? Quantos sentimentos incompreens&iacute;veis para uma crian&ccedil;a surgiram? Quantas perguntas foram feitas no espa&ccedil;o entre um depoimento e outro?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas esperam que as v&iacute;timas deem vers&otilde;es fidedignas do crime, mas &eacute; injusto exigir isso delas. Justamente por isso, em todos os julgamentos os sobreviventes prestaram depoimento na condi&ccedil;&atilde;o de informantes. Ou seja, eles n&atilde;o tinham a obriga&ccedil;&atilde;o de falar a verdade, como uma testemunha. Esse n&atilde;o seria um modo de incentivar a mentira, mas sim de compreender que mem&oacute;rias de traumas t&atilde;o grandes e antigos podem n&atilde;o corresponder 100% com a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m disso, h&aacute; outro ponto essencial: o modo como os depoimentos foram colhidos apresenta uma s&eacute;rie de problemas, que s&oacute; podem ser apontados hoje gra&ccedil;as &agrave; prote&ccedil;&atilde;o fornecida pela legisla&ccedil;&atilde;o aos menores de idade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quem explica isso melhor &eacute; a psic&oacute;loga <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/flavia-cezari\/\" target=\"_self\" title=\"Psic&oacute;loga consultada pelo podcast\" class=\"encyclopedia\">Fl&aacute;via C&eacute;zari<\/a>, que j&aacute; atuou na &aacute;rea de assist&ecirc;ncia social e trabalhou com adolescentes em medidas socioeducativas. &ldquo;Essa &eacute; uma lei de 2017, que trata dos direitos da crian&ccedil;a e do adolescente v&iacute;timas de viol&ecirc;ncia. N&atilde;o que essas quest&otilde;es j&aacute; n&atilde;o existissem antes, acho que elas v&ecirc;m desde o ECA [Estatuto da Crian&ccedil;a e do Adolescente]. Lembrando que o ECA &eacute; de 1990. Mas, de alguma forma, ela sistematiza a abordagem que deve ser feita dentro das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e do pr&oacute;prio sistema judici&aacute;rio&rdquo;, disse ela em entrevista ao podcast.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a psic&oacute;loga, todo o atendimento deve ser realizado com o intuito de evitar a revitimiza&ccedil;&atilde;o. Para isso, regras foram estabelecidas. &ldquo;A prioridade &eacute; voc&ecirc; colher esse relato uma vez s&oacute; e n&atilde;o precisar fazer v&aacute;rias perguntas para a crian&ccedil;a. &Eacute; importante tamb&eacute;m evitar transcorrer muito tempo entre a data da viol&ecirc;ncia e o depoimento&rdquo;, esclareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se sabe, nenhum desses pontos foi respeitado quando as v&iacute;timas de Altamira foram ouvidas pelas autoridades. Al&eacute;m disso, a forma como as perguntas eram feitas tamb&eacute;m &eacute; bastante question&aacute;vel. A psic&oacute;loga cita, por exemplo, um trecho do depoimento prestado pelo <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a> em 1993:<\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;] Perguntado ao informante v&iacute;tima se &eacute; comum se fazer acompanhar de pessoas estranhas [&hellip;].<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Esse &eacute; um exemplo claro de revitimiza&ccedil;&atilde;o. Porque a gente est&aacute; falando de um menino de 9 ou 10 anos na &eacute;poca. Ele estava l&aacute; e o convidaram para colher manga ou alguma coisa assim. Ent&atilde;o, qual &eacute; a pertin&ecirc;ncia de perguntar se ele &eacute; acompanhado por pessoas estranhas? Essa foi a primeira coisa que me chamou bastante a aten&ccedil;&atilde;o&rdquo;, comentou.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, os depoimentos dos sobreviventes foram profundamente usados pela acusa&ccedil;&atilde;o, que estava ciente das contradi&ccedil;&otilde;es que eles traziam. A justificativa repetida pela promotoria era de que as v&iacute;timas haviam omitido informa&ccedil;&otilde;es por medo e, agora, tinham criado coragem para falar a verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, afinal, essa explica&ccedil;&atilde;o se sustenta? Os detalhes mencionados nos j&uacute;ris estavam presentes em depoimentos anteriores?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DEPOIMENTOS DO <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">SEGUNDO SOBREVIVENTE<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Relembrando, o primeiro depoimento do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a> foi tomado em 28 de maio de 1991, um ano e meio ap&oacute;s o crime. Isso j&aacute; configura um problema grave em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; preserva&ccedil;&atilde;o de mem&oacute;ria, j&aacute; que o tempo decorrido entre os eventos &eacute; longo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 8 de janeiro de 1992, a v&iacute;tima identificou o andarilho <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rotilio-francisco-do-rosario\/\" target=\"_self\" title=\"Morador de rua preso em 1992 como suspeito no caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Rot&iacute;lio Francisco do Ros&aacute;rio<\/a> como o homem que o sequestrou. O auto de reconhecimento afirma, inclusive, que o garoto ficou bastante transtornado ao ser colocado frente a frente com o suspeito, que morreu na pris&atilde;o poucos dias depois.