{"id":116,"date":"2022-04-21T00:01:00","date_gmt":"2022-04-21T03:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/?post_type=encyclopedia&#038;p=116"},"modified":"2022-04-27T10:06:16","modified_gmt":"2022-04-27T13:06:16","slug":"extras-episodio-03","status":"publish","type":"encyclopedia","link":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-03\/","title":{"rendered":"Extras Epis\u00f3dio 03"},"content":{"rendered":"\n<p>Em novembro de 2021, Ivan Mizanzuk viajou para Altamira com o pesquisador <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rubens-pena-junior\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado e antrop&oacute;logo\" class=\"encyclopedia\">Rubens Pena J&uacute;nior<\/a>. Ele passou cerca de duas semanas no munic&iacute;pio, tentando conversar com familiares das v&iacute;timas. Uma das pessoas que o recebeu foi <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/irene-nascimento\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; de Ailton Fonseca do Nascimento\" class=\"encyclopedia\">Irene Nascimento<\/a>, irm&atilde; do menino <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/ailton-fonseca-do-nascimento\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a desaparecida em maio de 1991 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Ailton Fonseca do Nascimento<\/a>, que desapareceu em 5 de maio de 1991, aos 10 anos de idade. A sua ossada s&oacute; foi encontrada 46 dias depois, em 20 de junho.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Irene, o corpo foi reconhecido a partir dos pertences pessoais que o menino carregava. &ldquo;Devido &agrave; roupa que ele usava e as coisas com as quais andava. A mesma roupinha que ele vestia quando saiu de casa foi encontrada no lugar da ossada. Uma baladeira, que ele gostava muito, tamb&eacute;m foi achada na &eacute;poca, al&eacute;m de um litro de Qboa cortado, usado para colocar pedra dentro&rdquo;, conta em entrevista ao podcast. Baladeira &eacute; o nome dado para estilingue na regi&atilde;o Norte do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap&oacute;s ser encontrada, a ossada foi enviada para a capital, Bel&eacute;m, para an&aacute;lise. O problema &eacute; que ela nunca mais voltou para a fam&iacute;lia. &ldquo;Disseram que ela se misturou com os ossos de outras pessoas, de outras crian&ccedil;as, e ficou por l&aacute;. N&oacute;s n&atilde;o enterramos o meu irm&atilde;o porque a pol&iacute;cia o levou para l&aacute;, n&atilde;o me lembro se foi a civil ou qual foi, e ele ficou por l&aacute; mesmo&rdquo;, diz Irene.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela relata que os pais fizeram de tudo para tentar resolver a situa&ccedil;&atilde;o, mas de nada adiantou. Essa &eacute; mais uma ferida aberta na vida nos familiares, que sequer puderam dar adeus &agrave; crian&ccedil;a. A m&atilde;e de Irene e Ailton faleceu h&aacute; 16 anos, sem nunca saber do paradeiro dos ossos do menino. &ldquo;Ela ficou muito triste, vivia abalada e sempre reclamava: &lsquo;meu filho morreu e eu n&atilde;o pude nem enterrar a ossada dele&rsquo;. Mas ela n&atilde;o podia fazer nada, n&eacute;? Eles falaram que tinham misturado e ficou por isso mesmo&rdquo;, completa a irm&atilde; da v&iacute;tima.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a entrevista, Irene se lembrou ainda de um novo e misterioso personagem: um homem que foi preso e morto em janeiro de 1992, antes da pol&iacute;cia investigar a fam&iacute;lia Gomes. &ldquo;Dizem que ele morreu inocente. Ele sempre aparecia aqui em casa, pois era muito amigo do finado meu irm&atilde;o. Era um senhor humilde, pedia comida e a minha fam&iacute;lia sempre dava. Era uma pessoa bacana, gente boa&rdquo;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rotilio-francisco-do-rosario\/\" target=\"_self\" title=\"Morador de rua preso em 1992 como suspeito no caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Rot&iacute;lio Francisco do Ros&aacute;rio<\/a> era o nome do morador de rua detido meses antes do delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/brivaldo-pinto-soares-filho\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado respons&aacute;vel pelo inqu&eacute;rito de Jaenes em outubro de 1992\" class=\"encyclopedia\">Brivaldo Pinto Soares Filho<\/a> chegar em Altamira. Ele aparece na mem&oacute;ria dos familiares dos meninos como mais uma v&iacute;tima das primeiras investiga&ccedil;&otilde;es do caso. Esse discurso, presente na declara&ccedil;&atilde;o de Irene, &eacute; amparado por nomes como <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rosa-maria-pessoa\/\" target=\"_self\" title=\"M&atilde;e de Jaenes da Silva Pessoa\" class=\"encyclopedia\">Rosa Maria Pessoa<\/a>, m&atilde;e de Jaenes, e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/amadeu-aabb\/\" target=\"_self\" title=\"Pai do Segundo Sobrevivente\" class=\"encyclopedia\">Amadeu (AABB)<\/a>, pai do <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/segundo-sobrevivente\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a que sobreviveu ap&oacute;s ser emasculada em 1989\" class=\"encyclopedia\">Segundo Sobrevivente<\/a> &ndash; seu sobrenome ser&aacute; ocultado para proteger a identidade do garoto.