{"id":1001,"date":"2023-02-16T00:01:00","date_gmt":"2023-02-16T03:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/?post_type=encyclopedia&#038;p=1001"},"modified":"2023-02-17T10:19:05","modified_gmt":"2023-02-17T13:19:05","slug":"extras-episodio-bonus","status":"publish","type":"encyclopedia","link":"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/extras\/extras-episodio-bonus\/","title":{"rendered":"Extras Epis\u00f3dio B\u00f4nus"},"content":{"rendered":"\n<p>Por muitos anos, Ivan Mizanzuk viu v&aacute;rias mat&eacute;rias que citavam a escritora e crimin&oacute;loga <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/ilana-casoy\/\" target=\"_self\" title=\"Crimin&oacute;loga e escritora, auxiliou a pol&iacute;cia a investigar Chagas em 2004\" class=\"encyclopedia\">Ilana Casoy<\/a> como algu&eacute;m que auxiliou a Pol&iacute;cia Civil do Maranh&atilde;o nas investiga&ccedil;&otilde;es sobre <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/francisco-das-chagas\/\" target=\"_self\" title=\"Mec&acirc;nico preso no Maranh&atilde;o por envolvimento em casos de viol&ecirc;ncia contra crian&ccedil;as\" class=\"encyclopedia\">Francisco das Chagas<\/a>. Da mesma forma, ele tamb&eacute;m ouviu falar das longas horas de conversa que ela teria gravado com o mec&acirc;nico. Mas faltavam materiais mais aprofundados sobre isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivan espera que a entrevista que conduziu com a escritora, junto com a roteirista Tain&aacute; Muhringer, possa preencher essa lacuna para pesquisadores futuros. <\/p>\n\n\n\n<p>A transcri&ccedil;&atilde;o da entrevista est&aacute; dispon&iacute;vel abaixo:<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Quando voc&ecirc; come&ccedil;ou a se dedicar a estudar crimes e crimes seriais?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Quando eu tinha uns tr&ecirc;s anos de idade, que eu ouvi que o Kennedy foi assassinado. N&atilde;o, brincadeira. Eu acho que quem estuda isso estudou sempre, de alguma maneira. Se interessou, investigou, pesquisou, leu fic&ccedil;&atilde;o, leu caso real. Acho que s&atilde;o v&aacute;rias fases que a gente passa no nosso crescimento. Ent&atilde;o, para quem gosta da intriga, de qu&atilde;o intrigante &eacute; a mente humana, resolver crime &eacute; quase um hobby, n&eacute;? Eu acho que &eacute; natural em algumas pessoas, n&atilde;o em todas, essa curiosidade. A&iacute; quando n&atilde;o conseguimos sanar a curiosidade e descobrimos s&oacute; na meia-idade que n&atilde;o vamos sanar mesmo, tentamos o caminho mais formal. Sou formada em administra&ccedil;&atilde;o de empresas, que aparentemente n&atilde;o tinha nada com isso. Mas na minha vida, em campo, foi muito &uacute;til na quest&atilde;o de gest&atilde;o de investiga&ccedil;&atilde;o, gest&atilde;o de equipes, e de pesquisa. E, autodidaticamente, eu busquei v&aacute;rios caminhos. Fui parte do N&uacute;cleo Forense de Psiquiatria e Psicologia do Hospital das Cl&iacute;nicas, e fiz est&aacute;gio na per&iacute;cia. Teve um momento que um grande psiquiatra de l&aacute;, o S&eacute;rgio Rigonatti, e o Paulo Hidalgo Pepino, outro famoso acad&ecirc;mico, com muita do&ccedil;ura me falaram &ldquo;voc&ecirc; precisa formalizar esse conhecimento de alguma maneira&rdquo;. Ent&atilde;o, a &uacute;nica vez que teve no IBCCRIM [Instituto Brasileiro de Ci&ecirc;ncias Criminais] p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Criminologia, eu me inscrevi. N&atilde;o sei se eles imaginaram que algu&eacute;m que n&atilde;o fez Direito ia querer fazer isso, mas eu fiz. E foi de uma riqueza porque o IBCCRIM conta com nomes da Sociologia, do Direito, da Psicologia. &Eacute; impressionante as cabe&ccedil;as que conduziram os dois anos de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o. Foi maravilhoso pra mim. Grandes nomes, grandes pessoas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Mas nessa &eacute;poca voc&ecirc; j&aacute; tinha livros escritos sobre serial killers, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Tinha. Mas eu precisava formalizar esse conhecimento. E foi bom, eu aprendi muito. N&atilde;o &eacute; s&oacute; formalizar. Mas, por exemplo, quando escolhi a minha tese, teve uma discuss&atilde;o. Claro que ela foi sobre o Chagas, o caso do Chagas. J&aacute; a&iacute; teve uma discuss&atilde;o. Quem ia me orientar? Porque um dos mestres l&aacute; tamb&eacute;m falou &ldquo;quem vai te orientar num assunto que voc&ecirc; conhece melhor do que todo mundo? Como vai ser essa orienta&ccedil;&atilde;o?&rdquo;. &ldquo;Voc&ecirc; &eacute; inorient&aacute;vel&rdquo;, brincou comigo. Eu falei &ldquo;acho bom eu ser porque j&aacute; faz um ano e meio que eu estou aqui. Agora n&atilde;o &eacute; hora de me dizer que n&atilde;o d&aacute;, n&eacute;?&rdquo;. Um professor, o Rafael Mafei, maravilhoso, que fez Hist&oacute;ria e tamb&eacute;m Direito, &eacute; meu leitor. Ele foi fazer Direito e se interessou pelo caso do Man&iacute;aco do Parque, olha s&oacute;. E acompanhou todo o meu trabalho, tinha lido os meus livros. Ele falou &ldquo;eu vou te orientar pra adaptar teu o conhecimento pra uma linguagem acad&ecirc;mica&rdquo;.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Sim. [&hellip;] Alguns anos atr&aacute;s, no meu podcast antigo, o Anticast, eu chamei pra entrevista um cara que tinha feito uma tese de doutorado sobre o Febr&ocirc;nio &Iacute;ndio do Brasil. E a gente falava sobre como deve ter sido dif&iacute;cil pra voc&ecirc; fazer o livro &ldquo;Serial Killers no Brasil&rdquo;, porque voc&ecirc; n&atilde;o tem&hellip;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Foi&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> N&atilde;o tinha uma enciclop&eacute;dia de serial killers brasileiros, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Nada. Nada, nada. N&atilde;o. N&atilde;o tinha. N&atilde;o tem ainda hoje. N&atilde;o tem essa figura jur&iacute;dica, n&atilde;o existe. E na &eacute;poca n&atilde;o tinha nem conhecimento informal. Isso era uma coisa de Hollywood. Eu ouvi de um delegado, nunca me esque&ccedil;o&hellip;&nbsp;Ele falava pra mim &ldquo;doutora, esse neg&oacute;cio a&iacute; &eacute; de Hollywood, a senhora est&aacute; doida. Isso n&atilde;o existe aqui no Brasil n&atilde;o&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Conta pra mim um pouquinho dessa tua hist&oacute;ria, dessa pesquisa. Quando ela come&ccedil;ou e quando voc&ecirc; disse assim &ldquo;ok, existe essa figura chamada serial killer, que a hist&oacute;ria da criminologia no Brasil ainda n&atilde;o est&aacute; atendendo, n&atilde;o est&aacute; falando, e eu quero fazer&rdquo;? Que ano foi? Quando foi isso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Ivan, n&atilde;o d&aacute; pra fazer isso porque assim&hellip; Por exemplo, pelas poucas not&iacute;cias do Chagas que sa&iacute;am no jornal na &eacute;poca, em Altamira e depois no Maranh&atilde;o, a minha cabe&ccedil;a j&aacute; dizia &ldquo;gente, isso aqui &eacute; o mesmo cara&rdquo;. Ningu&eacute;m carrega a fantasia do outro. Tudo bem que a fantasia &eacute; matar&hellip; Vamos dizer, eu vou matar ruivas. Mas o jeito que eu vou fazer isso&hellip; Mesmo n&atilde;o sabendo nada, pra quem j&aacute; tinha um conhecimento liter&aacute;rio, enfim, de tudo, j&aacute; batia. E eu nem pensava ainda em escrever sobre isso. Eu fico louca porque no eixo Rio-S&atilde;o Paulo razoavelmente voc&ecirc; acompanha o caso, mas quando &eacute; fora desse eixo, n&atilde;o sai not&iacute;cia, cara. Voc&ecirc; n&atilde;o sabe mais. Voc&ecirc; n&atilde;o sabe. E naquela &eacute;poca, d&eacute;cada de 80 e 90&hellip; A juventude hoje nem imagina o que &eacute; viver sem Google, sem arquivos digitalizados. Voc&ecirc; n&atilde;o tem pra quem perguntar.&nbsp; Ent&atilde;o n&atilde;o existe esse momento assim &ldquo;da&iacute; eu quis&rdquo;. Pra escrever sobre serial killer tamb&eacute;m. J&aacute; me perguntaram &ldquo;como voc&ecirc; escolheu esse nicho de mercado?&rdquo;. Nem nicho, nem mercado. N&atilde;o fa&ccedil;o a menor ideia. Eu sempre escrevi. Sempre foi o meu canal a escrita. E eu sempre quis escrever. S&oacute; que a minha gera&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tinha muito essa&hellip; &ldquo;Ah, eu vou ser escritor&rdquo;.&nbsp; Ent&atilde;o, eu fiz o que eu tinha que fazer, estudei o que eu tinha que estudar. Escrever era um hobby. Escrevi roteiro pra v&iacute;deo institucional, aprendi&hellip;&nbsp;Foi um caminho bacana. A&iacute; quando voc&ecirc; chega&hellip; Voc&ecirc;s s&atilde;o bem jovens. N&atilde;o sei quantos anos voc&ecirc; tem, Ivan. Quantos anos voc&ecirc; tem?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Tenho 39.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Ent&atilde;o, essa virada &eacute; importante, dos 38, 39. O que eu queria ter feito, n&atilde;o fiz e ainda d&aacute;? Porque assim, bailarina j&aacute; n&atilde;o ia rolar, n&eacute;? Mas a escrita poderia ser sim, que era um sonho. Eu j&aacute; estava numa &eacute;poca financeiramente mais confort&aacute;vel. Ent&atilde;o fui experimentar. A&iacute; meu pai, s&aacute;bio pai, falou &ldquo;escolhe um assunto que voc&ecirc; gosta&rdquo;. Eu escolhi um assunto que eu gostava.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Sim. Ent&atilde;o, pelo o que voc&ecirc; est&aacute; me falando, eu tenho a impress&atilde;o&hellip; Isso j&aacute; vai entrando na nossa pauta mesmo&hellip; Voc&ecirc; gostava do tema serial killers, mas n&atilde;o tinha&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>N&atilde;o, eu gostava do tema crime, t&aacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Crime, crime.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Eu gostava do crime. E o serial killer me chamava a aten&ccedil;&atilde;o porque &eacute; um crime de repeti&ccedil;&atilde;o. Porque um crime que envolve leg&iacute;tima defesa ou vingan&ccedil;a, voc&ecirc; pode n&atilde;o concordar, mas at&eacute; entende o que aconteceu ali, quando tem motivo. E a minha tese da p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o &eacute; exatamente sobre isso. Quando um crime &eacute; sem motivo, voc&ecirc; n&atilde;o tem nem por onde come&ccedil;ar a investigar. Voc&ecirc; n&atilde;o tem o fator principal de solu&ccedil;&atilde;o do crime. A pol&iacute;cia come&ccedil;a por onde? Por qu&ecirc;? Por que essa pessoa foi assassinada? No caso do serial killer, &eacute; totalmente simb&oacute;lico. N&atilde;o tem o porqu&ecirc;, est&aacute; dentro da cabe&ccedil;a o porqu&ecirc;. N&atilde;o est&aacute; aberto ao p&uacute;blico. Ent&atilde;o eu peguei o extremo. Vou pegar o extremo porque talvez entendendo o extremo, eu entenda todo o resto. Claro que n&atilde;o, n&eacute;? &Eacute; separado, &eacute; isolado. S&atilde;o casos que n&atilde;o se misturam com os casos com motivo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Mas voc&ecirc; era um peixinho fora d&rsquo;&aacute;gua, assim? N&atilde;o tinha gente fazendo isso no Brasil.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Sei l&aacute;. N&atilde;o tinha. Hoje eu sei. Mas n&atilde;o foi uma pergunta. Eu aluguei uma salinha e tirei o meu ano sab&aacute;tico. Meus filhos j&aacute; eram adolescentes, quase adultos.&nbsp; E eu n&atilde;o tinha pressa, n&atilde;o tinha nada. Eu estava aprendendo ali, me divertindo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;:<\/em><\/strong><em> Pegando esse seu background hist&oacute;rico, eu queria saber se voc&ecirc; sabe quando o conceito de serial killer come&ccedil;ou a ser conhecido pela m&iacute;dia, pelas pessoas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Olha, no Brasil, eu vou te dar uma data muito forte pra mim. Em 98, a gente tem o caso do Man&iacute;aco do Parque. No primeiro julgamento do Man&iacute;aco do Parque, o promotor era o Edilson Mougenot Bonfim. Eu nunca tinha ido num j&uacute;ri. Eu fui nesse, t&aacute;? Porque eu j&aacute; pesquisava no Museu do Crime, no Tribunal de Justi&ccedil;a.&nbsp;Toda vez que parava o j&uacute;ri, o Edilson Mougenot Bonfim vinha conversar com jornalistas, e eu me encostava ali pra ouvir o que ele estava falando. E a&iacute;, na frente de alguns jornalistas, eu questionei qual era a tradu&ccedil;&atilde;o. Se era um serial killer, como ia chamar no Brasil? Eu acabei fazendo uma pergunta junto ali. E ele mesmo falou &ldquo;olha, &eacute; uma boa pergunta. A gente, por enquanto, est&aacute; usando serial killer&rdquo;. Depois ele at&eacute; escreveu um livro. Vai ser assassino em s&eacute;rie? Vai ser matador em s&eacute;rie? N&atilde;o se est&aacute; falando ainda. E a gente brincou &ldquo;vamos esperar o Jornal Nacional porque ele &eacute; craque em estabelecer um padr&atilde;o&rdquo;. Na &eacute;poca, o Jornal Nacional estabeleceu serial killer. Ent&atilde;o, beleza. Ficou, n&eacute;? Mas hoje tanto faz. Eu acho que esse momento do Man&iacute;aco do Parque &eacute; o caso que vai ordenar e sugerir esse entendimento de uma maneira mais forte. Agora, de l&aacute; pra c&aacute;, muita &aacute;gua rolou debaixo dessa ponte. Gente que achava fantasioso, pol&iacute;cia que n&atilde;o acreditava. O pr&oacute;prio caso do Chagas tinha 30 pessoas presas por crimes isolados. Foi uma guerra. &ldquo;O Maranh&atilde;o n&atilde;o vai ter um serial killer. N&atilde;o venha aqui com essa conversa. Cada caso &eacute; um caso&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Eu acho isso muito interessante porque mostra como na &eacute;poca esse conceito era desconhecido. Tanto no caso de Guaratuba, que n&oacute;s n&atilde;o sabemos quem fez, mas tudo indica que tamb&eacute;m havia um serial killer ali, como quando voc&ecirc; v&ecirc; Altamira e Maranh&atilde;o. As autoridades est&atilde;o mais propensas a acreditar numa seita sat&acirc;nica do que numa morte causada por um assassino apenas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> No mundo inteiro a seita sat&acirc;nica cria um universo imagin&aacute;rio muito importante. &Eacute; f&aacute;cil, &eacute; palat&aacute;vel pra mente humana pensar em seita.