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1992-01-08-Auto-de-Reconhecimento-Segundo-Sobrevivente-x-Rotilio-inquerito-Judirley_compressed-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Auto de reconhecimento de Rot&iacute;lio pelo Segundo Sobrevivente<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>J&aacute; o segundo depoimento foi quatro anos depois do ataque, em 30 de novembro de 1993, na segunda fase de ju&iacute;zo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De cara, &eacute; preciso dizer que, no plano geral, os depoimentos do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a> s&atilde;o consistentes. Ele relata que, em uma tarde, estava perto de casa quando um homem apareceu em uma bicicleta vermelha e o convidou para apanhar mangas. O menino aceitou acompanh&aacute;-lo e o seguiu por aproximadamente 500 metros. Em seguida, eles entraram em uma mata, onde andaram por cerca de 20 a 30 minutos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em algum momento, o homem o atacou. A v&iacute;tima, ent&atilde;o, desmaiou e s&oacute; acordou no dia seguinte, no mesmo matagal. Estava nu e emasculado, mas n&atilde;o sangrava muito, gra&ccedil;as &agrave; lama de tabatinga que cobria o ferimento. <\/p>\n\n\n\n<p>O garoto se levantou com dificuldade e usou o som que ouvia dos carros para chegar na estrada. L&aacute;, caminhou em dire&ccedil;&atilde;o a uma casa pr&oacute;xima, para pedir um copo de &aacute;gua. Foi quando um entregador de leite da regi&atilde;o o reconheceu e chamou o pai da crian&ccedil;a, que finalmente o levou ao hospital.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/amadeu-aabb\/\" target=\"_self\" title=\"Pai do Segundo Sobrevivente\" class=\"encyclopedia\">Amadeu (AABB)<\/a>, trabalhava na Associa&ccedil;&atilde;o do Banco do Brasil. Os funcion&aacute;rios do local, ao descobrirem o que tinha acontecido, fizeram uma vaquinha e fretaram um avi&atilde;o para o menino ser atendido em Bel&eacute;m. O m&eacute;dico <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/lourival-barbalho\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico cirurgi&atilde;o que fez o tratamento de dois sobreviventes\" class=\"encyclopedia\">Lourival Barbalho<\/a> conduziu, ent&atilde;o, o tratamento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O pr&oacute;prio cirurgi&atilde;o comentou, em um prontu&aacute;rio escrito &agrave; m&atilde;o &agrave;s v&eacute;speras do j&uacute;ri, a situa&ccedil;&atilde;o da v&iacute;tima ao chegar no hospital. Segundo ele, o garoto ainda estava &ldquo;envolto por uma lama tipo tabatinga, que o salvou da morte&rdquo;. Isso porque a subst&acirc;ncia teria ajudado a estancar o sangue da les&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/2003-08-22-Lourival-Barbalho-Declaracao-sobre-Segundo-Sobrevivente.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Declara&ccedil;&atilde;o de Lourival Barbalho sobre o Segundo Sobrevivente<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto consistente em todos os relatos &eacute; a descri&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica do sequestrador fornecida pela v&iacute;tima. Anexado ao retrato falado, h&aacute; uma ficha que lista as caracter&iacute;sticas do suspeito. Ela cont&eacute;m todas as palavras-chave que o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a> usaria em seus depoimentos futuros, inclusive nos j&uacute;ris:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Cabelo: enrolado &ndash; curto &ndash; escuro<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Rosto: comprido &ndash; fino<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Orelhas: pequenas &ndash; encobertas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Cor: moreno<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Olhos: amendoados &ndash; castanhos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Nariz: comprido &ndash; achatado<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sobrancelhas: finas-longas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>L&aacute;bios: finos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Boca: alongada<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Pesco&ccedil;o: m&eacute;dio<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Testa: encoberta &ndash; curta<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sinais particulares: uma verruga no lado direito, boqueiras (feridas nos cantos da boca), camisa ao ombro de cor vermelha<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Bigode: muito ralo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Um detalhe sempre citado pelo menino &eacute; a verruga no lado direito do pesco&ccedil;o, que est&aacute; ilustrada no retrato falado. Nos j&uacute;ris, por&eacute;m, ele muda um pouco o discurso: diz que poderia ser uma verruga, uma espinha ou uma cicatriz.<\/p>\n\n\n\n<p>Curiosamente, o andarilho Rot&iacute;lio, que foi reconhecido pelo <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a> em janeiro de 1992, n&atilde;o tinha nenhuma marca no pesco&ccedil;o. Pelo menos &eacute; o que mostram as fotos dispon&iacute;veis nos autos e em mat&eacute;rias da &eacute;poca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/carlos-alberto-dos-santos-lima\/\" target=\"_self\" title=\"Policial militar acusado no caso dos meninos\" class=\"encyclopedia\">Carlos Alberto dos Santos Lima<\/a>, apontado pelas v&iacute;timas como o criminoso no j&uacute;ri em 2003, tamb&eacute;m n&atilde;o possu&iacute;a nenhum tipo de sinal na regi&atilde;o. Ent&atilde;o, ao mudar o relato e afirmar que a marca podia ou n&atilde;o ser uma verruga, o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a> evidencia uma imprecis&atilde;o nas mem&oacute;rias do evento, o que &eacute; totalmente compreens&iacute;vel. Apesar desse apontamento ser feito 14 anos ap&oacute;s o crime, ele &eacute; bastante razo&aacute;vel e n&atilde;o pode ser descartado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um primeiro momento, a descri&ccedil;&atilde;o completa feita por ele parece ser bem detalhada. Na pr&aacute;tica, no entanto, ela se torna mais gen&eacute;rica, j&aacute; que poderia se encaixar tanto em Rot&iacute;lio quanto em Carlos Alberto &ndash; ou at&eacute; mesmo em grande parte da popula&ccedil;&atilde;o de Altamira, que apresentava esses mesmos tra&ccedil;os.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O ATAQUE<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto a descri&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica do criminoso &eacute; consistente nos relatos do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a>, os detalhes relacionados ao ataque que ele sofreu t&ecirc;m algumas mudan&ccedil;as. A primeira pergunta a ser feita &eacute;: a v&iacute;tima saberia dizer qual foi o objeto usado para feri-la?