{"id":405,"date":"2022-06-16T00:01:00","date_gmt":"2022-06-16T03:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/?post_type=encyclopedia&#038;p=405"},"modified":"2022-06-15T05:30:44","modified_gmt":"2022-06-15T08:30:44","slug":"extras-episodio-11","status":"publish","type":"encyclopedia","link":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-11\/","title":{"rendered":"Extras Epis\u00f3dio 11"},"content":{"rendered":"\n<p>Os mandados de pris&atilde;o tempor&aacute;ria contra <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/cesio-flavio-caldas-brandao\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico reconhecido por Agostinho como suspeito na morte de Jaenes\" class=\"encyclopedia\">C&eacute;sio Fl&aacute;vio Caldas Brand&atilde;o<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/anisio-ferreira-de-souza\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico acusado no caso dos meninos emasculados\" class=\"encyclopedia\">An&iacute;sio Ferreira de Souza<\/a> e Carlos Alberto dos Santos foram emitidos pela ju&iacute;za <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/elisabete-pereira-de-lima\/\" target=\"_self\" title=\"Ju&iacute;za designada para atuar em Altamira em julho de 1993\" class=\"encyclopedia\">Elisabete Pereira de Lima<\/a> em 07 de julho de 1993. Eles foram detidos poucos dias depois e levados &agrave; Bel&eacute;m, capital do Par&aacute;, para serem interrogados, acareados e reconhecidos por testemunhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto divulgava not&iacute;cias sobre o caso, a m&iacute;dia do Par&aacute; notou alguns estranhos eventos que passaram a acontecer em Altamira. Uma reportagem do jornal A Prov&iacute;ncia do Par&aacute;, de 15 de julho de 1993, dizia o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Estranhamente, todos os jornais que est&atilde;o chegando ao munic&iacute;pio de Altamira com not&iacute;cias a respeito dos m&eacute;dicos C&eacute;sio Brand&atilde;o e An&iacute;sio Ferreira, acusados de participa&ccedil;&atilde;o nas mortes e emascula&ccedil;&otilde;es de crian&ccedil;as de 10 a 13 anos, est&atilde;o sendo comprados no aeroporto, por uma s&oacute; pessoa, e destru&iacute;dos, n&atilde;o sendo permitido que a popula&ccedil;&atilde;o tome conhecimento do fato. Mais estranho ainda &eacute;: as r&aacute;dios e os canais de televis&atilde;o estarem saindo do ar no momento em que se inicia o notici&aacute;rio que fala a respeito do assunto. Tudo isso est&aacute; levando a Pol&iacute;cia Federal a fazer investiga&ccedil;&otilde;es, &ldquo;pois a impress&atilde;o que se tem &eacute; que algu&eacute;m muito poderoso est&aacute; tentando esconder a not&iacute;cia&rdquo;, segundo declara&ccedil;&otilde;es dadas ontem pelo delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a>, da Divis&atilde;o de Ordem Pol&iacute;tica Social.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/06\/Materia-Jornal-A-Provincia-do-Para-15-07-93-2.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mat&eacute;ria do jornal A Prov&iacute;ncia do Par&aacute; &ndash; &ldquo;Jornais s&atilde;o destru&iacute;dos em Altamira&rdquo;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O clima na cidade era t&atilde;o complicado que a pr&oacute;pria ju&iacute;za Elisabete se manifestou no processo, citando os misteriosos epis&oacute;dios que assolavam os altamirenses: os jornais comprados por uma s&oacute; pessoa, as emissoras de r&aacute;dio e TV saindo do ar na hora do notici&aacute;rio e a viola&ccedil;&atilde;o de uma correspond&ecirc;ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a magistrada, em certa ocasi&atilde;o, uma carta enviada a ela pelo Tribunal de Justi&ccedil;a do Estado do Par&aacute; foi aberta por outra pessoa. O conte&uacute;do se referia ao julgamento de um habeas corpus em favor de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/amailton-madeira-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Filho de Amadeu Gomes, &eacute; um dos acusados no caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Amailton Madeira Gomes<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/06\/1993-07-21-Oficio-Juiza-Elisabete-falando-sobre-jornais-sumindo-em-Altamira.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Of&iacute;cio da ju&iacute;za Elisabete Pereira de Lima sobre o sumi&ccedil;o dos jornais<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/06\/1993-07-21-Oficio-Juiza-Elisabete-sobre-correspondencia-violada.