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Tem o ritual&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Depois me conte quantos crimes de verdade de seitas voc&ecirc; conhece, t&aacute;? Porque eu tenho dificuldade. Tenho dificuldade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Acho que o pessoal lembra muito do Charles Manson, n&eacute;? Tem toda uma discuss&atilde;o se aquilo &eacute; uma seita ou n&atilde;o, mas o que acontece muito nesses casos &eacute; um indiv&iacute;duo ter uma vis&atilde;o m&iacute;stica e ritualiz&aacute;-la nas mortes. Se ele tiver seguidores e tal&hellip; Mas geralmente &eacute; um grupo muito pequeno, n&atilde;o chega a ser uma coisa organizada. O que a gente nota nos casos de Altamira e Guaratuba &eacute; essa ideia, essa narrativa de que existe uma organiza&ccedil;&atilde;o secreta com figuras poderosas que est&atilde;o cometendo esses crimes contra crian&ccedil;as por algum motivo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Pra&hellip;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Pra&hellip; &Eacute;. Nunca &eacute; explicado, n&eacute;?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Ent&atilde;o, a&iacute; fica tudo resolvido, n&eacute;? O ser humano fica salvaguardado. A gente tem uma hist&oacute;ria mirabolante, e a&iacute; foi isso que aconteceu, infelizmente, porque se juntam pessoas que jamais tinham se encontrado, n&atilde;o eram nem amigas. E convenceu. Na &eacute;poca, convenceu.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> O meu diferencial no caso do Chagas, Ivan, &eacute; que eu conversei com o Chagas. Isso &eacute; diferente de montar uma tese. Eu conversei com ele por 60, 70 horas. N&atilde;o foi uma entrevista jornal&iacute;stica. Ent&atilde;o, ele me contou&hellip; Eu sei tudo da inf&acirc;ncia dele. N&atilde;o s&oacute; do crime. O crime &eacute; um recorte, um peda&ccedil;o, um momento da vida dessa pessoa, mas eu quero entender o todo. Conversar com ele e saber por ele a hist&oacute;ria, o que aconteceu ali, foi primordial.&nbsp; E eu tamb&eacute;m levo uma vantagem, que eu acho que &eacute; primordial: eu n&atilde;o sou pol&iacute;cia e n&atilde;o sou per&iacute;cia, n&atilde;o sou nem psiquiatra nem psic&oacute;loga, ou advogada. Ent&atilde;o, &eacute; um lugar que eles ainda n&atilde;o t&ecirc;m uma narrativa pronta, porque em geral eles t&ecirc;m uma narrativa pronta. Me lembro muito do Chico Picadinho, o Francisco Costa Rocha. Ele tem um discurso de Freud pra todos da &aacute;rea psi, pra m&atilde;e dele, que o abandonou&hellip; A m&atilde;e branca, a m&atilde;e preta&hellip; A&iacute; ele tem o discurso pra condenar a &aacute;rea jur&iacute;dica, sobre o c&oacute;digo penal, o artigo que ele foi colocado. Essas pessoas t&ecirc;m narrativas constru&iacute;das. Como eu estou num lugar fora da caixa e n&atilde;o existe uma narrativa pronta, o cara tem que falar. N&atilde;o resta outra alternativa a n&atilde;o ser falar. Falar ainda mais improvisado, mais real.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>O Chagas foi preso em dezembro de 2003, mas voc&ecirc; j&aacute; conhecia o caso dos meninos emasculados de Altamira e do Maranh&atilde;o antes. Ent&atilde;o, eu queria que voc&ecirc; falasse&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Do jornal, como todo mundo. Do jornal.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Mas voc&ecirc; tinha arquivos em casa? Voc&ecirc; ficava olhando pra aquilo e dizendo &ldquo;&eacute; a mesma pessoa, e eu vou come&ccedil;ar a olhar isso&rdquo;, antes do Chagas aparecer?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>N&atilde;o. Na &eacute;poca que eu tinha escrito o &ldquo;Louco ou Cruel&rdquo;&hellip; Estava escrevendo &ldquo;Made in Brazil&rdquo; nessa &eacute;poca. Eu n&atilde;o achava nada. Eu n&atilde;o imaginava ainda uma vida na pr&aacute;tica como conhecedora desse assunto, t&aacute;? Eu imaginava uma vida liter&aacute;ria. Eu n&atilde;o tinha um plano. Quando chega o in&iacute;cio de 2004&hellip; Ali&aacute;s, foi no meu anivers&aacute;rio que chegou o e-mail do Diniz e do Benilton se apresentando,&nbsp; falando que estavam respons&aacute;veis por essa investiga&ccedil;&atilde;o no Maranh&atilde;o, e perguntando se eu poderia colaborar com o meu conhecimento. Eles tinham lido o meu livro e achavam que na &eacute;poca s&oacute; eu no Brasil estava falando de crimes em s&eacute;rie. Foi muito interessante. Eu fiquei bem impactada porque era uma decis&atilde;o. Vou pular? Vou atravessar essa linha? Vou pra vida real? Antes eu n&atilde;o tinha tido essa experi&ecirc;ncia. E a&iacute; resolvi que sim. Essa foi a minha primeira investiga&ccedil;&atilde;o de caso real usando todo o conhecimento que j&aacute; envolvia metodologia de investiga&ccedil;&atilde;o pra crimes em s&eacute;rie.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Eu estou lendo aqui uma parte da fala do Diniz na Comiss&atilde;o de Direitos Humanos de 18 de novembro de 2004. E ele diz aqui &ldquo;eu entrei em contato com a Ilana em fevereiro desse ano porque eu precisava&hellip;&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>19 de fevereiro&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> &ldquo;Eu precisava de subs&iacute;dio a respeito do que &eacute; um serial killer e o que ele faz, porque eu tamb&eacute;m n&atilde;o sabia. Eu j&aacute; tinha no&ccedil;&atilde;o do que era um serial killer, mas como n&atilde;o tinha suspeito, deixei essa linha de investiga&ccedil;&atilde;o um pouco de lado. Quando apareceu um suspeito, o Chagas, que foi preso em dezembro, eu tive que procurar pra aprender mais sobre ele. Ent&atilde;o entrei na internet e botei o nome &lsquo;serial killer&rsquo;, da&iacute; apareceu o nome da Ilana&rdquo;.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> E o Benilton, que era respons&aacute;vel na for&ccedil;a-tarefa pela Pol&iacute;cia Federal, era meu leitor.&nbsp; Ele que participa da hist&oacute;ria da marmita, do que tinha na marmita do menino de Altamira&hellip;&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;: <\/em><\/strong><em>Qual &eacute; a hist&oacute;ria da marmita, Ilana? Se puder contar pra gente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>A hist&oacute;ria da marmita. Tudo a gente checa, n&eacute;? Tem mil possibilidades, gente. O cara pode estar assumindo crime que n&atilde;o &eacute; dele. E Altamira era uma discuss&atilde;o. Como comprovar que o Chagas era mesmo o autor? Uma das provas foi a seguinte&hellip; Tinha um menino&hellip; Eu esqueci o nome do menino. Mas o pai dele est&aacute; na planta&ccedil;&atilde;o, e todo o dia a av&oacute; faz uma marmita pra ele levar pro pai almo&ccedil;ar. O garoto vai levar a marmita pro pai e, nesse caminho, segundo o pr&oacute;prio Chagas, ele &eacute; abordado, assassinado e emasculado. O Chagas descreve a conversa com o menino, e eu n&atilde;o tenho como comprovar nada. Mas a&iacute; me ocorre uma ideia que era a seguinte: &ldquo;Chagas, conta pra mim o que tinha na marmita&rdquo;. E ele falou a comida que tinha na marmita, que eu j&aacute; n&atilde;o me lembro mais. Mas ele na &eacute;poca contou. A&iacute; o Benilton localizou a av&oacute; desse menino, que fez a marmita, e perguntou &ldquo;v&oacute;, o que tinha na marmita?&rdquo;. E a av&oacute; confirma o que o Chagas falou, o que pra n&oacute;s &eacute; uma grande prova de que o cara sabe e est&aacute; confessando um crime.&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>O Diniz entra em contato com voc&ecirc; em fevereiro de 2004 falando &ldquo;n&oacute;s temos um suspeito de ser um serial killer, eu preciso saber o que &eacute; um serial killer&rdquo;. Ele te envia documentos? Qual &eacute; o pr&oacute;ximo passo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Ele tinha uma fita VHS com as entrevistas dele com o Chagas, os interrogat&oacute;rios. O Chagas j&aacute; estava preso e negava peremptoriamente qualquer crime. O Diniz estava falando mais do crime do Jonnathan, que era o &uacute;ltimo, n&eacute;? Em 6 de dezembro, se n&atilde;o me engano. &Eacute; de onde o Diniz sempre sai, do Jonnathan. E ele nega, diz que n&atilde;o, que Deus sabe a verdade, que ele &eacute; inocente, que isso &eacute; uma injusti&ccedil;a e tal. O Diniz me mandou essa fita pra eu olhar quem era o Chagas. Eu n&atilde;o sabia nada. Ent&atilde;o eu pude ver o comportamento dele, tanto verbal quanto corporal. E o Diniz tamb&eacute;m tem isso gravado pra registro de que o Chagas estava &iacute;ntegro fisicamente. E ele me mandou c&oacute;pia de todos os casos, t&aacute;? Todos os casos, com laudo de local e de necropsia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Deixa eu s&oacute; esclarecer essa d&uacute;vida. O Diniz perguntou o que voc&ecirc; precisa, e da&iacute; voc&ecirc; falou &ldquo;eu preciso de laudos&rdquo;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>N&atilde;o. Eu acho que ele n&atilde;o perguntou o que eu precisava. Eu acho que foi uma conversa, e a&iacute; eu posso ter falado &ldquo;sem ver, sem ouvir, n&atilde;o d&aacute; pra dar uma opini&atilde;o&rdquo;. Ent&atilde;o a gente combinou ali. Eu n&atilde;o lembro mais, Ivan. Era uma quest&atilde;o sob sigilo, evidentemente. &Eacute; muito s&eacute;rio, n&eacute;? Meu uso era cient&iacute;fico. Ele me enviou por Sedex essa fita VHS e esses processos todos em v&aacute;rios est&aacute;gios diferentes. E a&iacute; eu chamei pra me ajudar o Andr&eacute; Ribeiro Morrone, na &eacute;poca um grande m&eacute;dico legista aqui de S&atilde;o Paulo, que eu conheci no caso Richthofen e que &eacute; dono de um saber muito importante, pra juntos analisarmos as necropsias e os laudos de local.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> E eram documentos de Altamira e do Maranh&atilde;o? Ou s&oacute; do Maranh&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>S&oacute; Maranh&atilde;o. Isso era s&oacute; no Maranh&atilde;o, t&aacute;? &Eacute; onde o Diniz estava investigando com o Benilton. Claro que o Diniz j&aacute; tinha uma investiga&ccedil;&atilde;o muito importante a essa altura, mostrando que nos per&iacute;odos em que morrem crian&ccedil;as no Maranh&atilde;o, Chagas estava no Maranh&atilde;o. Ent&atilde;o, ele j&aacute; tinha essa prova circunstancial, vamos dizer. Os crimes do Maranh&atilde;o, no come&ccedil;o, quando o Chagas ainda morava em Altamira, s&oacute; aconteceram nas datas em que ele veio pro Maranh&atilde;o. E depois passam a ser em um lapso de tempo mais estreito quando ele se muda definitivamente pro Maranh&atilde;o. E j&aacute; existia essa d&uacute;vida. Essa d&uacute;vida j&aacute; era presente. Agora, quais s&atilde;o os casos? O Diniz me mandou esse material, e as minhas paredes ficaram igual filme, com um quadro imenso. Nesse estudo, j&aacute; eram citadas as crian&ccedil;as de Altamira, mas ainda sem documenta&ccedil;&atilde;o. Ele me mandou os casos de crian&ccedil;as que constavam na for&ccedil;a-tarefa, crian&ccedil;as assassinadas no Maranh&atilde;o. Desses, depois do meu estudo junto com o Andr&eacute;, a gente j&aacute; eliminou tr&ecirc;s ou quatro que n&atilde;o tinham nada a ver, n&atilde;o tinham o mesmo padr&atilde;o, longe de ter o mesmo padr&atilde;o. Inclusive, depois foi interessante confirmar com o Chagas porque em alguns casos que eu citei, ele falou &ldquo;minha nossa, mas eu n&atilde;o mato assim, isso &eacute; horr&iacute;vel, n&atilde;o &eacute; assim que eu mato&rdquo;. De fato, ele mata de uma outra maneira. Tinha um caso de Cod&oacute;, que depois houve uma discord&acirc;ncia tamb&eacute;m com a promotoria, que quis colocar no rol de casos do Chagas, e que eu, particularmente, n&atilde;o concordei. Era uma crian&ccedil;a que estava amarrada. Pra mim, era um copycat.&nbsp; A&iacute; fizemos essa limpa, ficamos com um n&uacute;mero mais reduzido de casos. Eu j&aacute; conversava direto com o Diniz e com o Benilton quando fui pro Maranh&atilde;o. Fui explicar essa conex&atilde;o tanto pros peritos da Pol&iacute;cia Cient&iacute;fica do Maranh&atilde;o quanto pra uma outra confer&ecirc;ncia de ju&iacute;zes. Eu dei uma palestra l&aacute;. A per&iacute;cia foi especialmente contundente &agrave; minha palestra porque muitos peritos ali presentes tinham feito locais de crime do Chagas. E a&iacute; quando eu conectei a quest&atilde;o das moitas de tucum, que estavam presentes em cada local de crime, todo mundo disse &ldquo;mas tinha mesmo. Nem sei se eu pus isso no laudo, mas eu me lembro&rdquo;. Teve uma intera&ccedil;&atilde;o importante de informa&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m. Porque o perfil criminal &eacute; uma coisa muito din&acirc;mica. N&atilde;o &eacute; uma coisa est&aacute;tica. A informa&ccedil;&atilde;o que vem da per&iacute;cia, da pol&iacute;cia, vai te alimentando pra voc&ecirc; refinar o trabalho que est&aacute; fazendo. &Eacute; din&acirc;mico isso, n&eacute;? Quando uma profiler participa de uma for&ccedil;a-tarefa, est&aacute; chegando informa&ccedil;&atilde;o a todo tempo. Voc&ecirc; tem que estar atento. O perito n&atilde;o &eacute; uma m&aacute;quina fotogr&aacute;fica. &Agrave;s vezes ele tem um caderno de rascunho. Muitos usaram isso. Eles foram buscar nos seus cadernos de rascunho coisas que anotaram. Quem acharia importante colocar num laudo de local que tinha moita de tucum? Quando o Chagas confessa e fala da import&acirc;ncia da moita de tucum, que ela representava o n&uacute;mero de mutila&ccedil;&otilde;es, isso vai ficar crucial, n&eacute;? Vamos l&aacute;, vamos buscar a informa&ccedil;&atilde;o, ver se confere. Ent&atilde;o eu fui pra l&aacute;.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Voc&ecirc; sabe que eu sou sobrinha do Boris [Casoy], n&eacute;? Foi a &uacute;nica vez na vida que o Boris ligou pra mim e falou &ldquo;cuidado, cuidado. Voc&ecirc; est&aacute; desagradando muita gente com essa tese de serial killer. Muita gente vai ficar descontente. Porque a&iacute; tem assassinos confessos, ent&atilde;o n&atilde;o foram eles?&rdquo;.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>E eu levei essa preocupa&ccedil;&atilde;o pro Diniz e pro Benilton, e eu fiquei guardada no Maranh&atilde;o. Fiquei muito guardada por eles, com muita seguran&ccedil;a.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Eu queria voltar um pouquinho porque tem uma coisa importante, Ilana, que voc&ecirc; me falou uma vez. Em 26 de mar&ccedil;o de 2004, o Chagas ainda n&atilde;o tinha confessado os crimes, mas j&aacute; estava preso h&aacute; quatro meses. Ent&atilde;o &eacute; feita aquela busca e apreens&atilde;o na casa dele, e s&atilde;o encontradas ossadas. Eu sei que voc&ecirc; tem uma hist&oacute;ria sobre essa busca.