<\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista ao podcast, Amadeu tamb&eacute;m fala sobre Rot&iacute;lio. &ldquo;Aquilo foi queima de arquivo. Todo mundo sabia. A Pol&iacute;cia Civil fez um trabalho p&eacute;ssimo naquela &eacute;poca&rdquo;, comenta. Para ele, o ent&atilde;o suspeito foi preso como forma de ocultar o envolvimento dos poderosos nos crimes. Ele teria sido torturado e morto como queima de arquivo. Os autos do processo n&atilde;o ajudam a elucidar o que aconteceu com Rot&iacute;lio, apenas amparam a vers&atilde;o de que ele faleceu na delegacia. A causa da morte, bastante gen&eacute;rica, foi definida como &ldquo;edema agudo de pulm&atilde;o e insufici&ecirc;ncia card&iacute;aca&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; esse contexto que Brivaldo encontra quando chega em Altamira alguns meses depois: fam&iacute;lias com uma profunda desconfian&ccedil;a da pol&iacute;cia e medo de dar depoimento, pois poderiam ser incriminadas ou desacreditadas por serem pobres. Mas o que surgiu na mem&oacute;ria daqueles que Brivaldo conseguiu ouvir seria fundamental para o andamento do caso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>JUDIRLEY CHIPAIA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos depoimentos reveladores foi o de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/lucia-da-cunha-chipaia\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; de Judirley da Cunha Chipaia\" class=\"encyclopedia\">L&uacute;cia da Cunha Chipaia<\/a>, irm&atilde; do menino ind&iacute;gena <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/judirley-da-cunha-chipaia\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a emasculada e morta em janeiro de 1992 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Judirley da Cunha Chipaia<\/a>, datado de 20 de outubro de 1992. Ela estava junto com o garoto no dia do desaparecimento, em primeiro de janeiro do mesmo ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele dia, L&uacute;cia e a fam&iacute;lia foram at&eacute; uma ch&aacute;cara localizada na &aacute;rea de Cupi&uacute;ba para participar de uma confraterniza&ccedil;&atilde;o. Ap&oacute;s o almo&ccedil;o, por volta das 13h30, ela, Judirley e outros convidados sa&iacute;ram para tomar banho no igarap&eacute; da regi&atilde;o. Perto das 15h, parte do grupo retornou para a festa, enquanto o menino permaneceu no local com os demais. Quinze minutos depois, o garoto tamb&eacute;m deixou o igarap&eacute; e seguiu em dire&ccedil;&atilde;o ao s&iacute;tio, mas n&atilde;o apareceu mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Por volta das 17h, as pessoas perceberam a aus&ecirc;ncia de Judirley e passaram a procur&aacute;-lo pelos arredores da ch&aacute;cara. A fam&iacute;lia, no entanto, n&atilde;o se preocupou tanto pois imaginou que ele teria ido at&eacute; outra fazenda ali perto, pertencente ao anfitri&atilde;o da festa, junto com outra irm&atilde;, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/lineide-da-cunha-chipaia\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; de Judirley da Cunha Chipaia\" class=\"encyclopedia\">Lineide da Cunha Chipaia<\/a>. Em certo momento, ela retornou sozinha para a ch&aacute;cara, o que reacendeu o alerta dos familiares. Eles voltaram para casa, mas Judirley tamb&eacute;m n&atilde;o estava l&aacute;. Por isso, decidiram retomar as buscas perto do igarap&eacute; e da casa onde a festa havia ocorrido. A procura seguiu at&eacute; as 22h30, sem sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte, o pai do menino foi at&eacute; a delegacia para registrar o desaparecimento do filho. Os policiais, ent&atilde;o, fizeram buscas em hospitais da cidade e pr&oacute;ximo do local onde ele foi visto pela &uacute;ltima vez. A Pol&iacute;cia Militar tamb&eacute;m foi acionada e auxiliou nos trabalhos.<\/p>\n\n\n\n<p>J&aacute; no terceiro dia, L&uacute;cia Chipaia solicitou a ajuda do comandante do quartel do Ex&eacute;rcito, que se disp&ocirc;s a colaborar se ela providenciasse transporte para os soldados, o que s&oacute; foi poss&iacute;vel por volta das 13h. Eles chegaram na ponte sobre o igarap&eacute; Cupi&uacute;ba e l&aacute; se dividiram. O grupo que se dirigiu para o lado esquerdo conseguiu localizar o corpo do garoto em uma bifurca&ccedil;&atilde;o da estrada onde ficava a fazenda da empresa Dispam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um cunhado de L&uacute;cia, que acompanhava os soldados, informou que o cad&aacute;ver j&aacute; estava em estado de decomposi&ccedil;&atilde;o e apresentava vis&iacute;veis sinais de viol&ecirc;ncia. Algumas les&otilde;es, inclusive, pareciam ter sido produzidas por bala. O menino foi achado totalmente nu, com o cal&ccedil;&atilde;o que usava jogado ao lado do corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>L&uacute;cia s&oacute; viu o irm&atilde;o mais tarde, no Hospital da Funda&ccedil;&atilde;o Sesp, onde comprovou os ferimentos sofridos pela v&iacute;tima: sinais de golpes de faca, uma profunda les&atilde;o no &acirc;nus e a retirada total do p&ecirc;nis e dos test&iacute;culos.