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Of&iacute;cio da ju&iacute;za Elisabete sobre a correspond&ecirc;ncia violada<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/06\/1993-07-22-Oficio-Juiza-Elisabete-para-Desembargador-sobre-coisas-estranhas-ocorrendo-em-Altamira-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Of&iacute;cio da Ju&iacute;za Elisabete sobre os &ldquo;acontecimentos estranhos&rdquo;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O Projeto Humanos tentou checar as den&uacute;ncias sobre os apag&otilde;es e o controle do acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o em Altamira na &eacute;poca, mas nada de concreto foi encontrado. J&aacute; sobre o caso da correspond&ecirc;ncia, uma poss&iacute;vel explica&ccedil;&atilde;o foi levantada pelo advogado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-carlos-melem\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado de defesa de An&iacute;sio\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Carlos Mel&eacute;m<\/a>, que representou o doutor An&iacute;sio ap&oacute;s a pris&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Certo dia, Mel&eacute;m recebeu uma liga&ccedil;&atilde;o bastante curiosa de uma cliente, que era secret&aacute;ria da procuradora fiscal de Altamira. O pr&eacute;dio da Secretaria da Fazenda (SEFA), onde ela trabalhava, ficava ao lado do F&oacute;rum do munic&iacute;pio, parede com parede.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Eu vou ser presa pela Pol&iacute;cia Federal no caso dos emasculados&rdquo;, disse ela, incr&eacute;dula e preocupada. &ldquo;O que aconteceu?&rdquo;, quis saber Mel&eacute;m. A secret&aacute;ria ent&atilde;o explicou que o correio havia deixado uma correspond&ecirc;ncia na SEFA para a procuradora fiscal, chamada Elisabete Oliveira Pereira &ndash; nome bastante similar ao da ju&iacute;za de Altamira, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/elisabete-pereira-de-lima\/\" target=\"_self\" title=\"Ju&iacute;za designada para atuar em Altamira em julho de 1993\" class=\"encyclopedia\">Elisabete Pereira de Lima<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Estava escrito &lsquo;sigiloso&rsquo;. Eu n&atilde;o dei muita bola para isso, porque a carta possu&iacute;a o nome da procuradora e eu tinha autoriza&ccedil;&atilde;o para abri-la. Quando eu li, percebi que na verdade era um documento relacionado &agrave; investiga&ccedil;&atilde;o dos emasculados e encaminhado, na verdade, &agrave; ju&iacute;za Elisabete Pereira&rdquo;, esclareceu ela ao advogado.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim que notou o erro, a secret&aacute;ria levou a correspond&ecirc;ncia at&eacute; o F&oacute;rum e explicou o mal-entendido para a magistrada <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/vera-araujo-de-souza\/\" target=\"_self\" title=\"Ju&iacute;za da Comarca de Altamira\" class=\"encyclopedia\">Vera Ara&uacute;jo de Souza<\/a>. Mas de nada adiantou. A partir da&iacute;, segundo Mel&eacute;m, a servidora foi tida como suspeita de intermediar informa&ccedil;&otilde;es a fim de atrapalhar o andamento do processo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao saber de tudo aquilo, o advogado correu para defender a cliente. &ldquo;Eu fui &agrave; Bel&eacute;m, fiz um habeas corpus, pedi uma liminar e o juiz suspendeu a apura&ccedil;&atilde;o contra ela. Eu levei v&aacute;rios documentos da secret&aacute;ria, provando que ela tinha autoriza&ccedil;&atilde;o para abrir o documento, j&aacute; que se tratava de um destinat&aacute;rio hom&ocirc;nimo. Assim, a justi&ccedil;a mandou arquivar o caso contra ela&rdquo;, relatou Mel&eacute;m em entrevista ao podcast.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de parecer uma explica&ccedil;&atilde;o razo&aacute;vel, n&atilde;o h&aacute; qualquer men&ccedil;&atilde;o nos autos a um procedimento contra a servidora p&uacute;blica da SEFA. Em meio ao clima de que um grupo muito poderoso estaria manipulando as informa&ccedil;&otilde;es sobre os crimes, as defesas dos suspeitos aparentemente n&atilde;o se preocuparam em contra-argumentar nada disso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>RECONSTITUI&Ccedil;&Atilde;O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; nesse clima de paranoia que, em 27 de julho de 1993, a pol&iacute;cia faz uma reconstitui&ccedil;&atilde;o do testemunho de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/agostinho-jose-da-costa\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha-chave que liga C&eacute;sio e Amailton ao crime contra Jaenes\" class=\"encyclopedia\">Agostinho Jos&eacute; da Costa<\/a>. Por meio das fotos presentes no laudo da per&iacute;cia, &eacute; poss&iacute;vel notar que o lavrador teria passado a menos de dois metros de dist&acirc;ncia do homem com o fac&atilde;o &ndash; que ele dizia ser o m&eacute;dico C&eacute;sio. Nas imagens, a testemunha usa uma balaclava que cobre o seu rosto, com o objetivo de proteger a sua identidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A fotografia de n&uacute;mero nove simula o encontro que Agostinho teve com um rapaz sentado &agrave; beira da estrada, segurando um cavalo. De acordo com ele, essa pessoa seria Amailton. A dist&acirc;ncia entre os dois n&atilde;o &eacute; especificada no laudo, mas tamb&eacute;m n&atilde;o parece ser muito longe.