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Tenho. Essa hist&oacute;ria &eacute; super importante porque o Chagas n&atilde;o confessava, e ningu&eacute;m queria conseguir a confiss&atilde;o dele de uma maneira que n&atilde;o fosse ver&iacute;dica e comprov&aacute;vel. E &eacute; por isso que o Diniz me mandou os casos, pra construir esse perfil e planejar uma busca de provas. A gente precisava provar. O que tinha n&atilde;o bastava. Imagina provar em s&eacute;rie, n&eacute;? Eu e o Andr&eacute; trabalhamos em tudo o que foi encontrado tanto em local quanto nas necropsias. E eu cheguei &agrave; conclus&atilde;o na elabora&ccedil;&atilde;o desse perfil que essas partes que o Chagas mutilava, num primeiro momento, eram enterradas. Havia a possibilidade de ele ter enterrado, numa fase depois, os corpos mesmo. Dentro dessa perspectiva, eu pedi pra for&ccedil;a-tarefa verificar se na casa do Chagas existia terra de cor diferente. Ou seja, mais rec&eacute;m colocada. E a&iacute; o Diniz fundamenta uma busca e apreens&atilde;o na casa onde o Chagas morava. Enquanto essa burocracia corria de um lado, de outro lado eu planejava juntamente com&hellip; Gente, nada eu fiz sozinha, t&aacute;? For&ccedil;a-tarefa n&atilde;o &eacute; de uma pessoa. &Eacute; m&uacute;ltiplo, eram v&aacute;rias pessoas pensando. Ent&atilde;o a gente come&ccedil;ou um planejamento, dentro do meu conhecimento, de como interrogar o Chagas, como fazer isso na hora que tiv&eacute;ssemos a prova. Por qu&ecirc;? Pelo tipo de serial killer como &eacute; o Chagas, n&atilde;o adianta voc&ecirc; falar pra ele &ldquo;pense na m&atilde;e das crian&ccedil;as.&rdquo;. Imagina. N&atilde;o pensou nem nas crian&ccedil;as, vai pensar na m&atilde;e? &ldquo;Ah, voc&ecirc; vai se sentir melhor&rdquo;. N&atilde;o vai, n&eacute;? Voc&ecirc; tem que ter um planejamento de como interrogar esse cara. Como &eacute; eficiente? Que horas &eacute; melhor interrogar esse cara? De manh&atilde;, &agrave; tarde ou &agrave; noite? Que tom voc&ecirc; usa? Voc&ecirc; usa um tom paternal? Voc&ecirc; usa um tom professoral? Voc&ecirc; p&otilde;e uma mulher ou um homem? Tinha uma quest&atilde;o que atrapalhou muito tamb&eacute;m. Um psiquiatra deu uma entrevista na &eacute;poca falando que o Chagas era homoer&oacute;tico, que ele era homossexual, um louco. E a&iacute; ficou mais grave ainda confessar todos esses crimes. Ent&atilde;o, voc&ecirc; tinha uma s&eacute;rie de dificuldades que precisavam ser ultrapassadas. Desde afirmar a masculinidade dele&hellip; Isso tudo tem que ser antes porque n&atilde;o adianta voc&ecirc; pensar na hora. Porque eu tinha confian&ccedil;a que a gente ia encontrar provas nessa busca. Claro, o sonho m&aacute;ximo seria achar corpos inteiros, como no fim foram encontrados. Mas a gente pensava em ossos, n&eacute;? Nisso, o Andr&eacute; foi muito importante porque tinha que separar o que era a&ccedil;&atilde;o de animal do que era a&ccedil;&atilde;o humana. Porque cachorros tamb&eacute;m levam ossos. Cachorros, animais, a pr&oacute;pria fauna do local. No dia da busca e apreens&atilde;o, esse dia que voc&ecirc; citou, teve um pedido meu de n&atilde;o deixar o Chagas ouvir&hellip; A m&iacute;dia toda estava&hellip; Foi feito com uma escavadeira, pra voc&ecirc; ter ideia. Era o que t&iacute;nhamos na &eacute;poca. Ent&atilde;o, as not&iacute;cias e os coment&aacute;rios do r&aacute;dio n&atilde;o chegaram no Chagas nesse dia. Por qu&ecirc;? Porque &agrave;s vezes os jornalistas n&atilde;o percebem, mas montam a narrativa pra esses indiv&iacute;duos. Quando eles fazem uma pergunta que parece inocente: &ldquo;voc&ecirc; apanhava da sua m&atilde;e?&rdquo; O cara j&aacute; fala &ldquo;opa, isso &eacute; importante&rdquo;. A&iacute; pronto, vai montando as suas desculpas, os seus &aacute;libis. Era importante que o Chagas estivesse limpo dessas informa&ccedil;&otilde;es quando esse interrogat&oacute;rio come&ccedil;asse.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Esse foi todo o esquema que a gente montou. A busca e apreens&atilde;o, a escava&ccedil;&atilde;o na casa do Chagas, foi o fim dessa estrada. E a&iacute; come&ccedil;a o interrogat&oacute;rio planejado. O Chagas, por exemplo, &eacute; muito matutino. Ent&atilde;o, quando voc&ecirc; conversa com ele &agrave;s 7h, o cara est&aacute; a milh&atilde;o por hora. Est&aacute; acordad&iacute;ssimo, alerta, defendido. Quando v&atilde;o chegando 15h, 16h, ele est&aacute; mais baixo dessa tens&atilde;o toda. Parece pouca coisa, n&eacute;? Mas voc&ecirc; vai juntando todas essas quest&otilde;es. Teve a quest&atilde;o de reafirmar a masculinidade&hellip; E a&iacute; come&ccedil;a o interrogat&oacute;rio do Chagas, que eu acompanhei aqui de S&atilde;o Paulo. Eu n&atilde;o estava l&aacute;. Era importante tamb&eacute;m que estivesse com a pol&iacute;cia, n&eacute;? O Diniz falava comigo tr&ecirc;s, quatro vezes por dia. A gente foi alinhando. Sempre come&ccedil;ava pelo Jonnathan, pra chegar em Altamira. At&eacute; que, j&aacute; tendo informa&ccedil;&atilde;o de tudo o que ele estava respondendo e o que n&atilde;o estava, l&aacute; pelo terceiro dia surgiu uma ideia. Gente, ele &eacute; muito organizado. Ele &eacute; muito met&oacute;dico. Ele tem um &ldquo;TOC&rdquo;, digamos assim. Ent&atilde;o surgiu a ideia: &ldquo;vamos come&ccedil;ar pelo come&ccedil;o&rdquo;. Ele s&oacute; sabe come&ccedil;ar pelo come&ccedil;o. Ele n&atilde;o est&aacute; sabendo come&ccedil;ar pelo fim. Vamos come&ccedil;ar por Altamira. Primeiro os meninos de l&aacute;, os sobreviventes e tal. &Eacute; a&iacute; que o Chagas come&ccedil;a a falar e vai um por um at&eacute; os 45 relatos que fez pro Diniz, pra equipe toda da for&ccedil;a-tarefa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Eu tenho aqui a linha do tempo. Depois que s&atilde;o encontradas as ossadas na casa dele, no dia 27 de mar&ccedil;o ele j&aacute; confessa o Jonnathan e mais oito crian&ccedil;as.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> &Eacute;. Mas ainda &eacute; confuso, entendeu? Voc&ecirc; n&atilde;o conseguia montar com ele. Porque assim, qual &eacute; o meu papel nesse planejamento todo? &Eacute; tentar colocar o cara num t&uacute;nel, que ele comece a contar tudo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Tem que entrar na l&oacute;gica dele, no racioc&iacute;nio dele.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Isso. Eu agrade&ccedil;o muito a confian&ccedil;a que o Diniz, o Benilton, a Geraulides tiveram em mim, porque o Chagas realmente n&atilde;o sabia dessas provas. Mas quando ele &eacute; confrontado com provas, muda tudo. Por isso que ele come&ccedil;a a falar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Pelo o que voc&ecirc; est&aacute; me falando, &eacute; esse processo de tentar entender como funciona a forma de ele relembrar. No final de abril, ou seja, um m&ecirc;s depois, ele come&ccedil;a a confessar Altamira.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Acho que a&iacute; eu fui&hellip; Eu n&atilde;o sei quem te deu a linha do tempo&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Eu estou olhando pelo processo e pelas mat&eacute;rias da &eacute;poca, t&aacute;?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> N&atilde;o, mas a gente teve que sair do come&ccedil;o pra ele chegar&hellip; Em 26 de mar&ccedil;o &eacute; a apreens&atilde;o. Ent&atilde;o pode ser primeiro de abril, n&atilde;o sei. Mas &eacute; logo quando entendemos que ele vai contar do come&ccedil;o pro fim, que a gente j&aacute; tinha uma razo&aacute;vel certeza dos crimes de Altamira. Porque a for&ccedil;a-tarefa j&aacute; tinha material dos casos de Altamira. Ent&atilde;o ele come&ccedil;a a falar do caso zero.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> &Eacute;. Eu vou te falar o que eu tenho aqui, inclusive baseado nas falas da Comiss&atilde;o de Direitos Humanos de 2004. Logo no primeiro interrogat&oacute;rio, quando o Chagas ainda est&aacute; negando os crimes, ele j&aacute; fala que morou em Altamira por um tempo. A&iacute; o pessoal j&aacute; come&ccedil;a&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Porque a pol&iacute;cia j&aacute; tem&hellip; O Diniz, super competente, e a equipe de investiga&ccedil;&atilde;o j&aacute; acham&hellip; Porque o Chagas tem consultas no Maranh&atilde;o. Ele tem uma irm&atilde; que mora no Maranh&atilde;o. Ent&atilde;o eles j&aacute; levantam todo esse tr&acirc;nsito dele, os registros de consulta. O Chagas tem lepra, ele fazia consultas regulares. Isso tudo &eacute; comprovado, as idas e vindas, e as mortes nos per&iacute;odos em que ele est&aacute; no Maranh&atilde;o. Com isso ele j&aacute; tinha sido confrontado, mas n&atilde;o falava nada. A&iacute; quando os corpos s&atilde;o encontrados, ele vai e conta tudo. Mas conta assim&hellip; Me d&aacute; esse espa&ccedil;o pra eu explicar o seguinte: n&atilde;o &eacute; &ldquo;matei Jo&atilde;o. Ah, matei&hellip;&rdquo;. N&atilde;o &eacute; isso. Ele conta com riqueza de detalhes toda a abordagem dele com aquela crian&ccedil;a espec&iacute;fica. Que roupa ela estava usando; o que ele conversou; se era pra catar manga ou a&ccedil;a&iacute;, ou ca&ccedil;ar passarinho; e onde aquela crian&ccedil;a estava no momento da abordagem. Depende da &eacute;poca do ano tamb&eacute;m. A abordagem n&atilde;o &eacute; no local onde ele matou. Ele leva a crian&ccedil;a pro local onde tem tudo o que ele precisa. As confiss&otilde;es dele s&atilde;o ricas em detalhes. Algumas, raras, ele n&atilde;o lembra de alguma coisa. Mas ele conta&hellip; O menino do supermercado, o Rosinaldo&hellip; O&nbsp; Chagas conta a camiseta que ele usava, que era vermelha. Acho que ainda me lembro&hellip; A conversa, os saquinhos de supermercado, tudo. Isso n&atilde;o estava nos autos, n&eacute;? N&atilde;o constava. S&atilde;o informa&ccedil;&otilde;es que ele est&aacute; dando.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;:<\/em><\/strong><em> Ilana, nesse momento em que ele come&ccedil;a a falar de Altamira, que informa&ccedil;&otilde;es a Pol&iacute;cia Civil do Maranh&atilde;o j&aacute; tinha em m&atilde;os sobre os casos de Altamira? E o que foi descoberto pelo Chagas? Como foi esse processo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Tain&aacute;, j&aacute; existia o caso de Altamira. Existe uma maldade cronol&oacute;gica no caso de Altamira que eu acho muito impressionante. Em outubro de 2003, h&aacute; o julgamento. Acontece o julgamento de Altamira.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Em agosto e setembro.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Isso. Em dezembro, o Chagas &eacute; preso e come&ccedil;a a confessar esses crimes em mar&ccedil;o, abril. Ent&atilde;o, olha que tristeza, n&eacute;? Se fosse um pouquinho pra l&aacute;, um pouquinho pra c&aacute;, teria sido outra hist&oacute;ria. Esses casos l&aacute; no Nordeste eram p&uacute;blicos e not&oacute;rios. Todo mundo que tinha dois neur&ocirc;nios imaginava que eles estavam interligados. Porque &eacute; uma fantasia muito espec&iacute;fica. O Diniz tinha tudo o que ele podia em casa. Agora, o material de Altamira era muito par&hellip; O Maranh&atilde;o tem 30 v&iacute;timas. O material das v&iacute;timas tamb&eacute;m &eacute; par&hellip; Por que que serial killers escolhem as crian&ccedil;as pobres e n&atilde;o as ricas? Crian&ccedil;a &eacute; crian&ccedil;a. Mas voc&ecirc; tem a&iacute; uma quest&atilde;o do nosso racismo estrutural, de pessoas que n&atilde;o s&atilde;o procuradas, investiga&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o acontecem. E &eacute; o que acontece nesse caso. S&atilde;o todos meninos pobres, carentes. Ningu&eacute;m estava em busca dessas crian&ccedil;as desaparecidas. Na minha apresenta&ccedil;&atilde;o de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o, eu tinha um mosaico, um slide, com o rosto desses meninos. Porque me incomoda [o termo] &ldquo;as v&iacute;timas&rdquo;. Gente, eles t&ecirc;m m&atilde;e, pai, irm&atilde;o, rosto, cara, jeito, hist&oacute;ria. Cada um &eacute; um ali. E ficam nublados por esse assunto enorme que &eacute; esse caso. Ent&atilde;o o Diniz foi pedindo tudo o que podia. Porque quando a gente conduziu o planejamento do interrogat&oacute;rio, eu ainda n&atilde;o tinha feito essa separa&ccedil;&atilde;o de padr&atilde;o nos casos de Altamira como fiz no Maranh&atilde;o. Tem alguns casos que voc&ecirc; abre e j&aacute; est&aacute; tudo na lata, tudo o que voc&ecirc; precisa est&aacute; l&aacute;. Tem caracter&iacute;sticas do Chagas que s&atilde;o &uacute;nicas. Por isso que em Cod&oacute; eu n&atilde;o acredito que seja um caso dele. Al&eacute;m do menino estar amarrado, a emascula&ccedil;&atilde;o acontece cortando o shorts dele. O que acontece? O Chagas ficou horrorizado com esse caso. Por qu&ecirc;? Se voc&ecirc; olhar pra todos os casos dele, muitas crian&ccedil;as s&atilde;o encontradas ainda de shorts. Ele tira a roupa do menino, o emascula e o veste de novo. A emascula&ccedil;&atilde;o, pra ele, n&atilde;o ocorre dessa forma, por cima. N&atilde;o &eacute; s&oacute; o fator de arrancar o p&ecirc;nis do menino. Tem mais coisas envolvidas no ritual dele do que puramente a emascula&ccedil;&atilde;o, entendeu? Gente, tem a&ccedil;&atilde;o de animal tamb&eacute;m. &ldquo;Ah, ele cegou as crian&ccedil;as&rdquo;. O primeiro lugar onde o urubu vai &eacute; o olho. Voc&ecirc; tem que come&ccedil;ar a entender o que acontece com um corpo numa mata tropical e separar o que &eacute; a&ccedil;&atilde;o de animal e o que n&atilde;o &eacute;.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> O processo de putrefa&ccedil;&atilde;o na floresta amaz&ocirc;nica tamb&eacute;m &eacute; outro, n&eacute;?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>&Eacute; outro. Tem que estudar. &Eacute; bem dif&iacute;cil, bem dif&iacute;cil.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Voltando na linha do tempo, o Chagas &eacute; preso em dezembro, e em fevereiro voc&ecirc; &eacute; contatada. Em mar&ccedil;o, h&aacute; a busca e apreens&atilde;o na casa dele e os corpos s&atilde;o encontrados. Um m&ecirc;s depois, ele come&ccedil;a a confessar os crimes. No final de abril, ele j&aacute; confessa inclusive os de Altamira. &Eacute; nesse per&iacute;odo que voc&ecirc; vai pro Maranh&atilde;o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Foi em abril. Deixa eu falar uma coisa importante aqui. Voc&ecirc;s do podcast separam muito Altamira do Maranh&atilde;o. Exercitem-se, n&atilde;o separem. Isso &eacute; uma coisa s&oacute;, &eacute; um fluxo. N&atilde;o d&aacute; pra separar dentro da mente humana, ou do Chagas, os casos de Altamira e os casos do Maranh&atilde;o. Porque pra ele &eacute; um caso. Ent&atilde;o ele fala do Maranh&atilde;o, da&iacute; fala de Altamira&hellip; N&atilde;o. &Eacute; uma coisa. A gente s&oacute; conseguiu prosseguir com um trabalho eficiente porque entendeu que era uma coisa s&oacute;. N&atilde;o tem essa linha geogr&aacute;fica, n&atilde;o existe nesse caso. Tanto que eu fico extremamente frustrada que uma metade tenha que ser julgada pra c&aacute;, e a outra pra l&aacute;. A gente est&aacute; 30 anos atrasado dos Estados Unidos, onde a federal lida com crimes s&eacute;rios porque &eacute; nacional. N&atilde;o fica mais essa linha de uma justi&ccedil;a que cuida de um estado, e outra que cuida de outro. Porque aqui n&oacute;s estamos falando de um crime enorme que durou d&eacute;cadas, mas que &eacute; um s&oacute;.