<\/p>\n\n\n\n<p>O &uacute;nico depoimento em que o menino cita um instrumento cortante &eacute; o de 28 de maio de 1991, ainda na fase de inqu&eacute;rito. Na ocasi&atilde;o, ele afirma que, em um certo momento, o agressor tirou do bolso uma navalha, que estava enrolada em um pano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de n&atilde;o aparecer em nenhuma outra declara&ccedil;&atilde;o oficial do garoto, esse mesmo detalhe &eacute; citado pela imprensa. Uma mat&eacute;ria do jornal Di&aacute;rio do Par&aacute; publicada dois dias ap&oacute;s o ataque fala sobre o uso da navalha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m disso, a reportagem afirma que um suspeito teria sido preso. Essa informa&ccedil;&atilde;o foi confirmada na edi&ccedil;&atilde;o do dia seguinte, 19 de novembro, mas a identidade do homem n&atilde;o foi revelada. No inqu&eacute;rito do caso n&atilde;o h&aacute; qualquer men&ccedil;&atilde;o a uma pessoa detida logo depois do ataque. Portanto, essa &eacute; mais uma d&uacute;vida que fica sem resposta.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/05\/Jornal-Diario-do-Para-18-11-89-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mat&eacute;ria do jornal Di&aacute;rio do Par&aacute; &ndash; &ldquo;Tarado ataca e mata 3 crian&ccedil;as em Altamira&rdquo;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1989-11-19-Materia-Diario-do-Para-Segundo-Sobrevivente-suspeito-preso.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mat&eacute;ria do jornal Di&aacute;rio do Par&aacute; &ndash; &ldquo;At&eacute; o Ex&eacute;rcito ajuda na ca&ccedil;a ao Monstro&rdquo;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O fato &eacute; que a navalha s&oacute; est&aacute; presente no primeiro depoimento do menino e na mat&eacute;ria publicada dois dias depois do crime. Nos relatos seguintes, ele passou a dizer que o agressor o sufocou at&eacute; desmaiar e, quando acordou, j&aacute; estava emasculado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre isso, surge a d&uacute;vida: como o garoto desmaiou? O relato da fase de inqu&eacute;rito d&aacute; conta de que o criminoso teria colocado a pr&oacute;pria camisa na boca da v&iacute;tima. Na etapa de ju&iacute;zo, o menino repete a informa&ccedil;&atilde;o e complementa: o homem passou a pe&ccedil;a de roupa com tanta for&ccedil;a no seu rosto que logo ele perdeu os sentidos. A camisa, no entanto, n&atilde;o tinha cheiro nenhum.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nos j&uacute;ris, isso muda bastante. O <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a> afirma que o agressor o sufocou com um pano que tinha um cheiro forte, contrariando os relatos anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>Para tornar a hist&oacute;ria ainda mais estranha, h&aacute; outra vers&atilde;o do crime descrita em uma mat&eacute;ria do jornal O Liberal, de 18 de novembro de 1989. Segundo a reportagem, ap&oacute;s ser medicada e atendida no hospital, a crian&ccedil;a contou tudo o que aconteceu ao pai, que repassou o relato aos jornalistas. Ou seja, essa seria a narrativa mais completa e pr&oacute;xima do dia do ataque, visto que o primeiro depoimento oficial s&oacute; foi prestado em maio de 1991.<\/p>\n\n\n\n<p>A reportagem diz o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p><em>O homem tirou um len&ccedil;o do bolso, onde estava escondida uma navalha, com a qual ele obrigou o menino a tirar a roupa, e depois lhe cortou os &oacute;rg&atilde;os genitais com um &uacute;nico golpe, indo embora logo depois, deixando-o abandonado no local.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O menino contou ainda ao seu pai que, ap&oacute;s o golpe, devido &agrave; dor e &agrave; quantidade de sangue que perdeu, acabou desmaiando, s&oacute; recobrando os sentidos na manh&atilde; do dia seguinte.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/05\/Jornal-O-Liberal-18-11-89-2.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mat&eacute;ria do jornal O Liberal &ndash; &ldquo;Garoto emasculado pelo man&iacute;aco&rdquo;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; preciso deixar claro que uma mat&eacute;ria de jornal em teoria n&atilde;o possui o mesmo rigor que um documento oficial. Considerando, por&eacute;m, a precariedade de informa&ccedil;&otilde;es, essa reportagem se torna uma das fontes mais pr&oacute;ximas da &eacute;poca do crime. E ela impressiona pela diverg&ecirc;ncia dos relatos anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, o menino n&atilde;o teria desmaiado antes do ataque, ao ser sufocado com um pano ou uma camisa. De acordo com a mat&eacute;ria, ele teria sido amea&ccedil;ado pelo homem com uma navalha, que o mandou tirar a roupa e o emasculou. A dor e o p&acirc;nico fizeram, ent&atilde;o, com que ele desmaiasse.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa vers&atilde;o &eacute; totalmente contr&aacute;ria &agrave; tese da promotoria de que m&eacute;dicos teriam sedado a crian&ccedil;a e realizado, em seguida, cortes cir&uacute;rgicos. Inclusive, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; participa&ccedil;&atilde;o de mais pessoas no crime, o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a> nunca disse nada que apontasse para isso nos primeiros depoimentos. Ele sempre fala em um homem, que o sequestrou e o emasculou.