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois do sepultamento, familiares de Judirley foram chamados para depor. Na ocasi&atilde;o, outra irm&atilde; do garoto, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/lizandra-da-cunha-chipaia\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; de Judirley da Cunha Chipaia\" class=\"encyclopedia\">Lizandra da Cunha Chipaia<\/a>, contou &agrave; pol&iacute;cia ter visto uma caminhonete tipo Pampa ou Saveiro de cor vinho estacionada perto do igarap&eacute; &agrave;s 13h do dia em que o menino desapareceu. Com essas informa&ccedil;&otilde;es, o delegado respons&aacute;vel pelo caso na &eacute;poca comentou com L&uacute;cia que aquele ve&iacute;culo pertencia a <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-amadeu-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Rico fazendeiro de Altamira, pai de Amailton Gomes\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Amadeu Gomes<\/a>, mas era mais utilizado pelo filho dele, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/amailton-madeira-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Filho de Amadeu Gomes, &eacute; um dos acusados no caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Amailton Madeira Gomes<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda de acordo com ela, outra situa&ccedil;&atilde;o envolvendo o mesmo autom&oacute;vel chamou a aten&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia. Cerca de dois meses antes de Judirley desaparecer, outra irm&atilde; do garoto, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/lucilene-da-cunha-chipaia\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde; de Judirley da Cunha Chipaia\" class=\"encyclopedia\">Lucilene da Cunha Chipaia<\/a>, ouviu do vizinho uma hist&oacute;ria estranha. Ele lhe contou que uma vez foi abordado por Amailton, que estava em uma caminhonete Pampa ou Saveiro vinho, sob o pretexto de perguntar a localiza&ccedil;&atilde;o de uma pra&ccedil;a no bairro Bras&iacute;lia. Ele entrou no autom&oacute;vel e guiou o motorista at&eacute; o local desejado, momento em que o rapaz teria tentado lhe apalpar. Por perceber que Amailton era homossexual, o tal vizinho pediu que ele parasse o carro, pois, caso contr&aacute;rio, desceria dali de qualquer jeito.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dessas situa&ccedil;&otilde;es, o filho de Amadeu passou a ser considerado pelos familiares de Judirley como o principal suspeito do crime. A desconfian&ccedil;a aumentou ainda mais quando L&uacute;cia ficou sabendo que o jovem havia viajado para Fortaleza poucos dias ap&oacute;s a morte do menino, onde ficou por cerca de quatro meses.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o depoimento que prestou a Brivaldo, ela ainda comentou que as primeiras investiga&ccedil;&otilde;es sobre a morte do irm&atilde;o teriam resultado na identifica&ccedil;&atilde;o de alguns suspeitos. Ela tinha conhecimento, por exemplo, que Amailton Gomes e Luiz Kapiche eram nomes ventilados pela pol&iacute;cia. L&uacute;cia relatou que Amailton n&atilde;o apareceu na delegacia para ser interrogado e quem foi no lugar dele teria sido o advogado da fam&iacute;lia, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/arnaldo-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde;o de Jos&eacute; Amadeu Gomes\" class=\"encyclopedia\">Arnaldo Gomes<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A irm&atilde; da v&iacute;tima disse se lembrar que a pol&iacute;cia investigou a presen&ccedil;a da caminhonete Pampa ou Saveiro nas imedia&ccedil;&otilde;es de um campo de futebol pr&oacute;ximo ao igarap&eacute; Cupi&uacute;ba. O empregado de uma ch&aacute;cara ali perto teria confirmado que o autom&oacute;vel realmente estava estacionado no local no dia do crime contra Judirley, primeiro de janeiro, entre as 13h e 13h30.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/04\/1992-10-20-Depoimento-Lucia-da-Cunha-Chipaia-irma-Judirley-1-compactado.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de L&uacute;cia da Cunha Chipaia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>AMAILTON GOMES<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A partir do depoimento de L&uacute;cia, o delegado Brivaldo encontrou um novo suspeito: o filho do poderoso Amadeu, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/amailton-madeira-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Filho de Amadeu Gomes, &eacute; um dos acusados no caso dos emasculados\" class=\"encyclopedia\">Amailton Madeira Gomes<\/a>, de 23 anos de idade.