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>&Eacute; bem interessante o que voc&ecirc; falou. Voc&ecirc; diz que, no caso dos Estados Unidos, o Chagas passaria por um j&uacute;ri s&oacute; em vez de passar por tantos?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Provavelmente. O Gacy, o Dahmer&hellip; Aqui, como a gente n&atilde;o tem a figura jur&iacute;dica, isso n&atilde;o pode acontecer. N&atilde;o existe a figura em s&eacute;rie aqui. Ainda n&atilde;o. Ent&atilde;o, est&aacute; fora de quest&atilde;o.&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>T&aacute;. Me conta como foi essa ida pra falar com o Chagas. Nesse per&iacute;odo ele j&aacute; est&aacute; confessando tudo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Assim, eu posso n&atilde;o ajudar, mas jamais posso atrapalhar. Isso &eacute; uma quest&atilde;o. Ent&atilde;o, a pesquisa vem depois do trabalho policial, n&eacute;? Eu fui pra l&aacute; dar essas palestras tanto pro Minist&eacute;rio P&uacute;blico e magistratura quanto pra Pol&iacute;cia Cient&iacute;fica, al&eacute;m de conversar com o Chagas. As duas coisas acontecem. Foi a primeira vez que eu fui, n&atilde;o a &uacute;ltima. Depois eu fui conversar filmando, mas foi outro momento. Nesse momento, foi a primeira vez que eu tive contato direto com ele e, claro, foi muito interessante. Ele estava muito bem instalado na delegacia, muito bem tratado. Eu at&eacute; tive uma conversa com outro delegado&hellip; Esqueci o nome dele. Ele andava com uma arma na cintura num coldre meio mole, meio inseguro. E o Chagas almo&ccedil;ava com a gente, n&eacute;? N&atilde;o estava na cela. Porque, gente, n&atilde;o parece, t&aacute;? Ele n&atilde;o tem cara de mau, jeito de mau, ou &eacute; mal educado. N&atilde;o &eacute; isso. Ele estava ali colaborando e tal. E a&iacute; eu brinquei um dia com esse delegado. Falei &ldquo;o senhor entendeu que ele matou mais de 40 crian&ccedil;as? Pra ele pegar essa arma que est&aacute; dando sopa na sua cintura e fazer um espet&aacute;culo aqui n&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil&rdquo;. &Eacute; muito estranho, parece fic&ccedil;&atilde;o, n&eacute;? S&oacute; que n&atilde;o. Ent&atilde;o, claro que voc&ecirc; tem o impacto porque olha um cara desse, que seria tranquilamente algu&eacute;m que voc&ecirc; colocaria dentro da sua casa pra fazer qualquer servi&ccedil;o. Um cara que conserta bicicleta, tem habilidade. Voc&ecirc; est&aacute; l&aacute; sentada pra almo&ccedil;ar, e ele na sua frente. Voc&ecirc; fica pensando&hellip; Nossa, esses meninos dos quais eu me lembro, que eu conheci o rosto, que eu conheci a hist&oacute;ria, que eu ouvi em todas as confiss&otilde;es, que agora eu sei o que falaram e o que n&atilde;o disseram, sabe? &Eacute; dif&iacute;cil voc&ecirc; trazer isso pra dentro do mesmo lugar mental, n&eacute;? Por isso que as linhas divis&oacute;rias v&atilde;o sumindo. Por isso que eu falo que o crime &eacute; um recorte da vida daquele indiv&iacute;duo, &eacute; um momento. Mas n&atilde;o &eacute; a vida dele toda. Se o mau tivesse cara de mau, ningu&eacute;m sofria dele. T&atilde;o perverso e n&atilde;o tem cara de perverso. Ent&atilde;o, o Chagas parece uma pessoa normal.&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Eu acho que pra mim a maior dificuldade &eacute; n&atilde;o julgar. Porque se eu partir pra um julgamento, eu n&atilde;o consigo mais trabalhar nada. Eu n&atilde;o consigo mais saber nada dele. Ele entra numa defensiva. Muita terapia pra mim, n&eacute;? Eu tenho muita noite insone, pesadelos, porque &eacute; tudo muito contradit&oacute;rio. Claro que voc&ecirc; vai ganhando treino e aprendendo. Mas o Chagas foi a minha primeira experi&ecirc;ncia dentro de um caso real. Eu estava no caso Richthofen l&aacute; em 2002? Sim. Mas aqui eu estava de pe&ccedil;a da for&ccedil;a-tarefa, o que era completamente diferente. Eu acompanhei o caso Richthofen como escritora, como pesquisadora. Eu estava fazendo o meu est&aacute;gio na per&iacute;cia. Mas aqui n&atilde;o. Aqui eu estava como parte funcional daquele grupo. Ent&atilde;o, e a responsabilidade? Voc&ecirc; nem dorme&hellip; Da responsabilidade&hellip; Muitas vidas&hellip;&nbsp; Quando eu volto de uma jornada dessas, eu estou exausta, n&eacute;? &ldquo;Ah, voc&ecirc; fica de cama?&rdquo; Fico, gente. Fico de cama porque eu estou exausta, tanto emocionalmente quanto fisicamente. &Eacute; uma maratona. Mas a boa not&iacute;cia &eacute; que no fim teve um resultado incr&iacute;vel. Tudo o que a gente conseguiu foi levado a j&uacute;ri. O Chagas j&aacute; foi submetido a sei l&aacute; quantos j&uacute;ris. Tudo com riqueza de provas e de detalhes, riqueza das confiss&otilde;es dele, coisas inquestion&aacute;veis.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;:<\/em><\/strong><em> Ilana, voc&ecirc; falou de objetivo. Qual era o seu objetivo quando voc&ecirc; foi conversar com o Chagas e quais estrat&eacute;gias, como crimin&oacute;loga, voc&ecirc; usou pra conseguir isso?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Eu usei aquilo que eu te contei. Muito voc&ecirc; vai percebendo no interrogat&oacute;rio. Tem um momento em que ele est&aacute; conversando comigo, me respondendo, a&iacute; para e fala assim: &ldquo;falei demais&rdquo;. &Eacute; importante voc&ecirc; estar completamente focada no que ele est&aacute; dizendo, que horas ele est&aacute; pegando a bala de goma que a gente punha l&aacute;, o caju&hellip; At&eacute; hoje pra comer caju eu penso duas vezes. Ele ama caju. Quando ele vai botar a m&atilde;o no caju, que eu tamb&eacute;m vou ter que comer pra ele achar que &eacute; nosso, voc&ecirc; acha que eu n&atilde;o me arrepio? Essa m&atilde;o que estrangulou quantos meninos? &Eacute; dif&iacute;cil, gente. E voc&ecirc; vai montando estrat&eacute;gias que v&atilde;o dando certo, escolhendo caminhos e tomando decis&otilde;es. Eu sempre fui com um psic&oacute;logo, t&aacute;? A Maria Adelaide Caires ou o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/antonio-de-padua-serafim\/\" target=\"_self\" title=\"Psic&oacute;logo que realizou o segundo exame em Chagas, em 2004\" class=\"encyclopedia\">Ant&ocirc;nio de P&aacute;dua Serafim<\/a>. Ele tamb&eacute;m esteve comigo. N&atilde;o lembro se ele falou com o Chagas comigo, mas ele esteve no Maranh&atilde;o comigo. Por qu&ecirc;? Porque eu n&atilde;o posso causar um breakdown no cara. Gente, acontece. Tem que tomar cuidado psicologicamente tamb&eacute;m com o que voc&ecirc; est&aacute; cutucando ali. Porque nem sempre est&aacute; tudo t&atilde;o claro na cabe&ccedil;a dele. Tamb&eacute;m n&atilde;o est&aacute;, n&eacute;? Voc&ecirc; tem que justamente entrar sem julgamento pra entender que, de alguma maneira, pra ele aquilo tamb&eacute;m &eacute; muito&hellip; Ele tamb&eacute;m n&atilde;o sabe por que ele faz isso. Ele tamb&eacute;m n&atilde;o entende bem o processo dele. N&atilde;o &eacute; como um crime de assalto a banco, que tem todo um planejamento espec&iacute;fico. Voc&ecirc; usa tudo o que conhece, e de interrogat&oacute;rio eu posso ficar falando aqui uma semana de curso, Tain&aacute;. Tem v&aacute;rias estrat&eacute;gias, desde o uso de prova, mudan&ccedil;a de tom, at&eacute; o hor&aacute;rio do dia. Ou a quebra de rotina quando o cara pensa que, como ontem acabou &agrave;s 16h e hoje acabou &agrave;s 16h, hoje vai acabar &agrave;s 16h. Voc&ecirc; acaba &agrave;s 11h30, o devolve pra cela e n&atilde;o fala mais nada, s&oacute; aparece no dia seguinte. Voc&ecirc; tem que ter tempo, paci&ecirc;ncia. Quando ele acha que voc&ecirc; vai perguntar do crime, voc&ecirc; n&atilde;o vai mais. &ldquo;Hoje eu n&atilde;o quero falar de crime, quero falar de inf&acirc;ncia, me conta a&iacute; da sua av&oacute;&rdquo;. Que era uma parte importante. O Chagas tem uma hist&oacute;ria de inf&acirc;ncia bem trincada, bem complicada. Por exemplo, a quest&atilde;o dos dedos que ele amputa. N&atilde;o sei se voc&ecirc;s t&ecirc;m essa informa&ccedil;&atilde;o, t&ecirc;m? Por que ele amputa os dedos?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> O motivo n&atilde;o temos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Eu tenho. O motivo dele qual era? Simbolicamente? Quem criava o Chagas era a av&oacute;. Quando ele fazia alguma coisa errada, a av&oacute; botava os dedos dele em cima do tampo da mesa, pegava um fac&atilde;o e fingia que ia cortar. &ldquo;Vou cortar, vou cortar&rdquo;. E dava a facada na mesa, n&atilde;o no dedo. Esses momentos com a av&oacute;, na amea&ccedil;a de perder os dedos pelo pecado que cometeu, eram horr&iacute;veis. E a&iacute; eu fui entender, por exemplo, por que ele mutilava os dedos de tantos meninos. Porque n&atilde;o &eacute; s&oacute; a emascula&ccedil;&atilde;o. Vai cortar a m&atilde;o, vai cortar um dedo, todos os dedos. A gente queria entender tudo. Ent&atilde;o, tem que ter paci&ecirc;ncia. A confiss&atilde;o eu j&aacute; tinha, muito detalhada. Tem um policial, n&atilde;o vou contar de que estado, que falava pra mim &ldquo;doutora, a senhora demora muito, me d&aacute; meia hora aqui que eu j&aacute; resolvo&rdquo;. N&atilde;o quero em meia hora, n&eacute;? Eu n&atilde;o tinha prazo. Isso &eacute; muito importante pra voc&ecirc; checar tudo o que est&aacute; sendo dito, estudar e usar as estrat&eacute;gias que funcionaram aqui em novos casos.&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Voc&ecirc; pode, ent&atilde;o, falar por que o Chagas matava e como era o ritual dele?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Ele n&atilde;o me contou. O ritual eu posso. Como ele matava? Por que ele matava? Eu tenho desconfian&ccedil;as. Porque pra mim todos os meninos eram duplas, n&atilde;o eram &uacute;nicos. Mesmo se n&atilde;o s&atilde;o aqueles que ele matou juntos, eles sempre s&atilde;o em dupla. Eles formam duplas. Essas duplas t&ecirc;m uma simetria de mutila&ccedil;&otilde;es. Elas formam um. As duas juntas formam um. Dificilmente voc&ecirc; consegue conversar com ele se n&atilde;o entender que, pra ele, cada duas significa uma. Ele disse que eu ia amadurecer, ficar mais sabida, da&iacute; eu ia entender por que ele matava, mas que estava relacionado ao pecado original. Da&iacute; depois eu achei o 14:21, do profeta Isa&iacute;as.&nbsp;Vamos jogar um Google aqui&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Eu vou ler aqui, eu j&aacute; encontrei. &ldquo;Preparem um local para matar os filhos dele por causa da iniquidade dos seus antepassados, para que eles n&atilde;o se levantem para herdar a terra e cobri-la de cidades&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> E tem a matan&ccedil;a das crian&ccedil;as, n&atilde;o tem?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> &ldquo;Preparai a matan&ccedil;a para os filhos por causa da maldade de seus pais, para que n&atilde;o se levantem e possuam a terra&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Esse &eacute; um ponto crucial. Os pais. O Chagas despreza todos os pais das crian&ccedil;as que ele matou. Como pais. Ele foi um menino abandonado por pai e m&atilde;e. Essas crian&ccedil;as n&atilde;o eram abandonadas, mas ele&hellip; N&atilde;o estou dizendo que eram maus pais, por favor. Estou dizendo que, na vis&atilde;o dele, eles n&atilde;o estavam de acordo com a r&eacute;gua top de ser pai e m&atilde;e. E tem essa rela&ccedil;&atilde;o, o pecado original. Quando voc&ecirc; o mata na origem pra n&atilde;o povoar a terra de novos pecadores, n&eacute;? Porque voc&ecirc; vem dessa linhagem, de pais que s&atilde;o pecadores. Ent&atilde;o, eu acho que tem essa linha b&iacute;blica do Chagas, apesar de ele n&atilde;o ser um cara de frequentar igreja. A av&oacute; dele era m&eacute;dium. Ele tinha pavor, e ele tinha pavor de igreja tamb&eacute;m.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Mas essa quest&atilde;o da passagem do Isa&iacute;as, ele citava?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> N&atilde;o. Ele falava do pecado original. Da&iacute; quando eu li&hellip; Fui tentar entender o Chagas, n&eacute;? Vamos ler a B&iacute;blia, faz bem. Quando eu achei o Isa&iacute;as, da matan&ccedil;a das crian&ccedil;as pelo pecado dos pais, acendeu&hellip; Estamos falando disso.&nbsp;O Benilton me prometeu que, antes de eu morrer, ele vai me levar l&aacute; pra confirmar com o Chagas a tese de Isa&iacute;as. N&atilde;o sei se ela &eacute; verdade. Mas ele agora nega os crimes.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Outra coisa, por exemplo. A av&oacute; fazia uma lista na parede das contraven&ccedil;&otilde;es dele, das coisas que ele fazia de errado. Quando chegava no n&uacute;mero oito, ele tinha que escolher uma vara de marmelo porque ia apanhar. S&atilde;o coisas que v&atilde;o marcando. Tinha um abusador. A av&oacute; tinha um cara que ficava tomando conta das crian&ccedil;as quando ela ia pra cidade. Pelo o que eu entendi, ele era um abusador tamb&eacute;m. Voc&ecirc; tem v&aacute;rias quest&otilde;es na hist&oacute;ria do Chagas que v&atilde;o fazer sentido com a simbologia dele. O ritual dele foi se sofisticando. Ent&atilde;o, eu vou dar um apanhado geral, t&aacute;? Nos crimes do come&ccedil;o podem faltar algumas coisas e pode ter mais alguma coisa nos crimes do final. O Chagas escolhia essa crian&ccedil;a. Eram crian&ccedil;as espec&iacute;ficas, n&atilde;o era qualquer uma que voc&ecirc; via. Porque era sempre um par com a anterior ou come&ccedil;ando uma dupla nova. Ele atra&iacute;a essa crian&ccedil;a pra dentro do mato. Fruta, catar a&ccedil;a&iacute;, manga, passarinho. Era sempre uma coisa bem inofensiva. Ele era agrad&aacute;vel com as crian&ccedil;as. As crian&ccedil;as n&atilde;o tinham por que temer o Chagas. E &eacute; tudo perto da casa dele, t&aacute;, gente?