<\/p>\n\n\n\n<p>Na d&eacute;cima e &uacute;ltima imagem, h&aacute; <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/juarez-gomes-pessoa\/\" target=\"_self\" title=\"Pai de Jaenes da Silva Pessoa\" class=\"encyclopedia\">Juarez Gomes Pessoa<\/a>, pai de Jaenes, a v&iacute;tima relacionada ao relato de Agostinho. Ele aponta para uma pessoa deitada no ch&atilde;o, provavelmente um policial que ajudava na reconstitui&ccedil;&atilde;o. Aquele seria o local onde o menino havia sido encontrado morto.<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m das fotografias, o laudo possui um croqui, uma esp&eacute;cie de mapa que detalha a &aacute;rea e as etapas da simula&ccedil;&atilde;o realizada com Agostinho. Algo curioso &eacute; que essa ilustra&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tem escala &ndash; ou seja, n&atilde;o h&aacute; como saber com precis&atilde;o quais as dist&acirc;ncias reais entre os pontos sinalizados por ela. A impress&atilde;o que o desenho passa &eacute; que tudo ocorreu muito perto, diferente do pr&oacute;prio relato de Agostinho, que dizia ter visto Amailton um quil&ocirc;metro depois do encontro com C&eacute;sio.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer forma, o depoimento do lavrador sempre foi muito convincente para as autoridades. Prova disso &eacute; a conclus&atilde;o do perito Raimundo Nonato da Silva Pinto presente no laudo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>(&hellip;) [Os peritos] concluem ainda que, em todos os momentos da narra&ccedil;&atilde;o dos fatos para os presentes, a testemunha sempre foi precisa em suas informa&ccedil;&otilde;es, mesmo nos momentos que citou os nomes dos Srs. C&eacute;sio e Amailton, e possui uma observa&ccedil;&atilde;o bastante eficaz.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/06\/1993-07-27-Reconstituicao-Agostinho-2.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Laudo da reconstitui&ccedil;&atilde;o do relato de Agostinho Jos&eacute; da Costa<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte &agrave; reconstitui&ccedil;&atilde;o, 28 de julho de 1993, uma nova testemunha prestou depoimento no inqu&eacute;rito de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a>: o cabo do ex&eacute;rcito <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/antonio-delmiro\/\" target=\"_self\" title=\"Cabo do Ex&eacute;rcito que acompanhou Agostinho nas buscas por Jaenes\" class=\"encyclopedia\">Ant&ocirc;nio Delmiro<\/a>, que participou das buscas por Jaenes e estava pr&oacute;ximo do local onde o corpo do menino foi encontrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Delmiro relatou que, em 02 de outubro de 1992, um dia ap&oacute;s o desaparecimento do garoto, ele vasculhava diversos pontos da Transamaz&ocirc;nica quando encontrou Agostinho. Os dois come&ccedil;aram a conversar sobre Jaenes e o lavrador contou que no dia anterior tinha visto um homem saindo do mato com um fac&atilde;o, em atitude bastante suspeita. Ao notar a presen&ccedil;a do idoso, o desconhecido passou a cortar alguns galhos de &aacute;rvores, como se estivesse tentando disfar&ccedil;ar algo.<\/p>\n\n\n\n<p>O cabo, ent&atilde;o, pediu para que o idoso o levasse at&eacute; o lugar onde aquilo tinha acontecido, o que foi feito. L&aacute;, Delmiro notou os tais galhos, detalhe que corroborava com a hist&oacute;ria de Agostinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, o cabo n&atilde;o deu muita import&acirc;ncia para o relato do lavrador, pois, segundo ele, procurava por uma crian&ccedil;a e n&atilde;o por um homem. Por&eacute;m, no dia das elei&ccedil;&otilde;es, 03 de outubro, ele voltou &agrave; Transamaz&ocirc;nica junto com alguns colegas para continuar com as buscas. Ao chegar no local apontado por Agostinho, ele determinou que a equipe realizasse um pente-fino por ali. Em determinado momento, alguns cachorros come&ccedil;aram a latir naquela dire&ccedil;&atilde;o e um homem gritou l&aacute; de dentro do mato: &ldquo;est&aacute; aqui, encontrei&rdquo;. O cabo seguiu por cerca de 100 metros rumo ao local de onde o aviso tinha vindo e se deparou com o corpo do menino ca&iacute;do ao solo.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o depoimento, Delmiro tamb&eacute;m esclareceu que j&aacute; conhecia Agostinho h&aacute; mais de 10 anos e o considerava uma pessoa l&uacute;cida e normal. Essa resposta do depoente, dada a uma pergunta do promotor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/sergio-tiburcio-dos-santos-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Promotor designado para atuar em Altamira em junho de 1993\" class=\"encyclopedia\">S&eacute;rgio Tib&uacute;rcio dos Santos Silva<\/a>, seria relevante no processo. Isso porque, futuramente, boa parte das tentativas das defesas em tentar desqualificar o lavrador teria a idade como principal fator.