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/rubens-pena-junior\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado e antrop&oacute;logo\" class=\"encyclopedia\">Rubens Pena J&uacute;nior<\/a>, pesquisador do caso dos emasculados, o que se sabe pelos autos &eacute; que Amailton n&atilde;o era bem visto na cidade. &ldquo;O que eles querem deixar claro no processo &eacute; que ele era meio doid&atilde;o, usu&aacute;rio de drogas. Inclusive, entre os documentos, existem fotos dele usando maconha. Eu acredito que ele era visto como um playboy, que tinha dinheiro e fazia o que queria. Eu conhe&ccedil;o uma pessoa que conviveu com o Amailton, que &eacute; minha amiga. O que ela me diz sempre &eacute; que ele era algu&eacute;m que gostava de beber, de fumar, de rock&hellip; Isso era estranho aos olhos da maioria da popula&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o tinha acesso a essas coisas&rdquo;, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>No inqu&eacute;rito original de Judirley, n&atilde;o h&aacute; registros da ida do advogado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/arnaldo-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde;o de Jos&eacute; Amadeu Gomes\" class=\"encyclopedia\">Arnaldo Gomes<\/a>, tio de Amailton, &agrave; delegacia. Talvez por isso, em 22 de outubro, dois dias ap&oacute;s o depoimento de L&uacute;cia, o delegado pediu para que Arnaldo fosse &agrave; delegacia prestar esclarecimentos. Por motivos que n&atilde;o constam nos autos, por&eacute;m, isso nunca aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre todos os elementos contra os Gomes, o caso de Amailton se destacava. De fato, a fam&iacute;lia tinha uma picape vinho, o que parecia corresponder com o relato de L&uacute;cia Chipaia e <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/josivaldo-aranha-da-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha amea&ccedil;ada no dia em que Judirley foi morto\" class=\"encyclopedia\">Josivaldo Aranha da Silva<\/a>. Esta &uacute;ltima testemunha relatou ter sido amea&ccedil;ada por tr&ecirc;s homens que estavam em um ve&iacute;culo como esse no dia e local em que o corpo de Judirley foi encontrado. Um deles teria falado para Josivaldo que o rapaz loiro do grupo, o aparente l&iacute;der, tinha uma propriedade perto do posto de gasolina dos Gomes &ndash; estabelecimento bastante frequentado por Amailton, do qual inclusive era s&oacute;cio junto com o pai.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas havia um detalhe que n&atilde;o se encaixava: o filho de Amadeu n&atilde;o era loiro. Apesar disso, os relatos em torno dele s&oacute; aumentavam as suspeitas. Exemplo disso &eacute; o depoimento de uma testemunha chamada <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-luiz-sobrinho\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que traz &agrave; tona elementos contra Amailton Madeira Gomes\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Luiz Sobrinho<\/a>, de 31 anos, dado ao delegado Brivaldo em 23 de outubro de 1992. Ele conta que se mudou para Altamira em 1974 e, pouco tempo depois, fez amizade com Amadeu e a esposa dele, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/zaila-madeira-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"M&atilde;e de Amailton Madeira Gomes\" class=\"encyclopedia\">Zaila Madeira Gomes<\/a>, m&atilde;e de Amailton.<\/p>\n\n\n\n<p>A testemunha diz ter ficado sabendo que em julho de 1991 Amailton saiu com um homem at&eacute; uma fazenda no quil&ocirc;metro 6 da Transamaz&ocirc;nica. No meio do caminho, o jovem teria parado o ve&iacute;culo e come&ccedil;ado a acariciar o &oacute;rg&atilde;o sexual do acompanhante, que estava no banco do carona. Segundo o relato, como o rapaz recusou o gesto, o filho de Amadeu sacou um rev&oacute;lver e obrigou o outro a abrir a sua cal&ccedil;a, passando a praticar sexo oral com ele &ndash; chamado no depoimento de &ldquo;fela&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui &eacute; necess&aacute;rio um esclarecimento. A sexualidade de Amailton &eacute; sempre muito comentada nesses primeiros depoimentos. Testemunhas diziam que ele tinha interesse por homens, mas que tamb&eacute;m j&aacute; havia namorado mulheres no passado. Apesar de ser chamado de homossexual com frequ&ecirc;ncia, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel afirmar com certeza qual a sua orienta&ccedil;&atilde;o. De qualquer forma, tudo indica que ele n&atilde;o era heterossexual.<\/p>\n\n\n\n<p>Al&eacute;m disso, &eacute; not&oacute;rio que existe uma estigmatiza&ccedil;&atilde;o: o homossexual man&iacute;aco que teria satisfa&ccedil;&atilde;o em castrar e abusar de garotos. Por se tratar de uma cidade no interior do Par&aacute; na d&eacute;cada de 90, n&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil supor que boa parte dos coment&aacute;rios vinha de boatos e de preconceito em torno de Amailton. Idealmente, &eacute; claro que a sua orienta&ccedil;&atilde;o sexual n&atilde;o deveria ter rela&ccedil;&atilde;o alguma com a investiga&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, s&atilde;o v&aacute;rias as hist&oacute;rias de que o jovem teria for&ccedil;ado homens a manter rela&ccedil;&otilde;es com ele. Um desses casos &eacute; relatado por <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/adijael-silva-feitosa\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que relata ter sido abusada por Amailton Madeira Gomes\" class=\"encyclopedia\">Adijael Silva Feitosa<\/a>, de 22 anos, ouvido em 13 de novembro de 1992. Na ocasi&atilde;o, ele contou que servia no 51&ordm; Batalh&atilde;o de Infantaria da Selva, o 51 BIS, quando deu carona para um rapaz que dizia se chamar Marcos. Logo no in&iacute;cio da viagem, esse indiv&iacute;duo teria deitado no colo de Adijael e come&ccedil;ado a praticar sexo oral nele. Em seguida, Marcos falou para Adijael n&atilde;o comentar nada com ningu&eacute;m, caso contr&aacute;rio, o mataria. De acordo com a testemunha, outros soldados do quartel tamb&eacute;m relatavam terem passado pelo mesmo tipo de abuso e amea&ccedil;a.