&nbsp;Ele escolhe. Provavelmente ele j&aacute; viu at&eacute; antes essas crian&ccedil;as ali brincando. Ia atr&aacute;s dessa crian&ccedil;a e a&iacute;, no relato dele, num certo momento, ele usava a seguinte frase: &ldquo;o vento muda&rdquo;. Ele precisa ter moitas de tucum perto de onde ele mata essas crian&ccedil;as. &Eacute; a moita de tucum que faz o vento virar, t&aacute;? &Eacute; sempre quando ele encontra as moitas de tucum. Dependendo de quantas moitas, vai ter rela&ccedil;&atilde;o com o n&uacute;mero de mutila&ccedil;&otilde;es que ele vai fazer naquela crian&ccedil;a. Ele n&atilde;o se acha cruel porque ele mata a crian&ccedil;a com uma gravata muito r&aacute;pida, uma crian&ccedil;a pequena. Ele acha que n&atilde;o provoca sofrimento ao matar essa crian&ccedil;a. Ao contr&aacute;rio, n&eacute;? Est&aacute; livrando a crian&ccedil;a do sofrimento. E a&iacute; todas as coisas que ele faz s&atilde;o post mortem. Por isso que ele n&atilde;o se acha cruel. No fim, ele j&aacute; fazia no ch&atilde;o uma cruz na terra com o dedo. Ele n&atilde;o tinha s&oacute; as mutila&ccedil;&otilde;es. Ele fazia um cone com tr&ecirc;s, cinco ou sete folhas, nunca n&uacute;mero par, sempre n&uacute;mero &iacute;mpar de folhas. Ele furava a crian&ccedil;a pra encher de sangue esse cone. Quando a pessoa j&aacute; morreu e o sangue n&atilde;o est&aacute; mais fluindo no corpo, n&atilde;o &eacute; t&atilde;o f&aacute;cil escorrer o sangue, juntar esse sangue. V&aacute;rias crian&ccedil;as t&ecirc;m v&aacute;rios cortes. Vou chamar de piques. V&aacute;rios piques na pele que n&atilde;o s&atilde;o das mutila&ccedil;&otilde;es. As mutila&ccedil;&otilde;es j&aacute; n&atilde;o sangrariam. Ele faz esses pequenos cortes e coleta o sangue nesse cone. A&iacute; ele forra a cruz com esse sangue, e &eacute; em cima dessa cruz com sangue e com o &oacute;rg&atilde;o sexual da crian&ccedil;a, no centro dela, que ele vai p&ocirc;r a v&iacute;tima. Em outros casos, ele vai levar isso embora. Essa crian&ccedil;a vai ser coberta com folhas de palmeira ou similares, e ele p&otilde;e umas pedras tamb&eacute;m demarcando esse lugar. Quando n&atilde;o deixa na cruz, ele leva o p&ecirc;nis e outras partes mutiladas at&eacute; o rio e coloca tudo na &aacute;gua corrente. Ele lava a faca na &aacute;gua corrente desse rio, ou muitas vezes dispensa a faca pra ter outra. N&atilde;o acho que l&aacute; no come&ccedil;o tinha o cone, a coleta de sangue. Eu acho que cada vez ele foi adicionando um comportamento e tornando esse ritual bastante complexo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> At&eacute; a forma de saber quando fazer a emascula&ccedil;&atilde;o, n&eacute;? Porque voc&ecirc; tem sobreviventes no in&iacute;cio. O relato de um deles diz que ele foi emasculado e desmaiou com o choque, da&iacute; acordou ensanguentado.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Eles foram emasculados em v&aacute;rios graus de gravidade, esses sobreviventes. &Eacute; uma escalada, n&eacute;? E a gente sabe de tr&ecirc;s. N&atilde;o sei se tem algum caso antes. Isso &eacute; uma coisa que em geral n&atilde;o se denuncia, infelizmente. Mas escalou e a&iacute; n&atilde;o parou mais.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Tudo o que voc&ecirc; est&aacute; falando bate. No in&iacute;cio de 92, quando morre o menino ind&iacute;gena, o Chipaia, ele tem furos no corpo. A fam&iacute;lia at&eacute; achava que era tiro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Ele tem. Todos t&ecirc;m, Ivan, todos t&ecirc;m.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>O Jaenes tem cortes de fac&atilde;o no corpo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Isso. Por isso que eu falo pra voc&ecirc;: tem que ter uma coer&ecirc;ncia entre a per&iacute;cia e o que o cara est&aacute; te contando. E tudo o que o Chagas conta tem coer&ecirc;ncia, o que est&aacute; constatado cientificamente. Porque ele n&atilde;o sabe explicar pra mim &ldquo;olha, os cortes s&atilde;o disso&rdquo;. Ele sabe falar assim &ldquo;ai, doutora, a senhora sabe como &eacute; dif&iacute;cil coletar o sangue, porque n&atilde;o sai&rdquo;. Eu sei que n&atilde;o sai. O Andr&eacute; Morrone sabe que n&atilde;o sai. Ele s&oacute; sabe porque ele furou as pessoas mortas. Por que uma pessoa leiga saberia disso? N&atilde;o sabe tamb&eacute;m. Algu&eacute;m j&aacute; experimentou ficar furando morto pra ver se sangra? Claro que n&atilde;o. Ent&atilde;o, &eacute; coerente.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;:<\/em><\/strong><em> Ilana, eu queria perguntar sobre a quest&atilde;o das viola&ccedil;&otilde;es sexuais, dos abusos sexuais. Porque o Chagas nunca confessa isso, mas quando a gente olha nos inqu&eacute;ritos, em alguns meninos voc&ecirc; vai ter&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Quantos? Quantos? Fala pra mim quantos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;:<\/em><\/strong><em> Sinais de&hellip; N&atilde;o vou lembrar de cabe&ccedil;a aqui. S&atilde;o alguns casos&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Vai sim, vamos l&aacute;. Vai sim, vai lembrar. Me fala na real. Eu estou te provocando porque eu sei&hellip; Me fala na real, quantos tem de fato. N&atilde;o suposi&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o porque est&aacute; sem shorts, com shorts. Quantos casos de abuso sexual s&atilde;o confirmados na necropsia?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Eu vou tentar encontrar aqui, Ilana. Acho que temos um dos interrogat&oacute;rios do Chagas em que a promotora est&aacute; falando sobre a amostra de s&ecirc;men encontrada que bateu com ele. Eu vou procurar aqui e j&aacute; te digo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Isso, procura. Procura sim. Porque da&iacute; vai ter dois ou tr&ecirc;s&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;:<\/em><\/strong><em> &Eacute;. Exatamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Voc&ecirc; tem um universo de 45. Cuidado. Crian&ccedil;as s&atilde;o v&iacute;timas de abuso sexual. Eu acho que esse caso que voc&ecirc; est&aacute; citando, Ivan, verifica&hellip; Eu acho que &eacute; o que n&atilde;o deu pra fazer o DNA, t&aacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Mas o teu ponto geral, Ilana, &eacute; que ele n&atilde;o abusava das v&iacute;timas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>N&atilde;o. O meu ponto geral &eacute; que isso n&atilde;o fazia parte do ritual dele. Era um ritual de purifica&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o um ritual de agress&atilde;o. Abuso sexual &eacute; agress&atilde;o. N&atilde;o &eacute; sexo, t&aacute;? Eu n&atilde;o me lembro de ter uma prova cabal de abuso sexual do Chagas. Eu n&atilde;o me lembro se &eacute; uma ou duas, um n&uacute;mero muito pequeno no universo de crian&ccedil;as, que t&ecirc;m sinais de abuso. Eu n&atilde;o descarto&hellip; Muito menos os familiares&hellip; Que 80% dos abusadores est&atilde;o entre a fam&iacute;lia, n&eacute;? Ent&atilde;o voc&ecirc; n&atilde;o sabe se aquela crian&ccedil;a foi abusada antes, depois ou durante.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;: <\/em><\/strong><em>No caso do Jonnathan, por exemplo, o documento diz: &ldquo;Laudos de an&aacute;lise da ossada apontaram para fraturas no &acirc;nus que corroboram a hip&oacute;tese de viola&ccedil;&atilde;o sexual, tendo amparo num testemunho prestado por Ruan&rdquo;, que foi o menino que falou que viu. &ldquo;Al&eacute;m disso, na pris&atilde;o, o exame teria sido feito no p&ecirc;nis do Chagas, onde les&otilde;es encontradas na glande, no sulco balanoprepucial e no freio do p&ecirc;nis do acusado s&atilde;o compat&iacute;veis com o trauma local, sugerindo a pr&aacute;tica de coito anal&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Mas, Tain&aacute;, vamos l&aacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;: <\/em><\/strong><em>Esse seria um.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> N&atilde;o &eacute; cabal. Entende o que eu estou dizendo? N&atilde;o &eacute; assim, desculpa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;: <\/em><\/strong><em>Claro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Sei l&aacute; o que o Chagas fez com o p&ecirc;nis dele. Mas est&aacute; meio longe, uma coisa e outra coisa. O Jonathan morre em dezembro, e o Chagas come&ccedil;a a confessar em abril.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:&nbsp;<\/em><\/strong><em> O Chagas cita em alguns depoimentos pra Pol&iacute;cia Federal uma vis&atilde;o que ele tinha de uma pessoa flutuando. Voc&ecirc; chegou a ouvir isso dele? Ou s&oacute; do vento?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>&Eacute;. Principalmente a Adelaide ouviu porque fez o laudo psicol&oacute;gico. O Ant&ocirc;nio ouviu. Ele fala dessa voz, desse comando. N&atilde;o d&aacute; pra checar, n&eacute;? A conclus&atilde;o de todos da &aacute;rea psi &eacute; que ele n&atilde;o &eacute; esquizofr&ecirc;nico. N&atilde;o tem um quadro psic&oacute;tico, que teria como caracter&iacute;stica essas alucina&ccedil;&otilde;es.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Ele poderia estar inventando uma hist&oacute;ria pra justificar ou tentar passar uma pinta&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Ent&atilde;o, ele fala o tempo todo &ldquo;podem me examinar, eu n&atilde;o sou doente. Eu n&atilde;o sou, eu nunca fui. Eu n&atilde;o tenho doen&ccedil;a nenhuma. Eu n&atilde;o sou louco&rdquo;. Ele afirma o contr&aacute;rio, entendeu? &Eacute; complexo.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> &Eacute;. Tanto que ele n&atilde;o foi assim classificado, n&eacute;?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> N&atilde;o foi porque n&atilde;o &eacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>O que pra mim &eacute; dif&iacute;cil de entender. Porque se a pessoa matou mais de 40 crian&ccedil;as e tem toda uma narrativa em torno disso, pra mim &eacute; dif&iacute;cil entender que ela n&atilde;o tem algum descolamento da realidade que &eacute; perigoso, sabe? Que ela seria inimput&aacute;vel ou alguma coisa assim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>A gente une, ancestralmente, o mal &agrave; doen&ccedil;a mental. Quando, na realidade estat&iacute;stica, rar&iacute;ssimos doentes mentais matam. &Eacute; o contr&aacute;rio. O doente mental n&atilde;o &eacute; violento. Voc&ecirc; tem no Brasil a semi-imputabilidade. Eu acho que tem s&oacute; em tr&ecirc;s ou quatro pa&iacute;ses. Mas o que &eacute; a semi-imputabilidade? Eu entendo o que eu estou fazendo, mas eu n&atilde;o tenho controle sobre essa vontade. Mas quando isso da &aacute;rea psiqui&aacute;trica &eacute; transportado pra lei, pra parte jur&iacute;dica, a gente tem um problema. Porque a semi-imputabilidade d&aacute; o benef&iacute;cio da diminui&ccedil;&atilde;o da culpabilidade. A inimputabilidade d&aacute; total. Voc&ecirc; sabe, n&eacute;? &Eacute; absolvido e tal. A semi diminui a pena. Ent&atilde;o, nenhum promotor quer usar a semi-imputabilidade.&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Deixa eu te perguntar sobre essa quest&atilde;o das duplas, que eu fiquei curioso. Porque de fato n&oacute;s temos aqui v&aacute;rios casos de meninos que estavam com amiguinhos, e a&iacute; o Chagas chama pra sair. Mas tamb&eacute;m tem crian&ccedil;as que estavam sozinhas. S&oacute; que voc&ecirc; est&aacute; dizendo que tem uma rela&ccedil;&atilde;o com o caso anterior ou com o pr&oacute;ximo. Me explica um pouquinho melhor essa din&acirc;mica das duplas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Se eu puder. &Eacute; dif&iacute;cil. Ele parte de um ritual de purifica&ccedil;&atilde;o, de defesa, de prote&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o, pra ele, a primeira parte da escolha &eacute;: essa crian&ccedil;a &eacute; protegida ou n&atilde;o &eacute;? Essa crian&ccedil;a &eacute; o elo fraco? Ele escolhe o elo fraco. Ele aborda duas crian&ccedil;as e, se ele consegue separar aquela parte que tem que morrer, aquele &eacute; o elo fraco, &eacute; o n&atilde;o leal. &Eacute; o que n&atilde;o ficou. &Eacute; o que se convenceu rapidamente a deixar o outro. &Eacute; a vis&atilde;o dele que eu estou dando, t&aacute;? Por algum motivo, algumas vezes ele achou o jogo completo dos meninos que ele precisava. Mas, se eu n&atilde;o me engano, tem tr&ecirc;s ou quatro duplas, eu n&atilde;o lembro de cabe&ccedil;a. Mas s&atilde;o poucas duplas. E o mais significativo &eacute; quando ele deixa essa dupla abra&ccedil;ada em cruz, est&aacute; em cruz a dupla. Ele arruma esses corpos. Tem um significado pra ele de uma dupla formada.&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Como isso acontece de um caso pro outro? Por exemplo, ele mata uma crian&ccedil;a num dia e no m&ecirc;s seguinte ele mata outra. Ele entende que h&aacute; uma rela&ccedil;&atilde;o dessas duas v&iacute;timas?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Pra ele &eacute; parte de uma s&oacute;. Porque as mutila&ccedil;&otilde;es, se voc&ecirc; olhar nos pares, s&atilde;o sim&eacute;tricas. Uma completa a outra.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> &Eacute; isso que voc&ecirc; tem. A m&atilde;o do Edivan e a m&atilde;o do Welson, por exemplo. Voc&ecirc; v&ecirc; que uma voc&ecirc; tem a m&atilde;o direita e outra a m&atilde;o esquerda. Isso &eacute; uma dupla. Esses dois meninos n&atilde;o foram mortos juntos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;:<\/em><\/strong><em> Ilana, eu queria te perguntar um pouco desse lugar mental do Chagas. Porque, como voc&ecirc; falou, ele descreve com riqueza de detalhes, mas me parece que s&atilde;o algumas informa&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas, n&eacute;? O que a crian&ccedil;a estava vestindo, onde ele a encontrou, mas os nomes ele n&atilde;o lembra.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Nomes algumas vezes&hellip; Voc&ecirc; imagina. O cara ficou matando de 1989 at&eacute; 2003, &eacute; muita gente. Mas ele lembra o suficiente pra eu saber&hellip; Porque &eacute; &oacute;bvio que n&atilde;o sou eu que estou dando a crian&ccedil;a pra ele. Ele que est&aacute; me dando a ordem. &ldquo;Depois desse foi aquele&rdquo;. &ldquo;Quem &eacute; aquele?&rdquo;. Porque eu n&atilde;o posso colocar palavra na boca dele, n&eacute;? &ldquo;Quem &eacute;?&rdquo;. &ldquo;Ah, &eacute; um menino de camiseta vermelha que estava na porta do supermercado. Ele tinha ido fazer compras, estava com o saquinho na m&atilde;o, uma sacolinha na m&atilde;o&rdquo;. A&iacute; eu vou l&aacute; nos meus processos e acho que ele se chamava tal.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Esse &eacute; um ponto importante que a gente estava tentando localizar e queria confirmar com voc&ecirc;. &Eacute; poss&iacute;vel que, dado o tempo que passou, ele confundisse um detalhe de uma v&iacute;tima com outra? Por exemplo, falar o local de um com o peda&ccedil;o de roupa do outro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> N&atilde;o &eacute; prov&aacute;vel porque pra ele tem um sentido. Primeiro que dois s&atilde;o sempre uma hist&oacute;ria na cabe&ccedil;a dele. E segundo que as hist&oacute;rias se complementam por algum motivo, n&eacute;? Nem ele sabe. N&atilde;o adianta fazer uma pergunta objetiva. &ldquo;Como voc&ecirc; seleciona as suas v&iacute;timas?