<\/p>\n\n\n\n<p>Na &eacute;poca, Agostinho tinha 70 anos de idade. Por isso, os representantes dos suspeitos alegavam que a vis&atilde;o dele n&atilde;o seria confi&aacute;vel. Al&eacute;m disso, era de conhecimento p&uacute;blico que o idoso j&aacute; teria sofrido pelo menos dois epis&oacute;dios de AVC &ndash; o que, segundo a defesa, poderia comprometer permanentemente as percep&ccedil;&otilde;es sensoriais.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/06\/1993-07-28-Antonio-Delmiro-Silva-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Ant&ocirc;nio Delmiro<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que o lavrador fosse considerado a testemunha mais forte do processo, algumas estranhezas rondam o seu relato, assim como o de Delmiro. A demora para ambos aparecerem no processo, por exemplo, &eacute; uma delas. Afinal, se a hist&oacute;ria &eacute; verdadeira, por que eles levaram tanto tempo para contar tudo &agrave; pol&iacute;cia? Por que j&aacute; n&atilde;o prestaram depoimento ao delegado da &eacute;poca, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/brivaldo-pinto-soares-filho\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado respons&aacute;vel pelo inqu&eacute;rito de Jaenes em outubro de 1992\" class=\"encyclopedia\">Brivaldo Pinto Soares Filho<\/a>, o investigador que tinha Amailton como o principal suspeito? Por que Delmiro, no primeiro encontro com Agostinho, n&atilde;o entrou no matagal de onde o homem com o fac&atilde;o tinha sa&iacute;do?<\/p>\n\n\n\n<p>Essas s&atilde;o perguntas que jamais foram esclarecidas, pois o lavrador j&aacute; &eacute; falecido e Delmiro, apesar de ter sido procurado pelo podcast, nunca retornou o contato. Pessoas pr&oacute;ximas informaram que ele n&atilde;o fala sobre o caso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&Aacute;LIBIS DE C&Eacute;SIO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No in&iacute;cio de agosto de 1993, a investiga&ccedil;&atilde;o de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a> se encaminhava para o fim. Eis ent&atilde;o que, anexado aos autos do processo, surgem declara&ccedil;&otilde;es feitas em cart&oacute;rio de pessoas que nunca haviam se manifestado nos autos: cinco testemunhas que refor&ccedil;am os &aacute;libis do m&eacute;dico <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/cesio-flavio-caldas-brandao\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico reconhecido por Agostinho como suspeito na morte de Jaenes\" class=\"encyclopedia\">C&eacute;sio Fl&aacute;vio Caldas Brand&atilde;o<\/a>. Essas escrituras s&atilde;o datadas de 06 de agosto de 1993, mas s&oacute; foram juntadas ao processo em 18 de outubro do mesmo ano.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro termo de declara&ccedil;&otilde;es possui os relatos de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rita-evangelina-anchieta-pereira\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que confirma &aacute;libi de C&eacute;sio\" class=\"encyclopedia\">Rita Evangelina Anchieta Pereira<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/maria-suany-silva-de-souza\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que confirma &aacute;libi de C&eacute;sio\" class=\"encyclopedia\">Maria Suany Silva de Souza<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francinelia-de-paula\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que confirma &aacute;libi de C&eacute;sio\" class=\"encyclopedia\">Francinelia de Paula<\/a>. Todas eram funcion&aacute;rias do Centro Educacional Anchieta, escola em que Marcelo, um dos filhos de C&eacute;sio, estudava. Na &eacute;poca, ele tinha cinco anos e estava no Jardim 2.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As tr&ecirc;s explicaram que o m&eacute;dico era amigo de um homem chamado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/paulo-eduardo-feitosa-pereira\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que confirma &aacute;libi de C&eacute;sio\" class=\"encyclopedia\">Paulo Eduardo Feitosa Pereira<\/a>, que tinha uma filha de nove anos, estudante da mesma escola. As duas crian&ccedil;as, Marcelo e Magda, tinham hor&aacute;rios parecidos e sa&iacute;am da aula &agrave;s 11h30.<\/p>\n\n\n\n<p>O testemunho delas &eacute; importante porque confronta diretamente o depoimento de Agostinho, que afirmava ter visto C&eacute;sio saindo do mato entre 11h30 e meio-dia de uma quinta-feira &ndash; dia primeiro de outubro de 1992.