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap&oacute;s ter sido dispensado do Ex&eacute;rcito, Adijael passou a trabalhar como agente da Pol&iacute;cia Civil em Altamira. Certa vez, ele foi ao posto Gomes para abastecer um carro da delegacia. L&aacute;, viu Marcos, mas n&atilde;o falou com ele. Ao perguntar para outras pessoas quem seria aquele homem, recebeu a resposta de que na verdade ele se chamava Amailton.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/04\/1992-11-13-Adijael-Silva-Feitosa-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Adijael Silva Feitosa<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Diante da estigmatiza&ccedil;&atilde;o e do preconceito, n&atilde;o se pode descartar a possibilidade dos relatos de ass&eacute;dio e abuso serem falsos. Tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel afirmar com seguran&ccedil;a o quanto a orienta&ccedil;&atilde;o sexual de Amailton foi determinante na forma como Brivaldo conduziu as investiga&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista concedida &agrave; antrop&oacute;loga Paula Lacerda, o delegado afirmou que tinha em sua equipe de policiais um agente gay. Nas palavras dele, a ideia era facilitar a entrada em lugares onde homossexuais se encontravam na cidade, o que poderia ser dif&iacute;cil para outros investigadores.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Eu acho que a interpreta&ccedil;&atilde;o que o delegado Brivaldo faz sobre o Amailton est&aacute; sentada sobre a homofobia. Ent&atilde;o, a homossexualidade aparece associada &agrave;s drogas e &agrave; pervers&atilde;o. Ele fala em v&aacute;rias passagens que uma pr&aacute;tica do Amailton que mais lhe despertava o desejo sexual era a fela&ccedil;&atilde;o, e ele usa especificamente esse termo. A gente n&atilde;o t&aacute; dizendo que o Amailton &eacute; mais ou menos criminoso, mas sem d&uacute;vida a investiga&ccedil;&atilde;o foi orientada por isso&rdquo;, comenta a pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, o fato de Brivaldo ter colocado um homem gay na equipe mostra a forma como ele enxergava os crimes que continham elementos sexuais. &ldquo;Ele disse que chamou um investigador homossexual para que pudesse penetrar no submundo de Altamira. Com isso, a gente v&ecirc; como talvez antes mesmo de ele ir para a cidade, ao montar essa equipe &lsquo;diversa&rsquo;, como se referiu, j&aacute; imaginasse que crimes sexuais tinham liga&ccedil;&atilde;o com um criminoso homossexual&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Em diferentes momentos do processo, h&aacute; ainda a conex&atilde;o entre Amailton e Luiz Kapiche, que tamb&eacute;m seria homossexual. &ldquo;Eu acredito que esse elemento, a homofobia, esteve sim bastante marcado na atua&ccedil;&atilde;o e fala do delegado Brivaldo, assim como o machismo, o classimo, a xenofobia&rdquo;, completa Paula Lacerda.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dessa leitura, a pesquisadora n&atilde;o acha que a homossexualidade tenha sido o fator mais relevante para o investigador ter ido atr&aacute;s do filho de Amadeu. &ldquo;Me parece que ele considerava como a confiss&atilde;o de culpa do Amailton justamente o fato de ele ter sa&iacute;do da cidade depois do crime contra um parente. Segundo o delegado, ele teria registrado a viagem por meio de contatos telef&ocirc;nicos com familiares, sendo que n&atilde;o tinha uma boa rela&ccedil;&atilde;o com eles. Para Brivaldo, isso era o que havia de principal contra o Amailton&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>AS SUSPEITAS AUMENTAM<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A essa altura, o nome do jovem membro da fam&iacute;lia Gomes j&aacute; circulava por toda a cidade como o poss&iacute;vel autor dos assassinatos. Voltando ao depoimento de <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-luiz-sobrinho\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que traz &agrave; tona elementos contra Amailton Madeira Gomes\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Luiz Sobrinho<\/a>, por exemplo, as hist&oacute;rias que ele teria ouvido sobre os supostos abusos de Amailton eram apenas o come&ccedil;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Um outro acontecimento narrado por ele foi ainda mais poderoso para alimentar a narrativa contra o suspeito. Um amigo de Jos&eacute;, chamado Ben&eacute;, lhe contou que em 2 de janeiro de 1992, dia seguinte ao desaparecimento de Judirley, Amailton chegou em casa com a camisa toda manchada de sangue. A empregada, ao ver aquela cena, tomou um susto, mas n&atilde;o teve coragem de perguntar o que tinha ocorrido. Afinal, ela