&rdquo;. Oi? Ele n&atilde;o sabe do que eu estou falando. Eu que tenho essa pergunta. Eu preciso decupar pra entender. Ent&atilde;o talvez nem ele tenha t&atilde;o claro qual &eacute; o m&eacute;todo dele. &Eacute; intuitivo. Algum lugar da cabe&ccedil;a dele sabe o que ele est&aacute; procurando.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Te ouvindo e lembrando principalmente dos inqu&eacute;ritos da Pol&iacute;cia Federal, eu queria que voc&ecirc; me confirmasse ou complementasse uma impress&atilde;o que eu tenho. Por mais que a gente tivesse agentes da Pol&iacute;cia Federal e o pr&oacute;prio doutor Diniz abertos &agrave; possibilidade de que &ldquo;ok, serial killer n&atilde;o &eacute; um crime comum&rdquo;, na hora de formalizar isso no inqu&eacute;rito n&atilde;o aparecem todas essas nuances. &Eacute; como se tivesse que formalizar uma coisa muito complexa pra um relat&oacute;rio como &eacute; feito naquela &eacute;poca. Ele confessou um crime, est&aacute; aqui como ele confessou e pronto, acabou. A gente n&atilde;o entra nessas nuances que s&atilde;o super importantes pra entender o caso. Como se o formato do inqu&eacute;rito policial n&atilde;o fosse feito pra um serial killer.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Mas n&atilde;o foi feito pra um serial killer n&atilde;o. N&atilde;o foi feito pra isso tudo que voc&ecirc; est&aacute; querendo. N&atilde;o precisa ser serial killer. Voc&ecirc; n&atilde;o precisa de nada disso pro inqu&eacute;rito policial, pro objetivo dele. Cada um tem que ficar no seu objetivo, n&eacute;? Voc&ecirc; n&atilde;o pode psicologizar dentro de um inqu&eacute;rito policial. Ele tem uma finalidade. Ele vai pro Minist&eacute;rio P&uacute;blico, que vai denunciar ou n&atilde;o. &Eacute; uma quest&atilde;o de prova, &eacute; uma quest&atilde;o de interrogat&oacute;rios, de depoimentos, de testemunhas. Ele &eacute; constru&iacute;do de uma certa maneira. Quando chega no Minist&eacute;rio P&uacute;blico pra essa den&uacute;ncia ser relatada, &eacute; a mesma coisa.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;:<\/em><\/strong><em> Ilana, uma coisa que eu acho interessante &eacute; quando voc&ecirc; fala, por exemplo, que a gente olha pro caso de Altamira e &eacute; o mesmo caso do Maranh&atilde;o. Eu entendo 100% no sentido de voc&ecirc;, tendo a percep&ccedil;&atilde;o de que foi o Chagas quem fez tudo isso&hellip; E voc&ecirc; sabe porque voc&ecirc; conversou com ele, porque voc&ecirc; estuda serial killer&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> N&atilde;o, n&atilde;o tenho a percep&ccedil;&atilde;o. Ele que me falou. Ele que me contou, e tudo bate.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;:<\/em><\/strong><em> Exatamente. Mas, do mesmo jeito, o ponto cego pra gente em Altamira &eacute; que a Pol&iacute;cia Civil nunca conseguiu ter essa percep&ccedil;&atilde;o de olhar pro que estava sendo feito no Maranh&atilde;o e falar &ldquo;&eacute; o mesmo caso&rdquo;, sabe?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Mas n&atilde;o d&aacute; mais.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;: <\/em><\/strong><em>Exatamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Mas tem erro que voc&ecirc; n&atilde;o conserta. Eles j&aacute; foram longe demais. Voc&ecirc; tem condenados, pessoas que sumiram, que morreram, fam&iacute;lias destru&iacute;das. E agora, Jos&eacute;? O que voc&ecirc; faz? Eu ouvi isso de uma grande figura jur&iacute;dica, n&atilde;o vou te contar quem. Ela falou &ldquo;j&aacute; faz tanto tempo, &eacute; t&atilde;o grave tudo, que a pessoa vai sair mais r&aacute;pido em progress&atilde;o de regime do que eu vou absolver&rdquo;. &Eacute; disso que se trata. Porque &eacute; um custo. N&atilde;o s&oacute; um custo de dinheiro, que tamb&eacute;m tem, mas tem todo o custo da credibilidade de uma institui&ccedil;&atilde;o. Voc&ecirc; me desculpa, a Pol&iacute;cia Civil do Par&aacute; l&aacute; na investiga&ccedil;&atilde;o se atrapalhou loucamente. A Pol&iacute;cia Federal nem vou comentar. Voc&ecirc; tem grandes erros cometidos, dedu&ccedil;&otilde;es imposs&iacute;veis, provas que n&atilde;o s&atilde;o provas, circunst&acirc;ncias que n&atilde;o aconteceram, depoimentos pressionados. Tem v&aacute;rias quest&otilde;es ali. Quem mais voc&ecirc; conhece, al&eacute;m de n&oacute;s quatro aqui nessa sala, que querem voltar pra isso? Qual &eacute; o interesse pras outras pessoas do mundo? A gente &eacute; gente encrenqueira, gente chata. Que verdade voc&ecirc;s querem? O que voc&ecirc;s est&atilde;o buscando? J&aacute; est&aacute; tudo resolvido. De certa forma est&aacute;, n&eacute;? O doutor An&iacute;sio, que j&aacute; faleceu, me ligou quando foi pra [pris&atilde;o] domiciliar. A gente teve uma conversa t&atilde;o linda, e eu s&oacute; pedi pra ele &ldquo;n&atilde;o conta pra ningu&eacute;m. O senhor fica quieto a&iacute; na sua domiciliar porque ningu&eacute;m est&aacute; a favor. O mundo est&aacute; contra. O que tem a ganhar? Nada de comemorar. Comemore no seio familiar&rdquo;. Eu acho que isso &eacute; importante. A gente quer ser feliz ou ter raz&atilde;o? &Eacute; a velha d&uacute;vida filos&oacute;fica. Muitas vezes na vida &eacute; melhor n&atilde;o ter raz&atilde;o, &eacute; melhor simplesmente ser feliz.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>&Eacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Eu acho que ningu&eacute;m quer enfrentar esses erros cometidos. Olha por quantos anos o Chagas matou. Muitos erros foram cometidos. N&atilde;o era mesmo um conhecimento geral o crime em s&eacute;rie, mas j&aacute; existia. Bastava ir na sess&atilde;o da tarde, n&eacute;, gente? S&oacute; ver televis&atilde;o. D&aacute; pra elaborar um racioc&iacute;nio. Mas &eacute; o que temos. A seita foi uma hist&oacute;ria &oacute;tima pra Altamira, que j&aacute; n&atilde;o emplaca no Maranh&atilde;o. Voc&ecirc; v&ecirc; como mudam os tempos. Mudam as m&iacute;dias, mudam as narrativas. Agora, a pessoa absolvida &eacute; justamente a seita. Quem &eacute; absolvida nesse processo?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> A Valentina.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> &Eacute; a seita. Mas por qu&ecirc;? N&atilde;o tem uma prova contra a mulher?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;: <\/em><\/strong><em>Sim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Ningu&eacute;m conseguiu amarrar essa seita em coisa nenhuma. A&iacute; &eacute; a derrocada geral de todo o trabalho que teve em Altamira.&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:&nbsp;<\/em><\/strong><em>Eu queria perguntar, Ilana&hellip; A pergunta &eacute; super simples e a resposta &eacute; bem complexa. Eu quero que voc&ecirc; me fale tudo o que voc&ecirc; sabe, o que lembra, sobre o momento que o Chagas passa a negar os crimes e por qu&ecirc;.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> &Eacute; um arrependimento. &Agrave;s vezes voc&ecirc; &eacute; bom e causa um mau resultado. No primeiro j&uacute;ri, que foi do caso Jonnathan, a irm&atilde; do Chagas participa. E ela pede pra ver o irm&atilde;o antes do j&uacute;ri. E a&iacute; que muda. Porque quando ela encontra o Chagas&hellip; Foi uma humanidade deixar ela ver o irm&atilde;o, n&eacute;? Ele ia pra um momento decisivo da vida dele. Mas quando ela v&ecirc; o Chagas, conta pra ele todo o massacre que vem sofrendo, de quase linchamento, de agress&otilde;es, e que teve que mudar de casa. Inclusive o depoimento dela foi com o rosto escondido por uma balaclava pra ela n&atilde;o ser reconhecida. E ela pede pra ele n&atilde;o falar. &ldquo;A nossa fam&iacute;lia est&aacute; em Altamira, n&atilde;o fala de Altamira&rdquo;. &Eacute; ali no j&uacute;ri que, pra surpresa de todo mundo, ele fala &ldquo;Altamira? Onde fica mesmo? N&atilde;o sei do que voc&ecirc;s est&atilde;o falando&rdquo;. Ent&atilde;o, sei l&aacute;, como eu vou chamar isso, n&eacute;? N&atilde;o sei. Mas &eacute; dali que ele passa a negar Altamira, no pr&oacute;prio in&iacute;cio do j&uacute;ri. Apesar disso, &eacute; muito rico tudo o que se tem, por isso que eu sou inconformada. &Eacute; muito rico tudo o que se tem, todas as informa&ccedil;&otilde;es das 45 v&iacute;timas desse caso. Em todos os relatos dele n&atilde;o s&oacute; pra Pol&iacute;cia Federal e Pol&iacute;cia Civil, como pra todas as psic&oacute;logas que fizeram os laudos dele. E acho que tamb&eacute;m tem uma quest&atilde;o da m&iacute;dia. A gente teve uma desastrosa entrevista de um canal de televis&atilde;o que mandou o seu decano rep&oacute;rter, e ele acuou o Chagas, que &eacute; o jeito errado de fazer o Chagas falar. Ele tem um piti e fala &ldquo;n&atilde;o vou mais falar&rdquo;. Por isso que eu tenho esse trato com o Benilton, porque Isa&iacute;as 14:21 eu ainda vou perguntar pro Chagas um dia. Ent&atilde;o &eacute; isso, qual &eacute; o objetivo? &Eacute; s&oacute; meu. Do meu entendimento. J&aacute; n&atilde;o vale pra nada. Mas pra mim, pro Benilton, pro Diniz&hellip; Eu garanto pra voc&ecirc; que a hora que eu estiver sentada com ele&hellip; Ele vai falar o que pra mim? &ldquo;N&atilde;o fui eu&rdquo;. S&oacute; rindo, n&eacute;? Claro que n&atilde;o. Ele no m&aacute;ximo vai falar &ldquo;n&atilde;o quero falar disso&rdquo;. Mas jamais vai poder negar porque as conversas s&atilde;o horas, horas, horas, horas, dias, dias, dias, vezes, vezes&hellip; N&atilde;o tem como.&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;:<\/em><\/strong><em> Ilana, eu tenho uma pergunta&hellip; Acho que pode ser importante ter uma resposta um pouco mais t&eacute;cnica pro podcast. A gente ouve muito, quando est&aacute; lendo os processos e ouvindo os familiares em Altamira, que ningu&eacute;m acredita que foi o Chagas. Eles falam que ele n&atilde;o poderia ter agido sozinho, que esses crimes n&atilde;o poderiam ter sido cometidos por uma pessoa s&oacute;. Olhando pros casos que voc&ecirc; analisou, existe a hip&oacute;tese de que os crimes tenham sido cometidos por mais algu&eacute;m al&eacute;m do Chagas, ou eles foram necessariamente cometidos por uma s&oacute; pessoa e por qu&ecirc;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Antes eu vou responder a pergunta que voc&ecirc; n&atilde;o fez. Por que elas n&atilde;o acreditam? Vamos l&aacute;. Existia uma grande campanha na &eacute;poca do julgamento pra condena&ccedil;&atilde;o de todos os r&eacute;us daquele j&uacute;ri. C&eacute;sio, An&iacute;sio, Amailton&hellip; Existiam &ocirc;nibus de gra&ccedil;a, piquete na porta do j&uacute;ri. Foi um movimento importante. Qualquer uma dessas pessoas que ficaram no piquete e jogaram pedra, ainda sem o julgamento, naqueles que foram condenadas&hellip; Se hoje elas acreditarem que foi o Chagas, ter&atilde;o que assumir que cometeram uma maldade terr&iacute;vel. N&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o boas encarna&ccedil;&otilde;es como elas pensam que s&atilde;o. &Eacute; um drama. Eu n&atilde;o estou dizendo que foi consciente. Inclusive eu acho que elas foram muito manipuladas por interesses de v&aacute;rios envolvidos ali. S&atilde;o pessoas que acreditam em autoridades. Quando eu comecei, eu achava que &ldquo;falou, t&aacute; falado&rdquo;. Falou pra pol&iacute;cia, t&aacute; falado, n&eacute;? A pol&iacute;cia acha, o promotor acha, ele tem raz&atilde;o. S&atilde;o pessoas que foram muito exploradas por esse caso tanto pela m&iacute;dia, pelas institui&ccedil;&otilde;es, quanto pelas organiza&ccedil;&otilde;es que tamb&eacute;m n&atilde;o tinham resposta. Ent&atilde;o, eu acho muito dif&iacute;cil voltar atr&aacute;s pra qualquer uma dessas pessoas.&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Segunda resposta. Crimes podem ser cometidos por uma, por duas, por dez pessoas. Estamos falando deste caso. N&atilde;o h&aacute; nenhuma d&uacute;vida pericial, judicial, processual, de que foi o Chagas. Ent&atilde;o n&atilde;o tem que falar &ldquo;pode ser&rdquo;. Pode tudo. Eu j&aacute; vi de tudo, gente. Neste caso, &eacute; claro, comprovado, fechado, lacrado, quem &eacute; o autor, quem estava no local do crime e qual padr&atilde;o seguiu. Casos conectados pericialmente. N&atilde;o tem nenhuma d&uacute;vida sobre a autoria do Chagas. Ent&atilde;o, &lsquo;in dubio pro reo&rsquo; ou &lsquo;pro-r&eacute;us&rsquo;. In dubio &lsquo;pro-seita&rsquo;. &Eacute; deles que a gente n&atilde;o sabe. Ent&atilde;o, como &eacute; que a gente duvida que n&atilde;o tem prova? E n&atilde;o acredita no que est&aacute; comprovado cientificamente? A quest&atilde;o aqui n&atilde;o &eacute; o que eu acredito ou o que voc&ecirc; acredita. Eu sugiro, fortemente, pra quem vive esse drama, que se inteire dos laudos do processo. Simples assim. Pegue, vai ler. N&atilde;o precisa contratar um advogado. Estuda, vai l&aacute;, ouve o podcast. Olha a&iacute; que bacana, vai estar um monte de gente falando, todo mundo explicando. E esteja aberto pra assumir com responsabilidade, por&eacute;m sem culpa&hellip; Essas pessoas n&atilde;o t&ecirc;m culpa de terem acusado homens e mulheres errados, mas elas t&ecirc;m uma responsabilidade pela press&atilde;o que aconteceu. Mas elas est&atilde;o desculpadas, elas n&atilde;o sabiam. Foram manipuladas, foram exploradas. Mas h&aacute; que se ater mais &agrave; ci&ecirc;ncia, &agrave;s comprova&ccedil;&otilde;es do que ao discursinho, n&eacute;? &ldquo;Ah, isso n&atilde;o se faz&hellip; Um s&oacute;&rdquo;. Gente, vamos l&aacute;, fala s&eacute;rio. Voc&ecirc;s conhecem crian&ccedil;as de 12 anos? 10, 12 anos? Da &aacute;rea perif&eacute;rica do Maranh&atilde;o? Eu pergunto isso porque, quando eu li o caso que o Diniz me enviou, eu fiz uma imagem dessas crian&ccedil;as com as fotos e tal. A&iacute; eu fui viajar pra Bahia, sei l&aacute; por que motivo, e vieram uns menininhos muito pobres na Igreja do Bonfim falar comigo. Eram meninos que pra mim tinham oito anos de idade, nove anos de idade. E a&iacute; eu perguntei &ldquo;quantos anos voc&ecirc;s t&ecirc;m?