<\/p>\n\n\n\n<p>As funcion&aacute;rias alegavam que o m&eacute;dico e o amigo estabeleceram um acordo para buscar as crian&ccedil;as:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Os menores eram trazidos e levados da escola pelos seus pais, seguindo um revezamento na seguinte ordem: Segunda, quartas e sextas, pelo Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/paulo-eduardo-feitosa-pereira\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que confirma &aacute;libi de C&eacute;sio\" class=\"encyclopedia\">Paulo Eduardo Feitosa Pereira<\/a>. Nas ter&ccedil;as e quintas-feiras, pelo Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/cesio-flavio-caldas-brandao\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico reconhecido por Agostinho como suspeito na morte de Jaenes\" class=\"encyclopedia\">C&eacute;sio Fl&aacute;vio Caldas Brand&atilde;o<\/a>, em cumprimento ao acordo feito com a dire&ccedil;&atilde;o do estabelecimento de ensino. Que, na semana letiva que antecedeu as elei&ccedil;&otilde;es de 3 de Outubro de 1992, quem ficou encarregado de levar e trazer os menores foi o Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/cesio-flavio-caldas-brandao\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico reconhecido por Agostinho como suspeito na morte de Jaenes\" class=\"encyclopedia\">C&eacute;sio Fl&aacute;vio Caldas Brand&atilde;o<\/a>, devido os afazeres pol&iacute;ticos do Dr. <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/paulo-eduardo-feitosa-pereira\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que confirma &aacute;libi de C&eacute;sio\" class=\"encyclopedia\">Paulo Eduardo Feitosa Pereira<\/a>, fato comunicado na &eacute;poca &agrave; dire&ccedil;&atilde;o do estabelecimento.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Paulo tamb&eacute;m d&aacute; declara&ccedil;&atilde;o em cart&oacute;rio a favor de C&eacute;sio, confirmando o testemunho das funcion&aacute;rias. Ele ainda conta que, naquela elei&ccedil;&atilde;o, concorreu ao cargo de vereador e acabou sendo eleito.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/06\/1993-08-06-Escritura-Publica-de-Declaracao-2-Rita-Evangelina-Anchieta-Pereira-Maria-Suany-Silva-de-Souza-Francinelia-de-Paula-juntada-em-18-10-1993-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Escritura p&uacute;blica de Rita, Maria e Francinelia <\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/06\/1993-08-06-Escritura-Publica-de-Declaracao-3-Paulo-Eduardo-Feitosa-Pereira-juntada-em-18-10-1993-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Escritura p&uacute;blica de Paulo Eduardo Feitosa Pereira<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A quinta testemunha que aparece para confirmar o &aacute;libi do m&eacute;dico &eacute; <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/gracinda-lima-magalhaes\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que confirma &aacute;libi de C&eacute;sio\" class=\"encyclopedia\">Gracinda Lima Magalh&atilde;es<\/a>. O relato dela &eacute; forte n&atilde;o apenas pelo conte&uacute;do, mas tamb&eacute;m pelo prest&iacute;gio que tinha na cidade: Gracinda era uma das figuras mais respeitadas do Movimento das Mulheres Trabalhadoras de Altamira, prestando assist&ecirc;ncia principalmente a pessoas que precisavam de atendimento m&eacute;dico.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas elei&ccedil;&otilde;es de 1992, ela trabalhava na campanha para prefeito do candidato <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/domingos-juvenil\/\" target=\"_self\" title=\"Deputado e amigo de An&iacute;sio Ferreira de Souza\" class=\"encyclopedia\">Domingos Juvenil<\/a>, que n&atilde;o chegou a ser eleito no per&iacute;odo. Na quarta-feira, 30 de setembro, Gracinda come&ccedil;ou a sentir fadiga e mal-estar na regi&atilde;o do &uacute;tero. Por conta disso, n&atilde;o conseguiu comparecer ao com&iacute;cio de encerramento da campanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Na noite deste mesmo dia, ela foi &agrave; casa de Domingos para juntos assistirem ao hor&aacute;rio eleitoral gratuito. L&aacute;, percebeu que estava com hemorragia uterina e pediu para outras pessoas presentes que a levassem para casa. Tomou, ent&atilde;o, rem&eacute;dios e fez compressas com a ajuda de vizinhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na manh&atilde; de quinta-feira, Gracinda continuava se sentindo fraca e indisposta. Por isso, decidiu n&atilde;o ir ao comit&ecirc; eleitoral, como sempre fazia, e preferiu atender algumas pessoas em casa. Mas o mal-estar n&atilde;o passava. &Agrave;s 9h, a trabalhadora finalmente foi levada ao Hospital da Funda&ccedil;&atilde;o Nacional da Sa&uacute;de, onde C&eacute;sio exercia a fun&ccedil;&atilde;o de diretor.