j&aacute; conhecia a fama dele e da fam&iacute;lia Gomes, que eram consideradas pessoas violentas em Altamira. A funcion&aacute;ria associou a pe&ccedil;a de roupa suja ao sumi&ccedil;o do garoto ind&iacute;gena, que naquele momento era procurado por toda a cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns dias depois, <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/benedito-roberto-de-oliveira\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que revela a hist&oacute;ria da empregada F&aacute;tima\" class=\"encyclopedia\">Benedito Roberto de Oliveira<\/a>, o Ben&eacute;, foi chamado para ser ouvido. &Agrave; pol&iacute;cia, ele explicou que quem lhe contou a hist&oacute;ria da empregada foi uma senhora que trabalhava em uma sorveteria da cidade. Ela tamb&eacute;m lhe confidenciou que o nome da tal funcion&aacute;ria da fam&iacute;lia Gomes era F&aacute;tima.<\/p>\n\n\n\n<p><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/04\/1992-10-23-Depoimento-Jose-Luiz-Sobrinho-2.pdf\" target=\"_blank\">Depoimento de Jos&eacute; Luiz Sobrinho<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/04\/Depoimento-Benedito-Roberto-de-Oliveira-26-10-1992-Vol-1-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Benedito Roberto de Oliveira<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Brivaldo tinha agora outra miss&atilde;o: encontrar F&aacute;tima. Essa seria mais uma pista importante para o andamento dos seus trabalhos. Antes que pudesse avan&ccedil;ar nisso, no entanto, ele recebeu informa&ccedil;&otilde;es ainda mais chocantes de um delegado de Altamira chamado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/roberto-carlos-macedo-lima\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado que trabalhou no caso Jaenes da Silva Pessoa\" class=\"encyclopedia\">Roberto Carlos Macedo Lima<\/a>. Esse investigador havia participado do in&iacute;cio das investiga&ccedil;&otilde;es sobre <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jaenes-da-silva-pessoa\/\" target=\"_self\" title=\"Crian&ccedil;a emasculada e morta em outubro de 1992 em Altamira\" class=\"encyclopedia\">Jaenes da Silva Pessoa<\/a>. O seu depoimento tamb&eacute;m &eacute; de 23 de outubro de 1992.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele relatou que examinava o local onde o corpo do garoto havia sido encontrado quando notou a presen&ccedil;a de um rapaz de nome Gilberto no local, junto com outros curiosos. Ele conhecia o jovem por v&ecirc;-lo com frequ&ecirc;ncia na cidade, j&aacute; que a m&atilde;e dele era dona de uma est&acirc;ncia localizada na frente da delegacia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap&oacute;s adotar todas as provid&ecirc;ncias necess&aacute;rias para a remo&ccedil;&atilde;o do cad&aacute;ver, o delegado voltou para o local de trabalho. Dez minutos depois, o tal Gilberto chegou, dizendo que precisava conversar com o investigador em particular. J&aacute; no gabinete de Roberto, o rapaz disse: &ldquo;eu sei quem foi o autor desse crime&rdquo;. Em seguida, passou a narrar que em 1988 morava na cidade de Bel&eacute;m junto com Amailton Gomes, que descreveu como &ldquo;homossexual, viciado em t&oacute;xicos e propenso a ataques de sadismo&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo ele, os crimes contra os meninos emasculados s&oacute; passaram a acontecer depois que o jovem membro da fam&iacute;lia Gomes se mudou para Altamira em definitivo, no fim de 1988. Al&eacute;m disso, reiterou que todas as vezes que acontecia um ataque aos garotos, Amailton deixava a cidade &agrave;s pressas e permanecia por cerca de dois a tr&ecirc;s meses fora.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro de outubro de 1992, quando Jaenes sumiu pela manh&atilde;, Gilberto encontrou Amailton por volta das 23h30. Na ocasi&atilde;o, o rapaz lhe avisou que viajaria para a Argentina porque &ldquo;a barra estava pesada na cidade&rdquo;. No dia seguinte, uma amiga em comum de ambos teria visto o jovem em uma motocicleta saindo de Altamira, em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; Marab&aacute;.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim da conversa com o delegado, Gilberto sugeriu que a pol&iacute;cia analisasse a presen&ccedil;a de vest&iacute;gios de droga no local do crime, pois Amailton teria usado um entorpecente chamado &ldquo;mesclado&rdquo; antes de atacar a v&iacute;tima. Surpreso com tantas informa&ccedil;&otilde;es importantes, Roberto saiu do escrit&oacute;rio para chamar o escriv&atilde;o e registrar tudo oficialmente, mas, quando retornou, o rapaz n&atilde;o estava mais l&aacute;.