&rdquo;. &ldquo;11, 12, 13&rdquo;. Oi? A&iacute; eu me dei conta do que &eacute; o tamanho de uma crian&ccedil;a paup&eacute;rrima, carente, na &aacute;rea perif&eacute;rica de S&atilde;o Lu&iacute;s do Maranh&atilde;o ou de Altamira. S&atilde;o crian&ccedil;as pequenas. Quantos voc&ecirc;s acham que precisa pra matar essa crian&ccedil;a? Ent&atilde;o, n&atilde;o tem l&oacute;gica esse argumento, n&eacute;? Se &eacute; uma pessoa ou se pode ser mais. Pode tudo. Este caso foi muito bem trabalhado por essa for&ccedil;a-tarefa, que foi absurdamente profunda na sua investiga&ccedil;&atilde;o. Voc&ecirc;s t&ecirc;m o material. &Eacute; um inqu&eacute;rito dos mais perfeitos que eu j&aacute; vi, completos, com tudo. Voc&ecirc; tem perfil geogr&aacute;fico, perfil psicol&oacute;gico, perfil das v&iacute;timas, tem vitimologia. Voc&ecirc; tem tudo ali da melhor literatura acad&ecirc;mica sobre o assunto. A&iacute; se realmente voc&ecirc; &eacute; um negacionista nesse sentido: &ldquo;ah, n&atilde;o quero&hellip;&rdquo;, bom, tudo bem. Eu te respeito. Voc&ecirc; n&atilde;o quer acreditar. Beleza. Mas n&atilde;o vai ser por falta de prova ou comprova&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, jur&iacute;dica ou processual. Nenhum processo do Chagas foi anulado por alguma falha que tivesse tido. N&atilde;o temos nada disso. Temos um caso completamente esclarecido. S&oacute; n&atilde;o acredita quem n&atilde;o quer mesmo.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>[&hellip;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Em rela&ccedil;&atilde;o aos trof&eacute;us, eu queria perguntar sobre a quest&atilde;o da lista de v&iacute;timas que o Chagas dizia que tinha e que perdeu.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Tem pior. &Eacute; bem pior. O Chagas contou pra mim que tirava um dente de cada crian&ccedil;a. Cada dente ele embrulhava no nome do menino, e escondia no telhado da casa dele. S&oacute; que isso ningu&eacute;m procurou, e a casa foi demolida, infelizmente, na raiva de ser o Chagas. Isso foi embora com o entulho. N&atilde;o pude confirmar. Mas por que mesmo ele mentiria? Uma fantasia p&oacute;s-pris&atilde;o? Mas, enfim, fica o depoimento de que ele levava um dente de cada crian&ccedil;a e o embrulhava num papel com o nome. Ele tinha sim uma lista. Era importante pra ele o nome, e o trof&eacute;u era esse dente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em>&nbsp;Eu lembro de uma fala do Diniz na Comiss&atilde;o de Direitos Humanos de 2004, dizendo que naqueles poucos dias em que o Chagas se torna um suspeito, at&eacute; ser preso, ele pode ter se livrado de alguns trof&eacute;us que teria em casa. Faz sentido isso pra voc&ecirc;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>De que tipo de trof&eacute;u?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Pois &eacute;&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;: <\/em><\/strong><em>Falam que a hip&oacute;tese &eacute; que ele teria um papel&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Acabei de explicar. Acabei de explicar. Ele tinha mesmo esse papel, que ele n&atilde;o tem mais. Isso ele pode ter eliminado. O papel. O que ele n&atilde;o eliminou, Tain&aacute;, &eacute; um dente de cada crian&ccedil;a que guardava embrulhado num papel com o nome dela, escondido no telhado de palha. Isso ningu&eacute;m achou, ningu&eacute;m procurou. Quando ele contou isso, j&aacute; tinham demolido a casa dele e retirado o entulho. Mas a lista ele tinha. A &lsquo;lista santa&rsquo;, a gente falava. Ele tinha uma lista santa. Essa lista, esse papel onde ele marcava esses nomes, tinha uma for&ccedil;a pra ele. Ele achava que esse papel, por ter o nome dessas crian&ccedil;as &lsquo;santas&rsquo;, ganhava uma for&ccedil;a impressionante. Mas ele nunca me disse qual era o objetivo ou o que ia fazer com a lista santa, por exemplo. For&ccedil;a pra&hellip;? Poder pra&hellip;? A gente n&atilde;o sabe. Veja, tem perguntas que eu n&atilde;o fiz, mas que hoje eu faria. Mas eu estou pensando nisso h&aacute; 20 anos, hoje com um monte de gente querendo discutir isso. Porque ningu&eacute;m queria falar disso comigo. Era um crime l&aacute; do Nordeste, repercuss&atilde;o zero na imprensa. Mal foi noticiado que houve o j&uacute;ri do Chagas depois. Talvez agora n&atilde;o fosse mais necess&aacute;rio perguntar nada sobre o que foi, mas sim sobre o que significa, n&eacute;? Na psican&aacute;lise tem um termo que eu gosto, que &eacute; o &lsquo;split&rsquo;. N&atilde;o &eacute; que eu estou falando que o Chagas tem split, e n&atilde;o &eacute; que ele tenha duas personalidades tamb&eacute;m, que eu n&atilde;o quero ser mal interpretada. Mas a parte dele da vida dos crimes, na cabe&ccedil;a dele, &eacute; muito compartimentalizada em outro lugar que n&atilde;o &eacute; a vida cotidiana dele. Ele usa o termo &ldquo;vou lembrando&rdquo;, mas na verdade est&aacute; incorporando dentro dele pr&oacute;prio tudo o que aconteceu. No come&ccedil;o, ele lidava de forma apartada. &ldquo;Esse n&atilde;o sou eu. Vou negar e vou negar&rdquo;. Quando ele foi preso, achava que ia escapar. &Eacute; uma caracter&iacute;stica bem comum nos matadores em s&eacute;rie, nos serial killers. Essa quest&atilde;o de &ldquo;ningu&eacute;m sabe o quanto eu sou esperto&rdquo;. Tanto que ele fala pra mim &ldquo;um dia a senhora vai entender, vai ter condi&ccedil;&atilde;o de entender&rdquo;. Acho que ele tinha confian&ccedil;a. Como era uma lista santa, como ele estava a servi&ccedil;o do que acredita ser o bem maior do mundo, ele estaria ileso de qualquer consequ&ecirc;ncia.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Quando voc&ecirc; faz aquelas longas entrevistas com o Chagas, que voc&ecirc; grava com ele, ele j&aacute; tinha ido pra Altamira ou ainda n&atilde;o?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>N&atilde;o. N&atilde;o tinha chegado ainda a essa parte do processo. O Diniz tinha que fechar a parte do Maranh&atilde;o pra ent&atilde;o&hellip; A&iacute; sim entrou a Pol&iacute;cia Federal com os seus psic&oacute;logos. Foi todo mundo pra Altamira. O erro m&eacute;dio do Chagas ao definir um local de crime &eacute; de 50 cent&iacute;metros. Pega uma r&eacute;gua. Veja a&iacute; o que significam 50 cent&iacute;metros. &Eacute; numa mata. Eu entrei com ele na mata. Estava a Pol&iacute;cia Civil, a per&iacute;cia. Voc&ecirc;s n&atilde;o t&ecirc;m no&ccedil;&atilde;o do que &eacute; andar com o Chagas dentro de uma mata. O Chagas &eacute; mateiro. Ele foi algemado. Existia at&eacute; um risco porque em uma pernada ele deixava todo mundo pra tr&aacute;s.&nbsp;E sabe quantas mangueiras tinha no lugar que eu fui? Como ele sabe que &eacute; aquela? Ele sabe a exata localiza&ccedil;&atilde;o. &ldquo;&Eacute; aqui nessa&rdquo;. E ele mostra. O perito vai l&aacute; com a sua trena, GPS, pega o laudo de local feito &agrave; &eacute;poca, e v&ecirc; uma diferen&ccedil;a de 50 cent&iacute;metros, meio metro. Ent&atilde;o &eacute; muito impressionante a precis&atilde;o. E claro que ele vai voltar pra Altamira muitos anos depois, n&eacute;? A cidade j&aacute; cresceu. Ent&atilde;o, &eacute; evidente que qualquer equ&iacute;voco ser&aacute; compreendido, ou ser&aacute; usado politicamente e n&atilde;o compreendido. &Eacute; evidente que o erro pode acontecer? &Eacute;. Mas pela m&eacute;dia&hellip; Gente, o cara leva as pessoas a 42 locais de crime.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Em Altamira, tem uma situa&ccedil;&atilde;o das buscas e apreens&otilde;es em que a gente l&ecirc; o seguinte&hellip; Eu n&atilde;o sei se voc&ecirc; tem alguma informa&ccedil;&atilde;o sobre isso, por isso estou perguntando. A gente l&ecirc; na imprensa na &eacute;poca que quando o Chagas vai pra alguns locais em Altamira, s&atilde;o encontrados fragmentos de ossos, e esses ossos iriam pra uma per&iacute;cia, pra an&aacute;lise. S&oacute; que eu n&atilde;o encontro nos inqu&eacute;ritos da PF o laudo de DNA, mas vejo uma decis&atilde;o de um desembargador na revis&atilde;o criminal do C&eacute;sio, em que ele est&aacute; dizendo &ldquo;saiu na imprensa que eram fragmentos de ossos de animais&rdquo;. S&oacute; que eu n&atilde;o vejo esse laudo, eu n&atilde;o encontro essas mat&eacute;rias. Eu n&atilde;o duvido que elas existam, mas eu n&atilde;o sei. Eu entendo que Altamira tamb&eacute;m mudou muito. Mas eu j&aacute; ouvi gente de dentro do caso dizendo &ldquo;quem fez esses laudos, essas an&aacute;lises, foi a PF no Par&aacute;, e a PF no Par&aacute; n&atilde;o tinha o menor interesse em fazer a confirma&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Concordo. &Eacute; uma boa suposi&ccedil;&atilde;o. &Eacute; o que eu posso te dizer.&nbsp;&Eacute; uma boa suposi&ccedil;&atilde;o. Ia servir pra quem? E como o desembargador est&aacute; dizendo &ldquo;eu voto contra&rdquo;&hellip; Eu estava na revis&atilde;o criminal, voc&ecirc; sabe, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Aham.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Eu conversei com o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/roberto-lauria\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado que solicitou em 2012 a revis&atilde;o criminal do processo contra C&eacute;sio\" class=\"encyclopedia\">Roberto Lauria<\/a>. Eu que trouxe o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/roberto-lauria\/\" target=\"_self\" title=\"Advogado que solicitou em 2012 a revis&atilde;o criminal do processo contra C&eacute;sio\" class=\"encyclopedia\">Roberto Lauria<\/a> pro caso porque era necess&aacute;ria uma revis&atilde;o criminal. Poxa, nem que seja pra pedir outro j&uacute;ri, que &eacute; o m&iacute;nimo que eles merecem, porque s&atilde;o pessoas condenadas antes do assassino confessar os mesmos crimes imediatamente depois. Que n&atilde;o se considerasse os acusados de Altamira sumariamente inocentes acreditando s&oacute; na confiss&atilde;o, mas que se desse pra eles a oportunidade de um novo j&uacute;ri. Seria mais do que justo. Os jurados jamais ficaram sabendo que existia outra hip&oacute;tese e n&atilde;o s&oacute; a da Pol&iacute;cia Civil e Federal nesse caso. Ent&atilde;o, agora o desembargador fala de uma not&iacute;cia que voc&ecirc; n&atilde;o acha, ningu&eacute;m acha laudo, ningu&eacute;m sabe se tem. Eu n&atilde;o vi essa coleta, eu n&atilde;o estava em Altamira. Eu acho suspeito.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;:<\/em><\/strong><em> Ilana, voc&ecirc; pode comentar um pouco como foi essa rela&ccedil;&atilde;o, enquanto voc&ecirc; estava l&aacute;, entre a Pol&iacute;cia Civil do Maranh&atilde;o, a Pol&iacute;cia Civil do Par&aacute; e a Pol&iacute;cia Federal, no caso do Chagas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Eu posso falar sobre a Civil e a Federal porque a for&ccedil;a-tarefa do Maranh&atilde;o era composta de Civil e Federal. No Maranh&atilde;o. N&atilde;o estive na investiga&ccedil;&atilde;o do Par&aacute; depois do caso Chagas, da confiss&atilde;o do Chagas. N&atilde;o os acompanhei. Tudo o que eu sei s&atilde;o conversas internas, ent&atilde;o n&atilde;o gostaria de expor ningu&eacute;m porque eu n&atilde;o estava l&aacute;. N&atilde;o posso separar o que &eacute; objetivo do que &eacute; interpreta&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Voc&ecirc; chegou a falar com o doutor Neyvaldo, o delegado?&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> N&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> N&atilde;o? Faleceu esses dias. N&atilde;o sei se voc&ecirc; ficou sabendo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Fiquei sabendo sim. Conhe&ccedil;o v&aacute;rios deles. Eu trabalhei no caso do Monstro da Ceasa, que tamb&eacute;m &eacute; bem importante, onde se segue esse protocolo. Quando o delegado <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/paulo-tamer\/\" target=\"_self\" title=\"Coordenador geral da Pol&iacute;cia Civil do Par&aacute; em 1993\" class=\"encyclopedia\">Paulo Tamer<\/a> entende que est&aacute; lidando com um crime em s&eacute;rie, na terceira v&iacute;tima eles me chamam, e se monta uma for&ccedil;a-tarefa com uma equipe. Claro, Ivan, quando eu fui trabalhar nesse caso, ele estava solto, n&atilde;o estava identificado, esse assassino. Eu fiquei um ano passando pelo menos uma semana por m&ecirc;s em Bel&eacute;m por conta desse caso. E realmente conheci muitos dos delegados que trabalharam nos casos de Altamira. Todos sabem que eu trabalhei&hellip; Assim, n&atilde;o &eacute; um assunto confort&aacute;vel, vamos chamar dessa maneira, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Sim. Eu entrevistei o doutor <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/paulo-tamer\/\" target=\"_self\" title=\"Coordenador geral da Pol&iacute;cia Civil do Par&aacute; em 1993\" class=\"encyclopedia\">Paulo Tamer<\/a>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Meu amig&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Foi muito incr&iacute;vel a entrevista com ele. Realmente um cara muito&hellip;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>O que ele te falou?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Ele falou umas coisas curiosas, n&eacute;? Primeiro, ele disse &ldquo;foi um serial killer, foi o Chagas. Infelizmente, n&oacute;s cometemos muitos erros na &eacute;poca, principalmente a Federal&rdquo;. S&oacute; que a coisa que eu achei mais curiosa &eacute; quando chega no <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a>. Ele falou &ldquo;o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a> &eacute; um grande amigo meu&rdquo;. Eu disse &ldquo;mas, doutor, voc&ecirc; nunca conversou com o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a> sobre isso?&rdquo;. Ele falou &ldquo;n&atilde;o, nunca conversei&rdquo;. Sabe? N&atilde;o vai conversar, n&atilde;o vai conversar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Por isso que eu te falo que n&atilde;o &eacute; um assunto&hellip; O <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/eder-mauro\/\" target=\"_self\" title=\"Delegado civil designado para o caso dos meninos em 1993\" class=\"encyclopedia\">&Eacute;der Mauro<\/a> hoje &eacute; um pol&iacute;tico, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>&Eacute;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Foi eleito e tal. N&oacute;s vamos levantar essa hist&oacute;ria pra&hellip; Ent&atilde;o, sabe? E acho que tamb&eacute;m o Paulo n&atilde;o &eacute; a pessoa certa. Eu acho maravilhoso que ele fala pra voc&ecirc; &ldquo;cometemos muitos erros&rdquo;. Ele sabe, eu sei, voc&ecirc; sabe, a Tain&aacute; sabe. Basta ler, n&eacute;? A gente sabe. Agora, que bom que quem pega o caso do Monstro da Ceasa &eacute; o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/paulo-tamer\/\" target=\"_self\" title=\"Coordenador geral da Pol&iacute;cia Civil do Par&aacute; em 1993\" class=\"encyclopedia\">Paulo Tamer<\/a>, que assume e sabe onde est&atilde;o os erros da sua investiga&ccedil;&atilde;o anterior e, muito cedo na s&eacute;rie de crimes, interrompe a s&eacute;rie montando uma equipe que possa sim, com ci&ecirc;ncia, fazer uma investiga&ccedil;&atilde;o mais competente.