<\/p>\n\n\n\n<p>No local, Gracinda pediu para ser atendida por uma m&eacute;dica com quem tinha amizade. Como ela n&atilde;o estava, solicitou a ajuda de C&eacute;sio &ndash; que, naquele momento, encontrava-se ocupado, no meio de uma cirurgia. Por volta das 9h40, ap&oacute;s cerca de 20 minutos de espera, o m&eacute;dico chegou e a paciente explicou a sua situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>C&eacute;sio, ent&atilde;o, encaminhou Gracinda para a &aacute;rea de emerg&ecirc;ncia, para que tomasse uma inje&ccedil;&atilde;o. Como o setor estava congestionado, ela precisou aguardar aproximadamente meia hora para receber o medicamento. Enquanto isso, o m&eacute;dico atendia outros pacientes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao terminar as consultas, C&eacute;sio voltou a examinar Gracinda, que estava repousando, em observa&ccedil;&atilde;o. Ele passou bastante tempo com ela, explicando o diagn&oacute;stico. Por fim, &agrave;s 11h30, o m&eacute;dico disse que j&aacute; estava de sa&iacute;da e lhe receitou alguns medicamentos, al&eacute;m de cuidado e descanso.<\/p>\n\n\n\n<p>Gracinda comentou que pretendia buscar os rem&eacute;dios na Secretaria de Estado da Sa&uacute;de (Sespa), onde trabalhava, e o doutor C&eacute;sio lhe ofereceu uma carona at&eacute; l&aacute;. A paciente aceitou e saiu com o m&eacute;dico em um ve&iacute;culo Gol branco. De acordo com o relato, a testemunha foi deixada na Sespa pouco antes das 11h45.<\/p>\n\n\n\n<p>Na declara&ccedil;&atilde;o em cart&oacute;rio, Gracinda tamb&eacute;m afirma que j&aacute; havia discutido publicamente com C&eacute;sio durante reuni&otilde;es no Conselho Municipal de Sa&uacute;de, devido &agrave; atua&ccedil;&atilde;o dela no grupo das mulheres. Apesar disso, e de n&atilde;o ter qualquer v&iacute;nculo de amizade com ele, a servidora sempre o considerou um m&eacute;dico competente, atencioso e cordial.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/06\/1993-08-06-Escritura-Publica-de-Declaracao-1-Gracinda-Lima-Magalhaes-juntada-em-18-10-1993-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Escritura p&uacute;blica de Gracinda Lima Magalh&atilde;es<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Por ser uma importante testemunha de defesa para C&eacute;sio, Gracinda d&aacute; outros depoimentos no processo. Um deles, durante a fase de ju&iacute;zo, ocorre em 13 de dezembro de 1993 perante o juiz <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-orlando-de-paula-arrifano\/\" target=\"_self\" title=\"Magistrado que ouve testemunhas durante a fase em ju&iacute;zo\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Orlando de Paula Arrifano<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Na ocasi&atilde;o, ela foi questionada sobre o que sabia acerca do doutor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/anisio-ferreira-de-souza\/\" target=\"_self\" title=\"M&eacute;dico acusado no caso dos meninos emasculados\" class=\"encyclopedia\">An&iacute;sio Ferreira de Souza<\/a>. A testemunha respondeu que, como membro do Movimento de Mulheres, muito tinha lutado contra a esteriliza&ccedil;&atilde;o feminina no munic&iacute;pio, que teria An&iacute;sio como um dos m&eacute;dicos respons&aacute;veis &ndash; tema j&aacute; aprofundado no epis&oacute;dio 09 do podcast.<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m disso, Gracinda tamb&eacute;m explicou que n&atilde;o fez nenhum registro no hospital e no Centro Regional de Sa&uacute;de do atendimento que recebeu de C&eacute;sio no dia primeiro de outubro. O motivo, segundo ela, era que tratava-se do seu local de trabalho e que s&oacute; foi at&eacute; l&aacute; para receber uma caixa de medicamento ministrado pelo m&eacute;dico.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/06\/1993-12-13-Depoimento-em-Juizo-Gracinda-Lima-Magalhaes-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Gracinda em ju&iacute;zo<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O que se entende a partir dessa informa&ccedil;&atilde;o &eacute; o seguinte: Gracinda era uma servidora p&uacute;blica estadual, que atuava na &aacute;rea da sa&uacute;de, bastante conhecida no meio m&eacute;dico. Devido a esse tr&acirc;nsito constante, uma consulta como a que teve com o doutor C&eacute;sio teria sido conduzida quase que informalmente, sem necessidade de registro. Esse n&atilde;o seria o caminho ideal, mas tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; algo incomum ou dif&iacute;cil de acreditar.