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/04\/1992-10-23-Depoimento-Roberto-Carlos-Macedo-Lima-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Roberto Carlos Macedo Lima<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A misteriosa testemunha era <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/gilberto-denis-da-costa\/\" target=\"_self\" title=\"Uma das principais testemunhas contra Amailton Madeira Gomes\" class=\"encyclopedia\">Gilberto Denis da Costa<\/a>, um jovem de 22 anos, amigo de inf&acirc;ncia de Amailton. Ele morava em Bel&eacute;m e tinha ido &agrave; Altamira votar nas elei&ccedil;&otilde;es, munic&iacute;pio onde cresceu com a fam&iacute;lia. Em depoimento a Brivaldo no dia 4 de novembro de 1992, ele corrigiu alguns detalhes passados pelo delegado Roberto, mas o teor do relato era o mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al&eacute;m dos coment&aacute;rios acerca da homossexualidade de Amailton, o que chamou a aten&ccedil;&atilde;o no testemunho de Gilberto foi o seguinte: ele na verdade se encontrou com o filho dos Gomes em Altamira pouco antes do rapaz viajar de moto at&eacute; o sul do Brasil e, em seguida, para a Argentina. Essa conversa teria ocorrido em 2 de outubro, dia seguinte ao desaparecimento de Jaenes. Na &eacute;poca, ele pediu para que o amigo n&atilde;o comentasse com ningu&eacute;m sobre a viagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Gilberto contou ainda que Amailton tinha problemas com a fam&iacute;lia, principalmente com o pai, Amadeu. Al&eacute;m disso, seria uma pessoa violenta e que n&atilde;o gostava de crian&ccedil;as. Outro detalhe que comentou foi que achava estranho ele ter ido viajar logo ap&oacute;s o sumi&ccedil;o de Jaenes. Afinal, o menino era parente de Amailton e todos estavam ajudando nas buscas, at&eacute; mesmo desconhecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Gilberto, o que alimentou as suspeitas contra o jovem foi tamb&eacute;m o fato de, momentos antes do crime, ele ter sido visto passando pelo bairro Bras&iacute;lia justamente na dire&ccedil;&atilde;o em que a v&iacute;tima sumiu. Quem lhe contou isso teria sido um cunhado de Amadeu Gomes, que nunca foi chamado para depor. Por isso, essa hist&oacute;ria jamais foi confirmada.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/04\/1992-11-04-Depoimento-Gilberto-Denis-da-Costa-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Gilberto Denis da Costa<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Quando Gilberto Denis prestou depoimento, Brivaldo j&aacute; havia pedido um mandado de pris&atilde;o para duas pessoas: Amailton Gomes e Josivaldo Aranha, o homem que afirmava ter sido amea&ccedil;ado por tr&ecirc;s pessoas no dia e local onde o corpo de Judirley foi achado.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma quest&atilde;o, por&eacute;m, ainda incomodava o delegado: todos os ind&iacute;cios apontavam para Amailton, mas ele n&atilde;o era loiro, como apontavam os relatos de Josivaldo. Por isso, o investigador resolveu averiguar melhor essa hist&oacute;ria. Em 23 de outubro de 1992, um homem de nome <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/estanislau-juscelino-nunes-leao\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que conhecia Josivaldo Aranha da Silva desde a inf&acirc;ncia\" class=\"encyclopedia\">Estanislau Juscelino Nunes Le&atilde;o<\/a> foi ouvido na delegacia. Ele conhecia Josivaldo desde a inf&acirc;ncia, j&aacute; que o jovem havia sido criado por sua m&atilde;e desde os dois anos de idade. Estranhamente, no entanto, ele disse &agrave; pol&iacute;cia que o rapaz jamais havia lhe contado sobre a amea&ccedil;a que teria sofrido.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/04\/1992-10-23-Depoimento-Estanislau-Juscelino-Nunes-Leao-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Estanislau Juscelino Nunes Le&atilde;o<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, Brivaldo achou que Josivaldo estava mentindo e acabou por pedir a sua pris&atilde;o tempor&aacute;ria. Em entrevista para a tese de Paula Lacerda, o delegado afirmou que tudo mudou quando decidiu fazer um passeio de lancha no Xingu em um s&aacute;bado, junto com v&aacute;rias pessoas. De repente, uma das convidadas se aproximou e come&ccedil;ou a puxar papo, pois o reconheceu de uma entrevista na televis&atilde;o: &ldquo;o senhor est&aacute; atr&aacute;s daquele doido de cabelo loiro, n&atilde;o &eacute;?&rdquo;, perguntou. O investigador tentou desconversar, falou que n&atilde;o sabia de nada. A mo&ccedil;a, por&eacute;m, lhe disse algo surpreendente: ela soube que Amailton tinha pintado o cabelo em janeiro de 1992. Foi a&iacute; que Brivaldo voltou para a delegacia onde Josivaldo estava preso e comentou: &ldquo;voc&ecirc; realmente n&atilde;o estava mentindo&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada disso consta no relat&oacute;rio do delegado sobre as investiga&ccedil;&otilde;es. Boa parte &eacute; apenas suposi&ccedil;&atilde;o. Se isso de fato for verdade, &eacute; prov&aacute;vel que a mulher que passou a informa&ccedil;&atilde;o para Brivaldo n&atilde;o aceitou prestar depoimento. Provavelmente, teve medo de ter o nome registrado. Ou seja, toda a persegui&ccedil;&atilde;o pelo suspeito loiro n&atilde;o existe oficialmente no processo, mas foi determinante para o andamento do caso.