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos julgamentos, contudo, a narrativa ganha mais detalhes. A v&iacute;tima passou a dizer que acordou meio zonza &agrave; noite e se deparou com o sequestrador agachado na sua frente. Avistou tamb&eacute;m luzes em cima dele, como se fossem de lanternas, indicando a atua&ccedil;&atilde;o de um grupo de criminosos. Cerca de 10 segundos depois, a crian&ccedil;a apagou de novo e s&oacute; despertou no dia seguinte. Nada disso havia sido mencionado antes no processo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, o trecho mais chocante dos depoimentos do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a> nos j&uacute;ris se refere &agrave; sensa&ccedil;&atilde;o de dorm&ecirc;ncia no corpo ao acordar. Ele dizia ter sentido um formigamento nas pernas muito parecido com o que vivenciou ap&oacute;s as cirurgias de reconstru&ccedil;&atilde;o conduzidas pelo doutor Barbalho &ndash; naquele momento, ele j&aacute; havia passado por cerca de 14 procedimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Analisando o tema &ldquo;dor&rdquo;, al&eacute;m da j&aacute; citada mat&eacute;ria do Jornal O Liberal, h&aacute; outra passagem importante a ser relembrada. Ela est&aacute; presente na segunda declara&ccedil;&atilde;o oficial da v&iacute;tima, de 30 de novembro de 1993:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Por&eacute;m, como a dor era pequena, assim como era pouca a perda de sangue, o informante v&iacute;tima ouviu um barulho de carro na estrada e caminhou at&eacute; alcan&ccedil;ar a estrada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ao considerar todos esses elementos, &eacute; poss&iacute;vel concluir que o relato do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a> nos j&uacute;ris &eacute; muito mais detalhado do que os prestados em anos anteriores. Nessa nova vers&atilde;o, pela primeira vez, ele apresenta fortes ind&iacute;cios da participa&ccedil;&atilde;o de m&eacute;dicos no crime, o que provavelmente foi determinante para a condena&ccedil;&atilde;o dos acusados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DEPOIMENTOS DE WANDICLEY<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/wandicley-oliveira-pinheiro\/\" target=\"_self\" title=\"Terceiro sobrevivente do caso dos emasculados de Altamira\" class=\"encyclopedia\">Wandicley Oliveira Pinheiro<\/a> sofreu o ataque em 23 de setembro de 1990, aos 9 anos de idade. No total, ele foi ouvido quatro vezes ao longo do processo, antes dos j&uacute;ris em 2003.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro depoimento ocorreu 10 meses ap&oacute;s o crime, em 17 de julho de 1991, no inqu&eacute;rito do caso. Na ocasi&atilde;o, a v&iacute;tima ajudou na produ&ccedil;&atilde;o de um retrato falado composto por recortes de imagens. Diferente da investiga&ccedil;&atilde;o envolvendo o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a>, no entanto, n&atilde;o h&aacute; aqui uma ficha com a descri&ccedil;&atilde;o completa do suspeito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em janeiro de 1992, Wandicley reconheceu <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rotilio-francisco-do-rosario\/\" target=\"_self\" title=\"Morador de rua preso em 1992 como suspeito no caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Rot&iacute;lio Francisco do Ros&aacute;rio<\/a> como a pessoa que o havia atacado. O procedimento ocorreu no inqu&eacute;rito referente ao assassinato do menino <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/judirley-da-cunha-chipaia\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a emasculada e morta em janeiro de 1992 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Judirley da Cunha Chipaia<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1992-01-08-Auto-de-Reconhecimento-Wandicley-Oliveira-Pinheiro-inquerito-Judirley.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Auto de reconhecimento de Rot&iacute;lio por Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Nove meses depois, com a morte de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jaenes-da-silva-pessoa\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a emasculada e morta em outubro de 1992 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jaenes da Silva Pessoa<\/a>, Wandicley foi chamado novamente para prestar depoimento, em 21 de outubro de 1992. J&aacute; o terceiro relato oficial data de 30 de junho de 1993 e faz parte das investiga&ccedil;&otilde;es conduzidas pelo delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a> &ndash; na ocasi&atilde;o, ele apontou o ex-PM Aldenor como o sequestrador. Por fim, o &uacute;ltimo relato antes do julgamento ocorreu na fase de ju&iacute;zo, em 30 de novembro de 1993.<\/p>\n\n\n\n<p>A an&aacute;lise dos quatro depoimentos mostra que apenas um fator se repete: a pessoa que levou a v&iacute;tima para o mato tinha uma bicicleta vermelha. Esse detalhe, inclusive, tamb&eacute;m aparece nas declara&ccedil;&otilde;es do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>De resto, todos eles s&atilde;o repletos de contradi&ccedil;&otilde;es, seja em maiores ou menores detalhes. &Eacute; muito dif&iacute;cil saber exatamente qual &eacute; o relato mais pr&oacute;ximo do que aconteceu de fato. Al&eacute;m do trauma, a demora para colher o primeiro depoimento contribuiu para isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m disso, fica claro que nenhuma autoridade parece ter se preocupado em compreender o motivo dessas diferen&ccedil;as. A impress&atilde;o &eacute; que, a cada nova declara&ccedil;&atilde;o, promotores e delegados entendiam que o menino estava &ldquo;lembrando melhor&rdquo; e, por isso, a narrativa n&atilde;o era consistente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas das incongru&ecirc;ncias mais relevantes est&atilde;o relacionadas &agrave; abordagem feita pelo criminoso:<\/p>\n\n\n\n<ul><li>Nos dois primeiros depoimentos, Wandicley diz ter sido levado &agrave; for&ccedil;a pelo homem. Ou seja, n&atilde;o teria sido um convite amig&aacute;vel que o levou a acompanhar o desconhecido, mas sim um sequestro.<\/li><li>No terceiro depoimento, aparece pela primeira vez a hist&oacute;ria de que o agressor o chamou para ca&ccedil;ar papagaio. Mesmo assim, o garoto ainda teria sido levado &agrave; for&ccedil;a, ap&oacute;s n&atilde;o responder ao convite.