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dessa aus&ecirc;ncia, n&atilde;o h&aacute; nos autos nenhuma acusa&ccedil;&atilde;o de que a testemunha estaria mentindo, ou uma den&uacute;ncia de que ela faria parte da seita. A impress&atilde;o &eacute; que, diante da reputa&ccedil;&atilde;o e prest&iacute;gio de Gracinda, o Minist&eacute;rio P&uacute;blico sempre ignorou ou evitou abordar o relato dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Se, por um lado, Agostinho &eacute; uma testemunha forte na acusa&ccedil;&atilde;o contra C&eacute;sio, para a defesa, o relato da servidora tamb&eacute;m &eacute; bastante cr&iacute;vel. E, diferente do lavrador, que demorou meses para falar, Gracinda fez a declara&ccedil;&atilde;o em cart&oacute;rio pouco tempo ap&oacute;s a pris&atilde;o de C&eacute;sio, e sem <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a> t&ecirc;-la chamado. N&atilde;o apenas isso: ela era uma figura respeitava, que criticava ambos os m&eacute;dicos suspeitos por motivos referentes &agrave; milit&acirc;ncia no grupo de mulheres &ndash; um dos movimentos sociais mais envolvidos na luta pela resolu&ccedil;&atilde;o dos crimes contra os meninos.<\/p>\n\n\n\n<p>Justamente esse detalhe chama a aten&ccedil;&atilde;o na hist&oacute;ria de Gracinda. Afinal, enquanto as fam&iacute;lias das v&iacute;timas acreditavam no andamento das investiga&ccedil;&otilde;es, a servidora seguiu para o lado da defesa. De acordo com a ativista <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/maria-ivonete-coutinho-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Professora e ativista\" class=\"encyclopedia\">Maria Ivonete Coutinho da Silva<\/a>, mais conhecida como Professora Netinha, essa situa&ccedil;&atilde;o gerou um mal-estar entre as integrantes do grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Isso esfriou o movimento. Porque a gente queria justi&ccedil;a, mas n&atilde;o podia dizer que eram as pessoas&hellip; Fora o Amailton e os policiais. Esses sim estavam no &acirc;mbito de que poderiam ser. A pris&atilde;o do C&eacute;sio, para n&oacute;s, foi uma surpresa, pois n&atilde;o havia ind&iacute;cios fortes sobre os quais poder&iacute;amos dizer: &lsquo;est&aacute; vendo? Ele foi pego em flagrante, aconteceu isso e aquilo&rsquo;&rdquo;, disse ela em entrevista ao Projeto Humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a professora, Gracinda nunca teria falado diretamente com as mulheres do movimento sobre o &aacute;libi de C&eacute;sio. &ldquo;Ela n&atilde;o chegou a encarar a gente e dizer: &lsquo;bora<em> <\/em>ver melhor [a situa&ccedil;&atilde;o] e tudo&rsquo;. N&atilde;o teve isso&rdquo;, completou.<\/p>\n\n\n\n<p>A ativista tamb&eacute;m fez quest&atilde;o de reiterar que ningu&eacute;m do movimento se manifestou acerca do doutor C&eacute;sio. &ldquo;Nem a favor e nem contra. Se eu soubesse que o cara esquartejou os meus meninos, eu iria para o julgamento com raiva, com indigna&ccedil;&atilde;o. E n&oacute;s n&atilde;o fomos para o j&uacute;ri do C&eacute;sio com esse sentimento. Eu sempre pensei: &lsquo;n&oacute;s queremos justi&ccedil;a. Se &eacute; ele&hellip; Voc&ecirc;s est&atilde;o dizendo que &eacute; ele [o culpado]&rsquo;&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa frase &eacute; sempre muito repetida por integrantes dos movimentos sociais da &eacute;poca: &ldquo;n&oacute;s s&oacute; lutamos por justi&ccedil;a. N&atilde;o fomos n&oacute;s quem acusamos ou prendemos aquelas pessoas&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>A declara&ccedil;&atilde;o mostra a credibilidade que a Pol&iacute;cia Federal (PF) tinha para os familiares das v&iacute;timas. Estranhamente, no entanto, n&atilde;o &eacute; isso que aparece nos autos ou em reportagens da imprensa. Esses documentos geralmente citam o delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a> como o respons&aacute;vel pela resolu&ccedil;&atilde;o do caso.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a pesquisadora <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/paula-mendes-lacerda\/\" target=\"_self\" title=\"Antrop&oacute;loga e pesquisadora do caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Paula Mendes Lacerda<\/a>, a complexidade dessa contradi&ccedil;&atilde;o envolve pelo menos dois pontos: uma certa &ldquo;aura&rdquo; sobre o delegado, hoje visto como um dos principais pol&iacute;ticos do Par&aacute;, e o modo como as fam&iacute;lias foram tratadas pela PF.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;O fato de a Pol&iacute;cia Federal ser reconhecida como a grande transforma&ccedil;&atilde;o no processo e no rumo das investiga&ccedil;&otilde;es tem a ver precisamente com os agentes terem come&ccedil;ado os trabalhos a partir da narrativa dos familiares. Ent&atilde;o, foi o oposto ao que o delegado Brivaldo ou outras autoridades tinham feito. As fam&iacute;lias deixaram de ser antagonistas e suspeitas pela morte dos filhos e passaram a ser informantes&rdquo;, afirmou a pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Como j&aacute; mencionado anteriormente, pelos autos, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel saber exatamente o que a PF fez durante as investiga&ccedil;&otilde;es em Altamira no ano de 1993. No entanto, fica claro que as dilig&ecirc;ncias conduzidas por <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a> foram realizadas com base no trabalho dos agentes federais. O resultado disso tudo &eacute; uma confus&atilde;o entre as vers&otilde;es das fam&iacute;lias, do processo e da imprensa. A realidade parece ser uma mistura dessas tr&ecirc;s fontes.