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;:&nbsp;<\/em><\/strong><em>Ilana, tenho uma pergunta aqui mais b&aacute;sica, conceitual, mas acho que seria bom a gente ter a sua resposta. Quando a gente olha pros crimes de Altamira, na linha do tempo do Chagas, eles s&atilde;o os primeiros, n&eacute;? Ent&atilde;o, se voc&ecirc; pudesse explicar um pouco essa rela&ccedil;&atilde;o entre o ritual de um serial killer e como ao longo do tempo isso vai se complexificando&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> A gente n&atilde;o sabe se &eacute; em todo mundo que acontece isso. Nele aconteceu, n&eacute;? Porque ele tem uma tend&ecirc;ncia ao Transtorno Obsessivo Compulsivo. &Eacute; da personalidade dele, &eacute; da caracter&iacute;stica dele.&nbsp; Ele n&atilde;o est&aacute; diagnosticado assim, t&aacute;? Porque esse nunca foi o foco de nenhum exame do Chagas. O ritual do Chagas come&ccedil;a com tr&ecirc;s sobreviventes, em que ele nem tenta estrangular, nem nada. Isso n&atilde;o faz parte do relato deles. E vai escalando, como &eacute; comum a todos. A escalada da viol&ecirc;ncia &eacute; comum. Voc&ecirc; vai encontrar isso em todos os primeiros crimes. A gente procura investigar muitos os primeiros porque esse indiv&iacute;duo est&aacute; mais despreparado. Est&aacute; mais na sua natureza. Ele mostra mais, n&eacute;? E &eacute; um aprendizado tamb&eacute;m. Quanto mais crimes ele comete, mais ele aprende como fazer isso sem levantar suspeitas, sem deixar rastro. A gente sente a escalada de viol&ecirc;ncia que ele teve, a habilidade dele como vai melhorando, at&eacute; nas pr&oacute;prias mutila&ccedil;&otilde;es. Mas em nenhum momento elas s&atilde;o cir&uacute;rgicas, como muito disse a imprensa de Altamira. N&atilde;o tem nada a ver. &Eacute; s&oacute; olhar a foto, gente. N&atilde;o requer pr&aacute;tica nem habilidade. N&atilde;o precisa de um perito pra dizer que aquilo n&atilde;o &eacute; cir&uacute;rgico. Acho gra&ccedil;a quando falam de transplante de &oacute;rg&atilde;o, eu acho incr&iacute;vel. Quem &eacute; quem est&aacute; transplantando no mundo p&ecirc;nis de crian&ccedil;as? N&atilde;o d&aacute; nem pra entender uma tese dessa.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Voc&ecirc; falou dos primeiros casos, como ele vai se aperfei&ccedil;oando. Mas &eacute; uma d&uacute;vida que eu sempre tenho sobre o Chagas, e acho que voc&ecirc; pode dar a tua interpreta&ccedil;&atilde;o. Ele tinha consci&ecirc;ncia que estavam procurando pelo emasculador de crian&ccedil;as ou emasculadores de crian&ccedil;as?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>N&atilde;o estavam procurando. O Chagas, como tantos serial killers, &eacute; um &oacute;timo cidad&atilde;o. N&atilde;o h&aacute; nenhuma suspeita, nem disso e nem de nada. Ele n&atilde;o tem nenhum antecedente criminal que justificasse&hellip; Como o Rot&iacute;lio, n&eacute;? A pol&iacute;cia procurava algu&eacute;m com antecedentes, nem procurava algu&eacute;m como o Chagas. O Chagas passa t&atilde;o despercebido em toda essa investiga&ccedil;&atilde;o que ele faz o papel do pai do Danielzinho na reconstitui&ccedil;&atilde;o, na reprodu&ccedil;&atilde;o do crime. Porque ele &eacute; da invas&atilde;o. Na sociedade ali das invas&otilde;es que ele tamb&eacute;m ocupa, ele vai muito bem, obrigado. Isso n&atilde;o est&aacute; em pauta pra ele.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> Aham. Esse &eacute; o meu ponto. Ele n&atilde;o tinha medo de ser pego pela pol&iacute;cia. Ele tinha plena certeza: &ldquo;nunca v&atilde;o me pegar&rdquo;. Ele nem tinha no&ccedil;&atilde;o que tinha cometido um crime.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>N&atilde;o &eacute; que ele n&atilde;o tinha medo e nem tinha certeza. N&atilde;o. Quando ele sa&iacute;a do local do crime, segundo a palavra dele, ele n&atilde;o pensava mais nisso. Ele s&oacute; pensava no pr&oacute;ximo, quando cometia o pr&oacute;ximo. Ele n&atilde;o viveu esse universo: &ldquo;nossa, cometi um crime e agora? E se desconfiarem de mim?&rdquo;. Ele simplesmente negava qualquer envolvimento at&eacute; pra ele mesmo. &ldquo;Isso n&atilde;o tem nada a ver comigo&rdquo;. E cada vez isso foi se solidificando, n&eacute;? Porque foi se tornando realidade que ele era um cidad&atilde;o acima de qualquer suspeita e que a investiga&ccedil;&atilde;o n&atilde;o estava indo em nada pra cima dele, em nada. Ent&atilde;o por que ele ia estar nervoso? N&atilde;o deu tempo. Ele ficou nervoso no Jonnathan. A&iacute; ele ficou nervoso.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;: <\/em><\/strong><em>Ilana, em 2005, quando o Chagas vai a j&uacute;ri, ele come&ccedil;a a negar as confiss&otilde;es, falar que foi torturado e que por isso confessou. Eu queria saber se voc&ecirc; poderia falar um pouco da sua experi&ecirc;ncia, de como foi esse processo de conseguir as confiss&otilde;es dele. Se isso que ele fala, de que foi torturado, tem algum amparo ou n&atilde;o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Tem zero amparo. Ele almo&ccedil;ou comigo sem algema. Eu estava l&aacute;. Teria visto um hematoma, uma exclus&atilde;o. Ao contr&aacute;rio, eu ficava admirada com a confian&ccedil;a depositada no bom comportamento dele. O Chagas almo&ccedil;ava na cozinha da delegacia. N&oacute;s est&aacute;vamos no processo de ouvi-lo contar o que aconteceu, um processo &ldquo;camarada&rdquo;, de entend&ecirc;-lo, de n&atilde;o julg&aacute;-lo antes do julgamento. Ent&atilde;o eu tamb&eacute;m sou testemunha de que n&atilde;o houve nenhuma viol&ecirc;ncia. At&eacute; porque um delegado que vai bater precisa ter todo esse trabalho de me chamar, jura? Delegado que bate n&atilde;o me chama, gente.&nbsp;E ele andava sem algema, era trazido e levado sem algema. Defina tortura, n&eacute;? N&atilde;o sei. Claro que ficou muito &uacute;til pra ele dizer isso. Mas n&atilde;o tem nem&hellip; Inclusive, todo o processo do Chagas, todo o inqu&eacute;rito, foi acompanhado pela promotoria. Ent&atilde;o teria que ter um compl&ocirc;, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>E as confiss&otilde;es s&atilde;o muito consistentes tamb&eacute;m. E s&atilde;o no per&iacute;odo de quase um ano. Tem momentos em que ele confessa em ju&iacute;zo, pra v&aacute;rios rep&oacute;rteres tamb&eacute;m. E n&atilde;o &eacute; que ele vai adicionando detalhes. Voc&ecirc; v&ecirc; que ele consegue repetir a hist&oacute;ria. &Eacute; at&eacute; uma coisa curiosa. Quando ele come&ccedil;a a entrar nessa hist&oacute;ria de que foi torturado, parece que n&atilde;o &eacute; um cara muito criativo, n&eacute;?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Ele n&atilde;o &eacute; mesmo.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Ele n&atilde;o sabe mentir, n&eacute;? Ele n&atilde;o tem criatividade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Ele sabe.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> N&atilde;o, mas ele n&atilde;o consegue desenvolver a mentira.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Mas &eacute; porque ele n&atilde;o tem elementos, n&eacute;? &Eacute; constrangedor. Acaba sendo constrangedor porque ele sabe o que aconteceu, e todo mundo que estava l&aacute; sabe tamb&eacute;m.&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan:<\/em><\/strong><em> &Eacute;. A limita&ccedil;&atilde;o de mentira do Chagas, pra mim, chega at&eacute; um ponto que eu vi&hellip; A gente tem aqui a grava&ccedil;&atilde;o do &aacute;udio de um j&uacute;ri de 2009, que a v&iacute;tima era o <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/antonio-reis-silva\/\" target=\"_self\" title=\"Menino de 12 anos que foi morto e emasculado no Maranh&atilde;o em 1991\" class=\"encyclopedia\">Ant&ocirc;nio Reis Silva<\/a>, menino emasculado em 91. E ele chega ao ponto simplesmente de dizer &ldquo;n&atilde;o quero falar sobre isso. N&atilde;o quero falar mais sobre isso. Est&atilde;o armando contra mim&rdquo;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Direito dele. N&atilde;o acho que ele tivesse esperan&ccedil;a de ser de alguma forma absolvido nesse j&uacute;ri. E &eacute; uma coisa que a gente &agrave;s vezes n&atilde;o gosta, mas ele tem o direito de n&atilde;o falar nada que o comprometa. &Eacute; por isso que a gente precisa de tudo o que ele j&aacute; falou. Essa &eacute; a import&acirc;ncia de um bom trabalho de inqu&eacute;rito e de judici&aacute;rio. Os anos v&atilde;o passando, ele est&aacute; l&aacute; na cadeia e conversa com outros presos mais experientes, com outra ficha penal, que d&atilde;o conselhos, que esclarecem sobre os direitos que ele tem pra al&eacute;m do advogado. Ent&atilde;o eu acho bem normal que ele n&atilde;o queria falar. Mas do que eu gosto? Quando eu vou ao j&uacute;ri, eu n&atilde;o preciso mesmo que ele fale. O trabalho est&aacute; feito.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Tain&aacute;: <\/em><\/strong><em>Ilana, eu queria dar um salto aqui para 2013, quando acontece a Comiss&atilde;o de Direitos Humanos na qual voc&ecirc;s tentam a soltura do C&eacute;sio. Eu queria saber o que voc&ecirc; lembra e gostaria de contar sobre isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Eu queria perguntar pra ministra Damares se ela j&aacute; conseguiu o que prometeu pra Lucimar [vi&uacute;va de An&iacute;sio]. Acho um bom momento. Porque ela prometeu pegar essa bandeira. N&oacute;s viajamos at&eacute; l&aacute;, expusemos o caso. O <a href=\"http:\/\/www.projetohumanos.com.br\/wiki\/altamira\/personagens\/marco-feliciano\/\" target=\"_self\" title=\"Presidente da Comiss&atilde;o de Direitos Humanos da C&acirc;mara em 2013\" class=\"encyclopedia\">Marco Feliciano<\/a> estava l&aacute;, amigo dela, n&eacute;? Todo mundo prometeu num momento pol&iacute;tico mundos e fundos, amparo pra Lucimar. E s&oacute; eu converso com a Lucimar, desse grupo que estava no Congresso. N&atilde;o prosseguiu nada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>Eu vi uma an&aacute;lise uma vez e quero saber se essa &eacute; a sua opini&atilde;o tamb&eacute;m, de que a bancada evang&eacute;lica, assim como no caso da CPI da Pedofilia em 2009, compra essas bandeiras muito por capital pol&iacute;tico. Mas na hora do vamos ver, de agir, n&atilde;o faz nada de efetivo pra ajudar as fam&iacute;lias. Acha que foi esse o caso aqui tamb&eacute;m? Se usaram muito pra se promover e n&atilde;o ajudaram a fam&iacute;lia do C&eacute;sio, do An&iacute;sio&hellip;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana:<\/em><\/strong><em> Ah, mas isso em tudo, n&eacute;? N&oacute;s estamos falando do mundo pol&iacute;tico brasileiro. N&atilde;o fica reduzido s&oacute; a essas pessoas. &Eacute; o modus operandi comum pol&iacute;tico brasileiro. Casos que s&atilde;o escada pra visibilidade, em que se promete e n&atilde;o se cumpre, gente de todos os partidos&hellip; &Eacute; dif&iacute;cil encontrar pessoas de fato boas. Assim, boa inten&ccedil;&atilde;o a mim n&atilde;o serve nada. Eu morro de medo de encarna&ccedil;&atilde;o do bem, morro de medo. As pessoas que se acham uma encarna&ccedil;&atilde;o do bem me assustam muito. Eu n&atilde;o vou partir pra uma posi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica agora porque de nada serve a essas fam&iacute;lias. O que serve &eacute; esse podcast. Isto serve.&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ivan: <\/em><\/strong><em>&Eacute;. Mas como foi essa prepara&ccedil;&atilde;o de 2013? Voc&ecirc; recebeu um convite? Porque eu sei que a bancada evang&eacute;lica j&aacute; estava do lado do C&eacute;sio por causa da igreja dele desde o final da d&eacute;cada de 90, j&aacute; estava tentando acompanhar. Tinha um deputado federal que estava do lado dele. Mas 2013 &eacute; uma caminhada at&eacute; l&aacute;. Qual era a expectativa do resultado? Num mundo ideal, no que voc&ecirc;s imaginavam que essa Comiss&atilde;o poderia resultar?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ilana: <\/em><\/strong><em>Reabertura do caso, por favor? Juntar o caso de Altamira com o de S&atilde;o Lu&iacute;s, com os do Maranh&atilde;o, quem sabe? No entendimento das pessoas de que aqui existe um problema, a gente precisa se reunir e sentar pra tentar solucionar os erros que foram cometidos. N&atilde;o vamos buscar os culpados dos erros, mas vamos trabalhar pra san&aacute;-los. Vamos atender essas pessoas que est&atilde;o em situa&ccedil;&atilde;o prec&aacute;ria. Acho que eu j&aacute; te contei, Ivan, a hist&oacute;ria da situa&ccedil;&atilde;o do An&iacute;sio, perto dessa revis&atilde;o criminal. Eu fui visitar o An&iacute;sio e o C&eacute;sio. O An&iacute;sio me chamava de &ldquo;anjo&rdquo;. Ele dizia que eu era um anjo, que quando eu entrava, entrava a minha luz comigo. E a&iacute; ele me pede um favor, se eu poderia lhe arrumar uma consulta m&eacute;dica, porque ele est&aacute; com um zumbido no ouvido que n&atilde;o passa. Ele chegou a achar que era at&eacute; uma coisa psiqui&aacute;trica. E ele est&aacute; desesperado porque n&atilde;o consegue dormir, n&atilde;o consegue descansar porque o zumbido n&atilde;o para. E eu, ent&atilde;o, saio de l&aacute; e falo com o Lauria. O Lauria entra com um caminho processual pra conseguir esse atendimento, e ele &eacute; atendido e diagnosticado. Sabe o que ele tinha, Tain&aacute;? Como ele dormia no ch&atilde;o batido de terra porque n&atilde;o havia cama, um senhor de mais de 70 anos&hellip; Ele tinha formigas andando nos canais auditivos. Esse era o zumbido que ele ouvia. &Eacute; disso que n&oacute;s estamos falando. &Eacute; nesse n&iacute;vel, porque assim, a pena ainda &eacute; a sensa&ccedil;&atilde;o da liberdade e n&atilde;o a tortura f&iacute;sica. N&atilde;o &eacute; isso que a gente combinou na nossa Constitui&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o, &eacute; um caso que me toca muito. O que eu esperava era que pelo menos eles n&atilde;o estivessem submetidos a todo o resto que n&atilde;o &agrave; pris&atilde;o deles, n&eacute;? Um m&iacute;nimo de dignidade humana, e que essas pessoas pudessem ouvi-los pra decidir&hellip; Tivessem uma oportunidade de se defender diante de uma sociedade que agora j&aacute; sabia do verdadeiro autor desses crimes. Essa era a minha expectativa. 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