<\/p>\n\n\n\n<p>Convencido, o investigador pediu a pris&atilde;o preventiva de Amailton no dia 26 de outubro de 1992. Nessa ocasi&atilde;o, o seu pai, o fazendeiro Amadeu Gomes, foi ouvido pelo delegado. Acompanhado do irm&atilde;o, o respeitado advogado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/arnaldo-gomes\/\" target=\"_self\" title=\"Irm&atilde;o de Jos&eacute; Amadeu Gomes\" class=\"encyclopedia\">Arnaldo Gomes<\/a>, confirmou alguns fatos sobre o filho: que ele dirigia uma picape Saveiro da fam&iacute;lia, de cor vinho, e que estava com o ve&iacute;culo no in&iacute;cio de janeiro daquele ano. <\/p>\n\n\n\n<p>Duas coisas se destacaram durante o relato do fazendeiro: primeiro, ao ser perguntado se poderia falar algo sobre o perfil psicol&oacute;gico do filho, Amadeu respondeu que, embora convivesse com ele h&aacute; 23 anos, o considerava um estranho. Em segundo lugar, afirmou que Amailton era &ldquo;dado a aventuras&rdquo;, pois gostava de viajar de moto sem ter dia e hora para chegar ao destino. Questionado sobre a data que ele saiu da cidade naquele ano, Amadeu falou em 29 ou 30 de setembro &ndash; o que seria antes do desaparecimento de Jaenes e, como consequ&ecirc;ncia, desmontaria a linha do tempo montada pelo investigador.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, Brivaldo n&atilde;o teve d&uacute;vidas: na melhor das hip&oacute;teses, Amadeu teria se confundido. Na pior, estaria mentindo.&nbsp;Por esse motivo, pediu a pris&atilde;o preventiva de Amailton. As testemunhas principais citadas no documento eram <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/jose-luiz-sobrinho\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que traz &agrave; tona elementos contra Amailton Madeira Gomes\" class=\"encyclopedia\">Jos&eacute; Luiz Sobrinho<\/a> e Benedito de Oliveira, que contaram a hist&oacute;ria da <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/empregada-fatima\/\" target=\"_self\" title=\"Testemunha que teria visto Amailton com uma camisa suja de sangue\" class=\"encyclopedia\">empregada F&aacute;tima<\/a> e da camisa suja de sangue. Al&eacute;m deles, Gilberto Denis Costa tamb&eacute;m havia sido mencionado, devido ao relato que fez ao delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/roberto-carlos-macedo-lima\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado que trabalhou no caso Jaenes da Silva Pessoa\" class=\"encyclopedia\">Roberto Carlos Macedo Lima<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 27 de outubro, a ju&iacute;za <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/vera-araujo-de-souza\/\" target=\"_self\" title=\"Ju&iacute;za da Comarca de Altamira\" class=\"encyclopedia\">Vera Ara&uacute;jo de Souza<\/a>, da Comarca de Altamira, expediu o mandado.&nbsp;Amailton, por&eacute;m, n&atilde;o estava na cidade. Segundo o pr&oacute;prio Amadeu, quando saiu, o filho n&atilde;o tinha destino certo, j&aacute; que se tratava de uma viagem com car&aacute;ter de aventura, sem previs&atilde;o de retorno. O fazendeiro afirmou que recebeu o primeiro telefonema do rapaz uns dias antes, quando ele estava em Goi&acirc;nia, hospedado na casa de um amigo. Mais tarde, conversou por liga&ccedil;&atilde;o com o filho enquanto ele se encontrava em Santa Catarina e, posteriormente, em Santa Vit&oacute;ria dos Palmares, no Rio Grande do Sul &ndash; fronteira com o Uruguai. De acordo com Amadeu, essas conversas eram mantidas apenas para que ele pudesse enviar dinheiro a Amailton.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2022\/04\/1992-10-26-Depoimento-Jose-Amadeu-Gomes-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Depoimento de Jos&eacute; Amadeu Gomes<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Dias se passaram. H&aacute; nos autos uma intima&ccedil;&atilde;o datada de 10 de novembro para que o jovem membro da fam&iacute;lia Gomes comparecesse na delegacia para prestar depoimento no dia seguinte. No verso, l&ecirc;-se que o suspeito havia sa&iacute;do de casa h&aacute; cerca de um m&ecirc;s para lugar incerto e n&atilde;o havia sido encontrado. Declara&ccedil;&otilde;es feitas posteriormente d&atilde;o conta de que, por telefone, Amadeu pedia que o filho retornasse &agrave; Altamira e esclarecesse tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis ent&atilde;o que, no dia 13 de novembro, mais uma crian&ccedil;a desapareceu. Seu nome era <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/klebson-ferreira-caldas\/\" target=\"_self\" title=\"Menino que desapareceu em Altamira em novembro de 1992\" class=\"encyclopedia\">Klebson Ferreira Caldas<\/a>, de 12 anos. Esse novo caso mudaria ainda mais os rumos das investiga&ccedil;&otilde;es e refor&ccedil;ariam alguns dos temores mais profundos do delegado Brivaldo.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Suspeito<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":35,"template":"","encyclopedia-category":[6],"encyclopedia-tag":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia\/116"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/types\/encyclopedia"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=116"}],"wp:term":[{"taxonomy":"encyclopedia-category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-category?post=116"},{"taxonomy":"encyclopedia-tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/wp-json\/wp\/v2\/encyclopedia-tag?post=116"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}