<\/li><li>A narrativa de que a crian&ccedil;a aceitou o chamado do homem sem confronto algum s&oacute; est&aacute; presente no quarto relato oficial. Ela se manteve assim at&eacute; os julgamentos.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Entre essas vers&otilde;es, por conta de materiais que ainda ser&atilde;o apresentados pelo podcast, Ivan Mizanzuk tende a acreditar mais no &uacute;ltimo depoimento, que menciona o convite amig&aacute;vel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se foi esse o caso, por que, ent&atilde;o, o menino teria mentido antes? A melhor explica&ccedil;&atilde;o inclui o fato de que a v&iacute;tima era apenas uma crian&ccedil;a, extremamente traumatizada, que provavelmente tinha medo de ser julgada se falasse que saiu com o homem por vontade pr&oacute;pria.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; descri&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica do suspeito, h&aacute; bastante confus&atilde;o entre os relatos, o que mostra como Wandicley devia se sentir pressionado a dar informa&ccedil;&otilde;es que ajudassem a pol&iacute;cia:<\/p>\n\n\n\n<ul><li><strong>Cor da pele: <\/strong>Nos dois primeiros depoimentos, o menino afirma que o homem era branco. No terceiro, n&atilde;o cita a cor da pele. No quarto, passa a dizer que o desconhecido era &ldquo;moreno&rdquo; &ndash; tom de pele que ele tamb&eacute;m cita no j&uacute;ri, quando aponta o ex-PM Carlos Alberto como o criminoso.<\/li><li><strong>Altura: <\/strong>Antes dos j&uacute;ris, Wandicley descreve a altura do suspeito como &ldquo;mediana&rdquo;. Nos julgamentos, ressalta que ele seria &ldquo;um pouco baixo e forte&rdquo;, justamente a descri&ccedil;&atilde;o do porte f&iacute;sico do ex-PM.<\/li><li><strong>Cabelo: <\/strong>No primeiro depoimento, a v&iacute;tima diz que o sequestrador tinha cabelo curto e preto. No segundo, ela fala em cabelo preto, liso e penteado para tr&aacute;s, o que pode ser um complemento &agrave; descri&ccedil;&atilde;o anterior. No terceiro relato, o garoto descreve um cabelo baixo e liso, com uma esp&eacute;cie de franja. No quarto, as caracter&iacute;sticas citadas s&atilde;o &ldquo;preto e crespo&rdquo;. Por fim, no j&uacute;ri, Wandicley refor&ccedil;a que o suspeito tinha cabelo crespo, o que mais uma vez coloca Carlos Alberto na cena do crime.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>As contradi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o param por a&iacute;. No primeiro depoimento, a v&iacute;tima afirma que chegou a ser amarrada duas vezes pelo agressor, no momento em que foi levada &agrave; for&ccedil;a e tamb&eacute;m ao ser atacada. Esses detalhes, por&eacute;m, n&atilde;o se repetem da mesma forma nos demais relatos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos j&uacute;ris, ele ainda adiciona novos elementos: o homem teria usado um pano com um cheiro forte para sufoc&aacute;-lo. Ele, ent&atilde;o, desmaiou e acordou logo em seguida, muito brevemente. Nessa hora, notou que estava amarrado, e que havia mais tr&ecirc;s pessoas ali, al&eacute;m do sequestrador. Por estar atordoado, ele n&atilde;o conseguiu reconhecer ningu&eacute;m no local.<\/p>\n\n\n\n<p>O detalhe do &ldquo;pano com cheiro&rdquo; remete imediatamente &agrave; cenas de filmes em que o vil&atilde;o usa &eacute;ter para fazer a v&iacute;tima desmaiar. Wandicley nunca afirmou que essa teria sido a subst&acirc;ncia utilizada. Mesmo assim, a imagem de cinema ficou na mente dos jurados. E o problema disso &eacute; o seguinte: de acordo com especialistas em anestesias consultados pelo podcast, essa cena t&atilde;o emblem&aacute;tica n&atilde;o corresponde com a realidade. Na verdade, para ter efeito, o pano com &eacute;ter teria que ficar alguns minutos na boca da pessoa para que ela perdesse a consci&ecirc;ncia. N&atilde;o seria algo instant&acirc;neo. Um sufocamento sem a subst&acirc;ncia poderia, inclusive, levar o mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Independente disso, a narrativa de Wandicley nos j&uacute;ris &eacute; relevante para a acusa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&oacute; por relacionar os m&eacute;dicos ao crime, mas tamb&eacute;m por indicar a participa&ccedil;&atilde;o de mais pessoas. Assim como o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a>, no tribunal, a v&iacute;tima conta que foi atacada por quatro indiv&iacute;duos. O que os relatos anteriores falam sobre isso?<\/p>\n\n\n\n<p>No primeiro depoimento, o menino conta que viu com clareza apenas o homem da bicicleta, mas notou a presen&ccedil;a de outros tr&ecirc;s indiv&iacute;duos ao espiar por debaixo da venda que lhe tampava os olhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, o que chama a aten&ccedil;&atilde;o &eacute; um trecho do segundo relato de Wandicley, anexado ao inqu&eacute;rito de Jaenes. Na ocasi&atilde;o, o garoto afirma:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Que foi ent&atilde;o conduzido a um matagal, n&atilde;o sabendo precisar o local, aonde foi ent&atilde;o desamarrado pelo desconhecido e obrigado a descer um barranco; QUE, ao chegar em uma clareira, encontrava-se <\/em><strong><em>mais um homem<\/em><\/strong><em>, que o homem descreve como tendo olhos escuros, cabelos pretos e ondulados, sobrancelhas fartas, com bigode, de rosto fino, estatura m&eacute;dia; QUE nessa ocasi&atilde;o teve seus olhos vendados; QUE, logo ap&oacute;s ter seus olhos vendados, chegaram ao local mais dois homens desconhecidos, pois p&ocirc;de perceber atrav&eacute;s de uma falha no tecido que cobria seus olhos, fazendo um total de quatro homens.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, o menino diz que, al&eacute;m do sequestrador, viu tamb&eacute;m outro homem no mato, e chega at&eacute; a descrev&ecirc;-lo. Mas esse &eacute; o &uacute;nico depoimento em que essa informa&ccedil;&atilde;o aparece.