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, vale apontar outro detalhe curioso sobre a reconstitui&ccedil;&atilde;o de Agostinho. O relat&oacute;rio elaborado pelo <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/instituicoes\/comite-em-defesa-das-criancas-altamirenses\/\" target=\"_self\" title=\"Grupo criado por familiares das v&iacute;timas para pedir por justi&ccedil;a\" class=\"encyclopedia\">Comit&ecirc; em Defesa da Vida das Crian&ccedil;as Altamirenses<\/a>, de 1996, diz que a PF trabalhou no caso entre maio e junho de 1993. Esse &eacute; praticamente o &uacute;nico registro nos autos sobre o assunto &ndash; um relato considerado confi&aacute;vel, uma vez que foi produzido pelos familiares atendidos de perto pelos policiais federais.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, o laudo de reconstitui&ccedil;&atilde;o de Agostinho, de 27 de julho de 1993, lista as pessoas que participaram do procedimento. Entre elas, quatro se destacam: Emanoel, Iracema, Edson e Cristo, todos agentes da Pol&iacute;cia Federal. Diferente da ju&iacute;za, do delegado e do promotor, eles n&atilde;o t&ecirc;m o sobrenome citado no documento.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso &eacute; estranho. A investiga&ccedil;&atilde;o, nesse momento, era da Pol&iacute;cia Civil. Segundo as fam&iacute;lias, a PF s&oacute; ficou em Altamira at&eacute; junho. Por que, ent&atilde;o, havia agentes federais na reconstitui&ccedil;&atilde;o? O que eles estavam fazendo l&aacute;? Ningu&eacute;m explica. As defesas tamb&eacute;m nunca questionaram esse detalhe.<\/p>\n\n\n\n<p>Reportagens da &eacute;poca afirmam que Agostinho estava sob prote&ccedil;&atilde;o da Pol&iacute;cia Federal, o que seria uma justificativa. Ainda assim, isso n&atilde;o &eacute; expl&iacute;cito no processo.<\/p>\n\n\n\n<p>A investiga&ccedil;&atilde;o de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a> terminou no in&iacute;cio de agosto de 1993. O processo voltaria a avan&ccedil;ar no m&ecirc;s seguinte, em 06 de setembro, quando o Minist&eacute;rio P&uacute;blico (MP) faz um aditamento &agrave; den&uacute;ncia &ndash; que, originalmente, era apenas contra <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/amailton-madeira-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Filho de Amadeu Gomes, &eacute; um dos acusados no caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Amailton Madeira Gomes<\/a>. O complemento foi resultado do trabalho da PF e do delegado.<\/p>\n\n\n\n<p>Dos suspeitos apontados, Amailton estava preso desde novembro de 1992; enquanto Carlos Alberto, An&iacute;sio e C&eacute;sio, haviam sido detidos em julho de 1993. J&aacute; <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-amadeu-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Rico fazendeiro de Altamira, pai de Amailton Gomes\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Amadeu Gomes<\/a> permanecia em liberdade, assim como <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/valentina-de-andrade\/\" target=\"_self\" title=\"L&iacute;der do Lineamento Universal Superior\" class=\"encyclopedia\">Valentina de Andrade<\/a>, que sequer havia aparecido em Altamira para prestar esclarecimentos. O ex-PM <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/aldenor-ferreira-cardoso\/\" target=\"_self\" title=\"Ex-PM reconhecido por Wandicley como o seu sequestrador\" class=\"encyclopedia\">Aldenor Ferreira Cardoso<\/a>, como j&aacute; mencionado, nunca foi encontrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o aditamento, inicia-se uma nova fase de ju&iacute;zo, em que os depoimentos contam com a presen&ccedil;a dos advogados de defesa. &Eacute; neste momento que Carlos Alberto muda o seu relato, gerando novas d&uacute;vidas em torno do caso, o que ser&aacute; tratado em detalhes no pr&oacute;ximo epis&oacute;dio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Reconstitui\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":35,"template":"","encyclopedia-category":[6],"encyclopedia-tag":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia\/405"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/types\/encyclopedia"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=405"}],"wp:term":[{"taxonomy":"encyclopedia-category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-category?post=405"},{"taxonomy":"encyclopedia-tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-tag?post=405"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}