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; tamb&eacute;m neste momento que ele narra um desmaio diferente daquele com o pano ou a camisa do agressor. Logo ap&oacute;s notar os dois indiv&iacute;duos atrav&eacute;s da venda, a crian&ccedil;a teria recebido uma pancada na cabe&ccedil;a, dada pelo rapaz da bicicleta. O segundo homem, aquele que esperava no matagal, tirou a bermuda da v&iacute;tima e a emasculou. O garoto s&oacute; desmaiou depois do ataque, por causa da dor:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ap&oacute;s o golpe em sua cabe&ccedil;a, caiu ao ch&atilde;o. Foi neste momento que o desconhecido moreno de bigode segurou no bra&ccedil;o do informante, ocasi&atilde;o em que o desconhecido de cor branca retirou a sua bermuda e, com a faca que possu&iacute;a, cortou-lhe seus &oacute;rg&atilde;os genitais. Que neste momento, devido &agrave; dor, o informante perdeu os sentidos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Somente veio recobrar os sentidos algum tempo depois, sendo que, ao retornar, encontrava-se sozinho e todo ensanguentado. Que, <\/em><strong><em>apesar da dor que sentia<\/em><\/strong><em>, levantou-se e passou a caminhar dentro do mato em busca de ajuda.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Aqui n&atilde;o h&aacute; nenhuma hist&oacute;ria de formigamento, de sensa&ccedil;&atilde;o anest&eacute;sica ou de pisar nos espinhos e n&atilde;o sentir os p&eacute;s. Tudo isso s&oacute; aparece na &eacute;poca dos julgamentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A narrativa da dor surge tamb&eacute;m na quarta declara&ccedil;&atilde;o oficial, quando o menino afirmou que, ao acordar:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Viu-se com dores nas partes genitais e sangrando muito, tendo em vista ter sido emasculado.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, por que Wandicley falou no j&uacute;ri que n&atilde;o sentiu dor nenhuma? Por que ele alterou tanto os relatos no decorrer dos anos? Qualquer resposta &eacute; mera especula&ccedil;&atilde;o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de ignorar boa parte dessas incongru&ecirc;ncias, a acusa&ccedil;&atilde;o tinha ci&ecirc;ncia delas, e dava uma explica&ccedil;&atilde;o para os jurados em 2003: Wandicley, assim como todas as testemunhas de acusa&ccedil;&atilde;o, tinha finalmente perdido o medo de falar. Inclusive, essa seria a justificativa dos pr&oacute;prios sobreviventes para negar os reconhecimentos anteriores e apontar Carlos Alberto como o agressor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isso, por&eacute;m, &eacute; dif&iacute;cil de acreditar. As contradi&ccedil;&otilde;es de Wandicley v&atilde;o muito al&eacute;m de qualquer receio de repres&aacute;lias. Elas s&atilde;o o retrato de um garoto sem qualquer assist&ecirc;ncia, que passou por um trauma terr&iacute;vel e sofreu uma press&atilde;o imensa. Por isso, tomar depoimentos de crian&ccedil;as &eacute; algo t&atilde;o delicado. &Eacute; muito comum que elas falem qualquer coisa que os adultos queiram ouvir, especialmente diante de figuras de autoridade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>OUTRAS TESTEMUNHAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para uma an&aacute;lise mais profunda do ataque a Wandicley, Mizanzuk decidiu olhar com mais aten&ccedil;&atilde;o para outras testemunhas presentes no inqu&eacute;rito. A primeira delas &eacute; um motorista chamado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-silva-de-castro\/\" target=\"_self\" title=\"Motorista que socorreu Wandicley, o terceiro sobrevivente, ap&oacute;s o ataque\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Silva de Castro<\/a>. Ele falou &agrave; pol&iacute;cia em 24 de setembro de 1990, no dia seguinte ao crime.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na ocasi&atilde;o, relatou que estava em casa por volta das 14h, quando foi avisado que havia um menino sentado ao batente de uma porta na resid&ecirc;ncia vizinha. Jos&eacute; foi at&eacute; a crian&ccedil;a e notou que ela estava completamente despida e ensanguentada. Ao examin&aacute;-la, percebeu o ferimento entre as pernas e a carregou at&eacute; em casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Aproveitou, ent&atilde;o, para lhe perguntar quem havia feito aquilo. Com muita dificuldade, o garoto informou que o criminoso era um rapaz alto, de cabelo enrolado e barba. Jos&eacute; preferiu n&atilde;o insistir no assunto e procurou ajuda para levar a v&iacute;tima at&eacute; o Hospital da Funda&ccedil;&atilde;o Sesp. L&aacute;, a crian&ccedil;a foi encaminhada &agrave; sala de emerg&ecirc;ncia e mais uma vez questionada sobre o ataque. Ela respondeu debilmente a mesma coisa que havia falado para o motorista, acrescentando que o indiv&iacute;duo era magro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, uma viatura chegou ao local e Jos&eacute; acompanhou os policiais at&eacute; o ponto onde o menino havia sido encontrado. A equipe percebeu que havia uma trilha de sangue deixada pelos ferimentos, que seguia por uma dist&acirc;ncia de 500 metros da casa da testemunha. A partir da&iacute;, as pol&iacute;cias Civil e Militar realizaram dilig&ecirc;ncias na tentativa de localizar o autor do crime.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1990-09-24-Depoimento-Jose-Silva-de-Castro-inquerito-Wandicley.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Jos&eacute; Silva de Castro<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro ponto que merece destaque aqui &eacute; o fato de Wandicley ter dito que havia sido atacado por apenas um homem &ndash; contrariando os seus relatos futuros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo elemento interessante levantado pela testemunha &eacute; o rastro de sangue que levava at&eacute; o local do crime. Pelo depoimento, &eacute; poss&iacute;vel supor que os policiais foram at&eacute; l&aacute;. Nesse contexto, se o menino tivesse realmente sido vendado e amarrado, as cordas ainda estariam no mato. No entanto, n&atilde;o h&aacute; nenhum registro que indique a descoberta de qualquer objeto nas redondezas.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da recorrente precariedade e do mal trabalho da pol&iacute;cia em Altamira, no caso espec&iacute;fico de Wandicley existe algo &uacute;nico: um Boletim de Ocorr&ecirc;ncia, escrito pelo policial civil <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/otavio-torres-filho\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado de Vit&oacute;ria do Xingu, cidade pr&oacute;xima &agrave; Altamira\" class=\"encyclopedia\">Ot&aacute;vio Torres Filho<\/a>. O documento &eacute; de 25 de setembro de 1990, dois dias ap&oacute;s o crime:<\/p>\n\n\n\n<p><em>A Autoridade Policial, imediatamente ao conhecimento desta not&iacute;cia de crime, deslocou-se ao lugar onde o fato se deu e tomou conhecimento in loco que aquela crian&ccedil;a teria sido conduzida por <\/em><strong><em>um<\/em><\/strong><em> <\/em><strong><em>elemento desconhecido<\/em><\/strong><em> que, tendo as caracter&iacute;sticas de um homem de aproximadamente 40 anos de idade, de barba, trajando cal&ccedil;a jeans e camiseta, dirigindo uma bicicleta, convenceu-lhe a lhe acompanhar &agrave;s matas das imedia&ccedil;&otilde;es daquela estrada, e ali, escondido, fazendo uso de um objeto cortante, teria seccionado totalmente os &oacute;rg&atilde;os genitais do menor.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Em raz&atilde;o das dificuldades encontradas para prender o autor, sobretudo as de precariedade de informa&ccedil;&otilde;es, posto que ningu&eacute;m viu o acusado, mas apenas a v&iacute;tima &agrave;quela altura, [que estava] fora de si em raz&atilde;o do traumatismo e de seu estado de quase coma, dilig&ecirc;ncias continuaram sendo feitas com esse objetivo.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m de falar em apenas um agressor, o policial tamb&eacute;m aponta o estado da v&iacute;tima, que estava em choque e profundamente traumatizada. &Eacute; poss&iacute;vel que isso explique o motivo pelo qual a crian&ccedil;a s&oacute; prestou um depoimento formal 10 meses mais tarde.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/otavio-torres-filho\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado de Vit&oacute;ria do Xingu, cidade pr&oacute;xima &agrave; Altamira\" class=\"encyclopedia\">Ot&aacute;vio Torres Filho<\/a>, o autor do B.O., j&aacute; foi citado em epis&oacute;dios passados do podcast, na &eacute;poca das investiga&ccedil;&otilde;es da morte de Jaenes. Na ocasi&atilde;o, ele teria forjado depoimentos de testemunhas sobre a localiza&ccedil;&atilde;o de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/amailton-madeira-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Filho de Amadeu Gomes, &eacute; um dos acusados no caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Amailton Madeira Gomes<\/a> na cidade de Vit&oacute;ria do Xingu, pr&oacute;xima &agrave; Altamira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se por um lado, esse Boletim representa uma pe&ccedil;a importante para a an&aacute;lise do crime contra Wandicley, por outro, ele pode n&atilde;o ser totalmente confi&aacute;vel. Para Ivan Mizanzuk, contudo, n&atilde;o h&aacute; nenhum motivo claro para que o policial tenha forjado esse documento. Por isso, ele tende a acreditar na sua veracidade.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1990-09-25-Boletim-de-Ocorrencia-do-escrivao-Otavio-Torres-Filho-sobre-o-crime-contra-Wandicley.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Boletim de Ocorr&ecirc;ncia do ataque a Wandicley<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Diante de tudo isso, a quest&atilde;o &eacute;: quando surge a hist&oacute;ria de que Wandicley foi atacado por quatro pessoas?<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, duas reportagens da &eacute;poca chamam a aten&ccedil;&atilde;o: uma do jornal O Liberal, de 25 de setembro, e a outra do jornal A Prov&iacute;ncia do Par&aacute;, de 26 de setembro. Ambas afirmam que o menino teria sido atacado por dois homens. As mat&eacute;rias n&atilde;o falam quem passou essa informa&ccedil;&atilde;o, mas mostram que, no meio de todo o terror, outra vers&atilde;o estava sendo contada.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1990-09-25-Materia-O-Liberal-Wandicley.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mat&eacute;ria do jornal O Liberal &ndash; &ldquo;Menino foi castrado em Altamira&rdquo;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1990-09-26-Materia-A-Provincia-do-Para-Wandicley.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mat&eacute;ria do jornal A Prov&iacute;ncia do Par&aacute; &ndash; &ldquo;Menor ainda est&aacute; no hospital&rdquo;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Em 16 de outubro de 1990, quase um m&ecirc;s ap&oacute;s o ataque, o pai de Wandicley prestou um depoimento. O agricultor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/cezario-loiola-pinheiro\/\" target=\"_self\" title=\"Pai de Wandicley, terceiro sobrevivente emasculado\" class=\"encyclopedia\">Cez&aacute;rio Loiola Pinheiro<\/a> tinha 52 anos de idade e afirmava ser analfabeto. Esse talvez seja o primeiro momento em que a hist&oacute;ria da participa&ccedil;&atilde;o de mais pessoas aparece, mas &eacute; dif&iacute;cil afirmar com certeza.<\/p>\n\n\n\n<p>Em certo trecho, Cez&aacute;rio diz:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>O autor da emascula&ccedil;&atilde;o teria sido um homem alto, cabeludo, de cabelos enrolados, de barba e bigode.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, uma passagem anterior, muito breve, coloca em d&uacute;vida essa afirma&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;] que resultou na perda total de seus &oacute;rg&atilde;os genitais, pela a&ccedil;&atilde;o de corte praticado por <\/em><strong><em>elementos desconhecidos<\/em><\/strong><em>.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por se declarar analfabeto, o pai da v&iacute;tima n&atilde;o teria condi&ccedil;&otilde;es de conferir o conte&uacute;do do depoimento e corrigir um eventual erro. E, mesmo que algu&eacute;m lesse o texto para ele, &eacute; improv&aacute;vel que esse detalhe chamasse a aten&ccedil;&atilde;o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/11\/1990-10-16-Cezario-Loiola-Pinheiro-pai-Wandicley.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Cez&aacute;rio Loiola Pinheiro<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, em resumo, o momento em que a vers&atilde;o dos quatro homens surge &eacute; no primeiro relato de Wandicley, quase um ano ap&oacute;s o ataque. O fato &eacute; que, depois de tudo isso, ele prestou depoimentos contradit&oacute;rios e reconheceu tr&ecirc;s pessoas diferentes como o agressor: Rot&iacute;lio, Aldenor e Carlos Alberto.<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez das autoridades garantirem que a v&iacute;tima recebesse toda a assist&ecirc;ncia poss&iacute;vel, elas apenas criaram um ambiente de press&atilde;o inimagin&aacute;vel para uma crian&ccedil;a. Diante desse quadro, incapaz de encontrar respostas consistentes, o menino come&ccedil;ou a cri&aacute;-las. Ele n&atilde;o estava mentindo ou inventando coisas de forma proposital a fim de confundir, mas sim de lidar com a tens&atilde;o e buscar solu&ccedil;&otilde;es para si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um trecho do depoimento do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a> &eacute; evid&ecirc;ncia disso. Durante o julgamento de C&eacute;sio, questionado sobre o reconhecimento de Rot&iacute;lio em 1992, ele responde:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Que soube que Rot&iacute;lio ficou preso por causa do reconhecimento; QUE soube que Rot&iacute;lio morreu na Delegacia; QUE reconheceu porque era crian&ccedil;a e estava pressionado; QUE a press&atilde;o que sofria n&atilde;o era das pessoas. Era uma press&atilde;o de si.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a psic&oacute;loga <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/flavia-cezari\/\" target=\"_self\" title=\"Psic&oacute;loga consultada pelo podcast\" class=\"encyclopedia\">Fl&aacute;via C&eacute;zari<\/a>, as chamadas falsas mem&oacute;rias s&atilde;o um fen&ocirc;meno natural do ser humano. &ldquo;Isso acontece quando a pessoa se recorda de algum evento da sua vida, mas, factualmente, ele n&atilde;o ocorreu naquele determinado momento ou jamais ocorreu&rdquo;, explicou.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse tipo de situa&ccedil;&atilde;o se torna ainda mais comum em casos de epis&oacute;dios traum&aacute;ticos. &ldquo;Por vezes, isso dificulta a fixa&ccedil;&atilde;o da mem&oacute;ria. Ent&atilde;o, voc&ecirc; n&atilde;o pode cobrar uma fidedignidade muito grande passado todo esse tempo, at&eacute; pensando no car&aacute;ter traum&aacute;tico e violento do evento&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr&aacute;tica, &eacute; dif&iacute;cil conciliar aquilo que o mundo jur&iacute;dico exige &ndash; uma narrativa linear, cronol&oacute;gica, correta &ndash; com o modo pelo qual a mem&oacute;ria opera. &ldquo;Um exemplo cl&aacute;ssico disso &eacute; o sonho. Na maioria das vezes, voc&ecirc; n&atilde;o consegue contar um sonho como uma hist&oacute;ria. Essa &eacute; uma necessidade que a gente tem para conseguir se comunicar. Mas tem um limite da pr&oacute;pria condi&ccedil;&atilde;o humana e da nossa viv&ecirc;ncia, das coisas que n&atilde;o seguem uma cronologia, que o direito n&atilde;o acessa mesmo, por essa necessidade da verdade como ela &eacute;, como um fato puro&rdquo;, completou.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante de todas essas an&aacute;lises e reflex&otilde;es, algumas d&uacute;vidas permanecem: o que levou os sobreviventes a mudarem tanto os depoimentos nos j&uacute;ris? Aconteceu algo nos bastidores? A press&atilde;o que eles sofreram durante toda a inf&acirc;ncia os acompanhou at&eacute; a idade adulta?<\/p>\n\n\n\n<p>Provavelmente essas perguntas jamais ser&atilde;o respondidas com exatid&atilde;o. Mas o resultado &eacute; claro: o impacto nos j&uacute;ris foi t&atilde;o grande que Amailton, Carlos Alberto, An&iacute;sio e C&eacute;sio foram condenados. A tese da acusa&ccedil;&atilde;o funcionou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ainda faltava um julgamento, o mais esperado de todos. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/valentina-de-andrade\/\" target=\"_self\" title=\"L&iacute;der do Lineamento Universal Superior\" class=\"encyclopedia\">Valentina de Andrade<\/a> finalmente sentaria no banco dos r&eacute;us em 19 de novembro de 2003, quase dois meses depois de C&eacute;sio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>TABELA COMPARATIVA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para facilitar a compreens&atilde;o de tudo o que foi discutido neste epis&oacute;dio, Ivan Mizanzuk criou uma tabela que detalha as semelhan&ccedil;as e diferen&ccedil;as entre os relatos dos sobreviventes. Confira abaixo:<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/docs.google.com\/spreadsheets\/d\/1UD6cnHUBm9Vp39eHDPE6CFCswQVCGoIdor9ezwjnmf4\/edit#gid=1755059795\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Tabela comparativa dos depoimentos<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><em>*Este epis&oacute;dio usou reportagens da Rede Globo.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os Relatos<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":35,"template":"","encyclopedia-category":[6],"encyclopedia-tag":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia\/686"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/types\/encyclopedia"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=686"}],"wp:term":[{"taxonomy":"encyclopedia-category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-category?post=686"},{"taxonomy":"encyclopedia-tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-tag?post=686"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}